The Q Files
Quando assisti ao trailer de Área Q, não consegui evitar de soltar uma gargalhada em pleno cinema. Apresentando efeitos especiais canhestros e contando o resumo da história no pior estilo filme B norte-americano, este preview do longa-metragem do cineasta Gerson Sanginitto (de The Morgue, inédito no Brasil) fazia um total desserviço à produção. Era impossível ter vontade de assistir a Área Q baseado naquele trailer. Para quem, como eu, ainda assim enfrentou uma sessão desta ficção científica, encontrou um filme que não era tão terrível quanto o trailer pressupunha, mas também escapa por muito pouco de ser um total embaraço.
Gerson Sanginitto, sua esposa, Carina, e Halder Gomes assinam a história de Área Q, que serviu como base do roteiro co-escrito por Julia Camara e o próprio diretor. Estranhas abduções e uma curiosa luz branca, com tons alaranjados, são corriqueiras na pequena cidade de Quixeramobim, no interior do Ceará. O jornalista norte-americano Thomas Matthews (Isaiah Washington, do seriado Grey’s Anatomy) é escalado pela revista que trabalha a escrever sobre estes estranhos acontecimentos, mas tem receio de viajar para longe de casa em meio às investigações do desaparecimento de seu filho. Ao chegar ao Brasil, Thomas percebe que algo realmente estranho acontece, passando a conversar com habitantes do local que juram terem sido tocados miraculosamente por seres extraterrestres. Mal sabe o jornalista que a gênese do seu drama pode estar mais perto do que ele pensava.
Por mais batidas que sejam as histórias sobre alienígenas e abduções, Área Q tem um roteiro até bem estruturado, com algumas boas ideias aqui e ali. A quebra do tempo narrativo funciona e o fato de a história ser contada em flashback dá a possibilidade de entendermos o que se passa pela cabeça do jornalista em terras tupiniquins. Nada de novo, é verdade. Mas funciona. O problema de Área Q não é o roteiro. É sua execução. Tudo parece amador. A fotografia, a iluminação, a direção de arte, a montagem e, principalmente, a direção são incrivelmente pobres. É difícil fazer uma ficção científica com orçamento limitado. Mas é ainda mais difícil quando as pessoas responsáveis por cada departamento, por mais esforçadas que sejam, não consigam dar um bom resultado no final.
A fotografia é simplória, ganhando algum cuidado maior em momentos oníricos ou durante uma lembrança. No todo, o longa-metragem parece ser filmado com uma câmera digital barata, com uma qualidade de imagem aquém da televisão brasileira – hoje, até novela parece ser filmada com película (não é, mas parece). A direção de arte paupérrima não consegue criar espaços que aparentem minimamente um lugar verdadeiro. Mesmo que não seja estúdio, é esta a impressão que fica. Não adianta filmar em locação se a produção não consegue construir um quarto de hotel convincente, ou uma casa de classe média verossímil. Com sérios problemas de ritmo, a montagem também deixa a desejar, como se sempre perdesse o momento certo do corte, deixando algo a mais em cada cena.
Quanto à direção em geral, Gerson Sanginitto sabe que não tem dinheiro para mostrar alienígenas, naves espaciais e todas as pirotecnias que se espera de um filme deste gênero. Portanto, sabiamente, prefere não se arriscar. Muita coisa é sugerida e não mostrada em Área Q, o que é bastante louvável. O fato de não conseguir dar um visual mais profissional ao seu filme depõe contra o seu trabalho, certamente. Mas, pelo menos, o cineasta mostra ter consciência de que não é possível fazer um Independence Day com um orçamento que não pagaria um Chevette. A câmera quase documental utilizada durante as entrevistas de Thomas Matthews sempre parece fora do lugar. Como se não pertencesse ao filme em questão. Fora as atuações, que são desniveladas, para dizer o mínimo.
É sempre difícil atuar em outra língua, e Tania Khalill prova que ainda não está pronta para alçar voos mais altos em uma carreira internacional. Murilo Rosa patina no inglês também, mas não está mal nos momentos em que encarna o alienígena falando em português. Já Isaiah Washington, mesmo atuando em sua língua natal, não consegue carregar o filme nas costas, passando vexame em algumas cenas que exigiam alguma emoção maior.
Misturando história de abdução com espiritismo, Área Q é uma ficção científica de baixo orçamento, que tenta entregar um material de qualidade, mas esbarra em suas próprias limitações. É louvável que cineastas brasileiros tentem passear por gêneros variados, mas ficção científica necessita de know how e de dinheiro – duas coisas que faltaram nesta co-produção Brasil/Estados Unidos.
Área Q (Area Q)
Brasil/EUA – 100 minutos – Ficção Científica
Dir.: Gerson Sanginitto
Roteiro: Gerson Sanginitto e Julia Camara, baseado em história de Gerson Sanginitto, Carina Sanginitto e Halder Gomes
Com Isaiah Washington, Murilo Rosa, Tania Khalill
Cotação Paradoxo: Vale 25% do ingresso
Confira logo abaixo o trailer de Área Q:

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