Salmão Possível
É bem verdade que “Pesca de Salmão no Iêmen” seria um título, no mínimo, pouco mercadológico para uma comédia romântica. Por outro lado, fala muito sobre o que veremos no longa-metragem em questão – por mais que a premissa seja um tanto absurda. A alternativa nacional, intitulando o novo trabalho de Lasse Hallström (de Para Sempre ao Seu Lado) de Amor Impossível é, além de lugar-comum, muito mentirosa. Isso porque, em primeira análise, o tal amor que seria impossível entre o casal principal está longe de sê-lo. O destino, inclusive, ajuda muito para que as peças encaixem para os protagonistas. Em segundo lugar, mesmo que esta impossibilidade do título remeta à paixão do Sheik pela pesca de salmões, ela também não se mostra tão problemática quanto poderia. Para os apreciadores de comédias românticas, a boa notícia é que a lambança do título em português (ou a falta de tino comercial do original) não reflete o que assistimos na tela grande. Se nunca é brilhante, Amor Impossível é, ao menos, um filme simpático, com boas atuações de sua dupla principal. Nada mais, nada menos.
Com roteiro de Simon Beaufoy (do premiado Quem Quer ser um Milionário?), baseado no romance de Paul Torday, Amor Impossível parte de um ponto de partida um tanto esquisito. Um rico sheik do Iêmen (Amr Waked) sonha em poder pescar salmões no seu povoado. O problema é que as condições climáticas do local não são favoráveis para a criação dos peixes, fato que coloca o doutor Alfred Jones (Ewan Gregor), especialista em pescaria de salmões do governo britânico (sim, eles têm isso lá, aparentemente), em contato com o Sheik. É do interesse do gabinete do Primeiro Ministro que a Inglaterra e o Iêmen tenham relações cordiais e a porta-voz do manda-chuva britânico, a arrogante Patricia Maxwell (Kristin Scott Thomas) empurra a incumbência para Jones, esperando resultados positivos. À contra gosto, o doutor tenta fazer com que a ideia amalucada aconteça, trabalhando lado a lado com a assistente do Sheik, a bela Harriet Chetwode-Talbot (Emily Blunt) que, por sua vez, está preocupada com o destino do namorado, chamado para guerrear no Afeganistão – ou algo que o valha.
Adorável como sempre, Emily Blunt faz bem o papel da namoradinha apaixonante que tanto assistimos em comédias românticas. Parecendo genuinamente preocupada com um rapaz que conheceu há apenas três semanas e que foi dado como perdido em linhas inimigas, Harriet é uma mulher obstinada, otimista e inteligente, que faz uma boa dobradinha com o certinho doutor Alfred Jones, um homem que sofre com a síndrome de Asperger e que encontra na moça um novo amor. Imagino que no livro a doença de Jones seja melhor explorada, já que um espectador menos atento talvez nem perceba que ele possua esta síndrome, devido ao pouco destaque dado a esta condição. Aliás, até que dissessem com todas as palavras sobre o Asperger, imaginava que o dr. Jones era apenas um sujeito metódico. Se não inteiramente convincente, McGregor ao menos não precisa esconder seu sotaque escocês neste filme, até o exagerando, talvez, em alguns momentos. A química com Emily Blunt existe, mas nem tanto como um amor arrebatador. Mais como uma amizade forte que vai crescendo com o tempo, virando um sentimento maior.
Lasse Hallström é um especialista neste tipo de filme mais tenro e só se perde quando tenta incluir números cômicos dentro da história. Kristin Scott Thomas, por exemplo, está ótima, mas parece estar em outro filme. Mesmo que suas cenas sejam espirituosas e as curiosas mensagens pela internet com o Primeiro Ministro tenham sua graça, sempre que a personagem surge, o longa-metragem vira outra coisa. Um filme solo com a assessora de imprensa poderia ser ótimo. Mas não disputando lugar com a história principal de Amor Impossível.
Lógico que a pesca de salmão do Sheik é apenas uma metáfora para a superação de adversidades, um exemplo de como podemos alcançar o impensável bastando querer e agir. Não muito diferente de um livro auto-ajuda, sendo mais um ponto fraco do filme. Ao menos, o Sheik é retratado como uma figura interessante, íntegra, e não um estereótipo ambulante de personagens orientais como vemos em filmes deste lado do globo.
Longe de ser o melhor filme de Hallström ou o roteiro mais inspirado de Beaufoy, Amor Impossível é simpático o suficiente para uma conferida – principalmente em DVD, no aconchego do lar, sem muitas expectativas. Só não acredite que existe algo de impossível neste “Pesca de Salmão no Iêmen”, ok?
Amor Impossível (Salmon Fishing in the Yemen)
Reino Unido – 107 minutos – Comédia Romântica
Dir.: Lasse Hallström
Roteiro: Simon Beaufoy, baseado em romance de Paul Torday
Com Ewan McGregor, Emily Blunt, Kristin Scott Thomas, Amr Waked
Cotação Paradoxo: Vale 65% do ingresso

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