Licorne
É dito com bastante frequência que Hollywood perdeu a criatividade e tem cada vez mais se dedicado a remakes e adaptações literárias para garantir a sua saúde financeira. O velho Business. No entanto, volta e meia, aparece um projeto que é, sim, uma adaptação, comandada por um dos pais do blockbuster, Steven Spielberg, mas que parece não ter surgido apenas para encher os bolsos do estúdio e de seus realizadores. As Aventuras de Tintim, adaptação das histórias do belga Hergé, aparenta ser um projeto genuinamente criado de uma vontade pessoal de Spielberg em trabalhar com o personagem. Prova disto é que poucos realmente conhecem Tintim nos Estados Unidos, nada promissor quando se espera recuperar o investimento na bilheteria caseira. Mesmo assim, por se tratar de um antigo sonho acalentado por Spielberg há anos, o cineasta resolveu arregaçar as mangas e transportar o intrépido jornalista dos quadrinhos para o cinema – com a ajuda de outro fã de Tintim, o diretor da trilogia Senhor dos Anéis, Peter Jackson – esperando que o público internacional desse conta do retorno financeiro do longa-metragem.
Curiosamente, o diretor conheceu Tintim através de Indiana Jones, estrela de uma de suas maiores franquias. Os personagens dividem o mesmo DNA aventureiro e, Spielberg conta, na época do lançamento de Caçadores da Arca Perdida, muitos jornalistas franceses fizeram este paralelo, intrigando-o. Ao conhecer as aventuras do jovem jornalista, Spielberg teria se interessado em fazer a adaptação e, inclusive, conversara por telefone com Hergé sobre o assunto. Infelizmente, um encontro entre os dois nunca aconteceu, já que o pai de Tintim morreu pouco tempo depois. Spielberg teve de esperar quase 30 anos para levar sua versão do personagem aos cinemas, visto que não era sua vontade fazer um live-action pela dificuldade da transposição de personagens fisicamente tão únicos. Depois de ver os milagres tecnológicos de O Senhor dos Anéis e Avatar, Spielberg percebeu que era chegada a hora. E assim o fez.
A trama de As Aventuras de Tintim mistura três histórias criadas por Hergé: O Segredo do Licorne, O Tesouro de Rackham, o Terrível e O Caranguejo das Pinças de Ouro. Steven Moffat (do seriado britânico Sherlock), Edgar Wright (de Scott Pilgrim contra o Mundo) e Joe Cornish (de Ataque ao Prédio) assinam o roteiro, misturando estas três histórias, criando e mudando alguns fatos e personagens. Apesar destas transformações, o espírito de Tintim está bem representado ali.
Na trama, o jovem repórter (Jamie Bell, de Billy Elliot) compra, em uma feira de usados, a réplica de um antigo navio e se vê envolvido em uma espécie de leilão com outros dois insistentes cavalheiros: o esbaforido Barnaby (Joe Starr, de Uma Noite Fora de Série) e o misterioso Sakharine (Daniel Craig, de 007 Quantum of Solace). Não estando interessado em vendê-lo, Tintim recusa as ofertas e volta para a casa, ao lado de seu fiel cachorro Milu. Como um bom jornalista que é, o rapaz fica desconfiado do interesse tão grande daqueles dois homens e resolve investigar o que está por trás disso. Sua investigação o levará a uma aventura atrás do tesouro de um antepassado do beberrão capitão Haddock (Andy Serkis, de O Planeta dos Macacos – A Origem), homem que ele conhece depois de ser raptado pelos vilões que pretendem encontrar a fortuna antes de todos.
O que impressiona, logo de cara, em As Aventuras de Tintim é o visual da animação. Os efeitos são verdadeiramente incríveis, dando vida aos personagens desenhados com o característico traço de Hergé. Existe, inclusive, uma pequena brincadeira quanto a isso no início do filme. Vemos primeiro o rosto de Tintim desenhado, no tradicional estilo do desenhista belga, para só depois observá-lo em sua versão tridimensional. O resultado é soberbo. A tecnologia de captura de movimentos chegou a um patamar em que ficará difícil saber o que é real e o que é criado por computador. Se Spielberg não quisesse, sabiamente, manter o visual cartunesco dos personagens, seria complicado perceber que As Aventuras de Tintim se trata de uma animação. Os olhos, as expressões faciais e toda a movimentação dos personagens são muito críveis. Um golaço de Spielberg.
Passado o embasbacamento inicial com o espetáculo visual, resta acompanhar a trama adaptada e escrita a seis mãos pelo time de roteiristas citado acima. E, devo dizer, que o resultado é bem aquém das expectativas. A história é uma verdadeira montanha-russa, com fatos acontecendo a todo tempo, muita correria, perseguições, tiroteios e explosões. Mas falta algo. É tudo tão rápido, tão frenético, que fica difícil se engajar com os personagens. Em primeiro lugar, é muito frágil o envolvimento de Tintim com o mistério do Licorne. Ele compra um navio em miniatura por impulso, fica intrigado com o interesse dos compradores e, minutos depois, está arriscando a vida por algo que ele nem compreende. Na história original, Tintim compra o navio para presentear seu amigo, capitão Haddock, e ali existe algum investimento emocional. No filme de Spielberg, os personagens se conhecem depois, o que retira esta carga emotiva do início do longa. A mudança, ao menos, resolve um problema da história original – as coincidências, que acomodavam convenientemente alguns pontos da trama. Ao menos, desta forma, Tintim não encontra um navio que, coincidentemente, é uma réplica da navegação comandada pelo antepassado de Haddock. Uma pena que, apesar da tridimensionalidade da arte empregada na realização do longa-metragem, os personagens todos tenham saído totalmente bidimensionais.
De qualquer forma, é possível ainda se divertir com os bons momentos de aventura – no melhor estilo Indiana Jones. Faltou, infelizmente, um tema musical memorável para embalar as peripécias de Tintim. John Williams começa muito bem, com o tema dos créditos inicias, remetendo um pouco o que já fizera em Prenda-Me Se For Capaz. Mas, depois, a trilha meio que se repete, não conseguindo um resultado assoviável como no passado.
Se John Williams parece meio enferrujado, Steven Spielberg é um garoto, se divertindo como nunca ao brincar com as possibilidades da captura de movimentos. Podendo colocar a câmera onde bem entender, fazendo planos seqüência praticamente impossíveis do modo tradicional, o cineasta monta algumas cenas realmente mirabolantes – como a sequência em que acompanhamos a correria de Milu tentando salvar seu amigo das garras dos vilões, ao subir escadas e pular da janela em cima de um ônibus. Milu, aliás, é um dos personagens mais legais e bem desenvolvidos do filme. Atrás, talvez, apenas do Capitão Haddock de Andy Serkis, um verdadeiro gênio no que tange a captura de movimentos. É notável a diferença da performance de Serkis, acostumado com a tecnologia, em relação aos demais do elenco. Uma verdadeira entrega, perceptível no resultado final.
Espetáculo visual, As Aventuras de Tintim peca pela falta de cuidado com o âmago dos personagens, mas consegue divertir o suficiente com suas piruetas e estripulias. A curiosidade agora recai na continuação, que deve ser lançada nos próximos anos. A idéia inicial sempre foi realizar uma trilogia, com Spielberg dirigindo o primeiro e Jackson dirigindo o segundo (com o terceiro ainda sem diretor definido). Quanto do estilo e andamento da história mudarão com o diretor de Senhor dos Anéis assumindo a batuta que foi do pai de E.T.? É esperar e ver.
Maratona Oscar: As Aventuras de Tintim foi indicado a um Oscar: Melhor Trilha Sonora Original, para John Williams. A ausência do longa-metragem na categoria Melhor Animação foi uma das grandes surpresas do Oscar 2012, visto que muitos apostavam todas as fichas não só na indicação como na vitória do longa-metragem de Steven Spielberg. Vencedor do prêmio da categoria no Sindicato dos Produtores (que geralmente acerta) e do Globo de Ouro (que tem errado periodicamente), a ausência de Tintim gerou uma grande dúvida: não foi indicado por não ser bom o suficiente aos olhos da Academia ou por não ter sido considerado animação, visto que atores trabalharam na performance dos personagens? Fica a dúvida.
De qualquer forma, John Williams concorre contra si próprio em um trabalho ainda mais fraco do que em As Aventuras de Tintim, com sua trilha de Cavalo de Guerra. Difícil que o octogenário maestro saia da festa com a estatueta por duas razões: o favoritismo de O Artista (que ainda não vi) e a divisão de votos – quem vota em John Williams tem entre duas produções para escolher, por vezes dificultando o resultado final para o concorrente.
As Aventuras de Tintim (The Adventures of Tintin: The Secret of the Unicorn)
Dir.: Steven Spielberg
Com Jamie Bell, Daniel Craig, Andy Serkis, Nick Frost, Simon Pegg, Toby Jones
Cotação Paradoxo: Vale 70% do ingresso
Confira logo abaixo o trailer de As Aventuras de Tintim:


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