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terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Lixo Extraordinário

A arte de transformar

Lixo Extraordinário tem nada de lixo e muito de extraordinário. O documentário dirigido pela britânica Lucy Walker e co-dirigido pelos brasileiros João Jardim e Karen Harley comprova o poder da arte como agente transformador. Filmado no maior aterro do mundo, no jardim Gramacho, Rio de Janeiro, o filme mostra como a arte do brasileiro Vik Muniz conseguiu mudar totalmente o cotidiano e o destino das pessoas que tiveram contato com seu projeto.

Muniz é um dos artistas brasileiros mais conhecidos no exterior. Utiliza-se de materiais descartáveis e inusitados para conceber suas obras e é muito bem conceituado pela crítica de arte. Depois de atingir uma confortável estabilidade financeira, Vik almeja devolver um pouco para a sociedade o que alcançara. Para tanto, retorna ao Brasil e envolve um grupo de catadores de materiais recicláveis em uma obra que mistura fotografia e lixo. A ideia é transformar estas obras em dinheiro para aqueles trabalhadores, ajudando-os a sair da situação de pobreza.

O resultado das obras de Vik Muniz é impressionante. Não só o trabalho em si, que é belíssimo, misturando imagens fortes com o lixo produzido pelos habitantes do Rio de Janeiro, como a transformação que acontece nos catadores. Muniz conhece pessoas interessantíssimas como Tião, presidente da Associação de Catadores, um homem inteligente e curioso, que ajuda Muniz a recolher os materiais que precisa; Ísis, uma simpática catadora, recém separada do homem que ama e que detesta trabalhar no lixo; Irma, a cozinheira local, que adora alimentar os trabalhadores do Jardim Camacho; Valter, um velhinho sábio e falador; Zumbi, catador que sonha montar uma biblioteca na região; entre tantos outros.

Lixo Extraordinário mostra que a influência de Vik Muniz e de sua equipe começa a modificar, pouco a pouco, os catadores que participam do projeto. Em primeiro lugar, parece aumentar a auto-estima daquelas pessoas que, segundo o artista, pareciam esquecidas naquele aterro. Depois, deu a elas uma perspectiva de crescimento. Um novo olhar sobre suas vidas. Como se catar o material reciclável não fosse a única coisa que poderiam realizar para garantir seu sustento. Só por isso, o documentário e a obra de Muniz já vale sua existência.

O documentário também suscita discussões interessantes, como refletir os aspectos positivos e negativos de Muniz fazer tantas transformações na vida dos catadores. Com a saída do artista do Rio de Janeiro, o cotidiano da comunidade voltaria ao normal e a esposa de Vik problematiza este fato, com argumentos bastante pertinentes. Como vemos no decorrer da trama, as mudanças vêm para bem na maioria dos casos, o que justifica o projeto. Mas é interessante observar esta preocupação na trama do longa-metragem.

Com a ótima trilha sonora de Moby, Lixo Extraordinário é um documentário que traz histórias riquíssimas e consegue colocar o foco em pessoas que geralmente estão na periferia da mídia. Em vez de jogar luz na carreira de Vik Muniz e seus belos trabalhos, o artista é, no fim das contas, um mestre de cerimônias do documentário. Uma pessoa inteligente que consegue utilizar seu trabalho para transformar vidas. E isso é algo sempre bonito de se ver.

Maratona Oscar: Lixo Extraordinário, de Lucy Walker, João Jardim e Karen Harley, foi indicado ao Oscar de Melhor Documentário. Assim como Exit Through the Gift Shop, o documentário utiliza as artes plásticas como ponto de partida para sua trama. Superior ao filme de Banksy, Lixo Extraordinário tem boas chances de levar a estatueta – mas terá de passar por cima do grande favorito, Trabalho Interno. Tem chances.

Lixo Extraordinário (Waste Land)
Dir.: Lucy Walker, João Jardim e Karen Harley
Cotação Paradoxo: Vale 90% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de Lixo Extraordinário:

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