Pagliacci
Continuando sua excursão pela Europa, depois de ter filmado em Londres, Barcelona e Paris, Woody Allen visita Roma para colocá-la como cenário de sua nova comédia. Intitulada primeiramente como Bop Decameron (com uma mudança posterior também descartada como Nero Fiddled), Para Roma com Amor é uma comédia dividida em quatro núcleos, cada um contando uma história distinta e nada relacionada com as demais. Irregular como filmes episódicos costumam ser, o novo longa-metragem escrito e dirigido por Woody Allen tem no próprio – atacando novamente como ator – um de seus principais destaques.
No filme, acompanhamos quatro histórias ambientadas em Roma. Em uma delas, Alec Baldwin (do seriado 30 Rock) retorna ao local onde morava quando jovem e encontra uma espécie de versão de si mesmo, interpretado por Jesse Eisenberg (de A Rede Social), que está às voltas com um romance com a melhor amiga de sua namorada. Em outra, Woody Allen é o pai de uma americana prestes a casar com um advogado italiano. Ao conhecer os pais do noivo, Woody se depara com um diamante bruto no mundo musical. Na terceira trama, um casal do interior está passando alguns dias em Roma, mas uma série de desencontros faz com que o rapaz esbarre com uma bela prostituta enquanto sua esposa conhece o ator de seus sonhos. Por fim, Roberto Benigni (de A Vida é Bela) vive um sujeito comum que, do dia para a noite, vira uma celebridade conhecidíssima, sem nenhum motivo aparente.
Diferente de Tudo o que você sempre quis saber sobre Sexo e Tinha Medo de Perguntar, filme em episódios que Woody Allen dirigiu em 1972, no qual os sete curtas-metragens eram histórias fechadas, que não se costuravam de forma alguma, em Para Roma com Amor o cineasta decidiu mostrar as quatro tramas de forma paralela. Isso não chega a ser novidade, visto que muitos fazem o mesmo. No entanto, as histórias acabam perdendo a força com o passar do tempo. Talvez fossem melhor contadas como quatro curtas fechados. Desta forma, ao menos, a narrativa não esqueceria de alguns segmentos no meio do caminho. Do segundo para o terceiro ato, por exemplo, o núcleo de Allen mal aparece. Em compensação, o de Benigni ganha um destaque que não faz sentido, por ser uma história que não se sustenta por muito tempo. Existe ali uma boa piada, que é esticada até seu esgotamento, perdendo muito a força. Isso sem mencionar o personagem que explica a moral da história em seu desfecho, no caso, o motorista de Benigni, que soletra para o espectador o que vimos até então. Naquele momento, Woody Allen menospreza o seu público, o que é uma lástima. Ainda que seja uma interessante crítica sobre a forma cretina como as celebridades são criadas e como a fama é algo efêmero, a história centrada em Benigni simplesmente não se sustenta até o final.
Os segmentos mais interessantes são os centrados no personagem de Allen, hilário como um ex-produtor musical que se encanta pelos talentos vocais do sogro da filha, e de Baldwin, que serve como consciência de uma história que, nunca fica claro, espelha seu passado na Itália. Na trama do produtor musical, o cineasta parece revisitar um de seus antigos personagens, Danny Rose, do ótimo Broadway Danny Rose, um sujeito que agenciava os mais bizarros números artísticos possíveis. Fosse sua parceira ainda Mia Farrow, não duvidaria na possibilidade de um revival daquele “casal”. Já no trecho de Baldwin, o diretor revisita alguns pontos de Igual a Tudo na Vida, principalmente a futilidade e pseudo-intelectualidade da personagem de Christina Ricci, aqui vivida por Ellen Page (de Juno). Apesar do gosto de déjà vu neste quesito, outro ponto faz toda a diferença: o interessante recurso narrativo utilizado por Allen, que transforma o que seria o protagonista do segmento em um fantasma, uma espécie de consciência ambulante, vivida de forma divertida por Alec Baldwin.
O elenco, como um todo, está muito bem e as piadas de Woody Allen continuam afiadas como sempre. O diretor acabou guardando para si o melhor material, não sendo necessário nenhuma discussão para apontá-lo como o destaque do filme. Penélope Cruz convence como uma italiana fogosa e Alec Baldwin e Judy Davis são retornos bemvindos na filmografia do diretor. O ator já havia trabalhado com Woody Allen em Setembro, e Davis em Maridos e Esposas, Celebridades, entre outros.
Sabiamente utilizando talentos italianos para protagonizar metade de seu filme, o cineasta novaiorquino está virando expert em saber como aproveitar ao máximo as facilidades de se filmar longe de casa. Com uma montagem menos aleatória, Para Roma com Amor poderia ter um resultado melhor. Ao menos não chega a ser uma decepção como Você vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos, divertindo em alguns momentos.
Para Roma com Amor (To Rome with Love)
EUA/Itália/Espanha – 107 minutos – Comédia
Direção e Roteiro: Woody Allen
Com Woody Allen, Alec Baldwin, Roberto Benigni, Penélope Cruz, Judy Davis, Jesse Eisenberg, Greta Gerwig, Ellen Page, Alison Pill
Cotação Paradoxo: Vale 78% do ingresso
Confira logo abaixo o trailer de Para Roma com Amor:


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