Mr. Brainwash
O documentário Exit Through the Gift Shop, do artista de rua (e agora cineasta) Banksy, conta uma história tão maluca que é difícil não pensar ser tudo um grande engodo. Talvez nunca tenhamos certeza se o que vimos é ou não verdade – e é o que menos importa no apagar das luzes. Mostrando os meandros da arte de rua, os artistas que nela trabalham e obras bastante interessantes e inventivas, o longa-metragem acaba fazendo uma grande propraganda pró-street art. Ao mesmo tempo, cria uma aura de mistério ainda maior sobre a figura de Banksy, um artista (ou vários?) que se mantém no anonimato até hoje. E, por fim, de forma bastante audaciosa, aponta o dedo para os altíssimos valores pagos por arte, tirando sarro com algumas peças de gosto bastante duvidoso do recém criado artista Mr. Brainwash. Ou será que não?
Narrado pelo britânico Rhys Ifans (de Harry Potter e as Reliquias da Morte – Parte 1), Exit Through the Gift Shop conta a trajetória do francês Thierry Guetta, um vendedor de roupas que tem em sua filmadora sua principal aliada. Gravando tudo o que vê pela frente, Guetta começa a achar um propósito para sua sede de imagens ao conhecer artistas de rua e capturar sua arte. O seu primo, conhecido como Space Invader (por colocar nas ruas figuras do game como sua marca), o coloca em contato com outros artistas e a coisa deslancha a partir daí.
Apenas um hobby de início, Guetta começa a perceber que as estrelas de suas filmagens demandam um propósito para serem gravados. É então que surge a semente da ideia de um documentário sobre street art. Guetta, no entanto, é tão sem noção, que acaba virando objeto do filme em vez de o criador. Tudo isso com a mão de Banksy, que acaba se tornando uma espécie de amigo e mentor para o francês.
A maior contribuição do documentário é mostrar os artistas de rua no seu habitat natural, trabalhando com as adversidades sabidas do metier e, mesmo assim, criando obras belíssimas. A criatividade de figuras como Space Invader, Shepard Fairey e, lógico, Banksy, impressiona. Além de tantos outros que aparecem na montagem inicial do documentário, sempre usando a rua como forma de interação com sua arte.
Para quem ficava curioso para saber como grafiteiros conseguem chegar a alturas impensáveis, ou como as imagens são colocadas nas ruas sem ninguém perceber, Exit Through the Gift Shop responde estas questões. Mas, certamente, não foi apenas isso que chamou a atenção de muita gente para o documentário. A figura maluca de Thierry Guetta é culpada por grande parte do espaço que o longa-metragem vem ganhando na mídia.
Isso porque é difícil entender se a história de Guetta é verdadeira ou apenas uma farsa muito bem elaborada por Banksy. De acordo com o filme, o francês virou de um vendedor de roupas para um videomaker inveterado. De um videomaker inveterado para um artista iniciante. De um artista iniciante para um sucesso de vendas. E tudo isso em um espaço pequeno de tempo, sempre ajudado por figuras conhecidas do street art – como o próprio Banksy, que praticamente o apadrinha. Da maneira como as coisas acontecem, é muito mais fácil duvidar do que vemos do que o contrário.
Penso que vemos em Exit Through the Gift Shop um personagem inventado por Banksy, o tal Mr. Brainwash, e nem duvidaria se descobríssimos no futuro que Banksy e Guetta são a mesma pessoa. Ou, mais fácil, que as obras de Guetta são, na verdade, feitas por Banksy e seus amigos. Muitas dicas levam a crer que estamos vendo um falso documentário sobre Brainwash. Nunca o vemos ativamente trabalhando em suas obras, o “acidente” em que ele se envolve é conveniente para a história e a forma com que os outros artistas falam abertamente – e negativamente – sobre Guetta faz pensar que estamos vendo uma grande inverdade.
Mentira ou não, o filme encontra uma forma bastante inteligente de criticar o mercado da arte e pessoas que pagam pequenas fortunas por quadros que não são tão especiais como se poderia pensar. Guetta, inclusive, começa a espalhar tinta de forma errática para criar suas “telas exclusivas”. O quanto dá para levar um artista assim à sério?
Curto, mas chegando ao ponto, Exit Through the Gift Shop pode confundir o espectador sobre as barreiras do real e da ficção, mas é divertido o suficiente para uma conferida. Serve, ao menos, para mostrar o quanto a street art é um movimento criativo e uma verdadeira forma de arte. Missão cumprida.
Maratona Oscar: Exit Through the Gift Shop, de Banksy, foi indicado ao Oscar de Melhor Documentário. Difícil fazer alguma previsão sem ter visto nenhum dos outros títulos, mas talvez o vanguardismo de algumas imagens possa afastar os mais antigos membros da Academia. É uma incógnita, por enquanto.
Exit Through the Gift Shop
Dir.: Banksy
Cotação Paradoxo: Vale 82% do ingresso
Confira logo abaixo o trailer de Exit Through the Gift Shop:
Na próxima semana, em cartaz no Paradoxo: Reino Animal, de David Michôd, indicado ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante (Jacki Weaver)

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