Sono
Eu já devia saber. O próprio cartaz de Beleza Adormecida já avisava: “Jane Campion apresenta um filme de Julia Leigh”. Tendo permanecido acordado com muito esforço em ao menos dois trabalhos de Campion, O Piano e O Brilho de uma Paixão, deveria supor que o fato de a diretora neozelandesa assinar embaixo esta produção teria os mesmos resultados soporíferos de seus trabalhos como diretora. Não deu outra. A cineasta de primeira viagem Julia Leigh, que é escritora de romances e assina também o roteiro deste longa-metragem, não chega a ser uma imitação de Jane Campion, tendo estilo próprio e uma forma até interessante de conceber cada cena, sempre em planos-sequência. O que Leigh parece tomar emprestado de Campion é a narrativa lenta, quase parada, que pode fazer adormecer não só a protagonista, como toda a plateia.
Na trama, Emily Browning (de Sucker Punch) é Lucy, uma universitária que parece topar tudo por dinheiro. Desde servir de cobaia para experimentos científicos, passando por garçonete, até um programa sexual de vez em quando. Não conseguindo pagar as contas, tendo problemas com seus roommates, Lucy tem a chance de ganhar um dinheiro fácil vestindo lingerie e servindo jantares requintados em um estranho banquete para ricaços. Contratada pela enigmática Clara (Rachael Blake, de Fora de Rumo), a moça acaba ganhando outra incumbência com o passar do tempo: participar de um estranho serviço no qual senhores com contas bancárias polpudas pagam para deitar ao lado de uma bela mulher, nua, totalmente adormecida. Para tanto, Lucy terá de tomar um chá sonífero e nada saber sobre o que acontece durante o programa. É possível?
Julia Leigh capricha no visual de seu longa-metragem, tendo na fotografia e na direção de arte dois destaques de Beleza Adormecida. Emily Browning parece uma boneca de porcelana através das lentes do diretor de fotografia Geoffrey Simpson. A plástica das cenas em que a atriz se transforma em “bela adormecida” tem jeitão onírico, conversando muito bem com aquela estranha tara sexual dos velhos ricaços. Escolhendo filmar longos planos-sequência, Leigh trabalha com o que os atores lhe entregam em cada cena, não parecendo temer as pequenas falhas, se beneficiando do maior realismo que um plano sem cortes pode entregar ao filme. Este é o pró. O contra é a lentidão da narrativa que só um plano-sequência pode trazer. Quando o estilo se sobrepõe ao conteúdo, depondo contra a história, seria o momento de pensar em outra forma de contar a história. Mas não é o que acontece.
Se Lucy fosse um personagem interessante, a tarefa de assistir a Beleza Adormecida não seria tão sofrível. Não existe aparente necessidade de aquela moça encarar tantos trabalhos – ou se submeter aos mandos de Clara. Em determinada cena, Lucy queima uma nota de dinheiro, deixando subentendido que suas atitudes não são movidas apenas pela questão monetária. Seu relacionamento com o amigo Birdmann (Ewen Leslie, de The Blind Mice) parece ser jogado dentro da narrativa para existir algum ancoradouro para Lucy, para que existisse alguém com quem a moça sentisse algo – já que em todos os outros momentos, a menina parece uma tabula rasa, sem nada para transmitir ou sentir. Completamente zerada emocionalmente. A performance da atriz não é ruim, mas o personagem realmente não ajuda.
Trabalho pretensamente artístico, sem grande profundidade ou conteúdo, Beleza Adormecida parece um veículo produzido exclusivamente para mostrar inúmeras cenas de Emily Browning nua. Por mais bela que a moça possa ser, isso acaba sendo muito pouco para um trabalho exibido em Cannes, no festival de 2011. Talvez o longa-metragem fosse melhor utilizado se fosse exibido em um museu, como vídeo-arte, devido a sua beleza plástica e pela falta de uma narrativa mais pulsante.
Beleza Adormecida (Sleeping Beauty)
Austrália – 101 minutos – Drama
Direção e Roteiro: Julia Leigh
Com Emily Browning, Rachael Blake, Ewen Leslie
Cotação Paradoxo: Vale 40% do ingresso
Confira logo abaixo o trailer de Beleza Adormecida:

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