segunda-feira, 30 de abril de 2012

Flor da Neve e o Leque Secreto

Amizade Eterna

Flor da Neve e o Leque Secreto tem uma peculiar forma de contar sua história. Baseado em um livro chinês sobre duas laotong (irmãs por juramento, não de sangue) que viveram no século XIX, assinado por Lisa See, o longa-metragem de Wayne Wang (dos ótimos Cortina de Fumaça e Sem Fôlego) consegue trazer para os dias atuais o drama daquelas mulheres, atualizando uma tradição chinesa secular. Utilizando três narrativas ambientadas em tempos diferentes, o cineasta tece uma teia interessante de situações, apesar de se alongar um tanto mais que o necessário para contá-las.

O longa-metragem, com roteiro de Angela Workman (de The War Bride), Ron Bass (de Amelia) e Michael Ray (de A Princesa do Nebraska), começa nos dias de hoje. Conhecemos as laotong Nina (Bingbing Li, de O Reino Proibido) e Sophia (Gianna Jun, de Blood: The Last Vampire) que, atualmente, não tem se encontrado muito. Nina acabou de receber uma promoção e deve se mudar da China para os Estados Unidos. Já Sophia não teve muita sorte com seu antigo namorado e retornou de uma viagem à Austrália. Quando Sophia tentava encontrar Nina, talvez para se redimir de algo que aconteceu no passado, um acidente impediu o encontro. Sabendo do estado da amiga, Nina desiste momentaneamente da viagem e fica à cabeceira da cama, aguardando sua melhora. A partir daí, somos apresentados a um flashback mostrando a adolescência das meninas, seus percalços e sua luta para manterem-se juntas, mesmo com a desaprovação da madrasta de Sophia.

Todo este trecho acima descrito é original, nada tendo a ver com o livro escrito por Lisa See. O diretor Wayne Wang abre uma terceira narrativa em seu filme para adaptar a história das laotong Flor da Neve e Lily, interpretadas também pelas atrizes Gianna Jun e Bingbing Li. Vivendo na China do século XIX, quando as mulheres ainda precisavam atar seus pés para conseguir um bom casamento, Flor da Neve e Lily se conheceram ainda crianças, formaram um importante laço de amizade, mas acabaram tendo seus caminhos separados quando se casaram. Lily, de família pobre, teve a sorte de um casamento abastado devido ao seu belo pé. Já Flor da Neve, de berço nobre, teve como marido um açougueiro, homem violento e frio, vivendo seus dias na pobreza. Divido entre a China do século XIX, dos anos 90 do século XX e dos anos 10 do século XXI, Flor da Neve e o Leque Secreto vai costurando sua narrativa, com boas atuações da dupla principal.

Diferente do francês Adeus, Primeiro Amor, que erroneamente escalou atores jovens demais para convencerem em suas versões adultas, o cineasta Wayne Wang optou escolher atrizes mais velhas para interpretar suas personagens centrais, mesmo sabendo que teria de rejuvenescê-las para que vivessem os papéis na adolescência. A ajuda da maquiagem e do figurino consegue transformar a quase quarentona Bingbing Li em uma crível adolescente. O mesmo pode ser dito de Gianna Jun, que vive sem problema algum uma jovem coreana na puberdade, mesmo tendo mais de 30 anos. É bem verdade que o porte físico da mulher asiática apresenta maior espaço para este tipo de transformação. Mas não fosse a boa performance das atrizes, a aparência física não representaria nada.

Dividido em três narrativas, a mais interessante é, certamente, a baseada no livro de Lisa See, quando a história nos apresenta os costumes da China do século XIX. As personagens são mais profundas e a direção de arte ganha pontos por poder viajar ao passado. Já nos trechos baseados nos anos 90 do século XX, o que chama a atenção é a atuação das atrizes adultas como adolescentes. Por fim, durante os dias atuais, o que mais impressiona é a participação especial de um conhecido ator australiano, radicado nos Estados Unidos, que faz grandes produções hollywoodianas. E só.

Flor da Neve e o Leque Secreto tem na amizade sua principal mensagem. Podem duas mulheres jurar ser amigas e permanecerem fiéis a este juramento até o final da vida? Como nos é mostrado no longa-metragem, a tarefa nem sempre é fácil, requer uma grande parcela de boa vontade de cada uma, igual a qualquer relacionamento humano. O filme nos apresenta o conceito chinês de laotong, mas pode ser traduzido facilmente para qualquer lugar do mundo.

Falado em chinês e inglês, Flor da Neve e o Leque Secreto tem toda a pinta de filme para exportação, mostrando um pouco da cultura daquele país, pincelando aqui e ali algumas curiosas tradições, traduzindo-as para o gosto ocidental. O fato de ser distribuído pela Fox, contar com um astro hollywoodiano (mesmo que em poucas cenas) e ser assinado por um diretor que já entregou bons trabalhos nos Estados Unidos só aumentam esta sensação de “Chinês para estrangeiro ver”.

Não fosse tão longo (são 104 minutos, mas parecem bem mais), Flor da Neve e o Leque Secreto seria mais recomendável. O filme vale pelas boas atuações e pela direção de arte caprichada, mas peca por escorregar no dramalhão em certos momentos. Em outras palavras, um bom filme para assistir em uma tarde chuvosa.

Flor da Neve e o Leque Secreto (Snow Flower and the Secret Fan)
China/Estados Unidos – 104 minutos – Drama
Dir.: Wayne Wang
Roteiro: Angela Workman, Ron Bass e Michael Ray, baseado em livro de Lisa See
Com Bingbing Li, Gianna Jun, Vivian Wu, Danping Shen
Cotação Paradoxo: Vale 70% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de Flor da Neve e o Leque Secreto:

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Os Vingadores

Some Assembly

“Vim lhe falar sobre a Iniciativa Vingadores”. Desde que Samuel L. Jackson proferiu esta frase na cena pós-créditos de Homem de Ferro, nenhum fã da Marvel conseguiu dormir direito. Seria apenas uma piada ou referência longínqua sobre a super-equipe ou a Marvel realmente estava cogitando levar para o cinema os Vingadores? Este era o sonho máximo de muitos fãs dos quadrinhos, poder conferir em carne e osso uma reunião entre Homem de Ferro, Hulk, Capitão América, Thor, e outras figuras do panteão de heróis da editora. A resposta veio, primeiramente, com as maiúsculas bilheterias dos filmes solo dos personagens da Casa das Ideias, possibilitando a concretização deste plano. Com isso, e com o Universo Marvel cada vez mais coeso nas telonas, em 2012 finalmente pudemos conferir o que qualquer fanboy (ou girl) sempre quis. E o resultado não poderia ser melhor.

Com direção e roteiro de Joss Whedon (criador de Buffy – A Caça Vampiros), Os Vingadores reúne os heróis da Marvel em uma ameaça que nenhum deles poderia enfrentar sozinho. Quando Loki (Tom Hiddleston), irmão invejoso de Thor (Chris Hemsworth), consegue retornar do limbo que fora jogado, seu principal objetivo é vingança e poder. Aliando-se a uma raça alienígena perigosa, o vilão invade o nosso planeta e se apodera do cubo mágico, uma poderosa fonte de energia que pode abrir um portal para a chegada de um exército que dominará a raça humana. Para salvar o planeta, o diretor da S.H.I.E.L.D. Nick Fury (Samuel L. Jackson) precisa contar com o recém descongelado super-soldado Capitão América (Chris Evans), com o brilhante - mas altamente volátil - cientista Bruce Banner (Mark Ruffalo), com a habilidosa Viúva Negra (Scarlett Johansson), o destemido Gavião Arqueiro (Jeremy Renner) e, claro, o ególatra Tony Stark (Robert Downey Jr.). Com a chegada de Thor, saído direto de Asgard para caçar seu irmão, a equipe parece completa e pronta para atuar. Mas será que estes super-heróis são realmente um time ou uma bomba-relógio, pronta para estourar?

O maior desafio em um longa-metragem que conta com tantos personagens e tantos atores famosos é conseguir dar espaço de tela para cada um deles, sem parecer apenas um grande check list de aparições. Os fãs desejam ver seus personagens favoritos bem representados, os atores querem ter seu momento para brilhar e é necessário, para melhor contar a história, que cada um deles tenha função ativa. Para a alegria dos admiradores do Universo Marvel, Joss Whedon conseguiu sair-se bem nesta tarefa improvável. Cada um dos personagens que forma a equipe dos Vingadores, assim como alguns coadjuvantes de luxo, tem tempo para mostrar o que sabe fazer. Mesmo que Tony Stark ainda seja o mestre de cerimônias, com as melhores falas e momentos cômicos, Os Vingadores não é um “Homem de Ferro e seus Super-Amigos”. É verdadeiramente um filme de equipe, com cada um desempenhando seu papel da forma como deveria.

Nada mais normal que, por ser Robert Downey Jr. e por ser o intérprete do herói mais bem sucedido nos cinemas da Marvel, o Homem de Ferro ganhe um pouco mais de destaque que os demais. Suas falas são as melhores, muito porque o personagem tem esta verve irônica e Downey Jr. é um mestre em entregar falas inteligentes, como se fossem as mais corriqueiras. Sua dinâmica com o grupo, e as rusgas principalmente com o Capitão América, fazem muito sentido, observando a personalidade de cada um. Mas Homem de Ferro não é o único a chamar a atenção.

Depois da boa performance em seu filme solo, Chris Evans retorna ao papel de Capitão América mantendo muito bem a característica de bom sujeito de Steve Rogers, o alterego do herói. Sua inabalável confiança nas listras vermelhas da bandeira, na hierarquia e em suas funções de soldado o coloca em rota de colisão com Tony Stark, um sujeito que nunca trabalhou bem com parceiros, muito menos é dado a acatar ordens. O filme peca por não acrescentar muito do processo de adaptação de Rogers no presente, visto que Capitão América ficou congelado durante 70 anos. Algumas piadas acabam dando conta do recado, é verdade. Joss Whedon teve de cortar meia hora de filme e, diz-se que, dentre as cenas deletadas estão mais sequências envolvendo o seu deslocamento nos dias atuais. Seus diálogos com o agente Coulson (Clark Gregg, ótimo) dão conta da idolatria que as pessoas sentem pelo herói do passado.

O Thor de Chris Hemsworth demora a surgir na tela, mas quando aparece, já começa arrebentando com os planos de Homem de Ferro e Capitão América. Tanto que sua presença dá origem a uma das brigas mais bacanas do filme, entre o herói de lata e o Deus do Trovão. Qualquer fã da Marvel sabe que um combate deste quilate não teria graça, visto que Thor é um Deus. Mas a luta convence e é encerrada com um Clash de titãs. Quem vence? O escudo mais forte ou o martelo mais poderoso?

Hemsworth está ainda mais a vontade como o herói de Asgard, surgindo inclusive como alívio cômico em alguns momentos. Sua batalha é ainda mais sofrida, pois o seu principal inimigo é o próprio irmão, em mais uma boa performance de Tom Hiddleston. Mais afeito às confusões e malandragens pelas quais seu personagem Loki é conhecido, Hiddleston é um perfeito super-vilão – ameaçador, falante e, claro, querendo dominar o mundo.

A Viúva Negra e o Gavião Arqueiro, os dois membros mais humanos da equipe, podem perder em poder de fogo, mas tem arcos interessantes. Enquanto a espiã russa precisa ajudar um velho amigo a se livrar da prisão mental em que está enclausurado, o homem das flechas parte para vingança depois de um encontro pouco favorável com Loki. Existe uma certa tensão sexual entre os personagens de Scarlett Johansson e Jeremy Renner, mas nunca isto é devidamente explorado pelo filme – de novo, talvez por falta de tempo.

Samuel L. Jackson finalmente ganha mais tempo para expandir seu Nick Fury, e aparece como um sujeito que é obrigado a seguir certas regras, mas que nem sempre as acata. Mostrando um lado um tanto dúbio de personalidade – no estilo "os fins justificam os meios" – ele é a figura, ao lado do agente Coulson, que sempre acreditou na união daqueles heróis.

No fim das contas, quem surpreende positivamente e rouba o filme assim que surge é o gigante Hulk. No terceiro ato, durante a batalha final, o personagem é responsável pelas cenas mais bombásticas e pelas mais engraçadas também. Mark Ruffalo defende bem o personagem, empregando inteligência ao seu Bruce Banner. Seu approach para o papel é diferente do de Edward Norton. Enquanto em O Incrível Hulk, Banner estava obcecado por descobrir uma cura, neste, o cientista parece ter ficado em paz com seu destino. Mas é no momento em que ele se transforma no grandalhão esmeralda é quando os fãs realmente vibram.

O mais divertido em Os Vingadores é poder ver os heróis dialogando – e brigando – entre si. Isso é bastante normal nas histórias em quadrinhos. Quando heróis se conhecem, partem para as vias de fato antes de se entenderem. E neste quesito, o longa-metragem de Joss Whedon é um prato cheio. É praticamente um todos contra todos, até que eles se acertem e descubram seu inimigo em comum. Isso, claro, para chegarmos à apoteose, quando os heróis se unem para acabar com uma ameaça global. A famosa cena dos Vingadores em círculo, armando-se para enfrentar o inimigo já é antológica para qualquer apreciador da Marvel.

Divertido e altamente escapista, Os Vingadores é o filme que todo fã de quadrinhos sempre quis conferir. Tem seus personagens preferidos muito bem retratados, uma grande ameaça a ser combatida, uma dinâmica interessante entre os heróis e efeitos especiais muito bem realizados. É verdade que demora um pouco a engrenar. Até mostrar os personagens e fazê-los se unir leva uns bons 30 minutos. No entanto, nunca é enfadonho. Pode não ser tão agitado quanto poderíamos esperar no início, mas quando engrena, é uma verdadeira montanha russa.

Feito especialmente para os fãs, não só dos quadrinhos, mas para os do Universo Marvel no cinema, Os Vingadores abre muito bem a temporada de verão dos blockbusters norte-americanos. É bom avisar que existe uma cena durante os créditos que dá um grande gancho para uma continuação, que, de acordo com o sucesso do filme, não deve demorar a aparecer. Faltou só a frase “Avante Vingadores” (Avengers Assemble) para que o programa ficasse completo.

Os Vingadores (The Avengers)
Direção e Roteiro: Joss Whedon
Com Robert Downey Jr., Chris Evans, Mark Ruffalo, Chris Hemsworth, Scarlett Johansson, Jeremy Renner, Tom Hiddleston, Clark Gregg, Cobie Smulders, Stellan Skarsgard, Gwyneth Paltrow, Paul Bettany e Samuel L. Jackson
Cotação Paradoxo: Vale 98% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de Os Vingadores:

terça-feira, 24 de abril de 2012

American Pie: O Reencontro

Torta Requentada

Para o público que está beirando os 30 anos, uma continuação real de American Pie (não aquelas bobagens caça-níqueis lançadas diretamente em DVD) pode representar o reencontro com velhos amigos. Quando o primeiro filme estreou, em 1999, eu tinha 16 anos e também estava me formando no colégio, ou seja, estava na idade certa para conferir as desventuras sexuais de Jim, Oz, Finch, Kevin e Stifler. O problema de uma continuação como esta é que o público que acompanhou os personagens realmente amadureceu (ao menos, uma parte), e talvez não se divirta tanto com as mesmas piadas de outrora. O público mais jovem, os que agora estão com 16 anos, talvez não ache muita graça em gags que escancaram o abismo entre as gerações, podendo virar a cara para piadas que esculhambam seu estilo de vida. Dito isso, só é possível concluir que um filme como American Pie: O Reencontro é um risco. Até diverte, mas requer boa vontade do espectador.

Com trama assinada pela dupla de diretores Jon Hurwitz e Hayden Schlossberg (de Madrugada Muito Louca), o longa-metragem reúne toda a galera que fez os dois primeiros filmes da cinessérie – o terceiro não contava com diversos atores, em especial os protagonistas Chris Klein e Mena Suvari. Treze anos depois da formatura, a inevitável festa de reencontro acontece, e não é de se surpreender que muitos daquela turma não tem a vida que sonharam. Jim (Jason Biggs) ainda está casado com Michelle (Alyson Hannigan), mas a rotina de casados, agregada às responsabilidades da paternidade acabam tirando qualquer impulso sexual entre os dois. Oz (Chris Klein), por outro lado, é um famoso apresentador de programas de tevê, que vive com uma bela modelo, mas sem ter muito em comum com a namorada. Já Kevin (Thomas Ian Nicholas) está bem casado, mas sua esposa parece tê-lo domesticado por demais. Stifler (Seann William Scott) é o capacho de uma mega-corporação, mesmo que aja como se fosse o dono. Só Finch (Eddie Kaye Thomas) parece ter uma vida plena, viajando pelo mundo, cheio de aventuras. O reencontro da turma colocará em cheque o presente e o futuro daqueles amigos que, naquele final de semana, só desejam relembrar os bons e velhos tempos.

Boa parte do elenco nunca conseguiu se desvencilhar de seus papéis em American Pie, portanto dizer que os atores defendem bem seus personagens seria chover no molhado. Mesmo com algumas experiências e tentativas de diversificação, Jason Biggs é Jim, o rapaz que passou vexame no colégio por ter sido flagrado na internet com um sério problema de ejaculação precoce. Seann William Scott é Stifler, um rapaz que só consegue se comunicar com linguajar chulo, pensando exclusivamente em sexo o tempo todo. E, assim por diante. Imagino que quando a ideia de uma continuação surgiu, todos pularam rapidamente no barco. Inclusive Chris Klein, que deve ter percebido (tardiamente) que sua carreira praticamente inexiste sem American Pie.

Os melhores momentos continuam sendo protagonizados por Stifler (no humor grosseiro) e pelo pai de Jim (vivido por Eugene Levy, encarregado do humor constrangedor). Ambos atores tem os arcos mais interessantes do filme, fechando bem suas participações no que, espera-se, seja o último capítulo da franquia. Stifler descobre que seus amigos não o procuram por sua presença sempre ser traduzida por confusão. Para se redimir, “Stifmeister” decide ajudar seus parceiros, mostrando uma faceta até então pouco mostrada do personagem. Sua recompensa é uma vingança perfeita contra seu amigo/desafeto Finch. Já o pai de Jim está sofrendo pela perda da esposa e seu filho consegue ajudá-lo, dando conselhos para a mesma figura que sempre o envergonhou com suas palavras. Quis o destino – ou os roteiristas, melhor dizendo – que uma poderosa mulher se pusesse em seu caminho. A cena final entre o novo casal é hilária, mas só aparece depois que os créditos finais começam a rodar. Portanto, não sai do cinema antes.

Com as mesmas piadas de sempre, mas com um fechamento das tramas mais redondo do que American Pie: O Casamento, American Pie: O Reencontro é um belo final para a saga de Jim e seus amigos. Nunca é brilhante, mas faz rir pontualmente. Para quem tinha saudade dos personagens, este filme consegue fechar todas as pontas soltas, fazendo com que a despedida seja mais legítima. Só não venham com outro reencontro em 10 anos. Aí seria demais.

American Pie: O Reencontro (American Reunion)
EUA – 113 minutos – Comédia
Direção e Roteiro: Jon Hurwitz e Hayden Schlossberg
Com Jason Biggs, Alyson Hannigan, Chris Klein, Thomas Ian Nicholas, Tara Reid, Seann William Scott, Mena Suvari, Eddie Kaye Thomas, John Cho, Jennifer Coolidge, Eugene Levy
Cotação Paradoxo: Vale 70% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de American Pie: O Reencontro:

Raul - O Início, o Fim e o Meio

Mosca na Sopa

Conseguir contar em apenas 120 minutos a história musical de Raul Seixas, por si só, já seria uma tarefa hercúlea. Raulzito lançou 15 discos de estúdio durante sua carreira, do clássico “Krig-Ha, Bandolo!”, de 1973, ao discutível “A Panela do Diabo”, trabalho em parceria com Marcelo Nova, em 1989, pouco tempo antes de sua morte. Não contente com apenas esta tarefa, Walter Carvalho decidiu fazer um documentário que abraçasse outras facetas do músico, como suas variadas esposas e companheiras, seu mergulho no álcool e nas drogas e seu interesse por curiosas seitas. Apesar de ser um filme que tenta dar conta de um retratado bem sucedido musicalmente, é justamente o lado musical de Raulzito que, vez que outra, fica em segundo plano em Raul – O Início, o Fim e o Meio.

No documentário, co-dirigido por Evaldo Mocarzel e Leonardo Gudel, uma extensa lista de parceiros musicais, parceiras amorosas, membros da família e amigos tentam dar conta de quem era Raul Seixas. Da infância na Bahia, passando pelo começo da carreira, imitando Elvis Presley e o misturando com o baião, até seu estouro com canções como “Metamorfose Ambulante”, “Ouro de Tolo” e “Maluco Beleza”, vemos que a trajetória de Raulzito foi cheia de excessos - que, fatalmente, cobrariam seu preço com a prematura morte do músico aos 44 anos. Walter Carvalho consegue uma gama enorme de entrevistados e ainda costura os depoimentos com imagens de arquivo raras e vídeos musicais clássicos de Raul Seixas.

Um dos méritos de Carvalho é não escapar das perguntas difíceis ou polêmicas. Quando entrevista Paulo Coelho, um dos mais importantes parceiros de Raulzito, o cineasta consegue ótimas declarações, inclusive a revelação do quanto o relacionamento entre os dois era conturbado. Ao apontar sua câmera para o período final da vida de Raul e sua parceria com Marcelo Nova, Carvalho não foge da questão: o retorno aos palcos de Raulzito foi uma bela homenagem de um discípulo ou um tipo de exploração do mito, para proveito próprio do líder do Camisa de Vênus? Mesmo não conseguindo responder a pergunta, Carvalho traz a questão à baila, de forma até corajosa.

Infelizmente, para um documentário sobre um ídolo musical, as conversas sobre música ficam mais concentradas na primeira metade do filme, quando são apresentadas as influências de Raul, seu início com os Panteras, seu período como produtor musical e sua malandragem para gravar o primeiro disco, durante as férias de seu patrão. Não faltam depoentes para elogiar as fantásticas canções de “Krig-ha, Bandolo!”, colocando-o no pedestal da música brasileira. Depois disso, no entanto, os comentários sobre os discos vão escasseando. Isso é tão verdade que, baseado no filme, é impossível saber quantos discos foram lançados por Raul, o nome de alguns trabalhos ou em qual podemos ouvir “O Carimbador Maluco”, caso fosse interesse do espectador. Neste quesito, certamente por falta de tempo, Raul – O Início, o Fim e o Meio é nada didático, passando superficialmente por alguns momentos da carreira musical do retratado.

Agora, se seu interesse está na vida amorosa de Raul Seixas, então você saberá quantas esposas ele teve, seus nomes, seus filhos, netos, e até histórias de alcova. Óbvio que para entender o músico, é necessário uma contextualização em sua vida. O problema é Walter Carvalho ter reservado uma parte tão grande de seu filme para isso. Ao menos, todas as companheiras entrevistadas tinham boas histórias para contar, talvez por esse motivo o cineasta tenha sentido necessidade de preservá-las no filme.

Raulzito volta dos mortos no documentário, como ótimas cenas de arquivo, com entrevistas e apresentações marcantes do músico. Uma das mais emocionantes, já no fim da vida, é quando Raul reencontra Paulo Coelho nos palcos. Os dois podem ter tido brigas feias no passado, mas Raul parecia genuinamente feliz em ver seu ex-parceiro.

Não deixa de ser triste observar como as drogas e o álcool cobraram um preço caro na vida de Raul. O músico, que começou como Elvis Presley, no fim da vida estava mais para Roy Orbison, sempre de óculos escuros, com gestos lentos, lembrando pouco o maluco beleza que fizera tanto sucesso no passado. Se Raul – O Início, o Fim e o Meio serve para algo, é para deixar viva na memória dos brasileiros sua herança musical que, assim como seu ídolo de Memphis, jamais morreu.

Raul – O Início, o Fim e o Meio
Brasil – 115 minutos – Documentário
Dir.: Walter Carvalho, Evaldo Mocarzel e Leonardo Gudel
Roteiro: Leonardo Gudel
Cotação Paradoxo: Vale 80% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de Raul – O Início, o Fim e o Meio:

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Eu Receberia as Piores Notícias dos seus Lindos Lábios

Santa é a carne que peca

Não é a primeira vez que Beto Brant debruça-se sobre a obra de Marçal Aquino, seu amigo de longa data. Além de ter transportado para as telonas o ótimo O Invasor, Brant havia ensaiado uma adaptação livre de Eu Receberia as Piores Notícias de Seus Lindos Lábios no viajante O Amor Segundo B. Schianberg, utilizando um personagem secundário do romance de Aquino para construir sua narrativa. Agora, o cineasta, ao lado de Renato Ciasca, retoma o trabalho naquele mesmo livro, contando a história dos protagonistas, Cauby, Lavínia e Ernani, interpretados com vigor por Gustavo Machado (de Bruna Surfistinha), Camila Pitanga (de Saneamento Básico – O Filme) e Zecarlos Machado (de Estamos Juntos).

Na trama, assinada por Beto Brant, seu co-diretor Renato Ciasca e pelo escritor do material original Marçal Aquino, Cauby é um fotógrafo radicado no Pará que vive um tórrido romance com Lavínia, mulher casada com o pastor Ernani. Apesar de ser avisado diversas vezes que aquele caso poderia resultar em morte, o chamado crime para lavar a honra, Cauby dá de ombros e segue, totalmente apaixonado, os encontros com Lavínia. A moça, apesar de ceder aos encantos do fotógrafo, tem uma dívida grande com Ernani, que a ajudou no passado. Alheio a tudo, Ernani segue pregando a palavra do Senhor, incluindo em seus sermões frases que despertem em seus fiéis a indignação necessária contra o sério problema do desmatamento na região. Não é possível prever o que acontecerá neste triângulo amoroso, mas é certo que ninguém sairá igual desta situação.

A performance de Camila Pitanga é um dos grandes destaques de Eu Receberia as Piores Notícias de seus Lindos Lábios, tanto que a atriz recebeu prêmios no Festival do Rio e no Festival do Amazonas por sua atuação. Pitanga vive sua melhor personagem no cinema, uma mulher de passado misterioso, que é ajudada pelo pastor Ernani a se reerguer, mas que cai na tentação de um novo amor. Existem três momentos diferentes de Lavínia, e em todos, Camila Pitanga tem atuação destacada.

Conhecemos, primeiramente, a amante fervorosa, mas que carrega um sentimento de culpa indelével - verdadeiro ao observamos que a cada pergunta de Cauby sobre Ernani, a mulher responde com frases curtas, secas, nunca querendo entrar no assunto. Depois, observamos a mulher perdida, quando o filme apresenta um grande flashback para nos mostrar o passado de Lavínia. Por fim, temos o fiapo de mulher, quando tomamos conhecimento do que aconteceu com a personagem depois dos acontecimentos traumáticos do começo do terceiro ato – e, aqui, é melhor ser totalmente vago sobre o que vemos, para evitar estragar surpresas.

Para usar o clichê corrente, Pitanga é uma camaleoa em Eu Poderia Receber as Piores Notícias de seus Lindos Lábios, aparecendo completamente diferente em cada um dos momentos da protagonista. Entregando-se totalmente ao papel em cenas tórridas com Gustavo Machado e Zecarlos Machado, Pitanga utiliza a nudez de Lavínia para, como ela mesmo explicou em entrevista, desvendar a alma da personagem. A sexualidade existe em profusão no filme de Brant e Ciasca, mas não surge como um chamariz para público – do tipo, “venha ver Camila Pitanga nua”, e sim como um ponto importante na história. Nada é gratuito.

Zecarlos Machado e Gustavo Machado defendem muito bem seus papeis, mas estão um degrau abaixo de Pitanga. Quem chega perto da atriz é Gero Camilo, vivendo o literato amigo de Cauby, o jornalista Vitor Laurence. É de seu personagem a frase que talvez sintetize o filme: “santa é a carne que peca”.

Em Cão sem Dono e O Amor Segundo B. Schianberg, Beto Brant experimentava uma desdramatização extrema em suas narrativas, algo que não se repete de forma tão forte em Eu Poderia Receber as Piores Notícias de seus Lindos Lábios. É possível ver apenas nuances de realismo em alguns trechos, como nas cenas que envolvem Magnólio de Oliveira, que vive a figura circense Chico Chagas. Artista de circo na vida real, Magnólio apaga as linhas entre ficção e realidade, sendo uma figura curiosa por si só neste longa-metragem.

Utilizando muito os planos-sequência para contar sua história, o longa-metragem peca apenas por incluir, em demasia em sua montagem, o fade-in e fade-out – as telas pretas que surgem para ligar as diversas cenas. Brant já havia feito algo parecido em Cão sem Dono, mas com propósito. Aqui, a montagem de Willem Dias parece tentar dar algum sentido às diversas cenas capturadas por Brant e Ciasca, utilizando os fades por não conseguir um efeito melhor.

A inclusão de um tema social, por mais interessante que pudesse ser, é muito mal trabalhado pela trama, que parece citar apenas a temática do desmatamento para cumprir tabela, a deixando totalmente em segundo plano. No fim das contas, no terceiro ato, Beto Brant parece lembrar-se da temática e inclui, de forma um tanto aleatória, cenas aéreas de diversos pontos do norte brasileiro, que aparecem de forma quase alienígena dentro da trama que estava encaminhando seu desfecho.

Eu Receberia as Piores Notícias de seus Lindos Lábios, ainda que irregular, tem qualidades que prendem a atenção do público, como as boas performances do elenco e o bom roteiro, quando destaca o drama do trio principal. As belíssimas fotografias que servem praticamente de papel de parede para o fotógrafo Cauby são dignas de nota e poderiam muito bem ser lançadas em livro, como um material de apoio para o futuro DVD ou Blu-ray. Um prato cheio para os fãs do filme e para os apreciadores da beleza de Camila Pitanga.

Eu Receberia as Piores Notícias de seus Lindos Lábios
Brasil – 110 minutos – Drama
Dir.: Beto Brant e Renato Ciasca
Roteiro: Beto Brant, Renato Ciasca e Marçal Aquino, baseado no livro homônimo
Com Camila Pitanga, Gustavo Machado, Zecarlos Machado, Gero Camilo
Cotação Paradoxo: Vale 70% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de Eu Receberia as Piores Notícias de seus Lindos Lábios:

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Adeus, Primeiro Amor

Namoro de infância

“Todo mundo cresce, mas nem todos amadurecem”. Este é o tagline do filme Jovens Adultos, trabalho mais recente do diretor Jason Reitman (de Juno), mas se encaixa como uma luva na produção francesa Adeus, Primeiro Amor, dirigida pela cineasta Mia Hansen-Love (de O Pai dos Meus Filhos). Vemos a protagonista do longa-metragem, Camille (Lola Créton), desde a sua adolescência até sua idade adulta, com ela transparecendo uma idade emocional de uma criança de 12 anos durante todo este período. Chega a ser irritante, na verdade, mas este não é o único problema deste drama, que demora 105 minutos para chegar a lugar algum.

A trama, assinada pela cineasta, começa em 1999, com Camille e Sullivan (Sebastian Urzendowsky), ainda adolescentes, tendo problemas em seu relacionamento. A menina é totalmente devotada ao namorado, que, por sua vez, está planejando uma viagem com os amigos para a América do Sul. Segundo Sullivan, a viagem duraria apenas 10 meses, um passo importante para ele conseguir se encontrar. Camille se entristece, mas as cartas do namorado diminuem a distância entre os dois. Pouco tempo depois, Sullivan deixa de escrever, colocando a namorada em uma depressão profunda. Os anos passam, Camille cresce, mas a tristeza deste rompimento nunca parece sumir. Fechada completamente para qualquer novo relacionamento, a moça parece sempre esperar pelo retorno do seu amor de infância. Quando ela finalmente conhece um homem que lhe faz bem, o professor de arquitetura Lorenz (Magne-Havard Brekke), muitos anos depois do fim do namoro com Sullivan, um fantasma do passado retorna para assombrar a vida do casal.

O primeiro erro de Mia Hansen-Love foi contar com um elenco jovem demais para interpretar os personagens de Adeus, Primeiro Amor. Lola Créton e Sebastian Urzendowsky estão ótimos como o casal adolescente do início do filme, mas não tem a mínima condição de convencer nos papéis quando a trama pula três, quatro, dez anos, como acontece. Créton tenta transmitir uma maior segurança no andar, uma cabeça empinada e uma postura mais firme, mas o seu porte físico a trai. Com rosto jovial e corpo de ninfeta, é impossível acreditar que aquela menina tem mais de 20 anos. Mesmo utilizando-se de maquiagens e cortes de cabelo diferentes, isso não dá conta de transformá-la em uma mulher mais madura. O mesmo pode ser dito de Urzendowsky, que, aliás, nem se dá o trabalho de cortar os cabelos ou modificar alguma coisa no visual para tentar convencer como um homem mais velho.

Já não bastasse a ausência de um amadurecimento no visual, Camille simplesmente fica em uma espécie de animação suspensa durante o tempo em que Sullivan viaja pelo mundo. Sua insegurança e total devoção pelo namorado poderia parecer algo passageiro, típico de uma adolescente, mas vemos que a menina não se recupera, entrando em um estado de depressão profundo. Não ajuda o fato de Sullivan ser um sujeito sem papas na língua, que fala o que pensa e que não usa de subterfúgios para explicar as razões de seu afastamento. Mesmo dizendo que a ama, Sullivan não parece muito afeito a relacionamentos mais sérios ou duradouros. Quando acontece o twist da história e achamos que o status quo do relacionamento finalmente mudaria, percebemos que a idade emocional de Camille continua na adolescência, mesmo tendo vivido um relacionamento diferente com o maduro Lorenz.

Alguns acreditam que a vida é feita de ciclos e que eles acabam se repetindo com o passar do tempo. Isso é verdadeiro para Camille, que pensa ter encontrado novamente seu amor, entregando-se como fizera no passado, tendo uma desagradável surpresa no decorrer do romance. Tudo isso é contado de forma muito lenta por Mia Hansen-Love, que exige do espectador uma paciência muito grande para acompanhar a história daqueles dois jovens. Hansen-Love tem em mãos uma trama que, em mãos mais hábeis (ou rápidas), poderia ser contada na metade do tempo, pelo menos.

Talvez o problema esteja em esperarmos que algo aconteça, algo que modifique aquela jovem mulher. Como não podemos invadir o filme e tentar tirar a garota daquele torpor perene, resta torcermos por algo que a amadureça. Isso até surge como um ponto positivo para o filme, que não gera soluções fáceis para o sofrimento de Camille, lembrando a vida real, cheia de desilusões e decepções que alguns nunca conseguem superar. Mas isso é um ponto positivo muito pequeno para uma história que se arrasta em quase duas horas.

Adeus, Primeiro Amor (Un Amour de Jeunesse)
França – 105 minutos – Drama
Direção e roteiro: Mia Hansen-Love
Com Lola Créton, Sebastian Urzendowsky, Magne-Håvard Brekke, Valérie Bonneton
Cotação Paradoxo: Vale 40% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de Adeus, Primeiro Amor:

quinta-feira, 19 de abril de 2012

As Flores de Kirkuk

Sherko e Najla

Ao tomar contato com a sinopse de As Flores de Kirkuk, pensava se tratar de mais uma história no estilo Romeu e Julieta. Um homem e uma mulher se apaixonam, mas o ódio que envolve a realidade de ambos não lhes oportuniza a chance de ficarem juntos. Ledo engano. Ao assistir ao trabalho do diretor Fariborz Kamkari, foi possível perceber logo de cara que o seu filme navegava em águas mais profundas, não sendo apenas um romance com a guerra como pano de fundo. O conflito e ódio entre os árabes e os curdos, bem como a ditadura sanguinária de Saddam Hussein no Iraque, não servem apenas como um diferente background para uma história de amor. O sofrimento do casal, aliás, é apenas um detalhe deste drama bem construído, baseado em fatos reais.

Fariborz Kamkari e Naseh Kamkari assinam o roteiro de As Flores de Kirkuk. Najla (Morjana Alaoui) é árabe. Sherko (Ertem Eser) é curdo. A história se passa durante a ditadura de Saddam Hussein no Iraque, governo que matou e torturou os curdos de forma fria e selvagem. Najla e Sherko são médicos e se conheceram durante o curso de medicina na Itália. Sherko volta a sua terra natal e manda uma carta para a namorada, dizendo a ela que os dois não deveriam mais ficar juntos. Sem entender os motivos do rapaz, Najla decide voltar também e procurá-lo. A família da moça não aceita que ela se encontre com o rapaz em Kirkuk, e a prende em casa para que não saia. Mokhtar (Mohamed Zouaoui), um amigo da família que trabalha no exército de Hussein, observa Najla e logo se apaixona por ela, mostrando-se uma pessoa amável – e explosiva – nos primeiros encontros. Najla tenta escapar das investidas de Mokhtar, mas acaba o levando diretamente para onde o seu namorado está. Sherko, então, é capturado pelos militares e torturado. Agora, Najla fará de tudo para ajudar o seu amado a escapar do cativeiro iraquiano.

O grande destaque de As Flores de Kirkuk é a performance de Morjana Alaoui como Najla. Corajosa e dona do seu nariz, a protagonista não poupa esforços para conseguir chegar aos seus objetivos. Alaoui consegue transmitir a força de caráter da mulher, parecendo uma locomotiva que nunca pode ser parada. O diretor e roteirista Fariborz Kamkari disse que sua vontade era criar uma mulher forte, que raramente aparece no cinema iraquiano. Seu intento foi devidamente alcançado, já que Najla é praticamente uma super-heroína, formulando os planos mais mirabolantes para tirar Sherko do seu cativeiro.

O que é interessante em As Flores de Kirkuk é que não é necessariamente verdadeiro dizer que Najla faz tudo o que faz por amor. Logicamente, sua afeição pelo rapaz a coloca em rota de colisão com o seu povo, mas não é apenas isso que a impele a ajudá-lo. Existe um senso de responsabilidade para Sherko que Najla carrega. Não fosse seu retorno para o Iraque, talvez o namorado estivesse bem escondido, sem chamar a atenção, sem correr riscos de morte. Mas a sua teimosia em encontrá-lo e em permanecer com ele acabaram por deixar o rapaz em uma posição difícil, nas mãos do brutal exército iraquiano. O desfecho da história surpreende, corroborando com esta divisão entre amor e senso de responsabilidade vivido por Najla.

O diretor Fariborz Kamkari é curdo, mas nem por isso pinta os árabes como figuras sem coração. Mostrando que até os membros do exército iraquiano não concordavam com os mandos e desmandos de Saddam Hussein (na figura de Mokhtar, que se recente em ter de ser brutal a mando do governo) e colocando como protagonista uma moça árabe, Kamkari parece querer mostrar os dois lados da moeda, não demonizando o antigo inimigo de forma gratuita. Existem, claro, os árabes sanguinários e sem respeito algum com o próximo, mas não são todos.

Com um terceiro ato bombástico, mostrando a dura realidade dos prisioneiros do exército iraquiano, As Flores de Kirkuk só não manda o espectador para casa um tanto atônito pelo que acabara de ver por incluir, antes dos créditos finais, uma cena poética e amorosa, ambientada logo após a queda de Saddam Hussein do poder. Se para Najla, a responsabilidade pesou em suas decisões, para Sherko, sempre foi amor.

As Flores de Kirkuk (Golakani Kirkuk)
Suíça/Itália – 118 minutos – Drama
Dir.: Fariborz Kamkari
Roteiro: Fariborz Kamkari e Naseh Kamkari
Com Morjana Alaoui, Ertem Eser, Mohammed Bakri, Mohamed Zouaoui, Maryam Hassouni
Cotação Paradoxo: Vale 90% do ingresso

Área Q

The Q Files

Quando assisti ao trailer de Área Q, não consegui evitar de soltar uma gargalhada em pleno cinema. Apresentando efeitos especiais canhestros e contando o resumo da história no pior estilo filme B norte-americano, este preview do longa-metragem do cineasta Gerson Sanginitto (de The Morgue, inédito no Brasil) fazia um total desserviço à produção. Era impossível ter vontade de assistir a Área Q baseado naquele trailer. Para quem, como eu, ainda assim enfrentou uma sessão desta ficção científica, encontrou um filme que não era tão terrível quanto o trailer pressupunha, mas também escapa por muito pouco de ser um total embaraço.

Gerson Sanginitto, sua esposa, Carina, e Halder Gomes assinam a história de Área Q, que serviu como base do roteiro co-escrito por Julia Camara e o próprio diretor. Estranhas abduções e uma curiosa luz branca, com tons alaranjados, são corriqueiras na pequena cidade de Quixeramobim, no interior do Ceará. O jornalista norte-americano Thomas Matthews (Isaiah Washington, do seriado Grey’s Anatomy) é escalado pela revista que trabalha a escrever sobre estes estranhos acontecimentos, mas tem receio de viajar para longe de casa em meio às investigações do desaparecimento de seu filho. Ao chegar ao Brasil, Thomas percebe que algo realmente estranho acontece, passando a conversar com habitantes do local que juram terem sido tocados miraculosamente por seres extraterrestres. Mal sabe o jornalista que a gênese do seu drama pode estar mais perto do que ele pensava.

Por mais batidas que sejam as histórias sobre alienígenas e abduções, Área Q tem um roteiro até bem estruturado, com algumas boas ideias aqui e ali. A quebra do tempo narrativo funciona e o fato de a história ser contada em flashback dá a possibilidade de entendermos o que se passa pela cabeça do jornalista em terras tupiniquins. Nada de novo, é verdade. Mas funciona. O problema de Área Q não é o roteiro. É sua execução. Tudo parece amador. A fotografia, a iluminação, a direção de arte, a montagem e, principalmente, a direção são incrivelmente pobres. É difícil fazer uma ficção científica com orçamento limitado. Mas é ainda mais difícil quando as pessoas responsáveis por cada departamento, por mais esforçadas que sejam, não consigam dar um bom resultado no final.

A fotografia é simplória, ganhando algum cuidado maior em momentos oníricos ou durante uma lembrança. No todo, o longa-metragem parece ser filmado com uma câmera digital barata, com uma qualidade de imagem aquém da televisão brasileira – hoje, até novela parece ser filmada com película (não é, mas parece). A direção de arte paupérrima não consegue criar espaços que aparentem minimamente um lugar verdadeiro. Mesmo que não seja estúdio, é esta a impressão que fica. Não adianta filmar em locação se a produção não consegue construir um quarto de hotel convincente, ou uma casa de classe média verossímil. Com sérios problemas de ritmo, a montagem também deixa a desejar, como se sempre perdesse o momento certo do corte, deixando algo a mais em cada cena.

Quanto à direção em geral, Gerson Sanginitto sabe que não tem dinheiro para mostrar alienígenas, naves espaciais e todas as pirotecnias que se espera de um filme deste gênero. Portanto, sabiamente, prefere não se arriscar. Muita coisa é sugerida e não mostrada em Área Q, o que é bastante louvável. O fato de não conseguir dar um visual mais profissional ao seu filme depõe contra o seu trabalho, certamente. Mas, pelo menos, o cineasta mostra ter consciência de que não é possível fazer um Independence Day com um orçamento que não pagaria um Chevette. A câmera quase documental utilizada durante as entrevistas de Thomas Matthews sempre parece fora do lugar. Como se não pertencesse ao filme em questão. Fora as atuações, que são desniveladas, para dizer o mínimo.

É sempre difícil atuar em outra língua, e Tania Khalill prova que ainda não está pronta para alçar voos mais altos em uma carreira internacional. Murilo Rosa patina no inglês também, mas não está mal nos momentos em que encarna o alienígena falando em português. Já Isaiah Washington, mesmo atuando em sua língua natal, não consegue carregar o filme nas costas, passando vexame em algumas cenas que exigiam alguma emoção maior.

Misturando história de abdução com espiritismo, Área Q é uma ficção científica de baixo orçamento, que tenta entregar um material de qualidade, mas esbarra em suas próprias limitações. É louvável que cineastas brasileiros tentem passear por gêneros variados, mas ficção científica necessita de know how e de dinheiro – duas coisas que faltaram nesta co-produção Brasil/Estados Unidos.

Área Q (Area Q)
Brasil/EUA – 100 minutos – Ficção Científica
Dir.: Gerson Sanginitto
Roteiro: Gerson Sanginitto e Julia Camara, baseado em história de Gerson Sanginitto, Carina Sanginitto e Halder Gomes
Com Isaiah Washington, Murilo Rosa, Tania Khalill
Cotação Paradoxo: Vale 25% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de Área Q:

quarta-feira, 18 de abril de 2012

À Margem do Lixo

Reciclagem

Anunciado como estreia nacional para o dia 23 de março, mas não nacional o suficiente para chegar ao Rio Grande do Sul, o documentário Raul Seixas: O Início, o Fim e o Meio, dirigido por Evaldo Mocarzel e Walter Carvalho, continua inédito para os fãs gaúchos do músico, em um daqueles atrasos inexplicáveis. Curiosamente, outro filme de Mocarzel chegou aos cinemas de Porto Alegre antes de seu documentário sobre Raulzito. À Margem do Lixo é a terceira parte da tetralogia do cineasta, que assinou À Margem da Imagem, em 2003, À Margem do Concreto, em 2005, e À Margem do Lixo, em 2008. Sim, você não leu errado. Pronto há quase quatro anos, só agora o documentário de Mocarzel é lançado nos cinemas. Pelo visto, as coisas sempre demoram um pouco mais para este diretor/jornalista carioca.

Em À Margem do Lixo, Mocarzel mostra a situação dos catadores de lixo em São Paulo, construindo sua narrativa com depoimentos dos trabalhadores das mais diversas cooperativas da capital paulista. Além de contarem sobre seu trabalho, os catadores apresentam sua realidade, contam suas histórias pessoais, os problemas e vantagens desta função. Sofrendo com o preconceito de alguns, mas tendo em mente o valor do seu trabalho não somente pela renda, mas pela importância ambiental, os catadores conseguem mostrar o seu lado da história, pouco enxergado quando os vemos pelas ruas, com seus pesados carrinhos.

Muitos dos entrevistados por Evaldo Mocarzel não são nascidos em São Paulo, tendo chegado à cidade da garoa tentando um futuro melhor. Isso constrói um mosaico de sotaques e de experiências diferentes trazidas por cada catador que conta sua história. A ausência de qualquer tipo de legenda identificando os depoentes dificulta o trabalho da crítica para poder desdobrar algumas das entrevistas. Não poderei citá-los nominalmente, portanto. Uma das catadoras conta que saiu de casa, do nordeste, por não suportar mais os acessos de raiva do marido, sendo obrigada a deixar seus filhos para trás. Outro, pensando que a situação em São Paulo seria mais positiva, resolveu partir para a capital sem pensar muito e passou muitas dificuldades até começar a trabalhar como coletor de lixo reciclável.

Reciclar, aliás, é a palavra chave para muitos dos catadores registrados em À Margem do Lixo. Uma das entrevistadas, inclusive, diz sentir orgulho de seu trabalho, visto que o fato de carregar, separar e reciclar o lixo faz do mundo um lugar menos poluído. O que mais impressiona no documentário de Mocarzel é a força destes trabalhadores, que passam por cima do clima ruim, dos perigos do trânsito, dos riscos com a saúde e das inevitáveis provas de força com as quantidades absurdas de lixo recolhidos. Nenhum deles se queixa de sua situação. Mas todos pedem por melhores condições de trabalho.

Este lado político dos catadores é mostrado por Mocarzel. Eles se reúnem regularmente para buscar estas melhores condições, discutindo desde o dinheiro que recebem até os acordos com prefeituras e governos estaduais que possam lhes trazer algum tipo de prejuízo.

Costurando os diversos depoimentos, Mocarzel ainda inclui, de forma bastante impressionista, o processo de reciclagem pelo que passam alguns materiais como o plástico, a lata e o papel. Montado cruamente, sem músicas ou invencionices, Evaldo Mocarzel deixa seus entrevistados contarem suas histórias, colocando-os como protagonistas de seu filme. A demora na chegada deste longa-metragem aos cinemas felizmente não faz com que ele perca sua validade, sendo um documentário interessante ao dar voz a trabalhadores que nem sempre tem chance de se expressar.

À Margem do Lixo
Brasil – 84 min – Documentário
Dir.: Evaldo Mocarzel
Cotação Paradoxo: Vale 85% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de À Margem do Lixo:

terça-feira, 17 de abril de 2012

Como Agarrar Meu Ex-Namorado

Cupcake

Quem gostou deste filme também gostou de Meu Vizinho Mafioso 2, Loucas por Amor, Viciadas por Dinheiro e Assalto em Dose Dupla. Não é coincidência que a página no IMDb de Como Agarrar Meu Ex-Namorado faça ligação entre este e outros filmes de gosto bastante duvidoso. Isso porque a nova comédia romântica estrelada por Katherine Heigl, atriz especialista no gênero, de filmes como A Verdade Nua e Crua, Noite de Ano Novo, Par Perfeito e Juntos pelo Acaso, é tão fraca quanto poderia ser. Baseado na série de best sellers de Janet Evanovich, o filme dirigido por Julie Anne Robinson (de A Última Música) parece não ter conseguido traduzir muito bem a protagonista do papel para o celulóide.

O time por trás do roteiro é todo feminino e todo estreante em longas-metragens. Stacy Sherman, Karen Ray e Liz Brixius (esta, conhecida por ter criado a série Nurse Jackie) pegaram a tarefa de adaptar os escritos de Janet Evanovich, que criou, em 1994, a personagem Stephanie Plum, uma caçadora de recompensas objetiva, de língua afiada e de muita perseverança. Ao menos, é assim que ela é descrita por fãs da personagem, já que nunca li os livros. Ao assistir a Como Agarrar Meu Ex-Namorado, fica óbvio que algo saiu errado. A personagem que Katherine Heigl interpreta não poderia estar mais longe do que as diversas sinopses e textos sobre os livros nos levam a crer. Esta é a primeira cisma dos admiradores do material original. Fosse apenas isso, e o longa-metragem de Julie Anne Robinson poderia até entreter. Mas fica ainda pior.

Na trama, Stephanie Plum (Heigl) está na pindaíba após ter sido demitida. Para conseguir pagar as contas, resolve pedir emprego a um primo. O trabalho não é leve. É necessário encontrar pessoas que fugiram da condicional, que não pagaram sua dívida para com a sociedade. Calha que a primeira tarefa de Stephanie como caçadora de recompensas a coloca em rota de colisão com um antigo caso seu, o policial Joe Morelli (Jason O’Mara, do seriado Terra Nova). Acusado de assassinato, Morelli tenta provar sua inocência, mas Plum pode atrapalhar seus planos capturando-o antes. Isso, claro, se ela conseguir fazer o trabalho. Nos momentos de maior enrosco, Stephanie conta com a ajuda do também caçador de recompensas Ranger (Daniel Sunjata, de 12 Horas) e de sua sempre presente amiga via telefone Mary Lou (Annie Parisse, de A Minha Canção de Amor).

Katherine Heigl, apesar de ser a embaixadora das comédias românticas em Hollywood, não parece nada confortável com o papel de Stephanie Plum. Talvez o fato de que exista uma trama policial no filme que ocupa maior parte da história tenha deixado Heigl um tanto perdida. Um dos problemas que parecem afligir esta adaptação é a grande mudança da personagem central. Aquela frágil e destrambelhada Stephanie Plum que vemos no filme não se encaixa naquele universo. Nunca soa verossímil que aquela mulher consiga exercer o trabalho de caçadora de recompensas. Talvez no livro fique mais fácil de acreditar, até porque a personagem, de acordo com os relatos, é mais durona.

O fato é que, para uma comédia romântica, existe muito pouca graça e pouquíssimo romance em Como Agarrar Meu Ex-Namorado. A trama se concentra mais na parte policial, envolvendo o possível assassinato pelas mãos de Joe Morelli, do que nas questões do coração. Acredito até que a ideia original era esta, mas no momento de vender o filme, os responsáveis pelo marketing notaram que poderiam fazer mais dinheiro o vendendo como uma comédia romântica. É o verdadeiro tiro pela culatra, já que o espectador que entra enganado na sala de cinema provavelmente não o recomendará para amigos. Com isso, adeus boca a boca positivo.

Para piorar a situação, é desperdiçado um elenco interessante, contando com John Leguizamo (de O Poder e a Lei), Fisher Stevens (de A Ocasião faz o Ladrão) e a veterana Debbie Reynolds (do clássico Cantando na Chuva), com papéis muito aquém de seus talentos. Reynolds é o caso mais triste, já que tentam fazer dela outra Betty White – ou seja, uma velhinha que fala tudo o que pensa e que age sem muitas preocupações.

Curiosamente, a melhor química do filme revela-se não ser a do casal principal e, sim, entre Katherine Heigl e Daniel Sunjata, dois ex-membros do elenco de Grey’s Anatomy. Uma pena que, amarradas pela história original, provavelmente as roteiristas não puderam seguir por aquele caminho, negando a Stephanie Plum e Ranger algum tempo maior de tela. Não que isso salvaria o filme, mas ao menos formaria um casal mais interessante.

Como Agarrar Meu Ex-Namorado (One for the Money)
EUA – 91 minutos – Comédia Romântica
Dir.: Julie Anne Robinson
Roteiro: Stacy Sherman, Karen Ray e Liz Brixius, baseado no livro de Janet Evanovich
Com Katherine Heigl, Jason O’Mara, Daniel Sunjata, John Leguizamo, Sherri Shepherd, Fisher Stevens, Debbie Reynolds
Cotação Paradoxo: Vale 35% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de Como Agarrar Meu Ex-Namorado:

Titanic 3D

You jump, I jump

Aposto que muitos buscarão críticas sobre Titanic 3D tentando saber se vale a pena pagar o ingresso mais caro e conferir o oscarizado trabalho de James Cameron novamente na telona. Para estes leitores, vou logo tirar este assunto do caminho neste primeiro parágrafo. O efeito 3D de Titanic, ainda que bem realizado para uma produção dos anos 90 filmada em película, é totalmente desnecessário. Você não se sente mais ou menos imerso na história por causa do efeito. Pagar um ingresso mais caro pelo 3D, diria que não. Já pelo filme, diria que sim. Se você é um fã do longa-metragem, nada melhor do que reencontrar seu filme favorito no escurinho do cinema. Lembro de ter assistido a Titanic duas vezes quando foi lançado nos cinemas brasileiros, em 1998 – em uma sala de cinema péssima, diga-se. Depois, o revi em VHS e na televisão. Portanto, nunca assisti ao longa-metragem como deveria. Por isso, devo dizer que fiquei embasbacado com a qualidade da imagem deste retorno de Titanic aos cinemas. Mesmo com os óculos 3D, que sempre deixam tudo mais escuro, as cores não se perdem, mostrando o cuidado de James Cameron em não estragar por completo sua obra. Por completo, já que uma conversão para terceira dimensão é sempre uma espécie de conspurcação de uma obra de arte.

Com roteiro e direção de James Cameron, Titanic foi produzido envolto em muita especulação. O orçamento inchado e estourado pelo cineasta fez com que muitos da indústria hollywoodiana apostassem que, assim como o navio em 1912, o longa-metragem naufragaria nas bilheterias. Teimoso, Cameron bancou o desafio e lançou seu épico romântico, nos Estados Unidos, em 1997. E o resultado todos conhecem. Uma das maiores arrecadações de todos os tempos, perdendo apenas recentemente para Avatar, outro trabalho de Cameron. A mistura de tragédia, romance e espetáculo acertou em cheio as plateias naquela época, arrebatando também diversos prêmios, empatando o recorde de estatuetas douradas do Oscar de Ben-Hur, conquistando 11.

Correndo o risco de chover no molhado, Titanic conta a história do amor proibido entre a menina rica Rose Bukater (Kate Winslet) e o artista pobretão Jack Dawson (Leonardo DiCaprio), que se conhecem durante a viagem inaugural do monumental Titanic, o maior navio do mundo. Rose está noiva do ricaço arrogante Cal Hockley (Billy Zane), sendo obrigada pela mãe, Ruth (Frances Fisher), a manter o compromisso. Jack mostra um mundo diferente e atraente para Rose, sem as regras e responsabilidades da aristocracia. Quis o destino que um iceberg no meio do caminho acabasse atrapalhando o romance do casal.

Titanic tem duas partes distintas, ambas funcionando muito bem aos seus propósitos. A primeira, mais romântica, constroi todo o alicerce para a segunda parte, mais nervosa. A tragédia dos tripulantes do navio só arranca lágrimas do espectador por causa do investimento emocional colocado pelo público durante aquela hora e meia de romance água com açúcar criado por James Cameron. Está claro que o espectador sentiria a morte daquelas mil e quinhentas pessoas que pereceram devido ao naufrágio. Mas elas só foram aos montes aos cinemas por causa do casal. Por causa daquela história de amor fadada ao fracasso. Dizem que as histórias de amor mais bonitas são as que não conseguem se concretizar - vide Romeu e Julieta. A frase é discutível, mas o fato é que o sucesso de Titanic está inegavelmente centrado no romance.

Isso faz parte da genialidade de James Cameron. O cineasta tem talento para captar o zeitgeist, conseguindo lucrar em cima disso como nenhum outro. Cameron sempre foi fascinado pelo Titanic, mas sabia que se fizesse uma história apenas relatando o naufrágio teria um barco furado em mãos (trocadilho intencional). Por isso, tascou um romance proibido, dois belos atores em plena forma e bingo! Apesar de ser o momento mais fraco do filme, a primeira metade de Titanic constroi tudo, para que Cameron possa destruir na segunda e bombástica metade do longa-metragem.

Impressionam até hoje os efeitos especiais e a recriação, em detalhes, do navio. Seja durante seus momentos de pujança, seja quando está naufragando, o Titanic volta a vida pelas mãos da equipe de James Cameron, que teve o cuidado de reproduzir o transatlântico de forma impecável. Produção requintada, os figurinos e direção de arte são dignos de nota, conseguindo fazer de forma muito acertada a divisão entre a primeira classe e a terceira. Os vestidos, chapéus e smokings de luxo dividem espaço com calças costuradas, suspensórios rasgados e camisetas puídas. Tudo isso no mesmo espaço, com alguns andares de diferença.

Apesar de ter sido cogitado para um Oscar em 1998, DiCaprio ficou a ver navios (trocadilho não intencional) e acredito não ter sido uma injustiça. O ator cresceu muito desde então, fazendo trabalhos excepcionais com Martin Scorsese, Ridley Scott, Sam Mendes e Christopher Nolan. Mas, em Titanic, DiCaprio simplesmente não consegue passar naturalidade nas cenas mais românticas. Quando Jack tenta convencer Rose a fugir do compromisso com Cal, seu discurso nunca soa natural: "Rose, você não é fácil, sabia? Você é uma menina mimada, mas por trás disso, é a mulher mais maravilhosa que já conheci". Ok, o texto já não é bom. A execução não ajuda, infelizmente. Veríamos mais tarde, é verdade, que o romance não é o forte de DiCaprio. O ator fez questão de não ficar preso no papel de homem-desejo das mulheres, acertando em cheio em quase todas suas decisões pós-Titanic. Sua atuação não chega a ser ruim, mas em diversos momentos, falta uma maior naturalidade. De novo. Pode ser culpa do texto ruim.

Já Kate Winslet pareceu mais segura no papel. Atriz talentosa, sempre mostrou ter um grande alcance, podendo viver desde um personagem cômico a um papel mais dramático. Em Titanic, é Rose quem deixa tudo para trás e se entrega a um amor proibido. Jack desafia o status quo, mas é Rose quem abandona tudo e todos para viver uma paixão arrebatadora. E estes sentimentos conseguem ser transmitidos pela atriz, mesmo que aconteçam de forma rápida.

O elenco de apoio está cheio de bons nomes, elevando de forma exponencial a qualidade do filme, como Kathy Bates, vivendo a inaufragável Molly Brown; Frances Fisher, interpretando a sisuda mãe de Rose, Ruth; Victor Garber, dando honestidade ao engenheiro responsável pelo navio, Thomas Andrews; E, claro, Gloria Stuart, com uma atuação comovente como a idosa Rose.

Destaco ainda Bill Paxton, como o alterego de James Cameron no filme, um sujeito completamente obcecado pelo Titanic e por suas riquezas, mas que nunca observou de perto o drama pessoal dos muitos que morreram devido ao naufrágio. Sempre pareceu, para mim ao menos, que Paxton era uma versão de James Cameron, uma forma até do diretor expurgar alguns de seus demônios, como se dissesse: "também não entendia tudo sobre aquela tragédia, até fazer este filme, até fazer minha pesquisa sobre aquela fatídica viagem". Até por isso a escolha por Paxton, um ator recorrente nos trabalhos do cineasta (vide O Exterminador do Futuro, Aliens, o Resgate e True Lies).

Construindo a segunda metade do filme de forma tensa e trágica, James Cameron deixa o espectador na ponta da cadeira até o seu final, em uma nota bastante triste. Para os mais românticos, o cineasta monta uma cena derradeira que eleva o espírito, fazendo com que muitos lencinhos se encharquem uma última vez. Titanic pode ter seus pontos baixos, mas é, indiscutivelmente, um marco do cinema - e isso nunca alguém conseguirá tirar de James Cameron. Um sucesso bombástico que comoveu milhões de pessoas e que, agora, no centenário do naufrágio do verdadeiro Titanic, volta aos cinemas para emocionar alguns milhares mais.

Titanic
EUA - 194 minutos - Drama/Romance
Direção e Roteiro: James Cameron
Com Kate Winslet, Leonardo DiCaprio, Kathy Bates, Bill Paxton, Billy Zane, Gloria Stuart, Victor Garber, Frances Fisher, Bernard Hill, David Warner, Jonathan Hyde
Cotação Paradoxo: Vale 83% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de relançamento de Titanic em 3D:

segunda-feira, 16 de abril de 2012

12 Horas

Jill

O cineasta brasileiro Heitor Dhalia tem em sua filmografia dois filmes excepcionais e bastante diferentes entre si: Cheiro do Ralo e À Deriva. Tudo o que o primeiro tinha de cínico e de estranho o segundo ganhava em lirismo e reflexão. Uma pena que este cuidado com seus trabalhos nacionais não pode ser repetido em sua estreia em Hollywood. 12 Horas é um thriller padrão, sem grandes novidades ou qualidades, produção parecida com aquelas feitas diretamente para a televisão.

O roteiro de 12 Horas é assinado por Allison Burnett (do rasteiro Anjos da Noite: O Despertar) e acompanha a jovem Jill (Amanda Seyfried, de O Preço do Amanhã), garota traumatizada por ter sido seqüestrada há alguns anos. Ou não. Nunca foi provado que Jill realmente tenha sido abduzida por um criminoso, já que ele nunca foi encontrado e as investigações não encontraram provas de que a moça falava a verdade. Internada em um sanatório por algum tempo, Jill agora mora com a irmã, Molly (Emily Wickersham, de Eu sou o Número Quatro), e vive em estado de vigília perene. Quando retorna do trabalho certo dia, Jill não encontra Molly na casa e assume que sua irmã foi capturada pelo mesmo sujeito que a seqüestrou no passado. Desacreditada pelos policiais, a moça agora precisa provar para todos que sempre esteve certa.

Além de ser incrivelmente batido o fato de a personagem central precisar resolver tudo por conta própria, o roteiro (e a própria atriz) não faz o trabalho bem feito em convencer o espectador de que estamos vendo alguém levemente desequilibrado. Para que 12 Horas funcione, precisaríamos ter dúvidas se Jill foi seqüestrada ou não. Fora o fato de a moça ser uma mentirosa compulsiva – o fazendo para conseguir investigar o caso, diga-se – nada que nos é mostrado conseguiria convencer o público de que ela não fala a verdade para a polícia. Talvez com uma atriz mais talentosa, que transmitisse um senso de paranoia mais agudo, o suspense funcionasse. Não é o que acontece. Amanda Seyfried melhorou bastante desde que estourou em Mamma Mia!, mas ainda tem muito a aprender. A cena em que ela, supostamente desesperada, conta do seqüestro de sua irmã para uma bancada de policiais chega a ser triste de tão mal executada.

Pode-se argumentar que Jill, em dados momentos, parece maluca. Mas isso não prova que ela não foi sequestrada. Daria até mais indícios que ela teve uma experiência traumática no passado. A ação dos policias no filme beira o irresponsável, passando para o risível no decorrer da trama. Em primeiro lugar, não acreditam na moça (e tem seus motivos para tal), mas não chegam a averiguar em momento algum as alegações da garota. Se os policias acreditam que a Jill é desequilibrada, mandá-la para casa depois de ela ter feito seu relato é incrivelmente insensato. Com o desenrolar dos fatos, chega a ser engraçado que uma frágil mulher consiga desbaratar um bando de policiais. Inverossímil é pouco.

Heitor Dhalia é um bom diretor, dada a sua ficha corrida, mas patina nos clichês em 12 Horas. Em dado momento, Jill está investigando um apartamento vazio e, ao abrir a porta do closet, um gato pula a assustando (e ao público). Sério. O susto mais barato de histórias de suspense é incluso, fazendo com que não tenhamos nenhuma esperança de que o filme melhore a partir dali. Existe ainda um bando de personagens descartáveis, colocados na trama apenas para aumentar o número de possíveis suspeitos. Incrível como Jennifer Carpenter, atriz que vive a irmã de Dexter no seriado homônimo, aceitou viver pelo segundo filme consecutivo (depois de O Pacto) a melhor amiga da protagonista, aparecendo em apenas duas dispensáveis cenas.

Com uma conclusão tão morna quanto todo o resto do filme, 12 Horas é uma estreia infeliz de Heitor Dhalia em Hollywood. Difícil acreditar que o cineasta criativo de Cheiro do Ralo e À Deriva tenha assinado um longa-metragem tão medíocre quanto 12 Horas. O que aconteceu com Dhalia, no entanto, não é inteiramente sem precedentes. Walter Salles, por exemplo, havia assinado o premiado Central do Brasil e o belo Abril Despedaçado no Brasil para depois estrear no cinemão norte-americano com um arremedo de suspense chamado Água Negra. O afã para conseguir uma inserção dentro da grande indústria cinematográfica mundial não fez bem para ambos os diretores. Salles ainda conseguiu a volta por cima, assinando o ótimo Linha de Passe e está prestes a lançar a aguardada adaptação de Na Estrada, de Jack Kerouac. Espera-se que Dhalia também consiga se recuperar deste embaraço.

12 Horas (Gone)
EUA – 94 minutos – Suspense
Dir.: Heitor Dhalia
Roteiro: Allison Burnett
Com Amanda Seyfried, Daniel Sunjata, Jennifer Carpenter, Sebastian Stan, Wes Bentley, Nick Searcy, Emily Wickersham
Cotação Paradoxo: Vale 30% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de 12 Horas:

A Toda Prova

Mulher Maravilha

Steven Soderbergh é um diretor que, tudo leva a crer, nunca teve problemas para conseguir elencos estelares para seus trabalhos. Basta ver a lista de nomes em Onze Homens e um Segredo, Traffic e Contágio para perceber que o diretor consegue o elenco que bem entender para seus filmes. Em A Toda Prova, a lista de grandes nomes continua: Ewan McGregor, Antonio Banderas, Michael Fassbender e Michael Douglas. Curiosamente, apesar de contar com ótimos atores, de renome, Soderbergh construiu A Toda Prova ao redor de uma estrela desconhecida do mundo da sétima arte, mas conhecidíssima nos octógonos da MMA, a lutadora, modelo e, agora, atriz Gina Carano. Com presença para protagonizar as cenas de ação e com uma boa atuação para uma quase-estreante, Carano é uma boa surpresa deste thriller de ação cheio de pancadaria, mas de pouco conteúdo.

Na trama, assinada por Lem Dobbs (de A Cartada Final), Carano é Mallory Kane, uma assassina de aluguel que faz trabalhos para a agência de Kenneth (McGregor, de Toda Forma de Amor), que, por sua vez, presta serviços para o governo norte-americano. A missão mais recente de Mallory, em Barcelona, pareceu ter sido bem sucedida, até que ela percebe que alguém está planejando incriminá-la por um crime que não cometeu. Agora, resta a Mallory descobrir quem é o traidor. Dentre os possíveis duas-caras, o próprio Kenneth, seu ex-namorado; Rodrigo (Banderas, de A Pele que Habito), um suspeito contato da agência; Coblenz (Douglas, de O Solteirão), um veterano agente do governo; e Aaron (Channing Tatum, de Querido John), parceiro da missão em Barcelona;

Apostando em uma novata para protagonizar seu filme, Steven Soderbergh mostra que tem bastante confiança em sua habilidade na direção de atores. Gina Carano tem porte físico para encabeçar um filme de ação, mas não tinha grande experiência como atriz. Alguns trabalhos para séries ou filmes para tevê, mas nada de muito consistente. O que vemos é uma performance bastante digna de Carano, convencendo como uma assassina contratada, aliando muito bem sua força com sua beleza. O fato de ela ser fatal em combate mano a mano não apaga nem um pouco sua feminilidade. Não pude deixar de imaginar que a atriz ficaria muito bem no papel de Mulher Maravilha. Em dado momento, um policial se refere a Mallory como a super-heroína da DC Comics, em uma possível tentativa de encaixar esta ideia na mente dos espectadores (e, potencialmente, dos agentes de casting de Hollywood). Deu certo, ao menos para mim. Gina Carano tem o meu voto para o papel.

Se a lutadora, que é uma novata, tem uma boa performance, desnecessário dizer que o resto do elenco executa a perfeição suas funções, por mais limitadas que sejam. Nenhum dos atores conhecidos tem muito mais do que 10 minutos para mostrar trabalho. Ainda assim, conseguem contribuir positivamente para o todo.

Uma pena que o todo não seja muita coisa. Tomando emprestado o batido argumento do agente traído, que precisa provar sua inocência e pegar o bandido, A Toda Prova é correria demais com trama de menos. É verdade que as cenas de luta são muito bem executadas, transmitindo uma crueza bastante verossímil – outra boa razão para contar com Gina Carano no elenco, que não precisa de dublê para suas cenas. Mas nenhum filme com boas lutas consegue esconder o fato de que não existe muita coisa pelo que lutar. O problema está no fato de não nos importarmos muito com a trajetória da protagonista, visto que sua frieza impede que nos relacionemos com a personagem. Pode-se argumentar que Mallory não é infalível como um Stallone de saias, tendo fraquezas – como a relação com o pai, por exemplo, interpretado por Bill Paxton (do seriado Big Love). Mas é muito pouco para transmitir o lado humano da personagem.

Se A Toda Prova não tem muito conteúdo, ao menos ganha alguns pontos na execução. Soderbergh gosta de brincar com quebras narrativas, contando sua história a partir de um ponto futuro, retomando os fatos através de uma conversa entre Mallory e Scott (Michael Angarano, de O Reino Proibido), rapaz que ela conhece em uma cafeteria e que acaba servindo como representante do público, fazendo as perguntas que faríamos para a protagonista. O recurso funcionaria melhor se não soasse tão inverossímil uma assassina profissional contar tantos fatos confidenciais e incriminatórios de forma tão aberta a um completo desconhecido.

Cheio de problemas, mas com boas cenas de ação, A Toda Prova está longe de ser um trabalho de alto nível de Steven Soderbergh. É sentida a falta daqueles diálogos mais espertos, que víamos em filmes como Irresistível Paixão e Onze Homens e um Segredo. Apesar de não serem de sua autoria, os roteiros representavam bem a forma ágil de filmar do cineasta. Daqueles tempos, sobraram ao menos algumas boas parcerias, como a com o músico David Holmes, que assina a ótima trilha de A Toda Prova, como já fez em outros trabalhos de Soderbergh. Ou seja, a embalagem é ótima. Faltou só um bom conteúdo para que o produto fosse imperdível.

A Toda Prova (Haywire)
EUA/Irlanda – 93 minutos – Ação
Dir.: Steven Soderbergh
Roteiro: Lem Dobbs
Com Gina Carano, Ewan McGregor, Channing Tatum, Michael Fassbender, Antonio Banderas, Bill Paxton e Michael Douglas
Cotação Paradoxo: Vale 55% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de A Toda Prova:

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Espelho, Espelho Meu

Anões Gigantes

Hollywood tem dessas. Por vezes, um assunto ou personagem é utilizado por produções semelhantes, com um pequeno espaço de tempo as separando, sempre com resultados desiguais. Foi assim com as formigas de Formiguinhaz e Vida de Inseto, com os vulcões de Volcano e Inferno de Dante, com os asteroides de Armageddon e Impacto Profundo, e a lista poderia seguir indefinidamente. A moda da vez são os contos de fada infantis invadindo as telonas com atores em carne e osso. Alguns com viés mais adulto, como Chapeuzinho Vermelho em A Garota da Capa Vermelha e, como será também, com João e Maria na aventura Hansel e Gretel – Caçadores de Bruxas, a estrear em 2013. Outras, tendem a ser mais infantis, como Maleficent, longa-metragem que trará Angelina Jolie como a vilã da história da Bela Adormecida, com lançamento previsto para 2014. E quando a personagem ganha duas versões, adulta e infantil no mesmo ano? Esta é Branca de Neve, que tem um longa-metragem voltado para as crianças, Espelho, Espelho Meu, e um para os mais grandinhos, Branca de Neve e o Caçador, com estreias bastante próximas.

Em Espelho, Espelho Meu, o diretor indiano Tarsem Singh (de Imortais) e os roteiristas Melisa Wallack (de Bill) e Jason Keller (de Redenção) desconstroem o conto de fadas de Branca de Neve, colocando os holofotes na madrasta malvada da heroína, aqui vivida por uma inspirada Julia Roberts (de Larry Crowne). Na trama, anos depois do rei ter sumido sem deixar vestígios, a rainha tenta sair da bancarrota casando-se com um príncipe abastado (vivido por Armie Hammer, de A Rede Social), mas tem seus planos atrapalhados por sua jovem enteada, a doce e meiga Branca de Neve (Lily Collins, de Um Sonho Possível). Sabendo que existe uma mulher mais bela do que ela, a megera ordena que seu lacaio, Brighton (Nathan Lane, de Promessas de um Cara de Pau), leve Branca de Neve para a floresta para ser morta pela fera que vaga pela mata – tarefa impossível para o reles empregado. Abandonada, a moça encontra os sete anões – que, aqui, não trabalham em minas, são ladrões – e é acolhida pelo grupo, servindo, posteriormente, como líder do grupo na tentativa de derrubada da rainha do poder.

Apesar de alguns elementos e personagens estarem presentes, o sumo da história guarda poucas semelhanças com o clássico conto de fadas dos irmãos Grimm. Espelho, Espelho Meu é uma reimaginação. Em dado momento, até pensei que a clássica maçã envenenada não daria as caras, o que acaba acontecendo, mas com um twist bastante interessante. Os figurinos são destaque, coloridos e espalhafatosos, com o propósito de mostrar a veia fantasiosa da história. Julia Roberts traja vestidos tão bufantes que mal consegue se movimentar, com roupas sempre pendendo para o amarelo, denotando sua paixão pelo ouro, e vermelho, cor forte que invariavelmente é tascada nos vilões. Já Branca de Neve usa bastante azul, mantendo a paleta de cores que estamos habituados desde o clássico desenho da Disney. A responsável pelos figurinos, a japonesa Eiko Ishioka, que já havia trabalhado com Singh em Imortais e A Cela, bem como com Francis Ford Coppola em Drácula de Bram Stocker, faleceu antes de poder conferir seu trabalho nas telonas e o filme é dedicado a sua memória.

Apesar de ser uma história de Branca de Neve, Espelho, Espelho Meu nunca escondeu quem é a verdadeira estrela do filme: Julia Roberts. Divertindo-se com sua primeira vilã, a atriz dá charme ao batido papel da madrasta malvada, chegando ao cúmulo de se sentir atraída pelo príncipe. Uma boa sacada, não necessariamente inédita, foi utilizar a própria atriz para o personagem do espelho – uma espécie de Retrato de Dorian Gray às avessas, com o reflexo nunca envelhecendo. Como o filme é notadamente infantil, não espere grandes malvadezas da rainha. O engraçado Nathan Lane, eterna voz de Timão em O Rei Leão, ganha um papel pouco interessante, não extraindo todo o humor que o ator pode oferecer. Enquanto isso, a revelação de A Rede Social Armie Hammer cativa com seu príncipe boboca, perdendo-se apenas quando o roteiro lhe dá a infeliz tarefa de se transformar em um cachorro. Desnecessário, apenas para fazer rir crianças de 2 anos de idade.

Mesmo que a estrela do filme seja Julia Roberts, é preciso alguém para interpretar Branca de Neve. A escolhida foi a bela Lily Collins, que havia despontado com sua performance em Um Sonho Possível. Collins ganha a ingrata incumbência de viver um personagem sem graça, tão doce e inocente que chega a repugnar nos primeiros cinco minutos. Durante o primeiro ato e até parte do segundo, cada vez que a trama investia na mocinha o filme caia. Felizmente, a virada de sua trajetória, quando ela deixa o castelo e parte para sua primeira aventura ao encontrar os anões, gera uma transformação tamanha na menina (e em tão pouco tempo) que parece estarmos vendo outro personagem. Apesar de ser uma mudança forçada, ela é totalmente bem-vinda, já que a Branca de Neve do início era tão sem energia que seria quase impossível não torcer pela madrasta. Quando acontece a virada, Collins finalmente cativa no papel, permanecendo bela e ativa até o final do longa-metragem.

Qualquer história de Branca de Neve que se preze precisa dos anões, e neste quesito, Espelho, Espelho Meu é muito bem provido. Vários dos atores que interpretam os companheiros diminutos da heroína são conhecidos por seus papéis cômicos em filmes e seriados. É o caso de Mark Povinelli, o destaque na turma dos anões, que tem uma paixão platônica por Branca de Neve, que pode ser visto no seriado Are you There, Chelsea?; também é o caso de Jordan Prentice, que foi o destaque do hilário Na Mira do Chefe; Joe Gnoffo, conhecido por seu papel recorrente no seriado Seinfeld; e Martin Klebba, um dos marujos de Jack Sparrow em Piratas do Caribe;

Aqui não existe Dunga, Zangado ou Mestre, alcunhas criadas pelo desenho da Disney. Ainda que alguns ganhem nomes que revelam algum traço de sua personalidade, o filme tenta passar por cima disso, tentando evitar que os anões sejam apenas caricaturas unidimensionais. Eles são as figuras mais engraçadas do filme por causa dos diálogos e pelas performances do septeto, não necessariamente por causa de características pré-definidas. E isso é um ponto alto de Espelho, Espelho Meu.

Os pontos baixos estão na trama fraca, um arremedo de roteiro, que tenta de todas as formas se afastar dos irmãos Grimm, mas nunca consegue uma ideia que suplante o conto original. Sem mencionar alguns embaraçosos momentos, nos quais personagens que estão lutando pela mesma causa sabotam sua missão, trancando uns aos outros, apenas para que depois, o grupo que ficou para trás, possa chegar para o salvamento. Os efeitos especiais são canhestros, revelando o pouco tempo que Tarsem Singh e sua equipe tiveram na produção deste longa-metragem. Realizado a toque de caixa para chegar aos cinemas antes de seu concorrente direto, Branca de Neve e o Caçador, é possível notar que o filme necessitava de um apuro maior em alguns pontos, principalmente na pós-produção. A montagem é deselegante, como se tivesse sido feita realmente às pressas. E Singh não é o cineasta mais interessante com a câmera. O mais arrebatador de seu trabalho são os momentos em que a rainha faz sua viagem através do espelho – com um movimento de câmera terrivelmente batido, mas que ele usa como se fosse algo formidável.

Encerrando com um divertido número musical a la Bollywood, o cinemão indiano, revelando as raízes do cineasta em questão, Espelho, Espelho Meu é melhor do que aparentava ser, mas ainda possui alguns problemas que poderiam ser resolvidos facilmente com maior tempo de preparo. Pode agradar a criançada, mas não deve funcionar muito com o público adulto. Para estes, outra Branca de Neve deve ser mais interessante. Ou não, se formos levar em conta que o filme Branca de Neve e o Caçador tentará fazer com que acreditemos que em algum universo Kristen Stewart é mais bela que Charlize Theron. Só em contos de fada mesmo.

Espelho, Espelho Meu (Mirror Mirror)
EUA – 106 minutos – Comédia
Dir.: Tarsem Singh
Roteiro: Melisa Wallack e Jack Keller, baseado em história dos irmãos Grimm
Com Julia Roberts, Lily Collins, Armie Hammer, Nathan Lane, Mare Winningham, Jordan Prentice, Mark Povinelli, Joe Gnoffo, Danny Woodburn, Sebastian Saraceno, Martin Klebba, Ronald Lee Clark, Robert Emms, Michael Lerner, Sean Bean
Cotação Paradoxo: Vale 65% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de Espelho, Espelho Meu:

quinta-feira, 12 de abril de 2012

O Porto

Imigrantes

O cineasta Aki Kaurismaki pega um pequeno cosmos e transforma em uma grande história no belo O Porto, produção finlandesa rodada na França. Colocando em discussão a forma como imigrantes ilegais são tratados pelas autoridades no país francês, centralizando a trama no caso de um garoto africano que é encontrado por um engraxate na cidade portuária de Le Havre, o diretor põe em polos opostos a lei e a boa vontade humana.

Kaurismaki assina o roteiro, trazendo de volta um dos personagens de seu filme La Vie de Bohemie, lançado em 1992, Marcel Marx, vivido por Andre Willms. Na trama, Marx vive sua rotina com a esposa, Arletty (Kati Outinen, de O Homem sem Passado), indo de casa para o trabalho, do trabalho para o bar, do bar para casa. Sua mulher não está bem de saúde e precisa ser internada no hospital, escondendo do marido a real gravidade de sua situação. Marcel se vê sozinho por um tempo, um tanto sem rumo. Até que ele conhece o jovem Idrissa (o estreante Blondin Miguel), um imigrante ilegal africano que consegue fugir da polícia quando é abordado durante sua chegada – e de seus conterrâneos – ao porto francês. Se condoendo da situação do menino, Marcel resolve acolher o rapaz, com a ajuda de seus vizinhos próximos. Quem pode atrapalhar, no entanto, este ato de humanidade é o inspetor Monet (Jean-Pierre Darroussin, de As Neves do Kilimanjaro), que está no encalço do imigrante fugitivo.

Logo no começo, já é possível perceber que Aki Kaurismaki tem uma forma peculiar de enquadrar seus atores na tela, colocando-os a olhar para seu interlocutor quase que diretamente para a câmera. A impressão que dá, com este ângulo ligeiramente diferente, que causa estranheza de início, é que os atores poderiam facilmente mirar o espectador com o canto dos olhos, caso não houvesse a óbvia impossibilidade. Além de dar certa proximidade entre público e personagem, as performances de todo o elenco lembram, em dados momentos, as que víamos em filmes neorrealistas italianos. Talvez por ter sido uma escola que retratou de forma muito peculiar pescadores, comerciantes e toda a sorte de trabalhadores em clássicos longas-metragens comandados por Roberto Rossellini, Vittorio de Sica e Luchino Visconti é que O Porto pareça herdar algo daquele movimento.

Andre Willms, Kati Outinen, Jean-Pierre Darroussin e Blondin Miguel contribuem para esta lembrança do espectador dada as suas performances bastante desdramatizadas, com um pé maior no realismo do que no naturalismo, tão buscado em produções mais comerciais. Os diálogos entre os personagens parecem bastante corriqueiros, como se não surgissem por uma demanda do roteiro, mas de uma conversa real, entre pessoas normais. Esta total desdramatização no filme de Kaurismaki pode fazer com que alguns pensem que pouca coisa acontece – ou que a trama é conduzida de forma frouxa pelo diretor. Muito pelo contrário. Além de fazer uma história leve e comovente sobre a boa vontade humana, o diretor aponta sua câmera para a situação crítica dos imigrantes na França.

Em O Porto, os imigrantes ilegais chegam ao país nas piores condições e, assim como chegam, voltam ou são presos sem nenhuma esperança de um futuro melhor. A polícia destacada para encontrá-los utiliza de violência desproporcional ao abordá-los. Um deles, no filme, quase dispara seu revólver em direção a uma criança, não fosse impedido pelo inspetor Monet. É óbvio que cada país tem suas leis e que a imigração ilegal deve ser combatida. Mas a forma como ela é realizada é simplesmente errada e desumana. É isso que Aki Kaurismaki tenta mostrar em seu filme, dando uma centelha de esperança aos imigrantes ao demonstrar que existe, sim, alguma empatia entre os seres humanos, representada de forma comovente pelos vizinhos de Marcel, que tentam fazer o possível para ajudar. Embora ainda existam alguns que fazem questão de denunciar para as autoridades a presença de um menino negro no bairro, estes são minoria naquele universo criado por Kaurismaki. Aqui é que surge a barreira entre humanidade e a lei. Todos ali que acolhem o menino estão cometendo um ato ilícito, mas tem em mente que estão fazendo um bem maior. O que deveria ser mais forte? A lei ou a fraternidade? É um pensamento que ronda este trabalho de Kaurismaki.

Escolhido como representante da Finlândia para o Oscar 2012, mas sem conseguir a indicação, e exibido durante o Festival de Cannes em 2011, onde venceu o prêmio FIPRESCI de Melhor Filme, O Porto tem um final alegre e esperançoso, que soa propositalmente irreal devido a todos os seus desdobramentos. É como se Kaurismaki dissesse: “Sim, eu sei que este terceiro ato é tremendamente fantasioso, mas não me culpem por tentar realizar algo que todos gostaríamos que acontecesse”. Não é todo filme que passeia pelo realismo e pela fantasia, com pitadas de humor e drama, de forma tão natural.

O Porto (Le Havre)
Finlândia / França / Alemanha – 93 minutos – Drama
Direção e Roteiro: Aki Kaurismaki
Com Andre Willms, Kati Outinen, Jean-Pierre Darroussin, Blondin Miguel
Cotação Paradoxo: Vale 92% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de O Porto: