quarta-feira, 4 de abril de 2012

Heleno

A Estrela Solitária

No futebol atual, jogadores problema não são raridade. Faltam aos treinos, vão à festas em semana (ou em dia) de jogo, bebem até cair, não se importam com a camiseta do clube que vestem, entre tantos atos inconcebíveis para um profissional da bola. Nos anos 40 do século passado, a situação era bem diferente. Este tipo de jogador, se existia, não chegava aos grandes clubes. Com exceção, claro, de Heleno de Freitas. Formado advogado e vindo de família rica, Heleno era dotado de um intelecto privilegiado, ofuscado apenas pelo seu temperamento explosivo. Sua paixão pelo futebol e seu amor pelo Botafogo o fizeram decidir por correr atrás da pelota em vez de advogar em tribunais Brasil afora. Bonito, charmoso e com sucesso legendário com as mulheres, Heleno tinha tudo. Sua história seria um conto de fadas caso Heleno não tivesse encontrado em seu caminho um inimigo que viria a ser imbatível: ele mesmo.

Com este material em mãos, cinematográfico e trágico por excelência, o diretor José Henrique Fonseca (de O Homem do Ano) traz para o século XXI a história de Heleno de Freitas em um belo preto e branco, não fazendo de forma alguma um filme sobre futebol. Heleno é sobre o homem, a pessoa que teve todas as chances para brilhar e que acabou sucumbindo aos vícios – éter, lança-perfume, whisky, cigarros – e à paranoia. Para Heleno, o mundo sempre esteve contra ele. E, como vemos no belo roteiro assinado por Fonseca, Felipe Bragança e Fernando Castets, isso não poderia ser menos verdadeiro.

Rodrigo Santoro vive o craque do título, jogador do Botafogo que, mesmo com inúmeros gols marcados, não conseguia dar um campeonato para seu time do coração. “Faço 2 gols, levamos 3. Quando faço 3, levamos 4”, como o protagonista nos conta logo de início. A culpa, claro, reside nos seus companheiros de clube, um bando de pernas-de-pau que não deveriam vestir a camiseta do Botafogo na arquibancada, quiçá dentro de campo – segundo a ótica de Heleno. Seu temperamento explosivo com os colegas e seus estrelismos fazem com que o craque não seja bem quisto pelo resto do time, a não ser pelo capitão, Alberto (Erom Cordeiro, de Sexo com Amor?), seu único amigo. Conquistador nas horas vagas, Heleno tem um caso com uma bela cantora de boate, Diamantina (Angie Cepeda, de Amor nos Tempos do Cólera), e um namoro com a não menos bela Silvia (Alinne Moraes, de O Homem do Futuro). Acompanhamos os desdobramentos dos seus relacionamentos, suas passagens pelos clubes Boca Juniors, Vasco da Gama e América, até o seu deprimente fim de vida, em um sanatório em Barbacena.

José Henrique Fonseca escolhe contar a história de Heleno de forma não linear, começando, inclusive, com um close assustador de Rodrigo Santoro, magérrimo, definhando como o protagonista no final de sua vida. Só depois observamos o período de glória de Heleno, sempre costurado às cenas do seu confinamento no sanatório. Apesar de ser um recurso que traria, em tese, dinamismo ao filme, a quebra do tempo narrativo não é bem resolvida pelo cineasta. Além de apresentar problemas de ritmo, sendo muito lento em dados trechos e muito rápido, raso, em outros, a falta de informações sobre em que momento se passa a história acaba confundindo. Em três ou quatro situações, o cineasta decide ser importante incluir alguma definição de onde e quando estamos e tasca na tela caracteres para situar o público. Excesso de legendas é problemático, ausência também. Mas de vez em quando, nos momentos que der na telha, é ainda pior.

Se Heleno falha em ser um pouco mais didático ao contar a história do jogador, acerta em cheio ao ter Rodrigo Santoro como protagonista. O ator despontou em sua carreira cinematográfica com um papel dificílimo em Bicho de Sete Cabeças, de Laís Bodanzky, em 2001, no qual era internado em um hospital psiquiátrico pelo pai, vivido por Othon Bastos. Mais de dez anos depois e Santoro retorna a um sanatório, contracenando novamente com Bastos, vivendo mais um personagem desafiador. Heleno é um protagonista difícil de defender ou até de gostar. Arrogante, irresponsável, brigão e cafajeste, o jogador do Botafogo foi o primeiro grande astro do futebol nacional, sempre estampando as capas de jornais e sendo assunto nas mesas de bar.

Santoro escolhe não tirar o pé e encarna todo o egocentrismo de Heleno, não se preocupando caso o espectador goste ou não das atitudes do personagem. Estranhamente, mesmo com tantos defeitos, somos impulsionados a torcer por Heleno. Talvez por já sabermos de sua enfermidade futura, ou talvez pelo charme impresso em cada fotograma. Se o ator está brilhante na fase gloriosa do jogador, mais ainda quando este definha no sanatório. A entrega de Santoro é impressionante. Emagrecendo o bastante para crermos no estado de saúde debilitado do jogador e mantendo o olhar vago e perdido em muitas das cenas no sanatório, o ator consegue talvez sua melhor performance no cinema com Heleno.

A maquiagem realizada em Rodrigo Santoro ajuda na construção do personagem, auxiliando-o a mergulhar no estado terminal de sua vida. Uma pena que este cuidado não tenha sido utilizado em Alinne Moraes, que praticamente passa toda a trama com a mesma (bela) face, sem rugas ou marcas de expressão. Para não dizer que não existe nenhuma intervenção, os cabelos são arrumados estrategicamente para representar idade um pouco mais avançada, não funcionando de forma alguma.

Pecando por soletrar o tema do filme através de um diálogo expositivo e desnecessário entre Heleno e seu irmão no terceiro ato do longa-metragem, José Henrique Fonseca não chega a fazer um trabalho infalível, mas certamente digno de nota. Capturando um personagem folclórico do nosso futebol, um tanto esquecido pelo passar do tempo, o cineasta faz um bom serviço para a memória do esporte brasileiro e, de quebra, ainda comanda uma bela atuação de seu elenco.

Heleno
Brasil – 116 minutos – Drama
Dir.: José Henrique Fonseca
Roteiro: José Henrique Fonseca, Felipe Bragança e Fernando Castets
Com Rodrigo Santoro, Alinne Moraes, Angie Cepeda, Othon Bastos, Erom Cordeiro
Cotação Paradoxo: Vale 80% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de Heleno:

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