Vergara Gray
Um ladrão famoso que acaba de sair da cadeia e só pensa em se reunir com sua mulher e seu filho; um rapaz alegre e sonhador, também recém solto da prisão, que deseja praticar um golpe perfeito, mas se apaixona no processo; uma moça órfã, pobre, muda, que se expressa através da dança, com um talento sem tamanho para esta arte; Impossível começar de outro jeito uma crítica sobre A Dançarina e o Ladrão sem destacar os personagens que acompanhamos durante a trama. Escritos de forma rica e vividos intensamente por seus intérpretes, eles são o grande destaque deste trabalho do cineasta espanhol Fernando Trueba (de Chico & Rita), que assina o roteiro ao lado de Jonás Trueba e Antonio Skármeta (este último, responsável pelo livro que deu origem ao “guion”). O longa-metragem foi indicado a 10 Goya em 2010, o Oscar do Cinema espanhol, incluindo Melhor Filme, Melhor Diretor, Roteiro e Ator Coadjuvante (Ricardo Darín), e foi o escolhido pela Espanha para representá-la no prêmio da Academia de Hollywood.
Produção espanhola ambientada no Chile, a ação é desenrolada anos após a queda do regime do general Augusto Pinochet. Presos que não cumpriam pena por crimes brutais acabaram anistiados pelo novo presidente. Desta forma, o popular arrombador de cofres Nicolás Vergara Gray (Ricardo Darín, de Um Conto Chinês) e o malandro pé-de-chinelo Ángel Santiago (Abel Ayala, do inédito no Brasil El Niño de Barro) são libertados, prontos para seguirem novamente com suas vidas. Gray passou cinco anos na prisão e só deseja retornar para os braços da família. O problema é que sua mulher e filho estão em outra, vivendo com um sujeito rico e bem sucedido. Sem saber o que fazer, perdido por causa da situação, Nicolás decide permanecer hospedado no hotel de um amigo até que resolva o que fazer da vida. Neste meio tempo, aparece o jovem Ángel tentando convencê-lo de que um golpe infalível seria a melhor forma para os dois tirarem o pé da lama. Gray não está entusiasmado com a proposta, mas acaba convivendo com o agitado rapaz, que fala pelos cotovelos e sempre está com ideias mirabolantes na cabeça. Boquirroto, Ángel é o oposto de Victoria Ponce (a estreante Miranda Bodenhofer), dançarina pobre que o rapaz conhece logo após sair da prisão. Ela não fala desde que sofreu um trauma de infância e seu jeito meigo encantará o jovem delinquente que, agora, fará ainda mais pressão para aplicar o golpe junto de Gray, a fim de dar uma vida melhor para a menina.
Vivendo à margem e fora da lei, os personagens de A Dançarina e o Ladrão são tudo, menos inocentes. Até a menina Victoria apresenta certos desvios de conduta, certamente engatilhados pelos seus problemas do passado. Ángel pode não ser maldoso, mas sabe mentir como ninguém para conseguir seus objetivos e, apesar de viver com a cabeça nas nuvens, sabe muito bem quais são as consequências de seus atos. Vergara Gray é um legendário gatuno, mas mais maduro, cogita seriamente em deixar sua vida de crimes. Os cinco anos que passou longe da mulher e do filho foram um golpe forte para ele, e suas esperanças de reconstruir sua família acabam por água abaixo por causa desta distância.
Mesmo corruptos, por um lado ou por outro, torcemos pelos personagens. E não haveria de ser diferente. Um dos principais planos mostrados no filme é o roubo de um dinheiro pertencente a um manda-chuva da ditadura de Pinochet, uma grana preta não declarada e que nunca seria colocada à procura da polícia, dado sua origem duvidosa. Para o trio principal, o roubo é uma forma de dinheiro fácil. Para o espectador, chileno principalmente, o roubo serve como uma maneira de exorcizar antigos demônios. Um tapa na cara do regime ditatorial de Pinochet. Mesmo sendo uma história de ficção, os chilenos merecem este tipo de retribuição.
Já é lugar comum, mas é impossível assistir a um novo trabalho de Ricardo Darín e não enchê-lo de elogios. Quem conferiu seus filmes anteriores, como O Filho da Noiva, 9 Rainhas, O Segredo dos seus Olhos, Abutres e Um Conto Chinês (só para citar os mais conhecidos) percebe que cada um de seus personagens é diferente entre si, nos detalhes mais minuciosos até os mais óbvios. Darín não é um ator de se recostar na maquiagem ou em diferentes tipos de cabelo para diferenciá-los ou construí-los. São os pequenos gestos, as expressões mais simples que diferem seus diferentes papéis. Em A Dançarina e o Ladrão, Darín vive um ladrão reconhecido, por mais estranho que possa parecer. Do tipo que é parado na rua para dar um autógrafo. Esta sua notoriedade o deixa inquieto, até por saber que qualquer movimento seu em falso pode ser observado e o levar direto para a cadeia novamente - destino que Vergara Gray prefere nem cogitar. Por ter perdido sua família para um sujeito rico, o orgulho do ladrão está ferido. Não será ele quem pagará pelos estudos do filho, quem lhe levará em férias ou quem lhe dará a mesada. Esta impossibilidade monetária acaba fazendo com que ele fique mais aberto às investidas de Ángel. No entanto, o que faz Gray ceder ao golpe é a amizade construída entre os dois. Talvez Gray enxergue um pouco dele nas falácias do garoto. Ou o veja como um filho. Quando o ladrão conhece Victoria, e percebe a devoção de Ángel pela menina, tudo muda na relação dos dois ex-presidiários.
Ángel vê Gray como um mestre, a única figura que poderá ajudá-lo em seus planos. O que não estava planejado é a paixão do garoto por Victoria. Um acontecimento fortuito o deixou lado a lado com a menina e os dois se entenderam prontamente. É a velha história de um complementar o outro. Enquanto Victoria não fala, Ángel não consegue ficar calado. Victoria é pé no chão, entende que sua vida não deve melhorar. Ángel é fantasioso, acredita que conseguirá fazer uma grande revolução, ficando rico e colocando sua amada a dançar no Municipal. Apesar dos caminhos tortos, toda a fantasia que viaja pela cabeça do jovem ladrão parece ajudá-lo. Abel Ayala transmite bem esta alegria de viver do personagem, fazendo um interessante contraponto com a carranca sempre fechada de Darín. Seu sorriso sempre aberto esconde cicatrizes do passado, no entanto. A estreante Miranda Bodenhofer tem uma tarefa ainda mais complicada, já que precisa passar seus sentimentos sem proferir uma palavra. A jovem atriz é um destaque positivo do longa-metragem.
A Dançarina e o Ladrão conta com passagens tão belas que chegam a ser poéticas. Destaques ficam por conta das cenas envolvendo os números de dança de Victoria, tão importantes que dão nome ao filme em sua língua original, El baile de la Victoria. Fernando Trueba comanda muito bem estas cenas, incorporando-as ao filme sem nunca soarem alienígenas dentro da trama. É bem verdade que o diretor tem problemas em dividir o tempo de tela com os diversos personagens, esquecendo por vezes de alguns até que lhe sejam úteis. Outro pecadilho é o fato de a história se arrastar um pouco mais do que o necessário. Um novo corte, com 10 minutos menos, talvez, pudesse deixar o filme mais redondo. Mas nada que estrague a experiência de conferir este belo filme espanhol, com sangue argentino e alma chilena.
A Dançarina e o Ladrão (El Baile de la Victoria)
Espanha – 127 minutos – Drama
Dir.: Fernando Trueba
Roteiro: Fernando Trueba, Jonás Trueba e Antonio Skármeta
Com Ricardo Darín, Abel Ayala, Miranda Bodenhofer, Ariadna Gil
Cotação Paradoxo: Vale 85% do ingresso
Confira logo abaixo o trailer de A Dançarina e o Ladrão:

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