domingo, 10 de abril de 2011

Um Drink no Inferno

Satanico Pandemonium

Depois do sucesso de Pulp Fiction e antes de embarcar em Jackie Brown, Quentin Tarantino acalentou a ideia de dirigir uma produção com toda a cara de filme B intitulada Um Drink no Inferno. Com roteiro seu, baseado em história de Robert Kurtzman, Tarantino acabou se afastando da cadeira de direção para poder estrelar o longa-metragem ao lado de George Clooney, deixando a tarefa de comandar o filme para seu amigo Robert Rodriguez – que havia surpreendido boa parte do público e crítica com seus El Mariachi (1992) e Balada do Pistoleiro (1995).

Na época, muitos apontaram que o estilo de direção de Tarantino e Rodriguez era bastante parecido, ambos trazendo temáticas bastante similares em seus trabalhos. Com o tempo, foi possível perceber que o primeiro tem um talento infinito para trazer referências a seus filmes e transformar cada novo trabalho em algo novo e, ao mesmo tempo, reverenciando o antigo. Já Rodriguez basicamente bate na mesma tecla em quase todos os seus trabalhos – não os transformando em filmes ruins, necessariamente, mas muito menos interessantes que os de seu amigo.

Mas em 1996, o estilo de Robert Rodriguez ainda era novidade. Sua violência estilizada, atrelada com seu elenco de preferidos (Cheech Marin, Danny Trejo, Salma Hayek) e sua levada notadamente mexicana chamou bastante a atenção e Um Drink no Inferno foi um trabalho realizado de forma impecável pelo cineasta. Divertido na medida certa e surpreendente no que tange a jornada dos personagens, o longa-metragem segura a atenção do espectador em suas duas metades distintas.

Na trama, os irmãos Seth (George Clooney) e Richie Gecko (Tarantino) são criminosos perigosos que vem deixado uma trilha de sangue por todos os lugares onde passam. A polícia, como não poderia deixar de ser, está no encalço da dupla. O objetivo principal de Seth é chegar ao México, onde receberá uma grande quantia em dinheiro. Para chegar até lá, a dupla sequestra o pastor Jacob Fuller (Harvey Keitel), que viajava em um trailer com seus filhos, Kate (Juliette Lewis) e Scott (Ernest Liu). Depois de muitos momentos de tensão, a travessia é realizada e o quinteto chega ao Titty Twister, bar de motoqueiros e caminhoneiros onde fora marcado o encontro. Mal eles sabiam que o local esconde um segredo muito bem guardado – e surpreendente para quem jamais leu uma linha sobre Um Drink no Inferno.

Lembro até hoje da primeira vez que assisti ao longa-metragem de Rodriguez. Não sabia absolutamente nada sobre a história e fui levado totalmente pela trama, que não dava indício algum do que veríamos na segunda metade do filme. Em um primeiro momento, parece que Tarantino se cansa de como o rumo da história estava e resolve mudar tudo. Claro que não é nada disso. O roteirista, fã de cinema como poucos, sabe muito bem que esse tipo de surpresa é rara e utilizada apenas por mestres. Hitchcock em Psicose já havia feito algo parecido, matando sua protagonista na metade do filme e mostrando ao espectador, atônito, que na verdade, o real protagonista da produção é Norman Bates, o pacato e assustador dono do Bates Motel. Aqui, Tarantino não chega a executar seu protagonista no meio do filme, mas tira totalmente o chão do seu público, que até então acompanhava um thriller sério sobre uma dupla de assassinos que raptava uma família.

O que é interessante de notar no roteiro de Um Drink no Inferno é que Tarantino utiliza seus vilões como os verdadeiros heróis do filme. Isso não chega a ser novidade na carreira do cineasta, já tendo feito o mesmo em Pulp Fiction, Cães de Aluguel, Amor à Queima Roupa e Assassinos por Natureza. A grande diferença em Um Drink no Inferno é que os vilões só se tornam mocinhos na segunda metade do filme. Na primeira metade, os irmãos Gecko são mostrados como o terror do Texas, assassinos frios e calculistas que raptam uma família inteira apenas para satisfazer seus objetivos. Quando uma ameaça ainda maior surge, os vilões acabam se transformando nos mocinhos, com o espectador inclusive torcendo para seu sucesso.

Um fato que pode ter ajudado nesta identificação entre público e vilão (no caso, Seth Gecko) é a escalação do então protagonista do seriado E.R. George Clooney. Mostrando ainda muitos cacoetes e uma óbvia inexperiência, Clooney pode não ter uma atuação marcante no longa-metragem, mas é fácil gostar e se relacionar com seu personagem. Suas tiradas irônicas e seu jeito paternalista em relação ao irmão mostram uma figura que não parece tão mal no fim das contas. Quem é realmente o perigoso da dupla é o desequilibrado Richie, homem que escuta vozes e que não pensa duas vezes antes de disparar seu revólver. Tarantino parece se divertir atuando e está convincentemente perturbador no papel.

Se Clooney não tem atuação marcante, o mesmo não pode ser dito da aparição sensual de Salma Hayek como a mulher fatal Satanico Pandemonium, uma dançarina exótica que esconde um segredo sangrento. Desde que dançou no balcão em Um Drink no Inferno, Hayek entrou no rol de atrizes latinas preferidas de Hollywood, sendo convidada para papéis sedutores como sua beleza estonteante aporta. Se Rodriguez tem uma marca como diretor é a conduta de satisfazer sua plateia masculina com atrizes belíssimas em papéis sensuais. Pandemonium seria a primeira de uma lista de muitas.

Para fechar o elenco principal, destaque para Harvey Keitel, dando credibilidade a um papel batido – o pastor que perdeu sua fé – e comandando bem a ação da segunda metade do filme. Cheech Marin aparece em papel triplo e diverte sempre que dá as caras, enquanto Danny Trejo tem uma rápida – mas poderosa – participação como o pouco simpático barman do Titty Twister.

Ao não se levar a sério, Um Drink no Inferno acaba mostrando-se um programa divertidíssimo, utilizando muito bem seu elenco para uma bobagem muito bem produzida. O longa-metragem é o legítimo filme B com elenco de filme A e merece uma conferida de perto. Fuja das continuações caça-níqueis, no entanto. O original é o único realmente criativo e que consegue surpreender seu público.

Um Drink no Inferno (From Dusk Till Dawn)
Dir.: Robert Rodriguez
Com Harvey Keitel, George Clooney, Quentin Tarantino, Juliette Lewis, Salma Hayek, Cheech Marin, Danny Trejo
Cotação Paradoxo: 4 Estrelas

Confira logo abaixo o trailer de Um Drink no Inferno:

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