Mudo. Preto e Branco. Brilhante. O Artista foi o grande vencedor do Oscar, recebendo das mãos de Tom Cruise a estatueta dourada mais importante da noite, Melhor Filme. Foram cinco prêmios ao todo, incluindo Melhor Ator (Jean Dujardin), Diretor (Michel Hazanavicius), Figurino e Trilha Sonora. Com o mesmo número de vitórias, mas vencendo as categorias técnicas, A Invenção de Hugo Cabret ficou com os prêmios de Melhor Fotografia, Direção de Arte, Edição de Som, Mixagem de Som e Efeitos Visuais. Foi uma noite francesa. O Artista é uma produção daquele país e A Invenção de Hugo Cabret é ambientado na Paris dos anos 30. C’est Magnifique.
A noite começou com Morgan Freeman chamando o primeiro vídeo da festa – a tradicional paródia de Billy Crystal (foto ao lado) com filmes famosos do ano que passou. Foi ótimo ter Crystal de volta como apresentador do Oscar, mesmo que o material não tenha sido à altura do host. Muitas piadas fracas. Algumas, as que claramente Crystal estava criando na hora, tiveram melhor impacto – como, por exemplo, a piadinha com o presidente da Academia, Tom Sherak, que fez um discurso rápido e pouco inspirado: “Obrigado, Tom, por ter deixado a plateia extasiada”. Assistir Billy Crystal apresentando o Oscar é como voltar ao lar. O texto pode não ser uma maravilha, mas o ator compensa com sua simpatia. E isso faz toda a diferença. Como de praxe, Crystal fez uma canção brincando com os indicados e, posteriormente, leu os pensamentos dos atores na plateia, como fazia antigamente.
A primeira surpresa da noite foi a inversão da ordem dos prêmios. Tradicionalmente, a Academia inicia com ator ou atriz coadjuvante. Desta vez, o Oscar abriu com Melhor Fotografia – e com a segunda surpresa da noite – prêmio dado a Invenção de Hugo Cabret (o favorito era A Árvore da Vida). Tom Hanks apresentou este e o prêmio a seguir, Direção de Arte, também vencido pelo filme de Scorsese.
A seguir, foi a vez de duas beldades subirem ao palco: Jennifer Lopez e Cameron Diaz, entregando os prêmios de Figurino e Maquiagem. O Artista e A Dama de Ferro, respectivamente, receberam as estatuetas nestas categorias. O filme de Phyllida Lloyd, inclusive, conseguiria vencer as duas indicações que disputou, como veríamos mais tarde.
Sandra Bullock subiu ao palco, fez piadinha sem graça sobre falar outras línguas, e entregou o prêmio de Melhor Filme Estrangeiro. Uma das barbadas da noite acabou confirmando seu favoritismo: o ótimo A Separação, de Asghar Farhadi, do Irã. O diretor do filme subiu ao palco e agradeceu ao povo de seu país em um discurso pequeno, mas pungente.
O sexto prêmio da noite (que, segundo o roteiro, seria o primeiro) foi Atriz Coadjuvante, apresentado por Christian Bale, vencedor do ano passado por O Vencedor. Mais uma das favoritas acabou sendo confirmada: Octavia Spencer (foto ao lado) levou o Oscar por seu papel em Histórias Cruzadas. Emocionadíssima, a atriz teve de ser carregada para o palco, de tão nervosa. Aplaudida de pé por seus colegas, Spencer agradeceu: “Obrigado Academia, por me colocar junto do cara mais quente da noite”, referindo-se ao careca dourado, logicamente.
Logo depois, um pequeno esquete sobre os focus groups, plateias de teste bastante usadas em Hollywood para saber como a plateia provavelmente receberá um filme. Neste caso, um fictício grupo teste de O Mágico de Oz, com participação de Christopher Guest, Eugene Levy, Catherine O’Hara e Bob Balaban. Engraçadinho, mas esquecível.
Os prêmios seguintes, Melhor Montagem, Edição de Som e Mixagem de Som, foram apresentados por Tina Fey e Bradley Cooper. Em Montagem, uma das boas surpresas da noite: vitória de Millenium – Os Homens que não Amavam as Mulheres. Os vencedores, Kirk Baxter e Angus Wall, já haviam vencido em 2011, por A Rede Social. Nas categorias de som, sem surpresas, venceu A Invenção de Hugo Cabret.
Em um dos momentos mais bonitos do Oscar 2012, Caco e Miss Piggy chamam ao palco o Cirque du Soleil, em uma apresentação belíssima, como sempre se pode esperar do grupo. As acrobacias foram realizadas inspiradas em antigos filmes, em um dos poucos trechos realmente mágicos da noite.
O bloco mais engraçado viria na sequencia. Primeiro, Robert Downey Jr. e Gwyneth Paltrow repetem a boa química de Homem de Ferro e fazem cena para apresentar o prêmio de documentários, vencido por Undefeated. Depois, Chris Rock, em um texto inspirado falando sobre a facilidade em trabalhar como dublador em desenhos animados, entrega o prêmio de Melhor Animação para Rango. Gore Verbinski, durante seu discurso de agradecimento, ponderou se o seu filme era para crianças: “Só sei que trabalhei com adultos que agiam como tal”. Fechando o bloco divertido, Emma Stone e Ben Stiller parecem brincar com Anne Hathaway e James Franco, apresentadores do ano passado, misturando, respectivamente, alegria e letargia, na hora de chamar o prêmio de Efeitos Visuais, vencido por A Invenção de Hugo Cabret.
Melissa Leo chamou ao palco outro dos favoritos da noite, Christopher Plummer (foto ao lado), vencedor na categoria Melhor Ator Coadjuvante. Aplaudido de pé, Plummer fez um discurso terno, destacando a importância do prêmio e brincando com sua idade. “Você é apenas dois anos mais velha que eu. Onde estava por todo esse tempo, querida?”, disparou, conversando com a estatueta. Agradeceu a cada um dos seus parceiros concorrentes e lembrou, claro, o diretor de Toda Forma de Amor, Mike Mills, e seu filho no filme, Ewan McGregor. “Se eu tivesse alguma decência, dividiria este prêmio. Mas não tenho”, brincou. Por fim, agradeceu à mulher, que o salvou de seus vários problemas. Discurso dos mais bonitos da noite.
Na sequência, os prêmios musicais – sem música. A Academia escolheu não mostrar as canções durante a festa, um erro não justificável. Owen Wilson e Penelope Cruz apresentaram o prêmio de Trilha Sonora, enquanto Will Ferrel e Zack Galifianakis entregaram o de Canção, vencidos, respectivamente, por O Artista e Os Muppets. Não teve para o Brasil e essa morte era anunciada. Não é possível concorrer com a amada criação de Jim Henson.
Os prêmios de roteiro foram apresentados por uma belíssima, mas magérrima Angelina Jolie. Os Descendentes e Meia-Noite em Paris repetiram os prêmios do Sindicato de Roteiristas e levaram para casa as estatuetas por Melhor Roteiro Adaptado e Original. Woody Allen, obviamente, não compareceu na festa para buscar seu prêmio. Foi o primeiro Oscar do cineasta desde Hannah e Suas Irmãs, em 1987.
Sobrou para o elenco de Missão Madrinha de Casamento entregar os prêmios de curta-metragem – aqueles que poucos conseguimos ver, já que geralmente não chegam ao Brasil de forma alguma. The Shore foi escolhido Melhor Curta-Metragem, Saving Face foi o Melhor Documentário em curta e The Fantastic Flying Books of Mr. Morris Lessmore venceu como Melhor curta em Animação.
Depois disso, faltavam apenas os grandes prêmios da noite. Direção, Ator, Atriz e Melhor Filme. Michael Douglas foi o responsável por entregar a Michel Hazanavicius o Oscar de Melhor Diretor, por seu trabalho em O Artista. O cineasta esqueceu o discurso, mas lembrou de agradecer à sua equipe (inclusive o cãozinho Uggie) e ao cinema, como um todo.
Antes de chegarmos à cereja do bolo, Meryl Streep chamou o vídeo que mostra a entrega dos Oscar especiais, concedidos a James Earl Jones, Oprah Winfrey e Dick Smith. O bloco In Memoriam veio na sequência, com uma bela interpretação de ""What a Wonderful World" pela cantora Esperanza Spalding.
Como já tem sido comum nos prêmios da Academia, a revelação dos vencedores das categorias Melhor Ator e Atriz prestam uma homenagem a todos os concorrentes. Primeiramente, Natalie Portman subiu ao palco para entregar a estatueta ao francês Jean Dujardin (foto à esquerda) – que quebrou o protocolo ao encerrar seu discurso com palavras não muito polidas em sua língua mãe. Depois, foi a vez de Colin Firth entregar o tão demorado terceiro Oscar para Meryl Streep (foto à direito), por sua sublime interpretação em A Dama de Ferro. A atriz foi uma dama ao receber seu prêmio, brincando ao dizer que nunca mais subirá naquele palco outra vez, visto que demorou tanto tempo para vencer novamente.Fechando a noite, Tom Cruise entregou o merecido Oscar de Melhor Filme para O Artista. O longa-metragem mudo francês quebrou diversos paradigmas. É a primeira produção francesa a vencer o grande Oscar da noite. Também é o primeiro filme mudo a levar a estatueta principal desde Asas, vencedor do primeiro Oscar, em 1928. Uma noite inesquecível para os franceses, certamente. E para todos que curtem bons filmes. Os prêmios foram bem distribuídos, mesmo que a Academia não seja lembrada pela sua coerência. Como Melhor Filme não ganha Melhor Roteiro? É uma daquelas incoerências que só os votantes do Oscar fazem para você.
Maratona Oscar: Não foi o ano que bati o recorde de acertos, mas a média não caiu muito em relação aos anos anteriores. Acertei 14 de 20 categorias. Poderia ter acertado mais caso não tivesse mudado de última hora o voto em Efeitos Visuais e não tivesse tentado apostar contra a corrente em Martin Scorsese como diretor. Logo abaixo, você confere os vencedores e meus erros, em vermelho. Até a Maratona Oscar 2013.
Melhor Filme: O Artista
Melhor Direção: Michel Hazanavicius - O Artista
Melhor Ator: Jean Dujardin - O Artista
Melhor Atriz: Meryl Streep - A Dama de Ferro
Melhor Ator Coadjuvante: Christopher Plummer - Toda Forma de Amor
Melhor Atriz Coadjuvante: Octavia Spencer - Histórias Cruzadas
Melhor Roteiro original: Meia-Noite em Paris - Woody Allen
Melhor Roteiro adaptado: Os Descendentes - Alexander Payne, Nat Faxon, Jim Rash
Melhor Animação: Rango
Melhor Canção Original: “Man or Muppet” - Os Muppets - Música e Letra de Bret McKenzie
Melhor Trilha sonora: O Artista - Ludovic Bource
Melhores Efeitos visuais: A Invenção de Hugo Cabret
Melhor Edição de som: A Invenção de Hugo Cabret
Melhor Mixagem de som: A Invenção de Hugo Cabret
Melhor Direção de arte: A Invenção de Hugo Cabret - Dante Ferretti, Francesca Lo Schiavo
Melhor Fotografia: A Invenção de Hugo Cabret
Melhor Figurino: O Artista
Melhor Maquiagem: A Dama de Ferro
Melhor Edição: Millennium - Os Homens que Não Amavam as Mulheres
Melhor Filme estrangeiro: Irã - A Separação - Asghar Farhadi
Melhor Documentário longa metragem: Undefeated
Melhor Documentário curta metragem: Saving Face
Melhor Curta metragem de animação: The Fantastic Flying Books of Mr. Morris Lessmore - William Joyce and Brandon Oldenburg
Melhor Curta metragem: The Shore - Terry George and Oorlagh George



