Adeus ano velho, feliz ano novo. O último dia do ano, como de praxe, é período de se fazer aquela velha retrospectiva do que aconteceu nos 365 dias anteriores, observando o que de certo e errado aconteceu – ou foi feito – neste tempo. Para este blog, o último dia do ano tem significado especial. Foi no dia 31 de dezembro que foi criado. Em 2003, para ser mais exato. Portanto, hoje, o Paradoxo completa 8 anos de existência. Passou por fases de atualização semanal, diária e, infelizmente, agora, passa por um período de atualizações esporádicas. Projetos paralelos receberam atenção especial durante este 2011, deixando as críticas diárias do blog em segundo plano. Como em 2012 estes projetos paralelos deverão mudar seu status para trabalhos concretos, acredito que ano que vem será um período de maiores atualizações neste espaço.
Vamos aos números de 2011, então. Diferente de 2010, não foi um período de recordes no que tange atualizações ou filmes assistidos. As idas ao cinema foram bem menores, apenas 91 (contra 186 do ano passado) e as críticas publicadas também diminuíram consideravelmente: foram 73, contra 207 de 2010. Apesar disso, as visitas bateram recordes, aumentando como nunca. Neste momento, o Paradoxo registra 71,894 visitas. Significa que, em 2011, foram 45,990 visitas. Média de 126 por dia. Nunca antes na história deste blog o número foi tão alto. Só tenho a agradecer as pessoas que passaram por aqui e prometer que, em 2012, as visitas serão recompensadas por novos posts.
Feito o registro, desejo um ano novo de muitas conquistas, muita paz e felicidade para todos. Que 2012 seja recheado de bons filmes e ótimas sessões de cinema. Logo abaixo, confiram a lista de filmes criticados no Paradoxo neste 2011, em ordem alfabética.
Um grande abraço,
Rodrigo de Oliveira
twitter.com/RodrigoMcFly
12 Homens e uma Sentença
127 Horas
72 Horas
Além da Vida
Amor à Queima Roupa
Amor por Contrato
Assaltante bem Trapalhão, Um
Assassinato no Expresso Oriente
Atividade Paranormal 3
Biutiful
Bravura Indômita
Caça às Bruxas
Cães de Aluguel
Caminho para Liberdade
Cartas de Iwo Jima
Cisne Negro
Conquista da Honra, A
Cowboys do Espaço
De Pernas pro Ar
Dente Canino
Desenrola
Dia de Cão, Um
Discurso do Rei, O
Dorminhoco
Drink no Inferno, Um
Enrolados
Entrando numa Fria Maior Ainda com a Família
Estranha Entre Nós, Uma
Exit Though the Gift Shop
Fora da Lei
GasLand
Homem do Prego, O
Incontrolável
Impacto Fulminante
Imperdoáveis, Os
Interiores
Inverno da Alma
Jackie Brown
Kill Bill – Vol. 1
Kill Bill – Vol. 2
Lixo Extraordinário
Machete
Mágico, O
Manhattan
Memórias
Minha Versão do Amor
Muppets, Os
Namorados para Sempre
Negócios de Família
Noivo Neurótico, Noiva Nervosa
O que há, Tigresa?
Oceanos
Pânico 4
Pele que Habito, A
Perversa Paixão
Piratas do Caribe: Navegando em Águas Misteriosas
Pontes de Madison, As
Pulp Fiction – Tempo de Violência
Rango
Rede de Intrigas
Rede Social, A
Reencontrando a Felicidade
Reino Animal
Restrepo
Sérpico
Sobre Meninos e Lobos
Sonho de Amor, Um
Thor
Trabalho Interno
Tron – O Legado
Vencedor, O
Veredicto, O
Zelig
sábado, 31 de dezembro de 2011
domingo, 18 de dezembro de 2011
Os Muppets
Man or Muppet
Existe lugar para os Muppets em pleno século XXI? Com a criançada acostumada a assistir animações na tela do computador, será que fantoches de pano criados na época da televisão analógica poderiam atrair ainda a imaginação infantil nos dias de hoje? Depois de assistir ao novo longa-metragem da trupe criada por Jim Henson, Os Muppets, a resposta é um sonoro sim. É possível que parte da plateia petit não seja capturada pelo humor inocente de Kermit (ex-Caco, o Sapo) e cia. Porém, é este humor cândido que diferencia totalmente os personagens de Jim Henson da enxurrada de programas voltados ao público infantil. Desde que Shrek mostrou o caminho da ironia para Hollywood, parece que boa parte dos desenhos (excetuando-se os da Pixar) seguem a mesma trajetória. É salutar que ainda tenhamos alguns produtos inocentes para apresentar à criançada.
Claro que em uma sessão de Os Muppets é facílimo achar uma divisão harmoniosa entre adultos e crianças. Programa da infância de muitos marmanjos e mamães, Kermit, Miss Piggy, Fozzie e Gonzo têm um poder muito forte em mãos: a nostalgia. Muitos têm memória afetiva do seriado, dos filmes no cinema ou, no meu caso, do desenho animado Muppet Babies, exibido à exaustão nas manhãs oitentistas do SBT. Portanto, este reencontro do público com os Muppets é mais do que saudado.
Sorte nossa que o responsável pela volta do grupo aos cinemas é um fã genuíno da turma de marionetes: Jason Segel (de Ressaca de Amor). O ator/roteirista/produtor resolveu arregaçar as mangas e escrever uma nova aventura para os Muppets, agora propriedade dos estúdios Disney, que confiou a direção para James Bobin, do seriado The Flight of the Conchords. Criando uma história que reverencia o passado, mas dá passos sólidos para a inclusão dos muppets no nosso presente, Segel e Bobin fazem um ótimo filme família, cheio de boas e surpreendentes participações especiais.
Walter e Gary (Segel) são irmãos e melhores amigos – mesmo que Walter seja, bem, um muppet e não um humano. Desde criança, Walter é fã número 1 de Kermit e sua turma, por se identificar totalmente com os personagens. Anos mais tarde, Gary e sua namorada, Mary (Amy Adams, adorável como sempre), resolvem viajar para Los Angeles, para comemorar seu décimo aniversário de namoro. Walter viaja com o casal para conhecer os estúdios Muppet e, talvez, encontrar com algum dos astros do passado. Chegando lá, porém, o espaço está caindo aos pedaços e, ainda pior, está sob a mira do inescrupuloso Tex Richman (Chris Cooper, de Beleza Americana), que vê a chance de aumentar seus dividendos destruindo o estúdio e prospectando petróleo no local. Para manter aquele recanto intocado, Walter precisa avisar Kermit do perigo. Agora, o sapo terá de reunir a sua turma novamente para conseguir o dinheiro para recuperar o velho estúdio.
Jason Segel consegue capturar muito bem o clima muppet em seu roteiro, atualizando a turma para uma nova geração. Um de seus acertos foi colocar alguns comentários sobre a trama na boca dos personagens que, em dados momentos, entendem que estão dentro de um filme. Dito isso, é engraçado ver que Mary, ao perceber que Kermit não dá muitas esperanças em uma reunião dos seus amigos, solta um: “Puxa, esse vai ser um filme muito curto”. Ou a criativa montagem durante o reencontro dos muppets, que brinca com a rapidez dos acontecimentos quando são inseridas músicas e um rápido flash de imagens. Outra boa tirada, muito condizente com o mundo real, é Fozzie capitanear uma banda chamada Os Moopets, uma fajuta tentativa de continuar no showbizz, com parceiros de grupo que lembram seus antigos amigos.
Como qualquer bom filme dos Muppets, os números musicais estão presentes. Este é um momento mais para a criançada se divertir. No Brasil, apenas cópias dubladas foram lançadas no cinema, portanto é difícil julgar a qualidade das músicas, visto que elas também foram traduzidas. No geral, os números são bem realizados – com destaque para “Homem ou Muppet”, no qual Jason Segel contracena com um “sósia muppet”, enquanto Walter ganha uma versão em carne e osso surpreendente.
Por falar nisso, no quesito celebridades, Os Muppets estão muito bem servidos. Jack Black, Dave Grohl, Alan Arkin, Bill Cobbs, Mickey Rooney, Zach Galifianakis, Whoopi Goldberg, John Krasinski, entre muitos outros participam em pequenas pontas do filme. Uma grande surpresa é o vilão, interpretado por Chris Cooper, que até ganha um número musical para praticar sua vilania. A performance é tão inesperada que até os muppets aparecem atônitos diante do feito.
Como é um longa-metragem voltado ao público infantil, normal que existam algumas mensagens e lições de moral a serem repassadas. Nada que vá incomodar os adultos ou colocar as crianças para dormir. Walter, por exemplo, precisa encontrar seu lugar no mundo, já que nunca conseguiu fazer isso com seus colegas humanos. Além disso, tem de encontrar um talento adormecido para ajudar seus novos amigos, os Muppets. Enquanto isso, Gary terá de aprender a dividir sua atenção entre o irmão e sua namorada, não deixando assim que um ou outra sofra por sua ausência. Mas a maior mensagem reside no retorno da turma Muppet, que não se encontrava há tempos. Uma prova de amizade valiosa, ótimo ensinamento para as crianças.
Pontos negativos de Os Muppets vão para a extensa duração do filme, longo demais para crianças inquietas, e pelo fato de a Disney ter lançado apenas cópias dubladas no país. Nada mais condizente com uma estreia que tem tudo para levar saudosos adultos ao cinema que colocar algumas cópias legendadas. Felizmente, a dublagem é muito bem realizada, com exceção de Guilherme Briggs, um excelente profissional que parece perdido como a voz de Miss Piggy. Cada vez que a porquinha falava com voz masculina, aquilo me tirava completamente do filme. No original, um homem sempre dublou a personagem, mas não soava tão forçado quanto por aqui.
Com a boa resposta nas bilheterias, Os Muppets faz exatamente o que a Disney esperava: trazer de volta os personagens de Jim Henson para uma nova geração. Muito provável que novos filmes, seriados, desenhos animados e todo o tipo de quinquilharia atrelada a Kermit e sua turma surgirá a partir deste belo e divertido longa-metragem. Para os saudosos, uma boa chance para revisitar as antigas produções e redescobrir os Muppets. Será que agora lançam Muppet Babies em DVD?
[Atualizado] Maratona Oscar: Os Muppets foi indicado ao Oscar de Melhor Canção Original, "Man or Muppet". De forma inédita, apenas duas músicas foram indicadas nesta categoria, o que deixa as chances de acerto bem maiores. Aposto em Os Muppets muito pela memória afetiva dos votantes.
Os Muppets (The Muppets)
Dir.: James Bobin
Com Jason Segel, Amy Adams, Chris Cooper, Rashida Jones, Jack Black, Alan Arkin
Cotação Paradoxo: Vale 87% do ingresso
Existe lugar para os Muppets em pleno século XXI? Com a criançada acostumada a assistir animações na tela do computador, será que fantoches de pano criados na época da televisão analógica poderiam atrair ainda a imaginação infantil nos dias de hoje? Depois de assistir ao novo longa-metragem da trupe criada por Jim Henson, Os Muppets, a resposta é um sonoro sim. É possível que parte da plateia petit não seja capturada pelo humor inocente de Kermit (ex-Caco, o Sapo) e cia. Porém, é este humor cândido que diferencia totalmente os personagens de Jim Henson da enxurrada de programas voltados ao público infantil. Desde que Shrek mostrou o caminho da ironia para Hollywood, parece que boa parte dos desenhos (excetuando-se os da Pixar) seguem a mesma trajetória. É salutar que ainda tenhamos alguns produtos inocentes para apresentar à criançada.
Claro que em uma sessão de Os Muppets é facílimo achar uma divisão harmoniosa entre adultos e crianças. Programa da infância de muitos marmanjos e mamães, Kermit, Miss Piggy, Fozzie e Gonzo têm um poder muito forte em mãos: a nostalgia. Muitos têm memória afetiva do seriado, dos filmes no cinema ou, no meu caso, do desenho animado Muppet Babies, exibido à exaustão nas manhãs oitentistas do SBT. Portanto, este reencontro do público com os Muppets é mais do que saudado.
Sorte nossa que o responsável pela volta do grupo aos cinemas é um fã genuíno da turma de marionetes: Jason Segel (de Ressaca de Amor). O ator/roteirista/produtor resolveu arregaçar as mangas e escrever uma nova aventura para os Muppets, agora propriedade dos estúdios Disney, que confiou a direção para James Bobin, do seriado The Flight of the Conchords. Criando uma história que reverencia o passado, mas dá passos sólidos para a inclusão dos muppets no nosso presente, Segel e Bobin fazem um ótimo filme família, cheio de boas e surpreendentes participações especiais.
Walter e Gary (Segel) são irmãos e melhores amigos – mesmo que Walter seja, bem, um muppet e não um humano. Desde criança, Walter é fã número 1 de Kermit e sua turma, por se identificar totalmente com os personagens. Anos mais tarde, Gary e sua namorada, Mary (Amy Adams, adorável como sempre), resolvem viajar para Los Angeles, para comemorar seu décimo aniversário de namoro. Walter viaja com o casal para conhecer os estúdios Muppet e, talvez, encontrar com algum dos astros do passado. Chegando lá, porém, o espaço está caindo aos pedaços e, ainda pior, está sob a mira do inescrupuloso Tex Richman (Chris Cooper, de Beleza Americana), que vê a chance de aumentar seus dividendos destruindo o estúdio e prospectando petróleo no local. Para manter aquele recanto intocado, Walter precisa avisar Kermit do perigo. Agora, o sapo terá de reunir a sua turma novamente para conseguir o dinheiro para recuperar o velho estúdio.
Jason Segel consegue capturar muito bem o clima muppet em seu roteiro, atualizando a turma para uma nova geração. Um de seus acertos foi colocar alguns comentários sobre a trama na boca dos personagens que, em dados momentos, entendem que estão dentro de um filme. Dito isso, é engraçado ver que Mary, ao perceber que Kermit não dá muitas esperanças em uma reunião dos seus amigos, solta um: “Puxa, esse vai ser um filme muito curto”. Ou a criativa montagem durante o reencontro dos muppets, que brinca com a rapidez dos acontecimentos quando são inseridas músicas e um rápido flash de imagens. Outra boa tirada, muito condizente com o mundo real, é Fozzie capitanear uma banda chamada Os Moopets, uma fajuta tentativa de continuar no showbizz, com parceiros de grupo que lembram seus antigos amigos.
Como qualquer bom filme dos Muppets, os números musicais estão presentes. Este é um momento mais para a criançada se divertir. No Brasil, apenas cópias dubladas foram lançadas no cinema, portanto é difícil julgar a qualidade das músicas, visto que elas também foram traduzidas. No geral, os números são bem realizados – com destaque para “Homem ou Muppet”, no qual Jason Segel contracena com um “sósia muppet”, enquanto Walter ganha uma versão em carne e osso surpreendente.
Por falar nisso, no quesito celebridades, Os Muppets estão muito bem servidos. Jack Black, Dave Grohl, Alan Arkin, Bill Cobbs, Mickey Rooney, Zach Galifianakis, Whoopi Goldberg, John Krasinski, entre muitos outros participam em pequenas pontas do filme. Uma grande surpresa é o vilão, interpretado por Chris Cooper, que até ganha um número musical para praticar sua vilania. A performance é tão inesperada que até os muppets aparecem atônitos diante do feito.
Como é um longa-metragem voltado ao público infantil, normal que existam algumas mensagens e lições de moral a serem repassadas. Nada que vá incomodar os adultos ou colocar as crianças para dormir. Walter, por exemplo, precisa encontrar seu lugar no mundo, já que nunca conseguiu fazer isso com seus colegas humanos. Além disso, tem de encontrar um talento adormecido para ajudar seus novos amigos, os Muppets. Enquanto isso, Gary terá de aprender a dividir sua atenção entre o irmão e sua namorada, não deixando assim que um ou outra sofra por sua ausência. Mas a maior mensagem reside no retorno da turma Muppet, que não se encontrava há tempos. Uma prova de amizade valiosa, ótimo ensinamento para as crianças.
Pontos negativos de Os Muppets vão para a extensa duração do filme, longo demais para crianças inquietas, e pelo fato de a Disney ter lançado apenas cópias dubladas no país. Nada mais condizente com uma estreia que tem tudo para levar saudosos adultos ao cinema que colocar algumas cópias legendadas. Felizmente, a dublagem é muito bem realizada, com exceção de Guilherme Briggs, um excelente profissional que parece perdido como a voz de Miss Piggy. Cada vez que a porquinha falava com voz masculina, aquilo me tirava completamente do filme. No original, um homem sempre dublou a personagem, mas não soava tão forçado quanto por aqui.
Com a boa resposta nas bilheterias, Os Muppets faz exatamente o que a Disney esperava: trazer de volta os personagens de Jim Henson para uma nova geração. Muito provável que novos filmes, seriados, desenhos animados e todo o tipo de quinquilharia atrelada a Kermit e sua turma surgirá a partir deste belo e divertido longa-metragem. Para os saudosos, uma boa chance para revisitar as antigas produções e redescobrir os Muppets. Será que agora lançam Muppet Babies em DVD?
[Atualizado] Maratona Oscar: Os Muppets foi indicado ao Oscar de Melhor Canção Original, "Man or Muppet". De forma inédita, apenas duas músicas foram indicadas nesta categoria, o que deixa as chances de acerto bem maiores. Aposto em Os Muppets muito pela memória afetiva dos votantes.
Os Muppets (The Muppets)
Dir.: James Bobin
Com Jason Segel, Amy Adams, Chris Cooper, Rashida Jones, Jack Black, Alan Arkin
Cotação Paradoxo: Vale 87% do ingresso
sábado, 10 de dezembro de 2011
A Pele que Habito
Traídos pelo Desejo
A Pele que Habito não é exatamente o longa-metragem que imaginamos quando pensamos em Pedro Almodóvar. O diretor espanhol conhecido pelo colorido de seus filmes – e personagens – apresenta um misto entre drama e suspense que distancia este trabalho de grande parte de sua filmografia. Menos barroco que de costume, Almodóvar parece engajado em não deixar que suas características marcantes como cineasta atrapalhem o todo do longa-metragem, visto que o gênero em que está inserido em A Pele que Habito é diferente de tudo o que já havia feito. Mesmo assim, algumas marcas do diretor obviamente ainda podem ser conferidas, como a sexualidade a flor da pele dos personagens, a morte, um colorido aqui e acolá na direção de arte e, principalmente, o retorno de seu antigo ator-fetiche, Antonio Banderas.
Foram vinte anos sem trabalharem juntos – desde Ata-Me, em 1990. Observando os filmes de Almodóvar durante este período, é discutível haver algum bom papel para Banderas. Parece que tanto diretor quanto ator resolveram esperar o projeto certo para retomarem a sua frutífera parceria, que já havia rendido seis longas-metragens em apenas oito anos. Curioso que o filme escolhido tenha sido tão diferente.
Em A Pele que Habito, Almodóvar joga o espectador no meio da história, aguçando a curiosidade do público sobre o que diabos acontece na casa do cirurgião plástico Roberto Ledgard (Banderas). Ele mantém, em um cômodo chaveado, a bela Vera (Elena Anaya), sempre vestindo uma estranha segunda pele. Roberto conseguiu elaborar uma espécie de pele humana mais resistente, que visa ajudar pessoas que sofreram deformações devido a queimaduras. Como a experiência foi realizada abaixo do radar e levanta questões éticas importantes, o doutor é proibido de continuar suas pesquisas – mesmo que, tudo leve a crer, já esteja com resultados avançados em humanos, sendo Vera sua primeira cobaia.
Roberto parece ter uma fascinação pela mulher que mantém em cativeiro, sempre a observando através da câmera de segurança instalada no seu quarto. A governanta da casa, Marilia (Marisa Paredes), não gosta da presença daquela mulher na casa, mas ajuda Roberto a mantê-la trancafiada. Vera, por sua vez, não parece entender o porquê foi escolhida para esta experiência. Muito menos o espectador, que tem em um grande flashback a chance de conhecer tudo por trás desta história de vingança, desejo e morte.
Flashback não é nenhuma novidade na filmografia de Pedro Almodóvar. O que realmente mudou foi o clima soturno da história. As reviravoltas da trama, além de causarem surpresa, deixam o público em situação estranha, visto que nenhum personagem é um exemplo de correção. É possível entender o lado de cada um, mas não respeitar ou concordar com o curso dos acontecimentos. Roberto é um homem traumatizado com duas grandes perdas. A dor faz o ser humano chegar ao limite. Mesmo assim, suas atitudes não podem ser desculpadas por este fato. O mesmo pode ser dito de Vera. Sabemos que o comportamento da moça antes de ser capturada por Roberto está longe de ser exemplar. Mas isso é motivo para castigo tão intenso? Ou Vera recebera o que devia? Em dado momento, o espectador pode até torcer para a fuga da protagonista, mesmo sabendo que o que a colocara ali fora um comportamento totalmente abominável.
Almodóvar deixa o espectador ajuizar o caso por boa parte da trama, mas não se furta em escolher um lado para torcer. Tanto que o desfecho, por mais estranho que possa parecer, está muito mais perto de um final feliz do que o contrário. O texto aqui é propositalmente cifrado para não estragar a surpresa de um incauto leitor que tenha passado seus olhos aqui sem ter visto o longa-metragem.
Uma palavra chave para entender A Pele que Habito é desejo. Este sentimento arrebata os personagens e os faz tomar atitudes impensáveis – e estas atitudes acabam voltando-se contra cada um da pior forma possível. Roberto tenta transformar Vera em sua esposa falecida, um sentimento doentio que remete a um dos melhores filmes de Alfred Hitchcock, Um Corpo que Cai. Nele, James Stewart está tão obcecado por uma mulher que já morreu, uma grande paixão, que tenta transformar uma jovem que acabara de conhecer na perfeita imagem da falecida – sem saber da dura verdade por trás disso tudo. Banderas, no filme de Almodóvar, tem este mesmo sentimento funéreo. Seu desejo acaba o traindo, já que se entrega para uma mulher que, certamente, teria todos os motivos para abandoná-lo.
Vera, por sua vez, está aprisionada na casa de Roberto por ter sucumbido ao desejo, cometendo um crime que estragou totalmente uma jovem vida. É verdade que Vera não conhecia o passado da pessoa e o quão desequilibrada a existência desta havia sido antes de conhecê-la. O que, de novo, não a exime. De qualquer forma, seu desejo também a trai. É aprisionada e, por ironia do destino, sofre nas mãos de um homem o mesmo mal que havia cometido.
Mesmo não utilizando-se do colorido natural de seus filmes anteriores, é possível notar, aqui e ali, nos quadros da casa de Roberto, na fantasia do asqueroso Zeca (Roberto Álamo), um pouco do toque de Almodóvar. A direção de arte trabalha de forma competente, principalmente nos ambientes da residência do cirurgião plástico. O quarto de Vera, uma legítima prisão, o cômodo ao lado, com uma grande televisão para saciar a curiosidade e desejo de Roberto. A fotografia também é elogiável, com destaque para o trabalho de luz realizado em Elena Anaya. No filme, a personagem da atriz deve ter uma pele irretocável. E isso é tarefa do diretor de fotografia José Luis Alcaine e, claro, do departamento de maquiagem em fazer isso possível.
Com boas atuações e surpresas dignas de um belo filme de suspense, A Pele que Habito é um ótimo longa-metragem assinado por Pedro Almodóvar, que se desvencilha de vários de seus cacoetes para entregar uma legítima história de terror. Dito isso, quem se incomoda com o estilo barroco de Almodóvar e vire a cara para os trabalhos do diretor espanhol talvez possa conferir este filme sem maiores prejuízos. Quem é fã, pode ter uma surpresa ainda maior do que a grande reviravolta da trama.
A Pele que Habito (La Piel que Habito)
Dir.: Pedro Almodóvar
Com Antonio Banderas, Elena Anaya, Marisa Paredes, Jan Cornet, Roberto Álamo
Cotação Paradoxo: Vale 90% do ingresso
Confira logo abaixo o trailer de A Pele que Habito:
A Pele que Habito não é exatamente o longa-metragem que imaginamos quando pensamos em Pedro Almodóvar. O diretor espanhol conhecido pelo colorido de seus filmes – e personagens – apresenta um misto entre drama e suspense que distancia este trabalho de grande parte de sua filmografia. Menos barroco que de costume, Almodóvar parece engajado em não deixar que suas características marcantes como cineasta atrapalhem o todo do longa-metragem, visto que o gênero em que está inserido em A Pele que Habito é diferente de tudo o que já havia feito. Mesmo assim, algumas marcas do diretor obviamente ainda podem ser conferidas, como a sexualidade a flor da pele dos personagens, a morte, um colorido aqui e acolá na direção de arte e, principalmente, o retorno de seu antigo ator-fetiche, Antonio Banderas.
Foram vinte anos sem trabalharem juntos – desde Ata-Me, em 1990. Observando os filmes de Almodóvar durante este período, é discutível haver algum bom papel para Banderas. Parece que tanto diretor quanto ator resolveram esperar o projeto certo para retomarem a sua frutífera parceria, que já havia rendido seis longas-metragens em apenas oito anos. Curioso que o filme escolhido tenha sido tão diferente.
Em A Pele que Habito, Almodóvar joga o espectador no meio da história, aguçando a curiosidade do público sobre o que diabos acontece na casa do cirurgião plástico Roberto Ledgard (Banderas). Ele mantém, em um cômodo chaveado, a bela Vera (Elena Anaya), sempre vestindo uma estranha segunda pele. Roberto conseguiu elaborar uma espécie de pele humana mais resistente, que visa ajudar pessoas que sofreram deformações devido a queimaduras. Como a experiência foi realizada abaixo do radar e levanta questões éticas importantes, o doutor é proibido de continuar suas pesquisas – mesmo que, tudo leve a crer, já esteja com resultados avançados em humanos, sendo Vera sua primeira cobaia.
Roberto parece ter uma fascinação pela mulher que mantém em cativeiro, sempre a observando através da câmera de segurança instalada no seu quarto. A governanta da casa, Marilia (Marisa Paredes), não gosta da presença daquela mulher na casa, mas ajuda Roberto a mantê-la trancafiada. Vera, por sua vez, não parece entender o porquê foi escolhida para esta experiência. Muito menos o espectador, que tem em um grande flashback a chance de conhecer tudo por trás desta história de vingança, desejo e morte.
Flashback não é nenhuma novidade na filmografia de Pedro Almodóvar. O que realmente mudou foi o clima soturno da história. As reviravoltas da trama, além de causarem surpresa, deixam o público em situação estranha, visto que nenhum personagem é um exemplo de correção. É possível entender o lado de cada um, mas não respeitar ou concordar com o curso dos acontecimentos. Roberto é um homem traumatizado com duas grandes perdas. A dor faz o ser humano chegar ao limite. Mesmo assim, suas atitudes não podem ser desculpadas por este fato. O mesmo pode ser dito de Vera. Sabemos que o comportamento da moça antes de ser capturada por Roberto está longe de ser exemplar. Mas isso é motivo para castigo tão intenso? Ou Vera recebera o que devia? Em dado momento, o espectador pode até torcer para a fuga da protagonista, mesmo sabendo que o que a colocara ali fora um comportamento totalmente abominável.
Almodóvar deixa o espectador ajuizar o caso por boa parte da trama, mas não se furta em escolher um lado para torcer. Tanto que o desfecho, por mais estranho que possa parecer, está muito mais perto de um final feliz do que o contrário. O texto aqui é propositalmente cifrado para não estragar a surpresa de um incauto leitor que tenha passado seus olhos aqui sem ter visto o longa-metragem.
Uma palavra chave para entender A Pele que Habito é desejo. Este sentimento arrebata os personagens e os faz tomar atitudes impensáveis – e estas atitudes acabam voltando-se contra cada um da pior forma possível. Roberto tenta transformar Vera em sua esposa falecida, um sentimento doentio que remete a um dos melhores filmes de Alfred Hitchcock, Um Corpo que Cai. Nele, James Stewart está tão obcecado por uma mulher que já morreu, uma grande paixão, que tenta transformar uma jovem que acabara de conhecer na perfeita imagem da falecida – sem saber da dura verdade por trás disso tudo. Banderas, no filme de Almodóvar, tem este mesmo sentimento funéreo. Seu desejo acaba o traindo, já que se entrega para uma mulher que, certamente, teria todos os motivos para abandoná-lo.
Vera, por sua vez, está aprisionada na casa de Roberto por ter sucumbido ao desejo, cometendo um crime que estragou totalmente uma jovem vida. É verdade que Vera não conhecia o passado da pessoa e o quão desequilibrada a existência desta havia sido antes de conhecê-la. O que, de novo, não a exime. De qualquer forma, seu desejo também a trai. É aprisionada e, por ironia do destino, sofre nas mãos de um homem o mesmo mal que havia cometido.
Mesmo não utilizando-se do colorido natural de seus filmes anteriores, é possível notar, aqui e ali, nos quadros da casa de Roberto, na fantasia do asqueroso Zeca (Roberto Álamo), um pouco do toque de Almodóvar. A direção de arte trabalha de forma competente, principalmente nos ambientes da residência do cirurgião plástico. O quarto de Vera, uma legítima prisão, o cômodo ao lado, com uma grande televisão para saciar a curiosidade e desejo de Roberto. A fotografia também é elogiável, com destaque para o trabalho de luz realizado em Elena Anaya. No filme, a personagem da atriz deve ter uma pele irretocável. E isso é tarefa do diretor de fotografia José Luis Alcaine e, claro, do departamento de maquiagem em fazer isso possível.
Com boas atuações e surpresas dignas de um belo filme de suspense, A Pele que Habito é um ótimo longa-metragem assinado por Pedro Almodóvar, que se desvencilha de vários de seus cacoetes para entregar uma legítima história de terror. Dito isso, quem se incomoda com o estilo barroco de Almodóvar e vire a cara para os trabalhos do diretor espanhol talvez possa conferir este filme sem maiores prejuízos. Quem é fã, pode ter uma surpresa ainda maior do que a grande reviravolta da trama.
A Pele que Habito (La Piel que Habito)
Dir.: Pedro Almodóvar
Com Antonio Banderas, Elena Anaya, Marisa Paredes, Jan Cornet, Roberto Álamo
Cotação Paradoxo: Vale 90% do ingresso
Confira logo abaixo o trailer de A Pele que Habito:
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