Depois do Anoitecer
Vencedor do Goya de melhor filme estrangeiro em língua espanhola, A Vida dos Peixes é uma produção chilena que tem no diálogo sua principal arma. Drama intimista, ambientado em apenas um cenário – uma casa grande, cheia de quartos, onde o protagonista passeia – o longa-metragem dirigido por Matías Bize (de Na Cama) parece uma mistura do cinema mais independente, estilo John Cassavetes, com os dramas românticos de Richard Linklater, Antes do Amanhecer e Antes do Pôr-do-Sol. Com boas atuações e trama que vai se desvelando de forma muito interessante, A Vida dos Peixes é um trabalho digno de nota.
Na trama, assinada por Bize e seu habitual parceiro Julio Rojas, Andrés (Santiago Cabrera, do seriado Heroes) retorna ao Chile depois de muitos anos vivendo em Berlim para visitar os amigos. O encontramos durante a festa de aniversário de um amigo de infância, local onde se passa todo o filme, no momento em que ele já está se despedindo. Sua viagem de volta para a Alemanha está marcada para o dia posterior, apesar de não parecer este o real motivo da pressa de Andrés em ir embora. Nesta festa, sua ex-namorada Beatriz (Blanca Lewin, de New Brooklyn) deve comparecer e um reencontro pode colocar à tona sentimentos enterrados no passado.
O roteiro é hábil em manter o interesse do espectador sempre aceso, principalmente por liberar informações do passado dos personagens a conta gotas. Vamos conhecendo a trama e o drama de Andrés aos poucos, através de diálogos que nunca soam expositivos. Ele vai percorrendo a casa do amigo, mesmo tendo dito que iria embora logo, e trava diálogos que nos revelam o que aconteceu com ele. Desde conversas prosaicas com dois meninos curiosos, passando por uma desconfortável paquera com a irmã mais nova de um amigo, até os encontros cheios de significado com sua ex. O filme acontece praticamente em tempo real, sempre acompanhando Andrés. Em um primeiro momento, acreditamos que fatos externos acabaram por deixá-lo cicatrizado emocionalmente. O fim do relacionamento, a morte de um amigo, sua viagem para a Alemanha. Mas a cada nova informação, cada nova conversa que acompanhamos, temos mais certeza de que Andrés é o verdadeiro responsável pelo seu estado atual.
Suas conversas com Beatriz são bastante reveladoras, principalmente quando sabemos que o casal quase reatou depois de uma curta viagem de Andrés para o exterior. Infelizmente, as coisas não aconteceram como poderiam, muito disso culpa do próprio rapaz. Ao entendermos isso, é possível compreender melhor o porquê aquela festa e aquele ambiente parecerem tão doídos para Andrés.
O elenco defende muito bem seus papéis, principalmente o casal principal, Santiago Cabrera e Blanca Lewin. A amargura de ambos, misturado com o sentimento de perda (do relacionamento e de um amigo de infância), acabou por definí-los por um tempo. O passar dos anos conseguiu fechar algumas feridas, reabertas com o reencontro. Porque foi tão difícil para os dois manterem contato? Seria possível, depois de tanto tempo, o reatamento? Isso e outras respostas são dadas pelo filme, fazendo com que cada nova informação seja valiosa para o espectador.
Dirigido pelos diálogos, A Vida dos Peixes é um filme para quem gosta de observar interações humanas – muito naturalistas no caso deste trabalho de Matías Bize. Filmado com câmera na mão, pecando um tanto nos cuidados com a fotografia, próxima demais do mero digital, sem tratamento algum, o longa-metragem de Bize consegue prender a atenção – e até emocionar – o espectador com sua história doída de um homem que fez escolhas que acabaram o afastando de seu grande amor.
A Vida dos Peixes (La Vida de los Peces)
Chile / França – 83 minutos – Drama
Dir.: Matias Bize
Roteiro: Matías Bize e Julio Rojas
Com Santiago Cabrera, Blance Lewin, Victor Montero, Sebastián Layseca, Juan Pablo Miranda, Antonia Zegers
Cotação Paradoxo: Vale 89% do ingresso
Confira logo abaixo o trailer de A Vida dos Peixes:

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