terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

O Artista

Sem palavras

No início, éramos mudos. Ao menos, no cinema. A gênese da linguagem cinematográfica começou com nomes como os irmãos Lumière, George Méliès, D.W. Griffith, Fritz Lang, todos utilizando a câmera para, a seu modo, contar histórias, sem utilizar um som sequer. A música, que embalava o filme, era tocada ao vivo, no cinema, e, na maioria das vezes, nem era escrita originalmente para a história. Cada casa de exibição fazia o que podia e tocava o que queria como cobertura para as imagens saídas do projetor. Isso até uma revolução chamada O Cantor de Jazz aparecer, em 1927, com algumas cenas sonoras, e derrubar completamente o cinema mudo de até então. Charlie Chaplin, um verdadeiro gênio em gags que nunca precisaram de som algum, se recusou, de início, a se engajar na novidade. Passageira, muitos pensaram. Assim como as bandas de guitarra na época dos Beatles, que alguns diziam ser uma onda do momento, sem futuro, os filmes falados chegaram e ficaram. E muitos astros se perderam no ostracismo por não conseguirem acompanhar a revolução (Chaplin se deu conta a tempo e fez trabalhos falados magníficos). É neste universo que habitam os personagens de O Artista, uma verdadeira ode à sétima arte.

Créditos iniciais. O Artista começa como os clássicos filmes mudos em preto e branco. Cartelas estáticas com os nomes dos atores e da equipe e música pomposa embalando o rol de profissionais que trabalharam na produção. Tudo para que o espectador já entre no clima. A proporção de tela, 1:33, também é devidamente utilizada, mimetizando aquelas antigas produções. Primeira cena: 1927. No filme dentro do filme, o ator George Valentin (Jean Dujardin) interpreta um herói que está sendo torturado por uma perigosa dupla. Tudo o que os vilões querem é que o mocinho desembuche. Fale. Mas isso ele não fará, nem que morra. O filme dentro do filme acaba, as inevitáveis palmas surgem e Valentin vai para o palco em frente à tela para ser ovacionado pela plateia, adorando cada segundo de sua fama. Esta pequena seqüência não dura mais do que cinco minutos e resume muito bem o que veremos nos próximos 95: um ator orgulhoso que acaba perdendo espaço por simplesmente não falar. Ou melhor, por não acreditar que alguém iria querer vê-lo falar. O diretor e roteirista Michel Hazanavicius apresenta seu protagonista de forma econômica e com muita competência, conseguindo realizar seu sonho de muito tempo: fazer um filme mudo em pleno século XXI.

Para isso, resolveu situar sua história naquele momento transformador em 1927, quando o cinema mudo deixou de ser o modelo corrente de produção em “Hollywoodland”. Lembrando em alguns momentos Cantando na Chuva, clássico musical de Gene Kelly e Stanley Donen que faz um panorama daquela situação, O Artista consegue ir além, não só contando uma história passada naquela época como utilizando as características cinematográficas do período para tanto. Ou seja, acerto em cima de acerto.

Mas o que seria de um romance se não houvesse uma protagonista feminina? Bérénice Bejo é a obstinada Peppy Miller, atriz iniciante que tem um encontro fortuito com George Valentin sob os holofotes da imprensa. Todos se perguntam quem é aquela bela e carismática garota. Aproveitando o bom momento, Peppy decide fazer um teste para entrar no elenco dos estúdios Kinograph, comandado pelo chefe de bom coração Al Zimmer (John Goodman). Existe uma grande admiração de Peppy para com Valentin, ator que dá dicas e uma boa força para a moça no seu início. Peppy tem uma paixão platônica pela estrela de cinema e, quando percebe, está dentro de seu camarim, sonhando com um abraço, flertando com seu ídolo. Infelizmente, a parceria entre os dois não dura mais do que uma pequena cena em uma produção muda. Logo, o ator perde espaço e, como boas estrelas megalomaníacas geralmente fazem, perde todo o seu dinheiro investindo em uma produção no pior estilo elefante branco, com orçamento estourado e diárias infinitas. Enquanto isso, Peppy acaba galgando degraus dentro do estúdio, iniciando com pequenos papéis até começar a estrelar seus próprios longas-metragens.

O roteiro de Michel Hazanavicius ganha pontos por não tentar reinventar a roda, mantendo-se fiel a situações recorrentes em Hollywood, construindo um trabalho que, apesar de por vezes fantasioso, poderia ter acontecido realmente com qualquer grande estrela daquele período. As partes fantasiosas, inclusive, são uma espécie de molho especial que o cineasta francês inclui em sua trama. Logo de início, em uma cena genial, Valentin percebe que todos os objetos a sua volta ganharam som, mas sua voz se apagou. Mais um lembrete de que a trama versa sobre um sujeito que perdeu o poder da fala, que não consegue mais se expressar, seja artisticamente, seja com as pessoas de quem gosta. Sua esposa o deixa pela falta de comunicação do casal, por exemplo. Todos os caminhos levam para uma ressurreição de Valentim como uma pessoa menos orgulhosa, propensa a esticar o braço e gritar por socorro – fato espelhado na cena final de sua produção fracassada. Aliás, todas as cenas dos filmes dentro do filme têm algo a dizer sobre a grande trama.

Hazanavicius tem a sorte – ou talento – em escolher um elenco fabuloso para dar asas ao seu trabalho. Jean Dujardin é o ator perfeito para interpretar George Valentin. Dono de um sorriso cativante e expressões faciais maleáveis, Dujardin consegue suplantar as fáceis caretas entregando uma performance sublime, na qual é possível perceber a alegria e a dor do protagonista em igual proporção. Tanto pelo sorriso quanto pelo olhar, Dujardin cativa o espectador, fazendo com que acreditemos que sua espiral de terror durante os anos negros de sua carreira são realmente sinistros. Da mesma forma, Bérénice Bejo é dona de um sorriso não menos cativante, de uma beleza clássica e de uma expressividade invejável. Sua trajetória não é tão intensa quanto a de Dujardin, mas seu companheirismo e alegria de viver são comoventes, relembrando aquela máxima de que um homem não é nada sem uma grande mulher ao seu lado.

Por falar em companheirismo, é impossível escrever sobre O Artista e não mencionar o cãozinho Uggie, que vive o fiel amigo de Valentin. Uggie é uma espécie de Cosmo Brown, o inseparável amigo de Don Lockwood em Cantando na Chuva. Sua única desvantagem seria o fato de não se comunicar com palavras. No entanto, como estamos falando de um filme mudo, o melhor amigo de George Valentin pode muito bem não saber proferir um vocábulo para ajudá-lo e até salvar sua vida. Com uma simpatia que só os cães da raça Jack Russell conseguem transmitir, Uggie é, sem sombra de dúvidas, uma das estrelas de O Artista.

Completam o elenco, em atuações marcantes, John Goodman, como o dono do estúdio que nunca tem poder sobre seu elenco – fato muito bem ilustrado pelas diversas discussões entre ele e suas estrelas; e James Cromwell, como o chofer de Valentin, um sujeito fiel ao seu chefe, que recusa-se inclusive a deixá-lo mesmo com um ano de salário atrasado.

Além de um bom elenco, O Artista é tecnicamente impecável. Fotografia esmaecida em preto e branco, imitando bem as produções do século passado; direção de arte que nos transporta diretamente de volta aos anos 20/30; trilha sonora memorável, utilizando-se bem de alguns clássicos imortalizados, como é o caso da canção de amor de Um Corpo que Cai, composta por Bernard Herrmann; E um desenho de som fantástico, utilizado a conta-gotas, é claro. Resumindo: O Artista é um corajoso revival do cinema mudo, capitaneado por um ainda mais bravo cineasta. Vale cada centavo do ingresso.

Maratona Oscar: O Artista concorre a 10 Oscar, Melhor Filme, Diretor, Ator (Dujardin), Atriz Coadjuvante (Bejo), Roteiro, Direção de Arte, Fotografia, Trilha Sonora, Montagem e Figurino. O longa-metragem de Michel Hazanavicius só não levará o grande prêmio da noite caso a Academia não dê o braço a torcer em entregar a estatueta para uma produção francesa. Estou apostando minhas fichas em Melhor Filme, Ator e Trilha Sonora. Também estou inclinado em apostar em Hazanavicius como diretor, mas ainda tenho dúvidas se Scorsese não abocanha este Oscar. Assim que escrever sobre A Invenção de Hugo Cabret pretendo fechar esta aposta.

O Artista (The Artist)
Dir.: Michel Hazanavicius
Com Jean Dujardin, Bérénice Bejo, John Goodman, James Cromwell, Penelope Ann Miller, Missi Pyle, Malcolm McDowell e Uggie, the Dog
Cotação Paradoxo: Vale 100% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de O Artista:

Um comentário:

Lana disse...

Simplesmente maravilhoso!! Muito bom trabalho do ator John Goodman assim com em Treme, essa série cujo enredo acho super interessante, a forma como eles mostram a luta dos cidadãos para recuperar suas vidas, suas casas, sua cidade com a ajuda da música. Estou muito ansiosa pelo início da 3ª temporada.