Prodígios
Em Romance de Formação, a cineasta Julia De Simone aponta sua câmera para quatro jovens brasileiros que saíram de sua zona de conforto, abandonaram seu lar, e entraram de cabeça nos estudos. Ainda que consiga alguns momentos interessantes (quando finalmente conhecemos um pouco mais dos anseios e objetivos dos quatro retratados), e mesmo tendo jovens inteligentíssimos como protagonistas, o filme de estreia da cineasta acaba carecendo de conteúdo, mais parecendo um (bom) reality show do que um (bom) documentário.
O longa-metragem nos mostra alguns momentos da vida de quatro brasileiros estudando no “exterior”. O primeiro, Fábio Martino, é músico prodígio e estuda na prestigiosa Universidade de Música de Karlshure, na Alemanha. Seu grande objetivo é se tornar um solista reconhecido. O segundo, Wiliam Cortopasi, se mudou de Belo Horizonte para o Rio de Janeiro para estudar no IME, sonhando em encontrar a cura para o câncer em suas pesquisas; A terceira, Victoria Saramago, é crítica literária e estuda em Stanford, nos Estados Unidos, onde faz doutorado; E o quarto, Caetano Altafin, estuda direito em Harvard, e tem como principal objetivo trabalhar em alguma firma em Nova York.
Não posso deixar de fazer um paralelo entre este documentário e a Academia, visto que o filme passa um bom tempo dentro de Stanford e Harvard, o “lar” de dois brasileiros retratados. Em qualquer trabalho acadêmico, sabe-se que apenas mostrar algo, por mostrar, não é o suficiente. É necessário criar um problema para pesquisar. Senti falta exatamente disso no documentário Romance de Formação. Algo mais do que apenas mostrar o cotidiano de estudantes brasileiros em entidades de ensino. Parece que falta objetivo no documentário, ainda mais pelo fato de a narrativa ser tão solta.
Em dados momentos, a diretora tenta capturar trechos do cotidiano dos estudantes, como um almoço entre colegas, um jantar romântico via skype, um ensaio de piano ou um trecho de uma aula de literatura. Por mais que se tente, nunca os retratados parecem confortáveis com a presença da câmera. Quem parece ter mais intimidade com as lentes é o músico, que pode se voltar ao piano, acompanhado de sua companheira canina, pois não precisa expressar seus pensamentos com palavras. Os demais, no entanto, se não parecem desconfortáveis, soam robóticos, tentando transmitir uma naturalidade que inexiste em qualquer ambiente onde uma câmera é apontada.
A montagem funciona, ao menos, dando fluidez ao documentário. E se os trechos do cotidiano não chegam a ser dos mais interessantes, ao menos os retratados dão conta de, vez que outra, mostrar o porquê foram escolhidos pela produção do filme. William, por exemplo, se mostra um rapaz totalmente focado em uma boa causa, mostrando-se genuinamente propenso a trabalhar por um mundo melhor. Fábio tem um talento imenso, e se mostra, em dado trecho, um tanto cansado pela pressão de carregar aquele dom. Ao observar imagens de um programa de entrevistas em que participou quando pequeno, Fábio rememora: “Naquele tempo, a pressão era menor. Era só um menino bonitinho”.
Existiam diversas possibilidades com a temática escolhida, mas Julia De Simone escolhe observá-los por boa parte da narrativa. Quando ela parece se impor mais na história, ao conversar com os retratados, ou colocar algum contexto na história de cada um, é aí que Romance de Formação começa a cativar. Infelizmente, ele termina dez minutos depois desta contextualização. Quando entendemos porque William se mudou para o Rio, ou o quanto Fábio era um músico prodígio, desde tenra idade, finalmente nos interessamos por suas histórias. No entanto, já é tarde demais. O filme termina com um espetáculo belíssimo, cortesia de Fábio Martino, mas fica devendo no recheio.
Romance de Formação
Brasil – 75 minutos – Documentário
Dir.: Julia De Simone
Roteiro: Aline Portugal, Marcelo Grabowsky e Ricardo Pretti
Cotação Paradoxo: Vale 40% do ingresso
Confira logo abaixo o trailer de Romance de Formação:

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