terça-feira, 31 de julho de 2012

Movimento Browniano

Shame Feminino

Para entender as atitudes de Charlotte (Sandra Hüller), a protagonista de Movimento Browniano, talvez seja interessante saber do que se trata esta teoria física que dá nome ao longa-metragem. Trata-se de um movimento aleatório de partículas que são empurradas ou puxadas, quando no ar ou na água, através da agitação das moléculas destes fluidos. É possível observar este “Movimento Browniano” quando a luz incide em lugares fechados e podemos conferir algumas partículas flutuando no ar, ou o pólen que passeia dentro de um copo d’água sem que o movamos. Com isso em mente, podemos entender o que Charlotte sofre ao ser impelida pelo seu vício em sexo, uma doença que a faz se jogar nos braços de vários homens diferentes sem qualquer real motivo.

Em um primeiro momento, o enredo de Movimento Browniano parece não diferir muito de produções eróticas. Médica casada se envolve com pacientes da clínica onde trabalha, chegando ao cúmulo de alugar um apartamento especialmente para suas escapadas. O que diferencia Movimento Browniano de qualquer produção do gênero é a execução. Seria um filme sensual caso a mulher em questão não sofresse por sua doença, ou se a diretora e roteirista do filme, Nanouk Leopold, não tirasse completamente qualquer erotismo nas cenas que envolvem as relações sexuais de Charlotte. Ou seja, ainda que tenha sexo como mola propulsora da história, o longa-metragem de Nanouk Leopold está longe de ser um programa sensual.

A trama de Movimento Browniano é separada em três partes: o vício, o tratamento e as conseqüências. No primeiro seguimento, conhecemos a doutora Charlotte, sabemos que é casada com Max (Dragan Bakema), um marido presente e amoroso, que é uma mãe responsável e uma profissional respeitada. Isso, no entanto, não a impede de seguir convidando homens para um apartamento recém-alugado e se entregando a relações sexuais com pacientes que conhece na clínica onde trabalha. Ao descobrir este desvio da mulher, já na segunda parte do filme, Max não a abandona. Entendendo se tratar de uma doença, o marido tenta ser o mais compreensível possível, ainda que sofra com as traições. Charlotte passa por sessões de terapia na tentativa de se curar. Chegamos então na terceira parte, quando uma mudança de ares pode fazer com que tudo mude – ou volte ao começo.

É interessante notar que Nanouk Leopold constrói um filme bastante contemplativo. O silêncio é moeda valiosa em Movimento Browniano. Com pouquíssimas falas, grande parte dos sentimentos que nos são transmitidos pelos personagens vem de suas ações. Este é um ponto positivo do filme, que se fia na qualidade da sua dupla principal, Sandra Hüller e Dragan Bakema, para passar sua mensagem. Enquanto Hüller silenciosamente se entrega ao vício que a coloca em maus lençóis com o marido (e reparem que, com exceção de um personagem, todos os homens que ela leva para a cama têm seus rostos ocultados para o espectador), Bakema tem nos olhos marejados e perdidos a certeza de que não poderá mais confiar em sua esposa.

O problema de Movimento Browniano é que Nanouk Leopold parece esquecer de escrever uma história que preencha os 97 minutos de duração do filme. O que acontece em seu longa-metragem poderia ser contado, facilmente, em apenas 30 minutos. Por ser contemplativo e por incluir muitos momentos silenciosos, pensativos, a narrativa acaba ficando lenta demais. Ao seu final, temos certeza de que não vimos uma trama que comportasse todo aquele tempo investido. Espécie de versão feminina do elogiado Shame, mas nunca tão perverso ou envolvente quanto o filme dirigido por Steve McQueen, Movimento Browniano tem predicados, mas que não garantem a manutenção da atenção do espectador durante toda a trama.

A tentativa de chegar a um maior público ao colocar seus personagens falando em inglês acaba saindo pela culatra, visto que o espectador precisa fazer força para decifrar as falas por trás do sotaque forte dos atores holandeses. Por sorte, o fato de Sandra Hüller e Dragan Bakema estarem interpretando em outra língua não os atrapalhou dramaticamente. Porque não manter o elenco falando em seu idioma natal? Escolha questionável da diretora Nanouk Leopold, que demonstra muito talento visual, mas que peca ao construir sua narrativa com mão tão pesada e com tão pouco história.

Movimento Browniano (Brownian Movement)
Holanda – 97 minutos – Drama
Dir.: Nanouk Leopold
Com Sandra Hüller, Dragan Bakema, Sabine Timóteo
Cotação Paradoxo: Vale 72% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de Movimento Browniano:

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Aqui é o Meu Lugar

Talking Heads and the Pieces of Shit

A sinopse de Aqui é o Meu Lugar não deixava dúvidas de que o primeiro filme em língua inglesa do cineasta italiano Paolo Sorrentino (de Il Divo) seria, no mínimo, estranho: Rockstar veterano volta aos Estados Unidos para procurar um nazista e vingar seu pai. Dito assim, em apenas uma linha, ficava difícil de imaginar que espécie de bizarrice o cineasta estava preparando para o espectador. Ainda que seja realmente estranhoso em certos momentos, Aqui é o Meu Lugar não é sem pé nem cabeça como podíamos pressupor pela sua curta sinopse. É um belo misto de drama e comédia, que coloca seu protagonista em busca de um passado que ele nunca conheceu, de alguma forma procurando seu verdadeiro eu. Ou, algo que o valha.

Com roteiro de Sorrentino ao lado de Umberto Contarello, o longa-metragem traz Sean Penn como o astro de rock Cheyenne, uma mistura muito bem balanceada entre Robert Smith e Ozzy Osbourne. Do primeiro, o ator trás os cabelos esvoaçantes e a maquiagem sempre presente. Do segundo, a lentidão de movimentos e de pensamento, resultado do abuso de drogas em sua juventude. Cheyenne abandonou a carreira há anos e vive em Dublin ao lado da mulher, Jane (Frances McDormand). Ao descobrir que seu pai – com quem não fala há três décadas – está à beira da morte, o músico resolve voltar aos Estados Unidos para seus momentos finais. Cheyenne acaba não encontrando o pai vivo, mas descobre que um dos objetivos do recém-falecido sempre foi encontrar um nazista que o humilhou durante o holocausto. Com isso em mente, o rockstar empreende uma busca pelo sujeito, encontrando diversas pessoas interessantes pelo caminho.

Assim como em Il Divo, Paolo Sorrentino demonstra uma invejável intimidade com a câmera em Aqui é o Meu Lugar. Travellings, panorâmicas e os mais variados movimentos são utilizados pelo cineasta, dando um aspecto visual muito interessante para o seu filme. Além de se preocupar com a câmera, Sorrentino capricha no movimento da cena, como a interessante performance da música que dá nome ao filme, This Must be the Place (Naive Melody), por David Byrne. Vemos, primeiramente, uma moça lendo uma revista, sentada em uma cadeira. A lente vai se afastando e, pouco a pouco, vemos um palco, com David Byrne e sua banda fazendo uma apresentação. Por boa parte da música, a câmera fica fixa no palco para, nos minutos finais da canção, passear pelo local do show e encontrar, com rosto emocionado, Sean Penn observando a tudo do fundo da plateia. Tudo isso sem um corte. Um grande plano-sequência realizado de forma econômica, mas potente. Esse é apenas um exemplo de como Sorrentino, de forma bastante estilosa, conta sua história.

Por falar neste número musical, é impossível dissociar este longa-metragem de sua trilha sonora. A música do Talking Heads que dá nome ao filme é ouvida diversas vezes, servindo realmente como tema. Nada mais natural, visto que a canção tem estrofes que fecham completamente com a trajetória do protagonista: “Lar, é onde queria estar (...) Sinto-me anestesiado (...) Achei você ou você me achou?”. Além desta música, as intervenções da fictícia banda The Pieces of Shit, criada por David Byrne (responsável pela trilha sonora) e por Will Oldham, sempre soam muito orgânicas na trama, que ainda conta com a clássica “The Passenger”, de Iggy Pop.

Já foi deixado claro que a qualidade técnica e artística de Paolo Sorrentino fazem de Aqui é Meu Lugar uma festa para os olhos e que a música da trilha é um deleite para os ouvidos. Mas nada disso seria tão interessante caso o elenco não fosse tão acertado. Sean Penn, para começar, faz um trabalho esplêndido como o astro do passado Cheyenne. A maquiagem, claro, ajuda bastante. Mas a expressão corporal do ator e sua forma preguiçosa de falar, mal mexendo os lábios, é que transmitem tudo o que precisamos saber sobre aquele rockstar. Traumatizado pelo poder que sua música teve em dois jovens, Cheyenne nunca mais foi o mesmo. Abandonou a música e vive uma existência um tanto tediosa ao lado da esposa, uma parceira para todas as horas. Sean Penn dá vida aquele músico como uma criança que não cresceu. A síndrome de Peter Pan que afligiu outro grande astro que conhecemos (e que faleceu sem nunca ter crescido) é um dos problemas de Cheyenne, que ao descobrir algo sobre seu velho pai encontra algo a fazer finalmente.

Dois personagens que o ajudam neste tarefa são atores veteranos que, apesar do pouco tempo em tela, estão extremamente bem em seus papeis. Judd Hirsch interpreta um velho judeu que ganha a vida caçando anti-semitas. Sua performance pulsante nos faz pensar qual a razão do clássico protagonista do seriado Táxi não ser chamado para outros trabalhos. Harry Dean Stanton, em rápida aparição, também deixa sua marca como o inventor das rodinhas de malas (!). Cada personagem ganha uma particularidade curiosa, colorindo a narrativa de Aqui é o Meu Lugar.

O desfecho da história é satisfatório, ainda que deixe uma mensagem um tanto questionável. Seria necessário Cheyenne abandonar algo que carregava por anos e anos apenas porque aparentemente amadureceu? Se Robert Smith conferiu Aqui é o Meu Lugar, deve ter ficado com dúvidas se o cineasta não o chamou de infantil por tabela ao fechar seu longa-metragem daquela forma. Superior ao seu longa-metragem anterior, principalmente por carregar uma mensagem mais universal, Paolo Sorrentino se mostra um cineasta que tem gosto pelas esquisitices e pelo trabalho com a câmera, um nome a se conferir a cada novo trabalho, certamente.

Aqui é o Meu Lugar (This Must be the Place)
Itália / França / Irlanda – 118 minutos – Drama/Comédia
Dir.: Paolo Sorrentino
Roteiro: Paolo Sorrentino e Umberto Contarello
Com Sean Penn, Judd Hirsch, Eve Hewson, Frances McDormand, Harry Dean Stanton, David Byrne
Cotação Paradoxo: Vale 89% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de Aqui é o Meu Lugar:

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge

Ascensão e Queda do Morcego

Depois de Batman – O Cavaleiro das Trevas ter nos dado a encarnação definitiva do Coringa no cinema e ter provado que um filme baseado em histórias em quadrinhos poderia ter profundidade e dramaticidade, era no mínimo improvável que uma sequência trouxesse algo de novo, ou que chegasse próximo da qualidade daquele trabalho. Christopher Nolan resolveu desafiar as probabilidades e entregou uma obra de proporções épicas, com grande escopo, dando um desfecho perfeito para sua trilogia do Homem-Morcego. Nem o fã mais otimista poderia esperar um capítulo final tão envolvente, tenso e pungente como Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge.

Com roteiro dos irmãos Christopher e Jonathan Nolan, o filme que fecha a saga de Batman nos cinemas é ambientado oito anos depois do final do longa-metragem anterior. Gotham é uma cidade pacífica, beneficiada pela Lei Dent, que conseguiu colocar os bandidos mais perigosos atrás das grades. O Comissário Gordon (Gary Oldman) é um herói de guerra em tempos de paz, parecendo não tão necessário como antigamente aos olhos dos políticos da cidade. Não é o que pensa o jovem policial John Blake (Joseph Gordon Levitt), que tem em Gordon e, principalmente, em Batman seus modelos.

Depois de ter tomado responsabilidade pelos atos de Duas-Caras, o Homem-Morcego se viu obrigado a sair das ruas e Bruce Wayne (Christian Bale) tem se mantido recluso em sua mansão, mesmo com a insistência de Alfred (Michael Caine) para que ele siga em frente com a vida. Durante um jantar beneficente, uma ladra chamada Selina Kyle (Anne Hathaway) consegue infiltrar-se nos aposentos de Wayne e, após um encontro estranho com o milionário, furta uma importante joia de seu cofre. Não demora para que Bruce perceba que o colar surrupiado não era a real motivação da bela gatuna. Ela, na verdade, estava trabalhando sob ordens de Bane (Tom Hardy), um terrorista que deseja colocar Gotham City sob escombros e, junto dela, o herói que tanto a protegia. Com a chegada do vilão à cidade, o Morcego terá de voltar a voar. Mas será que Bruce Wayne ainda dá conta do recado?

Diferente de O Cavaleiro das Trevas, no qual Heath Ledger roubava toda cena em que aparecia, O Cavaleiro das Trevas Ressurge é mais homogêneo em suas performances. O elenco está muito bem como um todo. Christian Bale já tira de letra como fazer Bruce Wayne e Batman de formas diferentes – e impressiona pela entrega corporal no início do filme, quando surge como um sujeito que, visivelmente, esteve fora de combate por um bom tempo. Suas cenas com Michael Caine são extremamente emotivas – e é uma lástima que vejamos tão pouco da dupla neste filme. O roteiro é hábil em resgatar fatos dos longas-metragens anteriores e incluir na trama atual, atando alguns laços soltos organicamente.

Sem sombra de dúvidas, este é o filme que mais coloca Bruce Wayne no limite. Além de ter de decidir se volta ou não à ativa como o Homem-Morcego, ele enfrentará o terror psicológico e físico nas mãos de Bane, que coloca Gotham em um verdadeiro estado de sítio. Este é um dos pontos mais interessantes desta jornada do herói proposta por Christopher Nolan. Mesmo que a maioria diga a Wayne que salvar a cidade não é sua responsabilidade, ele bem sabe que ninguém mais poderia fazê-lo. Ou, assim pensava. Quando conhecemos Gotham City no início da franquia, os policiais corruptos e a vilania imperavam no local. Agora, tudo está diferente. E, talvez, Batman sirva, mais do que nunca, como um símbolo de esperança do que como um herói solitário.

Morgan Freeman e Gary Oldman, outros dois veteranos da trilogia, estão irretocáveis como Lucius Fox e Jim Gordon. Mesmo aparecendo pouco, Freeman serve como eventual alívio cômico e parece confortável como o responsável pelas gadgets do Homem-Morcego. Já Oldman, que sempre parecia rejuvenescido como Gordon nos filmes anteriores, pode apresentar sua idade real em O Cavaleiro das Trevas Ressurge, representando o exemplo de retidão e responsabilidade em pessoa. Mesmo sendo obrigado a mentir por uma causa maior – e ter de sujar um tanto as mãos por causa disso – Gordon é o melhor modelo que o jovem John Blake poderia seguir.

Por falar em Blake, o personagem é vivido pelo talentoso Joseph Gordon Levitt, um ator que consegue imprimir muita audácia e coragem a seu papel, misturadas a uma fé inabalável no símbolo que representa o Cavaleiro das Trevas. Batman é fonte de inspiração para o policial, que enxerga no herói uma forma de combater o mal que assola Gotham. Mal este que atende pelo nome de Bane. Mesmo com uma máscara em frente ao seu rosto, Tom Hardy consegue transmitir toda a periculosidade que o papel exige, utilizando um sotaque diferente e um padrão de fala calmo para mostrar que está no comando. Diferente do Coringa, que era um agente do caos, Bane é um agente da destruição. É muito provável que alguém perguntará qual dos dois vilões é o melhor. Mas como são tão diferentes, fica difícil colocar isso em uma balança. O Coringa era imprevisível, engraçado e terrivelmente assustador. Já Bane é um sujeito que quebra pescoços no café da manhã, que não tem problema em usar sua força física, atrelada a inteligência, para aniquilar seus inimigos. E com sua voz ressoante, tem tudo para meter medo em qualquer pessoa que passar pela sua frente. Confesso que, de início, a voz do vilão incomoda – principalmente por causa da mixagem de som, que a coloca mais alta em relação às demais. Depois, quando acostumamos, ela não se torna mais um problema. Vira, inclusive, mais um motivo para temermos aquele homem.

O caso de Anne Hathaway era um dos mais problemáticos. A Mulher Gato já havia sido encarnada de forma perfeita por Michelle Pfeiffer em Batman – O Retorno e uma nova interpretação fatalmente seria comparada àquela performance. Felizmente, o roteiro resolve muito bem a personalidade de Selina Kyle em O Cavaleiro das Trevas Ressurge. Quem conhece a personagem sabe que ela não é simplesmente uma vilã. Ela é dúbia. Ataca dos dois lados, dependendo qual for o mais vantajoso a ela. Isso é colocado na tela de forma impecável, com Anne Hathaway capturando muito bem o lado falso e manipulador da Mulher-Gato (que nunca é chamada desta forma), ao mesmo tempo mostrando que existe algo de bom dentro da moça. Fora o fato que Hathaway está em excelente forma e consegue dar cabo da fisicalidade e agilidade que o papel demanda. Já Marion Cotillard tem um arco bem menor dentro do filme, vivendo a empresária Miranda Tate, uma possível saída para a solidão de Bruce Wayne. Provavelmente, com um papel com mais tempo em tela, a atriz conseguiria se sobressair.

Mesmo não tendo sido pensada como uma trilogia fechada, com cada capítulo tendo sido escrito de forma isolada, é interessante notar como Christopher e Jonathan Nolan conseguem amarrar muito bem cada filme no outro, fazendo com que os três longas se tornem uma história apenas. Batman Begins era o começo, uma trama sobre medo; O Cavaleiro das Trevas era o meio, um filme sobre o caos; E O Cavaleiro das Trevas Ressurge é o final, uma história sobre dor, esperança e fé. E não digo a fé religiosa, mas nas pessoas, no poder interior do ser humano em se exigir mais e suplantar seus limites.

Hans Zimmer faz uma de suas melhores trilhas sonoras neste longa-metragem, elevando cada cena ao nível épico que merece. Fora que suas composições acabam deixando o clima ainda mais tenso. Christopher Nolan coloca o espectador na ponta da cadeira, com o drama vivido pelos personagens, com cenas de ação muito bem capturadas, com ótimas sequencias de luta – nunca Batman teve um adversário físico à altura, fato remediado com Bane. Sobra espaço ainda para a emoção. Olhos marejados não serão raros nas sessões de O Cavaleiro das Trevas Ressurge.

Existem surpresas no roteiro que não cabem ser contadas aqui, mas que farão os fãs do Homem-Morcego vibrarem, certamente. O final é emocionante e completamente satisfatório, mas deixa aberto uma porta para continuações. Sabendo-se que Nolan já anunciou que não voltaria para a franquia Batman, fica a dúvida se alguém tentará mexer nesta obra tão bem concluída. O dinheiro, sempre ele, pode falar mais alto. De qualquer forma, nada maculará este belo arco de histórias criado por Christopher Nolan e companhia, que conseguiu colocar o Homem-Morcego em seu devido lugar na história do cinema. Resta a nós desejarmos boa sorte ao próximo que tentar fazer o Morcego voar novamente. Será um desafio e tanto.

Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge (The Dark Knight Rises)
EUA / Reino Unido – 165 minutos – Aventura
Dir.: Christopher Nolan
Roteiro: Christopher Nolan e Jonathan Nolan
Com Christian Bale, Gary Oldman, Michael Caine, Tom Hardy, Anne Hathaway, Marion Cotillard, Joseph Gordon Levitt, Matthew Modine, Cillian Murphy, Liam Neeson, Nestor Carbonell
Cotação Paradoxo: Vale 100% do ingresso

Confira o trailer de Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge:

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Batman - O Cavaleiro das Trevas

I Believe in Christopher Nolan

O desfecho de Batman Begins, com a carta do Coringa sendo entregue por Jim Gordon ao homem-morcego, era um ponto de partida magnífico para uma continuação. E com isso em mente, o cineasta Christopher Nolan se uniu a seu irmão Jonathan (que co-escreveu os roteiros dos ótimos Amnésia e O Grande Truque) para montar o roteiro desta continuação, seguindo as idéias que ele havia criado com David S. Goyer, roteirista do longa original. Em primeiro lugar, o Coringa seria o vilão principal e não seria contada sua origem. Um Joker Begins estava fora de questão e a decisão é muito acertada. Porque perder tempo mostrando como ele se tornou o palhaço do crime quando é muito melhor ver o vilão em ação?

O Cavaleiro das Trevas tem início com um roubo a banco de proporções grandiosas. Uma quadrilha de mascarados limpa os cofres do banco, em uma operação bem ensaiada. Apesar disso, apenas um deles sai ileso do assalto. Engana-se quem pensa que a polícia conseguiu eliminar a gangue. A mando de seu chefe, os capangas matavam uns aos outros para ter menos pessoas para dividir o dinheiro. No final das contas, o único a ficar com a soma é o cabeça da operação: ninguém menos que o Coringa (Heath Ledger). Essa é apenas mais uma das contravenções que o vilão maquiado participou. O tenente James Gordon (Gary Oldman) e o promotor público de Gotham Harvey Dent (Aaron Eckhart) tentam de todas as formas acabar com a criminalidade da cidade. E para isso, contam com a ajuda do homem-morcego (Christian Bale), que trabalha praticamente como um fora-da-lei.

Quando o Coringa ordena que Batman revele quem é, sob a ameaça de matar um cidadão de Gotham por dia, Bruce Wayne cogita deixar a armadura de lado e tentar uma nova chance com seu amor de infância, Rachel Dawes (Maggie Gyllenhaal). Mas ela está envolvida com Harvey Dent, um homem íntegro e justo, que tenta colocar o máximo de criminosos na prisão – de preferência, ao mesmo tempo. Mas a ameaça do palhaço do crime pode colocar todo o trabalho de Dent, de Gordon e de Batman por terra, criando um novo nível de desordem em Gotham City.

Para quem se perguntava se Heath Ledger conseguiria suplantar a performance de Jack Nicholson como o Coringa, bastam apenas duas aparições para que a resposta seja um grande e sonoro sim. Coringa é uma força da natureza, como o próprio diretor do filme afirmou em diversas ocasiões. E Ledger dá vida a essa força com uma intensidade impressionante. O palhaço não tem nenhum motivo aparente para causar desordem, sendo levado apenas pelo prazer de criar o caos. Por isso, o personagem é tão eficaz em assustar o espectador. Se não existe um fim para seus meios, a imprevisibilidade é a característica principal do vilão – característica esta que aterroriza seus oponentes. Apesar de ser uma figura inconstante, o Coringa sempre parece estar à frente dos acontecimentos, com tudo fazendo “parte do plano”. Mesmo quando as coisas parecem dar errado para ele, um fato novo surge mostrando que nada é como parece. Tudo isso é vivido de forma visceral por Heath Ledger, em seu último papel completado na tela grande. Uma pena, realmente. Com essa performance, a carreira do ator decolaria certamente.

Do outro lado desse espectro, o bom moço Harvey Dent é boa intenção em pessoa. Íntegro, incorruptível e apaixonado pelo trabalho, Dent é a resposta para o renascimento de uma Gotham sem crimes. Quem conhece as histórias do homem-morcego sabe que Dent se transforma no Duas-Caras. Mas nunca essa metamorfose foi tão sentida pelo espectador. Aaron Eckhart cria um personagem tão interessante, completo e heróico que ficamos esperando que o seu desfecho não seja tão trágico quanto já sabemos. É ele quem realmente muda no decorrer da trama, podendo ser apontado como a figura central dos acontecimentos.

Isso, claro, se a história não fosse protagonizada por um cavaleiro encapuzado chamado Batman. Christian Bale amadurece sua performance como o homem-morcego e, o fato de não precisar explicar suas origens, como em Batman Begins, o ajuda a entrar em ação mais rapidamente, logo tomando conta do filme. Michael Caine e Morgan Freeman, como de praxe, dão peso ao elenco, que ainda tem como destaque as ótimas atuações de Gary Oldman e Maggie Gyllenhaal – que nos faz esquecer completamente de Katie Holmes.

A música conduzida por dois mestres como James Newton Howard e Hans Zimmer dá toda a liga para a história, mostrando que mesmo uma trilha fantástica como a criada por Danny Elfman para a cinessérie de Tim Burton pode ser suplantada. A música, atrelada a fotografia sombria assinada por Wally Pfister e a edição do sempre competente Lee Smith, são mais alguns pontos que merecem elogios. Isso e a direção de arte, que cria um visual único para Gotham, que parece uma cidade real, à despeito da gótica criação da franquia anterior.

Os figurinos são caprichados, com destaque para as roupas do Coringa, que trazem diversos conceitos dos quadrinhos, como a cor predominantemente roxa de seus ternos, e o novo uniforme de Batman, muito mais ágil e condizente com sua “profissão”. Nolan, desde Begins , tinha vontade de mudar a armadura do herói, transformando-a em algo mais prático, com a possiblidade do ator virar a cabeça, por exemplo, fator decisivo em um combate. Isso é incorporado no roteiro, realizado de forma bastante orgânica dentro da história.

Mas tudo isso dito acima não seria nada, não fosse um nome: Christopher Nolan. O diretor montou um filme que não vai agradar apenas aos fãs do Cavaleiro das Trevas. Vai agradar a qualquer pessoa que goste de um bom filme. O trabalho do cineasta consegue mesclar muito bem drama, ação e aventura em um longa-metragem que tem ainda elementos de filme policial e de suspense. Muito se falou que O Cavaleiro das Trevas é comparável a O Poderoso Chefão, Fogo Contra Fogo e até Seven. Fato é que nenhum destes filmes teve de encarar o preconceito de ser uma produção baseada em um super-herói-de-histórias-em-quadrinhos (neologismo hifenizado, causador de repulsa aos intelectuais de plantão). Olhando neste prisma, o trabalho de Nolan não merece ser comparado, pois é vanguarda. É o ponto de partida para um outro tipo de filme de super-heróis – renegando todos os exageros do gênero e utilizando uma faceta mais realista.

Sem sombra de dúvidas, a nova aventura de Batman é um trabalho memorável, que coloca um ponto final naquela velha história que produções de super-heróis são obras de menor valor que os chamados “filmes sérios”. Batman – O Cavaleiro das Trevas é seríssimo e quem nunca conferiu o longa-metragem por pensar que é apenas mais uma adaptação de HQs, vai perder um excelente exemplar do bom cinema feito por um cineasta diferenciado. É por isso que eu acredito em Christopher Nolan.

Batman - O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight)
EUA - 152 minutos - Aventura - 2008
Dir.: Christopher Nolan
Roteiro: Christopher Nolan e Jonathan Nolan
Com Christian Bale, Michael Caine, Heath Ledger, Aaron Eckhart, Gary Oldman, Maggie Gyllenhaal, Morgan Freeman, Cillian Murphy, Nestor Carbonell, Eric Roberts, Anthony Michael Hall, William Fichtner
Cotação Paradoxo: Vale 100% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de Batman - O Cavaleiro das Trevas:

Batman Begins

Gênese do Morcego

Depois do estrondoso fracasso de Batman & Robin, dirigido por Joel Schumacher, a Warner resolveu ser mais cautelosa ao trazer o morcegão de volta às telas. Primeiro, chamou o cineasta Darren Aronofsky, elogiado à época por Réquiem para um Sonho, para dirigir uma adaptação de Batman: Year One, de Frank Miller. O projeto acabou sendo engavetado por problemas no roteiro. Depois, veio Wolfgang Petersen com planos de comandar uma aventura chamada Batman Vs. Superman, também baseada em uma HQ. Mais uma vez a Warner puxou o fio da tomada e desligou a produção. E não era para menos. O personagem sofreu demais com adaptações risíveis e a cautela já tinha ares de pavor. Errar novamente com a figura criada por Bob Kane há mais de 60 anos poderia enterrar qualquer nova franquia.

Eis que surge o cineasta britânico Christopher Nolan com sua visão de como deveria ser um novo longa-metragem protagonizado pelo Homem-Morcego. O diretor, depois da aclamação da crítica pelo seu ótimo Amnésia e do resultado positivo de Insônia, mostrou ideias interessantes acerca de uma nova aventura do herói. Foi ouvido pelos executivos e teve seu argumento aprovado. Com isso, o morcego pôde bater suas asas de novo.

Com roteiro de Nolan ao lado de David S. Goyer, Batman Begins mostra com detalhes a gênese do Cavaleiro das Trevas. Encontramos Bruce Wayne (Christian Bale) em uma prisão oriental, onde ele parece fugir de seus demônios. Lá, conhece Decard (Liam Neeson), um homem enigmático que lhe oferece uma saída daquele inferno: treinar e se juntar à Liga das Sombras, um clã de justiceiros comandados por Ra's Al Ghul (Ken Watanabe). Wayne aceita, mas logo percebe que a tão bradada justiça realizada pela Liga é apenas um pseudônimo para morte e destruição. Em meio ao seu treinamento, somos apresentados ao passado do bilionário, a morte dos pais, a tentativa de vingança e a fuga de Gotham. De volta à sua cidade, depois de ter escapado de um destino sombrio junto a Ra's Al Ghul, Bruce Wayne resolve utilizar seus recursos para inspirar o bem, caçar bandidos, tornando-se em um símbolo de esperança para a população e de medo para os vilões. Com ajuda de seu fiel mordomo Alfred (Michael Caine), Bruce Wayne se transforma em Batman e logo se vê às voltas com o psicótico Espantalho (Cillian Murphy), que trabalha para um sujeito muito mais perigoso.

Nolan já iniciou acertando ao chamar um fã de quadrinhos para co-escrever o roteiro. David S. Goyer, diretor de Blade Trinity, agregou diversas características do herói retiradas das HQs, fazendo o retrato mais fiel do Cavaleiro das Trevas no cinema. Outra bola dentro: antes mesmo dos tratamentos necessários no roteiro, o cineasta começou a procurar seu elenco e, mais uma vez, conseguiu acertar em suas escolhas. Christian Bale convence tanto como Bruce Wayne quanto como Batman. Criando uma voz diferente para o seu alterego, o ator trouxe ao personagem uma característica mais animalesca e perigosa, algo que uma figura que age nas sombras poderia ter. Quando encarna o milionário órfão, sempre carrega uma amargura e até frieza em sua voz, algo plausível para um homem que sofreu um terrível trauma e está obstinado a fazer justiça. Sua atuação consegue transparecer o fardo que ele carrega.

Liam Neeson, Morgan Freeman e Rutger Hauer dão peso a um elenco inspiradíssimo, contando ainda com o jovem talentoso Cillian Murphy. Mas o destaque vai para três pessoas, em especial: Michael Caine, Gary Oldman e Tom Wilkinson. Caine e Oldman conseguiram dar uma dimensão a seus personagens nunca antes alcançada por outra adaptação, seja ela cinematográfica ou televisiva. Alfred assume uma figura paternal para Bruce que, apesar de sempre insinuada, não havia sido mostrada de forma tão aberta quanto nesse Batman Begins. Oldman ganha destaque por, na época, encarnar um personagem diferente de seus inusitados papéis habituais. O ator dá uma nova cara para o sempre honesto Comissário Gordon - que aqui é apenas tenente. Obviamente os louros não vão apenas para os atores, pois o roteiro de Nolan e Goyer redimensiona esses personagens para um patamar que sempre deveriam possuir nas aventuras do Homem-morcego. Enquanto isso, Tom Wilkinson é vilania em pessoa como o mafioso Carmine Falcone. Em apenas duas cenas, o ator consegue roubar boa parte do filme para si, sendo convincentemente ameaçador como o chefão do crime de Gotham. É uma pena que ele não ganhe mais cenas, ficando relegado ao segundo plano tão logo o Espantalho dá as caras. A única que fica aquém do resto do elenco é Katie Holmes, que nunca convence como uma séria promotora. Sua desistência em repetir o papel na continuação só fez crescer a personagem.

A narrativa é cheia de flashbacks na primeira metade do longa-metragem, então conhecemos um pouco da história de Bruce Wayne em trechos que ele mesmo revela aos seus interlocutores. É um recurso interessante, pois dá uma maior mobilidade à história. Além disso, podemos ter uma noção de o quanto o episódio da morte dos pais de Bruce o afetou, antes mesmo de assistirmos ao fato. É uma antecipação do que está por vir. O arco de Bruce Wayne é tão bem construído que a primeira hora do filme passa rapidamente, e nem vimos a sombra de Batman.

Se até a metade do longa, Batman Begins é um belo programa, quando o herói finalmente entra em ação, a trama fica ainda melhor. O roteiro reserva algumas surpresas e tem um final que conseguiu deixar qualquer fã do Homem-Morcego esperando ansioso pela continuação. Mal sabíamos, lá em 2005, que esta sequência conseguiria ser superior ao original, trazendo uma versão definitiva do vilão Coringa. Mas isso, é outra história.

Batman Begins
EUA - 140 minutos - Aventura - 2005
Dir.: Christopher Nolan
Roteiro: Christopher Nolan e David S. Goyer
Com Christian Bale, Michael Caine, Liam Neeson, Gary Oldman, Cillian Murphy, Ken Watanabe, Katie Holmes, Morgan Freeman, Tom Wilkinson, Rutger Hauer
Cotação Paradoxo: Vale 98% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de Batman Begins:

terça-feira, 24 de julho de 2012

Batman & Robin

Carnavalesco das Trevas

Constrangedor. Não existe outra palavra melhor para definir o quarto e último episódio da franquia do Homem-Morcego, Batman & Robin, capitaneado por Joel Schumacher e lançado em 1997. Poucas vezes chegou aos olhos da plateia um filme tão equivocado bancado por um grande estúdio. O orçamento inchado para a época de US$ 125 milhões simplesmente não aparece na tela, com um desenho de produção risível, conseguindo ficar atrás do seriado sessentista que, segundo o diretor, serviu como inspiração para esta aberração cinematográfica. O elenco está completamente perdido, a direção de arte é carnavalesca, o roteiro é rasteiro e a ação e comédia simplesmente não encaixam. Acompanhar os 125 minutos de duração desta pretensa aventura é tarefa hercúlea, mesmo que você não leve o filme a sério em momento algum. Nem para fonte de gargalhadas esta produção serve.

Com roteiro de Akiva Goldsman (que surpreendentemente conseguiu trabalhos depois disso), Batman & Robin acompanha a dupla de paladinos da justiça enquanto duas ameaças surgem em Gotham. Mr. Freeze (Arnold Schwarzenegger), em busca da cura para a doença de sua mulher, cede à uma vida de crimes e está à procura de todos os diamantes existentes na cidade para, assim, conseguir se manter frio. Durante um de seus roubos, dos quais a dupla dinâmica tenta de todas as formas frustrar, Robin (Chris O'Donnell) percebe que Batman (George Clooney) não demonstra ter confiança em suas habilidades. Isso causa uma ruptura no relacionamento dos dois, maximizada com a chegada de Hera Venenosa (Uma Thurman) a Gotham City, uma sedutora botânica que utiliza dos seus potentes feromônios para enlouquecer os homens. Sempre acompanhada do brutamontes Bane (Jeep Swenson), Hera pretende transformar o mundo em um lugar melhor para as plantas - mesmo que, para isso, toda a raça humana pereça. Enquanto isso, na mansão Wayne, a sobrinha de Alfred (Michael Gough), Barbara (Alicia Silverstone), visita seu tio e descobre que o fiel mordomo da família está seriamente doente.

Para não dizer que Batman & Robin é um erro completo, a subtrama envolvendo a doença de Alfred é interessante e até comovente. Isso por causa da terna interpretação de Michael Gough, que conquista o espectador com sua até então desconhecida fragilidade. O ator finalmente recebe o destaque que merece e é o grande nome de um elenco que passa vexame na maior parte de suas cenas.

George Clooney estreia como o Homem-Morcego e, em teoria, poderia ser o melhor intérprete do herói devido ao seu físico - leia-se, seu queixo quadrado. Infelizmente, o ator calhou de encarnar Batman no pior filme da série, sendo dirigido por um cineasta sem ideia alguma de quem é o Cavaleiro das Trevas. Dito isso, Clooney nunca esteve tão mal em um papel. Nem mesmo em O Retorno dos Tomates Assassinos ele passou tamanha vergonha. Quando encarna Bruce Wayne, o ator inexplicavelmente balança a cabeça para os lados, em um cacoete que não faz sentido algum. Encapuzado, Clooney parece incrivelmente desconfortável, tendo de soltar frases tão cretinas que geram vergonha alheia. "Não saia da caverna sem ele", após retirar do cinto de utilidades um cartão de crédito, faz parte da longa lista de falas tenebrosas. Sofrendo igualmente com o texto ruim, Arnold Schwarzenegger (que nunca foi um exemplo de talento dramático) tem de fazer o que pode com um script cheio de trocadilhos pavorosos. O ex-governador da Califórnia ao menos parece se divertir com a brincadeira, fato que, infelizmente, não é compartilhado com a plateia.

Quem ganha o prêmio embaraço do ano de 1997 é, sem sombra de dúvidas, Uma Thurman. Nada funciona. Sua performance como uma tresloucada botânica é risível e suas tentativas de sedução pós-transformação beiram o patético. Talentosa como é, fica difícil acreditar que Uma Thurman tenha aceitado um papel daquele calibre. Alicia Silverstone, a única do elenco a receber a Framboesa de Ouro, passa por igual vexame. No entanto, parte da culpa está no terrível trabalho de Akiva Goldsman como roteirista. O problema não é apenas ela ser sobrinha de Alfred, quando nos quadrinhos ela sempre foi filha do Comissário Gordon. O que incomoda é o fato de ela simplesmente colocar um uniforme e sair para combater o crime, como se fosse algo corriqueiro, comum. Não existe treinamento, não existe qualquer forma de aprofundar seu passado. Ela é a Batgirl e pronto. Mesmo que seja apenas para vender mais brinquedos, seria necessário um personagem que fizesse alguém ter vontade de comprar a miniatura na loja.

Nos extras do DVD de Batman & Robin, Joel Schumacher se desculpa pelo trabalho que fez com o quarto capítulo da saga do Homem-Morcego. O cineasta revela, entre outras coisas, que vender brinquedos era uma das razões para as discutíveis decisões criativas do filme - como, por exemplo, fazer com que os heróis trocassem de uniforme diversas vezes durante a trama. A incoerência chega a ser tanta que, no terceiro ato, Batman, Robin e Batgirl estão no covil de Hera Venenosa e descobrem que precisam correr para salvar Gotham City de uma nevasca criada por Mr. Freeze, plano esse que congelará todos os habitantes da cidade. A cena corta e vemos o trio com outros uniformes correndo para salvar a humanidade. Sério? Naquela urgência houve tempo para trocar de roupa? E vestir uma armadura prateada que nada tem a ver com o Cavaleiro das Trevas? Isso e a subutilização de Bane, vilão que colocou Batman em uma cadeira de rodas nos gibis, visto aqui como um capanga descerebrado, deixam qualquer fã do Homem-Morcego arrancando os cabelos.

A reposta do público e da crítica foi tão negativa para Batman & Robin que a Warner se viu obrigada a enterrar a franquia sem o quinto capítulo - que já estava nos planos, com o título de Batman Triumphant, e contaria com Espantalho, Man-Bat e a Arlequina como vilões. Dentre outras novidades, Robin viraria o Asa Noturna e o Coringa retornaria em uma cena de alucinação, interpretado novamente por Jack Nicholson. Parte de mim, fã do Homem-Morcego, tem curiosidade de saber como seria este capítulo novo da franquia. Esta vontade, no entanto, desaparece tão logo as lembranças de Batman & Robin surgem à mente. Tão ou mais assustadoras que qualquer alucinação criada pelo Espantalho.

Batman & Robin
EUA - 126 minutos - Aventura - 1997
Dir.: Joel Schumacher
Roteiro: Akira Goldsman
Com Arnold Schwarzenegger, George Clooney, Chris O'Donnell, Uma Thurman, Alicia Silverstone, Michael Gough, Pat Hingle
Cotação Paradoxo: Vale 18% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de Batman & Robin:

Batman Eternamente

Riddle me this, Riddle me that

Depois de Batman, em 1989, e Batman – O Retorno, em 1992, a Warner começou a repensar sua franquia do Homem-Morcego. Tudo estava muito sombrio, lúgubre, freak. Daquela forma, ficava difícil vender brinquedos, lancheiras, cadernos, mochilas e tudo o mais que pudesse estar estampado com a marca Batman. Pensando em reverter a situação, os engravatados da Warner decidiram partir para um novo caminho. Algo mais colorido, engraçado, divertido. Para tanto, contrataram Joel Schumacher, cineasta que havia entregado alguns sucessos para o estúdio no passado, como Garotos Perdidos e Um Dia de Fúria, para assumir o comando de um novo filme. Assim surgia Batman Eternamente. E assim também começava o declínio da cinessérie do Cavaleiro das Trevas.

Com roteiro de Akiva Goldsman junto do casal Lee Batchler e Janet Scott Batchler, o longa-metragem coloca Batman (Val Kilmer) novamente contra dois perigosos vilões: Duas-Caras (Tommy Lee Jones) e Charada (Jim Carrey). O primeiro tem uma rixa contra o herói após ter sido desfigurado durante um julgamento, não sendo salvo a tempo pelo Homem-Morcego. O incidente no tribunal acaba afetando a mente daquele promotor público que, agora, joga sua moeda para decidir a sorte de seus oponentes. Enquanto isso, nas empresas Wayne, Edward Nygma é um empregado obcecado pelo seu patrão bilionário e, ao receber uma negativa quanto a um novo projeto de controle mental, surta e se transforma no colorido Charada. Causando caos na cidade, os dois vilões terão de ser detidos pelo Cruzado Encapuzado, enquanto seu alterego, Bruce Wayne, tem de resolver traumas do passado ao se enxergar no jovem Dick Grayson (Chris O’Donnell), garoto do circo que vê seus pais serem mortos por Duas-Caras e jura vingança contra o responsável.

Em 1995, quando Batman Eternamente foi lançado, o longa-metragem não parecia tão ruim quanto parece agora. O filme possuía um elenco interessante, com Jim Carrey no auge de popularidade interpretando um vilão sob medida, um Tommy Lee Jones recém saído do sucesso de O Fugitivo dando peso para o seu Duas-Caras e efeitos especiais que, para a época, deixavam qualquer um boquiaberto. Claro que, naqueles dias, minha tenra idade e desconhecimento sobre o herói criado por Bob Kane certamente nublaram meu senso crítico. Hoje, além de sabermos que este trabalho deu origem a um dos piores longas-metragens já produzidos, chamado Batman & Robin, é patente que Batman Eternamente é uma bagunça, um filme que falha nas cenas de ação, não é engraçado quando deveria ser e tem atores completamente desconfortáveis em seus papéis.

A começar por Val Kilmer, que substitui Michael Keaton, ator que sabiamente pulou fora do barco quando viu que o tom sombrio seria jogado para escanteio em favor de uma versão mais leve do herói. Kilmer nunca parece à vontade, tanto como Bruce Wayne quanto como Batman. Quando sem a máscara, o ator não conseguiria estar mais desinteressante. Engessado, sem demonstrar nenhum senso de humor ou charme, Bruce Wayne gravita na órbita da doutora Chase Meridian (Nicole Kidman, nunca tão linda) sem esboçar qualquer vivacidade. Seu trauma de infância é acertadamente colocado na trama, mas nem Kilmer consegue convencer como alguém cicatrizado psicologicamente, nem o roteiro desenvolve bem a questão. Como Batman, o ator se limita a ficar sério, sem nem ter o cuidado de mudar um pouco a voz. Está certo que é difícil ser um bom Homem-Morcego quando o uniforme não ajuda – e o conceito esdrúxulo de Joel Schumacher em construir uma armadura anatomicamente correta está no panteão das péssimas idéias do cinema.

Mal dirigido, Tommy Lee Jones faz um Duas-Caras que nada tem a ver com o personagem dos quadrinhos, ficando completamente ofuscado pelo espaçoso Charada de Jim Carrey. O comediante é, afinal de contas, quem menos passa vergonha, quem ganha um personagem dentro de seu escopo e que até diverte em certos momentos, fazendo uma espécie de homenagem a Frank Gorshin, o Charada do seriado de tevê dos anos 60. O fato de o roteiro nunca deixar muito claro o que os vilões pretendem com seus atos – principalmente Duas-Caras, que só pega carona nos planos do Charada a partir do encontro entre os dois – deixa óbvio que nunca foi intenção dos produtores fazer um filme que fosse meramente relevante ou narrativo. É, simplesmente, uma colagem de cenas de ação mal executadas, com sujeitos vestidos com uniformes berrantes, sem nenhum senso de perigo ou escopo.

Transformando a Gotham gótica de Tim Burton em um lugar mais colorido, e entregando o trabalho da trilha sonora para um equivocado Elliot Goldenthal, Joel Schumacher faz tudo o que pode para amenizar a figura sombria do então chamado Cavaleiro das Trevas. São tantos os problemas em Batman Eternamente que é difícil acreditar que uma sequência poderia ser produzida. Mas como a bilheteria fala mais alto – e ela foi bastante generosa – uma nova continuação foi rapidamente elaborada. E nenhum fã de Batman estaria preparado para o que viria.

Batman Eternamente (Batman Forever)
EUA – 121 minutos – Aventura – 1995
Dir.: Joel Schumacher
Roteiro: Lee Batchler, Janet Scott Batchler e Akiva Goldsman
Com Val Kilmer, Tommy Lee Jones, Jim Carrey, Nicole Kidman, Chris O’Donnell, Pat Hingle, Michael Gough, Debi Mazar, Drew Barrymore
Cotação Paradoxo: Vale 40% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de Batman Eternamente:

Batman - O Retorno

O Morcego, a Gata e o Pinguim

Quando assumiu a direção de Batman, Tim Burton era um cineasta praticamente desconhecido do grande público. Havia dirigido a comédia As Grandes Aventuras de Pee-Wee e conseguido um sucesso inesperado em Os Fantasmas se Divertem. Com pouca experiência, comandou o primeiro filme do homem-morcego com os executivos da Warner respirando em seu pescoço. E não era para menos. O orçamento elevado para os padrões da época deixariam qualquer manda-chuva temeroso pelo resultado final. Felizmente, os cofres ficaram cheios após a estupenda recepção de Batman nos cinemas, permitindo assim que Burton dirigisse uma sequência com maior liberdade – e com mais segurança. Com quatro filmes na bagagem – com o ótimo Edward Mãos de Tesoura tendo sido lançado nesse interim – Burton pode imprimir sua visão na história do Cruzado Encapuzado. O resultado não poderia ser mais timburtoniano: um párea da sociedade como antagonista, direção de arte expressionista e uma apresso pelo freak sem tamanho. Esse é Batman – O Retorno.

Com roteiro assinado por Daniel Waters, baseado em história criada por ele e por Sam Hamm, o longa-metragem coloca Batman (Michael Keaton) em rota de colisão com dois vilões diametralmente opostos em aparência, mas com objetivos parecidos: a Mulher-Gato (Michelle Pfeiffer) e o Pinguim (Danny DeVito). Enquanto a primeira foi ressuscitada por gatos após ser empurrada do alto de um prédio pelo seu chefe, o magnata inescrupuloso Max Shreck (Christopher Walken), renascendo com sede de vingança e sem um pingo de senso do certo e do errado, o Pinguim planeja retomar o que é seu, depois de ser abandonado quando criança por seus pais, colocando toda a Gotham em seu plano de desforra. Agora, Batman precisa frustrar os planos destes bandidos, ao mesmo tempo em que seu alterego, Bruce Wayne, começa a se interessar pela bela e enigmática secretária Selina Kyle.

Geralmente, a primeira continuação de um filme baseado em HQs ganha pontos por não precisar mostrar a origem do herói em questão. Não existe perda de tempo. É só colocar o uniforme e partir para a ação. Isso é verdadeiro em quase todas as produções deste gênero, menos com a primeira franquia Batman. A razão é muito simples: no filme original nunca é esmiuçada a gênese do Homem-Morcego. Ele já começa combatendo o crime, com um rápido flashback explicando seus motivos no decorrer da trama. Portanto, em tese, teríamos mais tempo de vê-lo combatendo o crime. Em tese. Na prática, os vilões ganham tanto destaque que Batman vira coadjuvante em seu próprio filme. Verdadeiro em Batman, com Coringa roubando a cena. Mais verdadeiro ainda em Batman – O Retorno, com direito a duas histórias de origem para os principais vilões. Não chega a ser um problema, visto que Michelle Pfeiffer e Danny DeVito estão perfeitos nos papéis. No entanto, quem esperava ver o Cavaleiro das Trevas em ação por mais tempo, pode ficar decepcionado.

Michelle Pfeiffer está estonteante como Mulher-Gato, mesmo que a personagem tenha ganhado nuances sobrenaturais que inexistem nos gibis. Como Selina Kyle, Pfeiffer tem dois momentos: antes e depois da morte. Antes, é difícil se convencer que aquela bela mulher teria problemas de autoconfiança ou de conseguir pretendentes. No entanto, seu jeito titubeante de encarnar aquela secretária (ou assistente) nos faz crer em sua inabilidade. A atriz realmente rouba o filme depois de se transformar em Mulher-Gato, tanto dentro ou fora do uniforme. O humor impresso em sua performance, misturado à sensualidade do papel, são muito bem explorados por Pfeiffer, tornando-se a intérprete definitiva do personagem (Anne Hathaway terá de suar para conseguir um resultado superior).

Enquanto isso, Danny DeVito está embaixo de pesada maquiagem para viver o sórdido Pinguim, em outra criação desta produção comandada por Tim Burton. Nunca o vilão foi um sujeito deformado nos quadrinhos, mas esta invencionice do diretor acaba surgindo como algo coerente dentro daquele universo. Asqueroso como um bom vilão deve ser, DeVito só é sabotado por não ganhar destaque no confronto final, deixado de lado por um personagem criado para o filme, o ardiloso Max Schrek – que, no roteiro original, seria Harvey Dent, o futuro Duas-Caras. Apesar de ser interpretado por Christopher Walken de forma divertidamente repudiosa, este vilão é uma adição excessiva a um elenco já inchado por demais. E, convenhamos, com tantos bons nomes na galeria de antagonistas de Batman, não era necessário criar um novo em folha para o filme.

Deixei Michael Keaton por último de propósito, já que ele ganha espaço diminuto em um filme que deveria ser seu. Assim como no primeiro Batman, o ator continua encarnando de forma correta o herói mascarado. É importante lembrar que boa parte do público reclamava da escalação de Keaton no papel, que pode mostrar ser uma aposta certa ao interpretar de forma sombria o Homem-Morcego. Nesta continuação, a boa performance continua, com espaço ainda para uma ótima química entre o ator e Michelle Pfeiffer. Só é uma lástima que Alfred (Michael Gough) e o Comissário Gordon (Pat Hingle) ganhem nada a fazer em ambos os filmes comandados por Tim Burton.

Com uma Gotham City novamente gótica, reaparecendo como uma personagem por si só em Batman – O Retorno, e trazendo de novo o bom trabalho de Danny Elfman na trilha sonora, Burton realizou um filme com sua cara, que tem predicados que o fazem ser apontado como o melhor da primeira franquia. Acredito que os dois filmes comandados pelo cineasta se equivalem em qualidade, com prós e contras em ambos. Uma pena que o cineasta não retornaria para fechar uma trilogia, deixando o cargo para Joel Schumacher em Batman Eternamente. Acredito que todos saibam o que resultou disso.

Batman – O Retorno (Batman Returns)
EUA – 126 minutos – Aventura
Dir.: Tim Burton
Roteiro: Daniel Waters, baseado em história de Sam Hamm
Com Michael Keaton, Michelle Pfeiffer, Danny DeVito, Christopher Walken, Pat Hingle, Michael Gough
Cotação Paradoxo: Vale 85% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de Batman – O Retorno:

Batman

Dançando com o demônio sob a luz do luar

No final dos anos 80, o público que não lia quadrinhos conhecia apenas o Batman colorido do seriado de tevê estrelado por Adam West nos anos 60. As onomatopéias que cobriam toda a tela, a música animada, os vilões rocambolescos e, claro, a silhueta um tanto avantajada do ator lembravam pouco o personagem criado por Bob Kane no final da década de 30, na revista Detective Comics. De qualquer forma, o sucesso da série fez com que aquela equivocada versão do herói ficasse conhecida do grande público. E foi assim por anos. Até que um semi-desconhecido Tim Burton, diretor das comédias As Grandes Aventuras de Pee-Wee e Os Fantasmas se Divertem, foi convidado para assinar Batman, um longa-metragem que tentava ressuscitar as raízes sombrias do personagem depois da boa resposta de público e crítica para a graphic novel O Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller, lançada em 1986. Arrasa-quarteirões do ano de 1989, o filme estrelado por Michael Keaton e Jack Nicholson provou que uma campanha de marketing bem estruturada, atrelada a uma abordagem séria de um herói famoso dos quadrinhos, poderia dar muito certo.

Com roteiro de Sam Hamm e Warren Skaaren, o filme do homem-morcego não perde tempo contando como Bruce Wayne (Keaton) tornou-se Batman. Quando a história começa, o Cavaleiro das Trevas já amedronta os bandidos da cidade, utilizando sua assustadora fantasia de morcego para criar sua lenda. A imprensa de Gotham, na figura do repórter Alexander Knox (Robert Wuhl), tenta de todas as formas provar a existência da figura mascarada que vem ajudando a polícia a solucionar crimes. O mistério atrai a bela fotógrafa Vicki Vale (Kim Basinger), que pretende ajudar Knox na caçada ao homem-morcego. A vida do herói será dificultada após o surgimento do perigoso e amalucado Coringa (Nicholson), um sujeito que pretende causar o caos em Gotham, colocando o seu sorriso forçado nos lábios dos cidadãos da cidade e sonhando ter seu rosto impresso nas notas de um dólar.

O que primeiro chama a atenção em Batman é a direção de arte. Gotham City é mostrada como uma cidade suja, gótica, violenta. Local perfeito para um vigilante vestido de preto fazer a diferença. Curiosamente, Tim Burton escolhe não colocar seu filme em um período exato de tempo. Portanto, homens são vistos usando chapéus, sobretudos, como se estivéssemos na década de 30, mas a tecnologia vista na tela é superior ao que encontrávamos nos anos 80. Poderia parecer um anacronismo da parte do cineasta, mas é simplesmente uma forma de colocar sua história em outro universo. Em outra dimensão.

À época do lançamento de Batman, Tim Burton foi bastante criticado por ter escalado Michael Keaton como o protagonista do filme. A resposta inicial do público foi tão negativa que milhares de cartas foram enviadas aos estúdios Warner com reclamações sobre aquela discutível escolha. Os anos passaram, Batman Eternamente e Batman & Robin vieram, deixando claro que Michael Keaton, no fim das contas, era a melhor alternativa para o papel. Se é verdade que a baixa estatura do ator e seu background em filmes cômicos deixava qualquer fã apreensivo, é igualmente verdadeiro que, quando fantasiado, Keaton conseguia fazer de Batman uma figura taciturna e ameaçadora – como deveria ser. Utilizando um tom de voz mais grave, ele pode ter sido o primeiro ator a encarar o herói como uma figura mais sombria – o que seria feito à perfeição por Christian Bale em Batman Begins e os demais longas de Christopher Nolan. Como Bruce Wayne, Keaton escolheu um approach igualmente interessante. Quando sozinho, uma figura calada, pensativa. Quando junto de Vicki Vale ou de outras pessoas, um tanto atrapalhado, excêntrico.


Por falar na mocinha do filme, Vicki Vale foi a única personagem que envelheceu mal. Naquela época, uma atriz interpretar a donzela em perigo não parecia tão ridículo como nos dias de hoje. Basta conferir os longas-metragens de super-heróis da atualidade para observar que as mulheres têm papel mais ativo nas tramas do que apenas ser o interesse amoroso do protagonista, servindo até como companheira nas aventuras de seus namorados – vide os recentes O Espetacular Homem-Aranha, Homem de Ferro 2, Capitão América: O Primeiro Vingador e Batman - O Cavaleiro das Trevas, entre tantos outros. Em Batman, além de interpretar a donzela em perigo, Kim Basinger vive uma mulher grudenta, mal tendo um encontro com Bruce Wayne e já o perseguindo e o cobrando por atenção. Se isso já não é ruim o bastante, este comportamento difere completamente do que a trama estabelecia para a personagem, uma mulher inteligente, independente e sem medo de enfrentar perigos por uma boa foto – vide a capa da Time, durante a revolução de Corto Maltese. Esta, infelizmente, não é a única incongruência em relação à personalidade de alguns personagens. Alfred (Michael Gough), por exemplo, abre as portas da batcaverna, revelando o segredo de seu patrão, em uma atitude que não lembra em nada a conduta discreta e correta do eterno mordomo da família Wayne.

Para os fãs, essas e outras invencionices, como o fato de o Coringa ser o responsável pela transformação de Batman – e vice-versa – acabam incomodando. Mas, ao menos, o tom da história é mantido de forma bastante próxima do que poderíamos esperar de um personagem que é conhecido com o Cavaleiro das Trevas.

Desnecessário dizer que um grande herói necessita de um grande antagonista para combater. E Jack Nicholson foi a escolha perfeita para interpretar o arquirrival do homem-morcego, o brincalhão e perigoso Coringa. Caprichando nestas duas principais características do vilão, Nicholson é pura anarquia em sua interpretação de Coringa, parecendo se divertir ao encarnar um personagem tão irresponsavelmente letal. A narrativa despende um bom tempo nos apresentando ao palhaço do crime, lhe dando uma origem que o liga eternamente ao homem-morcego. Mesmo sendo uma gênese diferente dos quadrinhos – normal, visto que são linguagens diferentes – esta ligação entre os dois freaks de Gotham City acaba impulsionando a história, dando um peso maior à inimizade entre os personagens. A principal lambança é o desfecho dado ao Coringa, impossibilitando seu retorno nos longas seguintes.

Com trilha sonora escrita sob medida por Danny Elfman, que dá um tema inesquecível para o Cavaleiro das Trevas, Batman foi um grande sucesso não só pela história e pela boa execução, mas também pelo massivo trabalho de marketing da Warner, que colocou o personagem aos olhos e ouvidos de todos. Seguido de uma excelente continuação (que muitos apontam ser superior ao original) e de duas outras equivocadas sequências, o longa-metragem de Tim Burton foi a prova real de que filmes de super-heróis poderiam ser interessantes para o público e financeiramente viáveis para os estúdios. Fato que, hoje em dia, não poderia ser mais verdadeiro.

Batman
EUA - 126 minutos - Aventura - 1989
Dir.: Tim Burton
Roteiro: Sam Hamm e Warren Skaaren
Com Jack Nicholson, Michael Keaton, Kim Basinger, Michael Gough, Pat Hingle, Robert Wuhl, Jack Palance, Billy Dee Williams
Cotação Paradoxo: Vale 85% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de Batman:

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Valente

O arco e o urso

Qualquer crítica sobre um novo filme da Pixar precisa, obrigatoriamente, reverenciar o passado do estúdio que presenteou ao espectador pérolas como a trilogia Toy Story, Procurando Nemo, Wall•E e Ratatouille. Mesmo que o seu trabalho mais recente tenha sido o embaraçoso Carros 2, é necessário lembrar de que não estamos falando de qualquer estúdio chinfrim. Dito isso, foi com certa curiosidade que fui assistir a Valente, pensando se a Pixar conseguiria se recuperar do resultado aquém das expectativas alcançado em seu filme anterior. A resposta é um sim, mas com ressalvas. Ainda que seja infinitamente superior a Carros 2, Valente não chega a ser a obra prima que estamos acostumados a receber do estúdio capitaneado por John Lasseter.

Com direção de Brenda Chapman (O Príncipe do Egito) e dos estreantes Mark Andrews e Steve Purcell, que também trabalham como roteiristas ao lado de Irene Mecchi (O Rei Leão), Valente leva o seu público para a Escócia do século X, onde vivem a rainha Elinor (com voz original de Emma Thompson), o rei Fergus (Billy Connoly) e a rebelde princesa Merida (Kelly Macdonald). Chegado o momento de oferecer a mão de sua jovem filha em casamento, os monarcas do clã DunBroch convidam os outros três clãs amigos para uma competição que resolverá a questão do pretendente de Merida. O problema é que a menina não tem intenção alguma de aceitar seu destino, preferindo continuar sua vida de aventuras com seu arco e flecha. Percebendo que a rainha está irredutível quanto ao seu futuro casamento, a jovem ruiva faz um pacto com uma bruxa esquisita (Julie Walters) que lhe concede um pedido um tanto vago: “mude minha mãe”, lhe pede Merida. E ela o faz. Mas não sem um preço.

Como de praxe, a qualidade de animação da Pixar é estupenda. Os cabelos da jovem Merida, vermelhos, encaracolados e um tanto esvoaçantes, são incrivelmente bem desenhados, assim como toda uma gama de curiosos personagens, desde os fortes ursos até os mais minguados pretendentes da princesa. Sem grandes novidades narrativas, Valente utiliza um rápido prólogo para nos situar naquele universo ligeiramente fantástico, logo nos colocando a par do problema a ser resolvido na história: a falta de cumplicidade entre mãe e filha. O choque de gerações e as pressões de uma tradição milenar são temperos colocados pelo roteiro, que desenrola de forma apropriada – e educativa – as crises familiares. Ao menos, até a metade do filme. Merida é uma jovem que deseja construir seu próprio futuro e não vê razão em seguir um costume antigo. Já Elinor não entende como a filha pode ser tão rebelde a ponto de não compreender que esta tradição faz com que a harmonia entre os clãs seja mantida. Estes e outros problemas são colocados em pauta. Uma pena que a solução, que em outros filmes do estúdio seria resolvida de forma mais cativante e naturalista, seja encontrada em meio a uma transformação inusitada, que coloca todas as certezas da princesa e da rainha em cheque.

Dos filmes da Pixar, este é o que mais se parece com uma animação Disney. Muitos devem acreditar que os dois sempre foram farinha do mesmo saco. Mas se engana quem pensa desta forma. Mesmo parceira do império de Mickey Mouse desde sua criação, a casa do cowboy Woody, do astronauta Buzz Lightyear e do peixinho Nemo foi, em sua gênese, um estúdio que trabalhava independentemente. Isso só mudou em 2006, com a aquisição da Pixar pela Disney. Mas vamos às semelhanças: começam pelo fato de a protagonista ser uma princesa. Mesmo que não necessariamente meiga como Branca de Neve ou Bela Adormecida, Merida é sangue azul total, engordando a lista de bonecas a serem vendidas pelas lojas de brinquedos. A carga fantástica do roteiro, que envolve bruxas, feitiços e transformações não escapa de comparações com contos de fada recorrentes nos clássicos Disney. Também pesa a mudança que sofrem certos personagens em Valente, lembrando muito filmes como Irmão Urso e A Princesa e o Sapo.

Esta constatação de que Pixar e Disney estão cada vez mais parecidas não deixa de ser preocupante. Ainda que lance (algumas) animações divertidas, o padrão de qualidade da empresa do velho Walt Disney decaiu bastante no final da década de 90, coincidentemente na época em que a Pixar começou a se sobressair. Caso esta contaminação continue ocorrendo – e as continuações anunciadas para o futuro como Monstros S.A. 2 e Procurando Nemo 2 levam a crer que sim – podemos estar observando o declínio de um dos estúdios mais confiáveis e criativos deste novo milênio. Resta a nós, espectadores, torcer que estas novas sequências estejam muito mais próximas da trilogia Toy Story do que de Carros 2.

Carregando na emoção em seu terceiro ato, o longa-metragem relembra a velha máxima que guia muitos dos trabalhos da Pixar: dê ao público personagens vivos, com quem eles se importem e as lágrimas e os sorrisos virão. Merida é um bom exemplo disso, assim como o rei e a rainha de DunBroch. Se não é um grande clássico instantâneo da Pixar, Valente ao menos diverte o suficiente, ensina uma lição interessante para seu público mais jovem e entretém o público adulto com sua animação caprichada.

Valente (Brave)
EUA – 100 minutos – Aventura
Dir.: Mark Andrews, Brenda Chapman e Steve Purcell
Roteiro: Mark Andrews, Brenda Chapman, Steve Purcell e Irene Mecchi
Com as vozes de Kelly Macdonald, Billy Connoly, Emma Thompson, Julie Walters, Robbie Coltrane, Kevin McKidd
Cotação Paradoxo: Vale 72% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de Valente:

Na Estrada

Paradise

Lançado em 1957 pelo escritor Jack Kerouac, On the Road é um daqueles livros que parecem sagrados para os admiradores. As razões são várias: a temática libertária, a crítica à sociedade norte-americana careta do final da década de 40 e início dos anos 50, o abuso de alucinógenos e o sexo livre, o sonho de se colocar o pé na estrada e deixar que ela guie os passos do sujeito. Por essas e outras, o trabalho de Kerouac falou tão alto e até hoje é colocado no panteão dos grandes livros lançados por escritores estadunidenses. Por carregar esta importância, e pelo fato de ser um romance extenso, autobiográfico, muitos tentaram, mas poucos conseguiram transportar os escritos do escritor beat para os cinemas. Dentre estes poucos está Walter Salles, diretor brasileiro que foi contratado por Francis Ford Coppola para dar vida aos personagens Sal Paradise e Dean Moriarty em Na Estrada, a esperada adaptação para a telona de On The Road. O resultado nunca é excepcional, mas Salles consegue, ainda que aos trancos e barrancos, construir um filme que carrega o gene beatnik em cada fotograma.

Com roteiro de Jose Rivera, Na Estrada transporta o espectador para 1947, quando Sal Paradise (Sam Riley, de Control) e Dean Moriarty (Garrett Hedlund, de Tron: O Legado) se conhecem. Sal acabou de perder o pai e, em meio ao luto, encontra em Dean uma pessoa que curte a vida como poucos. Esta loucura de Moriarty conquista Paradise, que começa a andar com o novo amigo, junto de seus velhos parceiros Carlo Marx (Tom Sturridge) e Chad King (Patrick John Costello). Convidado por Dean e Carlo para encontrá-los em Denver assim que possível, Sal resolve partir para a estrada, pegando carona e se arranjando como pode. Em meio a esta jornada, Paradise conhecerá muita gente interessante – mas talvez, nenhuma pessoa tão maluca quanto Dean.

Jose Rivera sabiamente concentra maior parte do roteiro na amizade entre os dois protagonistas. Enquanto o romance dá bastante espaço para a trajetória de Sal – afinal de contas, é um livro em primeira pessoa – o filme focaliza mais nos momentos em que os amigos estão juntos. É uma alternativa inteligente ao adaptar uma obra extensa e verborrágica como a de Jack Kerouac. O problema é querer abraçar o mundo, como às vezes parece que o trabalho de Walter Salles se pretende. É impossível colocar todos os personagens e todas as situações que Kerouac conta em sua disfarçada autobiografia. São necessários cortes – de vez em quando dolorosos – em trechos que podem parecer importantes. Um exemplo disso é a personagem Terry, vivida por Alice Braga. No livro, a mexicana que vira namorada de Sal tem certa relevância, com o autor deixando um bom tempo para desenvolver a relação entre os dois. No filme, Salles parece cumprir protocolo ao colocá-la dentro da trama, fazendo com que ela apareça durante cinco minutos, algo que acaba não fazendo diferença alguma no todo. O que é melhor? Economizar o espectador de cinco minutos que não vão a lugar algum ou tentar fazer um checklist de personagens que não ganharão espaço suficiente? Melhor excluir Terry de vez e suprimir este tempo desnecessário.

Lógico que existem alguns papeis que não podem ser limados de forma alguma e, se não recebem o destaque necessário, ao menos não fazem feio. É o caso de Old Bull Lee (Viggo Mortensen) e sua esposa, Jane (Amy Adams) que surgem como figuras completamente fora de órbita – algo que fecha completamente com o material original.

Falando nisso, os apreciadores das transposições fiéis ficarão igualmente felizes e aterrorizados com Na Estrada. Felizes por ouvirem falas e diálogos iguais aos das páginas do romance, como se os atores estivessem lendo em voz alta as linhas de Jack Kerouac. Aterrorizados por perceberem mudanças que parecem arbitrárias – como o fato de Sal ter perdido o pai antes de conhecer Dean, quando, no livro, ele está sofrendo com seu divórcio. Ou a mudança de parentesco entre Sal e sua tia, que no filme se transforma em mãe. Mas o pior de todas as transposições é a falta de sutileza. Walter Salles tira de On The Road algumas questões que são apenas sugeridas, as tornando óbvias para o espectador. Um exemplo é a paixão de Carlo Marx por Dean Moriarty, que nunca é tocada explicitamente na obra original. Ou deturpações que roubam de personagens características importantes, como o fato de Marylou (Kristen Stewart) ir para a cama com Sal. Algo que o narrador deixa bastante claro é o fato de a moça fazer charme, mas nunca transar com ele. Depois de certo tempo, Sal entende que Marylou apenas o seduzia para manter-se interessante para Dean. Mesmo com esses e outros exemplos, é possível considerar Na Estrada uma obra fiel ao livro, dada a reverência ao texto em grande parte da trama.

O elenco captura bem as nuances dos personagens e mais satisfatório do que ver Sal e Dean é ouvi-los. Sam Riley e Garrett Hedlund têm vozes e cadências de fala muito peculiares, enriquecendo muito suas atuações. Riley tem um registro vocal rouco e capricha no sotaque, lembrando muito o de Jack Kerouac. Hedlund, por outro lado, possui uma voz forte, grave, dando uma interessante intensidade ao personagem. Ele, inclusive, é um bom motivo para se conferir Na Estrada. Conseguindo transmitir toda a loucura tresloucada de Moriarty, mas sem torná-lo totalmente insuportável (diferente do livro, diga-se), Hedlund vive uma figura que vive de forma intensa, é nada confiável, pensa que ama a todos, mas preocupa-se apenas com o próprio umbigo. Amante inveterado, usa as mulheres como bem entende, sem nunca prender-se a ninguém. Walter Salles dá maior espaço para estas esposas de Dean no filme, com destaque para as boas performances de Kristen Stewart e Kirsten Dunst.

Se do começo para o meio, o diretor parece incluir muita coisa desnecessária apenas por uma questão de fidelidade à obra, do meio para o final o filme faz um ótimo trabalho em cortar as gorduras do romance, deixando a história fluir de forma mais suave. O sumo de On The Road está ali, mesmo que existam alguns problemas de ritmo – problemas estes que o próprio livro possuía. Desigual, mas ainda interessante, Na Estrada é um longa-metragem que, no fim das contas, consegue fazer jus ao seu material original - certamente, uma das maiores preocupações dos admiradores da obra de Kerouac.

Na Estrada (On the Road)
EUA / Brasil / França / Reino Unido – 137 minutos – Drama
Dir.: Walter Salles
Roteiro: Jose Rivera
Com Sam Riley, Garrett Hedlund, Kristen Stewart, Kirsten Dunst, Viggo Mortensen, Amy Adams, Tom Sturridge, Elisabeth Moss, Terrence Howard, Alice Braga, Steve Buscemi
Cotação Paradoxo: Vale 75% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de Na Estrada:

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Histórias que Só Existem Quando Lembradas

Cidade Fantasma

Histórias que só Existem Quando Lembradas é a estreia de Julia Murat nos filmes de ficção, convidando o espectador a conhecer uma localidade perdida no interior do Brasil. Um lugar onde os habitantes, todos idosos, percorrem os mesmos caminhos, passam pela mesma rotina, dividem as refeições e a comunhão na decrépita igreja do vilarejo. É lá que encontramos a teimosa padeira Madalena (Sonia Guedes) e seu amigo, o não menos cabeça-dura Antonio (Luiz Serra), dono do armazém do lugar. Os dois passam pelo mesmo ritual diário, conversam sobre as mesmas coisas e chegam às mesmas conclusões de outrora. Isso até aparecer uma jovem andarilha, uma curiosa fotógrafa, que coloca aquela vila e seus habitantes em estado de alerta.

O roteiro de Histórias que só Existem Quando Lembradas é de Julia Murat, Maria Clara Escobar e Felipe Sholl e se concentra, num primeiro momento, em nos mostrar a rotina daquela região, a vagareza dos habitantes, os costumes enraizados naquela gente. Passado isso, conhecemos Rita (Lisa E. Fávero), a fotógrafa, que chega pedindo pouso à Madalena – prometendo que ficaria ali por apenas uns dias. Uma relação de estranheza inicial surge, logo substituída por um respeito mútuo. Rita tira fotos do local e se mostra curiosa com os costumes daquele povo. Os habitantes da vila, por sua vez, a vêem com certa hostilidade de início, mas logo se acostumam com aquela nova presença. A principal curiosidade de Rita é visitar o velho cemitério que, não se sabe por que, permanece sempre fechado. Logo, a jovem fotógrafa descobrirá o real motivo.

A temática da morte e da passagem do tempo são caras ao roteiro. Madalena, por exemplo, não vive sem lembrar-se do falecido marido, se dando ao trabalho de lhe escrever cartas que, óbvio, nunca serão entregues. Tudo levaria a crer que Madalena conta os minutos para que sua própria morte a leve para junto de seu amado Guilherme. No entanto, o passar do tempo e sua vida naquele vilarejo lhe mostram que o seu final pode estar muito longe. O contraste entre a juventude de Rita e o cansaço de Madalena é tocado pelo roteiro, que coloca aquelas duas mulheres dentro da mesma casa, apresentando alguns choques de geração.

O filme é bastante lento ao apresentar suas idéias, mas foi realizado deliberadamente desta forma. De que jeito teríamos a sensação do tempo morto em que vivem aqueles personagens não sendo em uma narrativa mais pausada? É bem verdade que o plot caberia em um curta-metragem. Mas se fosse o caso, não teríamos a mesma impressão daquela pasmaceira em um trabalho mais curto. Rita não demoraria para conquistar os habitantes daquela vila e não teríamos o mesmo sentimento de solidão que aqueles minutos silenciosos nos transmitem. É crucial para a narrativa de Histórias que só Existem quando Lembradas este tempo ao tempo dado por Julia Murat, para que as peças se encaixem de forma correta e coerente com a proposta.

Firmemente situado no gênero do realismo fantástico, bucólico e reflexivo, o longa-metragem de Julia Murat é um interessante primeiro trabalho de ficção da cineasta – profissional que deve ter aprendido alguma coisa ou outra com sua mãe, a excelente diretora Lucia Murat. Filme de fôlego, mas que, como já falado, requer uma paciência maior do espectador devido a lentidão da narrativa, Histórias que só Existem Quando Lembradas pode até demorar para revelar seus segredos. Mas quando eles são descobertos, a trama faz com que o tempo investido tenha valido a pena.

Histórias que só Existem Quando Lembradas
Brasil / França / Argentina – 100 minutos – Drama
Dir.: Julia Murat
Roteiro: Julia Murat, Maria Clara Escobar, Felipe Sholl
Com Sonia Guedes, Lisa E. Fávero, Luiz Serra
Cotação Paradoxo: Vale 88% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de Histórias que Só Existem quando Lembradas:

segunda-feira, 16 de julho de 2012

E aí... Comeu?

Bar Harmonia

E aí... Comeu? se propõe a colocar as conversas masculinas de bar nas telas do cinema. E, de alguma forma, alcança o seu objetivo. Ao menos, um retrato do que são os papos no imaginário popular e um tanto machista de uma parcela do Brasil. Bruno Mazzeo (de Cilada.com), Marcos Palmeira (de Bela Noite para Voar) e Emílio Orciollo Netto (de O Palhaço) fazem a trinca de amigos que, regados a muita cerveja, contam suas aventuras sexuais, tecem comentários jocosos sobre o próximo e, claro, desenvolvem teorias e ditos cheios de sabedoria de botequim. Comédia desbocada e pecando no excesso de clichês, E aí... Comeu? ao menos consegue divertir minimamente com algumas boas piadas e situações.

Com roteiro de Lusa Silvestre (de Estômago) e Marcelo Rubens Paiva, baseado em peça homônima deste último, o longa-metragem dirigido por Felipe Joffily (de Muita Calma Nessa Hora) conta a história de Fernando (Mazzeo), Honório (Palmeira) e Afonso (Netto), amigos inseparáveis, que adoram se encontrar e conversar bobagens na mesa de bar, mas que, em suas vidas “reais”, enfrentam problemas bastante sérios. Fernando acabou de se separar da mulher e descobre que, além de ainda ter sentimentos pela ex, anda bastante enferrujado em seu retorno à solteirice. Honório, por sua vez, é casado com Leila (Dira Paes, de Estamos Juntos), tem três filhas, mas não está feliz com a relação. Os dois costumam fazer programas separados e mal se comunicam quando juntos. Enquanto isso, Afonso é o legítimo galinha, homem que nunca se compromete com mulher alguma, adora prostitutas, surubas e afins. Escritor fracassado, não consegue terminar o livro que está escrevendo. Na mesa do bar Harmonia, estes três amigos vão jogar conversa fora enquanto tentam resolver suas vidas.

Contrário ao que o apelativo trailer pressupunha, E aí... Comeu? não tem apenas piadas sexistas em seu enredo. Elas são a maioria. Mas existe uma preocupação em mostrar o background de cada um dos personagens centrais, dando um pouco mais de profundidade aos até então clichês ambulantes. Isso é um ponto positivo deste novo trabalho de Felipe Joffily, que parece ter aprendido com seus erros em Muita Calma Nessa Hora, no qual superficialmente mostrava seus protagonistas passando do ponto A ao ponto B da trama, sem nunca conseguir desenvolver nada de muito concreto. Mesmo que não seja algo realmente profundo – afinal de contas, estamos vendo uma comédia, não um drama intimista – o roteiro consegue capturar um pouco da essência daqueles amigos, construindo alguma estrutura dramática. Não fosse isso, o filme seria uma porção de piadas desconexas – como acontece de vez em quando, nos momentos em que o diretor abandona a narrativa para tentar fazer rir com invencionices, como Honório comentando in loco as aventuras sexuais de Afonso.

Com um bom elenco feminino, infelizmente subutilizado, E aí... Comeu? rende boas piadas quando se concentra nas desventuras do trio principal, muito mais do que quando está fixo na mesa de bar. Isso por causa do batalhão de lugares-comuns que são despejados pelos protagonistas durante estas cenas. Para as mulheres, o filme pode parecer uma confirmação de tudo o que elas imaginavam que os homens conversam longe delas. Já o público masculino pode se dividir em dois grupos: aqueles que se enxergam nos personagens e aqueles que não poderiam ser mais diferentes. O erro aqui, talvez, é tentar soar definitivo, como se qualquer reunião masculina acabasse em prostíbulos, como se qualquer conversa se resumisse a bundas, peitos e cor de cabelo, como se qualquer garçom fosse o Seu Jorge – Ok, essa até foi uma boa piada do filme. Não basta estampar no cartaz que esta é “a primeira comédia verdadeira sobre amor” ou citar no trailer que “tudo o que se fala em uma mesa de bar” estará nos cinemas. É necessário colocar isso realmente na tela.

O elenco principal, ao menos, não decepciona. Nenhum dos personagens surge como um desafio para os atores, principalmente nas cenas em que as piadas são a tônica. Observando os erros e acertos de E aí... Comeu?, é possível notar que houve um esmero de Felipe Joffily em entregar um trabalho mais redondo do que seus filmes anteriores, conseguindo divertir, apesar das ideias um tanto recicladas e dos lugares-comuns aos montes. Se nada mais se salvar, o filme manda o espectador para casa assoviando a ótima “Sou criança não entendo nada” de Erasmo Carlos, música que fecha o longa-metragem lá em cima.

E aí... Comeu?
Brasil – 100 min – Comédia
Dir.: Felipe Joffily
Roteiro: Marcelo Rubens Paiva e Lusa Silvestre
Com Bruno Mazzeo, Marcos Palmeira, Emílio Orciollo Netto, Dira Paes, Tainá Müller, Laura Neiva, Juliana Schalch, Murilo Benício, José de Abreu, Seu Jorge
Cotação Paradoxo: Vale 68% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de E aí... Comeu?:

quarta-feira, 11 de julho de 2012

A Guerra dos Botões

Bo–Tize–Ma–Caram–Gal–Gad–Truff–Snick–Bus–Ki–Cav

Existiu uma época em que as crianças saíam de casa para brincar. Passeavam nos parques, andavam de bicicleta, jogavam bola. Até acredito que isso aconteça de vez em quando nos dias de hoje, mas muito menos do que no passado. O advento do computador e do vídeo game, junto do perigo que é uma criança andar nas ruas sozinho, acabou por internalizar as brincadeiras infantis. Por isso, é um tanto nostálgico conferir um longa-metragem como A Guerra dos Botões, aventura juvenil ambientada na França dos anos 60. Ali, ainda temos crianças brincando juntas, desbravando o bairro, criando animosidades com turmas distintas. Nada mais normal. Quem não tinha uma rixa com a turma da rua de baixo na infância? Com o pessoal de outro colégio? De outro bairro? Por essas e outras, por incrível que pareça, talvez o filme escrito e dirigido por Yann Samuel (de Com Amor... Da Idade da Razão) funcione melhor com os adultos, que lembrarão sua infância e se enxergarão nos personagens. Para a criançada, o mundo ali proposto pode parecer muito distante de sua realidade, ainda que guarde boas piadas e situações.

Na trama, baseada no popular livro de Louis Pergaud, os meninos da turma de Longeverne, capitaneados pelo destemido Lebrac (Vincent Bres), estão sempre em guerra com os Velran, garotos de outro colégio, comandados pelo não menos corajoso L’Aztec (Théo Bertrand). O maior prêmio nestes embates são os botões das camisas dos inimigos, que além de servirem como um troféu, fazem com que a criança em questão tenha problemas com os pais ao chegarem em casa. O professor da Longeverne, Merlin (Eric Elmosnino), enxerga em Lebrac um grande potencial, mesmo que ele sempre esteja envolvido em confusões. Conversando com a mãe do garoto (Mathilde Seigner), Merlin decide indicá-lo a uma bolsa de estudos, o que o deixaria longe de sua turma. Mas será que o garoto conseguirá deixar seus amigos para trás?

Em um primeiro momento, A Guerra dos Botões parece dar um mau exemplo para a criançada. Afinal de contas, guerra nunca é boa, seja com adultos ou crianças. As brigas entre os meninos, apesar de nunca chegarem a extremos, tem certa brutalidade, com pedaços de madeira, frutas ou qualquer outra coisa que possa ser atirada contra seus inimigos. Mas, felizmente, é possível notar um grau de consciência naqueles personagens, que entendem o que estão fazendo e que sabem que não podem ultrapassar os limites. Isso é tão verdadeiro que, em uma cena perto do final, esta linha chega a ser apagada por um dos meninos, que é visto com surpresa por seus amigos, que não esperavam tamanha brutalidade em suas atitudes.

Passado este incômodo inicial com a temática da guerra, descobrimos que, na verdade, o que importa no filme não são os combates. Não é a inimizade entre os meninos. O que fala mais alto é o contrário. É a amizade entre os parceiros de batalha, é o respeito que um garoto tem pelo outro, é a ingenuidade infantil misturada a responsabilidades de adultos, em tentar mudar o status das coisas. Lebrac, por exemplo, perdeu o pai e, desde então, tem feito os trabalhos para botar a fazenda onde vive com a mãe e as irmãs para funcionar. Não bastasse isso, ainda estuda e comanda sua turma de amigos. Para ele, a palavra liberdade é algo que parece distante, mas que vale a pena brigar. Talvez observando-se em Lebrac, já que fora também líder dos Longeverne quando criança, o professor Merlin nota que apesar do exterior rude, o menino tem potencial para um futuro promissor. É assim que surge uma amizade entre o garoto e o professor, nunca óbvia, mas construída em olhares e pequenas conversas.

As meninas não ficam de fora da história de A Guerra dos Botões, com a benvinda inclusão da corajosa Lanterne (Salomé Lemire), que acaba ajudando os garotos em seus combates. Vista como uma intrusa de início, Lanterne vai ganhando a confiança dos meninos ao provar que é uma valiosa parceira de batalhas. Até onde sei, a personagem inexiste no romance e nas adaptações cinematográficas anteriores, sendo uma invenção acertada do diretor/roteirista Yann Samuell. Sua exclusão em uma das batalhas, a famosa cena onde os meninos pensam em uma forma de não perderem seus botões em guerra, é explicada de forma engraçada. O bom humor, lógico, é um dos pontos altos de A Guerra dos Botões, com o adorável garotinho Tigibus (Tristan Vichard) sendo fonte de muitas das risadas do filme.

Com tom saudosista, o longa-metragem de Yann Samuell surge como uma versão simpática do conhecido livro francês, não empalidecendo pelo fato de ser a quarta adaptação da obra de Louis Pergaud para o cinema. Apesar de os adultos conseguirem maior identificação ao buscar em sua infância aqueles personagens vistos na telona, a criançada deve se divertir com as brincadeiras e embates daqueles personagens. Mesmo que, para muitos, brincar na rua pareça algo completamente distante. Sinal dos tempos.

A Guerra dos Botões (La guerre des boutons)
França – 109 minutos – Comédia
Direção e Roteiro: Yann Samuell
Com Eric Elmosnino, Mathilde Seigner, Fred Testot, Alain Chabat, Vincent Bres, Salomé Lemire, Théo Bertrand, Tristan Vichard
Cotação Paradoxo: Vale 86% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de A Guerra dos Botões: