A Bruxa de Bleh
60 Segundos era um verdadeiro videogame. O primeiro filme que reuniu o diretor Dominic Sena e o ator Nicolas Cage tinha diversos problemas, mas com um elenco acima da média e ritmo ágil, conseguia divertir o suficiente – principalmente os fãs de carros rápidos e tramas ainda mais velozes. Com Caça às Bruxas, o feitiço não se repete. Os problemas continuam lá e a diversão fica bem longe.
Primeiro problema: o roteiro assinado pelo estreante Bragi F. Schut é terrivelmente fraco, não conseguindo criar um só personagem memorável ou uma trama coerente para desfilá-los. Segundo problema: a indecisão de gênero. Caça às Bruxas é terror? É ação? É um thriller? Filme de época? Dominic Sena nunca define o que pretende, atirando para todos os lados e indo até o meio do caminho em cada um dos gêneros citados. Em certos momentos, o roteiro tenta até ser engraçado, falhando em cada investida.
A história se passa durante as cruzadas, em um período em que a Europa está tomada pela peste. Behmen (Cage) e seu fiel amigo Felson (Ron Perlman, de Hellboy) abandonam sua jornada em nome da Igreja ao perceberem que a morte de inocentes estava sendo encorajada. Em meio ao seu caminho de volta para casa, os cavaleiros encontram um vilarejo dizimado pela peste, doença que, segundo os boatos, teria sido trazida ao lugar por uma bruxa (Claire Foy, da minissérie britânica Little Dorrit).
Ao serem descobertos pelos locais, Behmen e Felson são presos (desistir das Cruzadas não é uma opção), mas recebem uma proposta aparentemente irrecusável: levar a bruxa para um monastério onde ela seria julgada e, caso culpada, exterminada. Depois de uma certa relutância, os amigos resolvem fazer o trabalho, ao lado do padre Debelzaq (Stephen Cambell Moore, de Efeito Dominó), do cavaleiro Eckhardt (Ulrich Thomsen, de Centurião), do guia Hagamar (Stephen Graham, de Inimigos Públicos) e do coroinha Kay (Robert Sheehan, da série britânica Misfits). Logo, estes seis homens descobrirão que transportar uma jovem presa pode ser mais difícil do que parece.
Pergunta: se é necessário um ritual antigo para que a bruxa seja aniquilada, não seria mais fácil mandar um monge ao local onde ela está presa do que o contrário? Se ela é perigosa, fazer o trajeto poderia facilitar sua fuga, não é? Ou o livro não pode sair do monastério? Se não pode, então o desfecho do longa-metragem tem sérios problemas de coerência. Esses e outros pontos do roteiro incomodam bastante e jogam contra a produção o tempo todo. Isso e a falta de profundidade dos diálogos matam qualquer possibilidade de diversão.
O filme até começa bem. Mostrando as várias batalhas por quais Behmen e Felson passaram, Caça às Bruxas dá a impressão de que será bastante movimentado, com muitas cenas de duelo. Não é o que acontece. Excetuando-se a breve peleja entre Felson e Kay – apenas para provar que o menino tem valor para juntar-se ao grupo – e uma matilha que surge lá pelas tantas, nada de espadas são empunhadas em boa parte da história. E não se engane pelo título em português, pois não existe nenhuma caçada durante todo o filme. A produção é um road movie medieval, com uma fotografia soturna interessante e direção de arte que não compromete.
Quanto aos atores, Nicolas Cage não precisa se esforçar para interpretar o arauto da virtude, um homem que acredita na bondade e que se desliga totalmente da Igreja ao perceber a vilania de alguns de seus seguidores. Com um cabelo comprido duvidoso, Cage está no piloto automático, mas consegue encabeçar bem a história. Já Ron Perlman (fantástico como Hellboy) se ressente do texto fraco, que o coloca como um possível alívio cômico sem lhe dar uma boa piada. O roteiro é tão mal escrito que uma das poucas boas histórias pretensamente engraçadas sobre Felson (a dos pecados absolvidos) nem é contada por ele. Se já não fosse cruel o bastante, o roteirista ainda dá ao personagem um desfecho ingrato. Dura a vida de Ron Perlman neste filme.
Com uma ponta rápida e desnecessária de Christopher Lee (de O Senhor dos Anéis) como um cardeal à beira da morte, Caça às Bruxas chega ao seu final tentando ainda passar a perna no espectador com uma “surpresa” digna do seu roteiro – ou de uma ação no Procon, dado o pobre título em português. Duro de roer.
Caça às Bruxas (Season of the Witch)
Dir.: Dominic Sena
Com Nicolas Cage, Ron Perlman, Claire Foy, Stephen Cambell Moore, Ulrich Thomsen, Stephen Graham, Robert Sheehan e Christopher Lee
Cotação Paradoxo: Vale 42% do ingresso
Confira logo abaixo o trailer de Caça às Bruxas:

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