Pagliacci
Continuando sua excursão pela Europa, depois de ter filmado em Londres, Barcelona e Paris, Woody Allen visita Roma para colocá-la como cenário de sua nova comédia. Intitulada primeiramente como Bop Decameron (com uma mudança posterior também descartada como Nero Fiddled), Para Roma com Amor é uma comédia dividida em quatro núcleos, cada um contando uma história distinta e nada relacionada com as demais. Irregular como filmes episódicos costumam ser, o novo longa-metragem escrito e dirigido por Woody Allen tem no próprio – atacando novamente como ator – um de seus principais destaques.
No filme, acompanhamos quatro histórias ambientadas em Roma. Em uma delas, Alec Baldwin (do seriado 30 Rock) retorna ao local onde morava quando jovem e encontra uma espécie de versão de si mesmo, interpretado por Jesse Eisenberg (de A Rede Social), que está às voltas com um romance com a melhor amiga de sua namorada. Em outra, Woody Allen é o pai de uma americana prestes a casar com um advogado italiano. Ao conhecer os pais do noivo, Woody se depara com um diamante bruto no mundo musical. Na terceira trama, um casal do interior está passando alguns dias em Roma, mas uma série de desencontros faz com que o rapaz esbarre com uma bela prostituta enquanto sua esposa conhece o ator de seus sonhos. Por fim, Roberto Benigni (de A Vida é Bela) vive um sujeito comum que, do dia para a noite, vira uma celebridade conhecidíssima, sem nenhum motivo aparente.
Diferente de Tudo o que você sempre quis saber sobre Sexo e Tinha Medo de Perguntar, filme em episódios que Woody Allen dirigiu em 1972, no qual os sete curtas-metragens eram histórias fechadas, que não se costuravam de forma alguma, em Para Roma com Amor o cineasta decidiu mostrar as quatro tramas de forma paralela. Isso não chega a ser novidade, visto que muitos fazem o mesmo. No entanto, as histórias acabam perdendo a força com o passar do tempo. Talvez fossem melhor contadas como quatro curtas fechados. Desta forma, ao menos, a narrativa não esqueceria de alguns segmentos no meio do caminho. Do segundo para o terceiro ato, por exemplo, o núcleo de Allen mal aparece. Em compensação, o de Benigni ganha um destaque que não faz sentido, por ser uma história que não se sustenta por muito tempo. Existe ali uma boa piada, que é esticada até seu esgotamento, perdendo muito a força. Isso sem mencionar o personagem que explica a moral da história em seu desfecho, no caso, o motorista de Benigni, que soletra para o espectador o que vimos até então. Naquele momento, Woody Allen menospreza o seu público, o que é uma lástima. Ainda que seja uma interessante crítica sobre a forma cretina como as celebridades são criadas e como a fama é algo efêmero, a história centrada em Benigni simplesmente não se sustenta até o final.
Os segmentos mais interessantes são os centrados no personagem de Allen, hilário como um ex-produtor musical que se encanta pelos talentos vocais do sogro da filha, e de Baldwin, que serve como consciência de uma história que, nunca fica claro, espelha seu passado na Itália. Na trama do produtor musical, o cineasta parece revisitar um de seus antigos personagens, Danny Rose, do ótimo Broadway Danny Rose, um sujeito que agenciava os mais bizarros números artísticos possíveis. Fosse sua parceira ainda Mia Farrow, não duvidaria na possibilidade de um revival daquele “casal”. Já no trecho de Baldwin, o diretor revisita alguns pontos de Igual a Tudo na Vida, principalmente a futilidade e pseudo-intelectualidade da personagem de Christina Ricci, aqui vivida por Ellen Page (de Juno). Apesar do gosto de déjà vu neste quesito, outro ponto faz toda a diferença: o interessante recurso narrativo utilizado por Allen, que transforma o que seria o protagonista do segmento em um fantasma, uma espécie de consciência ambulante, vivida de forma divertida por Alec Baldwin.
O elenco, como um todo, está muito bem e as piadas de Woody Allen continuam afiadas como sempre. O diretor acabou guardando para si o melhor material, não sendo necessário nenhuma discussão para apontá-lo como o destaque do filme. Penélope Cruz convence como uma italiana fogosa e Alec Baldwin e Judy Davis são retornos bemvindos na filmografia do diretor. O ator já havia trabalhado com Woody Allen em Setembro, e Davis em Maridos e Esposas, Celebridades, entre outros.
Sabiamente utilizando talentos italianos para protagonizar metade de seu filme, o cineasta novaiorquino está virando expert em saber como aproveitar ao máximo as facilidades de se filmar longe de casa. Com uma montagem menos aleatória, Para Roma com Amor poderia ter um resultado melhor. Ao menos não chega a ser uma decepção como Você vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos, divertindo em alguns momentos.
Para Roma com Amor (To Rome with Love)
EUA/Itália/Espanha – 107 minutos – Comédia
Direção e Roteiro: Woody Allen
Com Woody Allen, Alec Baldwin, Roberto Benigni, Penélope Cruz, Judy Davis, Jesse Eisenberg, Greta Gerwig, Ellen Page, Alison Pill
Cotação Paradoxo: Vale 78% do ingresso
Confira logo abaixo o trailer de Para Roma com Amor:
sexta-feira, 29 de junho de 2012
quarta-feira, 27 de junho de 2012
Sombras da Noite
Barnabas
Edward Mãos de Tesoura, Ed Wood, A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça, A Fantástica Fábrica de Chocolate, A Noiva Cadáver, Sweeney Todd e Alice no País das Maravilhas. Estas são as sete parcerias entre Tim Burton e Johnny Depp nos cinemas, uma relação entre diretor e ator que gerou muitos frutos interessantes (e alguns, nem tanto). Na oitava dobradinha entre Burton e Depp, Sombras da Noite, o espectador não encontrará muitas novidades em relação aos filmes anteriores. O protagonista em questão é uma figura que não se encaixa com o ambiente ao seu redor ou com as pessoas, o clima é uma mistura entre o soturno e o divertido, a música é do sempre competente Danny Elfman e a direção de arte, combinada aos figurinos, dão conta de expressar algumas ideias da história. Ou seja, o velho feijão com arroz de Tim Burton. Sorte que um belo prato de feijão com arroz, quando bem preparado, costuma ser uma refeição de respeito. Ainda que não seja um dos melhores trabalhos do cineasta, Sombras da Noite tem bons momentos e elenco afiado para segurar a atenção do espectador.
Com roteiro de Seth Grahame-Smith (do ainda inédito Abraham Lincoln – Caçador de Vampiros), em cima de história criada por ele e por John August (de Noiva Cadáver), baseada no seriado sessentista homônimo, Sombras da Noite acompanha Barnabas Collins (Depp), um bon vivant que partiu o coração de uma vingativa bruxa, Angelique (Eva Green, de Cassino Royale), sendo amaldiçoado para sempre ao ser transformado em vampiro. Imortal, Barnabas é preso em um caixão por chupar o sangue da sua vizinhança e só é encontrado dois séculos depois, em 1972. O mundo parece um lugar muito estranho, mas Barnabas tem nos laços familiares um porto seguro. Ou, ao menos, assim pensava ter. Ao chegar à mansão dos Collins, Barnabas encontra sua família em uma versão bastante disfuncional. A matriarca, Elizabeth (Michelle Pfeiffer, de Noite de Ano Novo) cuida da filha adolescente, Carolyn (Chloe Grace Moretz, de A Invenção de Hugo Cabret) e do sobrinho David (Gulliver McGrath, também de Cabret) ao lado do irmão picareta Roger (Jonny Lee Miller, do seriado Eli Stone). Os negócios da família não vão nada bem e Barnabas, após um encontro revelador com Elizabeth, promete ajuda-los a recuperar a glória do passado. Para isso, ele terá de enfrentar a pessoa que manda na cidade portuária onde vivem: Angelique, a mesma bruxa que o amaldiçoou.
Comédia soturna, Sombras da Noite sofre com os trailers que entregavam a maioria das boas piadas. Tirando a inspiradíssima participação de Alice Cooper, todas as melhores gags já haviam sido mostradas nos previews, tirando a graça da experiência na sala de cinema. De qualquer forma, o filme ainda consegue arrancar alguns risos aqui e ali. Poderia ser mais curto. Com andamento irregular, a narrativa se prende a alguns personagens que nunca dizem a que vieram. Um exemplo é a doutora Julia Hoffman, interpretada por Helena Bonham Carter, que passeia pela tela sem muito que fazer. Sua tentativa fajuta em curar Barnabas de sua maldição só ocupa tempo de tela, sem nenhum reflexo na trama principal. O mesmo pode ser dito de Roger Collins, o irmão imprestável de Elizabeth. Suas ações não fazem diferença alguma para a trama, com o personagem sendo abandonado na primeira chance.
Mas não é apenas de personagens descartáveis que Sombras da Noite é feito. O protagonista, Barnabas Collins, é mais um para o rol dos papeis esquisitos de Johnny Depp, que se diverte ao utilizar de linguajar ultrapassado para compor seu vampiro. Pálido e (felizmente) suscetível à luz do sol, Barnabas se veste em pesados trajes para poder perambular pela cidade – lembrando o finado Michael Jackson em alguns momentos. A paixão por uma mulher do passado, ao lado do comprometimento com sua família, fazem de Barnabas um vampiro com coração puro – mas que, nem por isso, esquece de seu lado animal. Por isso, não é nada incoerente observá-lo cabisbaixo por um novo amor em um momento e, minutos depois, vê-lo chacinar uma trupe de hippies maconheiros. Sua fome, afinal de contas, é por sangue. O lado cômico do personagem vem, principalmente, do seu deslocamento temporal. Sujeito nascido no século XVIII, Barnabas vê com curiosidade coisas prosaicas como asfalto, carros, televisão, luz elétrica, entre tantas outras facilidades do século XX.
Para fazer frente ao vampiro de Depp, Burton contou com a bela Eva Green para viver a bruxa Angelique, atriz inexplicavelmente subutilizada em Hollywood. Observando sua performance em Sombras da Noite, é possível perceber que Green diverte-se horrores ao encarnar uma bruxa maléfica, típica de contos de horror mais camp. Com seus gestos espaçosos e atuação over the top, Eva Green é um dos pontos altos do longa-metragem, fazendo uma ótima dobradinha com Johnny Depp. Michelle Pfeiffer está bastante contida e convincente como a matriarca da família enquanto Chloë Grace Moretz se entrega a uma atuação exagerada, começando a perder o encanto infantil.
Mesmo que boa parte de Sombras da Noite seja 100% Tim Burton, existem algumas novidades que podemos destacar neste novo filme. Ou seja, um temperinho um pouco diferente no feijão com arroz básico. Neste filme, o cineasta trabalha pela primeira vez com o diretor de fotografia Bruno Delbonnel (de Harry Potter e o Enigma do Príncipe), cujo resultado difere bastante de outros Burtons do passado. É sombria quando necessário, mas parece menos expressionista. Outra diferença é o extenso uso de músicas pop na trilha sonora, como canções de T. Rex, Carpenters, Barry White, entre tantos outros. Burton sempre preferiu utilizar a música incidental original de Danny Elfman (que também comparece no filme), mas em Sombras da Noite, o cineasta preferiu utilizar as músicas para dar um sentimento de época mais identificável para o espectador. Além dos figurinos e direção de arte bem trabalhados, Burton usa da memória afetiva do público, daquelas músicas do passado, para levá-los aos psicodélicos anos 70. Dá certo. Culminando com uma ótima aparição de Alice Cooper, Sombras da Noite é um deleite para os ouvidos.
E para os olhos também. Além de um elenco bonito (até Bonham Carter está bela, com seu cabelo colorido), a direção de arte é um show à parte, como geralmente podemos esperar de Tim Burton. As cores dos figurinos (e dos cabelos) lembram um pouco um episódio de Scooby Doo, citado durante o filme, inclusive. Homenagem bem humorada a um seriado sessentista norte-americano, o cineasta dá sua visão particular à série, contando com a ajuda de amigos também fãs (como Johnny Depp e Michelle Pfeiffer) para divertir-se ao contar sua história de terrir. O final, apesar de deixar pontas soltas, não deve ser sinal de uma sequência a caminho. Além de não ser do estilo de Burton fazer continuações, o arco dos personagens está muito bem fechado neste filme.
Sombras da Noite (Dark Shadows)
EUA – 117 minutos – Comédia
Dir.: Tim Burton
Roteiro: Seth Grahame-Smith
Com Johnny Depp, Michelle Pfeiffer, Eva Green, Helena Bonham Carter, Jackie Earle Haley, Jonny Lee Miller, Bella Heathcote, Chloe Grace Moretz, Gulliver McGrath, Christopher Lee, Alice Cooper
Cotação Paradoxo: Vale 75% do ingresso
Confira logo abaixo o trailer de Sombras da Noite:
Edward Mãos de Tesoura, Ed Wood, A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça, A Fantástica Fábrica de Chocolate, A Noiva Cadáver, Sweeney Todd e Alice no País das Maravilhas. Estas são as sete parcerias entre Tim Burton e Johnny Depp nos cinemas, uma relação entre diretor e ator que gerou muitos frutos interessantes (e alguns, nem tanto). Na oitava dobradinha entre Burton e Depp, Sombras da Noite, o espectador não encontrará muitas novidades em relação aos filmes anteriores. O protagonista em questão é uma figura que não se encaixa com o ambiente ao seu redor ou com as pessoas, o clima é uma mistura entre o soturno e o divertido, a música é do sempre competente Danny Elfman e a direção de arte, combinada aos figurinos, dão conta de expressar algumas ideias da história. Ou seja, o velho feijão com arroz de Tim Burton. Sorte que um belo prato de feijão com arroz, quando bem preparado, costuma ser uma refeição de respeito. Ainda que não seja um dos melhores trabalhos do cineasta, Sombras da Noite tem bons momentos e elenco afiado para segurar a atenção do espectador.
Com roteiro de Seth Grahame-Smith (do ainda inédito Abraham Lincoln – Caçador de Vampiros), em cima de história criada por ele e por John August (de Noiva Cadáver), baseada no seriado sessentista homônimo, Sombras da Noite acompanha Barnabas Collins (Depp), um bon vivant que partiu o coração de uma vingativa bruxa, Angelique (Eva Green, de Cassino Royale), sendo amaldiçoado para sempre ao ser transformado em vampiro. Imortal, Barnabas é preso em um caixão por chupar o sangue da sua vizinhança e só é encontrado dois séculos depois, em 1972. O mundo parece um lugar muito estranho, mas Barnabas tem nos laços familiares um porto seguro. Ou, ao menos, assim pensava ter. Ao chegar à mansão dos Collins, Barnabas encontra sua família em uma versão bastante disfuncional. A matriarca, Elizabeth (Michelle Pfeiffer, de Noite de Ano Novo) cuida da filha adolescente, Carolyn (Chloe Grace Moretz, de A Invenção de Hugo Cabret) e do sobrinho David (Gulliver McGrath, também de Cabret) ao lado do irmão picareta Roger (Jonny Lee Miller, do seriado Eli Stone). Os negócios da família não vão nada bem e Barnabas, após um encontro revelador com Elizabeth, promete ajuda-los a recuperar a glória do passado. Para isso, ele terá de enfrentar a pessoa que manda na cidade portuária onde vivem: Angelique, a mesma bruxa que o amaldiçoou.
Comédia soturna, Sombras da Noite sofre com os trailers que entregavam a maioria das boas piadas. Tirando a inspiradíssima participação de Alice Cooper, todas as melhores gags já haviam sido mostradas nos previews, tirando a graça da experiência na sala de cinema. De qualquer forma, o filme ainda consegue arrancar alguns risos aqui e ali. Poderia ser mais curto. Com andamento irregular, a narrativa se prende a alguns personagens que nunca dizem a que vieram. Um exemplo é a doutora Julia Hoffman, interpretada por Helena Bonham Carter, que passeia pela tela sem muito que fazer. Sua tentativa fajuta em curar Barnabas de sua maldição só ocupa tempo de tela, sem nenhum reflexo na trama principal. O mesmo pode ser dito de Roger Collins, o irmão imprestável de Elizabeth. Suas ações não fazem diferença alguma para a trama, com o personagem sendo abandonado na primeira chance.
Mas não é apenas de personagens descartáveis que Sombras da Noite é feito. O protagonista, Barnabas Collins, é mais um para o rol dos papeis esquisitos de Johnny Depp, que se diverte ao utilizar de linguajar ultrapassado para compor seu vampiro. Pálido e (felizmente) suscetível à luz do sol, Barnabas se veste em pesados trajes para poder perambular pela cidade – lembrando o finado Michael Jackson em alguns momentos. A paixão por uma mulher do passado, ao lado do comprometimento com sua família, fazem de Barnabas um vampiro com coração puro – mas que, nem por isso, esquece de seu lado animal. Por isso, não é nada incoerente observá-lo cabisbaixo por um novo amor em um momento e, minutos depois, vê-lo chacinar uma trupe de hippies maconheiros. Sua fome, afinal de contas, é por sangue. O lado cômico do personagem vem, principalmente, do seu deslocamento temporal. Sujeito nascido no século XVIII, Barnabas vê com curiosidade coisas prosaicas como asfalto, carros, televisão, luz elétrica, entre tantas outras facilidades do século XX.
Para fazer frente ao vampiro de Depp, Burton contou com a bela Eva Green para viver a bruxa Angelique, atriz inexplicavelmente subutilizada em Hollywood. Observando sua performance em Sombras da Noite, é possível perceber que Green diverte-se horrores ao encarnar uma bruxa maléfica, típica de contos de horror mais camp. Com seus gestos espaçosos e atuação over the top, Eva Green é um dos pontos altos do longa-metragem, fazendo uma ótima dobradinha com Johnny Depp. Michelle Pfeiffer está bastante contida e convincente como a matriarca da família enquanto Chloë Grace Moretz se entrega a uma atuação exagerada, começando a perder o encanto infantil.
Mesmo que boa parte de Sombras da Noite seja 100% Tim Burton, existem algumas novidades que podemos destacar neste novo filme. Ou seja, um temperinho um pouco diferente no feijão com arroz básico. Neste filme, o cineasta trabalha pela primeira vez com o diretor de fotografia Bruno Delbonnel (de Harry Potter e o Enigma do Príncipe), cujo resultado difere bastante de outros Burtons do passado. É sombria quando necessário, mas parece menos expressionista. Outra diferença é o extenso uso de músicas pop na trilha sonora, como canções de T. Rex, Carpenters, Barry White, entre tantos outros. Burton sempre preferiu utilizar a música incidental original de Danny Elfman (que também comparece no filme), mas em Sombras da Noite, o cineasta preferiu utilizar as músicas para dar um sentimento de época mais identificável para o espectador. Além dos figurinos e direção de arte bem trabalhados, Burton usa da memória afetiva do público, daquelas músicas do passado, para levá-los aos psicodélicos anos 70. Dá certo. Culminando com uma ótima aparição de Alice Cooper, Sombras da Noite é um deleite para os ouvidos.
E para os olhos também. Além de um elenco bonito (até Bonham Carter está bela, com seu cabelo colorido), a direção de arte é um show à parte, como geralmente podemos esperar de Tim Burton. As cores dos figurinos (e dos cabelos) lembram um pouco um episódio de Scooby Doo, citado durante o filme, inclusive. Homenagem bem humorada a um seriado sessentista norte-americano, o cineasta dá sua visão particular à série, contando com a ajuda de amigos também fãs (como Johnny Depp e Michelle Pfeiffer) para divertir-se ao contar sua história de terrir. O final, apesar de deixar pontas soltas, não deve ser sinal de uma sequência a caminho. Além de não ser do estilo de Burton fazer continuações, o arco dos personagens está muito bem fechado neste filme.
Sombras da Noite (Dark Shadows)
EUA – 117 minutos – Comédia
Dir.: Tim Burton
Roteiro: Seth Grahame-Smith
Com Johnny Depp, Michelle Pfeiffer, Eva Green, Helena Bonham Carter, Jackie Earle Haley, Jonny Lee Miller, Bella Heathcote, Chloe Grace Moretz, Gulliver McGrath, Christopher Lee, Alice Cooper
Cotação Paradoxo: Vale 75% do ingresso
Confira logo abaixo o trailer de Sombras da Noite:
terça-feira, 26 de junho de 2012
Blade Runner - O Caçador de Androides
Replicantes
Devo confessar que demorei a engrossar a lista de pessoas que apontam Blade Runner – O Caçador de Androides como um bom filme. Meu primeiro contato com o cult movie de Ridley Scott aconteceu no começo da década passada, quando assisti a uma gasta fita VHS da Versão de Diretor, lançada em 1992. A qualidade da imagem era tenebrosa e a recepção do filme foi prejudicada. Anos depois, com a versão de três discos lançada pela Warner em DVD, tive oportunidade de dar uma nova chance ao longa-metragem. E que diferença. A edição brasileira, inclusive, tem menos discos que a estrangeira, mas ainda é ótima para quem gosta de observar todo o processo referente a uma produção de cinema. Além de incluir um documentário com mais de três horas de duração, o DVD conta com quatro versões – ou cortes - diferentes de Blade Runner.
Falarei aqui do corte original, lançado em 1982, e que acaba de completar 30 anos, com a horrenda narração de Harrison Ford. Para quem estava em outro planeta e não conhece (ou não lembra), Blade Runner é uma ficção científica assinada por Hampton Fancher e David Peoples, baseada nos escritos de Philip K. Dick, com Harrison Ford, o eterno Indiana Jones, no papel de Rick Deckard, o blade runner do título.
Em 2019, o mundo é bem diferente de como o conhecemos: as cidades são superpopulosas e sujas, a poluição visual e sonora é berrante e o linguajar da população é incompreensível. Ok, não é tão diferente do mundo como conhecemos. O que de realmente inusitado temos na Los Angeles de 2019 são os carros voadores, o clima gótico e, claro, os replicantes – androides criados a nossa semelhança para trabalhar em colônias fora do nosso planeta. Para evitar que estes fujam do controle, existe um limite curto de vida para eles. No entanto, mesmo com todos os procedimentos de segurança, nem sempre é possível evitar um motim e o trabalho dos blade runners é caçar – ou retirar – do nosso convívio quaisquer destes replicantes perigosos. E é isso que Deckard precisa fazer. Roy Beatty (Rutger Hauer) e seus três parceiros robóticos estão no planeta Terra à procura de uma forma de prolongar sua vida. Deckard precisa eliminá-los enquanto repensa sua existência, ao se apaixonar por Rachael (Sean Young), uma replicante que desconhecia sua condição.
A versão lançada em 1982 difere em vários aspectos do chamado Director’s Cut lançado dez anos depois. Em primeiro lugar, conta com uma narração muito ruim feita por Harrison Ford. Sabe-se que o ator estava descontente por ter de fazer um voice over. Mas o que surpreende, além da falta de qualidade do texto, é o amadorismo. Não só do jeito de narrar de Ford como na forma de encaixá-lo dentro do filme. Em outras palavras, um artifício canhestro para passar idéias que se pensavam importantes para a trama. Não é a toa que Ford estava descontente, já que é uma narração expositiva e totalmente dispensável. O final feliz e idílico é outra diferença que tira um pouco o brilho de Blade Runner, mas é interessante assisti-lo em comparação ao que acabou virando a versão definitiva.
Apesar de ser um péssimo narrador, Harrison Ford é um ótimo Rick Deckard. Seu cinismo aparente e seu jeito rude de tratar assuntos mais sentimentais ficaram marcados em sua performance. Ridley Scott foi muito inteligente em deixar aberta a possibilidade do caçador de androides ser, na realidade, também um replicante. Além de aguçar a curiosidade do espectador, cria uma aura de mistério na performance de Ford – mesmo que o ator sempre tenha afirmado que não interpretou um androide no filme.
Outro destaque de Blade Runner é Rutger Hauer e seu Roy Batty. Longe de ser um vilão unidimensional, Hauer acrescenta muitas camadas ao seu personagem. Ele deseja apenas viver e, para isso, tenta de qualquer forma chegar ao seu intento. É a interpretação da vida de Rutger Hauer, que não teria muita sorte com outros papéis no futuro.
A direção de arte de Blade Runner é um exemplo para produções que desejam retratar um futuro sombrio, com a utilização do neon e de uma arquitetura gótica para construir os ambientes em que vivem a população em 2019. Mesmo não acertando muita coisa do futuro, é uma interessante visão oitentista de como estaríamos vivendo no século XXI. A fotografia caprichada ressalta as cores expressionistas dos cenários e dos figurinos. Por fim, as intervenções das músicas do Vangelis são muito bemvindas no resultado final – mesmo que sejam um tanto datadas nos dias de hoje.
Tudo isso passa pelo olhar apurado de Ridley Scott, que tinha acabado de assinar um ótimo terror sci-fi, Alien – O Oitavo Passageiro, e passou direto para uma ficção científica existencialista, sombria e com um ótimo roteiro. Com o aniversário de 30 anos do lançamento, a data é mais do que propícia para conferir novamente este belo trabalho do cineasta britânico – ou, se for o caso, ter o primeiro contato com Rick Deckard e os replicantes. Basta escolher uma das quatro versões lançadas e mergulhar naquele universo criado por Philip K. Dick.
Blade Runner – O Caçador de Androides (Blade Runner)
EUA – 117 min – Ficção Científica – 1982
Dir.: Ridley Scott
Roteiro: Hampton Fancher e David Peoples, baseado na obra Do Androids Dream of Electric Sheep? de Philip K. Dick
Com Harrison Ford, Rutger Hauer, Sean Young, Edward James Olmos, M. Emmet Walsh, Daryl Hannah
Cotação Paradoxo: Vale 90% do ingresso
Confira logo abaixo o trailer de Blade Runner:
Devo confessar que demorei a engrossar a lista de pessoas que apontam Blade Runner – O Caçador de Androides como um bom filme. Meu primeiro contato com o cult movie de Ridley Scott aconteceu no começo da década passada, quando assisti a uma gasta fita VHS da Versão de Diretor, lançada em 1992. A qualidade da imagem era tenebrosa e a recepção do filme foi prejudicada. Anos depois, com a versão de três discos lançada pela Warner em DVD, tive oportunidade de dar uma nova chance ao longa-metragem. E que diferença. A edição brasileira, inclusive, tem menos discos que a estrangeira, mas ainda é ótima para quem gosta de observar todo o processo referente a uma produção de cinema. Além de incluir um documentário com mais de três horas de duração, o DVD conta com quatro versões – ou cortes - diferentes de Blade Runner.
Falarei aqui do corte original, lançado em 1982, e que acaba de completar 30 anos, com a horrenda narração de Harrison Ford. Para quem estava em outro planeta e não conhece (ou não lembra), Blade Runner é uma ficção científica assinada por Hampton Fancher e David Peoples, baseada nos escritos de Philip K. Dick, com Harrison Ford, o eterno Indiana Jones, no papel de Rick Deckard, o blade runner do título.
Em 2019, o mundo é bem diferente de como o conhecemos: as cidades são superpopulosas e sujas, a poluição visual e sonora é berrante e o linguajar da população é incompreensível. Ok, não é tão diferente do mundo como conhecemos. O que de realmente inusitado temos na Los Angeles de 2019 são os carros voadores, o clima gótico e, claro, os replicantes – androides criados a nossa semelhança para trabalhar em colônias fora do nosso planeta. Para evitar que estes fujam do controle, existe um limite curto de vida para eles. No entanto, mesmo com todos os procedimentos de segurança, nem sempre é possível evitar um motim e o trabalho dos blade runners é caçar – ou retirar – do nosso convívio quaisquer destes replicantes perigosos. E é isso que Deckard precisa fazer. Roy Beatty (Rutger Hauer) e seus três parceiros robóticos estão no planeta Terra à procura de uma forma de prolongar sua vida. Deckard precisa eliminá-los enquanto repensa sua existência, ao se apaixonar por Rachael (Sean Young), uma replicante que desconhecia sua condição.
A versão lançada em 1982 difere em vários aspectos do chamado Director’s Cut lançado dez anos depois. Em primeiro lugar, conta com uma narração muito ruim feita por Harrison Ford. Sabe-se que o ator estava descontente por ter de fazer um voice over. Mas o que surpreende, além da falta de qualidade do texto, é o amadorismo. Não só do jeito de narrar de Ford como na forma de encaixá-lo dentro do filme. Em outras palavras, um artifício canhestro para passar idéias que se pensavam importantes para a trama. Não é a toa que Ford estava descontente, já que é uma narração expositiva e totalmente dispensável. O final feliz e idílico é outra diferença que tira um pouco o brilho de Blade Runner, mas é interessante assisti-lo em comparação ao que acabou virando a versão definitiva.
Apesar de ser um péssimo narrador, Harrison Ford é um ótimo Rick Deckard. Seu cinismo aparente e seu jeito rude de tratar assuntos mais sentimentais ficaram marcados em sua performance. Ridley Scott foi muito inteligente em deixar aberta a possibilidade do caçador de androides ser, na realidade, também um replicante. Além de aguçar a curiosidade do espectador, cria uma aura de mistério na performance de Ford – mesmo que o ator sempre tenha afirmado que não interpretou um androide no filme.
Outro destaque de Blade Runner é Rutger Hauer e seu Roy Batty. Longe de ser um vilão unidimensional, Hauer acrescenta muitas camadas ao seu personagem. Ele deseja apenas viver e, para isso, tenta de qualquer forma chegar ao seu intento. É a interpretação da vida de Rutger Hauer, que não teria muita sorte com outros papéis no futuro.
A direção de arte de Blade Runner é um exemplo para produções que desejam retratar um futuro sombrio, com a utilização do neon e de uma arquitetura gótica para construir os ambientes em que vivem a população em 2019. Mesmo não acertando muita coisa do futuro, é uma interessante visão oitentista de como estaríamos vivendo no século XXI. A fotografia caprichada ressalta as cores expressionistas dos cenários e dos figurinos. Por fim, as intervenções das músicas do Vangelis são muito bemvindas no resultado final – mesmo que sejam um tanto datadas nos dias de hoje.
Tudo isso passa pelo olhar apurado de Ridley Scott, que tinha acabado de assinar um ótimo terror sci-fi, Alien – O Oitavo Passageiro, e passou direto para uma ficção científica existencialista, sombria e com um ótimo roteiro. Com o aniversário de 30 anos do lançamento, a data é mais do que propícia para conferir novamente este belo trabalho do cineasta britânico – ou, se for o caso, ter o primeiro contato com Rick Deckard e os replicantes. Basta escolher uma das quatro versões lançadas e mergulhar naquele universo criado por Philip K. Dick.
Blade Runner – O Caçador de Androides (Blade Runner)
EUA – 117 min – Ficção Científica – 1982
Dir.: Ridley Scott
Roteiro: Hampton Fancher e David Peoples, baseado na obra Do Androids Dream of Electric Sheep? de Philip K. Dick
Com Harrison Ford, Rutger Hauer, Sean Young, Edward James Olmos, M. Emmet Walsh, Daryl Hannah
Cotação Paradoxo: Vale 90% do ingresso
Confira logo abaixo o trailer de Blade Runner:
segunda-feira, 25 de junho de 2012
Aliens - O Resgate
Ripley Replay*
Não existe unanimidade quando falamos sobre Alien: O Oitavo Passageiro e Aliens: O Resgate. Os fãs da franquia até hoje discutem qual é o melhor filme da série – basta entrar em qualquer fórum sobre a série cinematográfica para comprovar. Alguns preferem o suspense com atmosfera de terror de Ridley Scott, lançado em 1979, outros tendem mais para a ação explosiva de James Cameron no longa-metragem de 1986. Seja qual for sua preferência, é inegável que ambos diretores entregaram trabalhos inspirados, dando características muito próprias para cada filme.
Um dos grandes acertos de James Cameron ao aceitar escrever o roteiro de uma continuação para Alien: O Oitavo Passageiro foi fazer um filme seu. Ainda que utilize a protagonista do anterior e siga contando com os vilões mais asquerosos do universo, o cineasta faz uma sequência completamente diferente do original. Existem diversas continuações que bebem totalmente na fonte do trabalho anterior, deixando um gosto de déjà vu no espectador que retira qualquer surpresa ou interesse em acompanhar a trama. Não é o que acontece em Aliens: O Resgate.
Anos depois dos acontecimentos de Alien: O Oitavo Passageiro, Ellen Ripley (Sigourney Weaver) é encontrada, ainda em seu sono profundo, na nave em que escapou da morte. Sofrendo com as lembranças de seu quase fatal combate com alienígenas, Ripley tenta de todas as formas convencer seus antigos patrões de que existe uma raça extraterrestre sedenta por sangue solta por aí. Mal ela sabe que o planeta no qual ela teve aquele contato imediato está sendo preparado para virar uma colônia humana, com diversas famílias já vivendo por lá. Quando a comunicação com os atuais habitantes do planeta é perdido, um batalhão é enviado para entender o que aconteceu. Ripley é convidada como consultora na missão e aceita, mesmo sabendo que isso possa significar um novo encontro com os alienígenas com sangue ácido.
Se em Alien: O Oitavo Passageiro a ameaça estava enclausurada junto a outros sete tripulantes da nave Nostromo, dessa vez os vilões vêm em bandos. James Cameron segue bem a cartilha das continuações e tenta, de todas as formas, aumentar os perigos daquela missão. Mais aliens, mais facehuggers (as criaturas que depositam sua espécie dentro de humanos) e até uma rainha são colocados em rota de colisão com os heróis do filme. Alguns bons sustos aqui e ali conseguem colocar esta sequência na prateleira das produções de terror, junto do longa-metragem original. Mas em matéria de atmosfera de suspense, ela perde feio para o filme de Ridley Scott. Isso não chega a ser um ponto negativo visto que essa era a ideia. James Cameron faz um filme de ação. Com armas, explosões e sangue. Recém-saído dos sets de O Exterminador do Futuro, Cameron estava ainda construindo seu nome como um cineasta de bons filmes de ficção científica, e Aliens: O Resgate certamente o ajudou a sedimentar sua marca.
Ainda que tenha altas doses de ação, o longa-metragem demora um pouco para engrenar. Existe uma hora de filme para colocar todas as peças no lugar. Conhecemos os personagens, entendemos seus objetivos e seus papeis na história até que a real aventura comece. Se é verdade que existe uma demora para que as cenas empolgantes ganhem espaço, é igualmente correto afirmar que quando começam, continuam até o fim. A segunda metade de Aliens: O Resgate é, com o perdão do clichê, de tirar o fôlego. Humanos sitiados em um pequeno espaço, com dezenas de aliens prontos para utilizá-los como hospedeiros, é uma ameaça tremenda. Cameron inclusive exagera em alguns trechos, como colocar empecilhos até na utilização de armas contra os extraterrestres em dado momento. Dispensável. E se não temos grandes personagens coadjuvantes – as atuações chegam a irritar de tão exageradas, reflexo do tempo em que Cameron realmente não sabia dirigir atores – ao menos Ripley comanda bem a ação, com uma ótima performance de Sigourney Weaver.
A atriz já havia feito um excelente trabalho no filme anterior. Mas em Aliens: O Resgate Weaver consegue fazer uma inteligente mistura de seu lado mais doce, ao acolher uma menina sobrevivente da colônia, e de seu lado durão, como a pessoa que praticamente encabeça a missão. O roteiro de Cameron é hábil em manter a personagem interessante, incorporando este lado materno, dando um real motivo para que Ripley se arrisque da forma como faz. O resultado foi tão positivo que Sigourney Weaver foi indicada ao Oscar por sua atuação, algo não tão comum quando falamos de um filme de ficção científica, visto com certo preconceito pela Academia.
Com um desenho de produção muito interessante para a época – mas que hoje causa risadas pela tecnologia defasada daquele futuro – Aliens: O Resgate é um capítulo rico para franquia protagonizada por Ellen Ripley. Tem ação em doses cavalares, vilões ameaçadores e efeitos especiais excelentes (para 1986). Pode pecar aqui e ali com alguns exageros – seja pelas atuações dos coadjuvantes, seja por alguns trechos dispensáveis do roteiro – mas se mantém como um ótimo exemplar do gênero.
Aliens – O Resgate (Aliens)
EUA – 137 minutos – Ficção Científica – 1986
Direção e Roteiro: James Cameron
Com Sigourney Weaver, Michael Biehn, Paul Reiser, Lance Henriksen, Bill Paxton, Carrie Henn
Cotação Paradoxo: Vale 87% do ingresso
* Crítica publicada originalmente no especial Alien do site Papo de Cinema.
Confira logo abaixo o trailer de Aliens: O Resgate:
Não existe unanimidade quando falamos sobre Alien: O Oitavo Passageiro e Aliens: O Resgate. Os fãs da franquia até hoje discutem qual é o melhor filme da série – basta entrar em qualquer fórum sobre a série cinematográfica para comprovar. Alguns preferem o suspense com atmosfera de terror de Ridley Scott, lançado em 1979, outros tendem mais para a ação explosiva de James Cameron no longa-metragem de 1986. Seja qual for sua preferência, é inegável que ambos diretores entregaram trabalhos inspirados, dando características muito próprias para cada filme.
Um dos grandes acertos de James Cameron ao aceitar escrever o roteiro de uma continuação para Alien: O Oitavo Passageiro foi fazer um filme seu. Ainda que utilize a protagonista do anterior e siga contando com os vilões mais asquerosos do universo, o cineasta faz uma sequência completamente diferente do original. Existem diversas continuações que bebem totalmente na fonte do trabalho anterior, deixando um gosto de déjà vu no espectador que retira qualquer surpresa ou interesse em acompanhar a trama. Não é o que acontece em Aliens: O Resgate.
Anos depois dos acontecimentos de Alien: O Oitavo Passageiro, Ellen Ripley (Sigourney Weaver) é encontrada, ainda em seu sono profundo, na nave em que escapou da morte. Sofrendo com as lembranças de seu quase fatal combate com alienígenas, Ripley tenta de todas as formas convencer seus antigos patrões de que existe uma raça extraterrestre sedenta por sangue solta por aí. Mal ela sabe que o planeta no qual ela teve aquele contato imediato está sendo preparado para virar uma colônia humana, com diversas famílias já vivendo por lá. Quando a comunicação com os atuais habitantes do planeta é perdido, um batalhão é enviado para entender o que aconteceu. Ripley é convidada como consultora na missão e aceita, mesmo sabendo que isso possa significar um novo encontro com os alienígenas com sangue ácido.
Se em Alien: O Oitavo Passageiro a ameaça estava enclausurada junto a outros sete tripulantes da nave Nostromo, dessa vez os vilões vêm em bandos. James Cameron segue bem a cartilha das continuações e tenta, de todas as formas, aumentar os perigos daquela missão. Mais aliens, mais facehuggers (as criaturas que depositam sua espécie dentro de humanos) e até uma rainha são colocados em rota de colisão com os heróis do filme. Alguns bons sustos aqui e ali conseguem colocar esta sequência na prateleira das produções de terror, junto do longa-metragem original. Mas em matéria de atmosfera de suspense, ela perde feio para o filme de Ridley Scott. Isso não chega a ser um ponto negativo visto que essa era a ideia. James Cameron faz um filme de ação. Com armas, explosões e sangue. Recém-saído dos sets de O Exterminador do Futuro, Cameron estava ainda construindo seu nome como um cineasta de bons filmes de ficção científica, e Aliens: O Resgate certamente o ajudou a sedimentar sua marca.
Ainda que tenha altas doses de ação, o longa-metragem demora um pouco para engrenar. Existe uma hora de filme para colocar todas as peças no lugar. Conhecemos os personagens, entendemos seus objetivos e seus papeis na história até que a real aventura comece. Se é verdade que existe uma demora para que as cenas empolgantes ganhem espaço, é igualmente correto afirmar que quando começam, continuam até o fim. A segunda metade de Aliens: O Resgate é, com o perdão do clichê, de tirar o fôlego. Humanos sitiados em um pequeno espaço, com dezenas de aliens prontos para utilizá-los como hospedeiros, é uma ameaça tremenda. Cameron inclusive exagera em alguns trechos, como colocar empecilhos até na utilização de armas contra os extraterrestres em dado momento. Dispensável. E se não temos grandes personagens coadjuvantes – as atuações chegam a irritar de tão exageradas, reflexo do tempo em que Cameron realmente não sabia dirigir atores – ao menos Ripley comanda bem a ação, com uma ótima performance de Sigourney Weaver.
A atriz já havia feito um excelente trabalho no filme anterior. Mas em Aliens: O Resgate Weaver consegue fazer uma inteligente mistura de seu lado mais doce, ao acolher uma menina sobrevivente da colônia, e de seu lado durão, como a pessoa que praticamente encabeça a missão. O roteiro de Cameron é hábil em manter a personagem interessante, incorporando este lado materno, dando um real motivo para que Ripley se arrisque da forma como faz. O resultado foi tão positivo que Sigourney Weaver foi indicada ao Oscar por sua atuação, algo não tão comum quando falamos de um filme de ficção científica, visto com certo preconceito pela Academia.
Com um desenho de produção muito interessante para a época – mas que hoje causa risadas pela tecnologia defasada daquele futuro – Aliens: O Resgate é um capítulo rico para franquia protagonizada por Ellen Ripley. Tem ação em doses cavalares, vilões ameaçadores e efeitos especiais excelentes (para 1986). Pode pecar aqui e ali com alguns exageros – seja pelas atuações dos coadjuvantes, seja por alguns trechos dispensáveis do roteiro – mas se mantém como um ótimo exemplar do gênero.
Aliens – O Resgate (Aliens)
EUA – 137 minutos – Ficção Científica – 1986
Direção e Roteiro: James Cameron
Com Sigourney Weaver, Michael Biehn, Paul Reiser, Lance Henriksen, Bill Paxton, Carrie Henn
Cotação Paradoxo: Vale 87% do ingresso
* Crítica publicada originalmente no especial Alien do site Papo de Cinema.
Confira logo abaixo o trailer de Aliens: O Resgate:
quinta-feira, 21 de junho de 2012
A Velha dos Fundos
Solidão Dividida
Uma senhora idosa precisando de companhia. Um jovem estudante que, sem dinheiro, abandonará os estudos e voltará para a casa dos pais. Estas duas figuras bastante diferentes se ajudarão – do seu próprio modo – no bom drama argentino (co-produção com o Brasil) A Velha dos Fundos, com direção e roteiro de Pablo Meza (de Buenos Aires 100 km). Esta parceria inusitada não será fácil para ambos, mas, como dizem, a necessidade é a mãe da invenção.
Na trama, Marcelo (Martín Piroyansky, de Meu Primeiro Casamento) mora em Buenos Aires, estuda medicina, e se vira como pode para pagar as contas. Um emprego aqui, um bico ali, sempre com dificuldades para se manter na capital argentina. Chega um momento que o dinheiro acaba e o rapaz se vê obrigado a abandonar os estudos e se mudar de volta para a casa dos pais, no interior do país. Sua vizinha, Rosa (Adriana Aizemberg, de O Abraço Partido), uma mulher idosa e solitária, oferece abrigo para Marcelo, sem cobrar dinheiro algum. O rapaz, um tanto contrafeito, aceita o convite, mas logo percebe que nada é de graça nesta vida, sendo obrigado a conversar com Rosa sempre que ela está ao redor.
Pode parecer um problema pequeno de se resolver, dado o tamanho da ajuda de Rosa. Um teto para continuar os estudos em troca de conversa fiada? Soa como uma barganha. Mas não para Marcelo, um rapaz calado por natureza. Rosa deseja alguém para lhe fazer companhia, uma pessoa que converse com ela, preenchendo os silêncios da casa. Algo que, infelizmente, o rapaz vê grande dificuldade em fazer.
O filme constrói os personagens de forma lenta, nos mostrando as facetas de cada um dos protagonistas gradualmente. Marcelo não demora a notar que a casa da velha senhora parece um mausoléu. Sempre fechada, fria, escura. A comida não é uma maravilha e o papo está longe de ser algo que lhe interesse. Rosa, por sua vez, vê que a ideia de um rapaz para lhe fazer companhia não é tão promissora. Pelo menos, não com Marcelo, um garoto que parece nunca querer conversar.
Os dois atores estão muito bem em seus papéis. Martín Piroyansky havia mostrado uma boa faceta cômica, sendo um dos poucos pontos altos do fraco Meu Primeiro Casamento, e, aqui, mostra que também pode atacar em papéis dramáticos. A melancolia do personagem é bem construída pelo ator, capturada de forma econômica pelo diretor Pablo Meza. Vejam, por exemplo, algumas cenas em que Marcelo distribui panfletos na rua. Sem falar palavra, é possível perceber o descontentamento do rapaz, que sabe que precisa do emprego para se sustentar, mas que daria tudo para atirar aqueles papéis para cima e sumir dali. É interessante notar que o roteiro de Meza utiliza este emprego de Marcelo para construir uma ligação com Rosa, visto que ele descobre algo sobre sua senhoria ao observá-la enquanto faz seu serviço.
Piroyansky está ótimo, mas o filme é de Adriana Aizemberg. Rosa é uma senhora cheia de fobias, cada vez mais afastada do mundo exterior, mantendo-se isolada dentro de sua casa fechada. É fato que ela sai de vez em quando do confinamento, mas seu semblante parece tão desligado quando ela está na rua que parece claro que aquela senhora não consegue mais acompanhar a Buenos Aires atual. Sendo uma idosa resmungona e clamando por atenção de seu vizinho, Rosa é um retrato verossímil de alguém que ficou tempo demais sozinho e que, na tentativa desesperada de salvar-se desta condição, convida um rapaz que pouco conhece para viver junto dela.
Um interessante drama sobre a solidão, A Velha dos Fundos é um tanto lento em alguns momentos, mas o fato de construir bem os personagens e de conseguir atingir seus objetivos com um roteiro coeso faz com que o resultado final seja bastante recomendável. Vencedor de vários prêmios, dentre eles Melhor Ator e Roteiro no Festival de Cinema de Gramado em 2010, o longa-metragem de Pablo Meza demorou a estrear no circuito comercial devido a esta sua estratégia de circular por diversos festivais. Agora, ao alcance de todos, esta co-produção Argentina e Brasil pode ser conferida com a atenção que merece.
A Velha dos Fundos (La Vieja de La Atras)
Argentina / Brasil – 115 minutos – Drama
Direção e Roteiro: Pablo Meza
Com Adriana Aizemberg, Martín Piroyansky, Marina Glezer, Rafael Sieg
Cotação Paradoxo: Vale 81% do ingresso
Confira logo abaixo o trailer de A Velha dos Fundos:
Uma senhora idosa precisando de companhia. Um jovem estudante que, sem dinheiro, abandonará os estudos e voltará para a casa dos pais. Estas duas figuras bastante diferentes se ajudarão – do seu próprio modo – no bom drama argentino (co-produção com o Brasil) A Velha dos Fundos, com direção e roteiro de Pablo Meza (de Buenos Aires 100 km). Esta parceria inusitada não será fácil para ambos, mas, como dizem, a necessidade é a mãe da invenção.
Na trama, Marcelo (Martín Piroyansky, de Meu Primeiro Casamento) mora em Buenos Aires, estuda medicina, e se vira como pode para pagar as contas. Um emprego aqui, um bico ali, sempre com dificuldades para se manter na capital argentina. Chega um momento que o dinheiro acaba e o rapaz se vê obrigado a abandonar os estudos e se mudar de volta para a casa dos pais, no interior do país. Sua vizinha, Rosa (Adriana Aizemberg, de O Abraço Partido), uma mulher idosa e solitária, oferece abrigo para Marcelo, sem cobrar dinheiro algum. O rapaz, um tanto contrafeito, aceita o convite, mas logo percebe que nada é de graça nesta vida, sendo obrigado a conversar com Rosa sempre que ela está ao redor.
Pode parecer um problema pequeno de se resolver, dado o tamanho da ajuda de Rosa. Um teto para continuar os estudos em troca de conversa fiada? Soa como uma barganha. Mas não para Marcelo, um rapaz calado por natureza. Rosa deseja alguém para lhe fazer companhia, uma pessoa que converse com ela, preenchendo os silêncios da casa. Algo que, infelizmente, o rapaz vê grande dificuldade em fazer.
O filme constrói os personagens de forma lenta, nos mostrando as facetas de cada um dos protagonistas gradualmente. Marcelo não demora a notar que a casa da velha senhora parece um mausoléu. Sempre fechada, fria, escura. A comida não é uma maravilha e o papo está longe de ser algo que lhe interesse. Rosa, por sua vez, vê que a ideia de um rapaz para lhe fazer companhia não é tão promissora. Pelo menos, não com Marcelo, um garoto que parece nunca querer conversar.
Os dois atores estão muito bem em seus papéis. Martín Piroyansky havia mostrado uma boa faceta cômica, sendo um dos poucos pontos altos do fraco Meu Primeiro Casamento, e, aqui, mostra que também pode atacar em papéis dramáticos. A melancolia do personagem é bem construída pelo ator, capturada de forma econômica pelo diretor Pablo Meza. Vejam, por exemplo, algumas cenas em que Marcelo distribui panfletos na rua. Sem falar palavra, é possível perceber o descontentamento do rapaz, que sabe que precisa do emprego para se sustentar, mas que daria tudo para atirar aqueles papéis para cima e sumir dali. É interessante notar que o roteiro de Meza utiliza este emprego de Marcelo para construir uma ligação com Rosa, visto que ele descobre algo sobre sua senhoria ao observá-la enquanto faz seu serviço.
Piroyansky está ótimo, mas o filme é de Adriana Aizemberg. Rosa é uma senhora cheia de fobias, cada vez mais afastada do mundo exterior, mantendo-se isolada dentro de sua casa fechada. É fato que ela sai de vez em quando do confinamento, mas seu semblante parece tão desligado quando ela está na rua que parece claro que aquela senhora não consegue mais acompanhar a Buenos Aires atual. Sendo uma idosa resmungona e clamando por atenção de seu vizinho, Rosa é um retrato verossímil de alguém que ficou tempo demais sozinho e que, na tentativa desesperada de salvar-se desta condição, convida um rapaz que pouco conhece para viver junto dela.
Um interessante drama sobre a solidão, A Velha dos Fundos é um tanto lento em alguns momentos, mas o fato de construir bem os personagens e de conseguir atingir seus objetivos com um roteiro coeso faz com que o resultado final seja bastante recomendável. Vencedor de vários prêmios, dentre eles Melhor Ator e Roteiro no Festival de Cinema de Gramado em 2010, o longa-metragem de Pablo Meza demorou a estrear no circuito comercial devido a esta sua estratégia de circular por diversos festivais. Agora, ao alcance de todos, esta co-produção Argentina e Brasil pode ser conferida com a atenção que merece.
A Velha dos Fundos (La Vieja de La Atras)
Argentina / Brasil – 115 minutos – Drama
Direção e Roteiro: Pablo Meza
Com Adriana Aizemberg, Martín Piroyansky, Marina Glezer, Rafael Sieg
Cotação Paradoxo: Vale 81% do ingresso
Confira logo abaixo o trailer de A Velha dos Fundos:
quarta-feira, 20 de junho de 2012
Amor Impossível
Salmão Possível
É bem verdade que “Pesca de Salmão no Iêmen” seria um título, no mínimo, pouco mercadológico para uma comédia romântica. Por outro lado, fala muito sobre o que veremos no longa-metragem em questão – por mais que a premissa seja um tanto absurda. A alternativa nacional, intitulando o novo trabalho de Lasse Hallström (de Para Sempre ao Seu Lado) de Amor Impossível é, além de lugar-comum, muito mentirosa. Isso porque, em primeira análise, o tal amor que seria impossível entre o casal principal está longe de sê-lo. O destino, inclusive, ajuda muito para que as peças encaixem para os protagonistas. Em segundo lugar, mesmo que esta impossibilidade do título remeta à paixão do Sheik pela pesca de salmões, ela também não se mostra tão problemática quanto poderia. Para os apreciadores de comédias românticas, a boa notícia é que a lambança do título em português (ou a falta de tino comercial do original) não reflete o que assistimos na tela grande. Se nunca é brilhante, Amor Impossível é, ao menos, um filme simpático, com boas atuações de sua dupla principal. Nada mais, nada menos.
Com roteiro de Simon Beaufoy (do premiado Quem Quer ser um Milionário?), baseado no romance de Paul Torday, Amor Impossível parte de um ponto de partida um tanto esquisito. Um rico sheik do Iêmen (Amr Waked) sonha em poder pescar salmões no seu povoado. O problema é que as condições climáticas do local não são favoráveis para a criação dos peixes, fato que coloca o doutor Alfred Jones (Ewan Gregor), especialista em pescaria de salmões do governo britânico (sim, eles têm isso lá, aparentemente), em contato com o Sheik. É do interesse do gabinete do Primeiro Ministro que a Inglaterra e o Iêmen tenham relações cordiais e a porta-voz do manda-chuva britânico, a arrogante Patricia Maxwell (Kristin Scott Thomas) empurra a incumbência para Jones, esperando resultados positivos. À contra gosto, o doutor tenta fazer com que a ideia amalucada aconteça, trabalhando lado a lado com a assistente do Sheik, a bela Harriet Chetwode-Talbot (Emily Blunt) que, por sua vez, está preocupada com o destino do namorado, chamado para guerrear no Afeganistão – ou algo que o valha.
Adorável como sempre, Emily Blunt faz bem o papel da namoradinha apaixonante que tanto assistimos em comédias românticas. Parecendo genuinamente preocupada com um rapaz que conheceu há apenas três semanas e que foi dado como perdido em linhas inimigas, Harriet é uma mulher obstinada, otimista e inteligente, que faz uma boa dobradinha com o certinho doutor Alfred Jones, um homem que sofre com a síndrome de Asperger e que encontra na moça um novo amor. Imagino que no livro a doença de Jones seja melhor explorada, já que um espectador menos atento talvez nem perceba que ele possua esta síndrome, devido ao pouco destaque dado a esta condição. Aliás, até que dissessem com todas as palavras sobre o Asperger, imaginava que o dr. Jones era apenas um sujeito metódico. Se não inteiramente convincente, McGregor ao menos não precisa esconder seu sotaque escocês neste filme, até o exagerando, talvez, em alguns momentos. A química com Emily Blunt existe, mas nem tanto como um amor arrebatador. Mais como uma amizade forte que vai crescendo com o tempo, virando um sentimento maior.
Lasse Hallström é um especialista neste tipo de filme mais tenro e só se perde quando tenta incluir números cômicos dentro da história. Kristin Scott Thomas, por exemplo, está ótima, mas parece estar em outro filme. Mesmo que suas cenas sejam espirituosas e as curiosas mensagens pela internet com o Primeiro Ministro tenham sua graça, sempre que a personagem surge, o longa-metragem vira outra coisa. Um filme solo com a assessora de imprensa poderia ser ótimo. Mas não disputando lugar com a história principal de Amor Impossível.
Lógico que a pesca de salmão do Sheik é apenas uma metáfora para a superação de adversidades, um exemplo de como podemos alcançar o impensável bastando querer e agir. Não muito diferente de um livro auto-ajuda, sendo mais um ponto fraco do filme. Ao menos, o Sheik é retratado como uma figura interessante, íntegra, e não um estereótipo ambulante de personagens orientais como vemos em filmes deste lado do globo.
Longe de ser o melhor filme de Hallström ou o roteiro mais inspirado de Beaufoy, Amor Impossível é simpático o suficiente para uma conferida – principalmente em DVD, no aconchego do lar, sem muitas expectativas. Só não acredite que existe algo de impossível neste “Pesca de Salmão no Iêmen”, ok?
Amor Impossível (Salmon Fishing in the Yemen)
Reino Unido – 107 minutos – Comédia Romântica
Dir.: Lasse Hallström
Roteiro: Simon Beaufoy, baseado em romance de Paul Torday
Com Ewan McGregor, Emily Blunt, Kristin Scott Thomas, Amr Waked
Cotação Paradoxo: Vale 65% do ingresso
É bem verdade que “Pesca de Salmão no Iêmen” seria um título, no mínimo, pouco mercadológico para uma comédia romântica. Por outro lado, fala muito sobre o que veremos no longa-metragem em questão – por mais que a premissa seja um tanto absurda. A alternativa nacional, intitulando o novo trabalho de Lasse Hallström (de Para Sempre ao Seu Lado) de Amor Impossível é, além de lugar-comum, muito mentirosa. Isso porque, em primeira análise, o tal amor que seria impossível entre o casal principal está longe de sê-lo. O destino, inclusive, ajuda muito para que as peças encaixem para os protagonistas. Em segundo lugar, mesmo que esta impossibilidade do título remeta à paixão do Sheik pela pesca de salmões, ela também não se mostra tão problemática quanto poderia. Para os apreciadores de comédias românticas, a boa notícia é que a lambança do título em português (ou a falta de tino comercial do original) não reflete o que assistimos na tela grande. Se nunca é brilhante, Amor Impossível é, ao menos, um filme simpático, com boas atuações de sua dupla principal. Nada mais, nada menos.
Com roteiro de Simon Beaufoy (do premiado Quem Quer ser um Milionário?), baseado no romance de Paul Torday, Amor Impossível parte de um ponto de partida um tanto esquisito. Um rico sheik do Iêmen (Amr Waked) sonha em poder pescar salmões no seu povoado. O problema é que as condições climáticas do local não são favoráveis para a criação dos peixes, fato que coloca o doutor Alfred Jones (Ewan Gregor), especialista em pescaria de salmões do governo britânico (sim, eles têm isso lá, aparentemente), em contato com o Sheik. É do interesse do gabinete do Primeiro Ministro que a Inglaterra e o Iêmen tenham relações cordiais e a porta-voz do manda-chuva britânico, a arrogante Patricia Maxwell (Kristin Scott Thomas) empurra a incumbência para Jones, esperando resultados positivos. À contra gosto, o doutor tenta fazer com que a ideia amalucada aconteça, trabalhando lado a lado com a assistente do Sheik, a bela Harriet Chetwode-Talbot (Emily Blunt) que, por sua vez, está preocupada com o destino do namorado, chamado para guerrear no Afeganistão – ou algo que o valha.
Adorável como sempre, Emily Blunt faz bem o papel da namoradinha apaixonante que tanto assistimos em comédias românticas. Parecendo genuinamente preocupada com um rapaz que conheceu há apenas três semanas e que foi dado como perdido em linhas inimigas, Harriet é uma mulher obstinada, otimista e inteligente, que faz uma boa dobradinha com o certinho doutor Alfred Jones, um homem que sofre com a síndrome de Asperger e que encontra na moça um novo amor. Imagino que no livro a doença de Jones seja melhor explorada, já que um espectador menos atento talvez nem perceba que ele possua esta síndrome, devido ao pouco destaque dado a esta condição. Aliás, até que dissessem com todas as palavras sobre o Asperger, imaginava que o dr. Jones era apenas um sujeito metódico. Se não inteiramente convincente, McGregor ao menos não precisa esconder seu sotaque escocês neste filme, até o exagerando, talvez, em alguns momentos. A química com Emily Blunt existe, mas nem tanto como um amor arrebatador. Mais como uma amizade forte que vai crescendo com o tempo, virando um sentimento maior.
Lasse Hallström é um especialista neste tipo de filme mais tenro e só se perde quando tenta incluir números cômicos dentro da história. Kristin Scott Thomas, por exemplo, está ótima, mas parece estar em outro filme. Mesmo que suas cenas sejam espirituosas e as curiosas mensagens pela internet com o Primeiro Ministro tenham sua graça, sempre que a personagem surge, o longa-metragem vira outra coisa. Um filme solo com a assessora de imprensa poderia ser ótimo. Mas não disputando lugar com a história principal de Amor Impossível.
Lógico que a pesca de salmão do Sheik é apenas uma metáfora para a superação de adversidades, um exemplo de como podemos alcançar o impensável bastando querer e agir. Não muito diferente de um livro auto-ajuda, sendo mais um ponto fraco do filme. Ao menos, o Sheik é retratado como uma figura interessante, íntegra, e não um estereótipo ambulante de personagens orientais como vemos em filmes deste lado do globo.
Longe de ser o melhor filme de Hallström ou o roteiro mais inspirado de Beaufoy, Amor Impossível é simpático o suficiente para uma conferida – principalmente em DVD, no aconchego do lar, sem muitas expectativas. Só não acredite que existe algo de impossível neste “Pesca de Salmão no Iêmen”, ok?
Amor Impossível (Salmon Fishing in the Yemen)
Reino Unido – 107 minutos – Comédia Romântica
Dir.: Lasse Hallström
Roteiro: Simon Beaufoy, baseado em romance de Paul Torday
Com Ewan McGregor, Emily Blunt, Kristin Scott Thomas, Amr Waked
Cotação Paradoxo: Vale 65% do ingresso
segunda-feira, 18 de junho de 2012
Prometheus
Eram os Deuses Engenheiros?
Após ter assistido a Prometheus e de ter gostado muito do que vi, fiquei intrigado pela resposta mista do público e da crítica sobre o novo filme de Ridley Scott. Mesmo não considerando um trabalho infalível, a ficção científica que leva o cineasta britânico de volta ao universo de Alien tem qualidades que saltam aos olhos, como um respeito imenso com a franquia original correndo lado a lado a um empenho verdadeiro em apresentar material novo, desta forma, afastando-se de um reles prelúdio dispensável. Depois de queimar algumas células cinzentas, cheguei à conclusão de que independente de suas expectativas em relação ao filme, uma sessão de Prometheus pode ser, igualmente, frustrante e interessante.
Explico. Se você espera por um prelúdio de Alien, pode ficar empolgado por observar alguns pontos que remetem ao longa-metragem original, também dirigido por Ridley Scott, como, por exemplo, uma versão pregressa dos alienígenas vistos naquele filme, a empresa Weyland (antes da fusão com os asiáticos da Yutani), e tantas outras pequenas minúcias que apenas fãs conseguem perceber. No entanto, pode se decepcionar por não encontrar uma ligação direta entre as duas produções ou a versão que todos conhecemos do antagonista da franquia. Para quem espera por algo novo, tem tudo para ficar intrigado com as discussões sobre religião e ciência propostas pelo roteiro, as teorias sobre de onde a humanidade veio e o clima de ficção científica séria que Scott imprime na tela durante a primeira hora de projeção. Por outro lado, poderá ficar desapontado por perceber que a segunda metade envereda para algo mais voltado ao terror, com alienígenas tomando humanos como hospedeiros e os “deuses” sendo figuras agressivas, um tanto unidimensionais. Apesar de entender o espectador que passou por uma destas sensações acima, o conteúdo de Prometheus é tão intrigante que faz com que alguns pontos negativos sejam deixados de lado, dadas as qualidades desta ficção científica muito acima da média.
Com roteiro de Jon Spaihts (de A Hora da Escuridão) e Damon Lindelof (do seriado Lost), Prometheus mostra a procura de uma equipe de cientistas e exploradores pelos chamados “Engenheiros”, figuras que seriam os pais de nossa espécie, responsáveis pela criação da vida em nosso planeta. A arqueóloga Elizabeth Shaw (Noomi Rapace, de Sherlock Holmes – O Jogo das Sombras) e seu companheiro Charlie Holloway (Logan Marshall-Green, de Demônio) encontraram pistas que podem levá-los ao encontro destas figuras, pesquisa que o velho Peter Weyland (Guy Pearce, de O Pacto), dono da megacorporação Weyland Enterprises, deseja muito ver realizada. Para tanto, Weyland manda uma equipe para os confins do universo para encontrar estas respostas, encabeçada pela enigmática Meredith Vickers (Charlize Theron, de Branca de Neve e o Caçador), com a ajuda do não menos dúbio androide David (Michael Fassbender, de Um Método Perigoso). O problema é que, ao chegar ao local designado, o que a equipe da nave Prometheus se depara não é exatamente o esperado. Em vez de encontrar as respostas de nossas origens, Elizabeth Shaw e companhia podem ter descoberto algo que poderá acabar com a espécie humana.
Ridley Scott havia dito que, embora Prometheus não seja um prelúdio direto para a cinessérie Alien, ele carrega o DNA do primeiro filme, lançado em 1979. A escolha de palavras do cineasta não foi aleatória. DNA é um termo-chave deste novo longa-metragem, que dá algumas respostas interessantes sobre a origem dos seres que vimos nos filmes da franquia alienígena. Uma origem, aliás, surpreendente e bem mais próxima dos humanos que esperaríamos.
Mais de 30 anos depois de ter comandado o primeiro Alien, Scott mantém sua mão firme para a ficção científica, fazendo um trabalho que, em sua primeira hora, é um filme sério que discute a criação humana e nossa relação com a origem da espécie. Não deixa de ser curioso observar a conversa entre David, um androide criado pelos humanos, e Charlie, um homem procurando pelo seu criador, trocando ideias sobre o que pensam de sua gênese. Como Peter Weyland comenta em um vídeo viral da campanha de promoção de Prometheus (que você pode ver aqui), ao criarem robôs à sua imagem, os humanos se transformaram em deuses. E como encarar este fato, sendo que ainda estamos procurando por nossas próprias raízes? O filme não chega a dar respostas claras, deixando pontas soltas sobre os Engenheiros e sobre seu papel em nossa criação.
Com relação ao elenco, Noomi Rapace começa a mostrar a que veio desde que aceitou trabalhar em grandes produções de Hollywood. Depois de uma participação mínima em Sherlock Holmes: O Jogo de Sombras, Rapace abocanhou o papel principal em uma possível franquia – vivendo uma personagem que lembra Ripley, papel que deu estrelato a Sigourney Weaver. A responsabilidade é grande, mas o talento da atriz também o é. Elizabeth Shaw é uma mulher dividida entre a razão e a fé. Sua vontade em descobrir de onde nós viemos, através de fatos científicos comprovados, não elimina suas crenças em um poder divino. Traumas do passado e sua incapacidade de engravidar são duas importantes informações sobre a personagem – mas que, infelizmente, não são bem exploradas pelo roteiro. São jogados como informações suplementares, mas nunca realmente aprofundadas pelo filme.
Falando nisso, Charlize Theron e sua enigmática personagem Meredith Vickers são o suprassumo do desperdício. Aparecendo sempre sorrateiramente nas cenas, mantendo uma postura firme em todas suas aparições, Vickers serve apenas para que o espectador se pergunte se ela é ou não é um androide. Parece que Ridley Scott tenta emular o mistério de Blade Runner, fazendo com que o público saia intrigado com a dúvida. Faltou escrever um personagem um pouco melhor, que fosse memorável. Não apenas alguém que passeia pela tela, servindo de empecilho para os protagonistas. Ao ver o talento de Theron desperdiçado com um papel descartável, a mesma surpresa se repete ao observar a escalação de Guy Pearce. Vivendo um senhor idoso, com forte maquiagem, a pergunta que fica é: porque diabos não contrataram um ator mais velho? Se for apenas pelo vídeo viral em que vemos Pearce com sua idade atual, a razão é pífia. Se for por causa da possível sequência do filme, dispensável. Convidassem um ator mais velho agora e escalassem um mais jovem no próximo. Pearce não convence como um senhor idoso e, em um papel errado, apenas serve como distração.
Ao menos, o sempre competente Michael Fassbender surge como o melhor nome do elenco, perfeito como o dúbio androide David, um sujeito que faz a trama andar por causa de algumas de suas atitudes. Ele é o personagem mais interessante e o que menos sabemos sobre. Suas ações são questionáveis, mas sua importância para a sobrevivência (ou não) dos humanos faz com que a segunda metade do filme seja ainda mais intrigante.
Parecendo-se mais com Alien em seu terceiro ato, quando os extraterrestres mostram suas “garras”, Prometheus tem boas cenas assustadoras, contando com inimigos ameaçadores e que lembram bastante os asquerosos aliens da produção original. Com um inteligente desenho de produção, que consegue remeter à franquia original sem nunca parecer datado, o novo longa-metragem de Ridley Scott tem qualidades mais que suficientes para uma olhada de perto. Apesar de alguns deslizes, Prometheus é uma ficção Científica muito acima da média, um filme para ser visto e revisto.
Prometheus
EUA – 124 minutos – Ficção Científica
Dir.: Ridley Scott
Roteiro: Damon Lindelof e Jon Spaihts
Com Noomi Rapace, Michael Fassbender, Guy Pearce, Charlize Theron, Idris Elba, Rafe Spall, Logan Marshall-Green, Sean Harris, Patrick Wilson
Cotação Paradoxo: Vale 88% do ingresso
Confira logo abaixo o trailer de Prometheus:
Após ter assistido a Prometheus e de ter gostado muito do que vi, fiquei intrigado pela resposta mista do público e da crítica sobre o novo filme de Ridley Scott. Mesmo não considerando um trabalho infalível, a ficção científica que leva o cineasta britânico de volta ao universo de Alien tem qualidades que saltam aos olhos, como um respeito imenso com a franquia original correndo lado a lado a um empenho verdadeiro em apresentar material novo, desta forma, afastando-se de um reles prelúdio dispensável. Depois de queimar algumas células cinzentas, cheguei à conclusão de que independente de suas expectativas em relação ao filme, uma sessão de Prometheus pode ser, igualmente, frustrante e interessante.
Explico. Se você espera por um prelúdio de Alien, pode ficar empolgado por observar alguns pontos que remetem ao longa-metragem original, também dirigido por Ridley Scott, como, por exemplo, uma versão pregressa dos alienígenas vistos naquele filme, a empresa Weyland (antes da fusão com os asiáticos da Yutani), e tantas outras pequenas minúcias que apenas fãs conseguem perceber. No entanto, pode se decepcionar por não encontrar uma ligação direta entre as duas produções ou a versão que todos conhecemos do antagonista da franquia. Para quem espera por algo novo, tem tudo para ficar intrigado com as discussões sobre religião e ciência propostas pelo roteiro, as teorias sobre de onde a humanidade veio e o clima de ficção científica séria que Scott imprime na tela durante a primeira hora de projeção. Por outro lado, poderá ficar desapontado por perceber que a segunda metade envereda para algo mais voltado ao terror, com alienígenas tomando humanos como hospedeiros e os “deuses” sendo figuras agressivas, um tanto unidimensionais. Apesar de entender o espectador que passou por uma destas sensações acima, o conteúdo de Prometheus é tão intrigante que faz com que alguns pontos negativos sejam deixados de lado, dadas as qualidades desta ficção científica muito acima da média.
Com roteiro de Jon Spaihts (de A Hora da Escuridão) e Damon Lindelof (do seriado Lost), Prometheus mostra a procura de uma equipe de cientistas e exploradores pelos chamados “Engenheiros”, figuras que seriam os pais de nossa espécie, responsáveis pela criação da vida em nosso planeta. A arqueóloga Elizabeth Shaw (Noomi Rapace, de Sherlock Holmes – O Jogo das Sombras) e seu companheiro Charlie Holloway (Logan Marshall-Green, de Demônio) encontraram pistas que podem levá-los ao encontro destas figuras, pesquisa que o velho Peter Weyland (Guy Pearce, de O Pacto), dono da megacorporação Weyland Enterprises, deseja muito ver realizada. Para tanto, Weyland manda uma equipe para os confins do universo para encontrar estas respostas, encabeçada pela enigmática Meredith Vickers (Charlize Theron, de Branca de Neve e o Caçador), com a ajuda do não menos dúbio androide David (Michael Fassbender, de Um Método Perigoso). O problema é que, ao chegar ao local designado, o que a equipe da nave Prometheus se depara não é exatamente o esperado. Em vez de encontrar as respostas de nossas origens, Elizabeth Shaw e companhia podem ter descoberto algo que poderá acabar com a espécie humana.
Ridley Scott havia dito que, embora Prometheus não seja um prelúdio direto para a cinessérie Alien, ele carrega o DNA do primeiro filme, lançado em 1979. A escolha de palavras do cineasta não foi aleatória. DNA é um termo-chave deste novo longa-metragem, que dá algumas respostas interessantes sobre a origem dos seres que vimos nos filmes da franquia alienígena. Uma origem, aliás, surpreendente e bem mais próxima dos humanos que esperaríamos.
Mais de 30 anos depois de ter comandado o primeiro Alien, Scott mantém sua mão firme para a ficção científica, fazendo um trabalho que, em sua primeira hora, é um filme sério que discute a criação humana e nossa relação com a origem da espécie. Não deixa de ser curioso observar a conversa entre David, um androide criado pelos humanos, e Charlie, um homem procurando pelo seu criador, trocando ideias sobre o que pensam de sua gênese. Como Peter Weyland comenta em um vídeo viral da campanha de promoção de Prometheus (que você pode ver aqui), ao criarem robôs à sua imagem, os humanos se transformaram em deuses. E como encarar este fato, sendo que ainda estamos procurando por nossas próprias raízes? O filme não chega a dar respostas claras, deixando pontas soltas sobre os Engenheiros e sobre seu papel em nossa criação.
Com relação ao elenco, Noomi Rapace começa a mostrar a que veio desde que aceitou trabalhar em grandes produções de Hollywood. Depois de uma participação mínima em Sherlock Holmes: O Jogo de Sombras, Rapace abocanhou o papel principal em uma possível franquia – vivendo uma personagem que lembra Ripley, papel que deu estrelato a Sigourney Weaver. A responsabilidade é grande, mas o talento da atriz também o é. Elizabeth Shaw é uma mulher dividida entre a razão e a fé. Sua vontade em descobrir de onde nós viemos, através de fatos científicos comprovados, não elimina suas crenças em um poder divino. Traumas do passado e sua incapacidade de engravidar são duas importantes informações sobre a personagem – mas que, infelizmente, não são bem exploradas pelo roteiro. São jogados como informações suplementares, mas nunca realmente aprofundadas pelo filme.
Falando nisso, Charlize Theron e sua enigmática personagem Meredith Vickers são o suprassumo do desperdício. Aparecendo sempre sorrateiramente nas cenas, mantendo uma postura firme em todas suas aparições, Vickers serve apenas para que o espectador se pergunte se ela é ou não é um androide. Parece que Ridley Scott tenta emular o mistério de Blade Runner, fazendo com que o público saia intrigado com a dúvida. Faltou escrever um personagem um pouco melhor, que fosse memorável. Não apenas alguém que passeia pela tela, servindo de empecilho para os protagonistas. Ao ver o talento de Theron desperdiçado com um papel descartável, a mesma surpresa se repete ao observar a escalação de Guy Pearce. Vivendo um senhor idoso, com forte maquiagem, a pergunta que fica é: porque diabos não contrataram um ator mais velho? Se for apenas pelo vídeo viral em que vemos Pearce com sua idade atual, a razão é pífia. Se for por causa da possível sequência do filme, dispensável. Convidassem um ator mais velho agora e escalassem um mais jovem no próximo. Pearce não convence como um senhor idoso e, em um papel errado, apenas serve como distração.
Ao menos, o sempre competente Michael Fassbender surge como o melhor nome do elenco, perfeito como o dúbio androide David, um sujeito que faz a trama andar por causa de algumas de suas atitudes. Ele é o personagem mais interessante e o que menos sabemos sobre. Suas ações são questionáveis, mas sua importância para a sobrevivência (ou não) dos humanos faz com que a segunda metade do filme seja ainda mais intrigante.
Parecendo-se mais com Alien em seu terceiro ato, quando os extraterrestres mostram suas “garras”, Prometheus tem boas cenas assustadoras, contando com inimigos ameaçadores e que lembram bastante os asquerosos aliens da produção original. Com um inteligente desenho de produção, que consegue remeter à franquia original sem nunca parecer datado, o novo longa-metragem de Ridley Scott tem qualidades mais que suficientes para uma olhada de perto. Apesar de alguns deslizes, Prometheus é uma ficção Científica muito acima da média, um filme para ser visto e revisto.
Prometheus
EUA – 124 minutos – Ficção Científica
Dir.: Ridley Scott
Roteiro: Damon Lindelof e Jon Spaihts
Com Noomi Rapace, Michael Fassbender, Guy Pearce, Charlize Theron, Idris Elba, Rafe Spall, Logan Marshall-Green, Sean Harris, Patrick Wilson
Cotação Paradoxo: Vale 88% do ingresso
Confira logo abaixo o trailer de Prometheus:
quinta-feira, 14 de junho de 2012
Madagascar 3: Os Procurados
Afro Circus
A franquia cinematográfica Madagascar não é conhecida por sua verossimilhança. Animais falantes, fugitivos, que dependem de pinguins para locomoção não poderiam ser. No entanto, por mais amalucado e caótico que o roteiro dos longas-metragens anteriores era, a narrativa não parecia tão bagunçada quanto neste Madagascar 3: Os Procurados. Ou, ao menos, não tão sem graça. Neste terceiro episódio, ainda que tenhamos a participação mais ativa dos pinguins (as reais estrelas do filme), pouca coisa se salva.
Com roteiro de Noah Baumbach (de O Solteirão) e Eric Darnell (de Madagascar 2), com direção deste último, ao lado de Tom McGrath (também veterano da franquia) e Conrad Vernon (de Monstros vs. Alienígenas), Madagascar 3 começa no ponto de onde o anterior parou. Alex (com voz de Ben Stiller) está com saudades do zoológico de Nova York, sua casa no primeiro filme. Conversando com seus amigos Melman (David Schwimmer), Gloria (Jada Pinkett Smith) e Marty (Chris Rock), o leão descobre que não é o único a acalentar um desejo de retorno. Para tanto, é necessário que o quarteto encontre os pinguins, que foram a Monte Carlo e prometeram voltar para buscá-los. Nesta jornada, os animais do zoológico, acompanhados do Rei Julien (Sacha Baron Cohen), começam a ser caçados pela policial francesa Chantel Dubois (Frances McDormand), que tem como objetivo colocar a cabeça de um leão em sua parede de troféus. Durante a perseguição, o grupo encontra uma trupe circense e resolve se infiltrar para fugir. E este esconderijo pode ser a chave para o futuro daqueles amigos.
Em animações, é muito natural que os coadjuvantes engraçadinhos sejam imensamente populares, geralmente até mais do que os protagonistas. Timão e Pumba em O Rei Leão, o Gênio da Lâmpada em Aladdin, o esquilinho Scratch em A Era do Gelo e tantos outros possíveis exemplos não me deixam mentir. Mas no caso de Madagascar 3, a palidez dos protagonistas frente ao carisma dos pinguins é tão grande que é possível notar até a preferência dos roteiristas pelos coadjuvantes. Ainda que não protagonizem sequências geniais, o grupo de aves que atua como um pelotão militar consegue ao menos fazer sorrir durante boa parte do filme. O mesmo não pode ser dito do rei Julien, destaque dos dois filmes anteriores e que, aqui, simplesmente não ganha cenas engraçadas. Seu romance com uma ursa cai na mesma categoria bizarra do namoro entre o Burro e o Dragão em Shrek, mas não agrega risada alguma ao filme. Pelo contrário, desperdiça um dos personagens mais carismáticos da franquia.
Do quarteto principal, o que mais se destaca em matéria de riso é Martin, que ganha uma canção tão (ou mais) chiclete do que I Like to Move it, Afro Circus - que, durante os créditos finais, é fundida com o tema do filme original, criando uma música difícil de tirar da cabeça pelos próximos meses. O romance entre Gloria e Melman, um dos temas de destaque de Madagascar 2, não chega a ser esquecido, até porque os dois ainda são um casal, mas não ganha destaque algum, deixando a dupla completamente à margem da história. Enquanto isso, Alex se transforma em uma espécie de mentor para a trupe circense, ficando dividido entre seu passado no zoológico e um possível futuro no picadeiro.
É digno de louros o trabalho fantástico dos animadores em recriar algumas características do elenco em seus personagens. A dentição e o jeito de falar de Bryan Cranston foi copiado de forma assustadora no tigre russo Vitaly, um dos novos personagens do filme. Enquanto isso, a suavidade da bela Jessica Chastain foi incorporado de forma interessante em sua personagem, a esguia Gia. No Brasil, a dublagem não deixa a desejar, com um elenco de vozes competente (com exceção, talvez, de Marcos Frota, que se perde no sotaque italiano). Voltando aos animadores, a recriação da Europa também merece elogios, com alguns pontos turísticos bastante conhecidos dando as caras no filme.
Com uma história pouco inventiva e sem espaço para o riso de outrora, Madagascar 3 é uma sombra do que a cinessérie já foi em matéria de diversão. Alguns bons momentos aqui e acolá infelizmente não salvam o filme de um resultado morno, mais indicado para o home vídeo do que o cinema. Talvez um longa-metragem dedicado apenas aos pinguins tivesse melhor sorte. Ao menos, a trama deste terceiro capítulo fecha bem as pontas de toda a franquia, não sendo necessário mais uma sequência para dar continuidade às aventuras. Isso, claro, se o dinheiro – sempre ele – não falar mais alto.
Madagascar 3: Os Procurados (Madagascar 3: Europe’s Most Wanted)
EUA – 93 min – Animação
Direção: Eric Darnell, Tom McGrath e Conrad Vernon
Roteiro: Eric Darnell e Noah Baumbach
Com as vozes de Ben Stiller, Chris Rock, David Schwimmer, Jada Pinkett Smith, Sacha Baron Cohen, Cedric the Entertainer, Andy Richter, Frances McDormand, Jessica Chastain, Bryan Cranston, Martin Short
Cotação Paradoxo: Vale 55% do ingresso
Confira logo abaixo o trailer de Madagascar 3: Os Procurados:
A franquia cinematográfica Madagascar não é conhecida por sua verossimilhança. Animais falantes, fugitivos, que dependem de pinguins para locomoção não poderiam ser. No entanto, por mais amalucado e caótico que o roteiro dos longas-metragens anteriores era, a narrativa não parecia tão bagunçada quanto neste Madagascar 3: Os Procurados. Ou, ao menos, não tão sem graça. Neste terceiro episódio, ainda que tenhamos a participação mais ativa dos pinguins (as reais estrelas do filme), pouca coisa se salva.
Com roteiro de Noah Baumbach (de O Solteirão) e Eric Darnell (de Madagascar 2), com direção deste último, ao lado de Tom McGrath (também veterano da franquia) e Conrad Vernon (de Monstros vs. Alienígenas), Madagascar 3 começa no ponto de onde o anterior parou. Alex (com voz de Ben Stiller) está com saudades do zoológico de Nova York, sua casa no primeiro filme. Conversando com seus amigos Melman (David Schwimmer), Gloria (Jada Pinkett Smith) e Marty (Chris Rock), o leão descobre que não é o único a acalentar um desejo de retorno. Para tanto, é necessário que o quarteto encontre os pinguins, que foram a Monte Carlo e prometeram voltar para buscá-los. Nesta jornada, os animais do zoológico, acompanhados do Rei Julien (Sacha Baron Cohen), começam a ser caçados pela policial francesa Chantel Dubois (Frances McDormand), que tem como objetivo colocar a cabeça de um leão em sua parede de troféus. Durante a perseguição, o grupo encontra uma trupe circense e resolve se infiltrar para fugir. E este esconderijo pode ser a chave para o futuro daqueles amigos.
Em animações, é muito natural que os coadjuvantes engraçadinhos sejam imensamente populares, geralmente até mais do que os protagonistas. Timão e Pumba em O Rei Leão, o Gênio da Lâmpada em Aladdin, o esquilinho Scratch em A Era do Gelo e tantos outros possíveis exemplos não me deixam mentir. Mas no caso de Madagascar 3, a palidez dos protagonistas frente ao carisma dos pinguins é tão grande que é possível notar até a preferência dos roteiristas pelos coadjuvantes. Ainda que não protagonizem sequências geniais, o grupo de aves que atua como um pelotão militar consegue ao menos fazer sorrir durante boa parte do filme. O mesmo não pode ser dito do rei Julien, destaque dos dois filmes anteriores e que, aqui, simplesmente não ganha cenas engraçadas. Seu romance com uma ursa cai na mesma categoria bizarra do namoro entre o Burro e o Dragão em Shrek, mas não agrega risada alguma ao filme. Pelo contrário, desperdiça um dos personagens mais carismáticos da franquia.
Do quarteto principal, o que mais se destaca em matéria de riso é Martin, que ganha uma canção tão (ou mais) chiclete do que I Like to Move it, Afro Circus - que, durante os créditos finais, é fundida com o tema do filme original, criando uma música difícil de tirar da cabeça pelos próximos meses. O romance entre Gloria e Melman, um dos temas de destaque de Madagascar 2, não chega a ser esquecido, até porque os dois ainda são um casal, mas não ganha destaque algum, deixando a dupla completamente à margem da história. Enquanto isso, Alex se transforma em uma espécie de mentor para a trupe circense, ficando dividido entre seu passado no zoológico e um possível futuro no picadeiro.
É digno de louros o trabalho fantástico dos animadores em recriar algumas características do elenco em seus personagens. A dentição e o jeito de falar de Bryan Cranston foi copiado de forma assustadora no tigre russo Vitaly, um dos novos personagens do filme. Enquanto isso, a suavidade da bela Jessica Chastain foi incorporado de forma interessante em sua personagem, a esguia Gia. No Brasil, a dublagem não deixa a desejar, com um elenco de vozes competente (com exceção, talvez, de Marcos Frota, que se perde no sotaque italiano). Voltando aos animadores, a recriação da Europa também merece elogios, com alguns pontos turísticos bastante conhecidos dando as caras no filme.
Com uma história pouco inventiva e sem espaço para o riso de outrora, Madagascar 3 é uma sombra do que a cinessérie já foi em matéria de diversão. Alguns bons momentos aqui e acolá infelizmente não salvam o filme de um resultado morno, mais indicado para o home vídeo do que o cinema. Talvez um longa-metragem dedicado apenas aos pinguins tivesse melhor sorte. Ao menos, a trama deste terceiro capítulo fecha bem as pontas de toda a franquia, não sendo necessário mais uma sequência para dar continuidade às aventuras. Isso, claro, se o dinheiro – sempre ele – não falar mais alto.
Madagascar 3: Os Procurados (Madagascar 3: Europe’s Most Wanted)
EUA – 93 min – Animação
Direção: Eric Darnell, Tom McGrath e Conrad Vernon
Roteiro: Eric Darnell e Noah Baumbach
Com as vozes de Ben Stiller, Chris Rock, David Schwimmer, Jada Pinkett Smith, Sacha Baron Cohen, Cedric the Entertainer, Andy Richter, Frances McDormand, Jessica Chastain, Bryan Cranston, Martin Short
Cotação Paradoxo: Vale 55% do ingresso
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quarta-feira, 13 de junho de 2012
Para Sempre
Café Mnemonic
A perda da memória é uma bengala comum usada em roteiros de cinema (e, principalmente, de novelas). Nada mais prático do que tascar uma amnésia repentina – geralmente uma batida na cabeça – para apagar algumas informações indesejadas da mente de seu protagonista ou antagonista. O que difere Para Sempre de outras produções que utilizam de forma gratuita esta condição mental é o fato de a história ser baseada em fatos reais. O que vemos no filme, ainda que não seja inteiramente verdade, é inspirado em um casal que viveu aquele problema e tentou encontrar um jeito de revertê-lo. Dirigido por Michael Sucsy (de Grey Gardens) e estrelado por Channing Tatum (de Anjos da Lei) e Rachel McAdams (de Meia Noite em Paris), Para Sempre é aquele programa projetado integralmente para os casais apaixonados.
Casados e felizes, Paige (McAdams) e Leo (Tatum) dividem sua vida com os vários amigos e seus trabalhos interessantes. Ela, artista plástica. Ele, produtor musical, dono de um pequeno estúdio. Certo dia, ao sair de seu café preferido, o casal sofre um acidente e Paige entra em coma. Ao acordar, a mulher não reconhece o marido, não se lembrando de eventos dos últimos anos. Sua última memória é estar cursando Direito, noiva de um rico playboy (Scott Speedman, de A Minha Versão do Amor), e ainda com contato estreito com os pais, Bill (Sam Neill, do seriado Alcatraz) e Rita (Jessica Lange, de A Força da Amizade). A realidade atual da moça não poderia ser mais diferente e Leo tenta relembrá-la de tudo o que passaram. Depois de tentativas frustradas, o marido percebe que terá de conquistar sua esposa novamente, como da primeira vez.
O roteiro de Para Sempre é da dupla Abby Kohn e Marc Silverstein (de Idas e Vindas do Amor), em parceria com Jason Katims (do seriado Friday Night Lights), baseado em história do estreante Stuart Sender. No primeiro ato, a narrativa entrecorta o presente com alguns flashbacks, para que conheçamos o relacionamento do casal e alguns momentos importantes de suas vidas, como o primeiro encontro, o casamento e alguns outros pequenos trechos do cotidiano. Como não poderia deixar de ser, Paige e Leo viviam em um mar de rosas, do estilo propaganda de margarina, com tudo fluindo perfeitamente até o acidente. Dito isso, é possível imaginar que o primeiro ato não é muito interessante.
A partir do segundo ato, quando o problema está posto na mesa, que Para Sempre começa a entreter. O filme funciona principalmente por causa da química entre Channing Tatum e Rachel McAdams. Tatum vive um homem irremediavelmente apaixonado pela esposa e que não poupa esforços para “trazê-la” de volta. O fato de Paige parecer outra pessoa depois do acidente não o afasta, mesmo percebendo a tarefa árdua em conviver com uma estranha. Paige, convenientemente para a história, era alguém muito diferente há cinco anos. Ainda vivia sob as asas dos pais, não encontrando ainda sua real vocação. Seu relacionamento com Leo parece tê-la ajudado neste quesito, uma pessoa que sempre estava do seu lado em suas decisões.
É verdade que alguns pontos do roteiro acabam estragando a experiência de conferir Para Sempre, como o motivo pelo qual Paige não conversava mais com os pais. Além de ser um clichê imenso, a revelação surge de forma anticlimática, plantada deliberadamente para que a protagonista soubesse a verdade. Ao menos, a resolução da história não sofre desta falta de inspiração, conseguindo fechar bem a trama sem cair na solução mais fácil no que tange problemas de memória. Talhado para ser o programa número 1 dos casais apaixonados na semana do dia dos namorados, Para Sempre não deve decepcionar o seu público alvo. Aos mais sensíveis, levar um lencinho não é uma má ideia.
Para Sempre (The Vow)
EUA – 104 minutos – Romance
Dir.: Michael Sucsy
Roteiro: Abby Kohn, Marc Silverstein, Jason Katims, baseado em história de Stuart Sender
Com Rachel McAdams, Channing Tatum, Sam Neill, Jessica Lange, Scott Speedman, Jessica McNamee, Wendy Crewson
Cotação Paradoxo: Vale 72% do ingresso
Confira logo abaixo o trailer de Para Sempre:
A perda da memória é uma bengala comum usada em roteiros de cinema (e, principalmente, de novelas). Nada mais prático do que tascar uma amnésia repentina – geralmente uma batida na cabeça – para apagar algumas informações indesejadas da mente de seu protagonista ou antagonista. O que difere Para Sempre de outras produções que utilizam de forma gratuita esta condição mental é o fato de a história ser baseada em fatos reais. O que vemos no filme, ainda que não seja inteiramente verdade, é inspirado em um casal que viveu aquele problema e tentou encontrar um jeito de revertê-lo. Dirigido por Michael Sucsy (de Grey Gardens) e estrelado por Channing Tatum (de Anjos da Lei) e Rachel McAdams (de Meia Noite em Paris), Para Sempre é aquele programa projetado integralmente para os casais apaixonados.
Casados e felizes, Paige (McAdams) e Leo (Tatum) dividem sua vida com os vários amigos e seus trabalhos interessantes. Ela, artista plástica. Ele, produtor musical, dono de um pequeno estúdio. Certo dia, ao sair de seu café preferido, o casal sofre um acidente e Paige entra em coma. Ao acordar, a mulher não reconhece o marido, não se lembrando de eventos dos últimos anos. Sua última memória é estar cursando Direito, noiva de um rico playboy (Scott Speedman, de A Minha Versão do Amor), e ainda com contato estreito com os pais, Bill (Sam Neill, do seriado Alcatraz) e Rita (Jessica Lange, de A Força da Amizade). A realidade atual da moça não poderia ser mais diferente e Leo tenta relembrá-la de tudo o que passaram. Depois de tentativas frustradas, o marido percebe que terá de conquistar sua esposa novamente, como da primeira vez.
O roteiro de Para Sempre é da dupla Abby Kohn e Marc Silverstein (de Idas e Vindas do Amor), em parceria com Jason Katims (do seriado Friday Night Lights), baseado em história do estreante Stuart Sender. No primeiro ato, a narrativa entrecorta o presente com alguns flashbacks, para que conheçamos o relacionamento do casal e alguns momentos importantes de suas vidas, como o primeiro encontro, o casamento e alguns outros pequenos trechos do cotidiano. Como não poderia deixar de ser, Paige e Leo viviam em um mar de rosas, do estilo propaganda de margarina, com tudo fluindo perfeitamente até o acidente. Dito isso, é possível imaginar que o primeiro ato não é muito interessante.
A partir do segundo ato, quando o problema está posto na mesa, que Para Sempre começa a entreter. O filme funciona principalmente por causa da química entre Channing Tatum e Rachel McAdams. Tatum vive um homem irremediavelmente apaixonado pela esposa e que não poupa esforços para “trazê-la” de volta. O fato de Paige parecer outra pessoa depois do acidente não o afasta, mesmo percebendo a tarefa árdua em conviver com uma estranha. Paige, convenientemente para a história, era alguém muito diferente há cinco anos. Ainda vivia sob as asas dos pais, não encontrando ainda sua real vocação. Seu relacionamento com Leo parece tê-la ajudado neste quesito, uma pessoa que sempre estava do seu lado em suas decisões.
É verdade que alguns pontos do roteiro acabam estragando a experiência de conferir Para Sempre, como o motivo pelo qual Paige não conversava mais com os pais. Além de ser um clichê imenso, a revelação surge de forma anticlimática, plantada deliberadamente para que a protagonista soubesse a verdade. Ao menos, a resolução da história não sofre desta falta de inspiração, conseguindo fechar bem a trama sem cair na solução mais fácil no que tange problemas de memória. Talhado para ser o programa número 1 dos casais apaixonados na semana do dia dos namorados, Para Sempre não deve decepcionar o seu público alvo. Aos mais sensíveis, levar um lencinho não é uma má ideia.
Para Sempre (The Vow)
EUA – 104 minutos – Romance
Dir.: Michael Sucsy
Roteiro: Abby Kohn, Marc Silverstein, Jason Katims, baseado em história de Stuart Sender
Com Rachel McAdams, Channing Tatum, Sam Neill, Jessica Lange, Scott Speedman, Jessica McNamee, Wendy Crewson
Cotação Paradoxo: Vale 72% do ingresso
Confira logo abaixo o trailer de Para Sempre:
sexta-feira, 8 de junho de 2012
Deus da Carnificina
Máscaras
Poucos diretores são hábeis em confinar seu elenco em um ambiente único, conseguindo manter a atenção dos espectadores durante toda a narrativa. Talvez o exemplo mais clássico seja Festim Diabólico, de Alfred Hitchcock, longa-metragem filmado em grandes planos-sequência, com o diretor mantendo seu elenco exclusivamente em um apartamento espaçoso, contando sua história naquele local. Roman Polanski é um cineasta que pode se dar ao luxo de tentar esquema semelhante. Não se prendendo à forma como Hitchcock, mas preservando seu elenco dentro de um apartamento, o diretor coloca dois casais em rota de colisão no ótimo Deus da Carnificina, um trabalho que se fia no elenco talentoso e nas frases contundentes para passar sua mensagem.
O roteiro é assinado por Polanski ao lado de Yasmina Reza, autora da peça original, Le Dieu du Carnage. Na trama, Penelope (Jodie Foster, de Um Novo Despertar) e Michael Longstreet (John C. Reilly, de Precisamos falar sobre o Kevin) convidam Nancy (Kate Winslet, de Contágio) e Alan Cowan (Christoph Waltz, de Os Três Mosqueteiros) para o seu apartamento, a fim de acertarem os ponteiros após o filho dos Cowan, de apenas 11 anos, ter agredido o seu filho. O encontro, em um primeiro momento bastante cordial, ainda que um tanto tenso, começa a virar um pesadelo quando as máscaras destas quatro pessoas começam a cair com o passar dos minutos daquela tarde.
Um texto interessante sobre a hipocrisia humana, Deus da Carnificina mostra como é possível conhecer o lado mais feio do seu "vizinho" ao passar um tempo minúsculo pisando nos calos de um e outro. Com toque finíssimo de humor negro, o longa-metragem de Polanski faz rir ao exagerar nas tintas, transformando um encontro de pretensos pais civilizados em um arranca-rabo em que nem os casais conseguem ficar do mesmo lado. Todas as características que irritam o outro acabam se maximizando naquela tarde, fazendo daquela sala um campo de batalha onde as armas são as palavras.
Com um elenco maiúsculo como este, Roman Polanski não tem problema algum em construir sua trama. Christoph Waltz é destaque ao dar vida a um advogado egocêntrico e pedante, que não vê problema algum em atender o celular dezenas de vezes durante uma conversa séria. Sua petulância em relação a mulher e ao casal dono da casa faz rir, assim como a frágil cordialidade que a personagem de Jodie Foster tenta transmitir em seus atos. Tendo convidado os Cowan em sua casa, Penelope queria um pedido de desculpas da criança, por ter "desfigurado" seu filho, e sua forma de educar a criança - aos seus olhos - é um exemplo que Alan e Nancy deveriam seguir. Ao se sentir acuada pelos comentários frios do advogado, Penelope vai perdendo a compostura com o passar do tempo, até descambar para a hostilidade aberta (maximizada com a bebida alcóolica servida).
Enquanto isso, nervosa, Nancy passa mal com toda a situação e comete uma gafe tremenda, que só acaba irritando ainda mais Penelope. É inclusive este evento que engatilha a animosidade aberta. O vômito de Nancy acaba sendo uma prévia de toda a sujeira e de todas as barbaridades que saem da boca dos quatro personagens centrais. Michael, por sua vez, tenta apaziguar a situação até onde pode, mas os ânimos exaltados e seu orgulho ferido o impedem de continaur seguindo naquele teatro cortês.
Teatro. É exatamente isso que assistimos durante os primeiros minutos de Deus da Carnificina. Aquelas quatro pessoas tentam viver seus papéis de pais preocupados, maridos e esposas perfeitos, pessoas compreensíveis. Mas logo que surge algo problemático no caminho, as atuações são substituidas pelas piores versões - ou seriam as verdadeiras versões? - daqueles dois casais. É tremendamente interessante observar a queda da máscara de cada um, em um trabalho impecável tanto do roteiro quanto da direção firme de Roman Polanski.
O único momento menos inspirado surge no terceiro ato, quando a bebida começa a falar mais alto e Jodie Foster se perde no exagero. Tirando isso, Deus da Carnificina é mais um trabalho incrível de Roman Polanski, uma ótima sátira sobre as relações humanas e uma crítica contundente à hipocrisia da vida adulta. Bravo.
Deus da Carnificina (Carnage)
França / Alemanha / Polônia / Espanha - 80 minutos - Drama
Direção: Roman Polanski
Roteiro: Roman Polanski e Yasmina Reza, baseada na peça "Le Dieu du Carnage"
Com Jodie Foster, Kate Winslet, Christoph Waltz, John C. Reilly
Cotação Paradoxo: Vale 98% do ingresso
Confira logo abaixo o trailer de Deus da Carnificina:
Poucos diretores são hábeis em confinar seu elenco em um ambiente único, conseguindo manter a atenção dos espectadores durante toda a narrativa. Talvez o exemplo mais clássico seja Festim Diabólico, de Alfred Hitchcock, longa-metragem filmado em grandes planos-sequência, com o diretor mantendo seu elenco exclusivamente em um apartamento espaçoso, contando sua história naquele local. Roman Polanski é um cineasta que pode se dar ao luxo de tentar esquema semelhante. Não se prendendo à forma como Hitchcock, mas preservando seu elenco dentro de um apartamento, o diretor coloca dois casais em rota de colisão no ótimo Deus da Carnificina, um trabalho que se fia no elenco talentoso e nas frases contundentes para passar sua mensagem.
O roteiro é assinado por Polanski ao lado de Yasmina Reza, autora da peça original, Le Dieu du Carnage. Na trama, Penelope (Jodie Foster, de Um Novo Despertar) e Michael Longstreet (John C. Reilly, de Precisamos falar sobre o Kevin) convidam Nancy (Kate Winslet, de Contágio) e Alan Cowan (Christoph Waltz, de Os Três Mosqueteiros) para o seu apartamento, a fim de acertarem os ponteiros após o filho dos Cowan, de apenas 11 anos, ter agredido o seu filho. O encontro, em um primeiro momento bastante cordial, ainda que um tanto tenso, começa a virar um pesadelo quando as máscaras destas quatro pessoas começam a cair com o passar dos minutos daquela tarde.
Um texto interessante sobre a hipocrisia humana, Deus da Carnificina mostra como é possível conhecer o lado mais feio do seu "vizinho" ao passar um tempo minúsculo pisando nos calos de um e outro. Com toque finíssimo de humor negro, o longa-metragem de Polanski faz rir ao exagerar nas tintas, transformando um encontro de pretensos pais civilizados em um arranca-rabo em que nem os casais conseguem ficar do mesmo lado. Todas as características que irritam o outro acabam se maximizando naquela tarde, fazendo daquela sala um campo de batalha onde as armas são as palavras.
Com um elenco maiúsculo como este, Roman Polanski não tem problema algum em construir sua trama. Christoph Waltz é destaque ao dar vida a um advogado egocêntrico e pedante, que não vê problema algum em atender o celular dezenas de vezes durante uma conversa séria. Sua petulância em relação a mulher e ao casal dono da casa faz rir, assim como a frágil cordialidade que a personagem de Jodie Foster tenta transmitir em seus atos. Tendo convidado os Cowan em sua casa, Penelope queria um pedido de desculpas da criança, por ter "desfigurado" seu filho, e sua forma de educar a criança - aos seus olhos - é um exemplo que Alan e Nancy deveriam seguir. Ao se sentir acuada pelos comentários frios do advogado, Penelope vai perdendo a compostura com o passar do tempo, até descambar para a hostilidade aberta (maximizada com a bebida alcóolica servida).
Enquanto isso, nervosa, Nancy passa mal com toda a situação e comete uma gafe tremenda, que só acaba irritando ainda mais Penelope. É inclusive este evento que engatilha a animosidade aberta. O vômito de Nancy acaba sendo uma prévia de toda a sujeira e de todas as barbaridades que saem da boca dos quatro personagens centrais. Michael, por sua vez, tenta apaziguar a situação até onde pode, mas os ânimos exaltados e seu orgulho ferido o impedem de continaur seguindo naquele teatro cortês.
Teatro. É exatamente isso que assistimos durante os primeiros minutos de Deus da Carnificina. Aquelas quatro pessoas tentam viver seus papéis de pais preocupados, maridos e esposas perfeitos, pessoas compreensíveis. Mas logo que surge algo problemático no caminho, as atuações são substituidas pelas piores versões - ou seriam as verdadeiras versões? - daqueles dois casais. É tremendamente interessante observar a queda da máscara de cada um, em um trabalho impecável tanto do roteiro quanto da direção firme de Roman Polanski.
O único momento menos inspirado surge no terceiro ato, quando a bebida começa a falar mais alto e Jodie Foster se perde no exagero. Tirando isso, Deus da Carnificina é mais um trabalho incrível de Roman Polanski, uma ótima sátira sobre as relações humanas e uma crítica contundente à hipocrisia da vida adulta. Bravo.
Deus da Carnificina (Carnage)
França / Alemanha / Polônia / Espanha - 80 minutos - Drama
Direção: Roman Polanski
Roteiro: Roman Polanski e Yasmina Reza, baseada na peça "Le Dieu du Carnage"
Com Jodie Foster, Kate Winslet, Christoph Waltz, John C. Reilly
Cotação Paradoxo: Vale 98% do ingresso
Confira logo abaixo o trailer de Deus da Carnificina:
quinta-feira, 7 de junho de 2012
O Diário de um Jornalista Bêbado
Medo e Delírio em Porto Rico
Não li o livro que deu origem ao filme O Diário de um Jornalista Bêbado, mas conhecendo superficialmente a obra de Hunter S. Thompson foi possível perceber que faltou um pouco de loucura naqueles 120 minutos. O longa-metragem foi feito em memória ao pai do jornalismo gonzo (estilo literário no qual o jornalista mergulha na matéria, não se preocupando com a objetividade do texto ou em se retirar da ação), mas parece tirar sempre o pé quando precisa ser mais viajante. Talvez a comparação óbvia com Medo e Delírio, dirigido pelo siderado Terry Gillian e estrelado por Johnny Depp e Benicio Del Toro, faça mal a este longa-metragem dirigido pelo bissexto Bruce Robinson (de Jennifer 8).
Na trama, assinada pelo diretor, Paul Kemp (Depp) é um jornalista norte-americano que resolve fazer um free-lance em Porto Rico, em um jornal acabado editado pelo estressado Lotterman (Richard Jenkins, de Deixe-me Entrar). Lá, conhece o fotógrafo boa praça Sala (Michael Rispoli, de Kick Ass) e o repórter problemático Moberg (Giovanni Ribisi, de Avatar). Imerso em litros e litros de bebida – sendo o rum um vício recém adquirido e terrivelmente irresistível – Kemp é convidado pelo ricaço da localidade, o também norte-americano Sanderson (Aaron Eckhart, de Batman – O Cavaleiro das Trevas) para ajudá-lo, escrevendo matérias positivas sobre um empreendimento escuso que ele pretende colocar em prática em Porto Rico. Kemp não vê problemas de início, principalmente por estar de olho na namorada de Sanderson, a sensual Chenault (Amber Heard, de Fúria sobre Rodas).
O maior problema de O Diário de um Jornalista Bêbado é o andamento solto e lento da trama. O diretor Bruce Robinson parece não saber direito o que pretende com o filme, o deixando completamente livre, sem amarras em suas várias tramas paralelas e nos coadjuvantes de luxo. Temos personagens que vão e voltam sem muito motivo (Moberg e Lotterman, por exemplo, passeiam na tela), a trama principal demora mais de uma hora para ser desenvolvida e a reviravolta – o momento em que o protagonista resolve agir – acontece faltando trinta minutos para o final do longa-metragem. Tanta lentidão para contar uma história que, desculpem os fãs de Hunter Thompson, não funciona tão bem na tela grande é um tiro no pé. Acredito que o livro seja muito mais interessante, até porque o jornalista tinha uma forma muito particular de contar suas histórias, forma esta que inexiste neste longa-metragem.
Segundo o IMDb, Johnny Depp foi o responsável pelo lançamento do livro “The Rum Diary” nos anos 90, quando estava morando com Thompson, fazendo sua imersão no papel de Medo e Delírio. Ele teria encontrado o manuscrito e convencido o velho jornalista a publicá-lo. Desde então, é vontade do ator em trazer esta história para o cinema. É de se admirar um astro de Hollywood com tamanho apreço por Hunter S. Thompson se dar tanto trabalho para ver a realização desta produção. Como intérprete, Depp está muito bem, como geralmente está. Sem figurinos ou maquiagens estranhas, o ator está de cara limpa para interpretar o alterego de Thompson, e mesmo investindo aqui e ali em suas caretas de Jack Sparrow, consegue construir uma homenagem interessante ao seu ídolo.
O real destaque do elenco fica para Giovanni Ribisi como o sequelado Moberg, um sujeito que não tem medo de experimentar as mais variadas drogas (incluindo ouvir discos com discursos de Hitler), mantendo-se em estado etílico perene. O restante do cast não tem problemas em convencer em seus papeis, até por não ser um grande desafio.
Menos cômico do que poderia ser, O Diário de um Jornalista Bêbado pode agradar aos fãs de Johnny Depp, mas não deve fazer o mesmo para os admiradores de Hunter S. Thompson. Para eles, Medo e Delírio continua sendo a adaptação definitiva da obra do jornalista. Talvez com um cineasta menos quadradão, este novo longa-metragem poderia ter feito jus às loucuras do pai do jornalismo gonzo.
O Diário de um Jornalista Bêbado (The Rum Diary)
EUA – 120 minutos – Comédia
Direção e Roteiro: Bruce Robinson
Com Johnny Depp, Aaron Eckhart, Michael Rispoli, Giovanni Ribisi, Amber Heard, Richard Jenkins
Cotação Paradoxo: Vale 55% do ingresso
Confira abaixo o trailer de O Diário de um Jornalista Bêbado:
Não li o livro que deu origem ao filme O Diário de um Jornalista Bêbado, mas conhecendo superficialmente a obra de Hunter S. Thompson foi possível perceber que faltou um pouco de loucura naqueles 120 minutos. O longa-metragem foi feito em memória ao pai do jornalismo gonzo (estilo literário no qual o jornalista mergulha na matéria, não se preocupando com a objetividade do texto ou em se retirar da ação), mas parece tirar sempre o pé quando precisa ser mais viajante. Talvez a comparação óbvia com Medo e Delírio, dirigido pelo siderado Terry Gillian e estrelado por Johnny Depp e Benicio Del Toro, faça mal a este longa-metragem dirigido pelo bissexto Bruce Robinson (de Jennifer 8).
Na trama, assinada pelo diretor, Paul Kemp (Depp) é um jornalista norte-americano que resolve fazer um free-lance em Porto Rico, em um jornal acabado editado pelo estressado Lotterman (Richard Jenkins, de Deixe-me Entrar). Lá, conhece o fotógrafo boa praça Sala (Michael Rispoli, de Kick Ass) e o repórter problemático Moberg (Giovanni Ribisi, de Avatar). Imerso em litros e litros de bebida – sendo o rum um vício recém adquirido e terrivelmente irresistível – Kemp é convidado pelo ricaço da localidade, o também norte-americano Sanderson (Aaron Eckhart, de Batman – O Cavaleiro das Trevas) para ajudá-lo, escrevendo matérias positivas sobre um empreendimento escuso que ele pretende colocar em prática em Porto Rico. Kemp não vê problemas de início, principalmente por estar de olho na namorada de Sanderson, a sensual Chenault (Amber Heard, de Fúria sobre Rodas).
O maior problema de O Diário de um Jornalista Bêbado é o andamento solto e lento da trama. O diretor Bruce Robinson parece não saber direito o que pretende com o filme, o deixando completamente livre, sem amarras em suas várias tramas paralelas e nos coadjuvantes de luxo. Temos personagens que vão e voltam sem muito motivo (Moberg e Lotterman, por exemplo, passeiam na tela), a trama principal demora mais de uma hora para ser desenvolvida e a reviravolta – o momento em que o protagonista resolve agir – acontece faltando trinta minutos para o final do longa-metragem. Tanta lentidão para contar uma história que, desculpem os fãs de Hunter Thompson, não funciona tão bem na tela grande é um tiro no pé. Acredito que o livro seja muito mais interessante, até porque o jornalista tinha uma forma muito particular de contar suas histórias, forma esta que inexiste neste longa-metragem.
Segundo o IMDb, Johnny Depp foi o responsável pelo lançamento do livro “The Rum Diary” nos anos 90, quando estava morando com Thompson, fazendo sua imersão no papel de Medo e Delírio. Ele teria encontrado o manuscrito e convencido o velho jornalista a publicá-lo. Desde então, é vontade do ator em trazer esta história para o cinema. É de se admirar um astro de Hollywood com tamanho apreço por Hunter S. Thompson se dar tanto trabalho para ver a realização desta produção. Como intérprete, Depp está muito bem, como geralmente está. Sem figurinos ou maquiagens estranhas, o ator está de cara limpa para interpretar o alterego de Thompson, e mesmo investindo aqui e ali em suas caretas de Jack Sparrow, consegue construir uma homenagem interessante ao seu ídolo.
O real destaque do elenco fica para Giovanni Ribisi como o sequelado Moberg, um sujeito que não tem medo de experimentar as mais variadas drogas (incluindo ouvir discos com discursos de Hitler), mantendo-se em estado etílico perene. O restante do cast não tem problemas em convencer em seus papeis, até por não ser um grande desafio.
Menos cômico do que poderia ser, O Diário de um Jornalista Bêbado pode agradar aos fãs de Johnny Depp, mas não deve fazer o mesmo para os admiradores de Hunter S. Thompson. Para eles, Medo e Delírio continua sendo a adaptação definitiva da obra do jornalista. Talvez com um cineasta menos quadradão, este novo longa-metragem poderia ter feito jus às loucuras do pai do jornalismo gonzo.
O Diário de um Jornalista Bêbado (The Rum Diary)
EUA – 120 minutos – Comédia
Direção e Roteiro: Bruce Robinson
Com Johnny Depp, Aaron Eckhart, Michael Rispoli, Giovanni Ribisi, Amber Heard, Richard Jenkins
Cotação Paradoxo: Vale 55% do ingresso
Confira abaixo o trailer de O Diário de um Jornalista Bêbado:
quarta-feira, 6 de junho de 2012
Solteiros com Filhos
Engravidando Jessica Stein
Ao ver o cartaz de Solteiros com Filhos e observar boa parte do elenco de Missão Madrinha de Casamento, é fácil presumir que se trata de uma comédia com os mesmos predicados. Ledo engano. Não é. O longa-metragem estrelado, escrito e dirigido por Jennifer Westfeldt (de Beijando Jessica Stein) é mais agridoce do que cômico ao tentar responder a questão que muitas comédias românticas já se aventuraram a resolver: uma amizade pode ser arruinada com sexo? Ou o sexo transforma aquela relação em algo diferente e potencialmente melhor? Foram vários filmes que tentaram chegar a alguma conclusão, desde o ótimo clássico Harry & Sally – Feitos um para o Outro até o bem recente e esquecível Sexo sem Compromisso. O filme de Westfeldt fica no meio do caminho, nem ótimo, tampouco esquecível. O que salva Solteiros com Filhos do naufrágio é o bom elenco cômico, que consegue entreter o espectador com até o mais prosaico dos roteiros.
Na trama, Jason (Adam Scott, de Piranha) e Julie (Westfeld) são amigos inseparáveis desde a adolescência. Vivendo no mesmo prédio e dividindo confidências, os dois se amam incondicionalmente, mas não tem qualquer desejo sexual um pelo outro. Seriam o casal dos sonhos, caso se vissem como tal. Seus amigos mais próximos estão casados, são pais, e, mesmo que o cotidiano deles não pareça muito promissor, Jason e Julie têm vontade de ter um filho. Uma ideia amalucada então surge: porque os dois não se juntam e concebem uma criança, dividindo igualmente as responsabilidades sem o peso do matrimônio, namoro e outras amarras? Sem pensar muito nos prós e contras, os dois vão em frente com o plano e geram um bebê. De começo, tudo vai muito bem. Mas a chegada de novos interesses amorosos acaba atrapalhando o andamento da relação.
Solteiros com Filhos é um filme que serve mais para os casais que não pretendem ser pais do que para os que têm na maternidade um grande sonho. Para os primeiros, surgirão as cenas que confirmam todos os seus maiores medos: a mudança da rotina, a perda total da privacidade do casal, a vida que ganha outro sentido, vivenciada apenas para os filhos, as brigas constantes e vários outros pontos sensíveis. Ainda que saibamos e entendamos que os casais representados no filme são terrivelmente disfuncionais, a mensagem que ele passa não é nada acolhedora. Kristen Wiig, Jon Hamm, Maya Rudolph e Chris O’Dowd, parceiros de elenco em Missão Madrinha de Casamento, vivem estes amigos com casamentos instáveis, todos com boas performances. Hamm é destaque em uma das melhores cenas do longa-metragem, quando todos estão jantando durante viagem de férias, momento no qual várias verdades surgem em uma conversa com ânimos esquentados.
O calcanhar de Aquiles de Solteiros com Filhos acaba sendo sua protagonista – que vem a ser a diretora e roteirista do longa-metragem. Inexpressiva, talvez por causa do botóx excessivo, Jennifer Westfeld não consegue atingir as notas altas de seu personagem. Não alcança o drama ou a comédia quando necessários, mantendo-se em uma zona neutra que simplesmente não funciona. Seu parceiro de tela, Adam Scott, mesmo talentoso, não consegue levar a dupla nas costas. O trabalho do ator é ainda mais complicado, visto que tem de fazer par com Megan Fox, uma belíssima mulher que, infelizmente, não serve como atriz. Talvez como colírio para os olhos. E só.
Com andamento lento para uma pretensa comédia, Solteiros com Filhos é o típico filme que o espectador já sabe o final antes mesmo de assisti-lo. Algumas boas cenas e personagens interessantes acabam deixando a tarefa mais aprazível, mas é pouco para um longa-metragem com tantos talentos cômicos envolvidos. Talvez se não fosse vendido como uma comédia ou contasse com uma diretora mais experimentada, o resultado fosse sensivelmente melhor.
Solteiros com Filhos (Friends with Kids)
EUA – 107 minutos – Comédia
Direção e roteiro: Jennifer Westfeld
Com Adam Scott, Jennifer Westfeld, Kristen Wiig, Jon Hamm, Maya Rudolph, Chris O’Dowd, Megan Fox, Edward Burns
Cotação Paradoxo: Vale 60% do ingress
Confira logo abaixo o trailer de Solteiros com Filhos:
Ao ver o cartaz de Solteiros com Filhos e observar boa parte do elenco de Missão Madrinha de Casamento, é fácil presumir que se trata de uma comédia com os mesmos predicados. Ledo engano. Não é. O longa-metragem estrelado, escrito e dirigido por Jennifer Westfeldt (de Beijando Jessica Stein) é mais agridoce do que cômico ao tentar responder a questão que muitas comédias românticas já se aventuraram a resolver: uma amizade pode ser arruinada com sexo? Ou o sexo transforma aquela relação em algo diferente e potencialmente melhor? Foram vários filmes que tentaram chegar a alguma conclusão, desde o ótimo clássico Harry & Sally – Feitos um para o Outro até o bem recente e esquecível Sexo sem Compromisso. O filme de Westfeldt fica no meio do caminho, nem ótimo, tampouco esquecível. O que salva Solteiros com Filhos do naufrágio é o bom elenco cômico, que consegue entreter o espectador com até o mais prosaico dos roteiros.
Na trama, Jason (Adam Scott, de Piranha) e Julie (Westfeld) são amigos inseparáveis desde a adolescência. Vivendo no mesmo prédio e dividindo confidências, os dois se amam incondicionalmente, mas não tem qualquer desejo sexual um pelo outro. Seriam o casal dos sonhos, caso se vissem como tal. Seus amigos mais próximos estão casados, são pais, e, mesmo que o cotidiano deles não pareça muito promissor, Jason e Julie têm vontade de ter um filho. Uma ideia amalucada então surge: porque os dois não se juntam e concebem uma criança, dividindo igualmente as responsabilidades sem o peso do matrimônio, namoro e outras amarras? Sem pensar muito nos prós e contras, os dois vão em frente com o plano e geram um bebê. De começo, tudo vai muito bem. Mas a chegada de novos interesses amorosos acaba atrapalhando o andamento da relação.
Solteiros com Filhos é um filme que serve mais para os casais que não pretendem ser pais do que para os que têm na maternidade um grande sonho. Para os primeiros, surgirão as cenas que confirmam todos os seus maiores medos: a mudança da rotina, a perda total da privacidade do casal, a vida que ganha outro sentido, vivenciada apenas para os filhos, as brigas constantes e vários outros pontos sensíveis. Ainda que saibamos e entendamos que os casais representados no filme são terrivelmente disfuncionais, a mensagem que ele passa não é nada acolhedora. Kristen Wiig, Jon Hamm, Maya Rudolph e Chris O’Dowd, parceiros de elenco em Missão Madrinha de Casamento, vivem estes amigos com casamentos instáveis, todos com boas performances. Hamm é destaque em uma das melhores cenas do longa-metragem, quando todos estão jantando durante viagem de férias, momento no qual várias verdades surgem em uma conversa com ânimos esquentados.
O calcanhar de Aquiles de Solteiros com Filhos acaba sendo sua protagonista – que vem a ser a diretora e roteirista do longa-metragem. Inexpressiva, talvez por causa do botóx excessivo, Jennifer Westfeld não consegue atingir as notas altas de seu personagem. Não alcança o drama ou a comédia quando necessários, mantendo-se em uma zona neutra que simplesmente não funciona. Seu parceiro de tela, Adam Scott, mesmo talentoso, não consegue levar a dupla nas costas. O trabalho do ator é ainda mais complicado, visto que tem de fazer par com Megan Fox, uma belíssima mulher que, infelizmente, não serve como atriz. Talvez como colírio para os olhos. E só.
Com andamento lento para uma pretensa comédia, Solteiros com Filhos é o típico filme que o espectador já sabe o final antes mesmo de assisti-lo. Algumas boas cenas e personagens interessantes acabam deixando a tarefa mais aprazível, mas é pouco para um longa-metragem com tantos talentos cômicos envolvidos. Talvez se não fosse vendido como uma comédia ou contasse com uma diretora mais experimentada, o resultado fosse sensivelmente melhor.
Solteiros com Filhos (Friends with Kids)
EUA – 107 minutos – Comédia
Direção e roteiro: Jennifer Westfeld
Com Adam Scott, Jennifer Westfeld, Kristen Wiig, Jon Hamm, Maya Rudolph, Chris O’Dowd, Megan Fox, Edward Burns
Cotação Paradoxo: Vale 60% do ingress
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terça-feira, 5 de junho de 2012
Branca de Neve e o Caçador
The Fairest of them All
Cogitei copiar e colar o primeiro parágrafo de minha crítica sobre Espelho, Espelho Meu para iniciar este texto sobre Branca de Neve e o Caçador. Partindo do princípio que Hollywood não foi nada original em lançar dois filmes com a mesma personagem em um espaço de tempo curtíssimo, porque não seguir o exemplo? Apesar de serem produções completamente diferentes entre si em tom, existe um tronco comum que é indiscutivelmente repetitivo para o grande público. Para os fãs do conto dos Irmãos Grimm, a boa notícia é que Branca de Neve e o Caçador consegue convencer mais como aventura do que Espelho, Espelho Meu convencia como comédia. E isso já é um bom sinal, por si só.
Com roteiro de John Lee Hancock (de Um Sonho Possível), Hossein Amini (de Drive) e o estreante Evan Daugherty, o longa-metragem dirigido pelo cineasta de primeira viagem Rupert Sanders tenta fazer uma mistura entre Senhor dos Anéis e a versão timburtoniana de Alice no País das Maravilhas, utilizando os personagens do clássico conto de fadas Branca de Neve e os Sete Anões.
Aqui, Ravenna (Charlize Theron, de Jovens Adultos) é uma maquiavélica feiticeira que tem o poder de rejuvenescer ao sugar energia humana. Com sua beleza, ela encanta o viúvo rei Magnus (Noah Huntley, de Sua Alteza?), que a salva de um estranho exército de vidro. O casamento entre os dois é marcado para o dia seguinte e, logo na noite de núpcias, Ravenna revela seus planos, matando o rei e ficando com o reino para si. Branca de Neve, filha do monarca, é presa na masmorra e permanece lá por anos a fio, até atingir a idade adulta (Kristen Stewart, de A Saga Crepúsculo: Amanhecer). Quando a rainha malvada consulta seu espelho mágico e descobre que o coração de sua enteada pode fazê-la jovem para sempre, ela ordena sua morte instantânea. Frustrando seus planos, Branca de Neve consegue fugir, se embrenhando na floresta negra, local que poucos se arriscam a visitar e onde Ravenna não possui poderes. Para apanhá-la, a rainha ordena que o caçador Eric (Chris Hemsworth, de Os Vingadores) faça o serviço. Mas uma amizade entre caça e caçador surge em meio à floresta, bem como uma parceria improvável com oito anões que lá vivem.
Esqueça o desenho animado clássico da Disney e sua visão açucarada da história, ou a versão do diretor indiano Tarsem Singh, Espelho, Espelho Meu, voltada para a comédia. Branca de Neve e o Caçador é uma encarnação mais sombria da história dos Irmãos Grimm. A madrasta malvada mata, a sangue frio, seu marido; come órgãos internos crus de animais; deseja a juventude perdida e a rouba de outras mulheres; e não vê problema algum em matar sua enteada que, há anos, está presa nas masmorras do castelo. Charlize Theron mergulha na persona exagerada da vilã, parecendo possuída por um espírito ruim, enunciando suas frases de forma altiva, sempre de nariz empinado. Não chega a ser uma atuação memorável, mas não macula seu bom currículo.
Kristen Stewart, felizmente, abandona os cacoetes de Bella Swan da Saga Crepúsculo e precisa se virar com uma heroína um tanto genérica. Presa desde a infância no castelo, Branca de Neve consegue finalmente fugir, mas nem tem tempo para se surpreender com o mundo lá fora. Logo conhece o Caçador, com quem aprende UMA lição sobre defesa pessoal, e, minutos depois, já se vê às voltas dos oito anões e de planos para destronar a rainha. Tudo acontece tão rápido que Stewart mal tem tempo de respirar, quanto mais de criar uma personagem mais impactante. Pelo menos, a Branca de Neve desta aventura é menos submissa que as encarnações anteriores, muito mais ativa e voluntariosa.
Quanto ao caçador, Chris Hemsworth não ganha mais tempo que seus colegas, porém tem mais material para trabalhar. O fato de o personagem sofrer por ter enviuvado recentemente traz algum peso para a construção daquele homem. A madrasta malvada apenas o convence de caçar Branca de Neve fazendo um pacto funesto com Eric, lhe prometendo trazer de volta sua esposa do mundo dos mortos. Mal ele sabe que a magia da feiticeira não chega a tamanho poder. O papel estendido do caçador nesta aventura acaba não sendo exatamente o que esperávamos – visto que diversas sinopses apontavam que ele seria responsável pelo treinamento de Branca de Neve, fato que não acontece – mas a boa performance de Hemsworth e a utilização do caçador na batalha final acabam por justificar sua presença.
Uma questão que gerou certa polêmica foi a inclusão de um anão a mais na clássica história. Desnecessário, porém utilizado com esperteza pelo roteiro, que resolveu a questão de forma dramática. Com um elenco invejável de bons atores, todos encolhidos no melhor estilo Senhor dos Anéis, os companheiros de Branca de Neve ganham pouco o que fazer, mas poderiam facilmente ser melhor explorados em uma possível continuação. Com nomes descaradamente emprestados da Terra Média de Tolkien, como Muir, Coll, Duir e Nion, os anões são encarnados por um elenco estelar encabeçado por Ian McShane (de Piratas do Caribe: Navegando em Águas Misteriosas), Bob Hoskins (de Hollywoodland), Ray Winstone (de A Invenção de Hugo Cabret), Nick Frost (de Paul: O Fugitivo), Eddie Marsan (de Sherlock Holmes: Jogo de Sombras) e Toby Jones (de Jogos Vorazes). Se fossem melhor utilizados pelo roteiro, seriam imbatíveis.
Além de colocar o caçador como um dos protagonistas, os roteiristas de Branca de Neve e o Caçador se afastam de vários momentos que conhecemos como clássicos do conto. A maçã envenada, por exemplo, não é entregue por uma versão idosa da madrasta – ainda que esta encarnação envelhecida apareça, de forma bastante convincente. O príncipe encantado tem mais o que fazer na história – mas não muito mais, na verdade, servindo mais como um dos vértices de um triângulo amoroso desnecessário. E a “ressurreição” de Branca de Neve ganha tons messiânicos, como fosse um Jesus de saias.
Com bom andamento e cenas com efeitos especiais caprichados, Branca de Neve e o Caçador entretém o suficiente, dando uma bem-vinda repaginada no clássico dos Irmãos Grimm. Com os bons números de bilheteria, não ficaria surpreso se uma continuação surgisse no horizonte. O trabalho seria maior para os roteiristas, tendo de criar uma história praticamente do zero. Desta vez, pelo menos, a concorrência não incomodaria, visto que Espelho, Espelho Meu tem chances nulas de ganhar uma sequência. Por que será?
Branca de Neve e o Caçador (Snow White and the Huntsman)
EUA – 127 minutos – Aventura
Dir.: Rupert Sanders
Roteiro: John Lee Hancock, Hossein Amini e Evan Daugherty, baseado no conto dos irmãos Grimm
Com Kristen Stewart, Charlize Theron, Chris Hemsworth, Ian McShane, Bob Hoskins, Ray Winstone, Nick Frost, Eddie Marsan, Toby Jones, Sam Claflin, Sam Spruell
Cotação Paradoxo: Vale 76% do ingresso
Confira logo abaixo o trailer de Branca de Neve e o Caçador:
Cogitei copiar e colar o primeiro parágrafo de minha crítica sobre Espelho, Espelho Meu para iniciar este texto sobre Branca de Neve e o Caçador. Partindo do princípio que Hollywood não foi nada original em lançar dois filmes com a mesma personagem em um espaço de tempo curtíssimo, porque não seguir o exemplo? Apesar de serem produções completamente diferentes entre si em tom, existe um tronco comum que é indiscutivelmente repetitivo para o grande público. Para os fãs do conto dos Irmãos Grimm, a boa notícia é que Branca de Neve e o Caçador consegue convencer mais como aventura do que Espelho, Espelho Meu convencia como comédia. E isso já é um bom sinal, por si só.
Com roteiro de John Lee Hancock (de Um Sonho Possível), Hossein Amini (de Drive) e o estreante Evan Daugherty, o longa-metragem dirigido pelo cineasta de primeira viagem Rupert Sanders tenta fazer uma mistura entre Senhor dos Anéis e a versão timburtoniana de Alice no País das Maravilhas, utilizando os personagens do clássico conto de fadas Branca de Neve e os Sete Anões.
Aqui, Ravenna (Charlize Theron, de Jovens Adultos) é uma maquiavélica feiticeira que tem o poder de rejuvenescer ao sugar energia humana. Com sua beleza, ela encanta o viúvo rei Magnus (Noah Huntley, de Sua Alteza?), que a salva de um estranho exército de vidro. O casamento entre os dois é marcado para o dia seguinte e, logo na noite de núpcias, Ravenna revela seus planos, matando o rei e ficando com o reino para si. Branca de Neve, filha do monarca, é presa na masmorra e permanece lá por anos a fio, até atingir a idade adulta (Kristen Stewart, de A Saga Crepúsculo: Amanhecer). Quando a rainha malvada consulta seu espelho mágico e descobre que o coração de sua enteada pode fazê-la jovem para sempre, ela ordena sua morte instantânea. Frustrando seus planos, Branca de Neve consegue fugir, se embrenhando na floresta negra, local que poucos se arriscam a visitar e onde Ravenna não possui poderes. Para apanhá-la, a rainha ordena que o caçador Eric (Chris Hemsworth, de Os Vingadores) faça o serviço. Mas uma amizade entre caça e caçador surge em meio à floresta, bem como uma parceria improvável com oito anões que lá vivem.
Esqueça o desenho animado clássico da Disney e sua visão açucarada da história, ou a versão do diretor indiano Tarsem Singh, Espelho, Espelho Meu, voltada para a comédia. Branca de Neve e o Caçador é uma encarnação mais sombria da história dos Irmãos Grimm. A madrasta malvada mata, a sangue frio, seu marido; come órgãos internos crus de animais; deseja a juventude perdida e a rouba de outras mulheres; e não vê problema algum em matar sua enteada que, há anos, está presa nas masmorras do castelo. Charlize Theron mergulha na persona exagerada da vilã, parecendo possuída por um espírito ruim, enunciando suas frases de forma altiva, sempre de nariz empinado. Não chega a ser uma atuação memorável, mas não macula seu bom currículo.
Kristen Stewart, felizmente, abandona os cacoetes de Bella Swan da Saga Crepúsculo e precisa se virar com uma heroína um tanto genérica. Presa desde a infância no castelo, Branca de Neve consegue finalmente fugir, mas nem tem tempo para se surpreender com o mundo lá fora. Logo conhece o Caçador, com quem aprende UMA lição sobre defesa pessoal, e, minutos depois, já se vê às voltas dos oito anões e de planos para destronar a rainha. Tudo acontece tão rápido que Stewart mal tem tempo de respirar, quanto mais de criar uma personagem mais impactante. Pelo menos, a Branca de Neve desta aventura é menos submissa que as encarnações anteriores, muito mais ativa e voluntariosa.
Quanto ao caçador, Chris Hemsworth não ganha mais tempo que seus colegas, porém tem mais material para trabalhar. O fato de o personagem sofrer por ter enviuvado recentemente traz algum peso para a construção daquele homem. A madrasta malvada apenas o convence de caçar Branca de Neve fazendo um pacto funesto com Eric, lhe prometendo trazer de volta sua esposa do mundo dos mortos. Mal ele sabe que a magia da feiticeira não chega a tamanho poder. O papel estendido do caçador nesta aventura acaba não sendo exatamente o que esperávamos – visto que diversas sinopses apontavam que ele seria responsável pelo treinamento de Branca de Neve, fato que não acontece – mas a boa performance de Hemsworth e a utilização do caçador na batalha final acabam por justificar sua presença.
Uma questão que gerou certa polêmica foi a inclusão de um anão a mais na clássica história. Desnecessário, porém utilizado com esperteza pelo roteiro, que resolveu a questão de forma dramática. Com um elenco invejável de bons atores, todos encolhidos no melhor estilo Senhor dos Anéis, os companheiros de Branca de Neve ganham pouco o que fazer, mas poderiam facilmente ser melhor explorados em uma possível continuação. Com nomes descaradamente emprestados da Terra Média de Tolkien, como Muir, Coll, Duir e Nion, os anões são encarnados por um elenco estelar encabeçado por Ian McShane (de Piratas do Caribe: Navegando em Águas Misteriosas), Bob Hoskins (de Hollywoodland), Ray Winstone (de A Invenção de Hugo Cabret), Nick Frost (de Paul: O Fugitivo), Eddie Marsan (de Sherlock Holmes: Jogo de Sombras) e Toby Jones (de Jogos Vorazes). Se fossem melhor utilizados pelo roteiro, seriam imbatíveis.
Além de colocar o caçador como um dos protagonistas, os roteiristas de Branca de Neve e o Caçador se afastam de vários momentos que conhecemos como clássicos do conto. A maçã envenada, por exemplo, não é entregue por uma versão idosa da madrasta – ainda que esta encarnação envelhecida apareça, de forma bastante convincente. O príncipe encantado tem mais o que fazer na história – mas não muito mais, na verdade, servindo mais como um dos vértices de um triângulo amoroso desnecessário. E a “ressurreição” de Branca de Neve ganha tons messiânicos, como fosse um Jesus de saias.
Com bom andamento e cenas com efeitos especiais caprichados, Branca de Neve e o Caçador entretém o suficiente, dando uma bem-vinda repaginada no clássico dos Irmãos Grimm. Com os bons números de bilheteria, não ficaria surpreso se uma continuação surgisse no horizonte. O trabalho seria maior para os roteiristas, tendo de criar uma história praticamente do zero. Desta vez, pelo menos, a concorrência não incomodaria, visto que Espelho, Espelho Meu tem chances nulas de ganhar uma sequência. Por que será?
Branca de Neve e o Caçador (Snow White and the Huntsman)
EUA – 127 minutos – Aventura
Dir.: Rupert Sanders
Roteiro: John Lee Hancock, Hossein Amini e Evan Daugherty, baseado no conto dos irmãos Grimm
Com Kristen Stewart, Charlize Theron, Chris Hemsworth, Ian McShane, Bob Hoskins, Ray Winstone, Nick Frost, Eddie Marsan, Toby Jones, Sam Claflin, Sam Spruell
Cotação Paradoxo: Vale 76% do ingresso
Confira logo abaixo o trailer de Branca de Neve e o Caçador:
segunda-feira, 4 de junho de 2012
À Espera de Turistas
Conduzindo Herr Krzeminski
Quando se pensa que já foram contadas todas as histórias possíveis sobre a Segunda Guerra Mundial, vem um longa-metragem como À Espera de Turistas e coloca por terra esta ideia. Focalizando a instável relação entre um jovem alemão fazendo serviços comunitários em Auschwitz e um idoso polonês sobrevivente dos campos de extermínio, o filme de Robert Thalheim chega com atraso pornográfico ao Brasil, depois de ter estreado há cinco anos em seu país de origem, e de ter figurado na mostra Un Certain Regard, no Festival de Cannes em 2007.
Com roteiro do diretor, baseado em suas experiências na Polônia, À Espera de Turistas conta a história de Sven (Alexander Fehling, de Bastardos Inglórios), um rapaz alemão que escolheu fazer serviço comunitário em vez de servir ao exército – na Alemanha, é dada esta alternativa – e é enviado a Auschwitz para ajudar no museu da guerra. Lá, conhece e auxilia um idoso sobrevivente do holocausto, o polonês Stanislaw Krzeminski (Ryszard Ronczewski, de Os Anjos da Guerra), que é encarregado de restaurar as antigas malas confiscadas dos prisioneiros da Segunda Guerra. Não demora muito para o jovem alemão entender que sua estada não será das mais fáceis. Tendo de lidar com o preconceito dos poloneses em relação a sua nacionalidade, e com o mau humor de Krzeminski, Sven começa a pensar duas vezes se fez a escolha certa. Um romance com a bela Ania (a estreante Barbara Wysocka) pende a balança para o lado positivo, mas alguns acontecimentos que incomodam o rapaz tendem a complicar sua situação.
O roteiro de À Espera de Turistas não cai na armadilha fácil de transformar os protagonistas em amigos inseparáveis. O respeito que começa a existir entre os dois é conquistado por ambas as partes de forma muito lenta. De início, o velho senhor vê o rapaz apenas como um serviçal que o leva para baixo e para cima com o carro. Aos olhos de Sven, Krzeminski é um sujeito difícil, que o explora além da conta. Mesmo com este retrato pouco promissor, os dois acabam, de uma forma ou de outra, entendendo e respeitando suas diferenças com o passar do tempo. O jovem percebe que Krzeminski é uma pessoa que deve ser admirada por sua história – e que nem sempre é levado a sério como deveria. O velho senhor compreende que Sven é mais do que apenas um rapaz alienado, principalmente ao saber de algumas atitudes do jovem acerca de seu trabalho.
Robert Thalheim tenta construir seus personagens lentamente, os vendo crescerem de forma paulatina. Daria mais certo se a duração do filme não fosse tão curta. O desfecho é bastante abrupto e, ainda que seja um final compreensível e que responda às perguntas propostas, fica um sentimento de que algo mais poderia acontecer com a premissa criada. Thalheim, inclusive, poderia investir ainda mais na relação entre os protagonistas, mas decide, lá pelas tantas, incluir um romance entre Sven e uma polonesa local, Ania, como se precisasse dar algum motivo a mais para que o jovem alemão ficasse por ali. Mesmo que explorado de forma convincente, o namoro entre os dois não agrega muito à trama principal, sendo um desvio desnecessário.
Com uma fotografia bastante escura (até acredito ser culpa da cópia ou da projeção, e não do filme), À Espera de Turistas tece uma trama interessante sobre as cicatrizes da guerra, misturada a um olhar jovial sobre os traumas do passado. Um daqueles pequenos grandes filmes que acabam surpreendendo por conseguir dar uma visão diferente a um assunto incrivelmente batido. Só por isso, já vale uma olhada.
À Espera de Turistas (Am Ende kommen Touristen)
Alemanha – 85 min – Drama
Direção e Roteiro: Robert Thalheim
Com Alexander Fehling, Ryszard Ronczewski, Barbara Wysocka
Cotação Paradoxo: Vale 75% do ingresso
Confira logo abaixo o trailer de À Espera de Turistas:
Quando se pensa que já foram contadas todas as histórias possíveis sobre a Segunda Guerra Mundial, vem um longa-metragem como À Espera de Turistas e coloca por terra esta ideia. Focalizando a instável relação entre um jovem alemão fazendo serviços comunitários em Auschwitz e um idoso polonês sobrevivente dos campos de extermínio, o filme de Robert Thalheim chega com atraso pornográfico ao Brasil, depois de ter estreado há cinco anos em seu país de origem, e de ter figurado na mostra Un Certain Regard, no Festival de Cannes em 2007.
Com roteiro do diretor, baseado em suas experiências na Polônia, À Espera de Turistas conta a história de Sven (Alexander Fehling, de Bastardos Inglórios), um rapaz alemão que escolheu fazer serviço comunitário em vez de servir ao exército – na Alemanha, é dada esta alternativa – e é enviado a Auschwitz para ajudar no museu da guerra. Lá, conhece e auxilia um idoso sobrevivente do holocausto, o polonês Stanislaw Krzeminski (Ryszard Ronczewski, de Os Anjos da Guerra), que é encarregado de restaurar as antigas malas confiscadas dos prisioneiros da Segunda Guerra. Não demora muito para o jovem alemão entender que sua estada não será das mais fáceis. Tendo de lidar com o preconceito dos poloneses em relação a sua nacionalidade, e com o mau humor de Krzeminski, Sven começa a pensar duas vezes se fez a escolha certa. Um romance com a bela Ania (a estreante Barbara Wysocka) pende a balança para o lado positivo, mas alguns acontecimentos que incomodam o rapaz tendem a complicar sua situação.
O roteiro de À Espera de Turistas não cai na armadilha fácil de transformar os protagonistas em amigos inseparáveis. O respeito que começa a existir entre os dois é conquistado por ambas as partes de forma muito lenta. De início, o velho senhor vê o rapaz apenas como um serviçal que o leva para baixo e para cima com o carro. Aos olhos de Sven, Krzeminski é um sujeito difícil, que o explora além da conta. Mesmo com este retrato pouco promissor, os dois acabam, de uma forma ou de outra, entendendo e respeitando suas diferenças com o passar do tempo. O jovem percebe que Krzeminski é uma pessoa que deve ser admirada por sua história – e que nem sempre é levado a sério como deveria. O velho senhor compreende que Sven é mais do que apenas um rapaz alienado, principalmente ao saber de algumas atitudes do jovem acerca de seu trabalho.
Robert Thalheim tenta construir seus personagens lentamente, os vendo crescerem de forma paulatina. Daria mais certo se a duração do filme não fosse tão curta. O desfecho é bastante abrupto e, ainda que seja um final compreensível e que responda às perguntas propostas, fica um sentimento de que algo mais poderia acontecer com a premissa criada. Thalheim, inclusive, poderia investir ainda mais na relação entre os protagonistas, mas decide, lá pelas tantas, incluir um romance entre Sven e uma polonesa local, Ania, como se precisasse dar algum motivo a mais para que o jovem alemão ficasse por ali. Mesmo que explorado de forma convincente, o namoro entre os dois não agrega muito à trama principal, sendo um desvio desnecessário.
Com uma fotografia bastante escura (até acredito ser culpa da cópia ou da projeção, e não do filme), À Espera de Turistas tece uma trama interessante sobre as cicatrizes da guerra, misturada a um olhar jovial sobre os traumas do passado. Um daqueles pequenos grandes filmes que acabam surpreendendo por conseguir dar uma visão diferente a um assunto incrivelmente batido. Só por isso, já vale uma olhada.
À Espera de Turistas (Am Ende kommen Touristen)
Alemanha – 85 min – Drama
Direção e Roteiro: Robert Thalheim
Com Alexander Fehling, Ryszard Ronczewski, Barbara Wysocka
Cotação Paradoxo: Vale 75% do ingresso
Confira logo abaixo o trailer de À Espera de Turistas:
sexta-feira, 1 de junho de 2012
Flores do Oriente
Memórias de Putas Tristes
Em uma daquelas curiosidades interessantes de bastidores, Zhang Yimou procurava um ator norte-americano para protagonizar seu novo longa-metragem, Flores do Oriente, sem muito sucesso. Quem veio ao seu socorro foi Steven Spielberg, que não teve dúvidas: sugeriu Christian Bale para o papel do americano que se envolve emocionalmente e heroicamente na trajetória daquelas “flores da guerra”, como o título original destaca. A ironia neste caso é o fato de Bale ter estrelado O Império do Sol, longa-metragem dirigido por Spielberg e que era ambientado exatamente no mesmo período em que se passa esta produção chinesa. Baseado em fatos reais, o roteiro tem assinatura de Heng Liu, baseado no romance de Geling Yan.
O ano é 1937. A guerra entre Japão e China está a pleno, com os soldados nipônicos invadindo territórios chineses com violência. Nanquim é um local tomado quase em sua totalidade, com alguns corajosos soldados ainda resistindo à força do exército inimigo. Em meio a este cenário, surge o norte-americano John Miller (Bale), que foi contratado para enterrar o padre do vilarejo. Ao chegar lá, percebe que, não só o corpo do padre já foi levado, como os estudantes do convento não tinha intenção alguma em pagá-lo pelo serviço. Para piorar, as jovens garotas e o menino George (o estreante Tianyuan Huang) precisam da ajuda daquele homem para fazer funcionar um velho caminhão, uma das poucas esperanças do grupo. Quando prostitutas, sem muita opção, escolhem aquele convento como refúgio, logo uma cizânia se dá no local. Os perigos de fora acabam obrigando estes dois grupos tão diferentes a conviverem no mesmo ambiente. John se interessa pela bela Yu Mo (Ni Ni), que promete atender a todos seus desejos caso ele consiga tirar ela e suas amigas de Nanquim. Mas, talvez, esta não seja a real missão de John Miller.
O chinês Zhang Yimou é conhecido pelo seu apuro visual em filmes como O Clã das Adagas Voadoras, Herói e A Maldição da Flor Dourada. Portanto, em meio ao cinza da guerra, o conhecido colorido do cineasta ainda consegue dar as caras. Seja em vitrais explodindo em câmera lenta; seja nos belos vestidos das prostitutas capitaneadas por Yu Mo; seja no vermelho do sangue que jorra em algumas cenas gráficas de violência inclusas no longa-metragem. Apesar de conseguir manter este seu lado policromático, Yimou não economiza no cinza dos combates. Em algumas cenas, o fog do campo de batalha é a única imagem a ser observada, com os soldados escondidos em escombros, lutando pela sua vida, tentando salvar seu povo. A guerra é sempre feia, suja. Mas Yimou consegue, de alguma forma, manter uma beleza plástica neste seu trabalho.
Por ser uma produção chinesa, o protagonista norte-americano encarnado por Christian Bale não surge como um herói convencional, das produções de Hollywood. Apresentando características repreensíveis como alcoolismo, e tentando tirar dinheiro de um bando de crianças em meio a uma guerra, John Miller não é o exemplo do sujeito boa praça, acima do bem e do mal. Pelo contrário. Até surge como um bobalhão perto das sedutoras mulheres chinesas, tentando descolar um programa em meio a uma situação completamente desfavorável. No decorrer da história, no entanto, Miller começa a perceber o seu real valor. A paixão que nutre por Yu Mo é uma das razões desta mudança, assim como o sentimento de responsabilidade para com aquelas crianças, enclausuradas naquela igreja. Bale tem atuação convincente tanto nos momentos heroicos quanto nas cenas em que Miller é um arremedo de homem.
A salvação da inocência é um tema forte de As Flores do Oriente. Vemos, em dado momento, os soldados japoneses tentando se aproveitar sexualmente das crianças do convento, sendo impedidos por John Miller, vestido como padre. As prostitutas que ali estavam conseguem se identificar com o abuso e concebem um plano ousado para ajudar aquele grupo. Miller finalmente encontra proveito para sua habilidade e revela um segredo do passado que também conversa com o tema da perda da inocência, explicando muito as suas ações.
Apresentando novamente o apuro visual de Zhang Yimou, Flores do Oriente é um interessante retrato da guerra Sino-japonesa, valendo muito pelas boas atuações e história marcante. O filme só perde força por ser longo demais. É verdade que, desta forma, temos tempo para conhecer cada um dos personagens e nos importarmos com suas trajetórias. No entanto, um pouco de economia narrativa não faria mal algum para o longa-metragem. Deixaria-o mais coeso, inclusive.
Flores do Oriente (Jin líng shí san chai)
China / Hong Kong – 146 minutos – Drama
Dir.: Zhang Yimou
Roteiro: Heng Liu, baseado em romance de Geling Yan
Com Christian Bale, Ni Ni, Xinyi Zhang, Tong Dawei, Tianyuan Huang
Cotação Paradoxo: Vale 79% do ingresso
Confira logo abaixo o trailer de Flores do Oriente:
Em uma daquelas curiosidades interessantes de bastidores, Zhang Yimou procurava um ator norte-americano para protagonizar seu novo longa-metragem, Flores do Oriente, sem muito sucesso. Quem veio ao seu socorro foi Steven Spielberg, que não teve dúvidas: sugeriu Christian Bale para o papel do americano que se envolve emocionalmente e heroicamente na trajetória daquelas “flores da guerra”, como o título original destaca. A ironia neste caso é o fato de Bale ter estrelado O Império do Sol, longa-metragem dirigido por Spielberg e que era ambientado exatamente no mesmo período em que se passa esta produção chinesa. Baseado em fatos reais, o roteiro tem assinatura de Heng Liu, baseado no romance de Geling Yan.
O ano é 1937. A guerra entre Japão e China está a pleno, com os soldados nipônicos invadindo territórios chineses com violência. Nanquim é um local tomado quase em sua totalidade, com alguns corajosos soldados ainda resistindo à força do exército inimigo. Em meio a este cenário, surge o norte-americano John Miller (Bale), que foi contratado para enterrar o padre do vilarejo. Ao chegar lá, percebe que, não só o corpo do padre já foi levado, como os estudantes do convento não tinha intenção alguma em pagá-lo pelo serviço. Para piorar, as jovens garotas e o menino George (o estreante Tianyuan Huang) precisam da ajuda daquele homem para fazer funcionar um velho caminhão, uma das poucas esperanças do grupo. Quando prostitutas, sem muita opção, escolhem aquele convento como refúgio, logo uma cizânia se dá no local. Os perigos de fora acabam obrigando estes dois grupos tão diferentes a conviverem no mesmo ambiente. John se interessa pela bela Yu Mo (Ni Ni), que promete atender a todos seus desejos caso ele consiga tirar ela e suas amigas de Nanquim. Mas, talvez, esta não seja a real missão de John Miller.
O chinês Zhang Yimou é conhecido pelo seu apuro visual em filmes como O Clã das Adagas Voadoras, Herói e A Maldição da Flor Dourada. Portanto, em meio ao cinza da guerra, o conhecido colorido do cineasta ainda consegue dar as caras. Seja em vitrais explodindo em câmera lenta; seja nos belos vestidos das prostitutas capitaneadas por Yu Mo; seja no vermelho do sangue que jorra em algumas cenas gráficas de violência inclusas no longa-metragem. Apesar de conseguir manter este seu lado policromático, Yimou não economiza no cinza dos combates. Em algumas cenas, o fog do campo de batalha é a única imagem a ser observada, com os soldados escondidos em escombros, lutando pela sua vida, tentando salvar seu povo. A guerra é sempre feia, suja. Mas Yimou consegue, de alguma forma, manter uma beleza plástica neste seu trabalho.
Por ser uma produção chinesa, o protagonista norte-americano encarnado por Christian Bale não surge como um herói convencional, das produções de Hollywood. Apresentando características repreensíveis como alcoolismo, e tentando tirar dinheiro de um bando de crianças em meio a uma guerra, John Miller não é o exemplo do sujeito boa praça, acima do bem e do mal. Pelo contrário. Até surge como um bobalhão perto das sedutoras mulheres chinesas, tentando descolar um programa em meio a uma situação completamente desfavorável. No decorrer da história, no entanto, Miller começa a perceber o seu real valor. A paixão que nutre por Yu Mo é uma das razões desta mudança, assim como o sentimento de responsabilidade para com aquelas crianças, enclausuradas naquela igreja. Bale tem atuação convincente tanto nos momentos heroicos quanto nas cenas em que Miller é um arremedo de homem.
A salvação da inocência é um tema forte de As Flores do Oriente. Vemos, em dado momento, os soldados japoneses tentando se aproveitar sexualmente das crianças do convento, sendo impedidos por John Miller, vestido como padre. As prostitutas que ali estavam conseguem se identificar com o abuso e concebem um plano ousado para ajudar aquele grupo. Miller finalmente encontra proveito para sua habilidade e revela um segredo do passado que também conversa com o tema da perda da inocência, explicando muito as suas ações.
Apresentando novamente o apuro visual de Zhang Yimou, Flores do Oriente é um interessante retrato da guerra Sino-japonesa, valendo muito pelas boas atuações e história marcante. O filme só perde força por ser longo demais. É verdade que, desta forma, temos tempo para conhecer cada um dos personagens e nos importarmos com suas trajetórias. No entanto, um pouco de economia narrativa não faria mal algum para o longa-metragem. Deixaria-o mais coeso, inclusive.
Flores do Oriente (Jin líng shí san chai)
China / Hong Kong – 146 minutos – Drama
Dir.: Zhang Yimou
Roteiro: Heng Liu, baseado em romance de Geling Yan
Com Christian Bale, Ni Ni, Xinyi Zhang, Tong Dawei, Tianyuan Huang
Cotação Paradoxo: Vale 79% do ingresso
Confira logo abaixo o trailer de Flores do Oriente:
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