sexta-feira, 23 de março de 2012

Pina

Dance

Ao assistir Pina nos cinemas, com o seu maravilhoso visual e intensa paixão dos dançarinos, mal dá para acreditar que o filme quase não saiu do papel. O projeto do longa-metragem iniciou como uma parceria entre o cineasta Wim Wenders e a coreógrafa Pina Bausch, no qual os dois colocariam nas telas de cinema, em 3D, os belos números musicais criados pela veterana artista. Em 2009, faltando dois dias para o início das filmagens, uma desagradável notícia choca o mundo: Pina Bausch morre, vítima de um câncer não diagnosticado, pegando todos de surpresa. O fato cai como uma bomba em Wenders, que decide cancelar o filme em respeito à morte da coreógrafa. Mas que jeito melhor de prestar uma homenagem à falecida do que um filme sobre sua tão amada forma de arte? Tempo depois, Wenders decide retomar o projeto, convidando dançarinos que participaram dos mais diversos números criados por Pina. Assim, o que seria uma parceria entre dois nomes consagrados da arte alemã se transforma em uma bonita ode de Wenders à Bausch.

Confesso que não conhecia a fundo o trabalho da coreógrafa. Reconhecia sua importância, soube da passagem de sua companhia nos teatros de Porto Alegre em 2011, mas nunca tive contato com a obra de Pina. E nem por isso gostei menos do documentário de Wim Wenders. Para quem gosta de dança moderna e já tinha conhecimentos prévios sobre os trabalhos, o filme é puro deleite. Para quem desconhecia, e me incluo neste grupo, os 106 minutos de projeção são de surpresa, uma curiosa viagem, com momentos divertidos, emotivos, empolgantes e fascinantes. O roteiro é assinado pelo próprio diretor, que consegue unir muito bem os números da coreógrafa com depoimentos comoventes de seus pupilos.

O advento do 3D é maravilhoso em Pina, pois dá uma dimensão muito viva aos dançarinos e aos cenários. Logo no começo, nos deparamos com um palco italiano em pleno cinema. A profundidade do 3D é tão bem produzida que a impressão que temos é que realmente existe um palco no espaço onde, até bem pouco tempo, durante os trailers, estava uma tela branca. Neste palco, Wenders traz quatro grandes trabalhos de Pina: “O Rito da Primavera”, “Café Müller”, “Contato” e “Lua Cheia”.

É impressionante observar o quanto os objetos ou elementos físicos eram importantes para a construção dos cenários dos trabalhos de Bausch. Em “O Rito da Primavera”, o chão do palco era forrado com areia grossa, com os dançarinos fazendo as coreografias com os pés descalços na terra. Em “Café Müller”, cadeiras aos montes são colocadas no palco, enquanto uma dançarina vaga em cena de olhos fechados. Em “Lua Cheia”, o palco é literalmente inundado, com direito a um grande objeto de cena que imita uma rocha. Ondas são criadas e vemos inclusive a água bater nas pedras, como se fôssemos transportados para uma praia deserta dentro do próprio teatro. Wenders captura estes momentos com maestria, ora deixando a câmera longe o suficiente para que nos sintamos dentro de um teatro, ora aproximando-a o bastante para que fiquemos muito próximos da ação.

Apesar de serem riquíssimos os momentos no palco, o melhor de Pina é quando Wim Wenders liberta o trabalho da coreógrafa das amarras do teatro e o deixa livre, nas ruas. As belas performances disputam espaço com carros passando rapidamente, trens elevados fazendo suas viagens, transeuntes passeando apressados. Este contraste entre a arte e o cotidiano urbano é belissimamente retratado pelas câmeras de Wenders, que dá um ar bastante onírico para algumas passagens.

Outra escolha interessante de Wenders é observada durante os depoimentos dos bailarinos que trabalharam com Pina. No lugar das tradicionais cabeças falantes, olhando para a câmera e contando suas histórias, o cineasta alemão utiliza a voz dos entrevistados sobre uma imagem silenciosa, reflexiva de tal pessoa. Eles nos fitam nos olhos, enquanto ouvimos seu depoimento sobre o trabalho de Pina. É bom que se diga que o documentário é sobre a obra e o método de Bausch, e não sobre sua vida pessoal. Portanto, não espere um filme tradicional, contando início, meio e fim da existência da retratada. Pina é outra coisa.

Causa espanto a quantidade de artistas de nacionalidades diferentes que trabalharam com Pina. Alemães, espanhóis, japoneses, italianos e até brasileiros passaram pelas mãos da coreógrafa. A artista dá as caras em alguns momentos, em vídeos e fotos de arquivo. É de se perguntar o quanto ela apareceria – ou SE apareceria – caso ainda estivesse viva. O projeto teria sido executado de outra forma caso Pina não tivesse deixado este mundo tão repentinamente, aos 69 anos, ainda muito ativa artisticamente. De qualquer forma, do jeito que ficou, Pina é uma bela homenagem, um trabalho que encanta pela sua beleza plástica e pela força de uma obra tão consistente como a criada por Bausch. Ela certamente ficaria orgulhosa.

Pina
Alemanha – 106 minutos – documentário
Dir.: Wim Wenders
Roteiro: Wim Wenders
Cotação Paradoxo: Vale 100% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de Pina:

Um comentário:

Claudia Castro disse...

Pina era sensível, enigmática e acessível, difícil descrevê-la, amei o filme e Win Wenders foi perfeito, como sempre, aliás