quarta-feira, 23 de maio de 2012

O Corvo

Poe

Não é nada inédita a ideia de um assassino em série tomar emprestada a obra de um autor de livros de suspense para tirar inspiração para seus crimes. O seriado Castle, só para dar um exemplo bastante recente, fez isso de forma divertida em seu episódio piloto. De qualquer forma, existia um grande potencial na premissa de O Corvo, mesmo nada original, visto que os crimes são baseados em obras de Edgar Allan Poe, um dos mestres do macabro. Em teoria, tudo para dar certo. No entanto, a escalação equivocada de John Cusack (de A Ressaca) para o papel, misturada a falta de capacidade de James McTeigue (de V de Vingança) em criar um clima de tensão sem precisar apelar para o sangue aos montes, acabam minando o filme.

Com assinatura de Hannah Shakespeare (de Loverboy) e do estreante Ben Livingston, o roteiro imagina o que se passou nos últimos dias de vida de Edgar Allan Poe (Cusack). Em 1849, o escritor foi encontrado balbuciando palavras sem sentido antes de morrer de causas misteriosas. Na trama, um assassino em série busca inspiração nos escritos de Poe para cometer seus crimes. Um jovem policial de Baltimore, Fields (Luke Evans, de Os Três Mosqueteiros), é designado para o caso e, em um primeiro momento, acredita que o escritor pode ser o culpado. Passado este contato inicial, os dois se aliam para achar o responsável pela matança. Quando o serial killer rapta a namorada de Poe, a bela Emily Harrison (Alice Eve, de Território Restrito), os dois precisarão correr contra o tempo para encontrar o misterioso assassino.

Quem é fã dos contos de Edgar Allan Poe não precisará de muitas pistas para descobrir as referências da trama de Hannah Shakespeare e Ben Livingston. Clássicos de Poe como “Coração Revelador”, “O Corvo”, “A Máscara da Morte Escarlate”, “O Barril de Amontillado” e “O Poço e o Pêndulo” são mencionados na trama, servindo como inspiração para os crimes, ou apenas citação para os personagens. A forma como cada conto é utilizado demonstra paixão dos roteiristas pela obra do escritor norte-americano, conseguindo costurar muito bem a trama com os escritos do autor.

Infelizmente, John Cusack, mesmo sendo um bom ator, não consegue convencer de início como o perturbado Edgar Allan Poe. O inglês mais rebuscado utilizado na época não consegue ser repetido de forma natural por Cusack. As primeiras cenas, quando vemos o decadente escritor praticamente implorando por um gole de bebida barata, deveriam servir para mostrar a inteligência e a eloquência de Poe, mesmo estando no buraco. O que vemos, no entanto, é um sujeito recitando falas sem muito traquejo. Cusack é um ótimo ator quando escalado para papéis contemporâneos, vivendo adultos com conflitos menos soturnos que os de Edgar Allan Poe. Em O Corvo, ele demora a se achar, talvez por não ter tanto espaço para ser engraçado ou charmoso. Reparem que, quando Poe faz algumas estripulias para chegar perto de Emily, a performance de Cusack melhora sensivelmente. O peso de carregar um personagem como Edgar Allan Poe parece não ter feito bem a ele.

O resto do elenco se sai um pouco melhor, até por não ter uma responsabilidade tão grande. Luke Evans está correto como o inspetor Fields, mesmo que seu personagem não seja particularmente tão astuto quanto gostaríamos; Brendan Gleeson não precisa se esforçar para ser detestável como o pai severo de Emily; E Alice Eve, além de ser um colírio para os olhos como a donzela em perigo, convence nas cenas em que é preciso transmitir medo. A cena em que ela sussurra socorro confinada em um lugar fechado é muito bem concebida, com boa atuação da atriz.

Ao assistir a O Corvo, duas produções hollywoodianas ficavam perambulando minha mente. Uma delas é Do Inferno, longa-metragem baseado na obra de Alan Moore, dirigido pelos irmãos Albert e Allen Hughes, com Johnny Depp caçando o tenebroso Jack, o Estripador; a outra é a reimaginação de Sherlock Holmes comandada por Guy Ritchie, com Robert Downey Jr. no papel do detetive britânico. James McTeigue parece ter assistido a ambos os filmes repetidas vezes, devido à direção de arte muito semelhante com este último, e clima de suspense parecidíssimo com o trabalho dos Hughes Brothers. Em dado momento, até torci para uma aparição relâmpago de Sherlock, ajudando a resolver o caso. Daí lembrei que a distância oceânica entre os dois provavelmente impossibilitaria este encontro.

A fotografia de O Corvo é soturna como deveria ser, com o diretor de fotografia Danny Ruhlmann (de Sob o Efeito da Água) caprichando principalmente nas tomadas noturnas, no uso de sombras e da arquitetura interessante capturada nas ruas da Hungria e da Sérvia, locais onde o filme foi rodado. Este cuidado era esperado em um trabalho de James McTeigue, um diretor que tende a se preocupar muito com o apuro visual de suas obras. O problema é que esta predileção pela beleza plástica do filme acaba tirando a atenção do diretor para alguns pontos importantes, como o andamento da narrativa, por exemplo. Para um longa-metragem de 111 minutos, a impressão ao sair do cinema era ter passado quase três horas dentro da sala.

Entretendo aos trancos e barrancos, com alguns pontos positivos aqui e acolá, O Corvo é uma produção pela qual se esperava muito mais. Com os talentos envolvidos e o fato do protagonista ser Edgar Allan Poe, as expectativas só poderiam ser altíssimas. Felizmente, os contos do escritor são bem utilizados na trama e a premissa consegue segurar o interesse do espectador nos momentos menos inspirados.

O Corvo (The Raven)
EUA/Hungria/Espanha – 111 min – Suspense
Dir.: James McTeigue
Roteiro: Hannah Shakespeare e Ben Livingston
Com John Cusack, Luke Evans, Alice Eve, Brendan Gleeson, Kevin McNally, Oliver Jackson-Cohen, Sam Hazeldine, Jimmy Yuill
Cotação Paradoxo: Vale 62% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de O Corvo:

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