quarta-feira, 18 de abril de 2012

À Margem do Lixo

Reciclagem

Anunciado como estreia nacional para o dia 23 de março, mas não nacional o suficiente para chegar ao Rio Grande do Sul, o documentário Raul Seixas: O Início, o Fim e o Meio, dirigido por Evaldo Mocarzel e Walter Carvalho, continua inédito para os fãs gaúchos do músico, em um daqueles atrasos inexplicáveis. Curiosamente, outro filme de Mocarzel chegou aos cinemas de Porto Alegre antes de seu documentário sobre Raulzito. À Margem do Lixo é a terceira parte da tetralogia do cineasta, que assinou À Margem da Imagem, em 2003, À Margem do Concreto, em 2005, e À Margem do Lixo, em 2008. Sim, você não leu errado. Pronto há quase quatro anos, só agora o documentário de Mocarzel é lançado nos cinemas. Pelo visto, as coisas sempre demoram um pouco mais para este diretor/jornalista carioca.

Em À Margem do Lixo, Mocarzel mostra a situação dos catadores de lixo em São Paulo, construindo sua narrativa com depoimentos dos trabalhadores das mais diversas cooperativas da capital paulista. Além de contarem sobre seu trabalho, os catadores apresentam sua realidade, contam suas histórias pessoais, os problemas e vantagens desta função. Sofrendo com o preconceito de alguns, mas tendo em mente o valor do seu trabalho não somente pela renda, mas pela importância ambiental, os catadores conseguem mostrar o seu lado da história, pouco enxergado quando os vemos pelas ruas, com seus pesados carrinhos.

Muitos dos entrevistados por Evaldo Mocarzel não são nascidos em São Paulo, tendo chegado à cidade da garoa tentando um futuro melhor. Isso constrói um mosaico de sotaques e de experiências diferentes trazidas por cada catador que conta sua história. A ausência de qualquer tipo de legenda identificando os depoentes dificulta o trabalho da crítica para poder desdobrar algumas das entrevistas. Não poderei citá-los nominalmente, portanto. Uma das catadoras conta que saiu de casa, do nordeste, por não suportar mais os acessos de raiva do marido, sendo obrigada a deixar seus filhos para trás. Outro, pensando que a situação em São Paulo seria mais positiva, resolveu partir para a capital sem pensar muito e passou muitas dificuldades até começar a trabalhar como coletor de lixo reciclável.

Reciclar, aliás, é a palavra chave para muitos dos catadores registrados em À Margem do Lixo. Uma das entrevistadas, inclusive, diz sentir orgulho de seu trabalho, visto que o fato de carregar, separar e reciclar o lixo faz do mundo um lugar menos poluído. O que mais impressiona no documentário de Mocarzel é a força destes trabalhadores, que passam por cima do clima ruim, dos perigos do trânsito, dos riscos com a saúde e das inevitáveis provas de força com as quantidades absurdas de lixo recolhidos. Nenhum deles se queixa de sua situação. Mas todos pedem por melhores condições de trabalho.

Este lado político dos catadores é mostrado por Mocarzel. Eles se reúnem regularmente para buscar estas melhores condições, discutindo desde o dinheiro que recebem até os acordos com prefeituras e governos estaduais que possam lhes trazer algum tipo de prejuízo.

Costurando os diversos depoimentos, Mocarzel ainda inclui, de forma bastante impressionista, o processo de reciclagem pelo que passam alguns materiais como o plástico, a lata e o papel. Montado cruamente, sem músicas ou invencionices, Evaldo Mocarzel deixa seus entrevistados contarem suas histórias, colocando-os como protagonistas de seu filme. A demora na chegada deste longa-metragem aos cinemas felizmente não faz com que ele perca sua validade, sendo um documentário interessante ao dar voz a trabalhadores que nem sempre tem chance de se expressar.

À Margem do Lixo
Brasil – 84 min – Documentário
Dir.: Evaldo Mocarzel
Cotação Paradoxo: Vale 85% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de À Margem do Lixo:

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