Woody Allen's 4
Woody Allen utilizou alguns de seus trabalhos para homenagear cineastas que o fizeram abraçar o cinema. Exemplos como a citação a Michelangelo Antonioni no segmento Porque algumas mulheres têm problemas em chegar ao Orgasmo? do filme Tudo o que você sempre quis Saber sobre Sexo mas tinha medo de perguntar, ou as diversas referências a Sergei Eisenstein e Ingmar Bergman em A Última Noite de Bóris Grushenko são claros, mesmo que espalhados dentro da trama. O caso de Memórias é paradigmático. Toda a concepção do longa-metragem é baseada no clássico 8 e 1/2 de Federico Fellini, fato esse nunca contestado por Woody Allen - que até pensou em chamar o trabalho de Woody Allen's 4, já que ele não teria competência de alcançar metade do que Fellini realizou.
Quem já viu 8 e 1/2 sabe qual é a trama de Memórias. Cineasta confuso com os rumos de sua carreira - e mais ainda em relação a sua vida amorosa - começa a relembrar fatos do seu passado que acabam se misturando, como um grande sonho, em sua realidade no presente. Saem Marcello Mastroiani e Federico Fellini, entra Woody Allen, que além de dirigir e atuar, assina o roteiro do longa-metragem.
Em Memóras, Allen vive o cineasta Sandy Bates. Famoso por suas comédias no início da carreira, Bates vem se aventurando no drama e seu mais recente trabalho tem dado dor de cabeça aos executivos do estúdio, dado o pessimismo de seu desfecho. Convidado para um festival de filmes em sua homenagem em uma cidade litorânea, Bates aceita participar de todo o alvoroço que significa eventos como esse muito à contragosto. Lá, ele relembra momentos de sua infância e seu caso de amor com a bela mas desequilibrada atriz Dorrie (Charlotte Rampling). Em meio ao festival, Bates conhece a também confusa Daisy (Jessica Harper) enquanto tenta decidir se contrai matrimônio com a namorada, Isobel (Marie-Christine Barrault), ao mesmo tempo em que procura um sentido para sua vida e um significado para seus filmes.
Woody Allen repetidamente afirmou que Memórias não é um auto-retrato. Mas é difícil acreditar dada tantas semelhanças. O próprio diretor parece se divertir com estas similaridades, como se estivesse criticando a sua crítica. Isso é notável nos momentos em que várias pessoas chegam a Sandy e dizem: "Adoro seus filmes, mas preferia os primeiros, da época cômica". Certamente Woody Allen viveu isso logo após abandonar trabalhos como Dorminhoco e A Última Noite de Bóris Grushenko e abraçar roteiros mais densos como Manhattan e Interiores. Ao colocar repetidas vezes na boca de seus personagens esta reclamação, Allen está criticando seus críticos, mostrando o quanto é enfadonho e, de alguma forma, triste ser cobrado pelo fato de tentar transmitir uma mensagem com seus filmes - esta não sendo cômica, como seus trabalhos no início de carreira eram.
Utilizando a fotografia preto e branco aos mesmos moldes de seu filme anterior, Manhattan, mas desta vez por motivos diferentes - outra referência a 8 e 1/2 de Fellini, Woody Allen vai além em Memórias, dando um ar melancólico e onírico ao seu longa-metragem. Se em Manhattan a cidade de Nova York era um dos personagens principais e o preto e branco a retratava de forma exuberante, em Memórias existe uma tristeza recorrente, um black and white que poderia ser traduzido como uma saudade de um tempo que já foi embora.
A não-linearidade da trama conversa muito bem com essa atmosfera onírica de Memórias, fazendo com que acontecimentos venham e vão na forma como a mente de Sandy Bates retrabalha seus pensamentos. Portanto, podemos ver o protagonista à beira-mar para, logo depois, observamos o mesmo personagem ainda criança, tentando voar como Superman. Ou ao lado de um elefante, com direito a sua ex-namorada servindo como mãe para uma versão infantil de Sandy. Como trabalha com memórias, este filme de Woody Allen é um prato cheio para psicanalistas de plantão, que podem se divertir com as diversas mensagens escondidas dos reconditos da mente do cineasta protagonista.
Preocupado com a mensagem de seus filmes, sem bem saber se o que faz é realmente importante, Sandy Bates chega a ter um encontro imediato de terceiro grau com alienígenas imaginários, que lhe tranquilizam sobre a sua real função na terra. Essa é mais uma das tantas cenas que são extraídas diretamente da imaginação fértil de Bates.
Com vários filmes dentro do filme, não é estranho notar que o desfecho de Memórias é extremamente metalinguístico, com os atores que participaram do filme debatendo sobre seu trabalho no longa-metragem. Um ponto final interessante para um dos mais profundos filmes de Woody Allen.
Memórias (Stardust Memories)
Dir.: Woody Allen
Com Woody Allen, Charlotte Rampling, Jessica Harper, Tony Roberts, Daniel Stern, Marie-Christine Barrault
Cotação Paradoxo: 5 Estrelas

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