segunda-feira, 27 de junho de 2011

Noivo Neurótico, Noiva Nervosa

Alvy Singer

Noivo Neurótico, Noiva Nervosa foi o início de uma nova fase na carreira de Woody Allen. Depois de dirigir um bom número de comédias, todas no estilo “uma risada por minuto”, o cineasta/ator/roteirista resolveu mudar os ares e escrever uma história pé no chão. A bem da verdade, o roteiro inicial de Annie Hall (não me façam repetir sempre o incorreto e extenso título em português) era uma história de mistério misturada com romance. Extirpada a desnecessária trama de suspense (que veria a luz do dia em Um Misterioso Assassinato em Manhattan) e Woody Allen chegou a um resultado até então inesperado na carreira do cineasta: uma comédia romântica. O termo nos dias de hoje pode até ter uma certa conotação negativa, dada a repetição de clichês. Mas em 1976, o cineasta assinou um dos mais criativos filmes do gênero, paradigmático para a carreira de Woody Allen e que se tornaria referência para qualquer novo longa-metragem que misturasse romance e comédia.

Em Annie Hall, Woody Allen nos convida para um passeio na mente de Alvy Singer, um comediante bem sucedido e completamente neurótico. Falando diretamente para o espectador, Alvy comenta que acabara de ser deixado pela namorada, Annie Hall (Diane Keaton), e tenta ainda entender como o romance terminou. Dito isso, pulamos para as memórias de Alvy, que nos leva a infância, nos apresenta a suas ex-mulheres e dedica um bom tempo nos mostrando cenas de sua vida conjugal com a problemática Annie. A história é toda contada sob a ótica de Singer, com a narrativa indo e vindo no tempo de acordo com as lembranças do protagonista. É como se o público tivesse a oportunidade de visitar os pensamentos daquele personagem – experimentando os pulos que sua mente dá de uma parte para outra de seu passado.

Utilizando narrativa não linear para construir sua história, Woody Allen vai tecendo sua trama apresentando pedaços do passado do seu protagonista. Portanto, não é raro pularmos da infância de Alvy para um momento no futuro, ao observamos o já deteriorado relacionamento entre ele e Annie. Só a partir daí conhecemos as duas ex-mulheres de Singer e testemunhamos o inusitado primeiro encontro entre os dois personagens centrais da trama. Em um recurso inteligente e diferente, temos acesso aos pensamentos dos protagonistas através de legendas em determinada cena. Enquanto ambos conversam sobre fotografia e as questões existenciais e técnicas da arte, somos apresentados ao que passa na mente de Alvy e Annie, em uma rara oportunidade de entrar realmente na mente de um personagem. Essa é só uma das invencionices geniais de Woody Allen em Noivo Neurótico, Noiva Nervosa.

O cineasta cria cenas interessantíssimas ao quebrar a quarta parede e conversar com os espectadores. Todo o plano sequencia na fila do cinema, com a participação especial de Marshal McLuhan, é de um humor e criatividade incomuns. Outro bom exemplo da inventiva mente de Woody Allen são os momentos em que Alvy simplesmente sai do seu caminho e começa a conversar com estranhos na rua, que sempre dão algum tipo de insight sobre o caso em questão. Isso e o fato de personagens no presente conseguirem conversar e atuar ativamente nas memórias de Alvy Singer são trechos simplesmente memoráveis.

Se em Dorminhoco e em A Última Noite de Bóris Grushenko pudemos observar a crescente presença de Diane Keaton como co-protagonita dos filmes de Woody Allen, em Annie Hall o cineasta chega ao cúmulo de intitular seu filme com o apelido da atriz na vida real. Diane Keaton nasceu Diane Hall e seu apelido familiar sempre foi Annie. Allen escrevera o papel especialmente para sua ex-namorada e agora amiga. Dito isso, nem é preciso afirmar que Keaton está perfeita no papel. Annie é uma mulher que ainda está se descobrindo. Com a ajuda de Alvy, que a encoraja a realizar sua paixão pela música e a aconselha a voltar aos estudos, Annie encontra uma autoestima que até então existia escondida dentro de si. Sua falta de segurança pode ser confirmada em algumas cenas em que ela claramente apenas concorda com que os outros lhe dizem (namorados, geralmente) para simplesmente não parecer ignorante. Depois de conhecer Alvy, Annie começa a pensar por si mesma e adquire uma autoconfiança até então desconhecida.

Ótimo para Annie, não tanto para Alvy. Mesmo tendo ajudado sua namorada, Singer tem ciúmes e é uma companhia nem sempre divertida para uma mulher que gosta de sair e conhecer pessoas. Esta é só uma das diferenças do casal que farão com que o relacionamento acabe ruindo. Woody Allen defende muito bem Alvy, até então um de seus personagens mais contidos. Sem precisar fazer rir de minuto em minuto, Allen tem tempo para construir um personagem real. Obviamente tirando inspiração em sua própria vida, Allen entrega uma de suas melhores atuações – só perdendo para Manhattan, talvez.

Vencedor do Oscar de Melhor Filme, Diretor, Roteiro e Atriz (Keaton) em 1977 (e indicado ao prêmio de Melhor Ator, para Allen), Noivo Neurótico, Noiva Nervosa é o filme que abriu completamente as portas de Hollywood para Woody Allen. Depois deste estupendo trabalho, nada mais seria proibido para o cineasta. Com total controle criativo sobre seus filmes, o cineasta escolheu suceder este grande sucesso com um trabalho totalmente diferente de seus anteriores. Assim nasceu o taciturno Interiores – papo para outra crítica.

Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (Annie Hall)
Dir.: Woody Allen
Com Woody Allen, Diane Keaton, Tony Roberts, Carol Kane, Janet Margolin, Paul Simon, Shelley Duvall, Christopher Walken
Cotação Paradoxo: 5 Estrelas

sábado, 25 de junho de 2011

Memórias

Woody Allen's 4

Woody Allen utilizou alguns de seus trabalhos para homenagear cineastas que o fizeram abraçar o cinema. Exemplos como a citação a Michelangelo Antonioni no segmento Porque algumas mulheres têm problemas em chegar ao Orgasmo? do filme Tudo o que você sempre quis Saber sobre Sexo mas tinha medo de perguntar, ou as diversas referências a Sergei Eisenstein e Ingmar Bergman em A Última Noite de Bóris Grushenko são claros, mesmo que espalhados dentro da trama. O caso de Memórias é paradigmático. Toda a concepção do longa-metragem é baseada no clássico 8 e 1/2 de Federico Fellini, fato esse nunca contestado por Woody Allen - que até pensou em chamar o trabalho de Woody Allen's 4, já que ele não teria competência de alcançar metade do que Fellini realizou.

Quem já viu 8 e 1/2 sabe qual é a trama de Memórias. Cineasta confuso com os rumos de sua carreira - e mais ainda em relação a sua vida amorosa - começa a relembrar fatos do seu passado que acabam se misturando, como um grande sonho, em sua realidade no presente. Saem Marcello Mastroiani e Federico Fellini, entra Woody Allen, que além de dirigir e atuar, assina o roteiro do longa-metragem.

Em Memóras, Allen vive o cineasta Sandy Bates. Famoso por suas comédias no início da carreira, Bates vem se aventurando no drama e seu mais recente trabalho tem dado dor de cabeça aos executivos do estúdio, dado o pessimismo de seu desfecho. Convidado para um festival de filmes em sua homenagem em uma cidade litorânea, Bates aceita participar de todo o alvoroço que significa eventos como esse muito à contragosto. Lá, ele relembra momentos de sua infância e seu caso de amor com a bela mas desequilibrada atriz Dorrie (Charlotte Rampling). Em meio ao festival, Bates conhece a também confusa Daisy (Jessica Harper) enquanto tenta decidir se contrai matrimônio com a namorada, Isobel (Marie-Christine Barrault), ao mesmo tempo em que procura um sentido para sua vida e um significado para seus filmes.

Woody Allen repetidamente afirmou que Memórias não é um auto-retrato. Mas é difícil acreditar dada tantas semelhanças. O próprio diretor parece se divertir com estas similaridades, como se estivesse criticando a sua crítica. Isso é notável nos momentos em que várias pessoas chegam a Sandy e dizem: "Adoro seus filmes, mas preferia os primeiros, da época cômica". Certamente Woody Allen viveu isso logo após abandonar trabalhos como Dorminhoco e A Última Noite de Bóris Grushenko e abraçar roteiros mais densos como Manhattan e Interiores. Ao colocar repetidas vezes na boca de seus personagens esta reclamação, Allen está criticando seus críticos, mostrando o quanto é enfadonho e, de alguma forma, triste ser cobrado pelo fato de tentar transmitir uma mensagem com seus filmes - esta não sendo cômica, como seus trabalhos no início de carreira eram.

Utilizando a fotografia preto e branco aos mesmos moldes de seu filme anterior, Manhattan, mas desta vez por motivos diferentes - outra referência a 8 e 1/2 de Fellini, Woody Allen vai além em Memórias, dando um ar melancólico e onírico ao seu longa-metragem. Se em Manhattan a cidade de Nova York era um dos personagens principais e o preto e branco a retratava de forma exuberante, em Memórias existe uma tristeza recorrente, um black and white que poderia ser traduzido como uma saudade de um tempo que já foi embora.

A não-linearidade da trama conversa muito bem com essa atmosfera onírica de Memórias, fazendo com que acontecimentos venham e vão na forma como a mente de Sandy Bates retrabalha seus pensamentos. Portanto, podemos ver o protagonista à beira-mar para, logo depois, observamos o mesmo personagem ainda criança, tentando voar como Superman. Ou ao lado de um elefante, com direito a sua ex-namorada servindo como mãe para uma versão infantil de Sandy. Como trabalha com memórias, este filme de Woody Allen é um prato cheio para psicanalistas de plantão, que podem se divertir com as diversas mensagens escondidas dos reconditos da mente do cineasta protagonista.

Preocupado com a mensagem de seus filmes, sem bem saber se o que faz é realmente importante, Sandy Bates chega a ter um encontro imediato de terceiro grau com alienígenas imaginários, que lhe tranquilizam sobre a sua real função na terra. Essa é mais uma das tantas cenas que são extraídas diretamente da imaginação fértil de Bates.

Com vários filmes dentro do filme, não é estranho notar que o desfecho de Memórias é extremamente metalinguístico, com os atores que participaram do filme debatendo sobre seu trabalho no longa-metragem. Um ponto final interessante para um dos mais profundos filmes de Woody Allen.

Memórias (Stardust Memories)
Dir.: Woody Allen
Com Woody Allen, Charlotte Rampling, Jessica Harper, Tony Roberts, Daniel Stern, Marie-Christine Barrault
Cotação Paradoxo: 5 Estrelas

segunda-feira, 20 de junho de 2011

O que há, Tigresa?

Moscowitz, Phil Moscowitz

O primeiro trabalho assinado por Woody Allen no cinema não poderia ser mais diferente. Saído do sucesso de O que é que há, Gatinha? (1965), longa-metragem com roteiro de sua autoria e estrelado por Peter Sellers, filme que lhe rendeu uma indicação ao prêmio do Sindicato dos Roteiristas e uma bilheteria expressiva, Allen era um nome quente em Hollywood. A American International Pictures, estúdio que costumava fazer verdadeiros frankensteins cinematográficos com os filmes que comprava do mercado asiático, resolveu transformar um thriller de espionagem japonês em uma comédia. Era prática costumeira da AIP apagar toda a banda sonora da produção em questão, redublar em inglês o filme com novos diálogos e transformar a história totalmente na montagem. Com uma comédia em mente, quem melhor para o trabalho que o jovem talento Woody Allen?

Com isso, o filme japonês Key of Keys, dirigido por Senkichi Taniguchi, virou O que há, Tigresa?, com assinatura de Woody Allen. Em vez de uma trama que girava em torno da busca de um microfilme (mais James Bond impossível), os personagens do retrabalhado longa-metragem estão em busca da receita da salada de ovos perfeita. O herói da trama, o espião Phil Moscowitz (Tatsuya Mihashi), precisa tirar das mãos do vilanesco Shepherd Wong (Tadao Nakamaru) a receita, e para isso, contará com a ajuda do dúbio Wing Fat (Susumu Kurobe) e das belas Suki Yaki (Akiko Wakabayashi) e Teri Yaki (Mie Hama). Mais compulsivo sexualmente que James Bond (e bem menos inteligente), Moscowitz terá de colocar sua volúpia de lado caso queira ajudar o grande marajá de Raspur em colocar seu país no mapa (literalmente).

Para plateias atuais, O que há, Tigresa? pode não apresentar novidade alguma. Vários dos diálogos não possuem mais o efeito que tinham na época e até o advento de redublar uma produção para transformá-la em piada já foi usado à exaustão. Mas é importante lembrar que, em 1966, esta prática não era tão difundida. Tanto que se achou necessário explicar o que a plateia veria, em uma pequena ponta em carne e osso de Woody Allen – mais engraçado que todo o filme, é verdade. Dito isso, é importante computar na equação o vanguardismo desta produção.

Apesar de não ser uma metralhadora de tiradas sagazes, O que há, Tigresa? possui algumas gags que funcionam muito bem. O fato de Raspur estar na fila por um lugar no mapa é hilariante e alguns trocadilhos são inspiradíssimos. O elenco de dubladores capricha no tom boboca, fazendo com que tudo se pareça com um trabalho de adolescentes – não muito diferente do que vemos hoje na internet, por exemplo, ou no extinto programa Hermes & Renato da MTV.

Nota-se o dedo de Woody Allen em algumas temáticas que seriam recorrentes nos seus trabalhos futuros. A sexualidade à flor da pele de seu protagonista é uma delas. Sempre à procura de um rabo de saia, Phil Moscowitz é um rascunho do que viriam a ser os primeiros personagens de Woody Allen no cinema. Colocar sua origem judaica em meio à trama pode ser apontado como outra característica marcante, assim como o humor por vezes ingênuo, que seria visto em boa parte de seus trabalhos até Noivo Neurótico, Noiva Neurótica.

Excetuando-se algumas invencionices totalmente descartáveis, como a participação da banda Lovin’ Spoonful em duas pontas gratuitas e que nada tinham a ver com o resto do filme, O que há, Tigresa? serve como um experimento e um aperitivo do que veríamos pela frente em matéria de piadas provindas da cabeça de Woody Allen. Como filme, é um trabalho imperfeito, mas que talvez nunca tivesse pretensão de ser mais do que uma grande piada. Se vale de algo, ao menos abriu as portas para Allen alçar voos mais altos, como em Um Assaltante Trapalhão, que viria três anos depois.

O Que há, Tigresa? (What's up, Tiger Lily?)
Dir.: Woody Allen
Cotação Paradoxo: 3 estrelas 

sábado, 18 de junho de 2011

Interiores

Águas agitadas

Depois da consagração de Woody Allen no Oscar, em 1976, com Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, ninguém poderia prever qual seria o próximo passo do cineasta. Interiores é uma novidade na carreira do diretor, que resolveu sair de sua zona de conforto e entregar um trabalho cujas risadas passariam longe. Novamente contando com Diane Keaton no elenco e, pela primeira vez, sem aparecer em frente às câmeras, Woody Allen se revela um diretor igualmente talentoso ao comandar uma história dramática. Muitos podem ter torcido o nariz à época. Mas hoje, é impossível não notar qualidades bastante destacáveis no trabalho do cineasta.

O roteiro é assinado por Allen e conta a história de uma família e seus aparentemente insolúveis problemas. Arthur (E.G. Marshall) resolve deixar sua esposa, Eve (Geraldine Page), depois de trinta anos de casamento, para tentar aproveitar um pouco da liberdade que tanto lhe falta. Eve é uma mulher doente e não encara nada bem esta “separação provisória”, como seu marido intitula.

O casal tem três filhas que, à sua maneira, tentam ajudar a mãe neste momento difícil: Renata (Keaton), uma bem sucedida escritora, casada com o fracassado escritor Frederick (Richard Jordan), dá esperanças para sua mãe que o casamento poderá ser salvo, tentando assim aliviar a tensão; Já Joey (Mary Beth Hurt) prefere ser mais realista com a mãe, não alimentando expectativas falsas. Ela própria tem problemas, pois nunca conseguiu deslanchar em nenhuma profissão, sentindo-se apequenada ao lado das irmãs; Flyn (Kristin Griffith) é a estrela da família. Atriz, sempre em viagens, ela não tem muito tempo para os pais, mas não deixa de participar em momentos chave da família. Quando Arthur aparece com uma nova namorada, Pearl (Maureen Stapleton), as irmãs não têm como prever qual será o baque em sua frágil mãe.

Construindo um longa-metragem totalmente pé no chão, Woody Allen abandona toda e qualquer trilha sonora incidental, utilizando-se do silêncio para criar uma atmosfera solitária e triste para seus personagens. O único momento em que ouvimos músicas em Interiores é quando um casal está festejando sua união – estes sim, totalmente conectados um com o outro. Mesmo Renata e Joey, que possuem maridos e um esboço de família, parecem totalmente sozinhas em seus mundos. Por isso, não é nada difícil adivinha o porquê do título Interiores. Eve trabalha como decoradora e esta poderia ser o motivo mais simples. A realidade é diferente, no entanto. O filme tenta a todo momento penetrar no interior de seus personagens, criando um mosaico de sentimentos, perturbações e depressões nunca antes vistos na carreira de Woody Allen.

Com um elenco formidável, Allen tem como grande trunfo a atuação inesquecível de Geraldine Page e Maureen Stapleton. As duas são antíteses uma da outra. Eve é frágil, sonhadora e completamente desligada do mundo real. Geraldine Page esta assustadoramente convincente no papel, tendo momentos de puro brilhantismo. Reparem na cena em que ela é abandonada pelo marido, ou em suas conversas com as filhas, sempre tentando mostrar uma evolução em seu estado que, na verdade, não existe. Já Stapleton vive a espevitada e cheia de vida Pearl. Uma mulher que destoa da família de Arthur claramente pela sua falta de cultura, mas que agrega um colorido especial aos ambientes que ocupa. Seu jeito decidido de falar e sua alegria de viver contagiam Arthur, que passou por tempos sombrios com sua ex-esposa devido a sua doença.

É determinante notar que Woody Allen não toma partido de nenhum personagem. Não existem vilões, não existem heróis. Arthur viveu 30 anos com Eve e pensa merecer uma vida nova. Ele está errado? Ele está certo? O mesmo podemos perguntar sobre as atitudes de Renata e Joey. Quem está agindo corretamente com a mãe? A filha que lhe diz as verdades desagradáveis ou a que lhe encoraja com esperanças, mesmo que possam ser infundadas? São perguntas difíceis e o longa-metragem não dá respostas fáceis. Isso é o que Interiores tem de melhor.

Utilizando cores frias para compor seus cenários e a total falta de música para criar uma atmosfera ainda mais gélida, Woody Allen destitui totalmente seu longa-metragem de qualquer sinal de humor. Isso até pode ser um problema, visto que até os dramas mais duros sempre tem uma válvula de escape aqui e ali para fazer o espectador respirar. Não Interiores. O drama é construído aos poucos – e de forma não linear – até que culmine em um desfecho trágico, mas nada surpreendente dada as cartas colocadas na mesa até então. O longa-metragem pode ter surpreendido os fãs de Woody Allen na época, mas visto em retrospecto, é um trabalho consistente e relevante na carreira do cineasta. A resposta morna da crítica e público em 1977 deve ter feito Woody Allen retornar ao seu metier, visto que seu trabalho na sequencia seria uma comédia novamente – das mais deliciosas, intitulada Manhattan.

Interiores (Interiors)
Dir.: Woody Allen
Com Kristin Griffith, Mary Beth Hurt, Richard Jordan, Diane Keaton, E.G. Marshall, Geraldine Page, Maureen Stapleton, Sam Waterston
Cotação Paradoxo: 4 Estrelas

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Zelig

Camaleão

A segunda incursão de Woody Allen na seara do mockumentary (termo inglês que define o documentário fictício) não poderia ser mais interessante. Zelig é um inventivo exercício cinematográfico do diretor, que traz uma história estapafúrdia, mas muitíssimo bem contada. Novamente Allen busca misturar fantasia à temáticas mundanas (feito anteriormente em Sonhos Eróticos de uma Noite de Verão), o que resulta em um de seus melhores trabalhos na década de 80.

Em sua segunda parceria com Mia Farrow, Woody Allen vive o personagem título, um homem que tinha tanta vontade de agradar, de se entrosar com as pessoas, que tinha o estranho poder de se transformar em quem estivesse ao seu lado. Ou seja, se estivesse na companhia de médicos, se portava e agia como tal. Se estivesse próximo de rabinos, sua barba e cabelo cresciam e suas vestimentas acompanhavam a indumentária tradicional. Se estivesse com jazzistas negros, até sua tonalidade de pele mudava. Um verdadeiro camaleão. Desta forma, Zelig conseguia o que queria: não se destacar. Ficar camuflado e aceito pela sociedade. A doutora Eudora Fletcher (Farrow) tem um grande interesse no caso de Zelig e tenta curá-lo desta situação. Somos apresentados aos estudos de Fletcher, gravações que fizera com seu paciente e depoimentos de várias pessoas que conheceram Zelig para que saibamos mais deste camaleão humano.

Em Um Assaltante bem Trapalhão, Woody Allen já usara o expediente de um documentário falso para contar sua trama. Mas em Zelig, o cineasta vai ao extremo para passar o feeling de um verdadeiro documentário. A trama se passa nos anos 20, portanto existem muitas imagens de arquivo – bem como outras, filmadas por Woody Allen e maquiadas como tal. O protagonista do filme só é ouvido pelo espectador em gravações durante o seu tratamento. Ou seja, não vemos Zelig em cenas corriqueiras, como acontecia em Um Assaltante bem Trapalhão. Apenas temos contato com o protagonista em imagens que poderiam ser encontradas por um documentarista. E depois de muita pesquisa, certamente. Allen utiliza muitas fotos e, claro, lança mão de um narrador para costurar toda a trama.

Documentário clássico que se preze tem depoimentos. E Zelig não é diferente. Muitas pessoas que conheceram Zelig ou foram testemunhas oculares de suas transformações são “entrevistadas” pelo cineasta, da mesma forma que a doutora Eudora Fletcher, já idosa (e vivida por Ellen Garrison), relata sua experiência ao trata-lo. Por utilizar outra atriz no papel, também não assistimos a Mia Farrow em nenhuma cena que não de “arquivo”. Por se manter totalmente fiel a este estilo durante todo o longa-metragem, Zelig acaba se tornando um dos mais interessantes mockumentarys já produzidos.

Apesar de um dos pontos centrais da trama ser um tanto óbvio e cuspido pelo personagem nos primeiros minutos de projeção – Zelig se transforma por querer ser aceito, fato evidente e que é soletrado pelo personagem em uma tentativa de deixar a trama mais clara para os menos atentos – este longa-metragem de Woody Allen é cercado de vários cuidados que deixam muito prazerosa uma conferida mais aprofundada. Um exemplo é a maravilhosa recriação de época, com um trabalho de figurino estupendo de Santo Loquasto (indicado ao Oscar). A trilha sonora é outro ponto alto – com direito a músicas que recriam totalmente o feeling da década de 20 do século passado, com destaque pra Doin’ the Chameleon e Chameleon Days, compostas especificamente para o filme, mas que poderiam passar muito bem por gravações originais daquela época.

Criativo e rico entretenimento, Zelig é a segunda parceria entre Woody Allen e Mia Farrow, casal na época. Mas é o primeiro que realmente acrescenta algo à filmografia do cineasta. Não chega a ser um A Rosa Púrpura do Cairo, mas tem predicados que garantem seu lugar entre os grandes trabalhos de Woody Allen.

Zelig
Dir.: Woody Allen
Com Woody Allen, Mia Farrow
Cotação Paradoxo: Vale 4 estrelas

sábado, 11 de junho de 2011

Manhattan

Rhapsody in Black and White

Manhattan é um dos mais bem sucedidos filmes de Woody Allen. No quesito premiações, por exemplo, a produção levou duas indicações ao Oscar, venceu o BAFTA de Melhor Filme, venceu o César como Melhor Longa-Metragem Estrangeiro e ficou na lista dos melhores do ano de 1980 em diversos prêmios da crítica mundo afora. Nem por isso, Manhattan é bem quisto pelo seu diretor, Woody Allen. Reza a lenda que o cineasta teria oferecido ao estúdio um novo filme, e que ele trabalharia de graça nesta produção caso Manhattan nunca visse a luz do dia. Felizmente, isso não aconteceu e pudemos observar toda a beleza da big apple em um linda fotografia preto e branco assinada pelo habitual colaborador do cineasta, Gordon Willis, atrelada a trilha de George Gershwin.

Isaac Davis (Allen) é um escritor divorciado que, no momento, tenta escrever um livro sobre sua adorada Nova York enquanto empurra com a barriga um trabalho detestável em um programa cômico de tevê. Davis está nervoso porque sua ex-mulher, Jill (Meryl Streep), está dando os últimos retoques em um livro que contará o relacionamento conturbado que os dois tiveram. Este e outros assuntos são pauta de um corriqueiro encontro entre Isaac, sua namorada, a jovem de 17 anos Tracy (Mariel Hemingway), e o casal de amigos Yale (Michael Murphy) e Emily (Anne Byrne) em um bar nova-iorquino. Mal Isaac sabia que Yale jogaria uma bomba no seu colo depois de deixar as mulheres em casa: ele está tendo um caso fora do casamento com a jornalista Mary Wilkie (Diane Keaton) e sente-se muito mal com isso. Seu amigo fica pasmo, já que sempre pensou que o casamento de Yale era perfeito. Certo dia, Isaac conhece Mary e, em um primeiro momento, a detesta. Esse sentimento, no entanto, mudará com o passar do tempo nesta ótima história assinada por Woody Allen e Marshall Brickman.

Dizer que Manhattan é uma personagem no filme é uma obviedade, mas precisa ser dito dado o cuidado com que Woody Allen e Gordon Willis fotografam a cidade. Pela primeira vez trabalhando com fotografia preto e branco, Allen captura Nova York de forma romântica, não sem mostrar o lado sujo e decadente da cidade. É uma carta de amor e, ao mesmo tempo, um registro da situação de sua adorada big apple. Nas ruas de Manhattan seus personagens riem, sofrem, choram, se apaixonam – vivem, basicamente.

Woody Allen, que sempre interpretou uma versão de si mesmo na telona, tem sua melhor performance em Manhattan. Pode parecer paradoxal, mas nunca Woody Allen esteve tão bem como ele mesmo quanto nesta produção. Fiel ao seu amigo, apaixonado por Mary e consciente de que seu caso de amor com Tracy não tem futuro algum, Isaac é um dos personagens mais responsáveis da carreira do cineasta. Nem por isso, ele é o João do passo certo. Ele erra, se engana, dá maus conselhos. Ou melhor, dá ótimos conselhos, mas os inverte tempos depois ao notar seu engano. É uma figura incrivelmente humana, que passeia pela vida a procura do amor e percebe que nem sempre a escolha mais óbvia é a mais acertada. Diferente de personagens anteriores, que sempre tinham na morte e no sexo seus principais interesses, Isaac parece ter outras coisas em mente – mesmo que, claro, o sexo ainda seja um assunto importante.

Novamente contracenando com Diane Keaton, Woody Allen constrói mais uma ótima personagem para a atriz. Vejam que Allen se repete muitas vezes com seus papeis, mas sempre consegue escrever novidades para Keaton. A atriz nunca fez um personagem igual nos filmes do cineasta. E a jornalista Mary Wilkies é mais uma figura diferenciada nesta gama de papéis. Inteligentíssima – a ponto de ser arrogante – Mary está infeliz com o seu caso com Yale e vê em Isaac uma companhia perfeita. Mas como o cérebro nem sempre manda no coração – principalmente em comédias românticas – o relacionamento entre Isaac e Mary pode não ter o final que todos esperam.

Por incrível que pareça, uma das personagens mais maduras de Manhattan é a jovem Tracy, vivida com doçura por Mariel Hemingway. Apaixonada por um homem mais velho que seu pai, a garota faz de tudo para conquistar o coração de Isaac, mas percebe que seu namorado nunca a leva a sério por conta da idade. Em atuação indicada ao Oscar, Hemingway emociona na cena em que é dispensada por Isaac, em uma performance de cortar o coração de qualquer pessoa com algum sentimento. Certamente, sua indicação ao prêmio da Academia se explica, principalmente, por causa daquela cena. Michael Murphy também tem uma atuação destacada, vivendo o confuso Yale, homem que está claramente vivendo uma crise de meia idade e não consegue esquecer a amante, mesmo amando a esposa. Fechando o elenco principal, Meryl Streep ganha pouco o que fazer – mesmo convencendo como a fechada ex-mulher de Isaac.

Com tantas qualidades, fica difícil entender o que Woody Allen viu de tão ruim em Manhattan para querer deixa-lo enterrado. Felizmente, o estúdio não aceitou a proposta do cineasta e mostrou ao mundo um dos trabalhos mais interessantes da carreira de Woody Allen. Quer ele queira ou não.

Manhattan
Dir.: Woody Allen
Com Woody Allen, Diane Keaton, Mariel Hemingway, Meryl Streep, Michael Murphy, Anne Byrne
Cotação Paradoxo: 5 Estrelas

domingo, 5 de junho de 2011

Dorminhoco

Dorminhoco

Em 1972, Woody Allen e Diane Keaton uniram-se na telona pela primeira vez em Sonhos de um Sedutor, filme dirigido por Herbert Ross e com roteiro do próprio Allen. Casal na vida real à época, o romance entre os dois não chegou a durar por muito tempo. Por outro lado, sua parceria cinematográfica seria uma das mais ricas na carreira de Woody Allen – e, porque não dizer, da própria Diane Keaton, recebendo diversos presentes em forma de personagens feitos sob medida para o talento da então jovem atriz. Um ano depois, em 1973, Woody Allen convidaria Diane Keaton para ser co-protagonista em uma comédia futurista intitulada Dorminhoco. É notável na tela a química entre os dois e como o talento de Keaton para a comédia a fazia a parceira perfeita para Woody Allen – ao menos, no cinema.

Com roteiro assinado por Allen junto de Marshall Brickman, Dorminhoco transporta o espectador para o ano de 2173. Um grupo de cientistas encontra um ser humano congelado em uma cápsula criogênica, datada de 1973. Ao conseguir reavivar o indivíduo, eles descobrem se tratar de Miles Monroe (Allen), um músico de jazz que, ao procurar tratamento para uma úlcera, acaba sendo congelado (cinco dias, no máximo, lhe dissera o doutor) e é acordado depois de 200 anos.

Os cientistas veem em Monroe uma boa chance de ajudar a revolução contra o Líder, figura máxima daquela sociedade futurística, que governa o mundo com punho de ferro. Monroe não se vê impelido em ajudar, já que política não é seu forte. Sem escolha – está sendo caçado pelo governo para que seu cérebro seja ajustado em sintonia com os demais – Monroe parte em busca de Aires, um projeto secreto que os revolucionários acreditam ser a chave para sua vitória. Em sua fuga, Monroe se fantasia de robô e acaba sendo levado para a casa de Luna (Keaton), uma socialite que só quer saber dos prazeres da vida. Os dois partirão em uma jornada que transformará completamente a realidade de ambos.

A grande novidade de Dorminhoco na carreira do cineasta é, finalmente, alguém que consiga fazer frente ao talento de Woody Allen frente às câmeras. Até agora, em sua filmografia, nenhuma figura em seus filmes era tão importante quanto o próprio diretor/ator. Existe uma mudança no interesse amoroso. Se antes, em filmes como Um Assaltante bem Trapalhão e Bananas, a mulher era uma figura quase decorativa, servindo apenas como um incentivo ou motivo para que o protagonista agisse, em Dorminhoco a personagem feminina ganha o que fazer. Com a entrada de Diane Keaton, existe claramente uma co-protagonista, uma personagem que sofre mudanças no decorrer da trama, que participa ativamente dos acontecimentos da história e, em certos momentos, consegue ser tão (ou mais) engraçada que Woody Allen. Isso denota uma maturidade maior do roteirista, que consegue escrever de forma mais afiada para outras pessoas, e um notável carinho do cineasta para com uma atriz talentosíssima, com ótimo timing cômico, um verdadeiro achado.

Se alguém duvida disso, uma cena é suficiente para provar. Monroe, tonto após sua memória tentar ser avivada pelos revolucionários, canaliza Blanche Dubois de Uma Rua chamada Pecado. Luna, por sua vez, tentando ajuda-lo, interpreta Kowalski no melhor estilo Marlon Brando. A sequencia toda é hilária e indica o início da generosidade de Woody Allen para com seus companheiros de elenco. Antes disso, era difícil observar um ator ofuscar Allen em seu próprio filme, com um texto melhor ou com uma gag mais engraçada. Em Dorminhoco, Diane Keaton é essa figura – que ganharia ainda maior espaço em A Última Noite de Bóris Grushenko, melhor comédia do início da carreira de Woody Allen.

Já ficou claro que Diane Keaton é uma co-protagonista ativa em Dorminhoco. Mas claro que o show ainda é de Allen. Novamente misturando piadas verbais com muita comédia física, o cineasta/roteirista/ator cria um mundo futurista saído do universo dos Jetsons – e me pergunto como seria a direção de arte do filme caso fosse realizado hoje, com toda a tecnologia disponível. As casas tem arquitetura arrojada, os carros parecem luminárias ambulantes e os “avançados” computadores ocupam uma parede inteira de uma sala. É sempre curioso observar a visão de futuro de uma produção mais antiga. Existem, aqui e ali, algumas invencionices que, ao menos no mundo de hoje, acabaram realmente se concretizando. É o caso da televisão, por exemplo, instalada na parede e com tela plana. Em 2173, provavelmente teremos outras tecnologias televisivas – mas é curioso observar que em pleno século XXI, já utilizamos uma das “invenções” do longa-metragem.

Para quem gosta de curiosidades, é importante ressaltar que Dorminhoco é o primeiro dos filmes de Woody Allen que utiliza o que viriam a ser seus clássicos créditos iniciais: fonte branca, fundo preto e jazz como trilha sonora. Neste caso, além de escrever o roteiro, atuar e dirigir, Allen também emprestou seus talentos musicais para a trilha, tocando junto dos Ragtime Rascalls – conjunto que é citado no filme como a banda que Miles Monroe tocava em 1973, o que não deixa de ser uma singela metalinguagem.

Dorminhoco é o início da maturidade de Woody Allen como cineasta. Se em Tudo o que você sempre quis saber sobre sexo e tinha medo de perguntar já era possível observar um crescente cuidado em termos de atuações, decupagem e trama, este outro trabalho dá um passo à frente. Primeiro dos filmes do cineasta que não tem uma trama episódica – Monroe sai do ponto A e tem de ir ao ponto B, passando por mudanças e culminando no seu desfecho, em uma trama que claramente utiliza os conceitos de causa e efeito – Dorminhoco é Woody Allen abandonando seu passado de comediante de palco e se tornando um cineasta de verdade.

Dorminhoco (Sleeper)
Dir.: Woody Allen
Com Woody Allen, Diane Keaton, John Beck, Mary Gregory
Cotação Paradoxo: 4 Estrelas

sábado, 4 de junho de 2011

Um Assaltante bem Trapalhão

Pegue o dinheiro e corra

Um Assaltante bem Trapalhão é a verdadeira estreia de Woody Allen na direção de longas-metragens. Apesar de sua filmografia contar com O que há, Tigresa? em 1966, o filme havia sido feito no Japão e apenas redublado nos Estados Unidos. Por mais que Allen tenha conseguido transformar aquele thriller de espionagem em uma comédia interessante, ainda não era uma produção com assinatura do cineasta. O primeiro esboço de autoria começaria neste mockumentary, documentário fictício sobre o ladrão frustrado Virgil Starkwell, interpretado pelo próprio diretor, praticamente criando sua persona nervosa nas telonas.

O roteiro de Um Assaltante bem Trapalhão é de Woody Allen, junto de Mickey Rose, profissional que já o havia ajudado no seu filme anterior e seria seu parceiro novamente em Bananas, no ano seguinte. Na trama, episódica, acompanhamos a vida de Virgil Starkwell, um jovem que desde tenra idade teve problemas com autoridades e que, agora, com seus vinte e poucos anos, não consegue viver uma vida ajustada. Sempre com um plano mais ousado que o outro – e que nunca dá certo – Virgil vai e volta da prisão inúmeras vezes. Até que um dia, o vigarista se apaixona pela angelical Louise (Janet Margolin) e... na verdade, nada muda. Continuando no mundo das contravenções, Virgil tenta sempre dar o golpe que resolverá todos os seus problemas financeiros.

O filme é construído como um documentário, com direito a narrador onisciente, entrevista com os parentes e amigos do vigarista e um depoimento do próprio Virgil. Aqui é importante notar que, na época, o conceito de mockumentary era praticamente inexistente em Hollywood. Portanto, é no mínimo corajoso da parte de Woody Allen estrear em um longa-metragem que brinca com sua própria linguagem, tentando misturar as características da comédia e do documentário de forma tão sagaz. Se existem filmes como Spinal Tap e Borat, certamente devem e muito a Um Assaltante bem Trapalhão.

A trama do filme é bastante episódica, o que mostra o background de Woody Allen como escritor cômico. É bom lembrar que o cineasta começou como comediante de stand up, escrevendo seu próprio material e se apresentando em clubes de Nova York. Quem conhece este estilo cômico sabe que durante um número são contadas diversas histórias engraçadas, geralmente sem ligação uma com a outra. O fio condutor é o próprio “personagem”, no caso, o comediante, que vai contando fatos que teriam lhe acontecido. É assim com Virgil Starkwell. Vamos acompanhando as contravenções que o vigarista participa, suas passagens pela prisão, seu romance com Louise e outros acontecimentos que não são ligados pela velha fórmula da ação e reação. Starkwell não é um personagem que tem um objetivo traçado ou que aprende algo com as coisas que lhe acontecem. É apenas um meio através do qual Woody Allen tenta fazer seus espectadores rirem.

E isso felizmente acontece com bastante frequência em Um Assaltante bem Trapalhão. Diz-se que o primeiro corte do filme não era nada engraçado e, depois da contratação do montador Ralph Rosenblum, as coisas acabaram ficando no seu lugar. Mas dá para notar que o humor ingênuo e pastelão do jovem Woody Allen está ali, com direito a gags hilárias como o revólver de sabão que faz espuma na chuva, o assalto que não funciona por um problema de caligrafia, a entrevista de emprego que se transforma em um jogo de adivinhações e, finalmente, o duplo assalto, realizado por dois grupos rivais ao mesmo tempo. São todas ótimas ideias, muito bem trabalhadas por Woody Allen nesta estreia.

Como já dito anteriormente, em Um Assaltante bem Trapalhão veríamos a criação da persona nervosa de Allen no cinema. Seu constante gaguejar e suas neuroses tiveram seu início neste longa-metragem – e que só aumentariam com o passar do tempo, chegando à perfeição com Noivo Neurótico, Noiva Nervosa. Outro assunto caro para Woody Allen e que dá as caras nesta produção é a falta de capacidade do cineasta em se comunicar com os pais – e vice-versa. Em Um Assaltante bem Trapalhão, os pais de Virgil utilizam máscaras (a la Grouxo Marx) para esconder a vergonha que sentem do filho. Recorrente na filmografia de Woody Allen, a barreira entre pais e filhos pela primeira vez foi endereçada neste trabalho.

Legítimo show de um homem só, Um Assaltante bem Trapalhão é uma primeira tentativa de comédia, trazendo diversos cacoetes do comediante de stand up, mas faltando algum cuidado com o timing de algumas piadas. Nada que não seria consertado em um futuro próximo.

Um Assaltante bem Trapalhão (Take the Money and Run)
Dir.: Woody Allen
Com Woody Allen, Janet Margolin
Cotação Paradoxo: 3 ½ Estrelas