Jackson, Mississipi
No começo dos anos 60, Jackson, no estado norte-americano do Mississipi, contava com uma sociedade paradoxal. O preconceito racial era tamanho que as empregadas domésticas negras não tinham permissão de usar o mesmo banheiro que o seus patrões brancos. No entanto, eram destas mesmas empregadas a tarefa de cuidar e, praticamente, criar os filhos de dondocas e pulhas que as contratavam. Pode parecer loucura, visto que estas mulheres tinham acesso ao bem mais valioso de uma família ao passo que não podiam chegar perto de um sanitário. É para esta sociedade que somos transportados em Histórias Cruzadas, um dramalhão com pretensa mensagem edificante que nunca consegue aprofundar-se em suas temáticas.
Dirigido e escrito por Tate Taylor, baseado no romance “A Resposta” de Kathryn Stockett, o longa-metragem é narrado por Aibeleen Clark (Viola Davis), uma empregada negra que sempre sofreu com o preconceito de suas patroas. Sua história pode mudar ao conhecer Skeeter (Emma Stone), uma jovem que sonha em ser escritora e que acabara de ser contratada no jornal da cidade, “assinando” uma coluna trivial sobre afazeres domésticos. A moça resolve pedir ajuda à Aibeleen, empregada de sua amiga, Elizabeth Leefolt (Ahna O’Reilly), para escrever algumas boas dicas para as leitoras. Mas a coisa não para por aí. A mãe de Skeeter, Charlotte (Allison Janney), demitiu Constantine (Cicely Tyson), empregada que trabalhou para a família durante 29 anos e que foi responsável por boa parte da criação da menina. Frustrada com o destino de sua mãe postiça, Skeeter resolve escrever um livro colocando as histórias das empregadas de Jackson, denunciando todo o preconceito que enxerga em suas amigas ricas – em especial, a falsa Hilly Holbrook (Bryce Dallas Howard). De começo, a adesão é baixa. As empregadas ficam receosas em contar suas histórias e só o fato de serem vistas junto com Skeeter poderia trazer problemas para todas. Aibeleen e sua melhor amiga Minny (Octavia Spencer) são as primeiras a ajudar Skeeter, em uma tarefa que colocará a cidade de Jackson em polvorosa.
Histórias Cruzadas poderia ser um filme maravilhoso caso realmente sujasse as mãos e contasse a verdadeira história por trás do preconceito racial no sul dos Estados Unidos. Vemos cenas que chegam a dar repulsa pelo total desrespeito com o próximo, mas nada parecido com o que de fato aconteceu com as empregadas domésticas sulistas. O filme pega muito leve com grande parte dos personagens brancos, colocando todo o peso da vilania em Hilly, que é a cabeça da comunidade – a pessoa que manda e desmanda em seus amigos. É ela quem convence Elizabeth a construir outro banheiro na casa, exclusivo para a doméstica, é ela quem demite Minny por motivo estapafúrdio, ainda por cima espalhando mentira que fora roubada pela empregada. Difícil levar a sério um trabalho que tenta diminuir para apenas uma pessoa todo um preconceito entranhado naquela região dos Estados Unidos. A Ku Klux Klan, grupo que causou o terror para os cidadãos negros sulistas, é citada rapidamente no filme, mais por protocolo do que por algum motivo ligado à narrativa. Várias possibilidades, portanto, são desperdiçadas em um filme que, pretensamente, tenta mostrar o nojento preconceito racial que ceifou várias vidas naquela época.
O que Histórias Cruzadas tem de positivo é o ótimo trabalho de suas atrizes. Se Emma Stone ainda não consegue carregar uma protagonista dramática de forma convincente, ao menos ela tem ao seu lado um talento como Viola Davis, que dá escopo para sua sofrida personagem. Cada vez que a atriz aparece, o filme ganha um salto de qualidade notável. Sua dobradinha com Octavia Spencer, que serve, em boa parte, como um alívio cômico pela sua forma de agir e se expressar, é um dos pontos altos do filme, competindo, nariz a nariz, com as cenas em que Spencer divide com Jessica Chastain, que vive uma espevitada dondoca excluída da sociedade, sem mesmo saber do fato. No núcleo de Chastain, o preconceito é inverso. Minny tenta explicar a sua patroa como as coisas funcionam – por exemplo, a dona da casa não deve fazer suas refeições com a empregada, muito menos tocá-la. Com o tempo, no entanto, as reservas de Minny vão caindo e ela começa a entender que nem todos os brancos são necessariamente racistas. O trabalho deste trio citado é o que eleva Histórias Cruzadas a um patamar interessante.
De resto, o filme é longo e repetitivo demais, batendo na mesma tecla, como se precisássemos sempre ser lembrados das vilanias de Hilly a cada cinco minutos. Com um diretor mais experiente, talvez tivéssemos um longa-metragem mais enxuto, que tentasse navegar em águas mais profundas. Não é o que acontece com este segundo trabalho de Tate Taylor que, ao menos, parece saber dirigir muito bem o seu elenco.
Maratona Oscar: Histórias Cruzadas foi indicado a quatro Oscar, Melhor Filme, Atriz (Davis) e Atriz Coajuvante (Chastain, Spencer). A indicação na categoria principal é quase uma piada, visto que o longa não emplacou nem Diretor, nem Roteiro Adaptado dentre suas indicações. Suas grandes chances são com Viola Davis – que já havia concorrido ao Oscar por seu pequeno, mas tocante papel em Dúvida - e Octavia Spencer, a grande favorita da noite. Chastain, apesar de estar formidável no papel de dondoca, deveria ter sido indicada pelo seu trabalho em Árvore da Vida.
Histórias Cruzadas (The Help)
Dir.: Tate Taylor
Com Emma Stone, Viola Davis, Bryce Dallas Howard, Octavia Spencer, Jessica Chastain, Allison Janey, Sissy Spacek, Mary Steenburgen
Cotação Paradoxo: Vale 60% do ingresso
Confira logo abaixo o trailer de Histórias Cruzadas:

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