sexta-feira, 4 de maio de 2012

O Príncipe do Deserto

Ouro Negro

Tahar Rahim ficou conhecido após seu estupendo trabalho em O Profeta, filme que empilhou prêmios em festivais, dentre eles o grande prêmio do júri em Cannes, e ficou cabeça a cabeça na categoria de língua estrangeira no Oscar, perdendo para O Segredo dos seus Olhos. Natural que, depois disso, Rahim começasse a ser abordado para novos trabalhos. Curiosamente, o seu primeiro protagonista em uma grande produção, O Príncipe do Deserto, guarda algumas semelhanças com seu Malik de O Profeta. Ambos começam a história ingênuos, despreparados para os desafios que teriam pela frente. Subestimados por seus pares, ambos personagens acabam crescendo no decorrer da trama, encontrando seu real propósito de vida, um talento até então desconhecido. Uma pena que esta é uma das poucas semelhanças entre o ótimo O Profeta e este mediano O Príncipe do Deserto. Longo demais e com clichês além da conta, o trabalho do cineasta Jean-Jacques Annaud (de Círculo do Fogo) desafia a paciência do espectador, apesar de ter qualidades que o redimem.

Baseado no livro Arab, de Hans Ruesch, o roteiro foi adaptado por Annaud e seu parceiro habitual Alain Godard, e assinado por Menno Meyjes (de Nova York Sitiada). Nos anos 30, no começo da corrida pelo petróleo em território árabe, o emir Nesib (Antonio Banderas, de A Toda Prova) quebra o tratado de paz que havia feito com o sultão Amar (Mark Strong, de John Carter) e começa a prospectar petróleo na faixa amarela, um local que deveria ser neutro e intocado. A paz selada pelos dois povos havia acontecido há 15 anos, quando Amar entregou seus dois filhos como garantia para o final da guerra. Agora adultos, Saleeh (Akin Gazi, de O Dublê do Diabo) e Auda (Rahim) não concordam com os planos de Nesib e o primeiro resolve voltar para o povoado do pai, para guerrear. Auda, no entanto, fica dividido. Apaixonado pela filha do emir, Leyla (Freida Pinto, de Planeta dos Macacos – A Origem), Auda fica em dúvida se ajuda o sogro ou o pai nesta questão.

O filme começa muito bem. Banderas e Strong firmam o tratado de paz apenas com suas palavras, e mostram ter um verdadeiro respeito um pelo outro. O que acaba complicando as coisas é a ganância de Nesib, que deseja toda a riqueza que o petróleo pode trazer. Não pintando o personagem como um vilão clássico, o roteiro atribui a Nesib uma vontade de melhorar a situação do seu povoado. A cólera havia matado boa parte dos cidadãos, devido às más condições de habitação. O dinheiro do petróleo transformaria a vida de todas aquelas pessoas – e, principalmente, a de Nesib, é claro. Mark Strong, como de costume, rouba a cena quando aparece, dando muito peso ao seu Amar. Figura autoritária, mas bastante sábia, o sultão é uma pessoa ligada aos valores tradicionais e vê com maus olhos a investida norte-americana nas riquezas do solo árabe.

Os dois atores veteranos podem ser mais conhecidos para o grande público que Tahar Rahim, mas quando é exigido dele uma grande mudança de comportamento, o ator consegue transmitir a metamorfose pela qual passa Auda, sendo um destaque do filme. Sua atuação é tão convincente que, de começo, realmente acreditamos que aquele sujeito nunca poderia liderar um povo como seu pai, o sultão Amar, o faz. Mergulhado em livros, franzino, Auda não é o herói que imaginamos primeiramente. Até por isso, sua transformação é ainda mais intensa. Os livros o deixaram muito sábio, ficando à vontade em discussões com os mais idosos. Sem contar que prepararam sua mente para arrojadas estratégias, o talhando como um astuto general.

O Príncipe do Deserto acaba desandando a partir do segundo ato, logo após as primeiras transformações de Auda no herói da história. Além de contar com clichês aos montes, nada depõe mais contra uma trama cinematográfica do que as coincidências e felizes acidentes que acabam ajudando o protagonista – ou o antagonista – em sua trajetória. Mas nada poderia nos preparar para o que os roteiristas inventam para o terceiro ato. Eles simplesmente estragam completamente seu trabalho até ali com a pior solução possível para um dos conflitos mais sérios da vida de Auda: sucumbir aos pedidos do pai ou se levantar contra o sultão. Em um desfecho preguiçoso e que joga tudo o que vimos no lixo, os responsáveis pelo roteiro retiram o problema do caminho de Auda em um total anticlímax. Não ajuda o fato de o segundo ato ser tremendamente enfadonho, acompanhando uma grande caravana percorrendo o deserto por dias, com o filme parecendo mimetizar a lentidão dos camelos no ritmo de narrativa. Somando-se isso a extensa metragem do filme, O Príncipe do Deserto salva-se de ser um verdadeiro equívoco pelas boas atuações do elenco e por trechos da história não sabotados pelos roteiristas. Entretém, mas tinha ferramentas para ser muito melhor.

O Príncipe do Deserto (Black Gold)
França / Itália / Qatar / Tunísia – 130 minutos – Drama
Dir.: Jean-Jacques Annaud
Com Antonio Banderas, Tahar Rahim, Mark Strong, Freida Pinto
Cotação Paradoxo: Vale 60% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de O Príncipe do Deserto:


Nenhum comentário: