sexta-feira, 13 de abril de 2012

Espelho, Espelho Meu

Anões Gigantes

Hollywood tem dessas. Por vezes, um assunto ou personagem é utilizado por produções semelhantes, com um pequeno espaço de tempo as separando, sempre com resultados desiguais. Foi assim com as formigas de Formiguinhaz e Vida de Inseto, com os vulcões de Volcano e Inferno de Dante, com os asteroides de Armageddon e Impacto Profundo, e a lista poderia seguir indefinidamente. A moda da vez são os contos de fada infantis invadindo as telonas com atores em carne e osso. Alguns com viés mais adulto, como Chapeuzinho Vermelho em A Garota da Capa Vermelha e, como será também, com João e Maria na aventura Hansel e Gretel – Caçadores de Bruxas, a estrear em 2013. Outras, tendem a ser mais infantis, como Maleficent, longa-metragem que trará Angelina Jolie como a vilã da história da Bela Adormecida, com lançamento previsto para 2014. E quando a personagem ganha duas versões, adulta e infantil no mesmo ano? Esta é Branca de Neve, que tem um longa-metragem voltado para as crianças, Espelho, Espelho Meu, e um para os mais grandinhos, Branca de Neve e o Caçador, com estreias bastante próximas.

Em Espelho, Espelho Meu, o diretor indiano Tarsem Singh (de Imortais) e os roteiristas Melisa Wallack (de Bill) e Jason Keller (de Redenção) desconstroem o conto de fadas de Branca de Neve, colocando os holofotes na madrasta malvada da heroína, aqui vivida por uma inspirada Julia Roberts (de Larry Crowne). Na trama, anos depois do rei ter sumido sem deixar vestígios, a rainha tenta sair da bancarrota casando-se com um príncipe abastado (vivido por Armie Hammer, de A Rede Social), mas tem seus planos atrapalhados por sua jovem enteada, a doce e meiga Branca de Neve (Lily Collins, de Um Sonho Possível). Sabendo que existe uma mulher mais bela do que ela, a megera ordena que seu lacaio, Brighton (Nathan Lane, de Promessas de um Cara de Pau), leve Branca de Neve para a floresta para ser morta pela fera que vaga pela mata – tarefa impossível para o reles empregado. Abandonada, a moça encontra os sete anões – que, aqui, não trabalham em minas, são ladrões – e é acolhida pelo grupo, servindo, posteriormente, como líder do grupo na tentativa de derrubada da rainha do poder.

Apesar de alguns elementos e personagens estarem presentes, o sumo da história guarda poucas semelhanças com o clássico conto de fadas dos irmãos Grimm. Espelho, Espelho Meu é uma reimaginação. Em dado momento, até pensei que a clássica maçã envenenada não daria as caras, o que acaba acontecendo, mas com um twist bastante interessante. Os figurinos são destaque, coloridos e espalhafatosos, com o propósito de mostrar a veia fantasiosa da história. Julia Roberts traja vestidos tão bufantes que mal consegue se movimentar, com roupas sempre pendendo para o amarelo, denotando sua paixão pelo ouro, e vermelho, cor forte que invariavelmente é tascada nos vilões. Já Branca de Neve usa bastante azul, mantendo a paleta de cores que estamos habituados desde o clássico desenho da Disney. A responsável pelos figurinos, a japonesa Eiko Ishioka, que já havia trabalhado com Singh em Imortais e A Cela, bem como com Francis Ford Coppola em Drácula de Bram Stocker, faleceu antes de poder conferir seu trabalho nas telonas e o filme é dedicado a sua memória.

Apesar de ser uma história de Branca de Neve, Espelho, Espelho Meu nunca escondeu quem é a verdadeira estrela do filme: Julia Roberts. Divertindo-se com sua primeira vilã, a atriz dá charme ao batido papel da madrasta malvada, chegando ao cúmulo de se sentir atraída pelo príncipe. Uma boa sacada, não necessariamente inédita, foi utilizar a própria atriz para o personagem do espelho – uma espécie de Retrato de Dorian Gray às avessas, com o reflexo nunca envelhecendo. Como o filme é notadamente infantil, não espere grandes malvadezas da rainha. O engraçado Nathan Lane, eterna voz de Timão em O Rei Leão, ganha um papel pouco interessante, não extraindo todo o humor que o ator pode oferecer. Enquanto isso, a revelação de A Rede Social Armie Hammer cativa com seu príncipe boboca, perdendo-se apenas quando o roteiro lhe dá a infeliz tarefa de se transformar em um cachorro. Desnecessário, apenas para fazer rir crianças de 2 anos de idade.

Mesmo que a estrela do filme seja Julia Roberts, é preciso alguém para interpretar Branca de Neve. A escolhida foi a bela Lily Collins, que havia despontado com sua performance em Um Sonho Possível. Collins ganha a ingrata incumbência de viver um personagem sem graça, tão doce e inocente que chega a repugnar nos primeiros cinco minutos. Durante o primeiro ato e até parte do segundo, cada vez que a trama investia na mocinha o filme caia. Felizmente, a virada de sua trajetória, quando ela deixa o castelo e parte para sua primeira aventura ao encontrar os anões, gera uma transformação tamanha na menina (e em tão pouco tempo) que parece estarmos vendo outro personagem. Apesar de ser uma mudança forçada, ela é totalmente bem-vinda, já que a Branca de Neve do início era tão sem energia que seria quase impossível não torcer pela madrasta. Quando acontece a virada, Collins finalmente cativa no papel, permanecendo bela e ativa até o final do longa-metragem.

Qualquer história de Branca de Neve que se preze precisa dos anões, e neste quesito, Espelho, Espelho Meu é muito bem provido. Vários dos atores que interpretam os companheiros diminutos da heroína são conhecidos por seus papéis cômicos em filmes e seriados. É o caso de Mark Povinelli, o destaque na turma dos anões, que tem uma paixão platônica por Branca de Neve, que pode ser visto no seriado Are you There, Chelsea?; também é o caso de Jordan Prentice, que foi o destaque do hilário Na Mira do Chefe; Joe Gnoffo, conhecido por seu papel recorrente no seriado Seinfeld; e Martin Klebba, um dos marujos de Jack Sparrow em Piratas do Caribe;

Aqui não existe Dunga, Zangado ou Mestre, alcunhas criadas pelo desenho da Disney. Ainda que alguns ganhem nomes que revelam algum traço de sua personalidade, o filme tenta passar por cima disso, tentando evitar que os anões sejam apenas caricaturas unidimensionais. Eles são as figuras mais engraçadas do filme por causa dos diálogos e pelas performances do septeto, não necessariamente por causa de características pré-definidas. E isso é um ponto alto de Espelho, Espelho Meu.

Os pontos baixos estão na trama fraca, um arremedo de roteiro, que tenta de todas as formas se afastar dos irmãos Grimm, mas nunca consegue uma ideia que suplante o conto original. Sem mencionar alguns embaraçosos momentos, nos quais personagens que estão lutando pela mesma causa sabotam sua missão, trancando uns aos outros, apenas para que depois, o grupo que ficou para trás, possa chegar para o salvamento. Os efeitos especiais são canhestros, revelando o pouco tempo que Tarsem Singh e sua equipe tiveram na produção deste longa-metragem. Realizado a toque de caixa para chegar aos cinemas antes de seu concorrente direto, Branca de Neve e o Caçador, é possível notar que o filme necessitava de um apuro maior em alguns pontos, principalmente na pós-produção. A montagem é deselegante, como se tivesse sido feita realmente às pressas. E Singh não é o cineasta mais interessante com a câmera. O mais arrebatador de seu trabalho são os momentos em que a rainha faz sua viagem através do espelho – com um movimento de câmera terrivelmente batido, mas que ele usa como se fosse algo formidável.

Encerrando com um divertido número musical a la Bollywood, o cinemão indiano, revelando as raízes do cineasta em questão, Espelho, Espelho Meu é melhor do que aparentava ser, mas ainda possui alguns problemas que poderiam ser resolvidos facilmente com maior tempo de preparo. Pode agradar a criançada, mas não deve funcionar muito com o público adulto. Para estes, outra Branca de Neve deve ser mais interessante. Ou não, se formos levar em conta que o filme Branca de Neve e o Caçador tentará fazer com que acreditemos que em algum universo Kristen Stewart é mais bela que Charlize Theron. Só em contos de fada mesmo.

Espelho, Espelho Meu (Mirror Mirror)
EUA – 106 minutos – Comédia
Dir.: Tarsem Singh
Roteiro: Melisa Wallack e Jack Keller, baseado em história dos irmãos Grimm
Com Julia Roberts, Lily Collins, Armie Hammer, Nathan Lane, Mare Winningham, Jordan Prentice, Mark Povinelli, Joe Gnoffo, Danny Woodburn, Sebastian Saraceno, Martin Klebba, Ronald Lee Clark, Robert Emms, Michael Lerner, Sean Bean
Cotação Paradoxo: Vale 65% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de Espelho, Espelho Meu:

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