quinta-feira, 22 de março de 2012

Anderson Silva: Como Água

Ultimate Champion

Anderson Silva – Como Água é um documentário concebido para fãs e não fãs do Ultimate Fighting Championship, o popular UFC. Digo isso porque as cenas envolvendo os combates propriamente ditos ocupam pouquíssimos minutos de narrativa. O que interessa para o diretor estreante Pablo Croce não é mostrar dois lutadores no octógono, mas conhecer quem está por trás deste esporte que tem conquistado cada vez mais admiradores e gerado cada vez mais dinheiro. Como figura central do documentário, Croce escolheu o ídolo brasileiro Anderson Silva, um lutador que tem talento sobre-humano para o esporte e que passou por um inferno profissional no ano de 2010, período que o filme abrange.

Não é necessário ter visto uma luta de UFC para conhecer Anderson Silva. Desde 2011, o lutador virou garoto propaganda de diversas marcas fortes, famoso por saber rir de si mesmo devido à voz fininha, não condizente com seu porte. No Brasil, Anderson Silva já transcendeu o esporte. Quem acompanha o UFC e é fã do lutador sabe que o ano de 2010 foi dificílimo para Silva. Ao defender seu título no UFC 112, o lutador preferiu se afastar do seu adversário durante a luta, dançando e se esquivando, sem entrar realmente no espírito mais brutal do esporte. Criticado por sua atitude, Silva se viu quase expulso do campeonato pelo presidente do UFC, Dana White, e percebeu que teria de provar seu valor. Seu próximo adversário, o lutador norte-americano Chael Sonnen, começou uma saraivada de insultos e provocações na imprensa, fazendo de tudo para vender a luta que traria novamente Anderson Silva defendendo o título. Será que Sonnen conseguirá realmente aposentar Silva, como repetiu diversas vezes durante entrevistas?

Para quem está sempre ligado no esporte, a resposta a esta pergunta é óbvia. Nem por isso, Croce apresenta o desenrolar dos fatos antes do necessário. Para o diretor, todos os espectadores são neófitos no assunto, e sua forma de contar a história não difere em nada de longas-metragens de ficção. Existe o mocinho, Anderson Silva, o vilão, Chael Sonnen, e toda uma preparação para que cheguemos ao final e acompanhemos a luta com algum interesse. Isso não chega a ser um demérito. Problema de Como Água é sua mixagem de som. Em alguns trechos, era muito difícil entender os depoimentos dos entrevistados. A música de fundo sempre estava mais alta que o desejado, contrapondo-se com uma captação pobre de áudio das entrevistas.

Chapa branca como quase todo o documentário sobre esportistas, Como Água pinta Anderson Silva como uma figura família, humilde, centrado e responsável na medida do possível. Não dá para saber o quanto ele é realmente daquela forma, já que nunca somos nós mesmos em frente a uma câmera. Mas Silva dá indícios de que se ele não é tudo aquilo, é algo bem próximo. Mesmo mostrando um lado muito positivo de Anderson Silva, o documentário não se furta em apresentar alguns defeitos, como o fato do lutador não aceitar bem a derrota (e as cenas em que ele treina um protegido são assustadoras pela falta de sensibilidade com alguém que acabara de perder uma luta) e por demonstrar a sua pouca esperteza em utilizar a imprensa na hora de confrontar seu adversário.

Sonnen, por outro lado, é pintado como um vilão clássico: boquirroto, arrogante e temperamental. O lutador norte-americano parece não entender que ao ridicularizar Anderson Silva na imprensa, cada palavra é combustível para um adversário ferido. Para não dizer que Como Água só mostra o lado feio de Chael Sonnen, existe uma cena em que ele explica de onde veio e como para ele este esporte é sua vida. E é só.

Apesar de as lutas não ganharem destaque em Como Água, esperava ao menos que o grande confronto final tivesse um pouco mais de espaço. A impressão que dá é que Anderson Silva apanhou tanto neste embate que o diretor ficou com receio de colocar um pouco mais da luta. É curioso como a vida real consegue imitar os filmes, visto que a peleia entre Anderson Silva e Chael Sonnen tem roteiro digno de longas-metragens hollywoodianos. Por falar nisso, até o veterano Steven Seagal aparece para apoiar Anderson Silva antes da luta final. Após observar o combate, o ator não esconde a expressão de espanto ao ver a brutalidade e o sufoco pelo que passou Silva. Dito isso, se parecia exagero Como Água abrir com um depoimento de Bruce Lee, este pensamento desaparece após observarmos pelo que Anderson Silva teve de atravessar para chegar onde chegou.

Anderson Silva: Como Água (Like Water)
EUA – 76 minutos – Documentário
Dir.: Pablo Croce
Roteiro: Ramon Lemos, Lyoto Machida, Damaso Pereira, Ed Soares
Cotação Paradoxo: Vale 76% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de Anderson Silva: Como Água:

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