Máscaras
Poucos diretores são hábeis em confinar seu elenco em um ambiente único, conseguindo manter a atenção dos espectadores durante toda a narrativa. Talvez o exemplo mais clássico seja Festim Diabólico, de Alfred Hitchcock, longa-metragem filmado em grandes planos-sequência, com o diretor mantendo seu elenco exclusivamente em um apartamento espaçoso, contando sua história naquele local. Roman Polanski é um cineasta que pode se dar ao luxo de tentar esquema semelhante. Não se prendendo à forma como Hitchcock, mas preservando seu elenco dentro de um apartamento, o diretor coloca dois casais em rota de colisão no ótimo Deus da Carnificina, um trabalho que se fia no elenco talentoso e nas frases contundentes para passar sua mensagem.
O roteiro é assinado por Polanski ao lado de Yasmina Reza, autora da peça original, Le Dieu du Carnage. Na trama, Penelope (Jodie Foster, de Um Novo Despertar) e Michael Longstreet (John C. Reilly, de Precisamos falar sobre o Kevin) convidam Nancy (Kate Winslet, de Contágio) e Alan Cowan (Christoph Waltz, de Os Três Mosqueteiros) para o seu apartamento, a fim de acertarem os ponteiros após o filho dos Cowan, de apenas 11 anos, ter agredido o seu filho. O encontro, em um primeiro momento bastante cordial, ainda que um tanto tenso, começa a virar um pesadelo quando as máscaras destas quatro pessoas começam a cair com o passar dos minutos daquela tarde.
Um texto interessante sobre a hipocrisia humana, Deus da Carnificina mostra como é possível conhecer o lado mais feio do seu "vizinho" ao passar um tempo minúsculo pisando nos calos de um e outro. Com toque finíssimo de humor negro, o longa-metragem de Polanski faz rir ao exagerar nas tintas, transformando um encontro de pretensos pais civilizados em um arranca-rabo em que nem os casais conseguem ficar do mesmo lado. Todas as características que irritam o outro acabam se maximizando naquela tarde, fazendo daquela sala um campo de batalha onde as armas são as palavras.
Com um elenco maiúsculo como este, Roman Polanski não tem problema algum em construir sua trama. Christoph Waltz é destaque ao dar vida a um advogado egocêntrico e pedante, que não vê problema algum em atender o celular dezenas de vezes durante uma conversa séria. Sua petulância em relação a mulher e ao casal dono da casa faz rir, assim como a frágil cordialidade que a personagem de Jodie Foster tenta transmitir em seus atos. Tendo convidado os Cowan em sua casa, Penelope queria um pedido de desculpas da criança, por ter "desfigurado" seu filho, e sua forma de educar a criança - aos seus olhos - é um exemplo que Alan e Nancy deveriam seguir. Ao se sentir acuada pelos comentários frios do advogado, Penelope vai perdendo a compostura com o passar do tempo, até descambar para a hostilidade aberta (maximizada com a bebida alcóolica servida).
Enquanto isso, nervosa, Nancy passa mal com toda a situação e comete uma gafe tremenda, que só acaba irritando ainda mais Penelope. É inclusive este evento que engatilha a animosidade aberta. O vômito de Nancy acaba sendo uma prévia de toda a sujeira e de todas as barbaridades que saem da boca dos quatro personagens centrais. Michael, por sua vez, tenta apaziguar a situação até onde pode, mas os ânimos exaltados e seu orgulho ferido o impedem de continaur seguindo naquele teatro cortês.
Teatro. É exatamente isso que assistimos durante os primeiros minutos de Deus da Carnificina. Aquelas quatro pessoas tentam viver seus papéis de pais preocupados, maridos e esposas perfeitos, pessoas compreensíveis. Mas logo que surge algo problemático no caminho, as atuações são substituidas pelas piores versões - ou seriam as verdadeiras versões? - daqueles dois casais. É tremendamente interessante observar a queda da máscara de cada um, em um trabalho impecável tanto do roteiro quanto da direção firme de Roman Polanski.
O único momento menos inspirado surge no terceiro ato, quando a bebida começa a falar mais alto e Jodie Foster se perde no exagero. Tirando isso, Deus da Carnificina é mais um trabalho incrível de Roman Polanski, uma ótima sátira sobre as relações humanas e uma crítica contundente à hipocrisia da vida adulta. Bravo.
Deus da Carnificina (Carnage)
França / Alemanha / Polônia / Espanha - 80 minutos - Drama
Direção: Roman Polanski
Roteiro: Roman Polanski e Yasmina Reza, baseada na peça "Le Dieu du Carnage"
Com Jodie Foster, Kate Winslet, Christoph Waltz, John C. Reilly
Cotação Paradoxo: Vale 98% do ingresso
Confira logo abaixo o trailer de Deus da Carnificina:

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