The Fairest of them All
Cogitei copiar e colar o primeiro parágrafo de minha crítica sobre Espelho, Espelho Meu para iniciar este texto sobre Branca de Neve e o Caçador. Partindo do princípio que Hollywood não foi nada original em lançar dois filmes com a mesma personagem em um espaço de tempo curtíssimo, porque não seguir o exemplo? Apesar de serem produções completamente diferentes entre si em tom, existe um tronco comum que é indiscutivelmente repetitivo para o grande público. Para os fãs do conto dos Irmãos Grimm, a boa notícia é que Branca de Neve e o Caçador consegue convencer mais como aventura do que Espelho, Espelho Meu convencia como comédia. E isso já é um bom sinal, por si só.
Com roteiro de John Lee Hancock (de Um Sonho Possível), Hossein Amini (de Drive) e o estreante Evan Daugherty, o longa-metragem dirigido pelo cineasta de primeira viagem Rupert Sanders tenta fazer uma mistura entre Senhor dos Anéis e a versão timburtoniana de Alice no País das Maravilhas, utilizando os personagens do clássico conto de fadas Branca de Neve e os Sete Anões.
Aqui, Ravenna (Charlize Theron, de Jovens Adultos) é uma maquiavélica feiticeira que tem o poder de rejuvenescer ao sugar energia humana. Com sua beleza, ela encanta o viúvo rei Magnus (Noah Huntley, de Sua Alteza?), que a salva de um estranho exército de vidro. O casamento entre os dois é marcado para o dia seguinte e, logo na noite de núpcias, Ravenna revela seus planos, matando o rei e ficando com o reino para si. Branca de Neve, filha do monarca, é presa na masmorra e permanece lá por anos a fio, até atingir a idade adulta (Kristen Stewart, de A Saga Crepúsculo: Amanhecer). Quando a rainha malvada consulta seu espelho mágico e descobre que o coração de sua enteada pode fazê-la jovem para sempre, ela ordena sua morte instantânea. Frustrando seus planos, Branca de Neve consegue fugir, se embrenhando na floresta negra, local que poucos se arriscam a visitar e onde Ravenna não possui poderes. Para apanhá-la, a rainha ordena que o caçador Eric (Chris Hemsworth, de Os Vingadores) faça o serviço. Mas uma amizade entre caça e caçador surge em meio à floresta, bem como uma parceria improvável com oito anões que lá vivem.
Esqueça o desenho animado clássico da Disney e sua visão açucarada da história, ou a versão do diretor indiano Tarsem Singh, Espelho, Espelho Meu, voltada para a comédia. Branca de Neve e o Caçador é uma encarnação mais sombria da história dos Irmãos Grimm. A madrasta malvada mata, a sangue frio, seu marido; come órgãos internos crus de animais; deseja a juventude perdida e a rouba de outras mulheres; e não vê problema algum em matar sua enteada que, há anos, está presa nas masmorras do castelo. Charlize Theron mergulha na persona exagerada da vilã, parecendo possuída por um espírito ruim, enunciando suas frases de forma altiva, sempre de nariz empinado. Não chega a ser uma atuação memorável, mas não macula seu bom currículo.
Kristen Stewart, felizmente, abandona os cacoetes de Bella Swan da Saga Crepúsculo e precisa se virar com uma heroína um tanto genérica. Presa desde a infância no castelo, Branca de Neve consegue finalmente fugir, mas nem tem tempo para se surpreender com o mundo lá fora. Logo conhece o Caçador, com quem aprende UMA lição sobre defesa pessoal, e, minutos depois, já se vê às voltas dos oito anões e de planos para destronar a rainha. Tudo acontece tão rápido que Stewart mal tem tempo de respirar, quanto mais de criar uma personagem mais impactante. Pelo menos, a Branca de Neve desta aventura é menos submissa que as encarnações anteriores, muito mais ativa e voluntariosa.
Quanto ao caçador, Chris Hemsworth não ganha mais tempo que seus colegas, porém tem mais material para trabalhar. O fato de o personagem sofrer por ter enviuvado recentemente traz algum peso para a construção daquele homem. A madrasta malvada apenas o convence de caçar Branca de Neve fazendo um pacto funesto com Eric, lhe prometendo trazer de volta sua esposa do mundo dos mortos. Mal ele sabe que a magia da feiticeira não chega a tamanho poder. O papel estendido do caçador nesta aventura acaba não sendo exatamente o que esperávamos – visto que diversas sinopses apontavam que ele seria responsável pelo treinamento de Branca de Neve, fato que não acontece – mas a boa performance de Hemsworth e a utilização do caçador na batalha final acabam por justificar sua presença.
Uma questão que gerou certa polêmica foi a inclusão de um anão a mais na clássica história. Desnecessário, porém utilizado com esperteza pelo roteiro, que resolveu a questão de forma dramática. Com um elenco invejável de bons atores, todos encolhidos no melhor estilo Senhor dos Anéis, os companheiros de Branca de Neve ganham pouco o que fazer, mas poderiam facilmente ser melhor explorados em uma possível continuação. Com nomes descaradamente emprestados da Terra Média de Tolkien, como Muir, Coll, Duir e Nion, os anões são encarnados por um elenco estelar encabeçado por Ian McShane (de Piratas do Caribe: Navegando em Águas Misteriosas), Bob Hoskins (de Hollywoodland), Ray Winstone (de A Invenção de Hugo Cabret), Nick Frost (de Paul: O Fugitivo), Eddie Marsan (de Sherlock Holmes: Jogo de Sombras) e Toby Jones (de Jogos Vorazes). Se fossem melhor utilizados pelo roteiro, seriam imbatíveis.
Além de colocar o caçador como um dos protagonistas, os roteiristas de Branca de Neve e o Caçador se afastam de vários momentos que conhecemos como clássicos do conto. A maçã envenada, por exemplo, não é entregue por uma versão idosa da madrasta – ainda que esta encarnação envelhecida apareça, de forma bastante convincente. O príncipe encantado tem mais o que fazer na história – mas não muito mais, na verdade, servindo mais como um dos vértices de um triângulo amoroso desnecessário. E a “ressurreição” de Branca de Neve ganha tons messiânicos, como fosse um Jesus de saias.
Com bom andamento e cenas com efeitos especiais caprichados, Branca de Neve e o Caçador entretém o suficiente, dando uma bem-vinda repaginada no clássico dos Irmãos Grimm. Com os bons números de bilheteria, não ficaria surpreso se uma continuação surgisse no horizonte. O trabalho seria maior para os roteiristas, tendo de criar uma história praticamente do zero. Desta vez, pelo menos, a concorrência não incomodaria, visto que Espelho, Espelho Meu tem chances nulas de ganhar uma sequência. Por que será?
Branca de Neve e o Caçador (Snow White and the Huntsman)
EUA – 127 minutos – Aventura
Dir.: Rupert Sanders
Roteiro: John Lee Hancock, Hossein Amini e Evan Daugherty, baseado no conto dos irmãos Grimm
Com Kristen Stewart, Charlize Theron, Chris Hemsworth, Ian McShane, Bob Hoskins, Ray Winstone, Nick Frost, Eddie Marsan, Toby Jones, Sam Claflin, Sam Spruell
Cotação Paradoxo: Vale 76% do ingresso
Confira logo abaixo o trailer de Branca de Neve e o Caçador:



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