quinta-feira, 10 de maio de 2012

Paraísos Artificiais

Amor e êxtase

O diretor Marcos Prado (de Estamira) teve uma ideia interessante, mas talvez um tanto atrasada em seu segundo filme, Paraísos Artificiais: retratar a geração rave, os amantes da música eletrônica, os jovens que se divertem ao som dos DJs, que não tem medo de experimentar – sejam drogas ou sexo. O problema é que esta cultura, até para o Brasil – historicamente atrasado em diversos aspectos culturais – é bastante antiga. Raves eram novidade nos anos 90, assim como filmes sobre esta cena eletrônica. Tirando este pequeno anacronismo da ideia, Paraísos Artificiais é, na realidade, uma história de amor nada inédita, disfarçada em uma embalagem pretensamente moderninha e libertária.

A trama, assinada pelo estreante Pablo Padilla, Cristiano Gualda (de Três Irmãos de Sangue), e Marcos Prado, é não linear, iniciando nos dias atuais, momento em que Nando (Luca Bianchi, de Tropa de Elite 2) é libertado da prisão. Descobrimos que quatro anos antes, o rapaz estava em Amsterdã junto de seu amigo Patrick (Bernardo Melo Barreto, de Embarque Imediato) planejando contrabandear drogas para o Brasil. Por lá, Nando conhece a bela DJ Érika (Nathalia Dill, de Apenas o Fim), brasileira radicada na Holanda, e logo se encanta pela moça. Os dois começam um romance que acaba atrasando o retorno de Nando ao Brasil – o fazendo quase mudar de ideia sobre o contrabando. Mal ele sabe que esta não é a primeira vez que os dois se encontram. Érika esconde de Nando que, na verdade, os dois se conheceram em uma rave no Brasil, dois anos antes, em um fim de semana transformador para ambos.

Se a sinopse parece bastante reveladora, é por que ela realmente é. Mas assim também era o trailer que, praticamente, contava todo o filme em seus curtos dois minutos. Entendendo que a história é um fiapo, Marcos Prado utiliza a quebra da narrativa na tentativa de manter o interesse do espectador em todo o filme. O problema é que o público sempre está à frente da história. Já sabemos quase tudo o que temos para saber dos desdobramentos da trama, não fazendo sentido tal falta de linearidade. Engraçado é que Nando, o protagonista, não sabe que já conhecia Érika e é o único que fica em total ignorância durante toda a história. O espectador já sabe desde o começo esta informação, que é escondida inexplicavelmente pela quebra da linearidade narrativa. Parece-me que se tudo fosse contado na ordem correta dos fatos, teríamos mais surpresas. Mas também seria mais fácil observar o quão frágil a história realmente é.

Os diálogos de Paraísos Artificiais são paupérrimos, principalmente os que envolvem os amigos Nando e Patrick e as amigas Érika e Lara (Lívia de Bueno, de Malu de Bicicleta). Tendo de, a cada minuto, ressaltar suas amizades e o amor pelo(a) outro(a), os diálogos são tão expositivos que chegam a provocar certa vergonha alheia. “Eu te amo, cara”, “Quero ficar contigo até o fim” e outras coisas que o valham. Por um lado, não colocar falas muito inteligentes e rebuscadas na boca de adolescentes tem sua verossimilhança, mas tirar todo e qualquer conteúdo de uma conversa acaba minando a experiência de acompanhar a trajetória dos personagens.

Felizmente, a vergonha alheia desaparece quando a trama se concentra no romance entre Érika e Nando. É verdade que os diálogos continuam não sendo exemplares, mas ao menos os dois parecem realmente gostar um do outro, não precisando ressaltar por palavras o sentimento a cada minuto. Nathalia Dill rouba a cena sempre que aparece, sendo difícil tirar os olhos da moça. Bonita e sempre sorridente, a atriz constrói uma personagem que, mesmo não exteriorizando suas preocupações, possui demônios de seu passado que ainda não conseguiu expurgar. Seu relacionamento com Nando é, paradoxalmente, localizado no início de todo o drama. O rapaz também possui seus problemas. Traumatizado pela perda do pai, Nando se refugia em sua arte e nas festas para esquecer. Com senso de responsabilidade um tanto distorcido, já que apela para o tráfico internacional de drogas para resolver seus problemas familiares, Nando vê em Érika um porto seguro, mesmo que não saiba que já conhecia a moça anteriormente.

Um dos destaques do elenco é Roney Villela, que interpreta uma espécie de mestre hippie, um sujeito que tem todas as respostas, servindo de conselheiro para Érika e Nando. É ele quem apresenta para a moça uma droga forte, que lhe faz ter uma viagem estranha, muito bem capturada pelas câmeras de Marcos Prado. Quando Paraísos Artificiais investe em um clima mais sensorial nas cenas, sempre fica mais interessante. As sequências que retratam as viagens alucinógenas dos personagens são muito bem construídas. Da mesma forma, as cenas de sexo são lindamente capturadas por Prado e por Lula Carvalho, o diretor de fotografia. Plasticamente belíssimas, e fechando bem a tríade “sexo, drogas e música eletrônica”, a parte sexual de Paraísos Artificiais, ouso dizer, é o ponto alto do filme, assim como as viagens alucinógenas dos personagens. Apesar de tentar não fazer um trabalho “careta”, como disse Prado em entrevistas, o roteiro não conseguiu deixar de fora as conseqüências deste sexo livre e do uso de drogas indiscriminado.

A fotografia de Paraísos Artificiais é belíssima, ressaltando as belezas naturais do nordeste, local onde se passa a rave ao ar livre em que os dois personagens se conhecem. Contrastando bem a ensolarada praia brasileira com a fria Amsterdã, Lula Carvalho consegue criar uma identidade visual interessante para cada localidade, fazendo com que o espectador não tenha dúvidas em que parte da história está acompanhando. Quando no presente, Carvalho prefere o cinza, triste, para demonstrar o momento por que passam os personagens.

Irregular, Paraísos Artificiais tem como pontos fortes a fotografia e as viagens sensoriais de algumas cenas, mas carecia de maior cuidado na construção dos diálogos. O filme pode conseguir falar com uma parte do público brasileiro com quem nunca conseguiu se comunicar. Isso, claro, se os fãs de música eletrônica não se sentirem mal retratados ou estereotipados pela trama de Marcos Prado. Para quem detesta o estilo musical, é um motivo a menos para conferir, visto que ela está presente em quase todo o filme, é bom avisar.

Paraísos Artificiais
Brasil – 96 minutos – Drama
Dir.: Marcos Prado
Roteiro: Marcos Prado, Cristiano Gualda e Pablo Padilla
Com Nathalia Dill, Luca Bianchi, Lívia de Bueno, Bernardo Melo Barreto, César Cardadeiro, Cadu Fávero, Roney Villela, Emilio Orciollo Neto
Cotação Paradoxo: Vale 59% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de Paraísos Artificiais:

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