quarta-feira, 30 de maio de 2012

A Delicadeza do Amor

Projeto 114

Mulher conhece homem em uma cafeteria, os dois se apaixonam e logo engatam um namoro. Com o passar do tempo, o casal percebe que é perfeito um para o outro e decide pelo casamento. A família de ambos é exemplar, com pais companheiros, compreensivos, presentes. A vida será uma maravilha e um possível filho está logo ali, no horizonte. A Delicadeza do Amor começa exatamente assim. Existem muitos romances com premissa parecida, aqueles açucarados, em que vemos um casal insolitamente ideal viver uma existência de rosas. Não é o caso deste filme, no entanto. Em menos de 20 minutos de narrativa, tudo isso desmorona com a morte do rapaz, fato que compreensivelmente deixa a viúva em frangalhos. A partir daí é que realmente começa a história de A Delicadeza do Amor, um belo trabalho dos estreantes David e Stéphane Foenkinos.

O roteiro, baseado no romance do diretor David Foenkinos, é adaptado pelo próprio autor. Três anos depois de ter perdido seu marido, Nathalie (Audrey Tautou, de Uma Doce Mentira) está cada vez mais mergulhada no trabalho. Não costuma sair, nem se divertir. Seu chefe, Charles (Bruno Todeschini, de Identidade Trocada), sempre tentou seduzi-la e vê agora uma boa oportunidade de conquistá-la. Suas tentativas são infrutíferas, no entanto, visto que Natalie tem interesse algum naquele homem. Uma promoção no emprego a faz encabeçar um grupo no qual um dos empregados é o sueco Markus (François Damiens, de O Pequeno Nicolau), um sujeito nada bonito ou charmoso. Certo dia, ao visitar o escritório de Natalhie para conversar sobre um projeto, Markus é surpreendido por um beijo prolongado de sua chefe. Nem a própria Nathalie entende sua ação. E agora? Como os dois trabalharão juntos depois disso?

Apesar de ser importante para o desenrolar da segunda parte da trama, os primeiros vintes minutos, aquele mar de rosas entre Nathalie e seu marido, François (Pio Marmaï, de A Lei de Murphy), são os mais fracos de A Delicadeza do Amor. A vontade é tão grande de parecer feliz, de parecer perfeito, que nunca soa verdadeiro aquele relacionamento. Culpa das atuações de Audrey Tautou e de Pio Marmaï, que extrapolam na felicidade. Assim que François morre, o filme finalmente se entrega ao seu real propósito e melhora a olhos vistos.

Até porque, é a partir dali que entra em cena Markus, um dos destaques de A Delicadeza do Amor. Sendo uma pessoa sem grandes atrativos físicos, ou sem muito traquejo com o sexo oposto, Markus fica completamente surpreso com o beijo que recebe de sua chefe. Sua primeira reação é sentir-se incrivelmente atraente, como mostra uma engraçadíssima cena/sonho em que caminha pela rua recebendo os olhares e gracejos de todas as mulheres que por ele passam. Ainda que o filme caia no clichê de colocá-lo como um sujeito engraçado, como forma de compensar sua falta de beleza, o ator François Damiens consegue cativar o espectador com sua performance, fazendo uma boa dobradinha com Audrey Tautou, mais contida que no início, equilibrando bem a tristeza e a força de vontade de virar o jogo.

A Delicadeza do Amor conquista por transmitir uma mensagem singela, mas que não custa ser repetida: a beleza não é necessária para que um relacionamento dê certo. O possível envolvimento amoroso entre o casal é visto com preconceito pelos colegas de trabalho e pelos amigos de Nathalie, pelo fato de que seu novo namorado não tem o padrão de beleza imposto pela sociedade. Sem ser moralizador, o filme consegue passar esta mensagem de forma bem humorada, colocando tanto Markus quanto Nathalie em situações, no mínimo, constrangedoras. Como, por exemplo, quando Charles descobre do novo romance de sua ex-futura pretendente e resolve conhecer o sujeito que a fisgou.

Mesmo diretores de primeira viagem, o casal David e Stéphane Foenkinos saem-se muito bem como contadores de história. São interessantes e bem boladas algumas elipses criadas, fazendo muito bem a transição do namoro para o casamento de Nathalie e François, ou da gravidez da amiga da protagonista. Infelizmente, alguns cacoetes da vertente literária de David ficam evidentes em alguns pontos do filme, como os pensamentos de alguns personagens que nos são revelados. De qualquer forma, este expediente é pouco usado e não incomoda tanto quanto poderia.

Indicado a dois César, o Oscar do cinema francês, A Delicadeza do Amor é um filme singelo, bonito de se ver, que cativa com seus personagens humanos e situações corriqueiras. Com história bem contada e mensagem positiva, o longa-metragem francês é um bom programa para os casais apaixonados.

A Delicadeza do Amor (La Délicatesse)
França – 108 min - Romance
Dir.: David Foenkinos, Stéphane Foenkinos
Roteiro: David Foenkinos, baseado em seu livro
Com Audrey Tautou, François Damiens, Bruno Todeschini, Ariane Ascaride, Mélanie Bernier, Joséphine de Meaux, Pio Marmaï
Cotação Paradoxo: Vale 79% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de A Delicadeza do Amor: