quinta-feira, 12 de abril de 2012

O Porto

Imigrantes

O cineasta Aki Kaurismaki pega um pequeno cosmos e transforma em uma grande história no belo O Porto, produção finlandesa rodada na França. Colocando em discussão a forma como imigrantes ilegais são tratados pelas autoridades no país francês, centralizando a trama no caso de um garoto africano que é encontrado por um engraxate na cidade portuária de Le Havre, o diretor põe em polos opostos a lei e a boa vontade humana.

Kaurismaki assina o roteiro, trazendo de volta um dos personagens de seu filme La Vie de Bohemie, lançado em 1992, Marcel Marx, vivido por Andre Willms. Na trama, Marx vive sua rotina com a esposa, Arletty (Kati Outinen, de O Homem sem Passado), indo de casa para o trabalho, do trabalho para o bar, do bar para casa. Sua mulher não está bem de saúde e precisa ser internada no hospital, escondendo do marido a real gravidade de sua situação. Marcel se vê sozinho por um tempo, um tanto sem rumo. Até que ele conhece o jovem Idrissa (o estreante Blondin Miguel), um imigrante ilegal africano que consegue fugir da polícia quando é abordado durante sua chegada – e de seus conterrâneos – ao porto francês. Se condoendo da situação do menino, Marcel resolve acolher o rapaz, com a ajuda de seus vizinhos próximos. Quem pode atrapalhar, no entanto, este ato de humanidade é o inspetor Monet (Jean-Pierre Darroussin, de As Neves do Kilimanjaro), que está no encalço do imigrante fugitivo.

Logo no começo, já é possível perceber que Aki Kaurismaki tem uma forma peculiar de enquadrar seus atores na tela, colocando-os a olhar para seu interlocutor quase que diretamente para a câmera. A impressão que dá, com este ângulo ligeiramente diferente, que causa estranheza de início, é que os atores poderiam facilmente mirar o espectador com o canto dos olhos, caso não houvesse a óbvia impossibilidade. Além de dar certa proximidade entre público e personagem, as performances de todo o elenco lembram, em dados momentos, as que víamos em filmes neorrealistas italianos. Talvez por ter sido uma escola que retratou de forma muito peculiar pescadores, comerciantes e toda a sorte de trabalhadores em clássicos longas-metragens comandados por Roberto Rossellini, Vittorio de Sica e Luchino Visconti é que O Porto pareça herdar algo daquele movimento.

Andre Willms, Kati Outinen, Jean-Pierre Darroussin e Blondin Miguel contribuem para esta lembrança do espectador dada as suas performances bastante desdramatizadas, com um pé maior no realismo do que no naturalismo, tão buscado em produções mais comerciais. Os diálogos entre os personagens parecem bastante corriqueiros, como se não surgissem por uma demanda do roteiro, mas de uma conversa real, entre pessoas normais. Esta total desdramatização no filme de Kaurismaki pode fazer com que alguns pensem que pouca coisa acontece – ou que a trama é conduzida de forma frouxa pelo diretor. Muito pelo contrário. Além de fazer uma história leve e comovente sobre a boa vontade humana, o diretor aponta sua câmera para a situação crítica dos imigrantes na França.

Em O Porto, os imigrantes ilegais chegam ao país nas piores condições e, assim como chegam, voltam ou são presos sem nenhuma esperança de um futuro melhor. A polícia destacada para encontrá-los utiliza de violência desproporcional ao abordá-los. Um deles, no filme, quase dispara seu revólver em direção a uma criança, não fosse impedido pelo inspetor Monet. É óbvio que cada país tem suas leis e que a imigração ilegal deve ser combatida. Mas a forma como ela é realizada é simplesmente errada e desumana. É isso que Aki Kaurismaki tenta mostrar em seu filme, dando uma centelha de esperança aos imigrantes ao demonstrar que existe, sim, alguma empatia entre os seres humanos, representada de forma comovente pelos vizinhos de Marcel, que tentam fazer o possível para ajudar. Embora ainda existam alguns que fazem questão de denunciar para as autoridades a presença de um menino negro no bairro, estes são minoria naquele universo criado por Kaurismaki. Aqui é que surge a barreira entre humanidade e a lei. Todos ali que acolhem o menino estão cometendo um ato ilícito, mas tem em mente que estão fazendo um bem maior. O que deveria ser mais forte? A lei ou a fraternidade? É um pensamento que ronda este trabalho de Kaurismaki.

Escolhido como representante da Finlândia para o Oscar 2012, mas sem conseguir a indicação, e exibido durante o Festival de Cannes em 2011, onde venceu o prêmio FIPRESCI de Melhor Filme, O Porto tem um final alegre e esperançoso, que soa propositalmente irreal devido a todos os seus desdobramentos. É como se Kaurismaki dissesse: “Sim, eu sei que este terceiro ato é tremendamente fantasioso, mas não me culpem por tentar realizar algo que todos gostaríamos que acontecesse”. Não é todo filme que passeia pelo realismo e pela fantasia, com pitadas de humor e drama, de forma tão natural.

O Porto (Le Havre)
Finlândia / França / Alemanha – 93 minutos – Drama
Direção e Roteiro: Aki Kaurismaki
Com Andre Willms, Kati Outinen, Jean-Pierre Darroussin, Blondin Miguel
Cotação Paradoxo: Vale 92% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de O Porto:

Nenhum comentário: