O filme Reino Animal não tem seu título por acaso. A produção australiana dirigida pelo cineasta estreante David Michôd mostra seres humanos que praticamente engolem uns aos outros para sobreviver. A lei da selva ou a lei do mais forte são condutas permissíveis para os personagens da trama assinada pelo próprio diretor. Com uma história que cresce a cada minuto e com ótimas performances do elenco principal, Reino Animal é o típico filme independente que chega de mansinho e atrai todas as atenções para si. Foi assim no Festival de Sundance de 2010, quando o longa-metragem levou o grande prêmio do júri na categoria World Cinema. E, agora, deve ganhar ainda mais fôlego com as indicações para o Globo de Ouro e Oscar.
Na trama, Josh (James Frecheville) é um garoto de 17 anos que acaba de perder sua mãe e se vê obrigado a morar com sua avó, Janine (Jackie Weaver, de Caddie), com quem nunca teve muito contato. Ela o recebe de forma bastante carinhosa, mesmo tratamento dispensado para seus dois sempre presentes filhos: Darren (Luke Ford, de A Múmia – Tumba do Imperador Dragão) e Craig (Sullivan Stapleton, de Um Verão para Toda Vida). Josh logo percebe que o crime é a forma com que a casa é sustentada, com seu outro tio, Pope (Ben Mendelsohn, de Presságio) foragido da polícia. Os oficiais da lei tentam a todo custo pegar o perigoso Pope, inclusive vigiar a casa de seu melhor amigo, Baz Brown (Joel Edgerton, de A Última Cartada), na tentativa de buscar o criminoso. Como estamos no “reino animal”, a própria polícia utiliza meios escusos para chamar a atenção de Pope e acaba matando Baz em uma armação. Indignado, Pope resolve agir e envolve o jovem Josh no mundo do crime. Agora, o rapaz terá de escolher entre a lealdade à família ou o caminho do bem, com uma ajudinha do policial bom moço Leckie (Guy Pearce, de Guerra ao Terror).
Uma das grandes qualidades de Reino Animal está na imprevisibilidade de seu roteiro. A história pode ir para vários lugares e David Michôd escolhe as alternativas menos clichês para guiar seus personagens. As surpresas já começam com a morte, logo no início, de Baz Brown. Ok, ele estava preparado para abandonar o mundo do crime e é morto, fato que ecoa o clássico “policial que vai se aposentar morre no seu último dia de trabalho”. Isso não é lá tão criativo. Mas, de resto, o longa-metragem guarda cartas na manga improváveis, como a frieza de Janine e as atitudes intempestivas de Pope.
Os dois personagens são os verdadeiros destaques de Reino Animal. Ben Mendelsohn cria uma figura realmente perigosa em Pope, homem que apenas com o olhar consegue gelar a espinha do seu interlocutor. Suas atitudes são imprevisíveis e ele fará de tudo para não ser preso. Josh não demora em perceber esta característica do tio, mas é pego no meio de um turbilhão de situações que escapam completamente de seu controle. E, a bem da verdade, o garoto está longe de ser um santo. Logo no início do filme vemos que algo não está certo com o rapaz – sua passividade em relação ao estado da mãe é alarmante – e o próprio revela que sabe a diferença do certo e do errado, mas que não acha anormal o jeitão perigoso de seus tios. James Frecheville carece de maior experiência, já que não consegue mostrar as nuances do papel e o amadurecimento de Josh, mas não compromete.Já Jacki Weaver é um caso a parte. No começo da trama, perguntava-me onde estava tamanho alvoroço sobre sua performance no filme. Na primeira hora de Reino Animal, nada acontece de muito interessante com a personagem para valer tantas lembranças em premiações. Isso até chegar um momento chave do longa-metragem, onde Janine mostra toda sua frieza. Ou seria apenas uma forma de preservar seu ninho? A matriarca da família faz o que for preciso para salvar seus filhos, assim como tantos exemplos no mundo animal. Novamente o título do filme faz totalmente a diferença. Por sua excelente atuação, Jacki Weaver rouba completamente a cena na segunda hora de projeção, ofuscando inclusive outro destaque do elenco, o sempre competente Guy Pearce. O ator vive o policial gente boa que tenta colocar os filhos de Janine atrás das grades. Mas, para isso, precisará da ajuda de Josh. Pearce dá muita consistência ao personagem, o transformando em uma das poucas figuras aparentemente sãs do longa-metragem.
Com uma trama que vai em um crescendo, culminando em um final bombástico – deixando inclusive um dos personagens (e toda a plateia) aturdidos - Reino Animal é um violento retrato do crime, com personagens marcantes e andamento certeiro. Dito isso, é possível afirmar que David Machôd é um diretor estreante no qual cinéfilos podem ficar de olho.
Maratona Oscar: Reino Animal foi indicado ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante (Jacki Weaver). É bastante confortável afirmar que as quatro categorias de atuação no Oscar já estão praticamente fechadas – não devem fugir do que vimos no SAG Awards e no Globo de Ouro. Portanto, Jacki Weaver tem poucas chances de tirar a estatueta das mãos de Melissa Leo, por O Vencedor. Neste caso específico, por ser um filme independente australiano, o fato de receber uma indicação é, na verdade, um grande prêmio. Chamará a atenção de uma parcela do público que talvez não fosse assistir ao filme e, certamente, ajudará na distribuição do longa-metragem em diversas partes do mundo. Quer algo melhor?
Reino Animal (Animal Kingdom)
Dir.: David Machôd
Com Ben Mendelsohn, Joel Edgerton, Guy Pearce, Jacki Weaver, Luke Ford, Sullivan Stapleton e James Frecheville
Cotação Paradoxo: Vale 89% do ingresso
Confira logo abaixo o trailer de Reino Animal:

















