sexta-feira, 1 de junho de 2012

Flores do Oriente

Memórias de Putas Tristes

Em uma daquelas curiosidades interessantes de bastidores, Zhang Yimou procurava um ator norte-americano para protagonizar seu novo longa-metragem, Flores do Oriente, sem muito sucesso. Quem veio ao seu socorro foi Steven Spielberg, que não teve dúvidas: sugeriu Christian Bale para o papel do americano que se envolve emocionalmente e heroicamente na trajetória daquelas “flores da guerra”, como o título original destaca. A ironia neste caso é o fato de Bale ter estrelado O Império do Sol, longa-metragem dirigido por Spielberg e que era ambientado exatamente no mesmo período em que se passa esta produção chinesa. Baseado em fatos reais, o roteiro tem assinatura de Heng Liu, baseado no romance de Geling Yan.

O ano é 1937. A guerra entre Japão e China está a pleno, com os soldados nipônicos invadindo territórios chineses com violência. Nanquim é um local tomado quase em sua totalidade, com alguns corajosos soldados ainda resistindo à força do exército inimigo. Em meio a este cenário, surge o norte-americano John Miller (Bale), que foi contratado para enterrar o padre do vilarejo. Ao chegar lá, percebe que, não só o corpo do padre já foi levado, como os estudantes do convento não tinha intenção alguma em pagá-lo pelo serviço. Para piorar, as jovens garotas e o menino George (o estreante Tianyuan Huang) precisam da ajuda daquele homem para fazer funcionar um velho caminhão, uma das poucas esperanças do grupo. Quando prostitutas, sem muita opção, escolhem aquele convento como refúgio, logo uma cizânia se dá no local. Os perigos de fora acabam obrigando estes dois grupos tão diferentes a conviverem no mesmo ambiente. John se interessa pela bela Yu Mo (Ni Ni), que promete atender a todos seus desejos caso ele consiga tirar ela e suas amigas de Nanquim. Mas, talvez, esta não seja a real missão de John Miller.

O chinês Zhang Yimou é conhecido pelo seu apuro visual em filmes como O Clã das Adagas Voadoras, Herói e A Maldição da Flor Dourada. Portanto, em meio ao cinza da guerra, o conhecido colorido do cineasta ainda consegue dar as caras. Seja em vitrais explodindo em câmera lenta; seja nos belos vestidos das prostitutas capitaneadas por Yu Mo; seja no vermelho do sangue que jorra em algumas cenas gráficas de violência inclusas no longa-metragem. Apesar de conseguir manter este seu lado policromático, Yimou não economiza no cinza dos combates. Em algumas cenas, o fog do campo de batalha é a única imagem a ser observada, com os soldados escondidos em escombros, lutando pela sua vida, tentando salvar seu povo. A guerra é sempre feia, suja. Mas Yimou consegue, de alguma forma, manter uma beleza plástica neste seu trabalho.

Por ser uma produção chinesa, o protagonista norte-americano encarnado por Christian Bale não surge como um herói convencional, das produções de Hollywood. Apresentando características repreensíveis como alcoolismo, e tentando tirar dinheiro de um bando de crianças em meio a uma guerra, John Miller não é o exemplo do sujeito boa praça, acima do bem e do mal. Pelo contrário. Até surge como um bobalhão perto das sedutoras mulheres chinesas, tentando descolar um programa em meio a uma situação completamente desfavorável. No decorrer da história, no entanto, Miller começa a perceber o seu real valor. A paixão que nutre por Yu Mo é uma das razões desta mudança, assim como o sentimento de responsabilidade para com aquelas crianças, enclausuradas naquela igreja. Bale tem atuação convincente tanto nos momentos heroicos quanto nas cenas em que Miller é um arremedo de homem.

A salvação da inocência é um tema forte de As Flores do Oriente. Vemos, em dado momento, os soldados japoneses tentando se aproveitar sexualmente das crianças do convento, sendo impedidos por John Miller, vestido como padre. As prostitutas que ali estavam conseguem se identificar com o abuso e concebem um plano ousado para ajudar aquele grupo. Miller finalmente encontra proveito para sua habilidade e revela um segredo do passado que também conversa com o tema da perda da inocência, explicando muito as suas ações.

Apresentando novamente o apuro visual de Zhang Yimou, Flores do Oriente é um interessante retrato da guerra Sino-japonesa, valendo muito pelas boas atuações e história marcante. O filme só perde força por ser longo demais. É verdade que, desta forma, temos tempo para conhecer cada um dos personagens e nos importarmos com suas trajetórias. No entanto, um pouco de economia narrativa não faria mal algum para o longa-metragem. Deixaria-o mais coeso, inclusive.

Flores do Oriente (Jin líng shí san chai)
China / Hong Kong – 146 minutos – Drama
Dir.: Zhang Yimou
Roteiro: Heng Liu, baseado em romance de Geling Yan
Com Christian Bale, Ni Ni, Xinyi Zhang, Tong Dawei, Tianyuan Huang
Cotação Paradoxo: Vale 79% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de Flores do Oriente:

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