segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Reino Animal

Crazy Fucking World

O filme Reino Animal não tem seu título por acaso. A produção australiana dirigida pelo cineasta estreante David Michôd mostra seres humanos que praticamente engolem uns aos outros para sobreviver. A lei da selva ou a lei do mais forte são condutas permissíveis para os personagens da trama assinada pelo próprio diretor. Com uma história que cresce a cada minuto e com ótimas performances do elenco principal, Reino Animal é o típico filme independente que chega de mansinho e atrai todas as atenções para si. Foi assim no Festival de Sundance de 2010, quando o longa-metragem levou o grande prêmio do júri na categoria World Cinema. E, agora, deve ganhar ainda mais fôlego com as indicações para o Globo de Ouro e Oscar.

Na trama, Josh (James Frecheville) é um garoto de 17 anos que acaba de perder sua mãe e se vê obrigado a morar com sua avó, Janine (Jackie Weaver, de Caddie), com quem nunca teve muito contato. Ela o recebe de forma bastante carinhosa, mesmo tratamento dispensado para seus dois sempre presentes filhos: Darren (Luke Ford, de A Múmia – Tumba do Imperador Dragão) e Craig (Sullivan Stapleton, de Um Verão para Toda Vida). Josh logo percebe que o crime é a forma com que a casa é sustentada, com seu outro tio, Pope (Ben Mendelsohn, de Presságio) foragido da polícia. Os oficiais da lei tentam a todo custo pegar o perigoso Pope, inclusive vigiar a casa de seu melhor amigo, Baz Brown (Joel Edgerton, de A Última Cartada), na tentativa de buscar o criminoso. Como estamos no “reino animal”, a própria polícia utiliza meios escusos para chamar a atenção de Pope e acaba matando Baz em uma armação. Indignado, Pope resolve agir e envolve o jovem Josh no mundo do crime. Agora, o rapaz terá de escolher entre a lealdade à família ou o caminho do bem, com uma ajudinha do policial bom moço Leckie (Guy Pearce, de Guerra ao Terror).

Uma das grandes qualidades de Reino Animal está na imprevisibilidade de seu roteiro. A história pode ir para vários lugares e David Michôd escolhe as alternativas menos clichês para guiar seus personagens. As surpresas já começam com a morte, logo no início, de Baz Brown. Ok, ele estava preparado para abandonar o mundo do crime e é morto, fato que ecoa o clássico “policial que vai se aposentar morre no seu último dia de trabalho”. Isso não é lá tão criativo. Mas, de resto, o longa-metragem guarda cartas na manga improváveis, como a frieza de Janine e as atitudes intempestivas de Pope.

Os dois personagens são os verdadeiros destaques de Reino Animal. Ben Mendelsohn cria uma figura realmente perigosa em Pope, homem que apenas com o olhar consegue gelar a espinha do seu interlocutor. Suas atitudes são imprevisíveis e ele fará de tudo para não ser preso. Josh não demora em perceber esta característica do tio, mas é pego no meio de um turbilhão de situações que escapam completamente de seu controle. E, a bem da verdade, o garoto está longe de ser um santo. Logo no início do filme vemos que algo não está certo com o rapaz – sua passividade em relação ao estado da mãe é alarmante – e o próprio revela que sabe a diferença do certo e do errado, mas que não acha anormal o jeitão perigoso de seus tios. James Frecheville carece de maior experiência, já que não consegue mostrar as nuances do papel e o amadurecimento de Josh, mas não compromete.

Já Jacki Weaver é um caso a parte. No começo da trama, perguntava-me onde estava tamanho alvoroço sobre sua performance no filme. Na primeira hora de Reino Animal, nada acontece de muito interessante com a personagem para valer tantas lembranças em premiações. Isso até chegar um momento chave do longa-metragem, onde Janine mostra toda sua frieza. Ou seria apenas uma forma de preservar seu ninho? A matriarca da família faz o que for preciso para salvar seus filhos, assim como tantos exemplos no mundo animal. Novamente o título do filme faz totalmente a diferença. Por sua excelente atuação, Jacki Weaver rouba completamente a cena na segunda hora de projeção, ofuscando inclusive outro destaque do elenco, o sempre competente Guy Pearce. O ator vive o policial gente boa que tenta colocar os filhos de Janine atrás das grades. Mas, para isso, precisará da ajuda de Josh. Pearce dá muita consistência ao personagem, o transformando em uma das poucas figuras aparentemente sãs do longa-metragem.

Com uma trama que vai em um crescendo, culminando em um final bombástico – deixando inclusive um dos personagens (e toda a plateia) aturdidos - Reino Animal é um violento retrato do crime, com personagens marcantes e andamento certeiro. Dito isso, é possível afirmar que David Machôd é um diretor estreante no qual cinéfilos podem ficar de olho.

Maratona Oscar: Reino Animal foi indicado ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante (Jacki Weaver). É bastante confortável afirmar que as quatro categorias de atuação no Oscar já estão praticamente fechadas – não devem fugir do que vimos no SAG Awards e no Globo de Ouro. Portanto, Jacki Weaver tem poucas chances de tirar a estatueta das mãos de Melissa Leo, por O Vencedor. Neste caso específico, por ser um filme independente australiano, o fato de receber uma indicação é, na verdade, um grande prêmio. Chamará a atenção de uma parcela do público que talvez não fosse assistir ao filme e, certamente, ajudará na distribuição do longa-metragem em diversas partes do mundo. Quer algo melhor?

Reino Animal (Animal Kingdom)
Dir.: David Machôd
Com Ben Mendelsohn, Joel Edgerton, Guy Pearce, Jacki Weaver, Luke Ford, Sullivan Stapleton e James Frecheville
Cotação Paradoxo: Vale 89% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de Reino Animal:

domingo, 30 de janeiro de 2011

Recapitula Maratona Oscar – Parte 1

Com o início da Maratona Oscar nesta semana, muitos filmes ainda passarão pelo Paradoxo até o dia 27 de fevereiro, data da festa da Academia. Mas, como geralmente acontece, diversos indicados ao prêmio já haviam merecido posts no site durante o ano que passou. Esta, portanto, é a primeira parte da recapitulação de produções resenhadas no Paradoxo em 2010: A Origem, Minhas Mães e Meu Pai, Toy Story 3, Atração Perigosa, Como Treinar seu Dragão, Alice no País das Maravilhas e Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 1.

A Origem
In Dreams

Uma ficção científica de ação que ocorre na arquitetura da mente. Era apenas essa enigmática idéia que o cineasta Christopher Nolan (de Batman – O Cavaleiro das Trevas) revelava sobre seu próximo e igualmente enigmático novo filme, A Origem. Muitos poderiam pensar que o diretor estava sendo zeloso ao extremo sobre o conteúdo da história. Mas não é o caso. Nolan tinha em mente, e de forma muito correta, que quanto menos o espectador souber sobre a trama de A Origem, melhor será a experiência. Por isso, a recomendação aqui é a mesma: assista ao filme antes, sem muitas informações anteriores, e leia a crítica depois. Caso você já tenha percorrido os labirintos da trama, assinada pelo próprio diretor, ou não se importa em saber mais sobre os sonhos que permeiam esta produção, prossiga sem medo. Leia a crítica completa aqui

Maratona Oscar: A Origem, de Christopher Nolan, foi indicado a oito Oscar: Melhor Filme, Roteiro Original, Direção de Arte, Fotografia, Edição de Som, Mixagem de Som, Trilha Sonora Original e Efeitos Especiais. Uma das grandes surpresas nas indicações ao prêmio da Academia foi a ausência do nome de Christopher Nolan entre os cinco melhores diretores. O filme também não ter sido indicado a Melhor Edição parece uma piada, inclusive. Enfim. A Origem deve se dar muito bem nos prêmios técnicos como Mixagem de Som, Edição de Som e Efeitos Especiais. Roteiro Original seria uma aposta certeira, caso não parecesse que a Academia tem algum tipo de birra com Christopher Nolan.

Minhas Mães e Meu Pai

The Youth

O orçamento foi baixo, apenas U$ 4 milhões. O tempo de filmagem foi curto, só 23 dias. É impressionante, portanto, o que a cineasta Lisa Cholodenko (de Cavedweller) conseguiu realizar diante de tantas limitações para construir seu novo trabalho, Minhas Mães e Meu Pai. Contando com um elenco estelar e muito bem escalado, Cholodenko parte de uma experiência própria para contar uma história que, antes de tudo, fala sobre amor, companheirismo e família. Leia a crítica completa aqui

Maratona Oscar: Minhas Mães e Meu Pai, de Lisa Cholodenko, foi indicado a 4 Oscar: Melhor Filme, Atriz (Annette Benning), Ator Coadjuvante (Mark Ruffalo) e Roteiro Original. O longa-metragem é o representante indie do ano e, observando o histórico recente da Academia de prêmios de roteiro para tais filmes (Pequena Miss Sunshine, Juno), não duvidaria se surpreendesse e levasse a estatueta. No entanto, dois pesos pesados estão no páreo: A Origem e O Discurso do Rei, o que dificulta bastante o lado de Minhas Mães e Meu Pai. Se não levar Roteiro, o filme sairá de mãos abanando da festa. Mark Ruffalo como Ator Coadjuvante foi uma surpresa positiva e só. Annette Bening está perfeita no papel, mas tem em Natalie Portman uma incrível adversária.

Toy Story 3

Amigo estou aqui

Todos os elogios são poucos para os magos da Pixar. Com uma filmografia irretocável e personagens interessantíssimos, nem é mais possível dizer que o estúdio surpreende a cada nova produção. Até porque, o nível de qualidade é sempre alto. Surpresa seria o contrário. De alguma forma, no entanto, a Pixar conseguiu elevar um pouco mais seu padrão, chegando a níveis impressionantes. Duvida? Toy Story 3 consegue ser tão bom – e em alguns momentos, até melhor – que seus antecessores. Quantas trilogias têm em seu último episódio o capítulo mais interessante? Pouquíssimas. Na média, a maioria das franquias cinematográficas vai descendo a ladeira da qualidade com o passar dos anos e das sequências. Felizmente, não é isso que acontece com os brinquedos de Andy nesta nova caprichada aventura. Leia a crítica completa aqui

Maratona Oscar: Toy Story 3, de Lee Unkrich, foi indicado a cinco Oscar: Melhor Filme, Roteiro Adaptado, Edição de Som, Canção Original e Animação. Uma das barbadas do ano é a escolha do filme da Pixar como Melhor Animação. Por mais brilhantes que sejam Como Treinar seu Dragão e O Mágico, ambos não são páreo para Woody e Buzz. Seria ótimo se víssemos a aventura dos brinquedos de Andy levando Melhor Roteiro Adaptado. Mas Aaron Sorkin e seu ótimo A Rede Social são os principais adversários de Toy Story 3.

Atração Perigosa

Charlestown

Quem diria que Ben Affleck, ator que protagonizou produções como Armageddon, Pearl Harbor e Demolidor, poderia se tornar um diretor interessante? Atração Perigosa é o seu segundo longa-metragem atrás das câmeras e prova que o resultado positivo de sua estréia, Medo da Verdade, não foi sorte de principiante. Acumulando as funções de diretor, protagonista e roteirista, Affleck comanda uma história forte com interpretações impactantes. Leia a crítica completa aqui

Maratona Oscar: Atração Perigosa, de Ben Affleck, foi indicado ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante (Jeremy Renner). O longa-metragem foi uma das produções ignoradas pelo Oscar em 2010. E sua única indicação não deve trazer premiação alguma para o filme – mesmo que Renner esteja ótimo como o bandido sem noção de Atração Perigosa. A única chance do ator sair com a estatueta no lugar de Christian Bale é se a Academia se sentir impelida a presenteá-lo com o prêmio, já que não o fez ano passado em Guerra ao Terror.

Como Treinar o seu Dragão

Soluço e Banguela

Desde as sessões de Os Fantasmas de Scrooge, de Robert Zemeckis, em dezembro de 2009, o trailer de Como Treinar o Seu Dragão invadiu os cinemas, em uma campanha maciça realizada pela Dreamworks. No entanto, por mais que este preview tenha sido bem realizado, não me agradava a idéia de assistir a um filme sobre vikings treinadores/matadores de dragão. Realmente não parecia uma premissa das mais interessantes para segurar um longa-metragem. Talvez até por isso, fui o empurrando o quanto pude e só o assisti na última sessão 3D possível, um dia antes de os cinemas deste formato serem invadidos pelos devaneios de Tim Burton e seu Alice no País das Maravilhas - como bem se sabe, quando um novo 3D chega, os demais têm de sair. Para minha grande surpresa, a experiência de conferir Como Treinar o Seu Dragão foi divertidíssima. A animação de Dean DeBlois e Chris Sanders (Lilo & Stich) é deliciosa, com personagens cativantes e aventura acima da média. Leia a crítica completa aqui

Maratona Oscar: Como Treinar o Seu Dragão, de Chris Sanders e Dean DeBlois, foi indicado a dois Oscar: Melhor Animação e Trilha Sonora Original. Nada tira a estatueta de Toy Story 3 na categoria Animação. Nada tira a estatueta das mãos de Trent Reznor e Atticus Ross por A Rede Social. Portanto, o futuro não é brilhante para Como Treinar o seu Dragão. O filme é tão simpático que até dá vontade de torcer por ele. Mas sem esperança alguma.

Alice no País das Maravilhas

Underworld

Quem gosta de Tim Burton e de sua visão bastante particular sobre as mais variadas histórias provavelmente sairá satisfeito da sessão de Alice no País das Maravilhas, reimaginação do cineasta para as aventuras dos personagens de Lewis Carroll. Isso porque o filme, assim como Batman (1989), Planeta dos Macacos (2001) e A Fantástica Fábrica de Chocolate (2006), segue a peculiar ótica do cineasta. É a leitura de Tim Burton para aquela história. Ou seja, não espere uma versão fiel do clássico de Carroll, nem uma adaptação açucarada aos moldes da animação Disney de 1951. Leia a crítica completa aqui

Maratona Oscar: Alice no País das Maravilhas, de Tim Burton, foi indicado a três Oscar: Melhor Direção de Arte, Figurino e Efeitos Especiais. Apesar de bons efeitos, o 3D deve atrapalhar Alice na categoria. Dos cinco indicados, o longa de Tim Burton foi o único a ser exibido em três dimensões no cinema e acredito que será um ponto negativo a ele. Já Direção de Arte e Figurino são premiações mais prováveis. Indicar um trabalho de Tim Burton para Direção de Arte é quase lugar-comum. E os figurinos de Alice são ótimos e imaginativos. É um bom concorrente.

Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 1

O começo do fim

Foi uma decisão mercadológica, mas acertada. Separar em dois filmes o último livro da saga do bruxinho britânico criada por J.K. Rowling significa para a Warner Bros. praticamente o dobro de ingressos vendidos. É quase como vender um filme à prestação, com a segunda parte sendo resgatada – e paga – pelo espectador no próximo ano. Não que o público fã de Harry Potter e as Relíquias da Morte realmente se importe com isso. O que mais um admirador dos livros quer é acompanhar no cinema da forma mais fiel possível a história que já conhece de trás para frente. Por isso, dois filmes contando a última aventura de Potter e companhia acaba sendo uma acertada decisão, dada a extensão do livro e a dificuldade em não poder cortar muitos detalhes da trama – função realizada pelo roteirista Steve Kloves (que adaptara todos os livros do bruxo para o cinema, exceto Harry Potter e a Ordem da Fênix). Leia a crítica completa aqui

Maratona Oscar: Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 1, de David Yates, concorre a dois Oscar: Melhor Direção de Arte e Efeitos Especiais. Apesar de ter inúmeras indicações, a saga Harry Potter nunca levou um Oscar pra casa. E, creio, não será em 2011 que conseguirá quebrar o jejum. Os concorrentes fortes de cada categoria (Alice e A Origem, respectivamente) serão pedras nos sapato do bruxinho britânico.

No próximo domingo (06/02), em cartaz no Paradoxo: Recapitula Maratona Oscar – Parte 2

sábado, 29 de janeiro de 2011

Exit Through the Gift Shop

Mr. Brainwash

O documentário Exit Through the Gift Shop, do artista de rua (e agora cineasta) Banksy, conta uma história tão maluca que é difícil não pensar ser tudo um grande engodo. Talvez nunca tenhamos certeza se o que vimos é ou não verdade – e é o que menos importa no apagar das luzes. Mostrando os meandros da arte de rua, os artistas que nela trabalham e obras bastante interessantes e inventivas, o longa-metragem acaba fazendo uma grande propraganda pró-street art. Ao mesmo tempo, cria uma aura de mistério ainda maior sobre a figura de Banksy, um artista (ou vários?) que se mantém no anonimato até hoje. E, por fim, de forma bastante audaciosa, aponta o dedo para os altíssimos valores pagos por arte, tirando sarro com algumas peças de gosto bastante duvidoso do recém criado artista Mr. Brainwash. Ou será que não?

Narrado pelo britânico Rhys Ifans (de Harry Potter e as Reliquias da Morte – Parte 1), Exit Through the Gift Shop conta a trajetória do francês Thierry Guetta, um vendedor de roupas que tem em sua filmadora sua principal aliada. Gravando tudo o que vê pela frente, Guetta começa a achar um propósito para sua sede de imagens ao conhecer artistas de rua e capturar sua arte. O seu primo, conhecido como Space Invader (por colocar nas ruas figuras do game como sua marca), o coloca em contato com outros artistas e a coisa deslancha a partir daí.

Apenas um hobby de início, Guetta começa a perceber que as estrelas de suas filmagens demandam um propósito para serem gravados. É então que surge a semente da ideia de um documentário sobre street art. Guetta, no entanto, é tão sem noção, que acaba virando objeto do filme em vez de o criador. Tudo isso com a mão de Banksy, que acaba se tornando uma espécie de amigo e mentor para o francês.

A maior contribuição do documentário é mostrar os artistas de rua no seu habitat natural, trabalhando com as adversidades sabidas do metier e, mesmo assim, criando obras belíssimas. A criatividade de figuras como Space Invader, Shepard Fairey e, lógico, Banksy, impressiona. Além de tantos outros que aparecem na montagem inicial do documentário, sempre usando a rua como forma de interação com sua arte.

Para quem ficava curioso para saber como grafiteiros conseguem chegar a alturas impensáveis, ou como as imagens são colocadas nas ruas sem ninguém perceber, Exit Through the Gift Shop responde estas questões. Mas, certamente, não foi apenas isso que chamou a atenção de muita gente para o documentário. A figura maluca de Thierry Guetta é culpada por grande parte do espaço que o longa-metragem vem ganhando na mídia.

Isso porque é difícil entender se a história de Guetta é verdadeira ou apenas uma farsa muito bem elaborada por Banksy. De acordo com o filme, o francês virou de um vendedor de roupas para um videomaker inveterado. De um videomaker inveterado para um artista iniciante. De um artista iniciante para um sucesso de vendas. E tudo isso em um espaço pequeno de tempo, sempre ajudado por figuras conhecidas do street art – como o próprio Banksy, que praticamente o apadrinha. Da maneira como as coisas acontecem, é muito mais fácil duvidar do que vemos do que o contrário.

Penso que vemos em Exit Through the Gift Shop um personagem inventado por Banksy, o tal Mr. Brainwash, e nem duvidaria se descobríssimos no futuro que Banksy e Guetta são a mesma pessoa. Ou, mais fácil, que as obras de Guetta são, na verdade, feitas por Banksy e seus amigos. Muitas dicas levam a crer que estamos vendo um falso documentário sobre Brainwash. Nunca o vemos ativamente trabalhando em suas obras, o “acidente” em que ele se envolve é conveniente para a história e a forma com que os outros artistas falam abertamente – e negativamente – sobre Guetta faz pensar que estamos vendo uma grande inverdade.

Mentira ou não, o filme encontra uma forma bastante inteligente de criticar o mercado da arte e pessoas que pagam pequenas fortunas por quadros que não são tão especiais como se poderia pensar. Guetta, inclusive, começa a espalhar tinta de forma errática para criar suas “telas exclusivas”. O quanto dá para levar um artista assim à sério?

Curto, mas chegando ao ponto, Exit Through the Gift Shop pode confundir o espectador sobre as barreiras do real e da ficção, mas é divertido o suficiente para uma conferida. Serve, ao menos, para mostrar o quanto a street art é um movimento criativo e uma verdadeira forma de arte. Missão cumprida.

Maratona Oscar: Exit Through the Gift Shop, de Banksy, foi indicado ao Oscar de Melhor Documentário. Difícil fazer alguma previsão sem ter visto nenhum dos outros títulos, mas talvez o vanguardismo de algumas imagens possa afastar os mais antigos membros da Academia. É uma incógnita, por enquanto.

Exit Through the Gift Shop
Dir.: Banksy
Cotação Paradoxo: Vale 82% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de Exit Through the Gift Shop:



Na próxima semana, em cartaz no Paradoxo: Reino Animal, de David Michôd, indicado ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante (Jacki Weaver)

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

A Rede Social

I’m the CEO, Bitch!

A primeira cena de A Rede Social é um divertido, sucinto e supersônico resumo do que acompanharemos nas duas horas seguintes. Ali temos diálogos rápidos, com uma velocidade de raciocínio impressionante, e um protagonista obcecado por distinção. Mark Zuckerberg, no longa-metragem de David Fincher, é uma pessoa brilhante, mas que necessita da aprovação dos seus pares. Precisa ser alguém superior. E é isso que vemos na produção com roteiro de Aaron Sorkin (criador do seriado The West Wing), baseado no livro Bilionários por Acaso, de Ben Mezrich.

Na história, Zuckerberg (Jesse Eisenberg, de Zumbilândia) é um estudante da Universidade de Harvard com um objetivo bastante claro: ser aceito em um dos prestigiosos clubes do campus. Em meio a sua obsessão pela idéia, Mark não parece perceber que está perdendo contato com sua namorada, Erika (Rooney Mara, de A Hora do Pesadelo), que logo lhe dá um fora. Amargo, Zuckerberg escreve frases grosseiras em seu blog sobre a ex e cria, em poucas horas, um site no qual as pessoas podem votar nas mulheres mais bonitas do campus.

Esse pequeno momento de raiva acaba o levando a criar uma página visitada por 22 mil pessoas em questão de horas – fato que não passa despercebido pelos gêmeos Winklevoss (Armie Hammer, do seriado Gossip Girl), que logo o convidam a ajudá-los na construção de um novo site. Mas Zuckerberg tem outros planos em mente: uma página que seja realmente exclusiva. Como um clube. Para tanto, é necessário dinheiro. E seu amigo brasileiro Eduardo Saverin (Andrew Garfield, de O Mundo Imaginário de Doutor Parnassus), que possui meios para tanto, é convidado a entrar na empreitada. Ao inventar o Facebook, Zuckerberg cria um incrível site de relacionamentos – e uma orda de inimigos ao mesmo tempo.

É importante que se diga que Sorkin cria seu próprio Zuckerberg quando escreve A Rede Social. Isso porque, em primeiro lugar, o material de origem é a visão de Eduardo Saverin sobre o caso. E, em segundo, Sorkin toma liberdades excessivas com a história verdadeira – como transformar Zuckerberg em um solteiro ávido por reatar com sua ex, sendo que o dono do Facebook tinha namorada durante todo o tempo de criação do site. Se a história não é muito próxima da verdade, no fim das contas, pouco importa. O que interessa é que A Rede Social é um filme incrivelmente bem escrito, com andamento perfeito e um elenco que defende muito bem seus personagens. Pode ser uma mentira, mas bem contada como poucas.

Aaron Sorkin é um roteirista de mão cheia. Seus textos sempre são recheados de frases inteligentes, proferidas por seus personagens em alta velocidade e com ironia bastante fina. Em A Rede Social, estas características de Sorkin estão presentes. E com um sério upgrade: o ótimo contador de histórias David Fincher. Os dois engendram uma trama que vem e volta no tempo, misturando acontecimentos do passado com os dois processos que Zuckerberg respondeu pela criação do Facebook. Mas nada que atrapalhe a atenção do espectador. Os momentos do processo funcionam como comentários do que passou – ou como anúncios do que está por vir. Desta forma, os próprios protagonistas da história nos sevem como cicerones da trama.

Mas como construir um longa-metragem em cima de um sujeito tão controverso e potencialmente odiável como Mark Zuckerberg? Não é tarefa fácil. Mesmo que diretor e roteirista dourem a pílula aqui e ali, é difícil não pensar no protagonista da história como um grande tratante, uma figura que só pensa no próprio umbigo, o centro do seu universo. Jesse Eisenberg consegue capturar toda a inteligência e raciocínio rápido de Zuckerberg e cria um personagem que, se não é adorado pela platéia, ao menos ganha certo respaldo pelo seu incrível intelecto. Podemos não gostar das atitudes do protagonista, mas nunca torcemos contra. A bem da verdade, é mais fácil que o público torça por uma conciliação no desfecho do que qualquer outra coisa.

E isso talvez se explique pela ótima performance de Andrew Garfield como Eduardo Saverin. Ele sim, bastante ingênuo, é a pessoa que se comunica melhor com a plateia. Mesmo estando equivocado em quase todas as decisões envolvendo o site, o espectador não deseja que ele seja passado para trás. Mas é o que acontece quando o criador do Napster, Sean Parker (Justin Timberlake) entra na equação. O músico/ator, aliás, está perfeito no papel. Parker é um verdadeiro pavão e Timberlake consegue trazer isso ao personagem, misturando com altas doses de covardia e egocentrismo.

Falando no elenco, é impossível esquecer da ótima performance de Armie Hammer como os gêmeos Winklevoss. Fora o fato dos efeitos especiais estarem magníficos, não fazendo com que o espectador duvide um segundo de que está realmente vendo gêmeos aturarem, o ator consegue criar duas personalidades distintas para os “Winklevi”, indo muito além do pentear o cabelo para o outro lado. Se Garfield e Eisenberg foram os atores mais lembrados em premiações, Hammer é uma revelação à parte de A Rede Social.

Com uma edição dinâmica e música inspirada de Trent Reznor e Atticus Ross, o longa-metragem de David Fincher se junta à excelente lista dos melhores trabalhos do cineasta, que já tem Seven, Clube da Luta e Zodíaco como expoentes. Quem imaginaria. Quando a notícia saiu de que fariam um filme sobre o Facebook, era difícil apostar que o resultado final seria este A Rede Social. Muito além de ser uma crônica da criação de um site, o longa-metragem de Fincher é uma história sobre obsessão, inveja, ambição e talento. Em doses cavalares.

Maratona Oscar: A Rede Social, de David Fincher, foi indicado a 8 Oscar: Filme, Diretor, Ator (Eisenberg), Roteiro Adaptado, Edição, Trilha Sonora, Fotografia e Mixagem de Som. Dificilmente o filme sairá de mãos abanando da festa. Roteiro, Trilha Sonora e Diretor são apostas certeiras. Com a ausência de A Origem na categoria Edição, é outra grande chance de premiação. E, claro, são gigantes as chances dos produtores de A Rede Social saírem da festa com a estatueta de Melhor Filme.

A Rede Social (The Social Network)
Dir.: David Fincher
Com Jesse Eisenberg, Andrew Garfield, Justin Timberlake, Armie Hammer, Rooney Mara
Cotação Paradoxo: Vale 95% do ingresso

Confira logo abaixo o ótimo trailer de A Rede Social:



Amanhã, em cartaz no Paradoxo: Exit Through the Gift Shop, de Banksy, indicado ao Oscar de Melhor Documentário.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

O Mágico

Tati

Sylvain Chomet já havia chamado a atenção dos cinéfilos de plantão com seu cuidadoso trabalho em As Bicicletas de Belleville, em 2003. Naquela ocasião, inclusive, o cineasta francês foi lembrado pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas com duas indicações ao Oscar: Melhor Animação e Melhor Canção Original. Passados sete anos, Chomet volta a roubar a cena com um belo e triste longa-metragem chamado O Mágico. Resgatando um antigo roteiro do mestre do humor francês Jacques Tati, Chomet cria um filme que é um verdadeiro deleite para os olhos.

Algumas mudanças foram realizadas no script originalmente escrito por Tati, modificações assinadas pelo próprio diretor. Na trama, ambientada nos anos 50, um velho mágico começa a perceber que o espaço para atrações do seu estilo está cada vez mais diminuto. O grande público prefere os shows de rock ao seu talento. Convidado a se apresentar na Escócia, o ilusionista encontra uma audiência ainda não contaminada pelas novidades do mundo moderno. Lá, acaba conhecendo uma menina pobre, Alice, que se afeiçoa ao velho mágico. A menina acredita que os truques feitos pelo seu novo amigo são, na verdade, magia. Quando o ilusionista resolve ir embora, Alice o segue e, juntos, vivem uma rotina que nenhum dos dois esperava.

Sylvain Chomet presta uma grande homenagem a Jacques Tati em O Mágico. O cineasta preserva algumas das características mais singulares do artista - desde sua forma única de se movimentar, seus trejeitos e maneirismos, se dando o direito de tomar emprestado o conhecido tipo físico e suas vestimentas. Além disso, os personagens do longa-metragem dificilmente falam entre si. E quando isso acontece, o som de suas vozes é praticamente inteligível. Para o espectador, portanto, só são permitidas informações visuais. Mais uma idéia emprestada das produções clássicas de Jacques Tati como Meu Tio - filme este que tem uma aparição rápida dentro de O Mágico, em mais uma bela idéia de Chomet.

O cineasta, além de dirigir e adaptar o roteiro, também é responsável pela bela música que embala o longa-metragem. Carregando um feeling da década de 50, as composições encaixam-se perfeitamente no universo criado para a dupla de solitários personagens.

Solidão, aliás, é a palavra chave para compreender O Mágico. Tanto o ilusionista como Alice são solitários e enxergam no outro uma chance de companhia. Com o avançar do tempo, o mágico descobre que dividir a casa com uma menina tem o seu preço e investir demais em um relacionamento neste momento da vida pode ser prejudicial. A história caminha para um final bastante triste e Chomet não poupa a platéia de um desfecho nada otimista.

Além de ser uma história bastante interessante, o traço da animação de Chomet é incrível. Os personagens se movimentam com uma leveza ímpar e os cenários são de uma beleza impecável. Como citado anteriormente, O Mágico é um deleite para os olhos. E também para os ouvidos, já que a trilha sonora é estupenda. Uma animação diferenciada e uma verdadeira obra de arte. É isso que Sylvain Chomet nos presenteia com O Mágico.

Maratona Oscar: O Mágico foi indicado ao Oscar de Melhor Animação. Por mais bem qualificada que a produção seja, cair no mesmo ano de Toy Story 3 e Como Treinar seu Dragão é um azar tremendo. Não deve levar nada, assim como aconteceu em 2004, quando As Bicicletas de Belleville perdeu para Procurando Nemo da Pixar.

O Mágico (L’illusionniste)
Dir.: Sylvain Chomet
Cotação Paradoxo: Vale 93% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de O Mágico:



Amanhã, em cartaz no Paradoxo: A Rede Social, de David Fincher, indicado a oito Oscar: Melhor Filme, Diretor, Ator (Jesse Eisenberg), Roteiro Adaptado, Edição, Trilha Sonora, Fotografia e Mixagem de Som

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Biutiful

Réquiem

Nas entrevistas concedidas no momento do lançamento de Biutiful, o diretor mexicano Alejandro González Iñárritu confessou que havia cansado da estrutura de multitramas utilizada em seus três filmes anteriores – Amores Brutos (2000), 21 Gramas (2003) e Babel (2006). Desta vez, concentraria suas forças em apenas um personagem, o trágico Uxbal, interpretado por um magnífico Javier Bardem (de Comer, Rezar, Amar).

Cansaço, claro, é apenas uma forma de ver a situação. Depois de ter cortado relações com seu ex-colaborador Guillermo Arriaga, roteirista das três produções supracitadas e diretor do irregular Vidas que se Cruzam (também com múltiplas tramas), Iñárritu se viu obrigado a procurar outro parceiro de trabalho. O cineasta encontrou não um, mas dois: os estreantes Armando Bo e Nicolás Giacobone. Para quem estava curioso em saber como esta mudança se daria, a boa notícia é que os novos roteiristas podem ser responsáveis pela melhor história dirigida por Iñárritu. A bem da verdade, se o cineasta mexicano estava realmente cansado das multitramas, boa parte do público estava bem mais. Portanto, é interessante observar o diretor concentrar seu foco em apenas um personagem. Ou quase isso.

A trama acompanha Uxbal (Bardem), um homem abatido por uma doença terminal, pai de dois filhos pequenos, e que sabe a importância de não deixar o mundo com assuntos pendentes. Separado da mãe de seus filhos, Maramba (Maricel Alvarez), mulher que sofre com transtorno bipolar, Uxbal percebe que deixará as crianças em uma situação bastante difícil caso sucumba à sua doença. Por isso, Uxbal vê em uma reconciliação com a ex-mulher uma saída. Dotado de uma ligação forte com o mundo espiritual, Uxbal ganha alguns trocados de conhecidos ao ajudar os recém falecidos acharem seu caminho. E, também, ganha a vida auxiliando Hai (Cheng Tai Shen) no trato com seus empregados, responsáveis pela manufatura de produtos piratas.

Como todos os filmes de Iñárritu, a morte é uma presença constante no destino de seus personagens. Bardem, um ator excepcional quando bem escalado, entende esta angústia da proximidade da morte e carrega seu Uxbal com o peso do inevitável. É interessante observar a mudança de comportamento deste pai abnegado. Preocupado com sua doença – e sem saber de suas fatais conseqüências – Uxbal entra em um intenso estado de nervos, não vendo problemas em chamar a atenção de seu filho à mesa, quando este o incomodava. Evidentemente, depois de descobrir a gravidade de sua enfermidade, Uxbal tenta transformar seus momentos com as crianças em boas lembranças. Difícil, obviamente, com tantas preocupações em volta de sua cabeça. Mas isso não o impede de passar o último aniversário da filha, Ana (Hanaa Bouchab), com um sorriso e de tentar compreender o momento difícil pelo que passa seu caçula, Mateo (Guillermo Estrella), que vem sofrendo com pesadelos.

Tudo isso é mostrado de forma bastante particular por Alejandro González Iñárritu, tentando sempre manter o foco em Uxbal, seus atos e conseqüências. Talvez por um cacoete do passado, algum tempo seja reservado para personagens secundários – como o casal chinês, a empregada asiática e seu filho – mas nunca chegam a ser caracterizados como subtramas. É apenas a forma do cineasta enriquecer o universo em que está contido, dando importância para alguns personagens que nem sempre acabam dizendo a que vieram.

Javier Bardem sabe que tem a tarefa de levar o espectador pela jornada trágica que seu papel propõe. Portanto, o ator não economiza em sua caracterização. Visivelmente abatido, carregando todas as preocupações do mundo em seus ombros, Bardem capricha no ar cansado e sua expressão corporal demonstra toda sua dor. Isso quando está sozinho. Junto dos filhos, da ex-mulher ou de amigos, Uxbal tenta manter as aparências. Mas o espectador sabe muito bem que o fim está próximo. O pensamento de morte que ronda a cabeça do protagonista não está vinculado apenas com seu próprio destino. Relembrando um pai que nunca chegou a conhecer em vida, Uxbal se vê às voltas com o realocamento do corpo do falecido – o que o faz pensar, claro, no seu próprio fim.

Outro destaque do elenco vai para a estreante Maricel Alvarez, que faz de Maramba uma inesquecível e inconstante parceira para Bardem. Suas atitudes para com seus filhos surpreendem pela total falta de critérios e não demora nada para Uxbal descobrir que voltar com sua antiga companheira não será a resposta para seus problemas. Alvarez consegue ser uma presença que faz frente à ótima performance de Bardem, criando uma dobradinha perfeita com o ator espanhol.

Carregando a trajetória trágica de Uxbal com a pungente música de Gustavo Santaolalla e fotografando a Espanha com cores escuras – como se os dias estivessem sempre nublados e sem vida – Alejandro González Iñárritu constrói seu melhor trabalho até agora. Não precisando embaralhar a cabeça do espectador com a excepcional montagem de 21 Gramas, nem se perdendo em uma multitrama pouco inspirada em Babel, o cineasta faz um trabalho bastante maduro, que fará certamente os espectadores pensarem na fragilidade de sua existência. É isso, no fim das contas, que acaba levando o público que se aventura em uma sessão de Biutiful. Difícil não pensar na própria mortalidade ao assistir os passos de Uxbal inexoravelmente chegarem até seu destino final. Trabalho de primeira.

Maratona Oscar: Biutiful foi indicado a dois Oscar: Melhor Ator (Javier Bardem) e Melhor Filme Estrangeiro. Bardem já recebeu uma estatueta pela excepcional performance em Onde os Fracos Não Têm Vez e, desta vez, foi lembrado quase que de última hora (dizem até que ganhou uma mãozinha de sua co-star em Comer, Rezar, Amar, Julia Roberts). Portanto, não deve levar. Mas as chances aumentam consideravelmente com o prêmio de Filme Estrangeiro. Apesar de ter perdido a briga para o Dinamarquês Em um Mundo Melhor no Globo de Ouro, as chances de Biutiful neste prêmio são grandes.

Biutiful
Dir.: Alejandro González Iñárritu
Com Javier Bardem, Maricel Alvarez, Eduard Férnadez, Hanaa Bouchaib, Guillermo Estrella, Cheng Tai Shen
Cotação Paradoxo: Vale 90% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de Biutiful:



Amanhã, em cartaz no Paradoxo: O Mágico, de Sylvain Chomet, indicado ao Oscar de Melhor Animação.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Maratona Oscar 2011

E começa mais uma Maratona Oscar. Com os indicados ao prêmio da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas em mãos, é hora de arregaçar as mangas e organizar a rotina cinefílica para encaixar na agenda todos os nominados. Como todos os anos, tentarei assistir a todas as produções lembradas pela Academia. Ano passado, apenas um filme escapou – e, inclusive, até hoje segue inédito no Brasil, o drama The Last Station.

Em 2011, foram 41 produções em longa-metragem e 15 em curta-metragem indicadas. Meu principal objetivo é conferir os longas – visto que os curtas dificilmente chegam por aqui. Caso tenha como, também os assistirei e escreverei críticas sobre.

Destas 41 produções em longa-metragem, já assisti 20 e escrevi sobre 17 aqui no Paradoxo. Faltam, portanto, 24 críticas, que serão publicadas até o dia 25 de fevereiro – dois dias antes da cerimônia de entrega dos Oscar. Na véspera do prêmio, coloco aqui minhas apostas e, logo depois da festa, os acertos e erros que invariavelmente aparecem.

Está dado o pontapé inicial para a Maratona Oscar 2011.

Amanhã, em cartaz no Paradoxo: Biutiful, de Alejandro González Iñárritu, indicado a dois Oscar: Melhor Ator (Javier Bardem) e Melhor Filme Estrangeiro

Confira logo abaixo o anúncio dos indicados ao Oscar 2011:

Indicados ao Oscar 2011

Lista completa dos indicados ao Oscar 2011.

Melhor Filme

Cisne Negro, de Darren Aronofsky
Produtores: Mike Medavoy, Brian Oliver e Scott Franklin

O Vencedor, de David O. Russell
Produtores: David Hoberman, Todd Lieberman e Mark Wahlberg

A Origem, de Christopher Nolan
Produtores: Emma Thomas e Christopher Nolan

Minhas Mães e Meu Pai, de Lisa Cholodenko
Produtores: Gary Gilbert, Jeffrey Levy-Hinte e Celine Rattray

O Discurso do Rei, de Tom Hooper
Produtores: Iain Canning, Emile Sherman e Gareth Unwin

127 Horas, de Danny Boyle
Produtores: Christian Colson, Danny Boyle e John Smithson

A Rede Social, de David Fincher
Produtores: Scott Rudin, Dana Brunetti, Michael De Luca e Ceán Chaffin

Toy Story 3, de Lee Unkrich
Produtores: Darla K. Anderson

Bravura Indômita, de Ethan e Joel Coen
Produtores: Scott Rudin, Ethan Coen e Joel Coen

Inverno da Alma, de Debra Granik
Produtores: Anne Rosellini e Alix Madigan-Yorkin


Melhor Ator:

Javier Bardem, por Biutiful
Jeff Bridges, por Bravura Indômita
Jesse Eisenberg, por A Rede Social
Colin Firth, por O Discurso do Rei
James Franco, por 127 Horas


Melhor Ator Coadjuvante:

Christian Bale, por O Vencedor
John Hawkes, por O Inverno da Alma
Jeremy Renner, por Atração Perigosa
Mark Ruffalo, por Minhas Mães e Meu Pai
Geoffrey Rush, por O Discurso do Rei


Melhor Atriz:

Annete Bening, por Minhas Mães e Meu Pai
Nicole Kidman, por Reencontrando a Felicidade
Jennifer Lawrence, por O Inverno da Alma
Natalie Portman, por Cisne Negro
Michelle Williams, por Namorados para Sempre


Melhor Atriz Coadjuvante:

Amy Adams, por O Vencedor
Helena Bonham Carter, por O Discurso do Rei
Melissa Leo, por O Vencedor
Hailee Steinfeld, por Bravura Indômita
Jacki Weaver, por Animal Kingdom


Melhor Animação em Longa-Metragem:

Como Treinar seu Dragão, de Chris Sanders e Dean DeBlois
O Mágico, de Sylvain Chomet
Toy Story 3, de Lee Unkrich


Melhor Direção de Arte:

Alice no País das Maravilhas
Robert Stromberg (Desenho de Produção) e Karen O’Hara (Decoração de Set)
Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 1
Stuart Craig (Desenho de Produção) e Stephenie McMillian (Decoração de Set)
A Origem
Guy Hendrix Dyas (Desenho de Produção), Larry Dias e Doug Mowat (Decoração de Set)
O Discurso do Rei
Eve Stewart (Desenho de Produção) e Judy Farr (Decoração de Set)
Bravura Indômita
Jess Gonchor (Desenho de Produção) e Nancy Haigh (Decoração de Set)


Melhor Fotografia

Cisne Negro - Matthew Libatique
A Origem - Wally Pfister
O Discurso do Rei - Danny Cohen
A Rede Social - Jeff Conenweth
Bravura Indômita - Roger Deakins


Melhor Figurino:

Alice no País das Maravilhas - Colleen Atwood
I am Love - Antonella Cannarozzi
O Discurso do Rei - Jenny Beavan
The Tempest - Sandy Powell
Bravura Indômita - Mary Zophres


Melhor Diretor:

Cisne Negro - Darren Aronofsky
O Vencedor - David O. Russell
O Discurso do Rei - Tom Hooper
A Rede Social - David Fincher
Bravura Indômita - Joel Coen e Ethan Coen


Melhor Documentário:

Exit Through the Gift Shop, de Banksy e Jaime D’Cruz
Gasland, de Josh Fox e Trish Adlesic
Trabalho Interno, de Charles Ferguson e Audrey Marrs
Restrepo, de Tim Hetherington e Sebastian Junger
Lixo Extraordinário, de Lucy Walker e Angus Aynsley


Melhor Documentário – Curta-Metragem:

Killing in the Name, indicados a serem determinados
Poster Girl, indicados a serem determinados
Strangers No More, de Karen Goodman e Kirk Simon
Sun Come Up, de Jennifer Redfearn e Tim Metzger
The Warriors of Qiugang, de Ruby Yang e Thomas Lennon


Melhor Edição:

Cisne Negro - Andrew Weisblum
O Vencedor - Pamela Martin
O Discurso do Rei - Tariq Anwar
127 Horas - Jon Harris
A Rede Social - Angus Wall e Kirk Baxter


Melhor Filme Estrangeiro:

Biutiful (México)
Dogtooth (Grécia)
Em um Mundo Melhor (Dinamarca)
Incêndios (Canadá)
Hors-La-Loi (Algeria)


Melhor Maquiagem:

A Minha Versão do Amor - Adrien Morot
Caminho da Liberdade - Edouard F. Henriques, Gregory Funk e Yolanda Toussieng
O Lobisomem - Rick Baker e Dave Elsey


Melhor Trilha Sonora Original:

Como Treinar seu Dragão - John Powell
A Origem - Hans Zimmer
O Discurso do Rei - Alexandre Desplat
127 Horas - A.R. Rahman
A Rede Social - Trent Reznor e Atticus Ross


Melhor Canção Original:

“Coming Home”, de Country Strong
Música e Letra por Tom Douglas, Troy Verges e Hillary Lindsey
“I See the Light”, de Enrolados
Música por Alan Menken e Letra por Glenn Slater
“If I Rise from 127 Hours, de 127 Horas
Música de A.R. Rahman e Letra de Dido e Rollo Armstrong
“We Belong Together”, de Toy Story 3
Música e Letra de Randy Newman


Melhor Animação – Curta-Metragem:

Dia e Noite, de Teddy Newton
The Gruffalo, de Jakob Schuh e Max Lang
Let’s Pollute, de Geefwee Boedoe
The Lost Thing, de Shaun Tan e Andrew Ruhemann
Madagascar, Carnet de Voyage, de Bastien Dubois


Melhor Curta-Metragem:

The Confession, de Tanel Toom
The Crush, de Michael Creagh
God of Love, de Luke Matheny
Na Wewe, de Ivan Goldschmidt
Wish 143, de Ian Barnes e Samantha Waite


Melhor Edição de Som:

A Origem - Richard King
Toy Story 3 - Tom Myers e Michael Silvers
Tron – O Legado - Gwendolyn Yates Whittle e Addison Teague
Bravura Indômita - Skip Lievsay e Craig Berkey
Incontrolável - Mark P. Stoeckinger


Melhor Mixagem de Som:

A Origem - Lora Hirschberg, Gary A. Rizzo e Ed Novick
O Discurso do Rei - Paul Hamblin, Martin Jensen e John Midgley
Salt - Jeffrey J. Haboush, Greg P. Russell, Scott Milan e William Sarokin
A Rede Social - Ren Klyce, David Parker, Michael Semanick e Mark Weingarten
Bravura Indômita - Skip Lievsay, Craig Berkey, Greg Orloff e Peter F. Kurland


Melhores Efeitos Especiais:

Alice no País das Maravilhas - Ken Ralston, David Schaub, Carey Villegas e Sean Phillips
Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 1 - Tim Burke, John Richardson, Christian Manz e Nicolas Aithadi
Além da Vida - Michael Owens, Bryan Grill, Stephan Trojanski e John Farrell
A Origem - Paul Franklin, Chris Corbould, Andrew Lockley e Peter Bebb
Homem de Ferro 2 - Janek Sirrs, Ben Snow, Ged Wright e Daniel Sudick


Melhor Roteiro Adaptado:

127 Horas
Roteiro de Danny Boyle e Simon Beaufoy
A Rede Social
Roteiro de Aaron Sorkin
Toy Story 3
Roteiro de Michael Arndt e História de John Lasseter, Andrew Stanton e Lee Unkrich
Bravura Indômita
Roteiro de Joel e Ethan Coen
O Inverno da Alma
Roteiro de Debra Granik e Anne Rosellini


Melhor Roteiro Original:

Another Year
Escrito por Mike Leigh
O Vencedor
Roteiro de Scott Silver, Paul Tamasy e Eric Johnson. História de Keith Dorrington, Paul Tamasy e Eric Johnson
A Origem
Escrito por Christopher Nolan
Minhas Mães e Meu Pai
Escrito por Lisa Cholodenko e Stuart Blumberg
O Discurso do Rei
Roteiro de David Seidler

Transmissão dos Indicados ao Oscar 2011 - Ao Vivo

Assim como em 2010, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas transmitirá ao vivo, pela internet, o anúncio dos indicados ao Oscar. A ganhadora da estatueta de Melhor Atriz Coadjuvante do ano passado, Mo'Nique (de Preciosa) apresentará os nominados ao lado do presidente da Academia, Tom Sherak.

Confira aqui no Paradoxo, a partir das 11h30min (horário de Brasília), o anúncio dos indicados no player logo abaixo.

Watch live streaming video from academyawards at livestream.com

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Desenrola

Gatinhas e Gatões

A escolha da música Don’t You (Forget About Me), da banda oitentista Simple Minds, para a trilha sonora de Desenrola não é nada arbitrária. A canção foi trilha de Clube dos Cinco, um dos filmes mais interessantes do saudoso John Hughes, cineasta que conseguiu retratar a adolescência norte-americana como poucos. Desenrola parece uma grande ode ao trabalho do cineasta, carregando o DNA do diretor que tão bem capturou a alma da juventude da década de oitenta.

A diretora Rosane Svartman (de Mais uma Vez Amor) resolveu usar todas as ferramentas que pudesse para atrair seu público alvo para dentro da produção. Redes sociais populares foram utilizadas para aproximar a jornada de Priscila, a protagonista, dos vários jovens brasileiros. E o resultado parece ter saído a contento. É possível identificar-se com os medos e ansiedades da adolescente – que sonha em perder a virgindade com um garoto popular e mais velho, mesmo sabendo que o rapaz em questão pode não ser o príncipe encantado que pensava.

O roteiro foi escrito pela própria diretora ao lado de Juliana Lins e conta a história de Priscila (a estreante Olivia Torres), uma garota de 16 anos, estudante do colégio Desenvolve, que tem uma paixão platônica pelo surfista Rafa (Kayky Brito, de Xuxa Abracadabra). Paixão platônica que pode virar romance aos olhos da garota, que finalmente consegue a atenção de sua pretensa cara-metade – que frustra seus planos de uma primeira vez maravilhosa pelo fato de ela ser virgem. Enquanto isso, o brincalhão do colégio, Boca (o estreante Lucas Salles), acaba mentindo para o seu melhor amigo, Amaral (Vitor Thiré), dizendo que já transou com Priscila, fato que se espalha rapidamente pelo colégio. Com uma nova reputação, a garota pode finalmente tentar novamente sua sorte com Rafa. Mas será que vale a pena?

O esqueleto do roteiro lembra muito o clássico oitentista Gatinhas e Gatões, de John Hughes. Nele, Molly Ringwald era uma moça tímida que sonhava namorar o rapaz perfeito – e era incomodada por um geek vivido por Anthony Michael Hall, que chegava a mentir para seus amigos que conseguiria facilmente a calcinha da garota. Pois bem. Olívia Torres tem ares de Molly Ringwald, Boca tem um Q de geek e Kayky Brito é o (pseudo) namorado perfeito. Além disso, a edição lembra muito os filmes de John Hughes, inclusive a utilização de músicas e a forma com que elas se encaixam na montagem. Repito: Desenrola tem DNA do cineasta norte-americano. No entanto, não é uma mera cópia. A diretora Rosane Svartman consegue retrabalhar esta fórmula johnhugheana, mexendo em alguns elementos chave e tornando o filme seu.

Com um bando de carinhas novas, Desenrola surpreende positivamente pelo alto nível das atuações. Olívia Torres e Lucas Salles estão excelentes nos papéis centrais. Salles tem uma tarefa bastante difícil, pois tem de ser engraçado em sua estreia. Para um ator jovem, é um desafio e tanto. Felizmente, Lucas mostra ter um bom timing cômico e, ainda por cima, faz uma ótima dobradinha com Olívia Torres, que está encantadora como a protagonista.

Já o elenco de apoio, com caras conhecidas do grande público, tem seus altos e baixos. Enquanto Marcelo Novaes e Letícia Spiller repetem o casal que já foram na vida real de forma bastante convincente, Pedro Bial não consegue esconder o sorriso de “olhem para mim, estou interpretando um professor” em sua primeira aparição no filme. Mas isso não chega a estragar a experiência.

Tocando em assuntos importantes para os adolescentes como a perda da virgindade e a gravidez indesejada, Desenrola consegue passar sua mensagem sem parecer didático ou careta. É um longa-metragem que deve dialogar muito bem com seu público alvo, caso ele o encontre nos cinemas. Infelizmente, em tempo de férias, é mais provável que os adolescentes queiram fazer o que está sendo mostrado na telona do que acompanhar as peripécias dos personagens. Uma pena, visto que o capricho da produção merece um público condizente.

Desenrola
Dir.: Rosane Svartman
Com Olívia Torres, Lucas Salles, Kayky Brito, Vitor Thiré, Daniel Passi, Juliana Paiva, Claudia Ohana, Marcelo Novaes, Letícia Spiller, Pedro Bial
Cotação Paradoxo: Vale 88% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de Desenrola:

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

De Pernas pro Ar

Sex Delícia

Não é segredo que comédias nacionais com apelo popular fazem enorme sucesso comercial no Brasil. Filmes como Se Eu Fosse Você (e sua seqüencia), Divã, A Mulher Invisível e Muita Calma Nessa Hora são alguns dos títulos que fizeram bilheterias maiúsculas e se estruturaram basicamente em um elenco famoso da televisão e roteiros pretensamente engraçados. De Pernas pro Ar, de Roberto Santucci (de Bellini e a Esfinge), segue o padrão pré-estabelecido, mas com uma vantagem sobre seus concorrentes: consegue ser engraçado. Ninguém vai rolar de rir, vamos deixar bem claro. Mas é possível notar uma saudável preocupação com o timing das piadas e existe, aqui e ali, algumas gags inspiradas.

Com roteiro de Marcelo Saback (de Divã) e Paulo Cursino (de O Cavaleiro Didi e a Princesa Lili), De Pernas pro Ar traz Ingrid Guimarães (de Polaroides Urbanas) como a executiva Alice, uma mulher que não tem tempo algum para seu marido (Bruno Garcia, de O Bem Amado) e seu filho (o estreante João Fernandes). Depois de uma confusão no trabalho, ela é demitida e, ainda por cima, é surpreendida pelo esposo, que pede um tempo na relação. Perdida, Alice acaba conhecendo sua vizinha, a extrovertida Marcela (Maria Paula, de Casseta e Planeta 2 – Seus Problemas Acabaram), que lhe apresenta um novo mundo: o do prazer. Calma. Alice não entra em um relacionamento com Marcela. Ela, na verdade, é dona da sex shop Sex Delícia e convence Alice a utilizar um de seus brinquedinhos – após descobrir, atônita, que a executiva nunca havia tido um orgasmo. As duas acabam sócias e este é apenas o começo das confusões pelas quais Alice se meterá por causa de seu novo trabalho.

De Pernas pro Ar começa de maneira nada promissora. Ingrid Guimarães não convence como uma executiva séria e focada. Neste primeiro ato da história, o filme gira exclusivamente em torno de Alice e de como sua vida atarefada a atrapalha de curtir sua família. Nem o rosto de seu marido ela olha mais – capturado de forma interessante pelo diretor, que nos esconde igualmente sua identidade. O filme só cresce quando Alice passa a freqüentar a sex shop de Marcela, de onde surgem as melhores gags de De Pernas pro Ar. A cena com a calcinha musical é engraçadíssima, graças ao talento de Ingrid Guimarães para a comédia física. E se Maria Paula está longe de ser uma atriz completa, ao menos consegue convencer no papel que lhe é proposto.

De Pernas pro Ar lembra, em alguns momentos, a comédia espanhola, pelo ritmo frenético de algumas situações. Aliás, as coisas acontecem tão rápido que, em uma hora de projeção, parece estar tudo resolvido. Pequeno problema de roteiro que é logo resolvido ao colocarem novos obstáculos na felicidade de Alice – e novas piadas, claro.

O problema do filme de Roberto Santucci, ora vejam, não reside na falta de boas piadas. Está na mensagem caretíssima que o filme passa. Apesar de ter uma sex shop no meio do enredo e de martelar a, digamos, libertação do orgasmo feminino, De Pernas pro Ar revela seu lado retrógrado ao colocar uma protagonista tendo de escolher entre o sucesso profissional e seu futuro familiar. Em que século estamos? É possível que ainda hoje um homem intervenha na profissão de sua esposa – que está ganhando rios de dinheiro, diga-se – simplesmente para tê-la em casa? O roteiro acaba reforçando esta idéia ao colocar sua personagem principal pensando seriamente em abandonar tudo o que conquistara por um capricho do esposo. Pergunto-me como feministas reagiram a isso.

Se esta mensagem surge como um equívoco dentro do longa-metragem, ao menos algumas cenas engraçadas salvam o programa. As veteranas Denise Weinberg (de Linha de Passe) e Cristina Pereira (de O Sal da Terra) garantem alguns momentos divertidos e Ingrid Guimarães prova que consegue carregar um filme sozinha. Uma comédia que deve agradar o público alvo e, de acordo com os números preliminares de bilheteria, ser um grande sucesso de 2011.

De Pernas pro Ar
Dir.: Roberto Santucci
Com Ingrid Guimarães, Maria Paula, Bruno Garcia, João Fernandes, Denise Weinberg, Antonio Pedro, Cristina Pereira, Flávia Alessandra, Marcos Pasquim
Cotação Paradoxo: Vale 70% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de De Pernas pro Ar:

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Entrando Numa Fria Maior Ainda com a Família

The Godfocker

Entrando Numa Fria Maior Ainda com a Família não tem apenas em seu equivocadamente longo título nacional sua única contra-indicação. Com sérios problemas estruturais e com um roteiro que só faz rir ao fazer referência a outros filmes, o novo longa-metragem da franquia desperdiça os talentos de Robert De Niro e Ben Stiller – que haviam acertado o passo no primeiro longa, Entrando Numa Fria, de 2001, mas não conseguiram repetir a dinâmica desde então. Se a primeira sequência, Entrando Numa Fria Maior Ainda, já estava degraus abaixo de seu original, o terceiro capítulo da série rola escada abaixo.

Sem o diretor das duas primeiras produções a bordo, Jay Roach, a incumbência de levar a comédia às telonas ficou a cargo de Paul Weitz (de O Aprendiz de Vampiro). A troca causou alguns problemas internos, como a desistência de Dustin Hoffman em participar do filme. Só depois de encerradas as filmagens – e de ver que o resultado tinha ficado aquém do esperado – convenceram o patriarca da família Focker a voltar (recebendo um belo cachê, é claro). Isso atrapalhou, certamente, a estrutura do roteiro de John Hamburg (veterano da série) e Larry Stuckey (de Elling). É possível notar as voltas que são necessárias para que se inclua o personagem de Dustin Hoffman na história. E esse é só um dos problemas de Entrando Numa Fria Maior Ainda com a Família.

Na trama, Jack Byrnes (De Niro) sofre um leve infarto e percebe que não estará sempre comandando sua família. Isso o faz procurar por um novo patriarca para os Byrnes, um homem que terá pulso para cuidar do necessário quando ele não estiver mais por perto. Esse homem é Gay Greg Focker (Stiller). Sentindo-se, ao mesmo tempo, assustado e lisonjeado, Greg tenta fazer de tudo para mostrar ao seu sogro que pode assumir o trabalho e ser o “Godfocker” que a família precisa.

Esta citação ao Poderoso Chefão é a melhor piada de todo o filme – e é repetida a exaustão na trama. Depois de De Niro tirar sarro de um de seus grandes papéis em Máfia no Divã, novamente o ator se vê às voltas com uma referência cômica ao clássico trabalho de Francis Ford Coppola. Isso e algumas poucas aparições de Dustin Hoffman são o que de melhor Entrando Numa Fria Maior Ainda com a Família oferece. Existem, aqui e acolá, alguns momentos divertidos (como outra citação, desta vez a Tubarão), mas nada que empolgue muito.

A grande verdade é que a estrutura do filme acaba o minando totalmente. Montado como um veículo para Stiller e De Niro se engalfinharem, a produção acaba desperdiçando diversos atores interessantes, os transformando em meros convidados. Harvey Keitel (que aqui repete a dobradinha com De Niro de filmes como Taxi Driver, Caminhos Perigosos, Cop Land e Amor à Primeira Vista, mas sem o mesmo brilho, lógico), Laura Dern, Barbra Streisand e Jessica Alba aparecem pouco e, se conseguem alguma coisa além de um sorriso no canto da boca, é por puro talento próprio, pois o roteiro não ajuda. Já Owen Wilson consegue divertir um pouco com seu personagem totalmente fora de centro, até por ganhar mais tempo de tela para tanto.

No fim das contas, Ben Stiller e Robert De Niro fazem o que podem com um roteiro rasteiro, tentando divertir o espectador da forma que conseguem. Talento ambos tem para isso. Stiller é um ator que consegue ser engraçado, desde que tenha um material bom em mãos. De Niro é um monstro do cinema, que consegue usar sua persona rude para provocar risos. Com um material melhor, certamente o reencontro da dupla seria mais interessante. Do jeito que ficou, espero que não tenhamos dentro de dois anos um Entrando Numa Fria Maior Ainda com a Família, Os Cachorros e os Vizinhos do seu Melhor Amigo que vieram de Connecticut para passar o fim de semana. Não duvide.

Entrando Numa Fria Maior Ainda com a Família (Little Fockers)
Dir.: Paul Weitz
Com Robert De Niro, Ben Stiller, Teri Polo, Blythe Danner, Owen Wilson, Jéssica Alba, Harvey Keitel, Barbra Streisand e Dustin Hoffman
Cotação Paradoxo: Vale 48% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de Entrando Numa Fria Maior Ainda com a Família:

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

68º Globo de Ouro - A Premiação

Em uma festa sem muitas surpresas – e sem momentos memoráveis – o 68º Globo de Ouro elevou A Rede Social como o grande filme de 2011. O longa-metragem dirigido por David Fincher recebeu quatro prêmios: Filme, Diretor, Roteiro (Aaron Sorkin) e Trilha Sonora (Trent Reznor e Atticus Ross). Outro filme que saiu-se muito bem foi O Vencedor que, honrando o nome da tradução brasileira, levou para casa dois Globo de Ouro.

Foi, inclusive, um de seus prêmios que deu o pontapé inicial na festa: Melhor Ator Coadjuvante. Depois de ter vencido dois dias atrás o Critic’s Choice Awards, Christian Bale apareceu com um visual diferente do esperado para alguém que pretende filmar Batman 3 em poucos meses (cabelos longos e barba) e ficou tempo demais no palco – tanto que foi praticamente retirado do palco. Este é o primeiro Globo de Ouro da carreira do ator, que já deveria ter sido premiado por O Operário, diga-se de passagem.

Mesmo concorrendo consigo, o filme Burlesque acabou levando a melhor com a música You Haven’t Seen the Last of Me, cantada por Cher, na categoria Melhor Canção Original. Coisas que só o Globo de Ouro faz por você. Já em Trilha Sonora, Trent Reznor e Atticus Ross venceram com a ótima trilha de A Rede Social. Gosto mais do trabalho de Hans Zimmer em A Origem - só pela idéia de utilizar uma modificada e lenta Piaf como leitmotif já é genial, mas é impossível não notar o trabalho de primeira de Reznor e Ross no filme de David Fincher. Merecido, certamente.

Toy Story 3, sem surpresas, venceu como Melhor Animação. O prêmio foi entregue pelos jovens Justin Bieber e Hailee Steinfeld (de Bravura Indômita) que, para o brincalhão diretor vencedor, Lee Unkrich, nem haviam nascido quando estreou o primeiro Toy Story. Essa era uma das grandes barbadas da noite. É difícil entender, aliás, porque a animação também não foi indicada na categoria principal.

Por sua maravilhosa interpretação em Minhas Mães e Meu Pai, Annette Benning levou o Globo de Ouro de Melhor Atriz – Comédia ou Musical - com direito a selinho em Julianne Moore – sua parceira de tela no filme e “concorrente” na categoria.

Nos prêmios da tevê, não dou muitos pitacos. Comento apenas que Al Pacino foi ovacionado de pé pelo seu prêmio em You Don’t Know Jack, um telefilme produzido pela HBO. No mesmo dia que seu amigo Robert De Niro ganhou um prêmio pelo conjunto da obra, foi ótimo ver dois monstros do cinema em cima do palco.

Gosto do trabalho de Aaron Sorkin desde o seriado The West Wing. Foi terrível que seu brilhante seriado Studio 60 on the Sunset Streep tenha sido cancelado tão prematuramente. Por isso, fico contente com o prêmio do roteirista na categoria Melhor Roteiro por A Rede Social. Mesmo pensando que Christopher Nolan foi muito mais criativo em A Origem. Felizmente, no Oscar eles não se batem, pois Sorkin partiu de um livro para montar seu roteiro.

O dinamarquês In a Better World levou o prêmio de Melhor Filme Estrangeiro, concorrendo com o novo de Alejandro González Iñárritu, Biutiful.

Ano passado, De Niro apresentou o prêmio Cecil B. De Mille, entregando ao seu amigo Martin Scorsese. Em 2011, o ator retorna ao palco do Globo de Ouro para aceitar o prêmio das mãos de Matt Damon – que tentou, sem muito sucesso, devo dizer, imitar algumas grandes falas de Robert De Niro. Em um discurso bem humorado – achando espaço inclusive para fazer piadas com Entrando Numa fria Maior Ainda com a Família - De Niro relembrou com carinho alguns de seus filmes menos conhecidos, os chamando de filhos. Não faltou também umas alfinetadas na Associação de Críticos Estrangeiros, que lhe concedeu o prêmio. Não deve ter caído muito bem, aliás.

Assim como algumas piadas de Ricky Gervais, que não conseguiu ser muito inspirado. Seu senso de humor pode ter irritado alguns astros. Sua única piada realmente engraçada foi uma tiração de sarro como Steve Carrell, o chamando de ingrato por abandonar o seriado The Office. De resto, nada de muito memorável.

Depois de ter ficado de fora de qualquer indicação por direção em filmes incríveis como Seven, Clube da Luta e Zodíaco, David Fincher foi nomeado em diversos prêmios – perdendo todos, se não me engano – pelo superestimado O Curioso Caso de Benjamin Button. Agora, pelo ótimo A Rede Social, o diretor começa a colher alguns louros bastante atrasados. Antes tarde do que nunca. Pena que a ratificação veio bem no ano de A Origem.

Mesmo concorrendo com dois filmes – ou talvez por isso – Johnny Depp saiu de mãos abanando da festa do Globo de Ouro. Bom para o excepcional ator Paul Giamatti e seu Barney’s Version. Em um discurso no qual destacou a beleza de Halle Berry, o ator foi bastante modesto em dizer que não está a altura dos outros concorrentes – e Jake “Príncipe da Pérsia” Gyllenhall estava na mesa. Modesto ou míope?

Grávida e bela como sempre, Natalie Portman recebeu o prêmio de Melhor Atriz por Cisne Negro, agradecendo efusivamente o diretor Darren Aronofsky, responsável por um projeto que fervilhava na cabeça de ambos há dez anos. Já Melhor Ator, o Globo de Ouro – assim como o Oscar fará em fevereiro – entrega para Colin Firth a estatueta, já que não o fizera ano passado ao indicá-lo por Direito de Amar. Como o filme não chegou ao Brasil ainda, é difícil saber o quão merecido é o prêmio. Mas não dá para não pensar que é a velha compensação.

Tom Hanks e Tim Allen – ou Woody e Buzz, crianças – entregaram o prêmio mais enigmático da noite: Melhor Filme – Comédia ou Musical. Em uma categoria em que estavam perfilados o mediano Alice no País das Maravilhas, o divertido e nada mais Red e os inéditos no Brasil (e bastante criticados negativamente) Burlesque e O Turista, o único realmente bom da lista acabou levando. Minhas Mães e Meu Pai sagrou-se em uma categoria bastante estranha, visto que nem é, realmente, uma comédia. É ácido, tem humor, mas não chega a ser cômico. Muito menos musical, diga-se.

Fechando a noite, em uma correria dos diabos para não extrapolar as três horas de cerimônia, o Globo de Ouro de Melhor Filme – Drama foi entregue para A Rede Social, o grande vencedor da noite. O longa-metragem dirigido por David Fincher acabou com quatro prêmios e grandes chances de levar os Oscar mais importantes para casa. Não por tê-los recebido da Associação da Imprensa Estrangeira, mas por realmente ser um trabalho fortíssimo de todos os envolvidos.

A Origem injustamente sai de mãos abanando, ate por não existirem categorias técnicas no Globo de Ouro. Prêmios como Fotografia, Edição, Som, Edição de Som e Efeitos Especiais são barbadas para o Oscar. Mas é aquela história: em uma premiação em que Burlesque comemora e A Origem não, algo está perturbadoramente errado.
Em meus achismos, acertei 9 das 14 categorias. Seguem os vencedores do Globo de Ouro (na categoria cinema) e, logo abaixo, as minhas apostas:

Melhor Filme: Drama:
A Rede Social, de David Fincher
Minha aposta: idem

Melhor Atriz: Drama
Natalie Portman - Cisne Negro
Minha aposta: idem

Melhor Ator: Drama
Colin Firth - O Discurso do Rei
Minha aposta: idem

Melhor Filme: Comédia ou Musical
Minhas Mães e Meu Pai, de Lisa Cholodenko
Minha aposta: Alice no País das Maravilhas, de Tim Burton

Melhor Atriz: Comédia ou Musical
Annette Bening - Minhas Mães e Meu Pai
Minha aposta: idem

Melhor Ator: Comédia ou Musical
Paul Giamatti - Barney’s Version
Minha aposta: idem

Melhor Atriz Coadjuvante:
Melissa Leo - O Vencedor
Minha aposta: Helena Bonham Carter - O Discurso do Rei

Melhor Ator Coadjuvante:
Christian Bale - O Vencedor
Minha aposta: idem

Melhor Animação:
Toy Story 3
Minha aposta: idem

Melhor Filme Estrangeiro:
In a Better World, de Susanne Bier (Dinamarca)
Minha aposta: Biutiful, de Alejandro González Iñárritu (México/Espanha)

Melhor Diretor:
David Fincher, por A Rede Social
Minha aposta: idem

Melhor Roteiro:
A Rede Social, de Aaron Sorkin
Minha aposta: idem

Melhor Trilha Sonora:
Trent Reznor e Atticus Ross, por A Rede Social
Minha aposta: Hans Zimmer, por A Origem

Melhor Canção Original:
You Haven’t Seen the Last of Me - Burlesque
Minha aposta: I See the Light - Tangled

sábado, 15 de janeiro de 2011

Globo de Ouro 2011

Achismos 2011

Não sei se alguém ainda leva o Globo de Ouro a sério. Depois de tantas indicações estapafúrdias e premiações mais ainda, a estatueta concedida pela Associação de Críticos Estrangeiros de Hollywood tem surpreendido negativamente a cada ano. E em 2011 não é diferente. Apesar de boa parte dos filmes não ter chegado ao Brasil ainda, o que dificulta a plena apreciação e pensamento crítico sobre a festa, é difícil acreditar que Burlesque - um longa-metragem estrelado por Cher e Christina Aguilera – tenha realmente estofo para estar encabeçando uma lista dos melhores do ano.

Pelos motivos citados acima, fico um tanto reticente em colocar alguma aposta no Paradoxo, dado a aparente aleatoriedade do prêmio. Por não ter visto muitos filmes da lista, também não é possível chamar de apostas. São realmente achismos. Suposições, nada mais que isso.

Aviso dado, vamos então aos indicados e, em vermelho, meus achismos para a noite deste domingo. Sempre lembrando que os votos não são necessariamente nos meus favoritos e sim, nos filmes que, acredito, irão vencer nas categorias indicadas.

Melhor Filme: Drama:
Cisne Negro, de Daren Aronofsky
O Vencedor, de David O. Russel
A Origem, de Christoper Nolan
O Discurso do Rei, de Tom Hooper
A Rede Social, de David Fincher

Melhor Atriz: Drama
Halle Berry - Frankie and Alice
Nicole Kidman - Rabbit Hole
Jennifer Lawrence - Inverno da Alma
Natalie Portman - Cisne Negro
Michelle Williams - Blue Valentine

Melhor Ator: Drama
Jesse Eisenberg - A Rede Social
Colin Firth - O Discurso do Rei
James Franco - 127 Horas
Ryan Gosling - Blue Valentine
Mark Wahlberg - O Vencedor

Melhor Filme: Comédia ou Musical
Alice no País das Maravilhas, de Tim Burton
Burlesque, de Steve Antin
Minhas Mães e Meu Pai, de Lisa Cholodenko
Red – Aposentados e Perigosos, de Robert Schwentke
O Turista, de Florian Henckel Von Donnersmarck

Melhor Atriz: Comédia ou Musical
Annette Bening - Minhas Mães e Meu Pai
Anne Hathaway - Amor e Outras Drogas
Angelina Jolie - O Turista
Juliane Moore - Minhas Mães e Meu Pai
Emma Stone - A Mentira

Melhor Ator: Comédia ou Musical
Johnny Depp - Alice no País das Maravilhas
Johnny Depp - O Turista
Paul Giamatti - Barney’s Version
Jake Gyllenhaal - O Amor e Outras Drogas
Kevin Spacey - Casino Jack

Melhor Atriz Coadjuvante:
Amy Adams - O Vencedor
Helena Bonham Carter - O Discurso do Rei
Mila Kunis - Cisne Negro
Melissa Leo - O Vencedor
Jacki Weaver - Animal Kingdom

Melhor Ator Coadjuvante:
Christian Bale - O Vencedor
Michael Douglas - Wall Street: O Dinheiro Nunca Dorme
Andrew Garfield - A Rede Social
Jeremy Renner - Atração Perigosa
Geoffrey Rush - O Discurso do Rei

Melhor Animação:
Meu Malvado Favorito
Como Treinar seu Dragão
O Mágico
Enrolados
Toy Story 3

Melhor Filme Estrangeiro:
Biutiful, de Alejandro González Iñárritu (México/Espanha)
O Concerto, de Radu Mihaileanu (França)
The Edge, de Aleksei Uchtel (Rússia)
I am Love, de Luca Guadagnino (Itália)
In a Better World, de Susanne Bier (Dinamarca)

Melhor Diretor:
Darren Aronofsky, por Cisne Negro
David Fincher, por A Rede Social
Tom Hooper, por O Discurso do Rei
Christopher Nolan, por A Origem
David O. Russell, por O Vencedor

Melhor Roteiro:
127 Horas, de Simon Beaufoy e Danny Boyle
A Origem, de Christopher Nolan
Minhas Mães e Meu Pai, de Stuart Blumberg e Lisa Cholodenko
O Discurso do Rei, de David Seidler
A Rede Social, de Aaron Sorkin

Melhor Trilha Sonora:
Alexandre Desplat, por O Discurso do Rei
Danny Elfman, por Alice no país das Maravilhas
A.R. Rahman, por 127 Horas
Trent Reznor e Atticus Ross, por A Rede Social
Hans Zimmer, por A Origem

Melhor Canção Original:
Bound to You - Burlesque
Coming Home - Country Strong
I See the Light - Tangled
There’s a Place for Us - As Crônicas de Nárnia – A Viagem do Peregrino da Alvorada
You Haven’t Seen the Last of Me - Burlesque

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Enrolados

A Princesa e o Ladrão

Por mais que os responsáveis pela dublagem brasileira tenham tentado minar qualquer possibilidade de o espectador curtir Enrolados, convidando Luciano Huck para dublar o protagonista masculino do longa-metragem, o roteiro de Dan Fogelman (de Bolt – Supercão) e o design belíssimo da animação dirigida pelo iniciante Nathan Greno e por Byron Howard (de Bolt) conseguem salvar o dia, transformando o 50º clássico Disney em um programa divertido para toda a família.

Inspirado no clássico Rapunzel dos irmãos Grimm, Enrolados reconta a história da princesa perdida de longos e poderosos cabelos – desta vez sob a ótica do “príncipe encantado” (ou melhor, do ladrão pilantra) Flynn Ryder. Rapunzel foi raptada ainda pequena pela perversa Gothel, que descobriu que o poder das madeixas do bebê lhe daria eterna juventude. Usada de forma mesquinha pela mulher que a criara como filha, Rapunzel vive presa em uma torre sem nunca poder sair. Quando Flynn invade sua residência tentando esconder uma coroa que acabara de roubar, Rapunzel decide dar um basta em seu período em cativeiro e propõe um plano de fuga para o ladrão.

É difícil não se envolver com as aventuras de Rapunzel e companhia. Os personagens são realmente adoráveis. Desde os gestos e maneirismos, até a própria beleza plástica de cada um, cada uma daquelas figuras consegue conquistar o espectador. Rapunzel, com a voz original de Mandy Moore, tem nos longos cabelos loiros sua principal característica. Mas não escapa de nossa atenção os belos grandes olhos e o sorriso quase infantil da princesa. Sua vivacidade, mesmo confinada em uma torre, é contagiante e a personagem entra facilmente no rol de grandes personagens femininas da Disney. Seu companheiro de confinamento, o camaleão Pascal, é um verdadeiro achado. O bichinho não fala (felizmente), mas tem em suas expressões humanas algumas das melhores piadas de todo o filme.

Outro personagem que é destaque - e também não precisa abrir a boca para dizer palavra - é o cavalo Maximus. Com trejeitos de cão farejador e uma grande fidelidade a lei e a ética, o equino faz rir, assim como Pascal, por suas expressões humanas. Já o herói da história, Flynn Ryder, dublado no original por Zachary Levi (do seriado Chuck), é sabotado pela versão brasileira, ganhando uma voz sem entonação alguma pelo não-ator Luciano Huck. Dá para perceber que algumas boas piadas saem dos lábios de Ryder, mas são pouquíssimas as vezes que Huck consegue acertar o tom para que as tiradas funcionem. É uma pena. Sem opção de assisti-lo legendado, os fãs Disney mais exigentes terão de esperar pelo lançamento em DVD/Blu-ray para conferir o filme em sua plena forma.

Os números musicais, tão caros para os clássicos Disney, são minguados em Enrolados e pouco inspirados, é verdade. A divertidinha When My Life Will Begin ganha mais pontos pela montagem da cena do que pela música em si. Já I’ve Got a Dream é a mais engraçada, por mostrar um bando de marmanjos cantando os seus maiores desejos. A romântica I see the Light é bonita, mas não consegue ficar no mesmo nível de canções como A Whole New World, de Aladdin, ou Beauty and the Beast, de A Bela e a Fera. Curioso observar que o responsável pelas canções, Alan Menken, é o mesmo destes dois clássicos supracitados.

Como todo filme Disney, as mensagens de bondade para a criançada estão todas lá em Enrolados. Coragem, lealdade e comprometimento com seus sonhos são alguns dos conceitos passados pelo longa-metragem. No entanto, o grande mote do filme parece ser a busca pela confiança no próximo. Rapunzel, durante toda sua vida, recebera dicas de como o mundo era mesquinho e perigoso através de sua pseudo-mãe. Quando ela conhece Flynn Ryder, a grande barreira a ser quebrada é o medo e a falta de confiança neste sujeito. Por “sorte”, Rapunzel encontra um ladrão que, apesar de ter princípios éticos um tanto maleáveis, é alguém em quem ela pode depositar confiança. E, claro, a partir daí, surge o amor, como em todo o bom conto de fadas.

Apesar de ser uma animação computadorizada, o visual de Enrolados lembra um pouco os clássicos filmes desenhados à mão, à moda antiga. Em uma decisão consciente dos produtores do filme, a idéia foi tentar fazer uma mistura balanceada no visual, transformando o longa-metragem em um belo banquete para os olhos. Com uma aventura divertida para a toda a família, o 50º clássico Disney prova que a fábrica de sonhos continua funcionando muito bem. E que venham mais 50.

Enrolados (Tangled)
Dir.: Byron Howard e Nathan Greno
Com as vozes originais de Mandy Moore, Zachary Levi, Donna Murphy, Ron Perlman, M.C. Gainey
Cotação Paradoxo: Vale 80% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer comemorativo dos 50 Clássicos Disney:



Confira logo abaixo o trailer (em inglês) de Enrolados: