segunda-feira, 16 de abril de 2012

12 Horas

Jill

O cineasta brasileiro Heitor Dhalia tem em sua filmografia dois filmes excepcionais e bastante diferentes entre si: Cheiro do Ralo e À Deriva. Tudo o que o primeiro tinha de cínico e de estranho o segundo ganhava em lirismo e reflexão. Uma pena que este cuidado com seus trabalhos nacionais não pode ser repetido em sua estreia em Hollywood. 12 Horas é um thriller padrão, sem grandes novidades ou qualidades, produção parecida com aquelas feitas diretamente para a televisão.

O roteiro de 12 Horas é assinado por Allison Burnett (do rasteiro Anjos da Noite: O Despertar) e acompanha a jovem Jill (Amanda Seyfried, de O Preço do Amanhã), garota traumatizada por ter sido seqüestrada há alguns anos. Ou não. Nunca foi provado que Jill realmente tenha sido abduzida por um criminoso, já que ele nunca foi encontrado e as investigações não encontraram provas de que a moça falava a verdade. Internada em um sanatório por algum tempo, Jill agora mora com a irmã, Molly (Emily Wickersham, de Eu sou o Número Quatro), e vive em estado de vigília perene. Quando retorna do trabalho certo dia, Jill não encontra Molly na casa e assume que sua irmã foi capturada pelo mesmo sujeito que a seqüestrou no passado. Desacreditada pelos policiais, a moça agora precisa provar para todos que sempre esteve certa.

Além de ser incrivelmente batido o fato de a personagem central precisar resolver tudo por conta própria, o roteiro (e a própria atriz) não faz o trabalho bem feito em convencer o espectador de que estamos vendo alguém levemente desequilibrado. Para que 12 Horas funcione, precisaríamos ter dúvidas se Jill foi seqüestrada ou não. Fora o fato de a moça ser uma mentirosa compulsiva – o fazendo para conseguir investigar o caso, diga-se – nada que nos é mostrado conseguiria convencer o público de que ela não fala a verdade para a polícia. Talvez com uma atriz mais talentosa, que transmitisse um senso de paranoia mais agudo, o suspense funcionasse. Não é o que acontece. Amanda Seyfried melhorou bastante desde que estourou em Mamma Mia!, mas ainda tem muito a aprender. A cena em que ela, supostamente desesperada, conta do seqüestro de sua irmã para uma bancada de policiais chega a ser triste de tão mal executada.

Pode-se argumentar que Jill, em dados momentos, parece maluca. Mas isso não prova que ela não foi sequestrada. Daria até mais indícios que ela teve uma experiência traumática no passado. A ação dos policias no filme beira o irresponsável, passando para o risível no decorrer da trama. Em primeiro lugar, não acreditam na moça (e tem seus motivos para tal), mas não chegam a averiguar em momento algum as alegações da garota. Se os policias acreditam que a Jill é desequilibrada, mandá-la para casa depois de ela ter feito seu relato é incrivelmente insensato. Com o desenrolar dos fatos, chega a ser engraçado que uma frágil mulher consiga desbaratar um bando de policiais. Inverossímil é pouco.

Heitor Dhalia é um bom diretor, dada a sua ficha corrida, mas patina nos clichês em 12 Horas. Em dado momento, Jill está investigando um apartamento vazio e, ao abrir a porta do closet, um gato pula a assustando (e ao público). Sério. O susto mais barato de histórias de suspense é incluso, fazendo com que não tenhamos nenhuma esperança de que o filme melhore a partir dali. Existe ainda um bando de personagens descartáveis, colocados na trama apenas para aumentar o número de possíveis suspeitos. Incrível como Jennifer Carpenter, atriz que vive a irmã de Dexter no seriado homônimo, aceitou viver pelo segundo filme consecutivo (depois de O Pacto) a melhor amiga da protagonista, aparecendo em apenas duas dispensáveis cenas.

Com uma conclusão tão morna quanto todo o resto do filme, 12 Horas é uma estreia infeliz de Heitor Dhalia em Hollywood. Difícil acreditar que o cineasta criativo de Cheiro do Ralo e À Deriva tenha assinado um longa-metragem tão medíocre quanto 12 Horas. O que aconteceu com Dhalia, no entanto, não é inteiramente sem precedentes. Walter Salles, por exemplo, havia assinado o premiado Central do Brasil e o belo Abril Despedaçado no Brasil para depois estrear no cinemão norte-americano com um arremedo de suspense chamado Água Negra. O afã para conseguir uma inserção dentro da grande indústria cinematográfica mundial não fez bem para ambos os diretores. Salles ainda conseguiu a volta por cima, assinando o ótimo Linha de Passe e está prestes a lançar a aguardada adaptação de Na Estrada, de Jack Kerouac. Espera-se que Dhalia também consiga se recuperar deste embaraço.

12 Horas (Gone)
EUA – 94 minutos – Suspense
Dir.: Heitor Dhalia
Roteiro: Allison Burnett
Com Amanda Seyfried, Daniel Sunjata, Jennifer Carpenter, Sebastian Stan, Wes Bentley, Nick Searcy, Emily Wickersham
Cotação Paradoxo: Vale 30% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de 12 Horas:

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