Conclave
Existem pessoas que procuram a grandeza. Buscam liderar e não seguir. É de se imaginar que um homem que se transforma em sumo pontífice da Igreja Católica tenha atributos de liderança em sua personalidade. Uma pessoa que passará a mensagem de sua religião para todos os fiéis, na posição mais alta possível na hierarquia Católica. Mas e se o escolhido não se enxergar apto para executar tal tarefa? O que acontece quando a pessoa não se mostra preparada? São estas algumas questões que o cineasta italiano Nanni Moretti (de O Quarto do Filho) propõe em seu mais recente trabalho, Habemus Papam.
Na trama, assinada por Moretti ao lado de Francesco Piccolo e Federica Pontremoli, depois do falecimento do Papa, a Igreja Católica realiza no Vaticano o conclave para escolher o próximo pontífice. Depois de muitas votações infrutíferas, é escolhido o nome que assumirá a tarefa: o cardeal Melville (Michel Piccoli, de Sempre Bela). Momentos antes do anúncio do novo pontífice, com a Praça de São Pedro abarrotada de fiéis, o agora Papa tem um ataque de pânico, o que impede a finalização da cerimônia. Com isso, os cardeais não podem sair da basílica, já que é regra da Igreja que o conclave só é encerrado quando o Papa é anunciado. Em estado de sítio, os religiosos tentam encontrar formas de ajudar seu líder. Convocam um psicanalista (interpretado por Moretti) para conseguir solucionar o caso. Mas o problema é bem mais sério do que aparentava. Lá pelas tantas, o novo Papa consegue escapar da basílica e passa a perambular pelas ruas do Vaticano, tentando encontrar a si mesmo diante desta situação.
Apesar de envolver o Papa e todas as engrenagens da Igreja Católica para a escolha do seu novo pontífice, a história de Habemus Papam poderia ser transportada para qualquer grande cargo de poder/responsabilidade. Quando um peso enorme cai no colo de alguém, sem que este espere, qual é o procedimento correto a seguir? Claro que o fato de se tratar do Papa dá uma dimensão muito maior para o problema. Para Melville, o jeito foi escapar e tentar tirar um tempo para pensar. Seu desejo escondido sempre foi ser ator, personagem que ele pode exercer por alguns momentos durante esta sua fuga. No entanto, o dever o chamava e não seria possível escapar por muito tempo. Mesmo sendo um homem de fé, sem sombra de dúvidas, Melville não conseguia suportar a ideia de ser o novo Papa, uma figura de referência para toda a Igreja Católica. Uma pessoa que carrega, querendo ou não, uma responsabilidade sobrehumana para com sua religião.
Michel Piccoli tem atuação digna de elogios por transmitir este pavor pelo qual o personagem passa. Quando é escolhido por seus colegas, Melville se sente oprimido, fato que é possível observar pela dificuldade em responder positivamente à função proposta. No momento em que o novo Papa aparece vestido a caráter, suas expressões de desconforto e pavor estão estampadas em seu rosto. Os movimentos pesados do Papa fazem com que acreditemos que aquela roupa pesa toneladas para Melville. Como liderar a Igreja com tantos pensamentos conflituosos em sua mente? Ao fugir da basílica, Piccoli ganha tempo para nos apresentar quem Melville é por trás da batina. Uma pessoa boa, atenciosa, inteligente, mas que nasceu para seguir, não ser seguido.
Apesar de ser vendido como uma comédia e até possuir momentos engraçados, Habemus Papam tem suas maiores qualidades ao acompanhar o Papa desgarrado, quando temos oportunidade de observar o drama pelo qual passa o novo pontífice. Na parte cômica, destaque para Moretti e seu psicanalista, que acaba se engajando em jogos de azar com os demais cardeais, até propor um inusitado campeonato de vôlei. Ou os artifícios que o porta-voz do Vaticano utiliza para esconder o fato de o Papa não estar onde deveria.
Habemus Papam ganha pontos por mostrar outro lado de uma realidade que nos é pouco conhecida. Difícil saber o quanto o filme é correto ao mostrar como funciona um conclave, mas não deixa de ser curioso observar que nenhum daqueles cardeais se achava à altura da tarefa de assumir um papado. Com um final corajoso, o longa-metragem de Nanni Moretti tem momentos interessantes que acabam compensando alguns poucos trechos menos inspirados.
Habemus Papam
Itália / França – 102 minutos – Comédia
Dir.: Nanni Moretti
Roteiro: Nanni Moretti, Francesco Piccolo, Federica Pontremoli
Com Michel Piccoli, Jerzy Stuhr, Renato Scarpa, Nanni Moretti, Margherita Buy
Cotação Paradoxo: Vale 78% do ingresso
Confira logo abaixo o trailer de Habemus Papam:
sexta-feira, 30 de março de 2012
quinta-feira, 29 de março de 2012
Slovenian Girl
Slovenka
Apesar de ter uma prostituta como protagonista, Slovenian Girl não é um filme sobre prostituição. A profissão de Aleksandra (Nina Ivanisin) é parte de quem ela é, mas não a define. Vendendo seu corpo para pagar as contas e possibilitar uma vida confortável na cidade grande, a garota mente para seus amigos e para seus pais sobre seu emprego. Para eles, ela é apenas uma estudante de língua inglesa. O segredo, no entanto, pode ficar mais difícil de ser guardado quando uma fatalidade atravessa o caminho de Slovenka, codinome que Aleksandra utiliza nos anúncios de jornal.
Dirigido por Damjan Kozole e com roteiro assinado pelo cineasta ao lado de Ognjen Svilicic e Matevz Luzar, Slovenian Girl começa com Aleksandra já encarando um problema sério: seu cliente da noite, um importante figurão, está à beira da morte após tomar uma dose exagerada de viagra e Slovenka não vê alternativa senão fugir do local – não sem antes chamar uma ambulância. A imprensa faz um alvoroço sobre a presença da moça no quarto e tenta descobrir, junto da polícia, a identidade da tal Slovenka. Perdendo um pouco de seu tão desejado anonimato, Aleksandra é coagida por dois homens a aceitá-los como seus cafetões. Ela foge e se refugia na casa do pai, Edo (Peter Musevski), que mora no interior e que está ensaiando uma carreira como músico. Com medo de ser pega tanto pela polícia quanto pelos cafetões, Aleksandra viverá na corda bamba, sem ter como pagar as contas. Duas escolhas se apresentam a ela: viver uma vida pacata com o pai, da qual não está mais acostumada, ou arriscar novos programas na cidade grande, com séria possibilidade de ser pega.
O roteiro de Slovenian Girl é hábil em colocar diversos obstáculos para sua protagonista enfrentar, mas nem tanto em dar soluções para estes problemas. Além destas dores de cabeça profissionais, Aleksandra ainda tem uma relação estremecida com a mãe, um fim de namoro complexo com seu ex, uma hipoteca praticamente impossível de ser paga e exames de faculdade que sempre estão atrasados. Este turbilhão de situações adversas serve muito bem para construir um estado de desespero em Aleksandra, fazendo-a rever seus passos e seu caminho futuro. No entanto, seria mais interessante se ao menos um destes problemas fosse solucionado até o final da narrativa.
O espectador fica em estado de alerta durante boa parte da trama, visto que são tantos os perigos pelos quais Slovenka passa que, a qualquer momento, pensamos que um cafetão pode surgir do nada, ou a polícia, ou seu ex-namorado, ou o banco. Esperamos, no fim das contas, em vão. Se ficamos interessados pelo desenrolar da história, o motivo é Nina Ivanisin, que consegue capturar a atenção com seu retrato rebelde da jovem Aleksandra. Mesmo com uma montanha de problemas, Slovenka sempre se mantém forte. Esperta, manipuladora e mentirosa patológica, a moça tende a conseguir o que quer quando coloca algum esforço em seu intento – ou quando menciona a palavra mágica “tumor”, ao pedir tempo extra para professores e para o banco. Sua nova situação, no entanto, pode requerer muito mais do que sua usual esperteza.
Como poucas situações são resolvidas, temos tempo de observar Aleksandra repensar sua vida e tentar encontrar um meio de se reencontrar. Ivanisin consegue transmitir bem estes momentos internos, sempre com um cigarro aceso entre os dedos. A performance da atriz só incomoda pelo cacoete que ela inclui em seu personagem (uma lambida no cigarro antes de acendê-lo), que sempre soa falso cada vez que aparece. Reparem que o pai de Aleksandra faz o mesmo gesto uma vez, como uma forma de insinuar que isso vem de família. Desnecessário e um tanto irritante.
Construindo bons problemas, mas se perdendo ao nunca resolvê-los, Damjan Kozole faz um drama com diversos predicados, mas é prejudicado pela falta de foco ao desenrolar a trama. No final das contas, Slovenian Girl consegue se manter interessante pelo elenco afiado e pela bela fotografia, o que não é pouca coisa.
Slovenian Girl (Slovenka)
Eslovênia / Alemanha / Sérvia / Croácia / Bósnia – 90 minutos – Drama
Dir.: Damjan Kozole
Roteiro: Damjan Kozole, Ognjen Svilicic, Matevz Luzar
Com Nina Ivanisin, Peter Musevski, Primoz Pirnat, Marusa Kink
Cotação Paradoxo: Vale 60% do ingresso
Confira logo abaixo o trailer de Slovenian Girl:
Apesar de ter uma prostituta como protagonista, Slovenian Girl não é um filme sobre prostituição. A profissão de Aleksandra (Nina Ivanisin) é parte de quem ela é, mas não a define. Vendendo seu corpo para pagar as contas e possibilitar uma vida confortável na cidade grande, a garota mente para seus amigos e para seus pais sobre seu emprego. Para eles, ela é apenas uma estudante de língua inglesa. O segredo, no entanto, pode ficar mais difícil de ser guardado quando uma fatalidade atravessa o caminho de Slovenka, codinome que Aleksandra utiliza nos anúncios de jornal.
Dirigido por Damjan Kozole e com roteiro assinado pelo cineasta ao lado de Ognjen Svilicic e Matevz Luzar, Slovenian Girl começa com Aleksandra já encarando um problema sério: seu cliente da noite, um importante figurão, está à beira da morte após tomar uma dose exagerada de viagra e Slovenka não vê alternativa senão fugir do local – não sem antes chamar uma ambulância. A imprensa faz um alvoroço sobre a presença da moça no quarto e tenta descobrir, junto da polícia, a identidade da tal Slovenka. Perdendo um pouco de seu tão desejado anonimato, Aleksandra é coagida por dois homens a aceitá-los como seus cafetões. Ela foge e se refugia na casa do pai, Edo (Peter Musevski), que mora no interior e que está ensaiando uma carreira como músico. Com medo de ser pega tanto pela polícia quanto pelos cafetões, Aleksandra viverá na corda bamba, sem ter como pagar as contas. Duas escolhas se apresentam a ela: viver uma vida pacata com o pai, da qual não está mais acostumada, ou arriscar novos programas na cidade grande, com séria possibilidade de ser pega.
O roteiro de Slovenian Girl é hábil em colocar diversos obstáculos para sua protagonista enfrentar, mas nem tanto em dar soluções para estes problemas. Além destas dores de cabeça profissionais, Aleksandra ainda tem uma relação estremecida com a mãe, um fim de namoro complexo com seu ex, uma hipoteca praticamente impossível de ser paga e exames de faculdade que sempre estão atrasados. Este turbilhão de situações adversas serve muito bem para construir um estado de desespero em Aleksandra, fazendo-a rever seus passos e seu caminho futuro. No entanto, seria mais interessante se ao menos um destes problemas fosse solucionado até o final da narrativa.
O espectador fica em estado de alerta durante boa parte da trama, visto que são tantos os perigos pelos quais Slovenka passa que, a qualquer momento, pensamos que um cafetão pode surgir do nada, ou a polícia, ou seu ex-namorado, ou o banco. Esperamos, no fim das contas, em vão. Se ficamos interessados pelo desenrolar da história, o motivo é Nina Ivanisin, que consegue capturar a atenção com seu retrato rebelde da jovem Aleksandra. Mesmo com uma montanha de problemas, Slovenka sempre se mantém forte. Esperta, manipuladora e mentirosa patológica, a moça tende a conseguir o que quer quando coloca algum esforço em seu intento – ou quando menciona a palavra mágica “tumor”, ao pedir tempo extra para professores e para o banco. Sua nova situação, no entanto, pode requerer muito mais do que sua usual esperteza.
Como poucas situações são resolvidas, temos tempo de observar Aleksandra repensar sua vida e tentar encontrar um meio de se reencontrar. Ivanisin consegue transmitir bem estes momentos internos, sempre com um cigarro aceso entre os dedos. A performance da atriz só incomoda pelo cacoete que ela inclui em seu personagem (uma lambida no cigarro antes de acendê-lo), que sempre soa falso cada vez que aparece. Reparem que o pai de Aleksandra faz o mesmo gesto uma vez, como uma forma de insinuar que isso vem de família. Desnecessário e um tanto irritante.
Construindo bons problemas, mas se perdendo ao nunca resolvê-los, Damjan Kozole faz um drama com diversos predicados, mas é prejudicado pela falta de foco ao desenrolar a trama. No final das contas, Slovenian Girl consegue se manter interessante pelo elenco afiado e pela bela fotografia, o que não é pouca coisa.
Slovenian Girl (Slovenka)
Eslovênia / Alemanha / Sérvia / Croácia / Bósnia – 90 minutos – Drama
Dir.: Damjan Kozole
Roteiro: Damjan Kozole, Ognjen Svilicic, Matevz Luzar
Com Nina Ivanisin, Peter Musevski, Primoz Pirnat, Marusa Kink
Cotação Paradoxo: Vale 60% do ingresso
Confira logo abaixo o trailer de Slovenian Girl:
quarta-feira, 28 de março de 2012
O Guarda
Humor irlandês
“Eu sou irlandês. Racismo faz parte da minha cultura”. “Não sei em que esquina vocês compram sua cocaína. Não é a mesma onde eu compro”. “Pensei que só negros fossem traficantes... e mexicanos”. Essas e outras frases politicamente incorretas até os ossos são proferidas, acredite se quiser, por um policial no hilário longa-metragem irlandês O Guarda, escrito e dirigido pelo estreante John Michael McDonagh. A boa mistura entre ação, humor negro e diálogos rápidos parece circular no sangue dos McDonagh, já que o irmão de John Michael, Martin, dirigiu o ótimo Na Mira do Chefe, em 2008.
Defendido com segurança pelo ótimo Brendan Gleeson (de Albert Nobbs), o protagonista de O Guarda, sargento Gerry Boyle, é um oficial sem papas na língua, que adora prostitutas, bebidas e drogas. Mesmo com estas características não condizentes com sua área de trabalho, Boyle é um policial competente, que consegue resultados, mesmo que tenha um comportamento difícil. Quando um assassinato acontece em sua jurisdição, relacionado a tráfico de drogas internacional, um agente do FBI é escalado para o caso. Assim, Boyle se vê obrigado a trabalhar ao lado de Wendell Everett (Don Cheadle, de Homem de Ferro 2), um oficial correto, caxias, totalmente diferente do sargento irlandês. A caçada humana é empreendida para que seja encontrado um trio de traficantes formado por Francis Sheehy (Liam Cunningham, de Protegendo o Inimigo), Liam O’Leary (David Wilmot, do seriado The Tudors) e Clive Cornell (Mark Strong, de John Carter). Será que a dupla de oficiais conseguirá deixar suas diferenças de lado para fazer o trabalho?
Apesar de serem batidas, as comédias com duplas de policiais interraciais que não se bicam tem o seu charme. Máquina Mortífera escreveu o livro sobre estas parcerias, sendo tão bem sucedido que teve diversas cópias pipocando nos cinemas. O que as cópias não tinham – e que O Guarda tem aos montes – é este humor negro beirando o irresponsável, fazendo piada com tudo e todos. Os irlandeses são ótimos neste tipo de comédia, e John Michael McDonagh consegue extrair todo o humor possível das situações criadas no roteiro.
Isso se deve, claro, ao elenco bem escalado, encabeçado por Brendan Gleeson. O ator foi indicado ao Globo de Ouro por sua atuação e está irresistivelmente cômico como o policial turrão que sempre tem uma resposta enviesada para seus interlocutores. O roteiro tenta dar um pouco de profundidade ao personagem, apresentando sua mãe doente, à beira da morte, interpretada por Fionnula Flanagan (da série Lost). Mas o máximo que consegue é mostrar que a língua ferina vem da família.
Don Cheadle faz uma boa dobradinha com Gleeson, servindo principalmente como escada para as piadas do protagonista. O fato de ser um agente do FBI na Irlanda não o ajuda a conversar com possíveis testemunhas, sendo recebido sempre de forma fria – isso quando seu inglês é compreendido. Fechando o elenco, o trio de vilões também tem sua chance de fazer graça, com o roteiro investindo bastante em diálogos cheios de tiradas irônicas. Apesar de não soarem muito orgânicas, as falas dos três traficantes são engraçadas e vão ao encontro da tonalidade exagerada que o cineasta parece querer dar ao seu trabalho.
O roteiro de O Guarda foi indicado ao BAFTA, o Oscar do cinema britânico, mas é um trabalho que, mesmo com ótimos momentos, possui gorduras indesejáveis, com personagens desnecessários. Exemplo disso é o parceiro de Gleeson que é “liquidado” logo no início do longa-metragem. Personagem sem importância, assim como sua esposa, que apenas tomam tempo da trama. Um tempo que poderia ser utilizado para vermos mais da dobradinha entre o sargento Boyle e o agente do FBI.
De qualquer forma, por conseguir ser engraçado em boa parte de sua trama, o espectador acaba perdoando estes pequenos deslizes de O Guarda, que ainda se dá ao luxo de brincar com o gênero western em seu desfecho explosivo. Por ser um filme irlandês de baixo orçamento, pouco provável que seja produzida uma continuação. Confesso que gostaria de conferir mais algumas histórias protagonizadas por aquela dupla. Difícil seria achar motivos para que os dois voltassem a se encontrar. Trabalho para o roteirista John Michael McDonagh, que daria um presente aos espectadores caso conseguisse uma premissa interessante.
O Guarda (The Guard)
Irlanda – 92 minutos – Comédia
Dir.: John Michael McDonagh
Roteiro: John Michael McDonagh
Com Brendan Gleeson, Don Cheadle, Mark Strong, Liam Cunningham, David Wilmot, Fionnula Flanagan, Rory Keenan, Dominique McElligott, Katarina Cas
Cotação Paradoxo: Vale 86% do ingresso
Confira logo abaixo o trailer de O Guarda:
“Eu sou irlandês. Racismo faz parte da minha cultura”. “Não sei em que esquina vocês compram sua cocaína. Não é a mesma onde eu compro”. “Pensei que só negros fossem traficantes... e mexicanos”. Essas e outras frases politicamente incorretas até os ossos são proferidas, acredite se quiser, por um policial no hilário longa-metragem irlandês O Guarda, escrito e dirigido pelo estreante John Michael McDonagh. A boa mistura entre ação, humor negro e diálogos rápidos parece circular no sangue dos McDonagh, já que o irmão de John Michael, Martin, dirigiu o ótimo Na Mira do Chefe, em 2008.
Defendido com segurança pelo ótimo Brendan Gleeson (de Albert Nobbs), o protagonista de O Guarda, sargento Gerry Boyle, é um oficial sem papas na língua, que adora prostitutas, bebidas e drogas. Mesmo com estas características não condizentes com sua área de trabalho, Boyle é um policial competente, que consegue resultados, mesmo que tenha um comportamento difícil. Quando um assassinato acontece em sua jurisdição, relacionado a tráfico de drogas internacional, um agente do FBI é escalado para o caso. Assim, Boyle se vê obrigado a trabalhar ao lado de Wendell Everett (Don Cheadle, de Homem de Ferro 2), um oficial correto, caxias, totalmente diferente do sargento irlandês. A caçada humana é empreendida para que seja encontrado um trio de traficantes formado por Francis Sheehy (Liam Cunningham, de Protegendo o Inimigo), Liam O’Leary (David Wilmot, do seriado The Tudors) e Clive Cornell (Mark Strong, de John Carter). Será que a dupla de oficiais conseguirá deixar suas diferenças de lado para fazer o trabalho?
Apesar de serem batidas, as comédias com duplas de policiais interraciais que não se bicam tem o seu charme. Máquina Mortífera escreveu o livro sobre estas parcerias, sendo tão bem sucedido que teve diversas cópias pipocando nos cinemas. O que as cópias não tinham – e que O Guarda tem aos montes – é este humor negro beirando o irresponsável, fazendo piada com tudo e todos. Os irlandeses são ótimos neste tipo de comédia, e John Michael McDonagh consegue extrair todo o humor possível das situações criadas no roteiro.
Isso se deve, claro, ao elenco bem escalado, encabeçado por Brendan Gleeson. O ator foi indicado ao Globo de Ouro por sua atuação e está irresistivelmente cômico como o policial turrão que sempre tem uma resposta enviesada para seus interlocutores. O roteiro tenta dar um pouco de profundidade ao personagem, apresentando sua mãe doente, à beira da morte, interpretada por Fionnula Flanagan (da série Lost). Mas o máximo que consegue é mostrar que a língua ferina vem da família.
Don Cheadle faz uma boa dobradinha com Gleeson, servindo principalmente como escada para as piadas do protagonista. O fato de ser um agente do FBI na Irlanda não o ajuda a conversar com possíveis testemunhas, sendo recebido sempre de forma fria – isso quando seu inglês é compreendido. Fechando o elenco, o trio de vilões também tem sua chance de fazer graça, com o roteiro investindo bastante em diálogos cheios de tiradas irônicas. Apesar de não soarem muito orgânicas, as falas dos três traficantes são engraçadas e vão ao encontro da tonalidade exagerada que o cineasta parece querer dar ao seu trabalho.
O roteiro de O Guarda foi indicado ao BAFTA, o Oscar do cinema britânico, mas é um trabalho que, mesmo com ótimos momentos, possui gorduras indesejáveis, com personagens desnecessários. Exemplo disso é o parceiro de Gleeson que é “liquidado” logo no início do longa-metragem. Personagem sem importância, assim como sua esposa, que apenas tomam tempo da trama. Um tempo que poderia ser utilizado para vermos mais da dobradinha entre o sargento Boyle e o agente do FBI.
De qualquer forma, por conseguir ser engraçado em boa parte de sua trama, o espectador acaba perdoando estes pequenos deslizes de O Guarda, que ainda se dá ao luxo de brincar com o gênero western em seu desfecho explosivo. Por ser um filme irlandês de baixo orçamento, pouco provável que seja produzida uma continuação. Confesso que gostaria de conferir mais algumas histórias protagonizadas por aquela dupla. Difícil seria achar motivos para que os dois voltassem a se encontrar. Trabalho para o roteirista John Michael McDonagh, que daria um presente aos espectadores caso conseguisse uma premissa interessante.
O Guarda (The Guard)
Irlanda – 92 minutos – Comédia
Dir.: John Michael McDonagh
Roteiro: John Michael McDonagh
Com Brendan Gleeson, Don Cheadle, Mark Strong, Liam Cunningham, David Wilmot, Fionnula Flanagan, Rory Keenan, Dominique McElligott, Katarina Cas
Cotação Paradoxo: Vale 86% do ingresso
Confira logo abaixo o trailer de O Guarda:
terça-feira, 27 de março de 2012
Jogos Vorazes
Distrito 12
Com um equivocado trailer que fazia referência às sagas Harry Potter e Crepúsculo, Jogos Vorazes chegou ao Brasil surpreendendo quem esperava algo parecido com estes trabalhos supracitados. É de duvidar se a estratégia da Paris Filmes, distribuidora do filme no Brasil, foi realmente eficaz. Quem detesta Crepúsculo ou Harry Potter pode ter se mantido longe dos cinemas no final de semana de estreia, pensando que esta produção, baseada nos livros de Suzanne Collins e dirigida por Gary Ross (de Seabiscuit), tinha algo remotamente semelhante com as duas cinesséries. Para estas pessoas, posso garantir que Jogos Vorazes não é o novo Crepúsculo. Não existe paralelo algum, com exceção do fato de a protagonista ser uma jovem mulher. Por outro lado, quem ama Bella e seus namorados, o vampiro e o lobisomem, pode se decepcionar por não encontrar um romance meloso em Jogos Vorazes, sentindo-se enganado por ter sido levado ao cinema com a promessa de algo parecido. Com bom roteiro, assinado pela própria Collins ao lado do diretor Gary Ross e de Billy Ray (de Intrigas do Estado), o longa-metragem tece comentários pertinentes sobre a força destrutiva dos reality shows em um futuro totalitarista, que deixaria George Orwell orgulhoso. Tudo isso de forma aventuresca, rápida e pop, vindo totalmente ao encontro de seu público alvo.
Na trama, em um futuro não identificado, a América do Norte atende pelo nome de Panem, localidade que conta com 12 distritos e a Capital. Cada um destes distritos tem função própria e ninguém pode circular entre eles. Ou seja, se você é do Distrito 7, morrerá no Distrito 7. Depois de uma guerra em que a Capital sagrou-se vitoriosa, os outros 12 distritos tiveram de baixar a guarda e se submeterem à sua vontade. Para lembrar esta derrota, todo o ano, são convocados dois jovens de cada distrito, chamados de tributos, uma moça e um rapaz entre 12 e 18 anos, para participarem dos Jogos Vorazes, um reality show brutal no qual 24 participantes iniciam, mas apenas um sai vivo da arena.
No Distrito 12, Katniss Everdeen (Jennifer Lawrence, indicada ao Oscar por Inverno da Alma) tem apenas 16 anos, mas já é praticamente uma mulher feita. Cuidando da irmã mais nova, Prim (Willow Shields, estreante no cinema), e de sua ausente mãe (Paula Malcomson, da série Caprica), Katniss é hábil com o arco e flecha, caçando a comida para colocar na mesa da família. Seu parceiro de caçada, Gale (Liam Hemsworth, de A Última Música), é seu melhor e único amigo. Quando o dia da Colheita chega – data em que os tributos são sorteados – Katniss se vê obrigada a se voluntariar para o reality show quando, desesperada, percebe que sua irmã foi sorteada para o evento. Ela e Peeta Mellark (Josh Hutcherson, de Viagem 2) serão os tributos do Distrito 12 em um jogo em que apenas um poderá sobreviver.
Para os fãs do livro, a boa notícia é que o roteiro é bastante fiel ao material original. Como a adaptação ficou a cargo de Suzanne Collins, autora dos livros, mas com a ajuda de mais dois roteiristas, foi possível manter muito do material original, cortando algumas gorduras e mantendo o sumo da história intacta – falarei mais sobre as diferenças entre a versão cinematográfica e literária na segunda parte desta crítica, logo abaixo.
Jogos Vorazes pode ser considerado, guardadas as devidas proporções, como uma mistura entre “1984”, clássico livro de George Orwell, com uma versão mais brutal do reality show Survivor, famoso nos Estados Unidos e que ganhou no Brasil uma versão chamada No Limite. Os personagens do filme vivem em um futuro no qual o Estado tem todo o poder sobre o cidadão. Vigiados e obrigados a seguir as vontades do governo, os habitantes de Panem não têm ingerência sobre seu destino. Tanto que a inclusão de jovens adolescentes na arena dos Jogos Vorazes não é algo feito de forma voluntária para a maioria dos distritos.
Assim como acontece atualmente, tempo em que os reality shows são uma forma de entretenimento que pouco agrega, formando espectadores preguiçosos e pouco críticos, esta sociedade no futuro é hipnotizada com os acontecimentos dos jogos. Todo mundo para o que está fazendo para assisti-los. Muitos por vontade própria, outros por saber que o governo demanda total atenção ao programa. A ideia dos Jogos Vorazes é manter a população sempre em sua coleira, lembrando-os – ou tentando convencê-los – de qualquer voz contrária ao Estado será respondida com força. É interessante a inclusão desta temática política, mostrando esta distopia futurista, em um filme tão pop, tão endereçado aos adolescentes. Por isso Jogos Vorazes diferencia-se de outras franquias com o mesmo público alvo. Aqui, existe um conteúdo mais profundo, mesmo que esteja embalado de forma mais palatável para os jovens do que, digamos, o livro de George Orwell supracitado.
Se não bastasse isso, Jogos Vorazes consegue criar uma heroína feminina que faz jus a este título. Uma moça forte, corajosa, responsável e que pode, sim, servir como modelo para as espectadoras. Curiosamente, Jennifer Lawrence já havia interpretado uma personagem com algumas destas tonalidades no árido Inverno da Alma. Assim como Katniss, a protagonista daquele longa-metragem indicado ao Oscar tinha de assumir responsabilidades de adulto, cuidando dos irmãos mais jovens e de uma mãe que pouco ajudava. Não duvido que Lawrence tenha sido lembrada para o papel, ou ter passado no teste, devido a esse background. Turrona, Katniss não é uma pessoa que faz muitos amigos e se vê deslocada com toda a atenção que recebe quando decide participar dos Jogos. Sua humildade e honestidade, porém, podem atrapalhá-la durante o reality show, já que é necessário criar uma espécie de personagem para conquistar os fãs – quem nunca viu Big Brother?
Sorte de Katniss que seu parceiro de distrito, Peeta Mellark, é um bom jogador e, aos olhos dela, inventa um romance entre os dois para que sejam mais bem quistos pelos telespectadores. Josh Hutcherson, que já havia chamado a atenção desde muito jovem com sua cativante atuação em O ABC do Amor, ganha a chance de se tornar um astro ao estrelar ao lado de Lawrence Jogos Vorazes. Seu personagem tem todas as qualidades para conquistar o público feminino: é gentil, inteligente, corajoso e apaixonado. Hutcherson não tem problemas em transmitir isso para o espectador, sendo um ótimo parceiro de elenco para a bela Jennifer Lawrence. Enquanto isso, o terceiro lado do triângulo amoroso (sempre precisa haver um, certo?), Gale, interpretado por Liam Hemsworth, ganha pouco tempo para mostrar o que sabe fazer. Para os que cansaram de acompanhar romances adolescentes na telona, não se preocupe. O lado romântico da história é deixado de lado por boa parte da trama e surge mais como uma estratégia do jogo do que uma história de amor de verdade – isso, ao menos, na ótica de Katniss.
Mesmo não contando com um orçamento astronômico para os padrões de Hollywood, cerca de US$ 70 milhões, o diretor Gary Ross, sabiamente, fez questão de cercar-se de atores competentes e conhecidos para os papéis coadjuvantes, mas importantes da história. Portanto, temos Donald Sutherland (de Quero Matar Meu Chefe) como o presidente Snow, uma figura autoritária, que não gostará nada dos desdobramentos desta edição dos Jogos Vorazes; Stanley Tucci (de Margin Call), o colorido apresentador dos Jogos na televisão, Caesar Flickerman, uma figura que causa estranheza, mas também simpatia por suas atitudes com os jogadores; Elizabeth Banks (de À Beira do Abismo), como a espevitada Effie Trinket, praticamente uma boneca de porcelana, seja pelos trejeitos, seja pela roupa; Wes Bentley (de Jonah Hex), como Seneca Crane, um dos diretores dos Jogos, personagem inexistente no romance, mas que tem papel importante em algumas passagens do filme; Lenny Kravitz (de Preciosa), como Cinna, estilista e amigo de Katniss; e, claro, o grande destaque, Woody Harrelson (de Rampart) como o tributo veterano Haymitch Abernath. Escondendo como pode o sotaque sulista, mas caprichando no estado etílico elevado de seu personagem, Harrelson consegue dar a simpatia e, ao mesmo tempo, a repulsa necessárias para a construção deste, que é um dos personagens secundários mais importantes do livro.
A direção de arte de Jogos Vorazes é bastante condizente com o universo criado por Suzanne Collins, com todo o exagero de cores da Capital contrastando com o cinza carvão do Distrito 12. Esta visão de futuro extravagante lembra um pouco Blade Runner, com o neon dos prédios sendo substituído pelas cores berrantes nos cabelos, nas sobrancelhas e até nos cílios.
Vendido como um filme para crianças/adolescentes, Jogos Vorazes pode chocar os mais novos com as cenas de violência mostradas durante o reality show. A ideia é brutal, visto que são 24 adolescentes matando uns aos outros em plena tevê aberta. O livro é muito mais chocante ao contar as cenas sangrentas do que o filme, mas, mesmo assim, a platéia infantil chegou a soltar gritos no cinema devido ao teor mais forte de algumas sequências. Culpa disso não é do diretor, muito menos dos roteiristas, que conseguiram manter muito do livro em sua versão cinematográfica. A culpa reside na vontade de lucrar em cima do maior público possível, colocando classificação indicativa baixa (12 anos) para um filme que não poderia ser visto por crianças muito pequenas.
Livro x Filme
É muito natural. Quando uma versão cinematográfica de um romance de sucesso chega às telonas, surge aquela dúvida se o filme fará jus ao material de origem. Muitos perguntam: É melhor ou pior que o livro? Em primeiro lugar, como são duas linguagens diferentes, essa pergunta não procede. Não é possível compará-las. Você até pode gostar mais do livro, ou preferir o filme. Mas afirmar que um é melhor que o outro simplesmente não é possível. O livro tem mais espaço para desenvolvimento de personagens, para desenrolar a trama e ainda conta com a imaginação do leitor, que não tem orçamento para criar um universo. O cinema tem restrições de tempo, de dinheiro e é, no fim das contas, a visão de um cineasta sobre a história.
Dito isso, a versão cinematográfica de Jogos Vorazes é um trabalho fidelíssimo à sua versão de papel. Algumas coisas são mexidas, aqui e ali, mas todas as mudanças vêm para melhorar o resultado final. Um exemplo disso é o fato de a história, no livro, ter um narrador em primeira pessoa, Katniss. No romance, temos apenas a visão da protagonista. Portanto, quando ela adentra a arena, ficamos com ela dentro do jogo, sem ter informações do lado de fora. Somos, no livro, um dos personagens do reality show. No filme, somos telespectadores privilegiados. Temos informações de dentro da arena e de fora. Em dado momento, no romance, Katniss se pergunta o que Gale está pensando ao vê-la ao lado de Peeta. No filme, nós vemos as reações do personagem. Vemos também as operações de Haymitch para que seus pupilos tenham algumas vantagens no jogo. Toda a mecânica por trás dos Jogos Vorazes nos é apresentado no filme, fato que inexiste no romance. Por isso foi tão importante a criação do personagem Seneca Crane, para que entendêssemos os bastidores do reality show.
Claro que, no livro, temos mais informações, algumas que passam batidas no filme, apenas mencionadas. A importância do pai de Katniss para a moça é algo que praticamente não vemos no longa-metragem, assim como as dúvidas da garota sobre seus amigos/pretendentes. Como estamos dentro da cabeça da menina no livro, temos todas estas informações. No filme, não seria possível fazer o mesmo, sem lançar mão de um narrador invasivo e pouco convincente.
Mais sangrento em seus detalhes sobre as mortes dos tributos e mais problemático no que tange a recuperação dos personagens após os Jogos, o livro ainda conta com um esquecível retorno dos tributos mortos durante os capítulos finais, transformados em bestas que até dão as caras no filme, mas sem este detalhe dispensável.
No fim das contas, Jogos Vorazes, o filme, consegue surpreender com uma trama forte e bons personagens, defendidos por atores talentosos, mesmo que bastante jovens como o trio principal. Com o bom resultado das bilheterias, os outros dois livros, Em Chamas e A Esperança, serão certamente adaptados para o cinema. Espera-se que a qualidade siga imperando e que os talentos sejam mantidos nos demais longas-metragens. E, como dizem os personagens, no melhor estilo Star Wars, que a sorte esteja sempre ao seu favor.
Jogos Vorazes (The Hunger Games)
EUA – 142 minutos – Aventura
Dir.: Gary Ross
Roteiro: Gary Ross, Billy Ray e Suzanne Collins, baseado em seu livro homônimo
Com Jennifer Lawrence, Josh Hutcherson, Liam Hemsworth, Woody Harrelson, Elizabeth Banks, Stanley Tucci, Donald Sutherland, Toby Jones, Wes Bentley
Cotação Paradoxo: Vale 90% do ingresso
Confira logo abaixo o trailer de Jogos Vorazes:
Com um equivocado trailer que fazia referência às sagas Harry Potter e Crepúsculo, Jogos Vorazes chegou ao Brasil surpreendendo quem esperava algo parecido com estes trabalhos supracitados. É de duvidar se a estratégia da Paris Filmes, distribuidora do filme no Brasil, foi realmente eficaz. Quem detesta Crepúsculo ou Harry Potter pode ter se mantido longe dos cinemas no final de semana de estreia, pensando que esta produção, baseada nos livros de Suzanne Collins e dirigida por Gary Ross (de Seabiscuit), tinha algo remotamente semelhante com as duas cinesséries. Para estas pessoas, posso garantir que Jogos Vorazes não é o novo Crepúsculo. Não existe paralelo algum, com exceção do fato de a protagonista ser uma jovem mulher. Por outro lado, quem ama Bella e seus namorados, o vampiro e o lobisomem, pode se decepcionar por não encontrar um romance meloso em Jogos Vorazes, sentindo-se enganado por ter sido levado ao cinema com a promessa de algo parecido. Com bom roteiro, assinado pela própria Collins ao lado do diretor Gary Ross e de Billy Ray (de Intrigas do Estado), o longa-metragem tece comentários pertinentes sobre a força destrutiva dos reality shows em um futuro totalitarista, que deixaria George Orwell orgulhoso. Tudo isso de forma aventuresca, rápida e pop, vindo totalmente ao encontro de seu público alvo.
Na trama, em um futuro não identificado, a América do Norte atende pelo nome de Panem, localidade que conta com 12 distritos e a Capital. Cada um destes distritos tem função própria e ninguém pode circular entre eles. Ou seja, se você é do Distrito 7, morrerá no Distrito 7. Depois de uma guerra em que a Capital sagrou-se vitoriosa, os outros 12 distritos tiveram de baixar a guarda e se submeterem à sua vontade. Para lembrar esta derrota, todo o ano, são convocados dois jovens de cada distrito, chamados de tributos, uma moça e um rapaz entre 12 e 18 anos, para participarem dos Jogos Vorazes, um reality show brutal no qual 24 participantes iniciam, mas apenas um sai vivo da arena.
No Distrito 12, Katniss Everdeen (Jennifer Lawrence, indicada ao Oscar por Inverno da Alma) tem apenas 16 anos, mas já é praticamente uma mulher feita. Cuidando da irmã mais nova, Prim (Willow Shields, estreante no cinema), e de sua ausente mãe (Paula Malcomson, da série Caprica), Katniss é hábil com o arco e flecha, caçando a comida para colocar na mesa da família. Seu parceiro de caçada, Gale (Liam Hemsworth, de A Última Música), é seu melhor e único amigo. Quando o dia da Colheita chega – data em que os tributos são sorteados – Katniss se vê obrigada a se voluntariar para o reality show quando, desesperada, percebe que sua irmã foi sorteada para o evento. Ela e Peeta Mellark (Josh Hutcherson, de Viagem 2) serão os tributos do Distrito 12 em um jogo em que apenas um poderá sobreviver.
Para os fãs do livro, a boa notícia é que o roteiro é bastante fiel ao material original. Como a adaptação ficou a cargo de Suzanne Collins, autora dos livros, mas com a ajuda de mais dois roteiristas, foi possível manter muito do material original, cortando algumas gorduras e mantendo o sumo da história intacta – falarei mais sobre as diferenças entre a versão cinematográfica e literária na segunda parte desta crítica, logo abaixo.
Jogos Vorazes pode ser considerado, guardadas as devidas proporções, como uma mistura entre “1984”, clássico livro de George Orwell, com uma versão mais brutal do reality show Survivor, famoso nos Estados Unidos e que ganhou no Brasil uma versão chamada No Limite. Os personagens do filme vivem em um futuro no qual o Estado tem todo o poder sobre o cidadão. Vigiados e obrigados a seguir as vontades do governo, os habitantes de Panem não têm ingerência sobre seu destino. Tanto que a inclusão de jovens adolescentes na arena dos Jogos Vorazes não é algo feito de forma voluntária para a maioria dos distritos.
Assim como acontece atualmente, tempo em que os reality shows são uma forma de entretenimento que pouco agrega, formando espectadores preguiçosos e pouco críticos, esta sociedade no futuro é hipnotizada com os acontecimentos dos jogos. Todo mundo para o que está fazendo para assisti-los. Muitos por vontade própria, outros por saber que o governo demanda total atenção ao programa. A ideia dos Jogos Vorazes é manter a população sempre em sua coleira, lembrando-os – ou tentando convencê-los – de qualquer voz contrária ao Estado será respondida com força. É interessante a inclusão desta temática política, mostrando esta distopia futurista, em um filme tão pop, tão endereçado aos adolescentes. Por isso Jogos Vorazes diferencia-se de outras franquias com o mesmo público alvo. Aqui, existe um conteúdo mais profundo, mesmo que esteja embalado de forma mais palatável para os jovens do que, digamos, o livro de George Orwell supracitado.
Se não bastasse isso, Jogos Vorazes consegue criar uma heroína feminina que faz jus a este título. Uma moça forte, corajosa, responsável e que pode, sim, servir como modelo para as espectadoras. Curiosamente, Jennifer Lawrence já havia interpretado uma personagem com algumas destas tonalidades no árido Inverno da Alma. Assim como Katniss, a protagonista daquele longa-metragem indicado ao Oscar tinha de assumir responsabilidades de adulto, cuidando dos irmãos mais jovens e de uma mãe que pouco ajudava. Não duvido que Lawrence tenha sido lembrada para o papel, ou ter passado no teste, devido a esse background. Turrona, Katniss não é uma pessoa que faz muitos amigos e se vê deslocada com toda a atenção que recebe quando decide participar dos Jogos. Sua humildade e honestidade, porém, podem atrapalhá-la durante o reality show, já que é necessário criar uma espécie de personagem para conquistar os fãs – quem nunca viu Big Brother?
Sorte de Katniss que seu parceiro de distrito, Peeta Mellark, é um bom jogador e, aos olhos dela, inventa um romance entre os dois para que sejam mais bem quistos pelos telespectadores. Josh Hutcherson, que já havia chamado a atenção desde muito jovem com sua cativante atuação em O ABC do Amor, ganha a chance de se tornar um astro ao estrelar ao lado de Lawrence Jogos Vorazes. Seu personagem tem todas as qualidades para conquistar o público feminino: é gentil, inteligente, corajoso e apaixonado. Hutcherson não tem problemas em transmitir isso para o espectador, sendo um ótimo parceiro de elenco para a bela Jennifer Lawrence. Enquanto isso, o terceiro lado do triângulo amoroso (sempre precisa haver um, certo?), Gale, interpretado por Liam Hemsworth, ganha pouco tempo para mostrar o que sabe fazer. Para os que cansaram de acompanhar romances adolescentes na telona, não se preocupe. O lado romântico da história é deixado de lado por boa parte da trama e surge mais como uma estratégia do jogo do que uma história de amor de verdade – isso, ao menos, na ótica de Katniss.
Mesmo não contando com um orçamento astronômico para os padrões de Hollywood, cerca de US$ 70 milhões, o diretor Gary Ross, sabiamente, fez questão de cercar-se de atores competentes e conhecidos para os papéis coadjuvantes, mas importantes da história. Portanto, temos Donald Sutherland (de Quero Matar Meu Chefe) como o presidente Snow, uma figura autoritária, que não gostará nada dos desdobramentos desta edição dos Jogos Vorazes; Stanley Tucci (de Margin Call), o colorido apresentador dos Jogos na televisão, Caesar Flickerman, uma figura que causa estranheza, mas também simpatia por suas atitudes com os jogadores; Elizabeth Banks (de À Beira do Abismo), como a espevitada Effie Trinket, praticamente uma boneca de porcelana, seja pelos trejeitos, seja pela roupa; Wes Bentley (de Jonah Hex), como Seneca Crane, um dos diretores dos Jogos, personagem inexistente no romance, mas que tem papel importante em algumas passagens do filme; Lenny Kravitz (de Preciosa), como Cinna, estilista e amigo de Katniss; e, claro, o grande destaque, Woody Harrelson (de Rampart) como o tributo veterano Haymitch Abernath. Escondendo como pode o sotaque sulista, mas caprichando no estado etílico elevado de seu personagem, Harrelson consegue dar a simpatia e, ao mesmo tempo, a repulsa necessárias para a construção deste, que é um dos personagens secundários mais importantes do livro.
A direção de arte de Jogos Vorazes é bastante condizente com o universo criado por Suzanne Collins, com todo o exagero de cores da Capital contrastando com o cinza carvão do Distrito 12. Esta visão de futuro extravagante lembra um pouco Blade Runner, com o neon dos prédios sendo substituído pelas cores berrantes nos cabelos, nas sobrancelhas e até nos cílios.
Vendido como um filme para crianças/adolescentes, Jogos Vorazes pode chocar os mais novos com as cenas de violência mostradas durante o reality show. A ideia é brutal, visto que são 24 adolescentes matando uns aos outros em plena tevê aberta. O livro é muito mais chocante ao contar as cenas sangrentas do que o filme, mas, mesmo assim, a platéia infantil chegou a soltar gritos no cinema devido ao teor mais forte de algumas sequências. Culpa disso não é do diretor, muito menos dos roteiristas, que conseguiram manter muito do livro em sua versão cinematográfica. A culpa reside na vontade de lucrar em cima do maior público possível, colocando classificação indicativa baixa (12 anos) para um filme que não poderia ser visto por crianças muito pequenas.
Livro x Filme
É muito natural. Quando uma versão cinematográfica de um romance de sucesso chega às telonas, surge aquela dúvida se o filme fará jus ao material de origem. Muitos perguntam: É melhor ou pior que o livro? Em primeiro lugar, como são duas linguagens diferentes, essa pergunta não procede. Não é possível compará-las. Você até pode gostar mais do livro, ou preferir o filme. Mas afirmar que um é melhor que o outro simplesmente não é possível. O livro tem mais espaço para desenvolvimento de personagens, para desenrolar a trama e ainda conta com a imaginação do leitor, que não tem orçamento para criar um universo. O cinema tem restrições de tempo, de dinheiro e é, no fim das contas, a visão de um cineasta sobre a história.
Dito isso, a versão cinematográfica de Jogos Vorazes é um trabalho fidelíssimo à sua versão de papel. Algumas coisas são mexidas, aqui e ali, mas todas as mudanças vêm para melhorar o resultado final. Um exemplo disso é o fato de a história, no livro, ter um narrador em primeira pessoa, Katniss. No romance, temos apenas a visão da protagonista. Portanto, quando ela adentra a arena, ficamos com ela dentro do jogo, sem ter informações do lado de fora. Somos, no livro, um dos personagens do reality show. No filme, somos telespectadores privilegiados. Temos informações de dentro da arena e de fora. Em dado momento, no romance, Katniss se pergunta o que Gale está pensando ao vê-la ao lado de Peeta. No filme, nós vemos as reações do personagem. Vemos também as operações de Haymitch para que seus pupilos tenham algumas vantagens no jogo. Toda a mecânica por trás dos Jogos Vorazes nos é apresentado no filme, fato que inexiste no romance. Por isso foi tão importante a criação do personagem Seneca Crane, para que entendêssemos os bastidores do reality show.
Claro que, no livro, temos mais informações, algumas que passam batidas no filme, apenas mencionadas. A importância do pai de Katniss para a moça é algo que praticamente não vemos no longa-metragem, assim como as dúvidas da garota sobre seus amigos/pretendentes. Como estamos dentro da cabeça da menina no livro, temos todas estas informações. No filme, não seria possível fazer o mesmo, sem lançar mão de um narrador invasivo e pouco convincente.
Mais sangrento em seus detalhes sobre as mortes dos tributos e mais problemático no que tange a recuperação dos personagens após os Jogos, o livro ainda conta com um esquecível retorno dos tributos mortos durante os capítulos finais, transformados em bestas que até dão as caras no filme, mas sem este detalhe dispensável.
No fim das contas, Jogos Vorazes, o filme, consegue surpreender com uma trama forte e bons personagens, defendidos por atores talentosos, mesmo que bastante jovens como o trio principal. Com o bom resultado das bilheterias, os outros dois livros, Em Chamas e A Esperança, serão certamente adaptados para o cinema. Espera-se que a qualidade siga imperando e que os talentos sejam mantidos nos demais longas-metragens. E, como dizem os personagens, no melhor estilo Star Wars, que a sorte esteja sempre ao seu favor.
Jogos Vorazes (The Hunger Games)
EUA – 142 minutos – Aventura
Dir.: Gary Ross
Roteiro: Gary Ross, Billy Ray e Suzanne Collins, baseado em seu livro homônimo
Com Jennifer Lawrence, Josh Hutcherson, Liam Hemsworth, Woody Harrelson, Elizabeth Banks, Stanley Tucci, Donald Sutherland, Toby Jones, Wes Bentley
Cotação Paradoxo: Vale 90% do ingresso
Confira logo abaixo o trailer de Jogos Vorazes:
segunda-feira, 26 de março de 2012
As Mulheres do 6º Andar
Maria, Maria
As Mulheres do 6º Andar é uma comédia franco-espanhola deliciosamente ingênua, que mostra o poder de transformação de um novo amor e, ao mesmo tempo, faz um interessante retrato da separação entre o mundo da classe média e o submundo das empregadas na França dos anos 60 do século passado. Dirigido por Phillipe Le Guay (de O Custo da Vida), com roteiro do próprio diretor, ao lado de Jérome Tonnerre (de Meu Melhor Amigo), o trabalho conquista o espectador pelo bom elenco e pela excelente reconstituição de época.
Na trama, o corretor da bolsa de valores Jean-Louis Joubert (Fabrice Luchini, de Potiche) e sua esposa, Suzanne (Sandrine Kiberlain, de Mademoiselle Chambon), contratam os serviços da bela espanhola Maria (Natalia Verbeke, de O Filho da Noiva) para tomar conta dos afazeres domésticos. Ela mora no sexto andar do prédio, junto de um grupo de empregadas, todas espanholas, que trabalham nas mais variadas casas de família em Paris. A presença de Maria na casa começa a conquistar Jean-Louis, que passa a conhecer a realidade das serviçais e as ajuda como pode em suas necessidades. Ao se envolver com as mulheres do sexto andar, Jean-Louis descobre o prazer de viver que há muito não sentia com a esposa. Um mal entendido acaba fazendo com que ele se junte às empregadas, mudando totalmente sua visão de mundo.
Fabrice Luchini conquista o espectador mostrando sua mudança de atitude durante a história. Jean-Louis é um sujeito que empurra a vida com a barriga, vivendo do trabalho para casa, da casa para o trabalho, sem nenhum tipo de emoção. Mesmo amando a esposa – e ela retribuindo este amor – não existe mais aquela centelha da paixão, aquele sentimento que faça com que os dias não sejam todos exatamente iguais. Quando Maria chega à casa dos Joubert, tudo muda. Jean-Louis se interessa por sua história, por seu passado e se está gostando do trabalho. Quando ele havia feito isso com outro serviçal? Apesar de não querer se deixar levar, o dono da casa nutre um amor platônico pela espanhola, sentimento que nunca é colocado em prática enquanto Jean-Louis vive sob o teto da esposa. Fazendo um interessante retrato da época e mostrando a boa índole do personagem, Jean-Louis toma uma atitude apenas quando se vê livre novamente.
Já Maria é um personagem mais enigmático. Apesar de ser sempre simpática com o patrão, não é possível saber se ela retribui o sentimento de Jean-Louis ou só mantém uma postura amigável com o seu chefe. Isso, claro, até metade da trama. Com o desenrolar da história, somos levados a crer que o sentimento é recíproco entre os dois, mesmo que Maria sempre pareça estar escondendo algo de Jean-Louis. Este segredo, no entanto, não o impede de continuar nutrindo sentimentos por sua empregada. Fechando o trio principal, Sandrine Kiberlain está ótima no papel da frívola esposa, que sente ciúmes do marido, mas nunca desconfia de que a empregada que mantém em casa é o real objeto de desejo do esposo. Sua cabeça burguesa não concebe que o homem com quem divide a cama possa estar atraído por alguém da área de serviço. O que é interessante no personagem de Kiberlain é o fato de que ela também é transformada pelas mudanças do marido. Primeiramente, ela não entende o que se passa, mas não demora a fazer uma constatação dos fatos, observando que sua vida a dois realmente não tinha o brilho de outrora.
O trio principal é um grande acerto, assim com o elenco de apoio. As atrizes que interpretam as mulheres do sexto andar dão um colorido todo especial ao longa-metragem, com destaque para as Almodovarianas Carmen Maura (de Tudo sobre minha Mãe), que interpreta a protetora tia de Maria, Concepción, e Lola Dueñas (de Abraços Partidos), que vive a esquerdista Carmen. Muito do humor de As Mulheres do 6º Andar é extraído das interpretações das empregadas espanholas, com participações marcantes de Berta Ojea (de A Espinha do Diabo) e Concha Galán (outra que já trabalhou com Almodóvar, em Volver).
Fantasioso como comédias românticas podem ser, mesmo que se empenhe em mostrar um pouco da realidade da separação entre os serviçais e os patrões na Paris dos anos 60, As Mulheres do 6º Andar é um filme divertido, que utiliza muito bem seu bom elenco para entreter o espectador. Para quem gosta de histórias nas quais o amor conquista tudo, quebrando todas as barreiras, esta produção é bastante recomendável.
As Mulheres do 6º Andar (Les Femmes du 6e étage)
França/Espanha – 104 minutos – Comédia
Dir.: Phillipe Le Guay
Roteiro: Phillipe Le Guay e Jérôme Tonnerre
Com Fabrice Lucchini, Sandrine Kiberlain, Natalia Verbeke, Carmen Maura, Lola Dueñas, Berta Ojea, Nuria Solé, Concha Galán
Cotação Paradoxo: Vale 85% do ingresso
Confira logo abaixo o trailer de As Mulheres do 6º Andar:
As Mulheres do 6º Andar é uma comédia franco-espanhola deliciosamente ingênua, que mostra o poder de transformação de um novo amor e, ao mesmo tempo, faz um interessante retrato da separação entre o mundo da classe média e o submundo das empregadas na França dos anos 60 do século passado. Dirigido por Phillipe Le Guay (de O Custo da Vida), com roteiro do próprio diretor, ao lado de Jérome Tonnerre (de Meu Melhor Amigo), o trabalho conquista o espectador pelo bom elenco e pela excelente reconstituição de época.
Na trama, o corretor da bolsa de valores Jean-Louis Joubert (Fabrice Luchini, de Potiche) e sua esposa, Suzanne (Sandrine Kiberlain, de Mademoiselle Chambon), contratam os serviços da bela espanhola Maria (Natalia Verbeke, de O Filho da Noiva) para tomar conta dos afazeres domésticos. Ela mora no sexto andar do prédio, junto de um grupo de empregadas, todas espanholas, que trabalham nas mais variadas casas de família em Paris. A presença de Maria na casa começa a conquistar Jean-Louis, que passa a conhecer a realidade das serviçais e as ajuda como pode em suas necessidades. Ao se envolver com as mulheres do sexto andar, Jean-Louis descobre o prazer de viver que há muito não sentia com a esposa. Um mal entendido acaba fazendo com que ele se junte às empregadas, mudando totalmente sua visão de mundo.
Fabrice Luchini conquista o espectador mostrando sua mudança de atitude durante a história. Jean-Louis é um sujeito que empurra a vida com a barriga, vivendo do trabalho para casa, da casa para o trabalho, sem nenhum tipo de emoção. Mesmo amando a esposa – e ela retribuindo este amor – não existe mais aquela centelha da paixão, aquele sentimento que faça com que os dias não sejam todos exatamente iguais. Quando Maria chega à casa dos Joubert, tudo muda. Jean-Louis se interessa por sua história, por seu passado e se está gostando do trabalho. Quando ele havia feito isso com outro serviçal? Apesar de não querer se deixar levar, o dono da casa nutre um amor platônico pela espanhola, sentimento que nunca é colocado em prática enquanto Jean-Louis vive sob o teto da esposa. Fazendo um interessante retrato da época e mostrando a boa índole do personagem, Jean-Louis toma uma atitude apenas quando se vê livre novamente.
Já Maria é um personagem mais enigmático. Apesar de ser sempre simpática com o patrão, não é possível saber se ela retribui o sentimento de Jean-Louis ou só mantém uma postura amigável com o seu chefe. Isso, claro, até metade da trama. Com o desenrolar da história, somos levados a crer que o sentimento é recíproco entre os dois, mesmo que Maria sempre pareça estar escondendo algo de Jean-Louis. Este segredo, no entanto, não o impede de continuar nutrindo sentimentos por sua empregada. Fechando o trio principal, Sandrine Kiberlain está ótima no papel da frívola esposa, que sente ciúmes do marido, mas nunca desconfia de que a empregada que mantém em casa é o real objeto de desejo do esposo. Sua cabeça burguesa não concebe que o homem com quem divide a cama possa estar atraído por alguém da área de serviço. O que é interessante no personagem de Kiberlain é o fato de que ela também é transformada pelas mudanças do marido. Primeiramente, ela não entende o que se passa, mas não demora a fazer uma constatação dos fatos, observando que sua vida a dois realmente não tinha o brilho de outrora.
O trio principal é um grande acerto, assim com o elenco de apoio. As atrizes que interpretam as mulheres do sexto andar dão um colorido todo especial ao longa-metragem, com destaque para as Almodovarianas Carmen Maura (de Tudo sobre minha Mãe), que interpreta a protetora tia de Maria, Concepción, e Lola Dueñas (de Abraços Partidos), que vive a esquerdista Carmen. Muito do humor de As Mulheres do 6º Andar é extraído das interpretações das empregadas espanholas, com participações marcantes de Berta Ojea (de A Espinha do Diabo) e Concha Galán (outra que já trabalhou com Almodóvar, em Volver).
Fantasioso como comédias românticas podem ser, mesmo que se empenhe em mostrar um pouco da realidade da separação entre os serviçais e os patrões na Paris dos anos 60, As Mulheres do 6º Andar é um filme divertido, que utiliza muito bem seu bom elenco para entreter o espectador. Para quem gosta de histórias nas quais o amor conquista tudo, quebrando todas as barreiras, esta produção é bastante recomendável.
As Mulheres do 6º Andar (Les Femmes du 6e étage)
França/Espanha – 104 minutos – Comédia
Dir.: Phillipe Le Guay
Roteiro: Phillipe Le Guay e Jérôme Tonnerre
Com Fabrice Lucchini, Sandrine Kiberlain, Natalia Verbeke, Carmen Maura, Lola Dueñas, Berta Ojea, Nuria Solé, Concha Galán
Cotação Paradoxo: Vale 85% do ingresso
Confira logo abaixo o trailer de As Mulheres do 6º Andar:
Oliver Sherman - Uma Vida em Conflito
Veteranos
Sherman Oliver comenta com seu único amigo, Franklin, que depois de ter se recuperado dos ferimentos da guerra, descobriu que seu nome estava invertido nos prontuários e, por um bom tempo, não se deu conta. Para todos os efeitos, era Oliver Sherman e pronto. Uma espécie de versão distorcida de si mesmo. Mesmo descobrindo o seu verdadeiro nome ao olhar os documentos, não parece que Sherman conseguiu voltar a ser o que era antes da guerra. Tudo indica que sua versão distorcida tomou conta. O fato de ter quase morrido em combate e de ter sido salvo por Franklin, único soldado com coragem o suficiente para voltar e resgatá-lo, deixaram cicatrizes em Sherman. Físicas, na nuca, onde levou um tiro quase fatal, e psicológicas, de pavio curto, enigmático, vivendo como um andarilho, sem amarras ou raízes. O reencontro entre Sherman e Franklin é o que faz girar o tenso Oliver Sherman – Uma Vida em Conflito, longa-metragem de estreia do diretor canadense Ryan Redford.
Franklin Page (Donal Logue, de A Morte e Vida de Charlie) vive com a esposa, Irene (Molly Parker, de A Estrada), e seus dois filhos em uma pacata cidade do interior. Sem avisar, Sherman Oliver (Garret Dillahunt, de Inverno da Alma) aparece na casa da família Page e é recebido com surpresa por Franklin, que o recebe de forma bastante amistosa. Apesar de não serem grandes amigos no exército, Franklin salvou Sherman durante a guerra, o que construiu um laço forte entre os dois. Irene tenta dialogar com o amigo do marido, mas logo percebe que ele é arredio demais para tanto. A presença de Sherman na casa dos Page começa a intrigar Irene, que não gosta muito da possível influência que aquele homem possa ter em seus filhos. Franklin o defende enquanto pode, mas uma atitude de Sherman acaba sendo indefensável.
Oliver Sherman foi indicado a dois Genie Awards, o Oscar canadense, nas categorias Melhor Ator, para Dillahunt, e Roteiro Adaptado, para Ryan Redford, que buscou o material de um conto chamado “Veterans”, de Rachel Ingalls. Estes são os pontos certamente mais elogiáveis do longa-metragem. Dillahunt encarna Sherman Oliver como um sujeito difícil de lidar. Apesar de parecer, em primeiro momento, uma pessoa pacata, seu comportamento instável deixa Irene constantemente preocupada. Sempre fitando as pessoas com o olhar baixo, chamando a esposa do amigo de senhora, Sherman se comporta como um cão maltrapilho, por se sentir desta forma. Sua vontade é ser aceito por aquela família, mas por não saber como ser simpático ou agradável, suas chances vão ficando cada vez mais remotas com o passar dos dias.
Não é apenas Dillahunt que tem uma performance elogiável. Molly Parker e Donal Logue fecham muito bem a trinca principal de Oliver Sherman, passando a angústia e a preocupação necessária nos momentos que dividem com o veterano. Logue vive um personagem que está dividido. Apesar de ter salvado a vida de Sherman, pensa se não teria sido melhor tê-lo deixado lá. Talvez seu salvamento foi uma maldição para o colega de armas, no fim das contas. Tentando ajudar Sherman, mas também devotado à família, Franklin precisará eventualmente escolher de que lado ficará. Sua esposa o pressiona por uma decisão, e não está errada em fazê-lo. A mulher foi bastante atenciosa o quanto possível, mas a situação dentro de sua casa chegou a um ponto em que seria impossível continuar. Para sua segurança e a de seus filhos.
O roteiro de Redford é hábil em construir estes conflitos de forma orgânica, não transformando os personagens em estereótipos ambulantes. Imprimindo tensão a cada novo momento da história, Redford se mostra um diretor competente em criar um clima opressor. O que o trai neste seu primeiro trabalho é a fotografia lavada do filme, como se tivesse sido um trabalho de um universitário muito competente, mas não profissional. Não fosse a presença de Donal Logue, ator mais conhecido do elenco, pensaria se tratar de um filme amador, inclusive. Com um bom roteiro, com um bom elenco, mas ainda assim amador. A edição, cheia de fade in e fade out (as telas pretas que surgem no meio da trama, fazendo a ligação de um momento da história a outra), surge também de forma nada elegante, falando contra o filme, assim como sua fotografia.
Ao menos, a história consegue segurar a atenção do espectador, unindo-se às boas performances do elenco. A história das cicatrizes da guerra em veteranos não é exatamente inédita, mas é contada de forma interessante e seu desfecho triste, apesar de não surpreendente, dá força ao trabalho. Uma estreia promissora de um diretor que pode mostrar ainda mais talento em trabalhos futuros.
Oliver Sherman
Canadá – 82 minutos – Drama
Dir.: Ryan Redford
Roteiro: Ryan Redford, baseado em conto de Rachel Ingalls
Com Garret Dillahunt, Donal Logue, Molly Parker
Cotação Paradoxo: Vale 79% do ingresso
Confira logo abaixo o trailer de Oliver Sherman:
Sherman Oliver comenta com seu único amigo, Franklin, que depois de ter se recuperado dos ferimentos da guerra, descobriu que seu nome estava invertido nos prontuários e, por um bom tempo, não se deu conta. Para todos os efeitos, era Oliver Sherman e pronto. Uma espécie de versão distorcida de si mesmo. Mesmo descobrindo o seu verdadeiro nome ao olhar os documentos, não parece que Sherman conseguiu voltar a ser o que era antes da guerra. Tudo indica que sua versão distorcida tomou conta. O fato de ter quase morrido em combate e de ter sido salvo por Franklin, único soldado com coragem o suficiente para voltar e resgatá-lo, deixaram cicatrizes em Sherman. Físicas, na nuca, onde levou um tiro quase fatal, e psicológicas, de pavio curto, enigmático, vivendo como um andarilho, sem amarras ou raízes. O reencontro entre Sherman e Franklin é o que faz girar o tenso Oliver Sherman – Uma Vida em Conflito, longa-metragem de estreia do diretor canadense Ryan Redford.
Franklin Page (Donal Logue, de A Morte e Vida de Charlie) vive com a esposa, Irene (Molly Parker, de A Estrada), e seus dois filhos em uma pacata cidade do interior. Sem avisar, Sherman Oliver (Garret Dillahunt, de Inverno da Alma) aparece na casa da família Page e é recebido com surpresa por Franklin, que o recebe de forma bastante amistosa. Apesar de não serem grandes amigos no exército, Franklin salvou Sherman durante a guerra, o que construiu um laço forte entre os dois. Irene tenta dialogar com o amigo do marido, mas logo percebe que ele é arredio demais para tanto. A presença de Sherman na casa dos Page começa a intrigar Irene, que não gosta muito da possível influência que aquele homem possa ter em seus filhos. Franklin o defende enquanto pode, mas uma atitude de Sherman acaba sendo indefensável.
Oliver Sherman foi indicado a dois Genie Awards, o Oscar canadense, nas categorias Melhor Ator, para Dillahunt, e Roteiro Adaptado, para Ryan Redford, que buscou o material de um conto chamado “Veterans”, de Rachel Ingalls. Estes são os pontos certamente mais elogiáveis do longa-metragem. Dillahunt encarna Sherman Oliver como um sujeito difícil de lidar. Apesar de parecer, em primeiro momento, uma pessoa pacata, seu comportamento instável deixa Irene constantemente preocupada. Sempre fitando as pessoas com o olhar baixo, chamando a esposa do amigo de senhora, Sherman se comporta como um cão maltrapilho, por se sentir desta forma. Sua vontade é ser aceito por aquela família, mas por não saber como ser simpático ou agradável, suas chances vão ficando cada vez mais remotas com o passar dos dias.
Não é apenas Dillahunt que tem uma performance elogiável. Molly Parker e Donal Logue fecham muito bem a trinca principal de Oliver Sherman, passando a angústia e a preocupação necessária nos momentos que dividem com o veterano. Logue vive um personagem que está dividido. Apesar de ter salvado a vida de Sherman, pensa se não teria sido melhor tê-lo deixado lá. Talvez seu salvamento foi uma maldição para o colega de armas, no fim das contas. Tentando ajudar Sherman, mas também devotado à família, Franklin precisará eventualmente escolher de que lado ficará. Sua esposa o pressiona por uma decisão, e não está errada em fazê-lo. A mulher foi bastante atenciosa o quanto possível, mas a situação dentro de sua casa chegou a um ponto em que seria impossível continuar. Para sua segurança e a de seus filhos.
O roteiro de Redford é hábil em construir estes conflitos de forma orgânica, não transformando os personagens em estereótipos ambulantes. Imprimindo tensão a cada novo momento da história, Redford se mostra um diretor competente em criar um clima opressor. O que o trai neste seu primeiro trabalho é a fotografia lavada do filme, como se tivesse sido um trabalho de um universitário muito competente, mas não profissional. Não fosse a presença de Donal Logue, ator mais conhecido do elenco, pensaria se tratar de um filme amador, inclusive. Com um bom roteiro, com um bom elenco, mas ainda assim amador. A edição, cheia de fade in e fade out (as telas pretas que surgem no meio da trama, fazendo a ligação de um momento da história a outra), surge também de forma nada elegante, falando contra o filme, assim como sua fotografia.
Ao menos, a história consegue segurar a atenção do espectador, unindo-se às boas performances do elenco. A história das cicatrizes da guerra em veteranos não é exatamente inédita, mas é contada de forma interessante e seu desfecho triste, apesar de não surpreendente, dá força ao trabalho. Uma estreia promissora de um diretor que pode mostrar ainda mais talento em trabalhos futuros.
Oliver Sherman
Canadá – 82 minutos – Drama
Dir.: Ryan Redford
Roteiro: Ryan Redford, baseado em conto de Rachel Ingalls
Com Garret Dillahunt, Donal Logue, Molly Parker
Cotação Paradoxo: Vale 79% do ingresso
Confira logo abaixo o trailer de Oliver Sherman:
sexta-feira, 23 de março de 2012
Pina
Dance
Ao assistir Pina nos cinemas, com o seu maravilhoso visual e intensa paixão dos dançarinos, mal dá para acreditar que o filme quase não saiu do papel. O projeto do longa-metragem iniciou como uma parceria entre o cineasta Wim Wenders e a coreógrafa Pina Bausch, no qual os dois colocariam nas telas de cinema, em 3D, os belos números musicais criados pela veterana artista. Em 2009, faltando dois dias para o início das filmagens, uma desagradável notícia choca o mundo: Pina Bausch morre, vítima de um câncer não diagnosticado, pegando todos de surpresa. O fato cai como uma bomba em Wenders, que decide cancelar o filme em respeito à morte da coreógrafa. Mas que jeito melhor de prestar uma homenagem à falecida do que um filme sobre sua tão amada forma de arte? Tempo depois, Wenders decide retomar o projeto, convidando dançarinos que participaram dos mais diversos números criados por Pina. Assim, o que seria uma parceria entre dois nomes consagrados da arte alemã se transforma em uma bonita ode de Wenders à Bausch.
Confesso que não conhecia a fundo o trabalho da coreógrafa. Reconhecia sua importância, soube da passagem de sua companhia nos teatros de Porto Alegre em 2011, mas nunca tive contato com a obra de Pina. E nem por isso gostei menos do documentário de Wim Wenders. Para quem gosta de dança moderna e já tinha conhecimentos prévios sobre os trabalhos, o filme é puro deleite. Para quem desconhecia, e me incluo neste grupo, os 106 minutos de projeção são de surpresa, uma curiosa viagem, com momentos divertidos, emotivos, empolgantes e fascinantes. O roteiro é assinado pelo próprio diretor, que consegue unir muito bem os números da coreógrafa com depoimentos comoventes de seus pupilos.
O advento do 3D é maravilhoso em Pina, pois dá uma dimensão muito viva aos dançarinos e aos cenários. Logo no começo, nos deparamos com um palco italiano em pleno cinema. A profundidade do 3D é tão bem produzida que a impressão que temos é que realmente existe um palco no espaço onde, até bem pouco tempo, durante os trailers, estava uma tela branca. Neste palco, Wenders traz quatro grandes trabalhos de Pina: “O Rito da Primavera”, “Café Müller”, “Contato” e “Lua Cheia”.
É impressionante observar o quanto os objetos ou elementos físicos eram importantes para a construção dos cenários dos trabalhos de Bausch. Em “O Rito da Primavera”, o chão do palco era forrado com areia grossa, com os dançarinos fazendo as coreografias com os pés descalços na terra. Em “Café Müller”, cadeiras aos montes são colocadas no palco, enquanto uma dançarina vaga em cena de olhos fechados. Em “Lua Cheia”, o palco é literalmente inundado, com direito a um grande objeto de cena que imita uma rocha. Ondas são criadas e vemos inclusive a água bater nas pedras, como se fôssemos transportados para uma praia deserta dentro do próprio teatro. Wenders captura estes momentos com maestria, ora deixando a câmera longe o suficiente para que nos sintamos dentro de um teatro, ora aproximando-a o bastante para que fiquemos muito próximos da ação.
Apesar de serem riquíssimos os momentos no palco, o melhor de Pina é quando Wim Wenders liberta o trabalho da coreógrafa das amarras do teatro e o deixa livre, nas ruas. As belas performances disputam espaço com carros passando rapidamente, trens elevados fazendo suas viagens, transeuntes passeando apressados. Este contraste entre a arte e o cotidiano urbano é belissimamente retratado pelas câmeras de Wenders, que dá um ar bastante onírico para algumas passagens.
Outra escolha interessante de Wenders é observada durante os depoimentos dos bailarinos que trabalharam com Pina. No lugar das tradicionais cabeças falantes, olhando para a câmera e contando suas histórias, o cineasta alemão utiliza a voz dos entrevistados sobre uma imagem silenciosa, reflexiva de tal pessoa. Eles nos fitam nos olhos, enquanto ouvimos seu depoimento sobre o trabalho de Pina. É bom que se diga que o documentário é sobre a obra e o método de Bausch, e não sobre sua vida pessoal. Portanto, não espere um filme tradicional, contando início, meio e fim da existência da retratada. Pina é outra coisa.
Causa espanto a quantidade de artistas de nacionalidades diferentes que trabalharam com Pina. Alemães, espanhóis, japoneses, italianos e até brasileiros passaram pelas mãos da coreógrafa. A artista dá as caras em alguns momentos, em vídeos e fotos de arquivo. É de se perguntar o quanto ela apareceria – ou SE apareceria – caso ainda estivesse viva. O projeto teria sido executado de outra forma caso Pina não tivesse deixado este mundo tão repentinamente, aos 69 anos, ainda muito ativa artisticamente. De qualquer forma, do jeito que ficou, Pina é uma bela homenagem, um trabalho que encanta pela sua beleza plástica e pela força de uma obra tão consistente como a criada por Bausch. Ela certamente ficaria orgulhosa.
Pina
Alemanha – 106 minutos – documentário
Dir.: Wim Wenders
Roteiro: Wim Wenders
Cotação Paradoxo: Vale 100% do ingresso
Confira logo abaixo o trailer de Pina:
Ao assistir Pina nos cinemas, com o seu maravilhoso visual e intensa paixão dos dançarinos, mal dá para acreditar que o filme quase não saiu do papel. O projeto do longa-metragem iniciou como uma parceria entre o cineasta Wim Wenders e a coreógrafa Pina Bausch, no qual os dois colocariam nas telas de cinema, em 3D, os belos números musicais criados pela veterana artista. Em 2009, faltando dois dias para o início das filmagens, uma desagradável notícia choca o mundo: Pina Bausch morre, vítima de um câncer não diagnosticado, pegando todos de surpresa. O fato cai como uma bomba em Wenders, que decide cancelar o filme em respeito à morte da coreógrafa. Mas que jeito melhor de prestar uma homenagem à falecida do que um filme sobre sua tão amada forma de arte? Tempo depois, Wenders decide retomar o projeto, convidando dançarinos que participaram dos mais diversos números criados por Pina. Assim, o que seria uma parceria entre dois nomes consagrados da arte alemã se transforma em uma bonita ode de Wenders à Bausch.
Confesso que não conhecia a fundo o trabalho da coreógrafa. Reconhecia sua importância, soube da passagem de sua companhia nos teatros de Porto Alegre em 2011, mas nunca tive contato com a obra de Pina. E nem por isso gostei menos do documentário de Wim Wenders. Para quem gosta de dança moderna e já tinha conhecimentos prévios sobre os trabalhos, o filme é puro deleite. Para quem desconhecia, e me incluo neste grupo, os 106 minutos de projeção são de surpresa, uma curiosa viagem, com momentos divertidos, emotivos, empolgantes e fascinantes. O roteiro é assinado pelo próprio diretor, que consegue unir muito bem os números da coreógrafa com depoimentos comoventes de seus pupilos.
O advento do 3D é maravilhoso em Pina, pois dá uma dimensão muito viva aos dançarinos e aos cenários. Logo no começo, nos deparamos com um palco italiano em pleno cinema. A profundidade do 3D é tão bem produzida que a impressão que temos é que realmente existe um palco no espaço onde, até bem pouco tempo, durante os trailers, estava uma tela branca. Neste palco, Wenders traz quatro grandes trabalhos de Pina: “O Rito da Primavera”, “Café Müller”, “Contato” e “Lua Cheia”.
É impressionante observar o quanto os objetos ou elementos físicos eram importantes para a construção dos cenários dos trabalhos de Bausch. Em “O Rito da Primavera”, o chão do palco era forrado com areia grossa, com os dançarinos fazendo as coreografias com os pés descalços na terra. Em “Café Müller”, cadeiras aos montes são colocadas no palco, enquanto uma dançarina vaga em cena de olhos fechados. Em “Lua Cheia”, o palco é literalmente inundado, com direito a um grande objeto de cena que imita uma rocha. Ondas são criadas e vemos inclusive a água bater nas pedras, como se fôssemos transportados para uma praia deserta dentro do próprio teatro. Wenders captura estes momentos com maestria, ora deixando a câmera longe o suficiente para que nos sintamos dentro de um teatro, ora aproximando-a o bastante para que fiquemos muito próximos da ação.
Apesar de serem riquíssimos os momentos no palco, o melhor de Pina é quando Wim Wenders liberta o trabalho da coreógrafa das amarras do teatro e o deixa livre, nas ruas. As belas performances disputam espaço com carros passando rapidamente, trens elevados fazendo suas viagens, transeuntes passeando apressados. Este contraste entre a arte e o cotidiano urbano é belissimamente retratado pelas câmeras de Wenders, que dá um ar bastante onírico para algumas passagens.
Outra escolha interessante de Wenders é observada durante os depoimentos dos bailarinos que trabalharam com Pina. No lugar das tradicionais cabeças falantes, olhando para a câmera e contando suas histórias, o cineasta alemão utiliza a voz dos entrevistados sobre uma imagem silenciosa, reflexiva de tal pessoa. Eles nos fitam nos olhos, enquanto ouvimos seu depoimento sobre o trabalho de Pina. É bom que se diga que o documentário é sobre a obra e o método de Bausch, e não sobre sua vida pessoal. Portanto, não espere um filme tradicional, contando início, meio e fim da existência da retratada. Pina é outra coisa.
Causa espanto a quantidade de artistas de nacionalidades diferentes que trabalharam com Pina. Alemães, espanhóis, japoneses, italianos e até brasileiros passaram pelas mãos da coreógrafa. A artista dá as caras em alguns momentos, em vídeos e fotos de arquivo. É de se perguntar o quanto ela apareceria – ou SE apareceria – caso ainda estivesse viva. O projeto teria sido executado de outra forma caso Pina não tivesse deixado este mundo tão repentinamente, aos 69 anos, ainda muito ativa artisticamente. De qualquer forma, do jeito que ficou, Pina é uma bela homenagem, um trabalho que encanta pela sua beleza plástica e pela força de uma obra tão consistente como a criada por Bausch. Ela certamente ficaria orgulhosa.
Pina
Alemanha – 106 minutos – documentário
Dir.: Wim Wenders
Roteiro: Wim Wenders
Cotação Paradoxo: Vale 100% do ingresso
Confira logo abaixo o trailer de Pina:
Pequenos Espiões 4
Tick Tock
Robert Rodriguez parece se divertir ao dividir seus trabalhos em filmes sangrentos, para um público adulto, e aventuras infantis imaginativas e cheias de efeitos especiais. Depois de quase dez anos do lançamento do último filme da trilogia Pequenos Espiões, lançado em 2003, que, inclusive, contava com Sylvester Stallone como vilão, Rodriguez decidiu retornar à saga trazendo novos agentes infantis para os holofotes. O resultado não chega a ser brilhante, mas deve agradar e divertir a garotada, público alvo da produção.
Na trama, com roteiro do próprio Rodriguez, Marissa (Jessica Alba, de Machete) é uma espiã muito competente, mas que precisa se aposentar precocemente devido a sua gravidez. O seu último trabalho, minutos antes de dar à luz, foi colocar na cadeia o desajustado Tick Tock (Jeremy Piven, de Carros Usados, Vendedores Pirados!). Marissa guarda segredo sobre sua profissão de seu marido, Wilbur (Joel McHale, do seriado Community), e de seus enteados, Cecil (Mason Cook, estreante no cinema) e Rebecca (Rowan Blanchard, de Plano B), com quem não tem um relacionamento muito amistoso. A menina vê a madrasta como uma má substituta de sua mãe, falecida. Um ano depois de ter abandonado o trabalho, Marissa se vê obrigada a voltar a ativa quando um terrível vilão chamado Time Keeper mexe com as horas do dia, fazendo com que o tempo ande mais depressa. Tick Tock é um dos lacaios do malfeitor e sabe que Marissa possui um artefato que sua gangue precisa para por seus planos em prática. Agora, a ex-agente terá de sair da aposentadoria, sem desconfiar que seus filhos correm perigo. Protegidos pelo cachorro-robô da família (com voz de Ricky Gervais, de O Primeiro Mentiroso), as crianças descobrirão o segredo da madrasta e se transformarão nos novos pequenos espiões.
Que criança nunca sonhou em viver aventuras como um agente secreto? Ou não imaginou que, com todas aquelas gadgets bacanas, poderia salvar o mundo dos vilões mais perigosos? Rodriguez dá asas às fantasias infantis criando um mundo onde isso não só é possível como encorajado pelos pais. Com visual de vídeo-game e onomatopéias características de desenhos animados, Pequenos Espiões 4 usa desta aguçada imaginação infantil para cativar seu espectador. Imagino que os três episódios anteriores também investiam nesta pegada, mas não posso tecer comentário, pois nunca os vi – exceto pedaços aqui e ali zapeando a televisão. Algo que chamava a atenção nestes trechos esparsos era o visual das criaturas (figuras em formato de dedos, se não me engano). Rodriguez é mestre em criar efeitos especiais baratos, mas funcionais e em Pequenos Espiões 4, esse visual high-tech retrô, se é que podemos chamar assim, tem seu charme. É como se todos os personagens vivessem em um mundo de brinquedo.
Claro que isso destila qualquer periculosidade da trama. Não acreditamos, em momento algum, que aquelas crianças passam por algum perigo. Esse modo ensolarado de contar a história pode afastar crianças mais grandinhas, que já se aventuram em outros tipos de filme.
Quanto ao elenco infantil, Rowan Blanchard é fraquinha, sendo salva pela boa performance de Mason Cook, adorável como o irmão caçula Cecil. Interessante que Rodriguez criou o personagem do garoto com deficiência auditiva, uma mensagem positiva e inclusiva para a criançada. Já os adultos, Jessica Alba prova que é um caso perdido como atriz séria, nunca emplacando um papel com alguma dramaticidade. Seu porto seguro são as produções de Rodriguez, nas quais ela não precisa se esforçar para ganhar o seu cachê. Joel McHale está divertido como o pai ausente e amalucado das crianças, mas o verdadeiro destaque do elenco nunca aparece: Ricky Gervais, que faz a voz do cão Argonaut. Suas piadas são os momentos altos de Pequenos Espiões 4.
Legal é ver Rodriguez utilizando o elenco original, Alexa Vega e Daryl Sabara, em pequenos papéis, fazendo uma conveniente ligação com os episódios anteriores. Muita gente deve se surpreender com o quanto os dois cresceram. Sabara, inclusive, tem uma pequena participação na produção John Carter, e Vega tem aparecido em produções pouco conhecidas.
Aventura divertida para o público infantil, Pequenos Espiões 4 não faz os minutos andarem mais rápido, como o vilão da história o faz, mas também não é uma total perda de tempo.
Pequenos Espiões 4 (Spy Kids 4: All the Time in the World)
EUA – 89 minutos – Aventura
Dir.: Robert Rodriguez
Roteiro: Robert Rodriguez
Com Jessica Alba, Joel McHale, Rowan Blanchard, Mason Cook, Jeremy Piven, Alexa Vega, Daryl Sabara
Cotação Paradoxo: Vale 75% do ingresso
Confira logo abaixo o trailer de Pequenos Espiões 4:
Robert Rodriguez parece se divertir ao dividir seus trabalhos em filmes sangrentos, para um público adulto, e aventuras infantis imaginativas e cheias de efeitos especiais. Depois de quase dez anos do lançamento do último filme da trilogia Pequenos Espiões, lançado em 2003, que, inclusive, contava com Sylvester Stallone como vilão, Rodriguez decidiu retornar à saga trazendo novos agentes infantis para os holofotes. O resultado não chega a ser brilhante, mas deve agradar e divertir a garotada, público alvo da produção.
Na trama, com roteiro do próprio Rodriguez, Marissa (Jessica Alba, de Machete) é uma espiã muito competente, mas que precisa se aposentar precocemente devido a sua gravidez. O seu último trabalho, minutos antes de dar à luz, foi colocar na cadeia o desajustado Tick Tock (Jeremy Piven, de Carros Usados, Vendedores Pirados!). Marissa guarda segredo sobre sua profissão de seu marido, Wilbur (Joel McHale, do seriado Community), e de seus enteados, Cecil (Mason Cook, estreante no cinema) e Rebecca (Rowan Blanchard, de Plano B), com quem não tem um relacionamento muito amistoso. A menina vê a madrasta como uma má substituta de sua mãe, falecida. Um ano depois de ter abandonado o trabalho, Marissa se vê obrigada a voltar a ativa quando um terrível vilão chamado Time Keeper mexe com as horas do dia, fazendo com que o tempo ande mais depressa. Tick Tock é um dos lacaios do malfeitor e sabe que Marissa possui um artefato que sua gangue precisa para por seus planos em prática. Agora, a ex-agente terá de sair da aposentadoria, sem desconfiar que seus filhos correm perigo. Protegidos pelo cachorro-robô da família (com voz de Ricky Gervais, de O Primeiro Mentiroso), as crianças descobrirão o segredo da madrasta e se transformarão nos novos pequenos espiões.
Que criança nunca sonhou em viver aventuras como um agente secreto? Ou não imaginou que, com todas aquelas gadgets bacanas, poderia salvar o mundo dos vilões mais perigosos? Rodriguez dá asas às fantasias infantis criando um mundo onde isso não só é possível como encorajado pelos pais. Com visual de vídeo-game e onomatopéias características de desenhos animados, Pequenos Espiões 4 usa desta aguçada imaginação infantil para cativar seu espectador. Imagino que os três episódios anteriores também investiam nesta pegada, mas não posso tecer comentário, pois nunca os vi – exceto pedaços aqui e ali zapeando a televisão. Algo que chamava a atenção nestes trechos esparsos era o visual das criaturas (figuras em formato de dedos, se não me engano). Rodriguez é mestre em criar efeitos especiais baratos, mas funcionais e em Pequenos Espiões 4, esse visual high-tech retrô, se é que podemos chamar assim, tem seu charme. É como se todos os personagens vivessem em um mundo de brinquedo.
Claro que isso destila qualquer periculosidade da trama. Não acreditamos, em momento algum, que aquelas crianças passam por algum perigo. Esse modo ensolarado de contar a história pode afastar crianças mais grandinhas, que já se aventuram em outros tipos de filme.
Quanto ao elenco infantil, Rowan Blanchard é fraquinha, sendo salva pela boa performance de Mason Cook, adorável como o irmão caçula Cecil. Interessante que Rodriguez criou o personagem do garoto com deficiência auditiva, uma mensagem positiva e inclusiva para a criançada. Já os adultos, Jessica Alba prova que é um caso perdido como atriz séria, nunca emplacando um papel com alguma dramaticidade. Seu porto seguro são as produções de Rodriguez, nas quais ela não precisa se esforçar para ganhar o seu cachê. Joel McHale está divertido como o pai ausente e amalucado das crianças, mas o verdadeiro destaque do elenco nunca aparece: Ricky Gervais, que faz a voz do cão Argonaut. Suas piadas são os momentos altos de Pequenos Espiões 4.
Legal é ver Rodriguez utilizando o elenco original, Alexa Vega e Daryl Sabara, em pequenos papéis, fazendo uma conveniente ligação com os episódios anteriores. Muita gente deve se surpreender com o quanto os dois cresceram. Sabara, inclusive, tem uma pequena participação na produção John Carter, e Vega tem aparecido em produções pouco conhecidas.
Aventura divertida para o público infantil, Pequenos Espiões 4 não faz os minutos andarem mais rápido, como o vilão da história o faz, mas também não é uma total perda de tempo.
Pequenos Espiões 4 (Spy Kids 4: All the Time in the World)
EUA – 89 minutos – Aventura
Dir.: Robert Rodriguez
Roteiro: Robert Rodriguez
Com Jessica Alba, Joel McHale, Rowan Blanchard, Mason Cook, Jeremy Piven, Alexa Vega, Daryl Sabara
Cotação Paradoxo: Vale 75% do ingresso
Confira logo abaixo o trailer de Pequenos Espiões 4:
quinta-feira, 22 de março de 2012
Anderson Silva: Como Água
Ultimate Champion
Anderson Silva – Como Água é um documentário concebido para fãs e não fãs do Ultimate Fighting Championship, o popular UFC. Digo isso porque as cenas envolvendo os combates propriamente ditos ocupam pouquíssimos minutos de narrativa. O que interessa para o diretor estreante Pablo Croce não é mostrar dois lutadores no octógono, mas conhecer quem está por trás deste esporte que tem conquistado cada vez mais admiradores e gerado cada vez mais dinheiro. Como figura central do documentário, Croce escolheu o ídolo brasileiro Anderson Silva, um lutador que tem talento sobre-humano para o esporte e que passou por um inferno profissional no ano de 2010, período que o filme abrange.
Não é necessário ter visto uma luta de UFC para conhecer Anderson Silva. Desde 2011, o lutador virou garoto propaganda de diversas marcas fortes, famoso por saber rir de si mesmo devido à voz fininha, não condizente com seu porte. No Brasil, Anderson Silva já transcendeu o esporte. Quem acompanha o UFC e é fã do lutador sabe que o ano de 2010 foi dificílimo para Silva. Ao defender seu título no UFC 112, o lutador preferiu se afastar do seu adversário durante a luta, dançando e se esquivando, sem entrar realmente no espírito mais brutal do esporte. Criticado por sua atitude, Silva se viu quase expulso do campeonato pelo presidente do UFC, Dana White, e percebeu que teria de provar seu valor. Seu próximo adversário, o lutador norte-americano Chael Sonnen, começou uma saraivada de insultos e provocações na imprensa, fazendo de tudo para vender a luta que traria novamente Anderson Silva defendendo o título. Será que Sonnen conseguirá realmente aposentar Silva, como repetiu diversas vezes durante entrevistas?
Para quem está sempre ligado no esporte, a resposta a esta pergunta é óbvia. Nem por isso, Croce apresenta o desenrolar dos fatos antes do necessário. Para o diretor, todos os espectadores são neófitos no assunto, e sua forma de contar a história não difere em nada de longas-metragens de ficção. Existe o mocinho, Anderson Silva, o vilão, Chael Sonnen, e toda uma preparação para que cheguemos ao final e acompanhemos a luta com algum interesse. Isso não chega a ser um demérito. Problema de Como Água é sua mixagem de som. Em alguns trechos, era muito difícil entender os depoimentos dos entrevistados. A música de fundo sempre estava mais alta que o desejado, contrapondo-se com uma captação pobre de áudio das entrevistas.
Chapa branca como quase todo o documentário sobre esportistas, Como Água pinta Anderson Silva como uma figura família, humilde, centrado e responsável na medida do possível. Não dá para saber o quanto ele é realmente daquela forma, já que nunca somos nós mesmos em frente a uma câmera. Mas Silva dá indícios de que se ele não é tudo aquilo, é algo bem próximo. Mesmo mostrando um lado muito positivo de Anderson Silva, o documentário não se furta em apresentar alguns defeitos, como o fato do lutador não aceitar bem a derrota (e as cenas em que ele treina um protegido são assustadoras pela falta de sensibilidade com alguém que acabara de perder uma luta) e por demonstrar a sua pouca esperteza em utilizar a imprensa na hora de confrontar seu adversário.
Sonnen, por outro lado, é pintado como um vilão clássico: boquirroto, arrogante e temperamental. O lutador norte-americano parece não entender que ao ridicularizar Anderson Silva na imprensa, cada palavra é combustível para um adversário ferido. Para não dizer que Como Água só mostra o lado feio de Chael Sonnen, existe uma cena em que ele explica de onde veio e como para ele este esporte é sua vida. E é só.
Apesar de as lutas não ganharem destaque em Como Água, esperava ao menos que o grande confronto final tivesse um pouco mais de espaço. A impressão que dá é que Anderson Silva apanhou tanto neste embate que o diretor ficou com receio de colocar um pouco mais da luta. É curioso como a vida real consegue imitar os filmes, visto que a peleia entre Anderson Silva e Chael Sonnen tem roteiro digno de longas-metragens hollywoodianos. Por falar nisso, até o veterano Steven Seagal aparece para apoiar Anderson Silva antes da luta final. Após observar o combate, o ator não esconde a expressão de espanto ao ver a brutalidade e o sufoco pelo que passou Silva. Dito isso, se parecia exagero Como Água abrir com um depoimento de Bruce Lee, este pensamento desaparece após observarmos pelo que Anderson Silva teve de atravessar para chegar onde chegou.
Anderson Silva: Como Água (Like Water)
EUA – 76 minutos – Documentário
Dir.: Pablo Croce
Roteiro: Ramon Lemos, Lyoto Machida, Damaso Pereira, Ed Soares
Cotação Paradoxo: Vale 76% do ingresso
Confira logo abaixo o trailer de Anderson Silva: Como Água:
Anderson Silva – Como Água é um documentário concebido para fãs e não fãs do Ultimate Fighting Championship, o popular UFC. Digo isso porque as cenas envolvendo os combates propriamente ditos ocupam pouquíssimos minutos de narrativa. O que interessa para o diretor estreante Pablo Croce não é mostrar dois lutadores no octógono, mas conhecer quem está por trás deste esporte que tem conquistado cada vez mais admiradores e gerado cada vez mais dinheiro. Como figura central do documentário, Croce escolheu o ídolo brasileiro Anderson Silva, um lutador que tem talento sobre-humano para o esporte e que passou por um inferno profissional no ano de 2010, período que o filme abrange.
Não é necessário ter visto uma luta de UFC para conhecer Anderson Silva. Desde 2011, o lutador virou garoto propaganda de diversas marcas fortes, famoso por saber rir de si mesmo devido à voz fininha, não condizente com seu porte. No Brasil, Anderson Silva já transcendeu o esporte. Quem acompanha o UFC e é fã do lutador sabe que o ano de 2010 foi dificílimo para Silva. Ao defender seu título no UFC 112, o lutador preferiu se afastar do seu adversário durante a luta, dançando e se esquivando, sem entrar realmente no espírito mais brutal do esporte. Criticado por sua atitude, Silva se viu quase expulso do campeonato pelo presidente do UFC, Dana White, e percebeu que teria de provar seu valor. Seu próximo adversário, o lutador norte-americano Chael Sonnen, começou uma saraivada de insultos e provocações na imprensa, fazendo de tudo para vender a luta que traria novamente Anderson Silva defendendo o título. Será que Sonnen conseguirá realmente aposentar Silva, como repetiu diversas vezes durante entrevistas?
Para quem está sempre ligado no esporte, a resposta a esta pergunta é óbvia. Nem por isso, Croce apresenta o desenrolar dos fatos antes do necessário. Para o diretor, todos os espectadores são neófitos no assunto, e sua forma de contar a história não difere em nada de longas-metragens de ficção. Existe o mocinho, Anderson Silva, o vilão, Chael Sonnen, e toda uma preparação para que cheguemos ao final e acompanhemos a luta com algum interesse. Isso não chega a ser um demérito. Problema de Como Água é sua mixagem de som. Em alguns trechos, era muito difícil entender os depoimentos dos entrevistados. A música de fundo sempre estava mais alta que o desejado, contrapondo-se com uma captação pobre de áudio das entrevistas.
Chapa branca como quase todo o documentário sobre esportistas, Como Água pinta Anderson Silva como uma figura família, humilde, centrado e responsável na medida do possível. Não dá para saber o quanto ele é realmente daquela forma, já que nunca somos nós mesmos em frente a uma câmera. Mas Silva dá indícios de que se ele não é tudo aquilo, é algo bem próximo. Mesmo mostrando um lado muito positivo de Anderson Silva, o documentário não se furta em apresentar alguns defeitos, como o fato do lutador não aceitar bem a derrota (e as cenas em que ele treina um protegido são assustadoras pela falta de sensibilidade com alguém que acabara de perder uma luta) e por demonstrar a sua pouca esperteza em utilizar a imprensa na hora de confrontar seu adversário.
Sonnen, por outro lado, é pintado como um vilão clássico: boquirroto, arrogante e temperamental. O lutador norte-americano parece não entender que ao ridicularizar Anderson Silva na imprensa, cada palavra é combustível para um adversário ferido. Para não dizer que Como Água só mostra o lado feio de Chael Sonnen, existe uma cena em que ele explica de onde veio e como para ele este esporte é sua vida. E é só.
Apesar de as lutas não ganharem destaque em Como Água, esperava ao menos que o grande confronto final tivesse um pouco mais de espaço. A impressão que dá é que Anderson Silva apanhou tanto neste embate que o diretor ficou com receio de colocar um pouco mais da luta. É curioso como a vida real consegue imitar os filmes, visto que a peleia entre Anderson Silva e Chael Sonnen tem roteiro digno de longas-metragens hollywoodianos. Por falar nisso, até o veterano Steven Seagal aparece para apoiar Anderson Silva antes da luta final. Após observar o combate, o ator não esconde a expressão de espanto ao ver a brutalidade e o sufoco pelo que passou Silva. Dito isso, se parecia exagero Como Água abrir com um depoimento de Bruce Lee, este pensamento desaparece após observarmos pelo que Anderson Silva teve de atravessar para chegar onde chegou.
Anderson Silva: Como Água (Like Water)
EUA – 76 minutos – Documentário
Dir.: Pablo Croce
Roteiro: Ramon Lemos, Lyoto Machida, Damaso Pereira, Ed Soares
Cotação Paradoxo: Vale 76% do ingresso
Confira logo abaixo o trailer de Anderson Silva: Como Água:
quarta-feira, 21 de março de 2012
Projeto X - Uma Festa Fora de Controle
Geração Y
A maior novidade que Projeto X – Uma Festa Fora de Controle oferece para o espectador é o fato de ser filmado com câmeras subjetivas, com os próprios personagens manejando o aparelho, fingindo ser uma produção caseira. O que, convenhamos, não é novidade alguma em tempos de Atividade Paranormal, Rec, Cloverfield e do muito recente Poder sem Limites. O diretor estreante Nima Nourizadeh pega um conceito caindo de velho – a festa que ganha proporções inimagináveis quando convidados e bicões aparecem em número extraordinário – e tenta dar uma roupagem diferente, torcendo para que o espectador não perceba quão frágil é o roteiro assinado por Matt Drake (de Tully) e Michael Bacall (de Scott Pilgrim contra o Mundo). Pode funcionar com um público mais jovem, mas qualquer trintão que assistir a Projeto X sentirá saudades dos tempos de Porky’s, O Último Americano Virgem e Picardias Estudantis.
No filme, grande parte dos atores utiliza seus nomes próprios para passar um senso de realidade aos acontecimentos vistos na trama. Thomas (Thomas Mann), Costa (Oliver Cooper) e J.B. (Jonathan Daniel Brown) são amigos de longa data, próximos da formatura no que seria o nosso ensino médio. Nada populares entre a garotada do colégio, Costa resolve dar uma festa de aniversário inesquecível para Thomas, fazendo assim uma reputação melhor para o trio. Com a casa liberada no final de semana, Thomas reluta, mas aceita realizar a comemoração ali – com a condição de que os convidados se restrinjam ao jardim, dado o medo de um bando de desconhecidos destruírem a casa de seus pais. De início, a festa parece não decolar, mas assim que as pessoas vão chegando, os três amigos percebem que nada os havia preparado para aquele evento.
Assim como Poder sem Limites, mas em menor grau, Projeto X sabota sua narrativa ao empregar o uso das câmeras subjetivas para contar sua história. Tanto que, ao seu final, o diretor se vê obrigado a abandonar a ideia e mostrar a conversa entre pai e filho depois da festa com um operador de câmera fantasma. Quem estava fazendo aquela gravação? Não é explicado e não existiria motivos para aquela conversa estar sendo gravada, a não ser para mostrar aos espectadores qual foi a reação do pai de Thomas. Apesar disso, em outros momentos, o uso deste estilo narrativo até funciona, visto que é apresentada uma razão plausível para a extensa documentação da festa.
As atuações do elenco não são ruins, mesmo que estejam mais naturalistas do que realistas. Em um filme como Projeto X, que tenta tão desesperadamente soar real, era de se esperar performances mais cruas. Não é o que acontece, no entanto. Os personagens são estereótipos ambulantes, sem novidades. Thomas é o clássico rapaz tímido, meio nerd, que não tem sucesso com mulheres, mesmo tendo uma bela amiga sempre ao seu lado, mas que nunca lhe despertou interesse. Costa é o desbocado falastrão, o sujeito que pensa estar na moda, acha que entende o sexo oposto e costuma fantasiar um passado de sucesso que, obviamente, nunca aconteceu. Enquanto isso, J.B. é o gordinho nerd, que sofre bullying de seu próprio amigo, Costa. O trio sozinho já corresponde pelos clichês básicos do gênero. Não bastasse isso, ainda temos a melhor amiga bonita, mas que sempre foi vista como um amigo, a garota popular que fica de olho no nerd, o atleta que distrata os protagonistas, as crianças que tentam entrar na festa de qualquer forma. É tanto personagem reciclado de outros lugares que requer coragem e certa cara de pau dos roteiristas creditarem este trabalho como original.
O único personagem que ganha algum desenvolvimento, que sofre alguma mudança no decorrer da trama, é Thomas, que descobre uma paixão que, antes de sua festa, nunca havia enxergado. Fora a fama que ganham, Costa e J.B. não parecem melhores ou piores do que começaram. A não ser que você pense que notoriedade é um aprimoramento de caráter, nada parece mudar internamente nestes personagens.
Para os baladeiros de plantão, Projeto X até pode divertir mostrando o quão longe se pode chegar numa comemoração de aniversário. Para os mais caseiros, tudo parecerá ainda mais exagerado do que já é. Curioso é que, segundo o próprio filme, existiu uma festa parecida na Austrália, com resultados tão bombásticos como os apresentados em Projeto X. Vazio de ideias e ausente de cenas realmente engraçadas, o longa-metragem de Nima Nourizadeh tenta simplesmente chocar com o exagero das situações. Pouco. Muito pouco para o barulho que fez nos Estados Unidos.
Projeto X – Uma Festa Fora de Controle
EUA – 88 minutos – Comédia
Dir.: Nima Nourizadeh
Roteiro: Matt Drake e Michael Bacall
Com Thomas Mann, Oliver Cooper, Jonathan Daniel Brown, Dax Flame, Kirby Bliss Blanton
Cotação Paradoxo: Vale 45% do ingresso
Confira logo abaixo o trailer de Projeto X – Uma Festa Fora de Controle:
A maior novidade que Projeto X – Uma Festa Fora de Controle oferece para o espectador é o fato de ser filmado com câmeras subjetivas, com os próprios personagens manejando o aparelho, fingindo ser uma produção caseira. O que, convenhamos, não é novidade alguma em tempos de Atividade Paranormal, Rec, Cloverfield e do muito recente Poder sem Limites. O diretor estreante Nima Nourizadeh pega um conceito caindo de velho – a festa que ganha proporções inimagináveis quando convidados e bicões aparecem em número extraordinário – e tenta dar uma roupagem diferente, torcendo para que o espectador não perceba quão frágil é o roteiro assinado por Matt Drake (de Tully) e Michael Bacall (de Scott Pilgrim contra o Mundo). Pode funcionar com um público mais jovem, mas qualquer trintão que assistir a Projeto X sentirá saudades dos tempos de Porky’s, O Último Americano Virgem e Picardias Estudantis.
No filme, grande parte dos atores utiliza seus nomes próprios para passar um senso de realidade aos acontecimentos vistos na trama. Thomas (Thomas Mann), Costa (Oliver Cooper) e J.B. (Jonathan Daniel Brown) são amigos de longa data, próximos da formatura no que seria o nosso ensino médio. Nada populares entre a garotada do colégio, Costa resolve dar uma festa de aniversário inesquecível para Thomas, fazendo assim uma reputação melhor para o trio. Com a casa liberada no final de semana, Thomas reluta, mas aceita realizar a comemoração ali – com a condição de que os convidados se restrinjam ao jardim, dado o medo de um bando de desconhecidos destruírem a casa de seus pais. De início, a festa parece não decolar, mas assim que as pessoas vão chegando, os três amigos percebem que nada os havia preparado para aquele evento.
Assim como Poder sem Limites, mas em menor grau, Projeto X sabota sua narrativa ao empregar o uso das câmeras subjetivas para contar sua história. Tanto que, ao seu final, o diretor se vê obrigado a abandonar a ideia e mostrar a conversa entre pai e filho depois da festa com um operador de câmera fantasma. Quem estava fazendo aquela gravação? Não é explicado e não existiria motivos para aquela conversa estar sendo gravada, a não ser para mostrar aos espectadores qual foi a reação do pai de Thomas. Apesar disso, em outros momentos, o uso deste estilo narrativo até funciona, visto que é apresentada uma razão plausível para a extensa documentação da festa.
As atuações do elenco não são ruins, mesmo que estejam mais naturalistas do que realistas. Em um filme como Projeto X, que tenta tão desesperadamente soar real, era de se esperar performances mais cruas. Não é o que acontece, no entanto. Os personagens são estereótipos ambulantes, sem novidades. Thomas é o clássico rapaz tímido, meio nerd, que não tem sucesso com mulheres, mesmo tendo uma bela amiga sempre ao seu lado, mas que nunca lhe despertou interesse. Costa é o desbocado falastrão, o sujeito que pensa estar na moda, acha que entende o sexo oposto e costuma fantasiar um passado de sucesso que, obviamente, nunca aconteceu. Enquanto isso, J.B. é o gordinho nerd, que sofre bullying de seu próprio amigo, Costa. O trio sozinho já corresponde pelos clichês básicos do gênero. Não bastasse isso, ainda temos a melhor amiga bonita, mas que sempre foi vista como um amigo, a garota popular que fica de olho no nerd, o atleta que distrata os protagonistas, as crianças que tentam entrar na festa de qualquer forma. É tanto personagem reciclado de outros lugares que requer coragem e certa cara de pau dos roteiristas creditarem este trabalho como original.
O único personagem que ganha algum desenvolvimento, que sofre alguma mudança no decorrer da trama, é Thomas, que descobre uma paixão que, antes de sua festa, nunca havia enxergado. Fora a fama que ganham, Costa e J.B. não parecem melhores ou piores do que começaram. A não ser que você pense que notoriedade é um aprimoramento de caráter, nada parece mudar internamente nestes personagens.
Para os baladeiros de plantão, Projeto X até pode divertir mostrando o quão longe se pode chegar numa comemoração de aniversário. Para os mais caseiros, tudo parecerá ainda mais exagerado do que já é. Curioso é que, segundo o próprio filme, existiu uma festa parecida na Austrália, com resultados tão bombásticos como os apresentados em Projeto X. Vazio de ideias e ausente de cenas realmente engraçadas, o longa-metragem de Nima Nourizadeh tenta simplesmente chocar com o exagero das situações. Pouco. Muito pouco para o barulho que fez nos Estados Unidos.
Projeto X – Uma Festa Fora de Controle
EUA – 88 minutos – Comédia
Dir.: Nima Nourizadeh
Roteiro: Matt Drake e Michael Bacall
Com Thomas Mann, Oliver Cooper, Jonathan Daniel Brown, Dax Flame, Kirby Bliss Blanton
Cotação Paradoxo: Vale 45% do ingresso
Confira logo abaixo o trailer de Projeto X – Uma Festa Fora de Controle:
terça-feira, 20 de março de 2012
Shame
Vício
Sharon Stone virou uma estrela mundialmente conhecida após a famosa cruzada de pernas de Instinto Selvagem, lançado há exatos 20 anos. A cena foi transformadora para a carreira da atriz, que engatou trabalhos bem sucedidos logo após a estréia, perdendo um pouco seu star power, é verdade, com o passar dos anos. Muitos podem não lembrar, mas, à época, a cena causou grande polêmica, enraivecendo grupos mais conservadores. Corta para 2012. Michael Fassbender teve atuação elogiadíssima, mas igualmente polêmica, com seu trabalho em Shame, em nus frontais que, digamos assim, não escondem nada de sua anatomia. Não digo que Fassbender se transformará em astro única e exclusivamente pelo fato de ter aparecido nu em um longa-metragem. Mas acredito que o fato do ator se doar totalmente ao seu papel e por estar construindo uma carreira sólida e diversificada farão com que Fassbender tenha uma bem sucedida trajetória em Hollywood. Shame é o divisor de águas. É o trabalho que, muitos apontam, seria merecedor de indicação ao Oscar – que acabou não se concretizando talvez pelo teor controverso da trama.
Com roteiro de Abi Morgan (de A Dama de Ferro) e de Steve McQueen (de Hunger, também diretor do filme), Shame acompanha a vida de Brandon Sullivan (Fassbender), um homem solteiro, reservado, com um bom emprego e dono de um apartamento em Nova York. Um sujeito bastante normal, em uma primeira análise. Sullivan, no entanto, é viciado em sexo. Obcecado por vídeos na internet, revistas pornográficas, masturbação e, claro, sexo propriamente dito, Brandon vive em um estado de vigília sexual. Qualquer momento a qualquer hora do dia pode ser uma boa hora para sexo e suas variações. Quando sua irmã, Sissy (Carey Mulligan, de Educação), implora para dormir alguns dias em sua casa, Brandon logo faz restrições, mas permite que ela permaneça por ali. Mas a convivência com a irmã, além de lhe tirar sua tão bem-vinda privacidade, traz à tona sentimentos mal resolvidos de família que podem atrapalhar a vida de Brandon.
O diretor Steve McQueen (não confundir com o ator, falecido há muito) demonstra habilidade fantástica para construir cenas interessantes sem qualquer tipo de invencionice. É câmera ligada e atores conversando, com poucos cortes e vários silêncios. São muitos os trechos em Shame que utilizam o plano-sequencia para transmitir o sentimento correto da cena. Mas três são emblemáticos: em dado momento, Brandon convida Marianne (Nicole Beharie, de American Violet), sua colega de trabalho, para um jantar. Ele chega atrasado (quase não aparece, na verdade) e tem uma conversa franca e inusitada com sua pretensa paquera. Com corte algum, a cena mostra todos os silêncios nervosos de um primeiro encontro, as interrupções do garçom, o tempo necessário para que cada um fique mais à vontade. Em outra cena, Fassbender decide sair do seu apartamento quando percebe que seu chefe e sua irmã estão transando em sua cama. Com fones de ouvido e roupa de ginástica, o ator percorre um bom trecho das ruas de Nova York correndo, com a câmera o perseguindo em um belo travelling, sem cortes. A música de Bach dá o tom da cena. Por fim, mas não menos importante, Brandon têm uma franca e acalorada conversa com a irmã sobre sua presença em seu apartamento e em sua vida. A câmera de McQueen enquadra a nuca de Fassbender e Mulligan, enquanto os dois estão sentados no sofá, vendo televisão. A cena toda se passa em um plano só, com os dois colocando tudo para fora sobre o que pensam um do outro. O roteiro deixa suspenso, infelizmente, o principal motivo das rusgas entre irmão e irmã. Entende-se que algo na infância aconteceu que os deixou perturbados, mas nunca sabemos exatamente o quê.
Michael Fassbender ganha um papel difícil, mas mostra que não tem medo de desafios. Brandon Sullivan é um viciado, uma pessoa doente que, como diz o título original, sente vergonha de sua condição, mas não vê forma de dar um ponto final. Sua tentativa de um relacionamento saudável com Marianne é freada justamente no ponto em que seu comportamento mais o incomoda: o sexo. Ao falhar na cama com a moça, Brandon se dá conta de que tentar se conectar com alguém de uma forma convencional talvez não funcione para ele. Suas várias noitadas sexuais, com diversas mulheres, só apontam para um problema mais sério: a falta de intimidade que one night stands trazem para sua vida. É curioso observar como, no início da trama, o sexo parece um jogo divertido para Brandon. Mas, quando sua irmã aparece, a vergonha e os problemas do passado parecem servir como um obstáculo para que ele consiga viver sua rotina.
Apesar de Michael Fassbender ser o grande destaque de Shame, Carrey Mulligan não fica atrás. Interpretando uma mulher volúvel e sem qualquer maturidade emocional, Sissy aparece como um furacão na vida de Brandon, o incomodando em todos os aspectos. Um dos poucos momentos de trégua entre a dupla é a bela versão de “New York, New York” cantada pela atriz, música que trouxe lágrimas aos olhos de Brandon. Mulligan também protagoniza cena de nudez frontal, talvez como uma forma de enterrar a aura de menina comportada que vem sendo construída pelos seus trabalhos anteriores.
Outro ponto a se destacar em Shame é a Nova York britânica criada pela fotografia do filme. Apesar da história se passar na Big Apple, o diretor inglês Steve McQueen e o diretor de fotografia Sean Bobbitt criaram uma Nova York fria, úmida, escura, não escondendo em momento algum de que se trata de uma produção da Terra da Rainha.
Um estudo de personagens acima de tudo, Shame é um ótimo longa-metragem, com bom andamento e atuações estupendas. Pode incomodar os mais pudicos pelas cenas de sexo e nudez. Mas é importante ressaltar que elas estão ali por uma razão: criar a atmosfera do vício do protagonista, nem sendo necessariamente sensuais. McQueen não faz uma ode ao sexo. Faz um trabalho que retrata uma pessoa que, apesar de tentar, não consegue livrar-se de seu vício. Ou consegue? Veja o filme e tire suas conclusões.
Shame
Reino Unido – Drama – 101 minutos
Dir.: Steve McQueen
Roteiro: Abi Morgan e Steve McQueen
Com Michael Fassbender, Carey Mulligan, Nicole Beharie, James Badge Dale
Cotação Paradoxo: Vale 90% do ingresso
Confira logo abaixo o trailer de Shame:
Sharon Stone virou uma estrela mundialmente conhecida após a famosa cruzada de pernas de Instinto Selvagem, lançado há exatos 20 anos. A cena foi transformadora para a carreira da atriz, que engatou trabalhos bem sucedidos logo após a estréia, perdendo um pouco seu star power, é verdade, com o passar dos anos. Muitos podem não lembrar, mas, à época, a cena causou grande polêmica, enraivecendo grupos mais conservadores. Corta para 2012. Michael Fassbender teve atuação elogiadíssima, mas igualmente polêmica, com seu trabalho em Shame, em nus frontais que, digamos assim, não escondem nada de sua anatomia. Não digo que Fassbender se transformará em astro única e exclusivamente pelo fato de ter aparecido nu em um longa-metragem. Mas acredito que o fato do ator se doar totalmente ao seu papel e por estar construindo uma carreira sólida e diversificada farão com que Fassbender tenha uma bem sucedida trajetória em Hollywood. Shame é o divisor de águas. É o trabalho que, muitos apontam, seria merecedor de indicação ao Oscar – que acabou não se concretizando talvez pelo teor controverso da trama.
Com roteiro de Abi Morgan (de A Dama de Ferro) e de Steve McQueen (de Hunger, também diretor do filme), Shame acompanha a vida de Brandon Sullivan (Fassbender), um homem solteiro, reservado, com um bom emprego e dono de um apartamento em Nova York. Um sujeito bastante normal, em uma primeira análise. Sullivan, no entanto, é viciado em sexo. Obcecado por vídeos na internet, revistas pornográficas, masturbação e, claro, sexo propriamente dito, Brandon vive em um estado de vigília sexual. Qualquer momento a qualquer hora do dia pode ser uma boa hora para sexo e suas variações. Quando sua irmã, Sissy (Carey Mulligan, de Educação), implora para dormir alguns dias em sua casa, Brandon logo faz restrições, mas permite que ela permaneça por ali. Mas a convivência com a irmã, além de lhe tirar sua tão bem-vinda privacidade, traz à tona sentimentos mal resolvidos de família que podem atrapalhar a vida de Brandon.
O diretor Steve McQueen (não confundir com o ator, falecido há muito) demonstra habilidade fantástica para construir cenas interessantes sem qualquer tipo de invencionice. É câmera ligada e atores conversando, com poucos cortes e vários silêncios. São muitos os trechos em Shame que utilizam o plano-sequencia para transmitir o sentimento correto da cena. Mas três são emblemáticos: em dado momento, Brandon convida Marianne (Nicole Beharie, de American Violet), sua colega de trabalho, para um jantar. Ele chega atrasado (quase não aparece, na verdade) e tem uma conversa franca e inusitada com sua pretensa paquera. Com corte algum, a cena mostra todos os silêncios nervosos de um primeiro encontro, as interrupções do garçom, o tempo necessário para que cada um fique mais à vontade. Em outra cena, Fassbender decide sair do seu apartamento quando percebe que seu chefe e sua irmã estão transando em sua cama. Com fones de ouvido e roupa de ginástica, o ator percorre um bom trecho das ruas de Nova York correndo, com a câmera o perseguindo em um belo travelling, sem cortes. A música de Bach dá o tom da cena. Por fim, mas não menos importante, Brandon têm uma franca e acalorada conversa com a irmã sobre sua presença em seu apartamento e em sua vida. A câmera de McQueen enquadra a nuca de Fassbender e Mulligan, enquanto os dois estão sentados no sofá, vendo televisão. A cena toda se passa em um plano só, com os dois colocando tudo para fora sobre o que pensam um do outro. O roteiro deixa suspenso, infelizmente, o principal motivo das rusgas entre irmão e irmã. Entende-se que algo na infância aconteceu que os deixou perturbados, mas nunca sabemos exatamente o quê.
Michael Fassbender ganha um papel difícil, mas mostra que não tem medo de desafios. Brandon Sullivan é um viciado, uma pessoa doente que, como diz o título original, sente vergonha de sua condição, mas não vê forma de dar um ponto final. Sua tentativa de um relacionamento saudável com Marianne é freada justamente no ponto em que seu comportamento mais o incomoda: o sexo. Ao falhar na cama com a moça, Brandon se dá conta de que tentar se conectar com alguém de uma forma convencional talvez não funcione para ele. Suas várias noitadas sexuais, com diversas mulheres, só apontam para um problema mais sério: a falta de intimidade que one night stands trazem para sua vida. É curioso observar como, no início da trama, o sexo parece um jogo divertido para Brandon. Mas, quando sua irmã aparece, a vergonha e os problemas do passado parecem servir como um obstáculo para que ele consiga viver sua rotina.
Apesar de Michael Fassbender ser o grande destaque de Shame, Carrey Mulligan não fica atrás. Interpretando uma mulher volúvel e sem qualquer maturidade emocional, Sissy aparece como um furacão na vida de Brandon, o incomodando em todos os aspectos. Um dos poucos momentos de trégua entre a dupla é a bela versão de “New York, New York” cantada pela atriz, música que trouxe lágrimas aos olhos de Brandon. Mulligan também protagoniza cena de nudez frontal, talvez como uma forma de enterrar a aura de menina comportada que vem sendo construída pelos seus trabalhos anteriores.
Outro ponto a se destacar em Shame é a Nova York britânica criada pela fotografia do filme. Apesar da história se passar na Big Apple, o diretor inglês Steve McQueen e o diretor de fotografia Sean Bobbitt criaram uma Nova York fria, úmida, escura, não escondendo em momento algum de que se trata de uma produção da Terra da Rainha.
Um estudo de personagens acima de tudo, Shame é um ótimo longa-metragem, com bom andamento e atuações estupendas. Pode incomodar os mais pudicos pelas cenas de sexo e nudez. Mas é importante ressaltar que elas estão ali por uma razão: criar a atmosfera do vício do protagonista, nem sendo necessariamente sensuais. McQueen não faz uma ode ao sexo. Faz um trabalho que retrata uma pessoa que, apesar de tentar, não consegue livrar-se de seu vício. Ou consegue? Veja o filme e tire suas conclusões.
Shame
Reino Unido – Drama – 101 minutos
Dir.: Steve McQueen
Roteiro: Abi Morgan e Steve McQueen
Com Michael Fassbender, Carey Mulligan, Nicole Beharie, James Badge Dale
Cotação Paradoxo: Vale 90% do ingresso
Confira logo abaixo o trailer de Shame:
segunda-feira, 19 de março de 2012
Guerra é Guerra
Sabotage
A palavra chave para entender o trabalho do diretor norte-americano McG é diversão. O cineasta começou sua carreira dirigindo vídeos musicais para bandas pop dos anos 90 como Smash Mouth, Sugar Ray, Fastball, Sublime, Offspring (na sua fase pop punk), entre várias outras. Clipes divertidos e estilosos. Quando o cineasta estreou nos cinemas com As Panteras, o filme logicamente não era uma obra-prima, mas qualquer um podia argumentar que o fato de ser engraçado e tremendamente divertido devido a todos os seus exageros compensava. Os trabalhos posteriores de McG tentaram seguir este preceito, mas acabaram naufragando pelos mais diversos motivos. Seja devido ao roteiro rasteiro (As Panteras Detonando), seja pelo fato de que ninguém viu (Somos Marshall), seja pela troca da diversão pela ação (O Exterminador do Futuro: A Salvação). Seu mais recente filme, Guerra é Guerra, é o que mais se aproxima daquele diretor pop anos 90, que colocava sempre a diversão à frente de tudo. Assim como As Panteras, Guerra é Guerra não é um grande filme, mas é tão despretensiosamente engraçado que acaba conquistando o espectador.
Na trama, assinada por Timothy Dowling (de Esposa de Mentirinha) e Simon Kinberg (de Sherlock Holmes), FDR (Chris Pine, de Star Trek) e Tuck (Tom Hardy, de A Origem) são dois agentes da CIA, amigos de longa data. FDR é o típico solteirão festeiro, enquanto Tuck ainda se recupera da separação com a ex-mulher, com quem tem um filho pequeno. Após se inscrever em um site de encontros, Tuck conhece a bela Lauren (Reese Whiterspoon, de Água para Elefantes), uma mulher bem sucedida no trabalho, mas sem muito sucesso em sua vida amorosa. Depois do bom primeiro encontro com Tuck, Lauren conhece FDR em uma locadora de DVDs. Os dois se bicam, de começo, mas acabam saindo juntos depois da pressão que FDR exerce sobre a moça. Quando os dois amigos descobrem que estão saindo com a mesma mulher, a primeira reação de cada um é deixar o caminho aberto para o outro. Mas, depois, a competitividade masculina entra em campo e os dois acabam disputando Lauren, que, no meio disso, não sabe que seus dois “namorados” se conhecem e está totalmente indecisa sobre quem escolher.
Não se engane pelo fato de os dois personagens masculinos serem agentes secretos. Guerra é Guerra é uma comédia romântica, disfarçada com alguns elementos de ação. Existe uma subtrama com um vilão clássico, mas está lá mais para justificar a utilização dos espiões no filme do que qualquer outra coisa. Aqui, o que importa é quem vai ficar com a mocinha no final. Bom para Reese Whiterspoon, que é veterana no gênero e não precisa fazer esforço algum para ser adorável. Tom Hardy prova que é bom ator, parecendo à vontade em um gênero novo. O britânico revelado em Bronson e que encarnará o vilão Bane no próximo Batman não teve chance de interpretar papéis leves em seus filmes anteriores e, aqui, convence como um agente terno e, na medida do possível, romântico. O destaque, no entanto, fica para Chris Pine que, assim como em Star Trek, utiliza uma veia irônica e arrogante para dar vida ao seu personagem. Funcionou muito bem com o Capitão Kirk e volta a dar resultados com FDR.
O elenco de apoio conta com a desbocada comediante americana Chelsea Handler, atriz que encarna uma personagem que parece saída de uma comédia de Judd Apatow, meio fora de sintonia com o resto do filme, e com Til Schweiger (de Bastardos Inglórios), interpretando o vilão esquecível, mas necessário para a constituição do gênero. Ambos ficam perdidos, sem muito que fazer.
O roteiro de Guerra é Guerra faz rir principalmente durante o segundo ato, quando os dois agentes começam a pregar peças um no outro, tentando sabotar o encontro alheio. Uma pena que, em algumas cenas, os roteiristas lançam mão de clichês que já morreram de velhos. O pior deles: Tom Hardy falando besteiras sobre pintura para um desavisado Chris Pine, que estava recebendo informações por um ponto eletrônico para impressionar Whiterspoon. Piada velha, utilizada à exaustão. Mesmo assim, em alguns momentos, é possível se divertir com as tentativas desesperadas de Hardy e Pine em conquistar o seu objeto de desejo – como adotar cães, utilizar crianças e familiares ou, a melhor de todas, ser brutal em uma partida de paintball.
Ao que tudo indica, o elenco se divertiu horrores filmando Guerra é Guerra e isso transparece na tela. McG brinca aqui e ali com sua câmera, fazendo um inusitado plano sequência envolvendo dança e dois espiões infiltrados. Mas, de todo, está bastante contido, sem as invencionices que fizeram seu nome no primeiro As Panteras. Para quem gosta de comédias românticas, o longa-metragem assinado por McG cumpre o que promete e deve deixar a mulherada na dúvida sobre quem escolher dos dois agentes. Para os marmanjos que não são fãs do gênero, uma cena de ação no começo e no final do filme, atrelada a algumas sabotagens que Tuck e FDR pregam um no outro, pode valer o ingresso.
Guerra é Guerra (This Means War)
EUA – 97 minutos – Comédia Romântica/Ação
Dir.: McG
Roteiro: Timothy Dowling e Simon Kimberg
Com Reese Whiterspoon, Chris Pine, Tom Hardy, Chelsea Handler, Til Schweiger, Angela Basset
Cotação Paradoxo: Vale 76% do ingresso
Confira logo abaixo o trailer de Guerra é Guerra:
A palavra chave para entender o trabalho do diretor norte-americano McG é diversão. O cineasta começou sua carreira dirigindo vídeos musicais para bandas pop dos anos 90 como Smash Mouth, Sugar Ray, Fastball, Sublime, Offspring (na sua fase pop punk), entre várias outras. Clipes divertidos e estilosos. Quando o cineasta estreou nos cinemas com As Panteras, o filme logicamente não era uma obra-prima, mas qualquer um podia argumentar que o fato de ser engraçado e tremendamente divertido devido a todos os seus exageros compensava. Os trabalhos posteriores de McG tentaram seguir este preceito, mas acabaram naufragando pelos mais diversos motivos. Seja devido ao roteiro rasteiro (As Panteras Detonando), seja pelo fato de que ninguém viu (Somos Marshall), seja pela troca da diversão pela ação (O Exterminador do Futuro: A Salvação). Seu mais recente filme, Guerra é Guerra, é o que mais se aproxima daquele diretor pop anos 90, que colocava sempre a diversão à frente de tudo. Assim como As Panteras, Guerra é Guerra não é um grande filme, mas é tão despretensiosamente engraçado que acaba conquistando o espectador.
Na trama, assinada por Timothy Dowling (de Esposa de Mentirinha) e Simon Kinberg (de Sherlock Holmes), FDR (Chris Pine, de Star Trek) e Tuck (Tom Hardy, de A Origem) são dois agentes da CIA, amigos de longa data. FDR é o típico solteirão festeiro, enquanto Tuck ainda se recupera da separação com a ex-mulher, com quem tem um filho pequeno. Após se inscrever em um site de encontros, Tuck conhece a bela Lauren (Reese Whiterspoon, de Água para Elefantes), uma mulher bem sucedida no trabalho, mas sem muito sucesso em sua vida amorosa. Depois do bom primeiro encontro com Tuck, Lauren conhece FDR em uma locadora de DVDs. Os dois se bicam, de começo, mas acabam saindo juntos depois da pressão que FDR exerce sobre a moça. Quando os dois amigos descobrem que estão saindo com a mesma mulher, a primeira reação de cada um é deixar o caminho aberto para o outro. Mas, depois, a competitividade masculina entra em campo e os dois acabam disputando Lauren, que, no meio disso, não sabe que seus dois “namorados” se conhecem e está totalmente indecisa sobre quem escolher.
Não se engane pelo fato de os dois personagens masculinos serem agentes secretos. Guerra é Guerra é uma comédia romântica, disfarçada com alguns elementos de ação. Existe uma subtrama com um vilão clássico, mas está lá mais para justificar a utilização dos espiões no filme do que qualquer outra coisa. Aqui, o que importa é quem vai ficar com a mocinha no final. Bom para Reese Whiterspoon, que é veterana no gênero e não precisa fazer esforço algum para ser adorável. Tom Hardy prova que é bom ator, parecendo à vontade em um gênero novo. O britânico revelado em Bronson e que encarnará o vilão Bane no próximo Batman não teve chance de interpretar papéis leves em seus filmes anteriores e, aqui, convence como um agente terno e, na medida do possível, romântico. O destaque, no entanto, fica para Chris Pine que, assim como em Star Trek, utiliza uma veia irônica e arrogante para dar vida ao seu personagem. Funcionou muito bem com o Capitão Kirk e volta a dar resultados com FDR.
O elenco de apoio conta com a desbocada comediante americana Chelsea Handler, atriz que encarna uma personagem que parece saída de uma comédia de Judd Apatow, meio fora de sintonia com o resto do filme, e com Til Schweiger (de Bastardos Inglórios), interpretando o vilão esquecível, mas necessário para a constituição do gênero. Ambos ficam perdidos, sem muito que fazer.
O roteiro de Guerra é Guerra faz rir principalmente durante o segundo ato, quando os dois agentes começam a pregar peças um no outro, tentando sabotar o encontro alheio. Uma pena que, em algumas cenas, os roteiristas lançam mão de clichês que já morreram de velhos. O pior deles: Tom Hardy falando besteiras sobre pintura para um desavisado Chris Pine, que estava recebendo informações por um ponto eletrônico para impressionar Whiterspoon. Piada velha, utilizada à exaustão. Mesmo assim, em alguns momentos, é possível se divertir com as tentativas desesperadas de Hardy e Pine em conquistar o seu objeto de desejo – como adotar cães, utilizar crianças e familiares ou, a melhor de todas, ser brutal em uma partida de paintball.
Ao que tudo indica, o elenco se divertiu horrores filmando Guerra é Guerra e isso transparece na tela. McG brinca aqui e ali com sua câmera, fazendo um inusitado plano sequência envolvendo dança e dois espiões infiltrados. Mas, de todo, está bastante contido, sem as invencionices que fizeram seu nome no primeiro As Panteras. Para quem gosta de comédias românticas, o longa-metragem assinado por McG cumpre o que promete e deve deixar a mulherada na dúvida sobre quem escolher dos dois agentes. Para os marmanjos que não são fãs do gênero, uma cena de ação no começo e no final do filme, atrelada a algumas sabotagens que Tuck e FDR pregam um no outro, pode valer o ingresso.
Guerra é Guerra (This Means War)
EUA – 97 minutos – Comédia Romântica/Ação
Dir.: McG
Roteiro: Timothy Dowling e Simon Kimberg
Com Reese Whiterspoon, Chris Pine, Tom Hardy, Chelsea Handler, Til Schweiger, Angela Basset
Cotação Paradoxo: Vale 76% do ingresso
Confira logo abaixo o trailer de Guerra é Guerra:
sexta-feira, 16 de março de 2012
Protegendo o Inimigo
O Fugitivo
Quando Denzel Washington deixou de ser um ator respeitável, de trabalhos como Um Grito de Liberdade, Malcolm X, Filadélfia e Hurricane, e se tornou o protagonista de toda sorte de filmes de ação, como Seqüestro do Metrô 123, Dèjá Vu e Incontrolável? Está claro que a profissão de ator, como qualquer outra, serve como ganha pão e nem sempre é possível ser muito seletivo. Mas, ultimamente, Washington parece estar com o piloto automático ligado, escolhendo projetos muito aquém do seu talento. O último trabalho que vem à lembrança como algo de qualidade é O Gângster, de Ridley Scott, lançado em 2007. E lá se vão cinco anos. A dúvida que fica é se o ator está escolhendo este filão deliberadamente ou se as ofertas estão minguando em outras frentes, o forçando a protagonizar filmes como este Protegendo o Inimigo. Não me entendam mal. O longa-metragem, dirigido pelo sueco estreante em Hollywood Daniel Espinosa, não é de todo ruim e Washington, mesmo no piloto automático, ainda consegue convencer. Mas não deixa de ser um desperdício de talento.
Na trama, assinada por David Guggenheim (do inédito no Brasil Exit Strategy), Denzel Washington é o ex-agente da CIA, hoje criminoso, Tobin Frost. Em poder de um dispositivo eletrônico que contém dados importantes e misteriosos, Frost é perseguido por mercenários na Cidade do Cabo e, sua vida corre tal risco, que o fugitivo resolve se entregar na embaixada dos Estados Unidos. A CIA o procura há anos e sua captura poderá responder diversas perguntas sobre o vazamento de informações de dentro da agência. Frost é enviado para uma safe house, um local seguro e escondido, mantido por agentes de pouca relevância. É lá que trabalha Matt Weston (Ryan Reynolds, de Lanterna Verde), o clássico ingênuo agente que trabalha seguindo as regras. Quando a “casa segura” é invadida pelo grupo de mercenários que persegue Frost, Weston se vê obrigado a tirá-lo de lá e protegê-lo.
Apesar do bom elenco, que conta ainda com Sam Shepard (de Jogo de Poder), Vera Farmiga (de Contra o Tempo) e Brendan Gleeson (de Albert Nobbs), Protegendo o Inimigo tem personagens tão clichês que nem o melhor dos atores consegue salvar. A cada pretensa reviravolta do roteiro, Guggenheim busca um clichê para preenchê-lo, como se ninguém jamais tivesse visto algum filme com agentes duplos, chefes corruptos ou amigos traidores. O pior não é reutilizar idéias e, sim usá-las como se fossem uma grande novidade. Verdade seja dita. Ficou muito difícil fazer um bom filme de espião depois da trilogia Bourne. Doug Liman (de A Identidade Bourne) e, principalmente, Paul Greengrass (de Supremacia e Ultimato Bourne) estabeleceram um nível muito alto de qualidade em seus filmes, deixando muito difícil para a concorrência conseguir chegar perto.
Se os personagens não são interessantes, resta lotar a tela de cenas de perseguição e torcer para que o espectador não perceba. Nisso, Protegendo o Inimigo consegue um bom resultado. De novo. Nada genial ou inovador. Mas, ao menos, a movimentação de câmera e as boas sequências de ação conseguem espantar o tédio. Em uma delas, Ryan Reynolds e Denzel Washington tentam escapar dos assassinos de aluguel em uma movimentada perseguição de carro pelas ruas da Cidade do Cabo. Em outra, as favelas africanas servem de cenário para mais uma busca pelo fugitivo ex-agente.
Com Denzel Washington no automático e Ryan Reynolds sendo Ryan Reynolds, Protegendo o Inimigo é recomendado apenas para entusiastas do gênero, que não se importam em reencontrar as mesmas situações e reviravoltas já vistas em um sem número de outras produções.
Protegendo o Inimigo (Safe House)
EUA/África do Sul – 115 minutos
Dir.: Daniel Espinosa
Roteiro: David Guggenheim
Com Denzel Washington, Ryan Reynolds, Vera Farmiga, Sam Shepard, Brendan Gleeson, Joel Kinnaman
Cotação Paradoxo: Vale 50% do ingresso
Confira logo abaixo o trailer de Protegendo o Inimigo:
Quando Denzel Washington deixou de ser um ator respeitável, de trabalhos como Um Grito de Liberdade, Malcolm X, Filadélfia e Hurricane, e se tornou o protagonista de toda sorte de filmes de ação, como Seqüestro do Metrô 123, Dèjá Vu e Incontrolável? Está claro que a profissão de ator, como qualquer outra, serve como ganha pão e nem sempre é possível ser muito seletivo. Mas, ultimamente, Washington parece estar com o piloto automático ligado, escolhendo projetos muito aquém do seu talento. O último trabalho que vem à lembrança como algo de qualidade é O Gângster, de Ridley Scott, lançado em 2007. E lá se vão cinco anos. A dúvida que fica é se o ator está escolhendo este filão deliberadamente ou se as ofertas estão minguando em outras frentes, o forçando a protagonizar filmes como este Protegendo o Inimigo. Não me entendam mal. O longa-metragem, dirigido pelo sueco estreante em Hollywood Daniel Espinosa, não é de todo ruim e Washington, mesmo no piloto automático, ainda consegue convencer. Mas não deixa de ser um desperdício de talento.
Na trama, assinada por David Guggenheim (do inédito no Brasil Exit Strategy), Denzel Washington é o ex-agente da CIA, hoje criminoso, Tobin Frost. Em poder de um dispositivo eletrônico que contém dados importantes e misteriosos, Frost é perseguido por mercenários na Cidade do Cabo e, sua vida corre tal risco, que o fugitivo resolve se entregar na embaixada dos Estados Unidos. A CIA o procura há anos e sua captura poderá responder diversas perguntas sobre o vazamento de informações de dentro da agência. Frost é enviado para uma safe house, um local seguro e escondido, mantido por agentes de pouca relevância. É lá que trabalha Matt Weston (Ryan Reynolds, de Lanterna Verde), o clássico ingênuo agente que trabalha seguindo as regras. Quando a “casa segura” é invadida pelo grupo de mercenários que persegue Frost, Weston se vê obrigado a tirá-lo de lá e protegê-lo.
Apesar do bom elenco, que conta ainda com Sam Shepard (de Jogo de Poder), Vera Farmiga (de Contra o Tempo) e Brendan Gleeson (de Albert Nobbs), Protegendo o Inimigo tem personagens tão clichês que nem o melhor dos atores consegue salvar. A cada pretensa reviravolta do roteiro, Guggenheim busca um clichê para preenchê-lo, como se ninguém jamais tivesse visto algum filme com agentes duplos, chefes corruptos ou amigos traidores. O pior não é reutilizar idéias e, sim usá-las como se fossem uma grande novidade. Verdade seja dita. Ficou muito difícil fazer um bom filme de espião depois da trilogia Bourne. Doug Liman (de A Identidade Bourne) e, principalmente, Paul Greengrass (de Supremacia e Ultimato Bourne) estabeleceram um nível muito alto de qualidade em seus filmes, deixando muito difícil para a concorrência conseguir chegar perto.
Se os personagens não são interessantes, resta lotar a tela de cenas de perseguição e torcer para que o espectador não perceba. Nisso, Protegendo o Inimigo consegue um bom resultado. De novo. Nada genial ou inovador. Mas, ao menos, a movimentação de câmera e as boas sequências de ação conseguem espantar o tédio. Em uma delas, Ryan Reynolds e Denzel Washington tentam escapar dos assassinos de aluguel em uma movimentada perseguição de carro pelas ruas da Cidade do Cabo. Em outra, as favelas africanas servem de cenário para mais uma busca pelo fugitivo ex-agente.
Com Denzel Washington no automático e Ryan Reynolds sendo Ryan Reynolds, Protegendo o Inimigo é recomendado apenas para entusiastas do gênero, que não se importam em reencontrar as mesmas situações e reviravoltas já vistas em um sem número de outras produções.
Protegendo o Inimigo (Safe House)
EUA/África do Sul – 115 minutos
Dir.: Daniel Espinosa
Roteiro: David Guggenheim
Com Denzel Washington, Ryan Reynolds, Vera Farmiga, Sam Shepard, Brendan Gleeson, Joel Kinnaman
Cotação Paradoxo: Vale 50% do ingresso
Confira logo abaixo o trailer de Protegendo o Inimigo:
quinta-feira, 15 de março de 2012
John Carter - Entre Dois Mundos
De Jasoom a Barsoom
A Disney está com o dedo podre na hora de escolher suas aventuras em live-action. Príncipe da Pérsia – As Areias do Tempo e Aprendiz de Feiticeiro, ambas lançadas em 2010, são produções que não me deixam mentir. São apenas dois exemplos de execução rasteira de ideias que, em teoria, poderiam ser bastante divertidas. O mais recente erro de cálculo dos estúdios do Mickey Mouse foi John Carter – Entre Dois Mundos, aventura épica com pitadas de sci-fi baseada nos escritos de Edgar Rice Burroughs, criador do Tarzan. Produção caríssima até para os padrões hollywoodianos (estimam-se US$ 250 milhões de orçamento, sem contar a receita com publicidade), o longa-metragem assinado pelo veterano das animações da Pixar, Andrew Stanton (de Wall-E), naufraga completamente em suas ambições.
Com roteiro de Stanton, Mark Andrews (do curta One Man Band) e Michael Chabon (de Homem-Aranha 2), John Carter transporta o espectador para Marte – ou Barsoom, segundo o dialeto local. Carter (Taylor Kitsch, de Repórteres de Guerra), homem cicatrizado por uma perda do passado e obcecado atualmente pela riqueza do ouro, é enviado para o planeta vermelho quando esbarra em um Thern (ser que controla os destinos dos pobres mortais). Chegando lá, sem saber onde está, descobre que consegue pular grandes alturas, uma vantagem contra possíveis inimigos. Encontrado pelos Tharks e protegido pelo líder do grupo, Tars Tarkas (voz de Willem Dafoe, de Anticristo), que vê em Carter um grande potencial, o terráqueo acaba conhecendo a princesa de Helium, Dejah (Lynn Collins, de X-Men Origens: Wolverine), prometida em casamento para o sanguinário líder do povo de Zodanga, Sab Than (Dominic West, de O Despertar). Este encontro fará com que John Carter se meta nos planos do Thern Matai Shang (Mark Strong, de Lanterna Verde), o maior interessado na união entre o povo de Helium e Zodanga.
Tars Tarkas, Sab Than, Matai Shang, Tardos Mors. Não é difícil descobrir onde está a inspiração de George Lucas para os nomes estranhos da saga intergaláctica Star Wars. O texto de Edgar Rice Burroughs, que criou uma série de romances situados em Barsoom, é referência para muitos fãs de ficção científica e uma adaptação para o cinema é aguardada (e planejada) há anos. Caso você encontre alguns lapsos de Avatar, não se espante. Foi desta fonte que James Cameron bebeu para criar sua trama multimilionária. Com tantos exemplos de sucesso baseados no trabalho de Burroughs, seria uma aposta certeira investir na obra que deu origem a tudo, certo? Em teoria, sim. Na prática, o que vemos na tela é um trabalho bastante opaco (apesar do brilho exagerado da direção de arte), que tenta de todas as formas soar grandiloqüente, mas sempre esbarra na tentativa.
Taylor Kitsch e Lynn Collins não podem ser apontados como culpados pelo resultado aquém das expectativas. Mas o fato é que nenhum dos dois têm condições de segurar uma produção desta dimensão. Curiosamente, ambos trabalharam juntos em X-Men Origens: Wolverine, em papéis que demandavam pouco talento. Stanton apostou em um casal relativamente desconhecido para protagonizar seu filme, tentando criar dois possíveis astros – emulando, talvez, o que Cameron fez em Avatar, quando chamou Sam Worthington e Zoe Saldana para os papéis principais. A fórmula não funciona sempre, infelizmente.
A dupla de protagonistas não chega a ter performances ruins, mas a falta de carisma na tela é aparente. Existe também uma dissonância entre o texto e as atuações. Taylor Kitsch parece querer dar ao seu John Carter uma áurea misteriosa, de homem sem nome, algo que Clint Eastwood fez muito bem nos western spaghetti italianos. Com voz rouca e cenho sempre fechado, Kitsch tenta o quanto pode parecer sombrio. O roteiro, no entanto, o sabota completamente transformando Carter em um homem falante demais. Ser misterioso, mas nunca fechar o bico. Isso simplesmente não funciona. A tentativa de criar uma história por trás das ações de John Carter surge como um adendo que nunca é bem explorado pelo roteiro. Empecilho que é facilmente resolvido no decorrer da trama não é necessário que exista, convenhamos. Já Lynn Collins, apesar de ser uma princesa, não vive a batida heroína em perigo, estando muito mais para uma mulher de ação, empunhando espadas e lutando pelo o que acredita. Sua interpretação pode não ser brilhante, mas ao menos está em sintonia com o que está no papel.
Os efeitos especiais, tão necessários para dar vida às criaturas fantásticas de Barsoom, são muito bem concebidos, algo esperado devido ao alto custo da produção. Como assisti à versão em 2D, ficarei devendo algum comentário sobre a qualidade dos efeitos tridimensionais. Até fico curioso em saber se em 3D John Carter não ganha pontos no visual, atenuando o colorido ofuscante da direção de arte. Como sabemos que os óculos especiais das salas deixam tudo mais escuro e fazem com que percamos uma boa porcentagem no nível de cores, talvez pela primeira vez este fato viria a calhar. Aos moldes de Fúria de Titãs, a direção de arte de John Carter parece saída dos barracões da Sapucaí, totalmente exagerada quando em Marte.
Depois de fazer excelentes trabalhos na Pixar, como Procurando Nemo e Wall-E, Andrew Stanton segue os passos de seu colega Brad Bird, diretor de Missão Impossível 4, e estreia nos filmes live-action. Infelizmente, não com a mesma qualidade apresentada em seus longas-metragens anteriores. Parte da culpa é do roteiro, outra de sua parca aptidão em trabalhar "longe dos computadores", digamos assim. O que falta em Stanton não é conhecimento ou talento. É experiência. E começar com um pretenso blockbuster de orçamento inchado sempre é perigoso. Seu amigo, Brad Bird, fez o mesmo, mas acabou se dando bem. O grande problema de Stanton é não conseguir dar ritmo ao seu filme, o que é um tiro no pé para uma aventura.
John Carter demora uma hora para engrenar e, quando o faz, acaba não entregando tudo o que promete. Algumas cenas de combate são acrescentadas, mas nada de muito empolgante. O que não falta é John Carter pulando daqui para lá e de lá para cá, e Sab Than apontando seu raio azul para os meros mortais. Muito pouco para um épico em potencial. Curioso é observar a forma como incluíram o autor da história, Edgar Burroughs, no meio da trama. Um toque pequeno, mas bastante perspicaz dos roteiristas. Uma pena que não tenham usado mais idéias como esta para aprimorar o texto final. O centenário do personagem merecia um tratamento melhor.
John Carter – Entre Dois Mundos (John Carter)
EUA – 132 minutos
Dir.: Andrew Stanton
Roteiro: Andrew Stanton, Mark Andrews e Michael Chabon, baseado no livro A Princesa de Marte, de Edgar Rice Burroughs
Com Taylor Kitsch, Lynn Collins, Ciarán Hinds, Mark Strong, Willem Dafoe, Thomas Haden Church, Samantha Morton, Dominic West, James Purefoy, Bryan Cranston
Cotação Paradoxo: Vale 55% do ingresso
Confira logo abaixo o trailer de John Carter – Entre Dois Mundos:
A Disney está com o dedo podre na hora de escolher suas aventuras em live-action. Príncipe da Pérsia – As Areias do Tempo e Aprendiz de Feiticeiro, ambas lançadas em 2010, são produções que não me deixam mentir. São apenas dois exemplos de execução rasteira de ideias que, em teoria, poderiam ser bastante divertidas. O mais recente erro de cálculo dos estúdios do Mickey Mouse foi John Carter – Entre Dois Mundos, aventura épica com pitadas de sci-fi baseada nos escritos de Edgar Rice Burroughs, criador do Tarzan. Produção caríssima até para os padrões hollywoodianos (estimam-se US$ 250 milhões de orçamento, sem contar a receita com publicidade), o longa-metragem assinado pelo veterano das animações da Pixar, Andrew Stanton (de Wall-E), naufraga completamente em suas ambições.
Com roteiro de Stanton, Mark Andrews (do curta One Man Band) e Michael Chabon (de Homem-Aranha 2), John Carter transporta o espectador para Marte – ou Barsoom, segundo o dialeto local. Carter (Taylor Kitsch, de Repórteres de Guerra), homem cicatrizado por uma perda do passado e obcecado atualmente pela riqueza do ouro, é enviado para o planeta vermelho quando esbarra em um Thern (ser que controla os destinos dos pobres mortais). Chegando lá, sem saber onde está, descobre que consegue pular grandes alturas, uma vantagem contra possíveis inimigos. Encontrado pelos Tharks e protegido pelo líder do grupo, Tars Tarkas (voz de Willem Dafoe, de Anticristo), que vê em Carter um grande potencial, o terráqueo acaba conhecendo a princesa de Helium, Dejah (Lynn Collins, de X-Men Origens: Wolverine), prometida em casamento para o sanguinário líder do povo de Zodanga, Sab Than (Dominic West, de O Despertar). Este encontro fará com que John Carter se meta nos planos do Thern Matai Shang (Mark Strong, de Lanterna Verde), o maior interessado na união entre o povo de Helium e Zodanga.
Tars Tarkas, Sab Than, Matai Shang, Tardos Mors. Não é difícil descobrir onde está a inspiração de George Lucas para os nomes estranhos da saga intergaláctica Star Wars. O texto de Edgar Rice Burroughs, que criou uma série de romances situados em Barsoom, é referência para muitos fãs de ficção científica e uma adaptação para o cinema é aguardada (e planejada) há anos. Caso você encontre alguns lapsos de Avatar, não se espante. Foi desta fonte que James Cameron bebeu para criar sua trama multimilionária. Com tantos exemplos de sucesso baseados no trabalho de Burroughs, seria uma aposta certeira investir na obra que deu origem a tudo, certo? Em teoria, sim. Na prática, o que vemos na tela é um trabalho bastante opaco (apesar do brilho exagerado da direção de arte), que tenta de todas as formas soar grandiloqüente, mas sempre esbarra na tentativa.
Taylor Kitsch e Lynn Collins não podem ser apontados como culpados pelo resultado aquém das expectativas. Mas o fato é que nenhum dos dois têm condições de segurar uma produção desta dimensão. Curiosamente, ambos trabalharam juntos em X-Men Origens: Wolverine, em papéis que demandavam pouco talento. Stanton apostou em um casal relativamente desconhecido para protagonizar seu filme, tentando criar dois possíveis astros – emulando, talvez, o que Cameron fez em Avatar, quando chamou Sam Worthington e Zoe Saldana para os papéis principais. A fórmula não funciona sempre, infelizmente.
A dupla de protagonistas não chega a ter performances ruins, mas a falta de carisma na tela é aparente. Existe também uma dissonância entre o texto e as atuações. Taylor Kitsch parece querer dar ao seu John Carter uma áurea misteriosa, de homem sem nome, algo que Clint Eastwood fez muito bem nos western spaghetti italianos. Com voz rouca e cenho sempre fechado, Kitsch tenta o quanto pode parecer sombrio. O roteiro, no entanto, o sabota completamente transformando Carter em um homem falante demais. Ser misterioso, mas nunca fechar o bico. Isso simplesmente não funciona. A tentativa de criar uma história por trás das ações de John Carter surge como um adendo que nunca é bem explorado pelo roteiro. Empecilho que é facilmente resolvido no decorrer da trama não é necessário que exista, convenhamos. Já Lynn Collins, apesar de ser uma princesa, não vive a batida heroína em perigo, estando muito mais para uma mulher de ação, empunhando espadas e lutando pelo o que acredita. Sua interpretação pode não ser brilhante, mas ao menos está em sintonia com o que está no papel.
Os efeitos especiais, tão necessários para dar vida às criaturas fantásticas de Barsoom, são muito bem concebidos, algo esperado devido ao alto custo da produção. Como assisti à versão em 2D, ficarei devendo algum comentário sobre a qualidade dos efeitos tridimensionais. Até fico curioso em saber se em 3D John Carter não ganha pontos no visual, atenuando o colorido ofuscante da direção de arte. Como sabemos que os óculos especiais das salas deixam tudo mais escuro e fazem com que percamos uma boa porcentagem no nível de cores, talvez pela primeira vez este fato viria a calhar. Aos moldes de Fúria de Titãs, a direção de arte de John Carter parece saída dos barracões da Sapucaí, totalmente exagerada quando em Marte.
Depois de fazer excelentes trabalhos na Pixar, como Procurando Nemo e Wall-E, Andrew Stanton segue os passos de seu colega Brad Bird, diretor de Missão Impossível 4, e estreia nos filmes live-action. Infelizmente, não com a mesma qualidade apresentada em seus longas-metragens anteriores. Parte da culpa é do roteiro, outra de sua parca aptidão em trabalhar "longe dos computadores", digamos assim. O que falta em Stanton não é conhecimento ou talento. É experiência. E começar com um pretenso blockbuster de orçamento inchado sempre é perigoso. Seu amigo, Brad Bird, fez o mesmo, mas acabou se dando bem. O grande problema de Stanton é não conseguir dar ritmo ao seu filme, o que é um tiro no pé para uma aventura.
John Carter demora uma hora para engrenar e, quando o faz, acaba não entregando tudo o que promete. Algumas cenas de combate são acrescentadas, mas nada de muito empolgante. O que não falta é John Carter pulando daqui para lá e de lá para cá, e Sab Than apontando seu raio azul para os meros mortais. Muito pouco para um épico em potencial. Curioso é observar a forma como incluíram o autor da história, Edgar Burroughs, no meio da trama. Um toque pequeno, mas bastante perspicaz dos roteiristas. Uma pena que não tenham usado mais idéias como esta para aprimorar o texto final. O centenário do personagem merecia um tratamento melhor.
John Carter – Entre Dois Mundos (John Carter)
EUA – 132 minutos
Dir.: Andrew Stanton
Roteiro: Andrew Stanton, Mark Andrews e Michael Chabon, baseado no livro A Princesa de Marte, de Edgar Rice Burroughs
Com Taylor Kitsch, Lynn Collins, Ciarán Hinds, Mark Strong, Willem Dafoe, Thomas Haden Church, Samantha Morton, Dominic West, James Purefoy, Bryan Cranston
Cotação Paradoxo: Vale 55% do ingresso
Confira logo abaixo o trailer de John Carter – Entre Dois Mundos:
quarta-feira, 14 de março de 2012
O Pacto
Hungry Rabbit Jumps
Em menos de um mês, dois filmes estrelados por Nicolas Cage chegaram aos cinemas brasileiros. E, apesar de não parecer em um primeiro momento, ambos apresentam a mesma temática para desenrolar sua trama: o pacto com o diabo. Em Motoqueiro Fantasma: Espírito de Vingança, Johnny Blaze faz um acordo com o coisa-ruim para salvar seu pai e se vê com poderes sobrenaturais, sendo perseguido pelo demo e pelos seus asseclas. Seu maior desejo é se livrar desta maldição. Em O Pacto, não temos este viés do além, mas o esqueleto da história é basicamente o mesmo. Após sua mulher ser violentada, o professor Will Gerard (Cage) concorda que um grupo de justiceiros, capitaneado pelo enigmático Simon (ou o Diabo, se preferir, vivido por Guy Pearce), se encarregue de dar cabo do estuprador. Uma mão lava a outra e Will terá de fazer um favor em um futuro próximo para este grupo. Historicamente, pactos com o diabo nunca dão bons frutos e Will se vê perseguido por sujeitos perigosos, que o obrigarão a matar um homem que nunca viu. Seu principal objetivo agora é se livrar do acordo, mas, com o passar do tempo, o professor percebe que as ligações de Simon são praticamente infinitas.
O Pacto tem roteiro assinado por Robert Tannen (de A Última Aposta), escrito em cima de história criada por ele e pelo estreante Todd Hickey, e é dirigido por Roger Donaldson (de Efeito Dominó). Além de Nicolas Cage, o elenco ainda conta com January Jones (do seriado Mad Men), vivendo a esposa de Will, Laura; Harold Perrineau (do seriado Lost), que interpreta o melhor amigo e chefe do personagem de Cage, Jimmy; e Jennifer Carpenter (do seriado Dexter), que ficou com o imprescindível papel da melhor amiga de Laura, Trudy;
Mesmo contando com um elenco televisivo com certa fama, não existe espaço algum para qualquer um destes atores desenvolverem seus personagens. A trama é totalmente e exclusivamente focada em Nicolas Cage e o drama de seu Will Gerard. O fato de Carpenter ser relegada a um papel quase sem falas e que Perrineau tenha pouco tempo para mostrar o que sabe até não chega a ser estranho. São personagens secundários. Uma lástima é January Jones, que sofre nas mãos de um estuprador logo no início do filme, não ganhar um arco maior. É mostrado rapidamente seu transtorno pós-traumático, com a moça ficando sempre alerta com as portas do apartamento e pensando em portar armas para proteção. Além disso ser muito pouco, só são inclusos como artifícios para momentos posteriores da trama. Concordo que O Pacto não versa sobre uma mulher que sofreu abuso sexual e está se recuperando e, sim, sobre um homem que se vê envolvido com um grupo misterioso e, acuado, tenta escapar do acordo. Mas um pouco mais de conteúdo não faria mal algum ao filme.
O que sobra de bom em O Pacto é o clima de opressão que Roger Donaldson imprime em seu trabalho. Cage corre para todos os lados, tenta escapar de Simon e seus capangas, precisa provar sua inocência em um crime que não cometeu, sempre parecendo estar um passo atrás de seus perseguidores. Suas tentativas em resolver o caso parecem um tanto extremas para um professor de colégio – fosse um policial, detetive ou jornalista, acostumados com investigações, os acontecimentos seriam mais fáceis de engolir. Não bastasse isso, alguns pontos do roteiro são ligados de forma mágica, como o local onde um jornalista guarda sua pesquisa sobre o grupo de justiceiros que caça Will. Isso e o fato de um dos personagens mostrar uma faceta obscura desnecessária no segundo ato azedam a experiência em acompanhar a trama de O Pacto.
Quanto a Nicolas Cage, a boa notícia é que ele está bastante contido em boa parte do filme. No início, o ator exagera um pouco para mostrar o quão é feliz com sua esposa. Depois, Cage incorpora um tom mais sério, preocupado, e passa até o final do filme carregando o mundo nas costas. Dos últimos trabalhos do ator, neste é o que ele menos inventa. Já Guy Pearce, com os cabelos raspados, não precisa de muito para soar ameaçador. Sua presença, sempre calma, não é o que transmite a periculosidade do seu personagem. É a sensação de que ele sempre está em volta, rondando, mesmo não sendo visto, que constrói uma atmosfera de perigo. Novamente retorno ao paralelo com o demônio, já que Simon (ou seu bando) parece estar em todos os lugares sempre.
Roger Donaldson consegue utilizar bem a cidade de Nova Orleans para a construção de alguns bons momentos no filme. O início, mostrando as festas características do lugar, e o desfecho, situado em um shopping abandonado pós-Katrina, justificam a escolha da cidade como sede das filmagens. Produções que utilizam Nova Orleans como cenário ajudam o local a se reerguer e Nicolas Cage parece ser um astro que tem consciência disso. É difícil saber quanta influência o ator possui neste ponto, já que ele não é produtor do projeto. Mas não deve ser coincidência que este seja o segundo trabalho do ator filmado por lá, depois de Vício Frenético.
Com uma trama que prende a atenção do espectador, mas que é esquecível tão logo as luzes do cinema acendem, O Pacto é apenas mais um thriller hollywoodiano, daqueles produzidos em série e que, não demoram, estão em cartaz no Supercine no sábado à noite. Não faz mal a ninguém, mas tampouco acrescenta.
O Pacto (Seeking Justice)
EUA – 105 minutos
Dir.: Roger Donaldson
Roteiro: Robert Tannen, sobre história de Tannen e Todd Hickey
Com Nicolas Cage, January Jones, Harold Perrineau, Jennifer Carpenter, Xander Berkeley e Guy Pearce
Cotação Paradoxo: Vale 68% do ingresso
Confira logo abaixo o trailer de O Pacto:
Em menos de um mês, dois filmes estrelados por Nicolas Cage chegaram aos cinemas brasileiros. E, apesar de não parecer em um primeiro momento, ambos apresentam a mesma temática para desenrolar sua trama: o pacto com o diabo. Em Motoqueiro Fantasma: Espírito de Vingança, Johnny Blaze faz um acordo com o coisa-ruim para salvar seu pai e se vê com poderes sobrenaturais, sendo perseguido pelo demo e pelos seus asseclas. Seu maior desejo é se livrar desta maldição. Em O Pacto, não temos este viés do além, mas o esqueleto da história é basicamente o mesmo. Após sua mulher ser violentada, o professor Will Gerard (Cage) concorda que um grupo de justiceiros, capitaneado pelo enigmático Simon (ou o Diabo, se preferir, vivido por Guy Pearce), se encarregue de dar cabo do estuprador. Uma mão lava a outra e Will terá de fazer um favor em um futuro próximo para este grupo. Historicamente, pactos com o diabo nunca dão bons frutos e Will se vê perseguido por sujeitos perigosos, que o obrigarão a matar um homem que nunca viu. Seu principal objetivo agora é se livrar do acordo, mas, com o passar do tempo, o professor percebe que as ligações de Simon são praticamente infinitas.
O Pacto tem roteiro assinado por Robert Tannen (de A Última Aposta), escrito em cima de história criada por ele e pelo estreante Todd Hickey, e é dirigido por Roger Donaldson (de Efeito Dominó). Além de Nicolas Cage, o elenco ainda conta com January Jones (do seriado Mad Men), vivendo a esposa de Will, Laura; Harold Perrineau (do seriado Lost), que interpreta o melhor amigo e chefe do personagem de Cage, Jimmy; e Jennifer Carpenter (do seriado Dexter), que ficou com o imprescindível papel da melhor amiga de Laura, Trudy;
Mesmo contando com um elenco televisivo com certa fama, não existe espaço algum para qualquer um destes atores desenvolverem seus personagens. A trama é totalmente e exclusivamente focada em Nicolas Cage e o drama de seu Will Gerard. O fato de Carpenter ser relegada a um papel quase sem falas e que Perrineau tenha pouco tempo para mostrar o que sabe até não chega a ser estranho. São personagens secundários. Uma lástima é January Jones, que sofre nas mãos de um estuprador logo no início do filme, não ganhar um arco maior. É mostrado rapidamente seu transtorno pós-traumático, com a moça ficando sempre alerta com as portas do apartamento e pensando em portar armas para proteção. Além disso ser muito pouco, só são inclusos como artifícios para momentos posteriores da trama. Concordo que O Pacto não versa sobre uma mulher que sofreu abuso sexual e está se recuperando e, sim, sobre um homem que se vê envolvido com um grupo misterioso e, acuado, tenta escapar do acordo. Mas um pouco mais de conteúdo não faria mal algum ao filme.
O que sobra de bom em O Pacto é o clima de opressão que Roger Donaldson imprime em seu trabalho. Cage corre para todos os lados, tenta escapar de Simon e seus capangas, precisa provar sua inocência em um crime que não cometeu, sempre parecendo estar um passo atrás de seus perseguidores. Suas tentativas em resolver o caso parecem um tanto extremas para um professor de colégio – fosse um policial, detetive ou jornalista, acostumados com investigações, os acontecimentos seriam mais fáceis de engolir. Não bastasse isso, alguns pontos do roteiro são ligados de forma mágica, como o local onde um jornalista guarda sua pesquisa sobre o grupo de justiceiros que caça Will. Isso e o fato de um dos personagens mostrar uma faceta obscura desnecessária no segundo ato azedam a experiência em acompanhar a trama de O Pacto.
Quanto a Nicolas Cage, a boa notícia é que ele está bastante contido em boa parte do filme. No início, o ator exagera um pouco para mostrar o quão é feliz com sua esposa. Depois, Cage incorpora um tom mais sério, preocupado, e passa até o final do filme carregando o mundo nas costas. Dos últimos trabalhos do ator, neste é o que ele menos inventa. Já Guy Pearce, com os cabelos raspados, não precisa de muito para soar ameaçador. Sua presença, sempre calma, não é o que transmite a periculosidade do seu personagem. É a sensação de que ele sempre está em volta, rondando, mesmo não sendo visto, que constrói uma atmosfera de perigo. Novamente retorno ao paralelo com o demônio, já que Simon (ou seu bando) parece estar em todos os lugares sempre.
Roger Donaldson consegue utilizar bem a cidade de Nova Orleans para a construção de alguns bons momentos no filme. O início, mostrando as festas características do lugar, e o desfecho, situado em um shopping abandonado pós-Katrina, justificam a escolha da cidade como sede das filmagens. Produções que utilizam Nova Orleans como cenário ajudam o local a se reerguer e Nicolas Cage parece ser um astro que tem consciência disso. É difícil saber quanta influência o ator possui neste ponto, já que ele não é produtor do projeto. Mas não deve ser coincidência que este seja o segundo trabalho do ator filmado por lá, depois de Vício Frenético.
Com uma trama que prende a atenção do espectador, mas que é esquecível tão logo as luzes do cinema acendem, O Pacto é apenas mais um thriller hollywoodiano, daqueles produzidos em série e que, não demoram, estão em cartaz no Supercine no sábado à noite. Não faz mal a ninguém, mas tampouco acrescenta.
O Pacto (Seeking Justice)
EUA – 105 minutos
Dir.: Roger Donaldson
Roteiro: Robert Tannen, sobre história de Tannen e Todd Hickey
Com Nicolas Cage, January Jones, Harold Perrineau, Jennifer Carpenter, Xander Berkeley e Guy Pearce
Cotação Paradoxo: Vale 68% do ingresso
Confira logo abaixo o trailer de O Pacto:
terça-feira, 13 de março de 2012
Billi Pig
Zorra
Logo depois de ter assistido a Billi Pig, fiz minha tradicional micro-crítica no micro-blog twitter dizendo que o longa-metragem de José Eduardo Belmonte tentava ser engraçado, mas, infelizmente, não conseguia. Pensando mais profundamente sobre o assunto e lembrando da experiência de ter assistido ao filme no cinema, em uma sala relativamente cheia em um domingo à tarde, devo me retratar. Apesar de EU não ter soltado uma risada sequer durante todo o filme, algumas pessoas dentro da sala riram. E não apenas uma vez. Várias. Dito isso, Billi Pig consegue, sim, fazer rir. Vai depender, como em quase toda a comédia, dos seus referenciais cômicos, do seu gosto pessoal. Para o meu, Billi Pig é uma das comédias mais fracas lançadas recentemente pelo cinema nacional. Um Zorra Total cinematográfico, mas com produção menos cuidadosa.
Com roteiro de Belmonte e Ronaldo D’Oxum, Billi Pig conta a história da aspirante a atriz Marivalda (Grazi Massafera, estreando no cinema), mulher que sonha com os holofotes e com os prêmios, mesmo que não possua talento algum para o trabalho. A moça carrega para todos os lados um porquinho cor de rosa chamado Billi, com quem ela conversa desde sua infância (que tem a voz de Massafera também). Em um de seus devaneios, o porco a convence de que seu marido, Wanderley (Selton Mello, de Reis e Ratos), um malandro dono de seguradora, não está a tratando da forma como deveria, com todo o luxo que ela merece. Ela, então, faz um ultimato ao esposo: luxo ou nada. Isso liga o alerta em Wanderley, que resolve fazer uma parceria com o padre trambiqueiro Roberval (Milton Gonçalves, de Segurança Nacional) para que ambos consigam arrancar dinheiro do perigoso, mas combalido Boca (Otávio Miller, de Reis e Ratos), que tem uma filha correndo risco de morte, em coma.
Foi notícia durante a divulgação de Billi Pig que a vontade do diretor José Eduardo Belmonte era fazer uma homenagem à chanchada, com personagens malandros e inconseqüentes, como nos velhos tempos. O comportamento dos personagens até pode lembrar alguma chanchada, mas o todo fica muito aquém das produções que faziam sucesso nos anos 50 no Brasil. Muito disso é culpa de um roteiro pouco inspirado, bagunçado, realizado pela dupla Belmonte e D’Oxum. Em primeiro lugar, o porquinho Billi tem pouquíssima relevância na trama e, toda vez que aparece, coloca lá embaixo a qualidade do filme. Sua voz, feita por Grazi Massafera, soa sempre fora de lugar, totalmente mal mixada. Parece, inclusive, que os realizadores se deram conta disso no momento da pós-produção e resolveram dar cabo do bicho. Ele simplesmente desaparece na metade do filme e só volta no final, de forma igualmente desnecessária.
Fosse só isso e Billi Pig ainda se salvaria. Mas como explicar a inclusão totalmente gratuita de dois atores que são completamente ilhados pelo próprio roteiro? Toda vez que Preta Gil e Milhem Cortaz aparecem, estão no mesmo cenário, conversando entre si sem fazer qualquer diferença na grande trama. Sua tênue ligação com o padre de Milton Gonçalves não justificaria a inclusão dos dois personagens no filme nem que fossem insanamente engraçados – o que não são. A total inabilidade de construir um núcleo que divirta é o calcanhar de Aquiles de Billi Pig.
O que é mais triste em toda esta história é ver Selton Mello, um dos atores brasileiros mais interessantes de sua geração, ter aceito fazer um papel tão aquém do seu talento. A performance de Selton Mello em Billi Pig é a prova de que até ótimos atores conseguem resultados medíocres quando mal dirigidos. Seu personagem parece estar sempre cansado, e esta falta de energia de Wanderley não conversa bem com o ritmo frenético que o diretor deseja empregar no longa-metragem. Como o texto não ajuda em nada, Selton Mello passeia pela tela de forma enfadonha. O mesmo poderia ser dito de Milton Gonçalves, que se sobressai apenas quando imita a forma peculiar de fala dos negros norte-americanos, em dois momentos inspirados. E é só.
Quanto a Grazi Massafera, é difícil decifrar seu trabalho. Ela interpreta uma atriz sem talento e convence totalmente no papel. Isso seria o resultado de uma boa performance ou um espelho da própria inabilidade? Fica a dúvida. A única certeza que ficamos ao final de Billi Pig é que tudo é tão sem graça que nem os erros de gravação durante os créditos conseguem fazer com que os espectadores desgostosos esbocem um sorriso. Assista apenas se você for um fã incondicional da Praça é Nossa.
Billi Pig
Brasil – 95 minutos
Dir.: José Eduardo Belmonte
Roteiro: José Eduardo Belmonte e Ronaldo D’Oxum
Com Selton Mello, Grazi Massafera, Milton Gonçalves, Otávio Miller, Preta Gil, Milhem Cortaz
Cotação Paradoxo: Vale 25% do ingresso
Confira logo abaixo o trailer de Billi Pig:
Logo depois de ter assistido a Billi Pig, fiz minha tradicional micro-crítica no micro-blog twitter dizendo que o longa-metragem de José Eduardo Belmonte tentava ser engraçado, mas, infelizmente, não conseguia. Pensando mais profundamente sobre o assunto e lembrando da experiência de ter assistido ao filme no cinema, em uma sala relativamente cheia em um domingo à tarde, devo me retratar. Apesar de EU não ter soltado uma risada sequer durante todo o filme, algumas pessoas dentro da sala riram. E não apenas uma vez. Várias. Dito isso, Billi Pig consegue, sim, fazer rir. Vai depender, como em quase toda a comédia, dos seus referenciais cômicos, do seu gosto pessoal. Para o meu, Billi Pig é uma das comédias mais fracas lançadas recentemente pelo cinema nacional. Um Zorra Total cinematográfico, mas com produção menos cuidadosa.
Com roteiro de Belmonte e Ronaldo D’Oxum, Billi Pig conta a história da aspirante a atriz Marivalda (Grazi Massafera, estreando no cinema), mulher que sonha com os holofotes e com os prêmios, mesmo que não possua talento algum para o trabalho. A moça carrega para todos os lados um porquinho cor de rosa chamado Billi, com quem ela conversa desde sua infância (que tem a voz de Massafera também). Em um de seus devaneios, o porco a convence de que seu marido, Wanderley (Selton Mello, de Reis e Ratos), um malandro dono de seguradora, não está a tratando da forma como deveria, com todo o luxo que ela merece. Ela, então, faz um ultimato ao esposo: luxo ou nada. Isso liga o alerta em Wanderley, que resolve fazer uma parceria com o padre trambiqueiro Roberval (Milton Gonçalves, de Segurança Nacional) para que ambos consigam arrancar dinheiro do perigoso, mas combalido Boca (Otávio Miller, de Reis e Ratos), que tem uma filha correndo risco de morte, em coma.
Foi notícia durante a divulgação de Billi Pig que a vontade do diretor José Eduardo Belmonte era fazer uma homenagem à chanchada, com personagens malandros e inconseqüentes, como nos velhos tempos. O comportamento dos personagens até pode lembrar alguma chanchada, mas o todo fica muito aquém das produções que faziam sucesso nos anos 50 no Brasil. Muito disso é culpa de um roteiro pouco inspirado, bagunçado, realizado pela dupla Belmonte e D’Oxum. Em primeiro lugar, o porquinho Billi tem pouquíssima relevância na trama e, toda vez que aparece, coloca lá embaixo a qualidade do filme. Sua voz, feita por Grazi Massafera, soa sempre fora de lugar, totalmente mal mixada. Parece, inclusive, que os realizadores se deram conta disso no momento da pós-produção e resolveram dar cabo do bicho. Ele simplesmente desaparece na metade do filme e só volta no final, de forma igualmente desnecessária.
Fosse só isso e Billi Pig ainda se salvaria. Mas como explicar a inclusão totalmente gratuita de dois atores que são completamente ilhados pelo próprio roteiro? Toda vez que Preta Gil e Milhem Cortaz aparecem, estão no mesmo cenário, conversando entre si sem fazer qualquer diferença na grande trama. Sua tênue ligação com o padre de Milton Gonçalves não justificaria a inclusão dos dois personagens no filme nem que fossem insanamente engraçados – o que não são. A total inabilidade de construir um núcleo que divirta é o calcanhar de Aquiles de Billi Pig.
O que é mais triste em toda esta história é ver Selton Mello, um dos atores brasileiros mais interessantes de sua geração, ter aceito fazer um papel tão aquém do seu talento. A performance de Selton Mello em Billi Pig é a prova de que até ótimos atores conseguem resultados medíocres quando mal dirigidos. Seu personagem parece estar sempre cansado, e esta falta de energia de Wanderley não conversa bem com o ritmo frenético que o diretor deseja empregar no longa-metragem. Como o texto não ajuda em nada, Selton Mello passeia pela tela de forma enfadonha. O mesmo poderia ser dito de Milton Gonçalves, que se sobressai apenas quando imita a forma peculiar de fala dos negros norte-americanos, em dois momentos inspirados. E é só.
Quanto a Grazi Massafera, é difícil decifrar seu trabalho. Ela interpreta uma atriz sem talento e convence totalmente no papel. Isso seria o resultado de uma boa performance ou um espelho da própria inabilidade? Fica a dúvida. A única certeza que ficamos ao final de Billi Pig é que tudo é tão sem graça que nem os erros de gravação durante os créditos conseguem fazer com que os espectadores desgostosos esbocem um sorriso. Assista apenas se você for um fã incondicional da Praça é Nossa.
Billi Pig
Brasil – 95 minutos
Dir.: José Eduardo Belmonte
Roteiro: José Eduardo Belmonte e Ronaldo D’Oxum
Com Selton Mello, Grazi Massafera, Milton Gonçalves, Otávio Miller, Preta Gil, Milhem Cortaz
Cotação Paradoxo: Vale 25% do ingresso
Confira logo abaixo o trailer de Billi Pig:
Assinar:
Postagens (Atom)



















.jpg)

