terça-feira, 3 de abril de 2012

Um Método Perigoso

A cura falada

Neste terceiro trabalho reunindo o cineasta David Cronenberg e o ator Viggo Mortensen, ambos chegam a um nível de cumplicidade e de excelência que fica difícil imaginar outro ator para os filmes do diretor canadense. Muito embora Um Método Perigoso quase não tenha contado com Mortensen no elenco (o escalado para viver Sigmund Freud, Christoph Waltz, abandonou o barco para viver o vilão de Água para Elefantes), o resultado final denota que o papel deveria ter pertencido sempre a ele. Com um elenco invejável, contando com o astro em ascensão Michael Fassbender (de Shame), a bela Keira Knightley (de Não me Abandone Jamais) e o versátil Vincent Cassel (de Cisne Negro), Cronenberg faz mais um ótimo trabalho nesta sua nova fase, mais sóbrio, menos sangrento.

Na trama, assinada por Christopher Hampton, que baseou o roteiro em sua peça “The Talking Cure”, que por sua vez havia sido adaptada do livro de John Kerr, “A Most Dangerous Method”, Michael Fassbender é Carl Jung, o pai da psicologia analítica. No começo do século passado, o psiquiatra suíço tinha convicção de que os métodos de Sigmund Freud, dentre eles, a cura falada, seriam as melhores formas de tratar os seus pacientes. Acompanhamos o caso de Sabina Spielrein (Knightley), moça que chegou aos cuidados de Jung sofrendo um episódio sério de histeria. Utilizando os métodos de Freud, Jung consegue uma notável melhora no quadro da jovem. Os dois psiquiatras se conheceriam logo depois, mostrando ter enorme respeito e admiração mútua. Tanto que Freud incumbe Jung da tarefa de tratar o brilhante, mas instável, psicanalista Otto Gross (Cassel), homem que acaba tendo uma grande influência sobre o doutor. Atraído por Sabina, mas não acreditando em traição ou bigamia, Jung recebe conselhos de Otto, que leva uma vida errática, sem regras. Porque negar o prazer? Com isso em mente, Jung e Sabina começam um tórrido romance, que poderá colocar em risco a sua profissão, o seu casamento e até sua relação com Sigmund Freud.

Desde o início da parceria entre Cronenberg e Mortensen, em Marcas da Violência, que o diretor canadense parece ter amenizado o seu lado mais visceral. Mesmo que Marcas ou Senhores do Crime contenham cenas violentas e personagens renegados, misteriosos, o diretor parece ter tirado o pé do trash pelo qual era conhecido e cultuado dos tempos de Scanners, A Mosca, Videodrome, entre tantos outros. Em Um Método Perigoso, Cronenberg parece ter chegado ao seu amadurecimento total. Não digo isso de forma necessariamente positiva, já que seu lado juvenil trash era um chamariz interessante em sua obra. Mesmo que Cronenberg tenha sido visto como um cineasta competente e cult no passado, agora, tudo indica, o diretor quer ser levado à sério. Como não falta talento a Cronenberg, seu desejo é atendido.

É curioso notar que, mesmo que os personagens de Um Método Perigoso sejam conhecidos pelos seus dotes cerebrais, e mesmo que o roteiro seja repleto de frases e diálogos inteligentes, o que move a trama é sempre a emoção. Jung e Sabina sucumbem ao desejo carnal; Freud perde um valioso colega pela vaidade; Jung racha com Freud por orgulho; mesmo que sejam dados motivos do campo das ideias para as desavenças entre Freud e Jung, está claro que a convivência entre os egos estava muito difícil de ser administrada. E quando digo convivência, refiro-me às cartas que os doutores endereçavam um ao outro, visto que encontros pessoais não foram muitos entre Freud e Jung.

Mortensen é o destaque de Um Método Perigoso roubando cada cena em que participa. Por ser um “coadjuvante” (categoria pela qual foi indicado ao Globo de Ouro), sua intervenções são esparsas, mas sempre certeiras. O ator escolhe um sotaque pequeno ao doutor, arrastando algumas sílabas aqui e ali, caprichando na forma sempre contida e calculada de transmitir suas ideias. Sempre de charuto aceso e pronto para refutar qualquer pensamento que venha de encontro aos seus, Freud é retratado como um sujeito inteligentíssimo, astuto, mas também manipulador, característica percebida por Jung ao conhecê-lo. “É difícil não se render às ideias de Freud”, reclamou o doutor. Por ter consciência de sua importância – e por acabar desconsiderando a igual relevância dos trabalhos de Jung – Freud cria uma barreira entre os dois que, sabemos, seria eternamente intransponível.

Enquanto isso, Michael Fassbender entrega mais um trabalho acima da média, vivendo um Carl Jung com sobriedade e inteligência, não esquecendo seu lado mais sanguíneo. Sua paixão por Sabina ia contra todas as suas crenças. Jung acabou se vendo totalmente refém, entregue. Fechando o triângulo principal, Keira Knightley fica talvez com o papel mais difícil do filme, pois precisava mostrar dois lados de uma mesma mulher – um totalmente desvairado, outro são, mas com tendências a recaídas. Suas caras e bocas de início incomodam, mais pelo estado psíquico da personagem do que pela atuação propriamente dita. Com o passar da narrativa, Knightley encontra um equilíbrio interessante, o mantendo até o final da trama.

Empregando a música de Wagner como um importante ponto de discussão dos personagens, mas não utilizando música incidental nas cenas em que Sabina está em tratamento com Jung, Cronenberg acaba por fazer uma divisão forte do emprego da trilha sonora em seu trabalho. Nas cenas no consultório, vemos o tratamento com a crueza da vida real, ouvimos apenas os diálogos e o som ambiente. Nas cenas nas quais a música de Wagner é empregada, observamos a reação dos pacientes à música, um importante ponto na pesquisa de Sabina e Jung, raros momentos em que ouvimos algum tipo de melodia dentro do hospital.

Cometendo um pecadilho por apresentar efeitos especiais pouco convincentes durante a viagem de Freud e Jung aos Estados Unidos, Cronenberg é praticamente só acertos em Um Método Perigoso, mais um trabalho maiúsculo de sua carreira. Confesso, no entanto, que sinto falta de algumas das esquisitices do Cronenberg do passado. É esperar e ver se o cineasta enterrou totalmente seu gosto pelo bizarro ou se esta sua nova fase encerra-se com este terceiro capítulo de sua trilogia com Mortensen. Cosmopolis, novo filme do diretor, vem aí em 2012 para responder esta pergunta.

Um Método Perigoso (A Dangerous Method)
Reino Unido / Alemanha / Canadá / Suíça – 99 minutos – Drama
Dir.: David Cronenberg
Roteiro: Christopher Hampton, baseado no livro de John Kerr
Com Keira Knightley, Michael Fassbender, Viggo Mortensen, Vincent Cassel, Sarah Gadon
Cotação Paradoxo: 88% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de Um Método Perigoso:

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