terça-feira, 26 de junho de 2012

Blade Runner - O Caçador de Androides

Replicantes

Devo confessar que demorei a engrossar a lista de pessoas que apontam Blade Runner – O Caçador de Androides como um bom filme. Meu primeiro contato com o cult movie de Ridley Scott aconteceu no começo da década passada, quando assisti a uma gasta fita VHS da Versão de Diretor, lançada em 1992. A qualidade da imagem era tenebrosa e a recepção do filme foi prejudicada. Anos depois, com a versão de três discos lançada pela Warner em DVD, tive oportunidade de dar uma nova chance ao longa-metragem. E que diferença. A edição brasileira, inclusive, tem menos discos que a estrangeira, mas ainda é ótima para quem gosta de observar todo o processo referente a uma produção de cinema. Além de incluir um documentário com mais de três horas de duração, o DVD conta com quatro versões – ou cortes - diferentes de Blade Runner.

Falarei aqui do corte original, lançado em 1982, e que acaba de completar 30 anos, com a horrenda narração de Harrison Ford. Para quem estava em outro planeta e não conhece (ou não lembra), Blade Runner é uma ficção científica assinada por Hampton Fancher e David Peoples, baseada nos escritos de Philip K. Dick, com Harrison Ford, o eterno Indiana Jones, no papel de Rick Deckard, o blade runner do título.

Em 2019, o mundo é bem diferente de como o conhecemos: as cidades são superpopulosas e sujas, a poluição visual e sonora é berrante e o linguajar da população é incompreensível. Ok, não é tão diferente do mundo como conhecemos. O que de realmente inusitado temos na Los Angeles de 2019 são os carros voadores, o clima gótico e, claro, os replicantes – androides criados a nossa semelhança para trabalhar em colônias fora do nosso planeta. Para evitar que estes fujam do controle, existe um limite curto de vida para eles. No entanto, mesmo com todos os procedimentos de segurança, nem sempre é possível evitar um motim e o trabalho dos blade runners é caçar – ou retirar – do nosso convívio quaisquer destes replicantes perigosos. E é isso que Deckard precisa fazer. Roy Beatty (Rutger Hauer) e seus três parceiros robóticos estão no planeta Terra à procura de uma forma de prolongar sua vida. Deckard precisa eliminá-los enquanto repensa sua existência, ao se apaixonar por Rachael (Sean Young), uma replicante que desconhecia sua condição.

A versão lançada em 1982 difere em vários aspectos do chamado Director’s Cut lançado dez anos depois. Em primeiro lugar, conta com uma narração muito ruim feita por Harrison Ford. Sabe-se que o ator estava descontente por ter de fazer um voice over. Mas o que surpreende, além da falta de qualidade do texto, é o amadorismo. Não só do jeito de narrar de Ford como na forma de encaixá-lo dentro do filme. Em outras palavras, um artifício canhestro para passar idéias que se pensavam importantes para a trama. Não é a toa que Ford estava descontente, já que é uma narração expositiva e totalmente dispensável. O final feliz e idílico é outra diferença que tira um pouco o brilho de Blade Runner, mas é interessante assisti-lo em comparação ao que acabou virando a versão definitiva.

Apesar de ser um péssimo narrador, Harrison Ford é um ótimo Rick Deckard. Seu cinismo aparente e seu jeito rude de tratar assuntos mais sentimentais ficaram marcados em sua performance. Ridley Scott foi muito inteligente em deixar aberta a possibilidade do caçador de androides ser, na realidade, também um replicante. Além de aguçar a curiosidade do espectador, cria uma aura de mistério na performance de Ford – mesmo que o ator sempre tenha afirmado que não interpretou um androide no filme.

Outro destaque de Blade Runner é Rutger Hauer e seu Roy Batty. Longe de ser um vilão unidimensional, Hauer acrescenta muitas camadas ao seu personagem. Ele deseja apenas viver e, para isso, tenta de qualquer forma chegar ao seu intento. É a interpretação da vida de Rutger Hauer, que não teria muita sorte com outros papéis no futuro.

A direção de arte de Blade Runner é um exemplo para produções que desejam retratar um futuro sombrio, com a utilização do neon e de uma arquitetura gótica para construir os ambientes em que vivem a população em 2019. Mesmo não acertando muita coisa do futuro, é uma interessante visão oitentista de como estaríamos vivendo no século XXI. A fotografia caprichada ressalta as cores expressionistas dos cenários e dos figurinos. Por fim, as intervenções das músicas do Vangelis são muito bemvindas no resultado final – mesmo que sejam um tanto datadas nos dias de hoje.

Tudo isso passa pelo olhar apurado de Ridley Scott, que tinha acabado de assinar um ótimo terror sci-fi, Alien – O Oitavo Passageiro, e passou direto para uma ficção científica existencialista, sombria e com um ótimo roteiro. Com o aniversário de 30 anos do lançamento, a data é mais do que propícia para conferir novamente este belo trabalho do cineasta britânico – ou, se for o caso, ter o primeiro contato com Rick Deckard e os replicantes. Basta escolher uma das quatro versões lançadas e mergulhar naquele universo criado por Philip K. Dick.

Blade Runner – O Caçador de Androides (Blade Runner)
EUA – 117 min – Ficção Científica – 1982
Dir.: Ridley Scott
Roteiro: Hampton Fancher e David Peoples, baseado na obra Do Androids Dream of Electric Sheep? de Philip K. Dick
Com Harrison Ford, Rutger Hauer, Sean Young, Edward James Olmos, M. Emmet Walsh, Daryl Hannah
Cotação Paradoxo: Vale 90% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de Blade Runner:

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