Mosca na Sopa
Conseguir contar em apenas 120 minutos a história musical de Raul Seixas, por si só, já seria uma tarefa hercúlea. Raulzito lançou 15 discos de estúdio durante sua carreira, do clássico “Krig-Ha, Bandolo!”, de 1973, ao discutível “A Panela do Diabo”, trabalho em parceria com Marcelo Nova, em 1989, pouco tempo antes de sua morte. Não contente com apenas esta tarefa, Walter Carvalho decidiu fazer um documentário que abraçasse outras facetas do músico, como suas variadas esposas e companheiras, seu mergulho no álcool e nas drogas e seu interesse por curiosas seitas. Apesar de ser um filme que tenta dar conta de um retratado bem sucedido musicalmente, é justamente o lado musical de Raulzito que, vez que outra, fica em segundo plano em Raul – O Início, o Fim e o Meio.
No documentário, co-dirigido por Evaldo Mocarzel e Leonardo Gudel, uma extensa lista de parceiros musicais, parceiras amorosas, membros da família e amigos tentam dar conta de quem era Raul Seixas. Da infância na Bahia, passando pelo começo da carreira, imitando Elvis Presley e o misturando com o baião, até seu estouro com canções como “Metamorfose Ambulante”, “Ouro de Tolo” e “Maluco Beleza”, vemos que a trajetória de Raulzito foi cheia de excessos - que, fatalmente, cobrariam seu preço com a prematura morte do músico aos 44 anos. Walter Carvalho consegue uma gama enorme de entrevistados e ainda costura os depoimentos com imagens de arquivo raras e vídeos musicais clássicos de Raul Seixas.
Um dos méritos de Carvalho é não escapar das perguntas difíceis ou polêmicas. Quando entrevista Paulo Coelho, um dos mais importantes parceiros de Raulzito, o cineasta consegue ótimas declarações, inclusive a revelação do quanto o relacionamento entre os dois era conturbado. Ao apontar sua câmera para o período final da vida de Raul e sua parceria com Marcelo Nova, Carvalho não foge da questão: o retorno aos palcos de Raulzito foi uma bela homenagem de um discípulo ou um tipo de exploração do mito, para proveito próprio do líder do Camisa de Vênus? Mesmo não conseguindo responder a pergunta, Carvalho traz a questão à baila, de forma até corajosa.
Infelizmente, para um documentário sobre um ídolo musical, as conversas sobre música ficam mais concentradas na primeira metade do filme, quando são apresentadas as influências de Raul, seu início com os Panteras, seu período como produtor musical e sua malandragem para gravar o primeiro disco, durante as férias de seu patrão. Não faltam depoentes para elogiar as fantásticas canções de “Krig-ha, Bandolo!”, colocando-o no pedestal da música brasileira. Depois disso, no entanto, os comentários sobre os discos vão escasseando. Isso é tão verdade que, baseado no filme, é impossível saber quantos discos foram lançados por Raul, o nome de alguns trabalhos ou em qual podemos ouvir “O Carimbador Maluco”, caso fosse interesse do espectador. Neste quesito, certamente por falta de tempo, Raul – O Início, o Fim e o Meio é nada didático, passando superficialmente por alguns momentos da carreira musical do retratado.
Agora, se seu interesse está na vida amorosa de Raul Seixas, então você saberá quantas esposas ele teve, seus nomes, seus filhos, netos, e até histórias de alcova. Óbvio que para entender o músico, é necessário uma contextualização em sua vida. O problema é Walter Carvalho ter reservado uma parte tão grande de seu filme para isso. Ao menos, todas as companheiras entrevistadas tinham boas histórias para contar, talvez por esse motivo o cineasta tenha sentido necessidade de preservá-las no filme.
Raulzito volta dos mortos no documentário, como ótimas cenas de arquivo, com entrevistas e apresentações marcantes do músico. Uma das mais emocionantes, já no fim da vida, é quando Raul reencontra Paulo Coelho nos palcos. Os dois podem ter tido brigas feias no passado, mas Raul parecia genuinamente feliz em ver seu ex-parceiro.
Não deixa de ser triste observar como as drogas e o álcool cobraram um preço caro na vida de Raul. O músico, que começou como Elvis Presley, no fim da vida estava mais para Roy Orbison, sempre de óculos escuros, com gestos lentos, lembrando pouco o maluco beleza que fizera tanto sucesso no passado. Se Raul – O Início, o Fim e o Meio serve para algo, é para deixar viva na memória dos brasileiros sua herança musical que, assim como seu ídolo de Memphis, jamais morreu.
Raul – O Início, o Fim e o Meio
Brasil – 115 minutos – Documentário
Dir.: Walter Carvalho, Evaldo Mocarzel e Leonardo Gudel
Roteiro: Leonardo Gudel
Cotação Paradoxo: Vale 80% do ingresso
Confira logo abaixo o trailer de Raul – O Início, o Fim e o Meio:

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