quinta-feira, 3 de maio de 2012

Jovens Adultos

The Concept

Jason Reitman e Diablo Cody reúnem-se após o celebrado (e superestimado) Juno para reverter alguns clichês em Jovens Adultos, uma dramédia que se beneficia do talento de Charlize Theron interpretando a definitiva high school bitch. Diferente do trabalho anterior da dupla, quando as frases cheias de referências pop pareciam alienígenas vindo de Ellen Page, a verve venenosa de Cody não parece deslocada na boca de Theron, uma quase quarentona que nunca amadureceu.

Na trama, Mavis Gary (Theron) era a pessoa mais popular do colégio, a moça que os garotos queriam levar para a cama (e, se fossem populares, conseguiam) e que as garotas adoravam odiar. Passados 15 anos do fim do colegial, Mavis é uma divorciada alcoólatra sem traquejo social que trabalha em uma pretérita bem sucedida série literária para jovens adultos. Mavis sai de Minneapolis para voltar a sua terra natal, uma pequena cidade em Minnesota, quando descobre que seu ex-namorado, Buddy Slade (Patrick Wilson), acaba de ter uma filha. Seu plano é simples: voltar e reconquistar Buddy, mesmo que ele seja feliz, casado e com um bebê para criar.

Histórias que retratam pessoas voltando para casa, reencontrando velhos colegas e até reatando romances antigos não são nada raros. Geralmente, produções como esta tem um protagonista que, no passado, foi um párea da turma, aquela pessoa que não conseguia se conectar com os colegas, o sujeito de bom coração, mas incompreendido. O vilão (ou vilã) desta história era sempre o ex-jogador de futebol, a ex-cheerleader, que fazia da vida do nosso pobre herói um inferno na Terra. A novidade de Jovens Adultos é colocar o antagonista daquelas produções como personagem principal. O que se procura, costumeiramente, é ter um protagonista com quem o público se identifique, alguém que seja querido. Isso é exatamente o contrário de Mavis Gary. E é aí exatamente que reside o charme do filme de Jason Reitman.

Charlize Theron encarna a escritora como uma mulher insensível, arrogante, preconceituosa e completamente fora da realidade. Inventando suas próprias verdades, Mavis é vista como uma pessoa que se deu bem na vida – até aparecer novamente em sua cidade natal. Reparem o quão triste é o fato de ela se sobressair, dada sua falsa grandeza, já que vive na “cidade grande” (Minneapolis, nenhuma Nova York), e "assina" livros pueris (com seu nome escondido, em uma série fadada ao seu fim). Acreditando piamente em suas mentiras, e tentando ainda navegar sobre a onda de seu falso sucesso, Mavis é uma figura que causa tristeza pelo seu perdido jeito de ser. O que, claro, não a redime de seu comportamento. Com sérios problemas alcoólicos, deprimida, Mavis pensa que ao reatar o romance com seu ex, isso lhe trará aquela velha chama do passado – da promessa de brilhar no futuro. O problema é que o futuro já chegou.

Mavis é tão iludida com o que há à sua volta que não consegue perceber que não possui nada em comum com Buddy, o que fica claro nos primeiros três minutos do reencontro entre os dois. A loira não está necessariamente apaixonada pelo ex, mas apaixonada pela ideia de reconquistá-lo. Uma obsessão que lhe fará mostrar um lado até então desconhecido de sua personalidade – e desmascarando um segredo triste de seu passado. Charlize Theron está em grande forma como a protagonista, conseguindo a proeza de ser venenosa e falsa, mas não ter a plateia toda contra si. Na verdade, é muito possível que o público sinta uma certa vergonha alheia e até pena das ideias amalucadas de Mavis.

Outro destaque do elenco é o combalido personagem de Patton Oswalt, Matt. Quando adolescente, Matt foi espancado por seus colegas de aula por ser homossexual – mesmo não sendo, na verdade. O episódio aleijou o rapaz física e emocionalmente. Quando Mavis retorna, ele vira seu amigo de bebedeiras – uma espécie de confidente para as maluquices da escritora. Como Matt não tem nenhuma esperança de se envolver romanticamente com Mavis, seus comentários e conselhos são totalmente francos. Isso, de algum modo, chama atenção de Mavis, que talvez nunca tenha sido tratada daquela forma antes.

Jovens Adultos é mais um filme de Jason Reitman no qual o cinismo dos personagens é tamanho que chega a ser palpável. Existe a tradicional tentativa de transformação, colocando o protagonista mais próximo de nós, reles mortais. Mas é quase. Quem já é habituado às histórias comandadas pelo cineasta sabe que Reitman não acredita em reabilitações ou redenções. A pessoa pode até ensaiar uma reforma de caráter ou um arrependimento pelas suas ações, mas, no fim das contas, não tem as ferramentas necessárias para uma mudança.

Apresentando uma trilha sonora fantástica, algo que virou marca da parceria entre Diablo Cody e Jason Reitman, Jovens Adultos é mais um bom capítulo da carreira deste cineasta, que se apropria de temas e referências da cultura pop, conseguindo manter uma carga dramática interessante até nos mais fúteis personagens. Desafio maior que mudar o caráter de Mavis Gary é tentar sair do cinema sem cantarolar “The Concept”, do Teenage Fanclub. Missão quase impossível.

Jovens Adultos (Young Adult)
EUA – 94 minutos – Comédia Dramática
Dir.: Jason Reitman
Roteiro: Diablo Cody
Com Charlize Theron, Patton Oswalt, Patrick Wilson, Elizabeth Reaser, Collete Wolfe, Mary Beth Hurt
Cotação Paradoxo: Vale 85% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de Jovens Adultos:

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