quinta-feira, 25 de novembro de 2010

5x Favela - Agora por Nós Mesmos

Bravo!

Já vista sob a ótica dos bandidos. Já vista sob a ótica da polícia. Agora, vista sob a ótica da comunidade. 5x Favela – Agora por Nós Mesmos, esforço coletivo e estréia de sete promissores talentos na direção, é um estupendo longa-metragem, reunindo cinco histórias cheias de coração, esperança, humor e conflito.

O projeto 5x Favela foi realizado anteriormente, no começo da década de 60, por cinco jovens realizadores (Cacá Diegues, Joaquim Pedro de Andrade, Marcos Farias, Miguel Borges e Leon Hirszman) retratando uma realidade que, para eles, era distante. Por isso é tão importante o subtítulo deste novo longa-metragem, Agora por Nós Mesmos, representando a tomada do poder de se auto-representar que o septeto de cineastas alcança nesta produção.

O grupo de diretores novatos, formado por Manaira Carneiro, Wavá Novaes, Rodrigo Felha, Cacau Amaral, Luciano Vidigal, Cadu Barcellos e Luciana Bezerra, aprendeu o ofício em oficinas ministradas por Cacá Diegues (que assina a produção do filme), Ruy Guerra (que atua em um dos episódios), Joaquim Pedro de Andrade entre tantos outros, com os roteiros recebendo a coordenação de Rafael Dragaud. Levando-se em conta o resultado final, a turma passou com distinção.

“Onde eu moro, o certo e o errado se misturam”. Com essa frase, proferida pelo protagonista do primeiro segmento, Fonte de Renda, é possível entender um pouco do universo em que vivem aquelas figuras que povoam as histórias apresentadas no filme. Dirigido por Manaira Carneiro e Wavá Novaes, com argumento de Vilson Almeida de Oliveira e roteiro da Oficina Cidadela/Cinemaneiro, o curta é uma abertura consistente para 5x Favela – Agora por Nós Mesmos.

Na história, Maycon (Silvio Guindane, de Sonhos Roubados) é um jovem que acabou de passar no vestibular e está prestes a realizar seu sonho de estudar Direito. O problema é que seu salário não cobre as despesas, fazendo com que o estudante comece a vender drogas para seus colegas ricos da faculdade. As conseqüências do ato, iniciado por um motivo compreensível, mas ainda condenável, podem ser sérias para Maycon e sua família.

Abandonando qualquer maniqueísmo, o curta dá um panorama bastante inteligente da situação que apresenta e cria uma narrativa que vai envolvendo o espectador no decorrer da história. Silvio Guindane é talentoso e consegue facilmente conquistar o público com sua interpretação, provando a todos que é um bom rapaz em um momento de crise. Hugo Carvana (de Casa da Mãe Joana) tem um papel pequeno, mas tem tudo para emocionar com sua intempestiva atitude em relação ao seu afilhado tão amado. Um curta fantástico.

O segundo seguimento, Arroz com Feijão, também pega pela emoção. Tem direção de Rodrigo Felha e Cacau Amaral, argumento de José Antônio Silva e roteiro da Oficina CUFA, da Cidade de Deus. No dia do aniversário do pai, Wesley (Juan Paiva) e seu amigo, Orelha (Pablo Vinícius), fazem de tudo para que o aniversariante possa comer algo que não seja o tradicional arroz e feijão de todos os dias.

O jeitinho brasileiro dá as caras aqui, com a dupla de garotos muito bem dirigida e passando uma lição de ética que não se dilui pelo clima bem humorado da história. Com música inspirada de Guto Graça Mello, Arroz com Feijão ainda conta com um show de interpretação de Flávio Bauraqui (de Quincas Berro D’Água), vivendo o pai de Wesley.

Solo de Violino é o terceiro curta, dirigido por Luciano Vidigal, argumento de Rodrigo Cardozo e roteiro da Oficina Afroreggae. Conta o embate entre Jota (Thiago Mathias, de Era Uma Vez...), rapaz que roubou armas da polícia, e Ademir (Samuel de Assis, de Chico Xavier), oficial que precisa reavê-las. Os dois eram amigos de infância e, agora, se confrontarão pela insistência do novo chefe do morro, Tizil (Feijão).

No quesito direção de atores (os mirins, principalmente), este segmento fica devendo. Mas em tensão e clima de urgência, Solo de Violino é o mais forte. A lealdade do passado se choca com a realidade do presente e um sonho, que para muitos parece inalcançável, pode ser interrompido pela disputa de poder na favela. Com um final surpreendente, o curta-metragem de Luciano Vidigal se sustenta bem, funcionando como um contraponto mais sério para os outros segmentos.

A mais fraca das cinco tramas, Deixa Voar, com direção e argumento de Cadu Barcellos e roteiro da Oficina Observatório de Favelas, traz a história de Flávio (Vitor Carvalho), menino que perde uma pipa e se vê obrigado a visitar a vizinhança de uma facção rival em busca do brinquedo. O curta-metragem demora muito para estabelecer a que veio, ficando um degrau abaixo dos demais. Mas quando revela seu conteúdo, um verdadeiro tratado sobre compreender o “outro lado da cerca”, o filme cresce. Pena que demore tanto para concluir seu raciocínio. A mensagem pacífica é caríssima e quase se perde por conta disso.

O mais divertido segmento fica para o final. Em Acende a Luz, com argumento e direção de Luciana Amaral e roteiro da Oficina Nós do Morro, a comunidade do Vidigal está prestes a passar um Natal sem luz. Os técnicos da companhia elétrica não se interessam muito pela comemoração da comunidade, exceto Lopes (Márcio Vito, de No Meu Lugar), que promete ficar em cima do poste até que o problema esteja resolvido.

Além de ter um roteiro bastante alto-astral, mostrando as entranhas da comunidade do morro retratado, o curta-metragem tem o melhor elenco de todo 5x Favela. É engraçada e ao mesmo tempo emocionante a trajetória do técnico Lopes, que se vê acuado para arrumar a situação da falta de eletricidade, mas que legitimamente deseja ajudar aquela comunidade a não passar seu Natal no escuro. Tudo isso conseguimos captar pela atuação singular de Vito – que recebeu um merecido prêmio em Paulínia por seu trabalho. Outros destaques do elenco ficam para os estreantes João Carlos Artigos (o homem do gelo) e para Dila Guerra (a sua assanhada esposa).

Por falar em Paulínia, 5x Favela – Agora por Nós Mesmos tem recebido elogios por onde passa. No festival de cinema da cidade paulista, o longa-metragem recebeu o grande prêmio do evento (Melhor Filme de Ficção), assim como Melhor Roteiro, Ator (Vito), Atriz Coadjuvante (Dila Guerra), Edição e Trilha Sonora. Sem contar o fato de que o filme foi exibido no Festival de Cannes, fora de competição, em caráter hours concour. Nada mal para um filme relativamente barato (orçamento estimado de R$ 4 milhões) e realizado por estreantes na profissão. Estreantes estes que tem tudo para ter uma carreira brilhante pela frente, levando-se em conta sua excelente estreia.

5x Favela – Agora por nós Mesmos
Dir.: Manaira Carneiro, Wavá Novaes, Rodrigo Felha, Cacau Amaral, Luciano Vidigal, Cadu Barcellos e Luciana Bezerra
Com Silvio Guindane, Gregório Duvivier, Hugo Carvana, Juan Paiva, Pablo Vinícius, Ruy Guerra, Flávio Bauraqui, Thiago Martins, Cintia Rosa, Samuel de Assis, Vitor Carvalho, Joyce Lohanne, Márcio Vito, João Carlos Artigos, Dila Guerra
Cotação Paradoxo: Vale 97% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de 5x Favela – Agora por Nós Mesmos:

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Jackass 3D

Para Moleques

Nunca fui telespectador do seriado Jackass, exibido durante três temporadas pela MTV. Mas sabia do que se tratava, não me interessando, portanto, pelo que Johnny Knoxville e companhia tinham para oferecer. Com a chegada do terceiro filme da série nos cinemas, resolvi assistir aos dois longas-metragens anteriores para fins de contextualização. E, surpresa: os achei engraçadíssimos. Os protagonistas dos filmes são nojentos, asquerosos e totalmente irresponsáveis. E é exatamente aí que reside a graça dessa trilogia.

Com roteiro (?) de Preston Lacy e direção de Jeff Tremaine (responsável pela função nos demais filmes), Jackass 3D traz exatamente tudo aquilo que os anteriores traziam – mas agora em três dimensões. Ou seja: espere por cenas nauseantes e escatológicas, hematomas e contusões e pegadinhas entre os malucos da gangue que desde 2000 tem feito a alegria dos moleques ligados na MTV. Não existe uma trama. É basicamente um episódio mais longo do seriado da tevê, com esquetes humorísticas bastante questionáveis.

Além do 3D, outra novidade deste terceiro longa-metragem é o uso da câmera de alta velocidade Phantom, que captura mil quadros por segundo. O resultado disso são cenas em câmera lentíssima, utilizadas em vários trechos do filme. Um exemplo disso é “Rocky”, uma esquete na qual Bam Margera joga um copo de água no rosto de uma pessoa, que está de costas, totalmente despreparada, para logo depois acertar um soco utilizando uma luva de boxe. Com a utilização desta Phantom, é possível ver cada movimento facial do pobre coitado que recebera o golpe. Como vocês podem perceber, apenas cenas edificantes fazem parte da edição final de Jackass 3D.

Por mais imbecis que possam parecer os integrantes do filme, é difícil não rir de uma pegadinha como a “High Five”, na qual Johnny Knoxville derruba seus colegas de programa com uma enorme mão de borracha, pegando cada um que chega para o primeiro dia de trabalho no filme totalmente despreparado. Outra pegadinha curiosa é a do gorila falso, que engana totalmente os pais de Bam Margera, recorrentes na trilogia Jackass.

Por falar em recorrência, a estrutura do terceiro longa-metragem é igual a de todos os outros. O início traz o grupo em uma abertura épica, Johnny Knoxville e o diretor Spike Jonze (de Onde Vivem os Monstros, amigo do grupo) se vestem de velhos para pregar peças nos incautos e o ator Rip Taylor surge antes dos créditos finais decretando o final dos trabalhos. Como novidade, os igualmente limitados Beavis e Butthead dão as boas vindas ao espectador, em um prólogo que promete matar a saudade dos nostálgicos do seriado de Mike Judge.

Os esquetes menos inspirados, aos olhos deste crítico, são todos os que apelam para a escatologia aberta. Como exemplo, Steve-O amarrado a um banheiro químico tendo de agüentar as fezes de cachorros por todo o corpo enquanto o lugar é arremessado para baixo e para cima. É preciso estômago forte. Nem o cameraman agüenta em alguns momentos.

Jackass 3D é um produto feito exclusivamente para fãs do seriado ou pessoas que conseguem rir da desgraça alheia. Faço parte deste segundo grupo, que não tem problema nenhum achar graça de figuras que se autoflagelam para criar humor. Não é um programa inteligente, muito menos edificante. Mas consegue fazer rir com as imbecilidades alheias – ou seja, faz exatamente o que se propõe.

Não esperaria, no entanto, mais sequências. Afinal, o grupo não está ficando mais jovem com o passar do tempo e o desfecho, com a música Memories do Weezer, denota uma despedida com clima saudosista para as maluquices da trupe.

Jackass 3D
Dir.: Jeff Tremaine
Com Johnny Knoxville, Steve-O, Bam Margera, Chris Pontius, Preston Lacy, Danger Ehren, Wee Man
Cotação Paradoxo: Vale 70% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de Jackass 3D:



Confira o clipe Memories, do Weezer, com o pessoal do Jackass:

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Minhas Mães e Meu Pai

The Youth

O orçamento foi baixo, apenas U$ 4 milhões. O tempo de filmagem foi curto, só 23 dias. É impressionante, portanto, o que a cineasta Lisa Chodolenko (de Cavedweller) conseguiu realizar diante de tantas limitações para construir seu novo trabalho, Minhas Mães e Meu Pai. Contando com um elenco estelar e muito bem escalado, Chodolenko parte de uma experiência própria para contar uma história que, antes de tudo, fala sobre amor, companheirismo e família.

Com roteiro assinado pela cineasta junto de Stuart Blumberg (de Um Show de Vizinha), Minhas Mães e Meu Pai conta a história do casal Nic (Annette Benning, de Destinos Ligados) e Jules (Julianne Moore, de O Preço da Traição) e seus filhos Joni (Mia Wasikowska, de Alice no País das Maravilhas) e Laser (Josh Hutcherson, de Viagem ao Centro da Terra). Gerados por uma inseminação artificial do mesmo doador de esperma, Laser sempre teve curiosidade de saber quem foi seu pai. Quando Joni completa 18 anos, o garoto pede a sua irmã que descubra a identidade do doador. É assim que os dois conhecem Paul (Mark Ruffalo, de Ilha do Medo), dono de um restaurante natureba que fica bastante feliz em conhecer seus desconhecidos rebentos. A aproximação de Paul naquela família, no entanto, gerará problemas dentro do casal, Nic e Jules, que não estava passando por bons momentos em seu relacionamento.

O tema ainda pode ser espinhoso para muitos (mas não deveria). As protagonistas são homossexuais e geraram dois filhos através da inseminação artificial. Lisa Chodolenko parte de uma experiência própria, já que é homossexual e também gerou um filho através deste expediente. Talvez por isso, Minhas Mães e Meu Pai toca a temática com bastante naturalidade. Os problemas pelos quais o casal passa são idênticos a qualquer outro – como o espectador já deveria imaginar. Portanto, é muito fácil compreender as motivações dos personagens e suas atitudes.

Ajuda o fato de o elenco ser excepcional. Julianne Moore e Annette Benning dão vida a Jules e Nic de forma bastante naturalista – e espero que elas estejam na cabeça dos votantes da Academia para o próximo Oscar. Benning é a chefe da família, a figura que coloca a comida na mesa. Portanto, é mais dura com os filhos e tem um temperamento bastante forte. Moore é o lado mais relax. Tenta sempre ser a voz de consonância na casa e visa uma convivência harmoniosa com a esposa e filhos.

Este clima familiar trabalhoso, mas bastante natural, será abalado com a chegada de Paul – em mais uma boa atuação de Mark Ruffalo, que vem crescendo muito com o passar dos anos. O ator trabalha na mesma freqüência de Julianne Moore, interpretando seu personagem de forma bastante tranqüila, despreocupada. Talvez por isso mesmo é que a afinidade entre Paul e Jules tenha sido tão grande.

O elenco jovem é também um destaque, com a revelação de Alice no País das Maravilhas Mia Wasikowska provando que não é uma atriz de um papel só. Josh Hutcherson – que já havia chamado a atenção desde pequeno com o tocante O ABC do Amor - não decepciona e consegue fazer uma ótima dobradinha com sua irmã de tela.

Nas melhores cenas do filme, o elenco principal se encontra na mesa, apenas conversando temas corriqueiros. O que fica bastante claro é a forma livre que Lisa Chodolenko deixa seus atores trabalharem. Parece que a cineasta apenas largou sua câmera ligada e pediu ao elenco que improvisasse o que achassem melhor. É claro que não foi isso que aconteceu. Por incrível que pareça, é necessário muito ensaio e concentração para uma cena bastante natural dar certo. E é isso que podemos observar em boa parte de Minhas Mães e Meu Pai.

Com uma trilha sonora pinçada a dedo, incluindo músicas de David Bowie, Joni Mitchell e MGMT, o longa-metragem de Lisa Chodolenko ganha ainda mais pontos pelas acertadas escolhas musicais. É digna de destaque a edição de Jeffrey M. Werner, que mostra ter um excelente timing cômico em seus cortes.

Conseguindo fazer um bom balanço entre drama e comédia, Chodolenko conquista o espectador por trazer uma história rica em personagens e situações interessantes. É possível se envolver com as figuras que conhecemos durante o filme e acreditar em seus problemas. Quando um longa-metragem consegue esse resultado com o espectador, é sinal de que o trabalho foi muito bem realizado. E é o que fica depois de uma sessão do ótimo Minhas Mães e Meu Pai.

Minhas Mães e Meu Pai (The Kids are All Right)
Dir.: Lisa Chodolenko
Com Annette Benning, Julianne Moore, Mark Ruffalo, Mia Wasikowska e Josh Hutcherson
Cotação Paradoxo: Vale 92% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de Minhas Mães e Meu Pai:

Solo

Monólogo

O cineasta Ugo Giorgetti (de Boleiros) convida o espectador de seu mais recente trabalho, Solo, a passar pouco mais de uma hora na companhia de Antônio Abujamra, enquanto este conta memórias de um personagem fictício nunca nominado. Em teoria, um filme estrelado por apenas um ator, com a câmera grudada nesta figura durante toda sua duração promete ser um tédio só. Mas não é o que acontece durante os 72 minutos da projeção de Solo.

Com roteiro do próprio Giorgetti, Solo é uma tour de force de Antônio Abujamra, conseguindo, sozinho, prender a atenção do espectador com seu jeito hipnótico de interpretação. O ator vive uma figura que olha para seu presente, sem nunca abandonar referências ao seu passado. Ele inicia contando algo totalmente trivial – sobre colocar as meias nos pés velhos e cansados – e segue por histórias que revelam muito de seus medos, arrependimentos e angústias.

Abujamra é o ator ideal para um projeto destes, dada a sua presença em cena e sua voz poderosa. Mas o filme não seria metade do que é não fosse o texto primoroso de Giorgetti. O cineasta consegue fazer uma junção perfeita entre drama, humor, paranóia e rabugice no seu roteiro, defendido com energia por Antônio Abujamra.

Histórias ótimas como a do assassino de cachorros, da esmola de dez reais não entregue na sinaleira, do vizinho vestido com roupas femininas são alguns dos causos contados pelo protagonista durante a narrativa de Solo. O texto e a interpretação de Abujamra seguram totalmente a atenção do espectador, tirando do cineasta a necessidade de invencionices para cobrir as histórias contadas pelo seu personagem principal.

Afinal de contas, Solo é basicamente um homem sentado no sofá contando histórias para a câmera. E isso nunca fica enfadonho. A música de Mauro Giorgetti ajuda e muito a criar o clima. Infelizmente, Ugo Giorgetti parece ter ficado com temor de que o espectador se cansasse rapidamente do cenário e incluiu grafismos e fotografias por trás da figura do ator, na tentativa de dar uma idéia de falso movimento aos enquadramentos. Essa é uma das poucas bolas fora do filme. Ao tentar camuflar a característica congelada das imagens, Ugo Giorgetti peca por lançar mão de um advento bastante falho e precariamente realizado. Muito melhor é manter a atenção do público no que Abujamra disserta em suas falas.

Em outro deslize, de tempos em tempos, com a câmera bem aproximada no rosto do ator, era possível ver seus olhos moverem-se, revelando que o protagonista estava lendo o que falava. Não é um pecado, dado a extensão do texto. Mas Giorgetti poderia ter livrado seu ator desta pequena falha deixando a câmera em uma distância segura e aproximá-la apenas nos momentos em que o texto estava na ponta da língua.

São detalhes mínimos que não estragam de forma alguma a experiência de acompanhar o grande Antônio Abujamra em um monólogo cheio de ironia e drama. Um trabalho diferenciado e altamente recomendável.

Solo
Dir.: Ugo Giorgetti
Com Antônio Abujamra
Cotação Paradoxo: Vale 90% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de Solo:

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Senna

Saudades do Tema da Vitória

A temporada de Fórmula 1 de 1994 está gravada na memória de muitos brasileiros. Inclusive deste que vos escreve, que na época tinha apenas 10 anos. Lembro muito bem da expectativa do início da temporada, mesmo não tendo gostado de Ayrton Senna ter trocado a McLaren vermelha e branca (coloradismo, a gente vê por aqui) pela Williams azul e amarela. Na primeira corrida, no Brasil, veria Senna abandonar a prova depois de ter conseguido a pole e uma boa posição por parte da prova. No Grande Prêmio do Pacífico, no Japão, Senna repetiria a pole position, mas rodaria logo no início da corrida. Perguntava-me onde andava aquele piloto que tinha levantado tantos troféus nas temporadas passadas. Na época, não entendia que um carro desregulado fazia toda a diferença. Para mim, Ayrton Senna já era suficiente para esperar uma vitória.

Numa daquelas coincidências do destino, uma falta de luz no dia 1º de maio de 1994 não me permitiu assistir a primeira hora da corrida de San Marino. Ao voltar a energia e ligar a televisão, lembro-me de ter ficado espantado com a voz embargada de Galvão Bueno narrando o grande prêmio. Senna havia se acidentado. E de forma bastante séria. O resto, todos já sabem. Não pude evitar o choro ao saber da morte daquele herói nacional. E, confesso, quase fui às lágrimas novamente ao reencontrá-lo no documentário Senna, dirigido pelo britânico Asif Kapadia (de The Warrior).

Com roteiro do estreante Manish Pandey, o documentário reconta os dez anos em que Ayrton Senna disputou campeonatos na Fórmula 1. Desde seu início promissor pela pequena Toleman, em 1984, passando por sua destacada performance na Lotus (pela qual conseguiu sua primeira vitória) e pela sua consagração na McLaren. O longa-metragem dá bastante espaço para a conhecida rivalidade entre o piloto brasileiro e o francês Alain Prost e dá voz para muitas figuras importantes na trajetória de Senna, como Ron Dennis (o então chefão da McLaren), Frank Williams (o cabeça da equipe Williams), Viviane Senna (irmã do piloto e responsável pelo Instituto Ayrton Senna) e Reginaldo Leme (jornalista e tradicional comentarista das corridas pela Rede Globo).

Abandonando a tradicional estética do documentário na qual os depoentes aparecem sentadinhos contando sua história para o espectador, Asif Kapadia utiliza apenas imagens de arquivo para montar seu longa-metragem. Somente o áudio das entrevistas é utilizado, eliminando a necessidade da figura de um narrador. Todos os depoentes são narradores, contando com a ajuda do próprio Ayrton Senna, que tem várias de suas entrevistas resgatadas e utilizadas no documentário.

A história do piloto brasileiro é tão impressionante que, por vezes, parece saída de um filme hollywoodiano. É o caso de algumas corridas vencidas por Senna, que conseguia passar por cima das piores adversidades. Isso nas pistas, pois fora delas a história era mais complicada. Mostrando bem as engrenagens políticas que fazem a Fórmula 1 se mover, Senna não usa de meias palavras para apontar o favorecimento do então presidente da FIA, o francês Jean-Pierre Balestre, ao seu compatriota Alain Prost. Algumas imagens bem interessantes dos bastidores da Fórmula 1 são inclusas no filme, como a reunião entre pilotos e a FIA às vésperas de cada grande prêmio.

O ponto alto de Senna são os momentos que mostram toda a rivalidade entre o piloto brasileiro e seu rival, Prost. Os dois iniciaram sua “parceria” na McLaren de forma bastante cordial. Mas com o passar do tempo, o ódio de um pelo outro chegou a um nível tal que os dois não escondiam sua repulsa nem nas entrevistas. É fato que esta rivalidade fez crescer a carreira de ambos – e, obviamente, a McLaren. Apostando nesta briga, Asif Kapadia acerta ao mostrar os dois lados da moeda, fazendo questão de apresentar ao espectador a jogada de Prost em cima de Senna no campeonato de 1989 e a eventual resposta do brasileiro no campeonato seguinte. É bem verdade que boa parte do documentário pinta Senna como uma figura perfeita, deixando outras histórias menos inspiradoras para trás. Mas, ao menos, esta passada de perna do piloto brasileiro, que se engalfinha com Prost na primeira volta do último grande prêmio de 1990 é colocada sem maiores prejuízos à imagem do herói.

A vida privada de Ayrton Senna é deixada de lado na maior parte do tempo, mas ainda existem algumas cenas curiosas – como a imprópria visita do piloto ao programa da apresentadora Xuxa Meneghel, na qual os dois trocaram “juras de amor” bastante questionáveis para o público alvo do programa. O foco aqui, claro, é no piloto e sua trajetória vitoriosa. Bastante religioso, Senna aparece agradecendo a Deus mais de uma vez pelas suas vitórias e pelo lugar que conseguiu chegar na Fórmula 1. É de arrepiar, aliás, algumas entrevistas cedidas por Ayrton Senna nas quais o piloto fala sobre planos pro futuro, planos estes que seriam podados pelo acidente fatal que aconteceria na Itália. Aos 34 anos, o piloto genial encontraria o seu fim.

O documentário dá um grande destaque àquele final de semana fatídico em San Marino. Podemos notar a angústia de Ayrton Senna ao observar Rubens Barrichello sofrer um acidente grave na sexta-feira e a morte do austríaco Roland Ratzenberger no sábado. Tudo dizia que aquela corrida não deveria acontecer. Como legado daquele fim de semana trágico, as mortes de Ratzenberger e Ayrton Senna deixaram a Fórmula 1 muito mais preocupada com a segurança de seus pilotos. Desde então, nenhum outro profissional morreu exercendo seu trabalho nas pistas rápidas dos grandes prêmios ao redor do mundo. Uma lição aprendida a duras penas.

Senna é um documentário recomendável a todos que puderam acompanhar a trajetória de um dos maiores pilotos da história do automobilismo, mas também é um ótimo ponto de partida para quem não viu a lenda em ação. Dezesseis anos depois de sua morte, existe toda uma nova geração que não pode conhecer os feitos de Ayrton Senna. E para estes, Senna é um longa-metragem obrigatório.

Senna
Dir.: Asif Kapadia
Cotação Paradoxo: Vale 95% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de Senna:

domingo, 21 de novembro de 2010

Harry Potter e as Relíquias da Morte - Parte I

O Começo do Fim

Foi uma decisão mercadológica, mas acertada. Separar em dois filmes o último livro da saga do bruxinho britânico criada por J.K. Rowling significa para a Warner Bros. praticamente o dobro de ingressos vendidos. É quase como vender um filme à prestação, com a segunda parte sendo resgatada – e paga – pelo espectador no próximo ano. Não que o público fã de Harry Potter e as Relíquias da Morte realmente se importe com isso. O que mais um admirador dos livros quer é acompanhar no cinema da forma mais fiel possível a história que já conhece de trás para frente. Por isso, dois filmes contando a última aventura de Potter e companhia acaba sendo uma acertada decisão, dada a extensão do livro e a dificuldade em não poder cortar muitos detalhes da trama – função realizada pelo roteirista Steve Kloves (que adaptara todos os livros do bruxo para o cinema, exceto Harry Potter e a Ordem da Fênix).

Contando novamente com a direção de David Yates, que já ocupara a cadeira no quinto e sexto filmes da série, Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 1 acompanha o personagem título, novamente interpretado por Daniel Radcliffe, e seus amigos Rony Weasley (Rupert Grint) e Hermione Granger (Emma Watson) na busca das Horcruxes que mantém o grande vilão Voldemort (Ralph Fiennes) vivo. A tarefa não é nada fácil e a busca criará uma cisão no trio, assim como mortes sentidas de figuras proeminentes em histórias prévias.

Se em A Ordem da Fênix, Yates pareceu bastante burocrático e já melhorara bastante no capítulo subseqüente, em As Relíquias da Morte o diretor chega ao seu ápice. Bastante sombrio e cobrindo os pontos mais importantes do livro com elegância, o novo capítulo da cinessérie é o filme mais completo da saga. O longa-metragem tem todas as qualidades dos seus antecessores, como uma fotografia magnífica (cortesia do ótimo português Eduardo Serra, de Diamante de Sangue), figurinos e direção de arte excepcionais e um elenco de apoio de dar inveja a qualquer blockbuster hollywoodiano.

Afinal de contas, quantos filmes podem reunir em um mesmo cast um grupo de atores competente como Alan Rickman, Helena Bonham Carter, Robbie Coltrane, Ralph Fiennes, Brendan Gleeson, Imelda Stauton, Jason Isaacs, David Thewlis, Michael Gambon, Rhys Ifans, Bill Nighy? – e a lista poderia continuar, acredite. Uma pena que vários deles são relegados a pequenas participações. De qualquer forma, todos conseguem dar o seu toque especial no resultado final do longa-metragem.

O elenco mais jovem (não é possível mais chamá-los de crianças, afinal) não decepciona. Daniel Radcliffe é Harry Potter há dez anos. Mesmo que a sua forma de encarnar o personagem nunca tenha sido muito próxima ao livro (o bruxo da versão escrita parece mais revoltado, um rapaz sempre no limite), o ator consegue encabeçar uma produção grandiosa como esta, ajudado, claro, pelos seus ótimos escudeiros. Emma Watson cresce como atriz a cada novo episódio e Rupert Grint nunca esteve tão à vontade como o alívio cômico do trio. As maiores risadas surgem de sua interpretação. Quando é necessário um ar mais dramático, o ator igualmente se sai bem.

Tirando vantagem de um maior tempo para contar sua história, David Yates faz um filme no qual é possível existir um respiro entre uma cena e outra. Diferente de filmes anteriores, nos quais as informações eram rapidamente jogadas em cima do público, em As Relíquias da Morte existe tempo para cada situação. Os personagens parecem pensar, refletir e não apenas agir. Desde A Ordem da Fênix esta mudança no andamento dos filmes da saga podem ser observados, mas neste novo capítulo o ritmo do longa-metragem chegou a um nível ideal. Nem tão rápido, parecendo apressado, nem tão lento, provocando bocejos no espectador.

Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 1 é um verdadeiro presente para os fãs. Apenas eles lembrarão de referências a filmes anteriores, que são espalhadas generosamente neste episódio, e se animarão com a estreia de personagens que há muito já deveriam ter dado as caras no cinema. É o caso de Gui Weasley (Domhnall Gleeson), o ministro de Magia Rufus Scrimgeour (Bill Nighy), o elfo Monstro (voz de Simon McBurney) e o inescrupuloso Mundungo Fletcher (Andy Linden). O filme também marca o retorno de Dobby, o elfo que ajudara Harry Potter no segundo filme da série, A Câmara Secreta, e que até hoje não tinha voltado aos cinemas – mesmo que nos livros suas aparições tenham sido recorrentes.

Terminando de forma promissora, dando um excelente gancho para o derradeiro capítulo que estreia em julho de 2011, Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 1 é o começo do fim ideal para a cinessérie do bruxinho britânico. Uma saga que teve mais altos que baixos durante estes dez anos nas salas de cinema e que parece se encaminhar para um final épico, como a série merece.

Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 1 (Harry Potter and the Deathly Hallows – Part 1)
Dir.: David Yates
Com Daniel Radcliffe, Rupert Grint, Emma Watson, Alan Rickman, Helena Bonham Carter, Robbie Coltrane, Ralph Fiennes, Brendan Gleeson, Jason Isaacs, Tom Felton, Michael Gambon, Rhys Ifans, John Hurt, Timothy Spall, Bonnie Wright, Bill Nighy, David Thewlis, Richard Griffiths, Fiona Shaw, Imelda Staunton
Cotação Paradoxo: Vale 92% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 1:

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Muita Calma Nessa Hora

A Zorra é Nossa

Bruno Mazzeo, Marcelo Adnet, Leandro Hassun, Hermes & Renato. Todos bons humoristas, dentro de suas características e voltados para seus públicos-alvo. Reuni-los em um mesmo filme parecia uma boa idéia na teoria. No entanto, Muita Calma Nessa Hora desperdiça seus talentos em uma história pouco inspirada e filmada como um grande especial de fim de ano da Rede Globo.

Com roteiro de Bruno Mazzeo, João Avelino e Rosana Ferrão sobre argumento de Rik Nogueira e Augusto Casé, o longa-metragem dirigido por Felipe Joffily (de Ódiquê?) é um “quem é quem” da comédia brasileira. Nomes bastante conhecidos do humor nacional ganham pontas no filme, protagonizado pelo trio de beldades Andréia Horta (do seriado Alice), Gianne Albertoni (de Xuxa Popstar) e Fernanda Souza (do seriado Toma Lá, Dá Cá). O erro de Muita Calma Nessa Hora começa aí. Sem timing cômico algum, o trio vai patinando durante boa parte do filme, oscilando momentos de pura vergonha alheia com outros meramente aceitáveis.

Na trama, depois de desistir de um casamento fadado ao fracasso, Tita (Horta) decide passar sua lua de mel em Búzios com suas duas melhores amigas, a indecisa Aninha (Souza) e a impetuosa Mari (Albertoni). No caminho, o trio conhece a hiponga Estrella (Débora Lamm, de 1972), que está procurando seu pai desaparecido. O quarteto parte então para muitas confusões nas paradisíacas paisagens de Búzios.

O diretor Felipe Joffily, que já trabalhara no ótimo seriado Cilada, decepciona pela falta de criatividade ao comandar seu segundo longa-metragem. Com o uso ostensivo de músicas invasivas no decorrer da trama, Muita Calma Nessa Hora parece, por muitas vezes, uma grande colagem de videoclipes, misturada a esquetes cômicas protagonizadas pelos inúmeros comediantes convidados. Por sorte, alguns nomes do elenco conseguem se sobressair e fazer de suas pequenas pontas momentos que conseguem divertir minimamente. É o caso do grupo Hermes e Renato, de André Mattos (de Tropa de Elite 2) vivendo um meticuloso doido varrido, de Luis Miranda (de Quincas Berro D’Água) como a espalhafatosa Buba, de Marcelo Adnet e sua caracterização de mauricinho paulista e do sempre maluco Sérgio Mallandro – que não precisa atuar mais, é verdade, dado ao seu contínuo comportamento “capeta em forma de guri”.

Outros atores têm papéis tão pequenos e insignificantes que não conseguem driblar o pouco espaço que recebem. Heloísa Périssé, Leandro Hassun e o próprio Bruno Mazzeo são relegados a apenas uma pequena cena cada um. Ao menos, para eles, resta o consolo de que não tiveram tempo para mostrar o que sabiam. Nelson Freitas (do programa Zorra Total) e Dudu Azevedo (de Podecrer!) não podem dizer o mesmo. Freitas é sabotado com um personagem argentino boquirroto, mas consegue um bom resultado quando não precisa fazer rir – por incrível que pareça. Já Dudu Azevedo não se sai muito melhor do que suas participações em novelas globais. Assim como o trio principal, está no filme mais pela sua aparência.

O grande problema das protagonistas não é culpa exclusiva das atrizes. Nota-se um real esforço das intérpretes e elas acabam se achando no meio do caminho. O pouco aprofundamento de cada personagem no roteiro é bem mais prejudicial ao filme. Fernanda Souza, Andréia Horta e Gianne Albertoni não vivem pessoas, vivem tipos. Aninha é a indecisa. Então, a cada nova cena isso é martelado no espectador. Tita teve uma desilusão amorosa e agora só pensa em fazer festa com o maior número de homens possível. O caso de Mari é ainda pior. O motivo para suas atitudes em Búzios é muito fraco. Ela decide tirar férias dos homens depois de ter levado uma cantada do seu chefe mais velho. O motivo não é ruim. Mas o filme tenta vender a todo momento que Mari é uma pessoa forte, debochada e muito resolvida. Portanto, parece uma causa pequena demais para seu embargo ao sexo oposto.

Apesar de tudo o que foi escrito aqui, Muita Calma Nessa Hora não é tão ruim quanto o trailer nos fazia supor. Algumas cenas funcionam, o trio principal, como já dito, consegue se achar em seus papéis no terceiro ato, Débora Lamm, mesmo vivendo um papel batido, tem seus bons momentos e as belas paisagens de Búzios agregam ao resultado final. Mas é recomendável apenas para fãs incondicionais de Zorra Total, A Praça é Nossa e afins.

Muita Calma Nessa Hora
Dir.: Felipe Joffily
Com Andréia Horta, Débora Lamm, Fernanda Souza, Gianne Albertoni, Hermes e Renato, Lucio Mauro Filho, Marcelo Adnet, Leandro Hassum, Maria Clara Gueiros, Nelson Freitas, Marcos Mion, André Mattos, Sérgio Mallandro
Cotação Paradoxo: Vale 49% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de Muita Calma Nessa Hora:

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

As Cartas Psicografadas por Chico Xavier

A dor da perda

A lembrança pelo centenário de Chico Xavier já trouxe ao cinema o longa-metragem homônimo, sucesso de bilheteria, dirigido por Daniel Filho, e o também blockbuster Nosso Lar, adaptação de um livro psicografado pelo médium brasileiro, assinado por Wagner Assis. Ambos levaram uma multidão respeitável ao cinema, muito por causa da data comemorativa e pela boa aceitação da doutrina espírita no Brasil, mas principalmente pela grande divulgação que os meios de comunicação deram para as suas estréias.

Chegamos então a Cartas Psicografadas por Chico Xavier, documentário que carrega o nome do médium, fala sobre a doutrina espírita, mas que não conseguiu a mesma resposta do público dos outros “filmes da série”. Perto dos anteriores, este novo longa-metragem é bastante superior. Mas em pleno sábado à tarde, a sessão estava às moscas. Ou seja, carece da boa e velha divulgação, tão importante para qualquer sucesso de bilheteria.

Escrito e dirigido por Cristiana Grumbach (de Morro da Coinceição), As Cartas Psicografadas por Chico Xavier traz oito depoimentos de mães e pais que perderam seus filhos e que acharam conforto nas palavras escritas pelo médium. O sentimento de perda e a falta de rumo depois de uma sofrida morte são assuntos recorrentes do documentário, que tem uma abordagem que lembra muito os trabalhos de Eduardo Coutinho.

Não é de se estranhar. Cristina Grumbach trabalhou diversas vezes com Coutinho como sua assistente de direção. Filmes como os ótimos Peões e Edifício Máster tem um dedo de Grumbach, que utiliza do estilo do seu mestre neste seu segundo trabalho solo. Portanto, podemos ver as conversas entre a diretora e seus depoentes e notar a intervenção do cineasta dentro do documentário.

As cartas do título são colocadas como protagonistas do filme e costuram os depoimentos. Grumbach escolhe por dar começo, meio e fim para cada entrevista, não fazendo seus depoentes conversarem entre si na edição. Apesar de ser um advento que dá bastante clareza ao filme, não deixa de ser um tanto enfadonho observar todas as histórias contadas uma a uma. O grande problema não é o conteúdo das falas em si, que, isoladas, são interessantes e chamam a atenção pelos fatos fantásticos relatados. O que incomoda é como a narrativa anda em círculos. A cada nova entrevista, o assunto é exatamente o mesmo do anterior.

Apesar disso, os relatos são emocionantes o suficiente para prenderem a atenção do espectador. Para quem acredita na doutrina espírita, o documentário não deve trazer nada de muito novo, porém, já que as mães e pais que perderam seus filhos conversam sobre a angústia da perda e sobre como a ajuda de Chico Xavier lhes fez terem consciência de que a morte é apenas uma passagem. “É como usar uma roupa e trocar por outra, mais nova”, parafraseando uma das entrevistadas. Essa mensagem parece ser básica para os conhecedores da doutrina. Para quem não tem muito contato, das duas uma: ou sairá surpreso com os depoimentos ou continuará tão cético como anteriormente.

Mesmo tendo alguns problemas de andamento, As Cartas Psicografadas por Chico Xavier consegue ser mais completo que seus parceiros de doutrina. Será bem menos visto que Chico Xavier ou Nosso Lar, mas não por falta de qualidade. Um trabalho de orçamento limitado tem desses problemas. Talvez com o boca a boca, consiga encontrar seu público até o final de seu tempo em cartaz.

As Cartas Psicografadas por Chico Xavier
Dir.: Cristina Grumbach
Cotação Paradoxo: Vale 70% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de As Cartas Psicografadas por Chico Xavier:

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Red - Aposentados e Perigosos

Old Dogs

Como o tempo passa. Ver Bruce Willis como um agente aposentado da CIA revela ao espectador que a idade não está pesando apenas para o ator. O eterno John McClane é responsável por 1/5 da diversão de Red – Aposentados e Perigosos, longa-metragem baseado nos quadrinhos de Warren Ellis e Cully Hammer. Os 4/5 restantes ficam por conta de Morgan Freeman (de Invictus), Helen Mirren (de A Última Estação), John Malkovich (de Mente que Mente) e Mary-Louise Parker (de O Solteirão), o elenco estelar muito bem dirigido pelo cineasta Robert Schwantke (de Te Amarei para Sempre).

Na trama, adaptada para o cinema pela dupla Jon e Erich Hoeber (responsável por outra transposição dos quadrinhos para a tela grande: Terror na Antártida), o agente da CIA aposentado Frank Moses (Willis) tem sua cabeça colocada a prêmio pela própria agência em que trabalhara. Sabendo dos perigos que corre, Frank resolve agrupar sua antiga turma de ação, que contava com o sábio Joe Matheson (Freeman), a especialista em armas Victoria (Mirren) e o lunático Marvin Boggs (Malkovich). Eles serão caçados pelo agente em ascensão William Cooper (Karl Urban, de Star Trek), que tem ordens explícitas para acabar com o bando. No meio disso tudo, Frank ainda tem tempo de se dedicar a um romance até então platônico com a bela Sarah Ross (Parker).

Red – Aposentados e Perigosos é o típico filme no qual é possível perceber que o elenco se diverte horrores ao trabalhar junto. Felizmente, a diversão não fica restrita apenas aos atores, com o espectador conseguindo aproveitar a experiência também. O principal chamariz de uma produção como essa é o peso paquidérmico dos nomes reunidos. Além dos supracitados, ainda temos participações pequenas, mas interessantes de Brian Cox (de Instinto de Vingança), Richard Dreyfuss (do blockbuster setentista Tubarão) e do veteraníssimo Ernest Bornigne (do clássico Os Doze Condenados). Com um cast como esse, não existe muito lugar para errar. As atuações são ótimas e cada um entende que o clima do filme está intimamente ligado com o fato de ninguém se levar a sério.

E tem como? Helen Mirren empunhando com precisão uma arma do seu tamanho? John Malkovich insano como apenas o ator consegue ser? Brian Cox pagando uma de sedutor russo? No elenco, o nome que menos tem momentos cômicos é Bruce Willis, que serve de escada para a ótima Mary Louise Parker fazer o que sabe. A atriz está formidável como uma leitora de romances detetivescos que sonha em participar de uma grande aventura e, ao conhecer pessoalmente Frank Moses, consegue exatamente o que desejava.

Os exageros do roteiro (como alguém conseguir invadir uma sala da CIA chutando uma parede) são apenas perdoáveis por causa desse clima comentado, de não se levar nada a sério. Como problema nisso, surge uma áurea intocável nos protagonistas, como se nada pudesse atingi-los a ponto de fazer com o público consiga se envolver com sua trajetória. O grande acerto dos irmãos Hoeber é provar ao espectador que ninguém naquele elenco é, de fato, inatingível. Falar mais estragaria a surpresa de quem ainda não assistiu a Red, mas o desenrolar de algumas cenas trouxeram alguns acontecimentos dos quais eu não previa – o que é sempre bom, diga-se.

Karl Urban faz de seu “vilão” uma figura interessante, um agente da CIA que executa ordens, mas tem alguma consciência de que algo está errado. O ator que já havia surpreendido positivamente em filmes como Star Trek e O Senhor dos Anéis continua acertando em suas escolhas e, em um futuro próximo, será o Juiz Dredd em mais uma adaptação de quadrinhos para o cinema (ou seja, esqueça Stallone no mal fadado longa-metragem de 1995).

Com a violência estilizada tão cara a Hollywood, Red – Aposentados e Perigosos é um daqueles filmes nos quais centenas de figurantes são executados sem pudor, vilões encontram seu destino cruel e o espectador segue alegremente comendo sua pipoca e bebendo seu refrigerante. Passatempo divertido, o longa-metragem de Robert Schwantke entrega exatamente o que promete.

Red – Aposentados e Perigosos
Dir.: Robert Schwantke
Com Bruce Willis, Morgan Freeman, John Malkovich, Helen Mirren, Mary-Louise Parker, Richard Dreyfuss, Karl Urban, Ernest Bornigne, Brian Cox, Julian McMahon
Cotação Paradoxo: Vale 78% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de Red – Aposentados e Perigosos:

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Ondine

A Dama na Água

A premissa não parecia lá muito interessante. Mas bons diretores como Neil Jordan (de Valente) conseguem surpreender até com roteiros que, à primeira vista, não parecem grande coisa. É o caso de Ondine, longa-metragem que mistura romance, folclore e conto de fadas, estrelado pelos ex-namorados Colin Farrell (de Coração Louco) e Alicja Bachleda (de Sommerstrum, ainda inédito no Brasil).

Na trama, assinada pelo próprio diretor, o pescador Syracuse (Farrell) resgata em sua rede de pesca uma mulher belíssima, mas aparentemente desmemoriada. Sem um nome verdadeiro para dar ao homem que salvara sua vida, a moça (Bachleda) resolve batizar-se de Ondine (“que veio do mar”). Encantado pela mulher, mas intrigado pelo fato de ela não querer ser vista por ninguém além dele, Syracuse hospeda Ondine em sua casa. Divorciado e com uma filha pequena que sofre de insuficiência renal, o pescador tem um histórico de alcoolismo e tem como confidente o padre da cidade (Stephen Rea, de A Colheita do Mal) – que não acredita na história de uma mulher ter sido resgatada por uma rede de pesca.

A única pessoa que dá algum crédito a história do pescador é sua filha, Annie (Alison Barry), concluindo que Ondine só pode ser uma criatura do mar. Não uma sereia, como poderia se imaginar, mas uma Selkie, uma figura do folclore escocês que perde sua pele de foca e se transforma em uma mulher de tempos em tempos. Syracuse ouve toda a história atento e pensa que existe uma possibilidade do mito ser verdadeiro. Não só ele, como o espectador também.

Neil Jordan acerta por deixar no seu público a dúvida sobre os caminhos da história. Será que estamos vendo um conto de fadas adulto? Será que é apenas um embuste da moça? Um sonho? Não temos certeza por um bom tempo e isso atiça a curiosidade, envolvendo facilmente o espectador.

Ajuda o fato de o elenco ser escalado a dedo. Colin Farrell aposta em uma timidez interiorana e acerta no tom ao encarnar um pai devotado, que decide largar a bebida assim que percebe que é responsável por uma criança pequena e doente. Seus diálogos com o padre são pontos altos do filme, assim como sua dobradinha com a jovem atriz Alison Barry, que é um verdadeiro achado.

Mas, certamente, todos os olhos (masculinos, ao menos) se voltam à beleza da atriz polonesa Alicja Bachleda. Tudo indica que Neil Jordan ficou fascinado pela moça e tentou a todo o custo mostrar isso ao espectador. Não precisava muito, é verdade. Com uma boa performance, a novata pode ter um caminho bem sucedido pela frente. É importante para a história que o público sinta-se próximo de Ondine, até para que seja possível entender o sentimento de Syracuse e a razão de suas atitudes no decorrer da trama. Quanto a isso, sem maiores problemas.

Perdendo o ritmo no final do segundo ato, Ondine peca por se deixar levar pela formulaica reviravolta perto do desfecho, na qual o casal precisa ficar separado para deixar no público a dúvida se eles voltarão a ficar juntos. Com o andar da carruagem, não era necessário nenhum tipo de percalço maior. Do jeito que o filme foi entregue, parece um artifício planejado de roteiro e não uma necessidade ou desejo do personagem em questão. Bola fora de Neil Jordan, que comandava até então uma ótima história de amor – com direito a uma citação certeira à banda islandesa Sigur Ros. Obviamente, este pequeno ponto negativo não apaga as qualidades de Ondine, que acaba sendo um interessante romance com charme irlandês.

Ondine
Dir.: Neil Jordan
Com Colin Farrell, Alicja Bachleda, Alison Barry e Stephen Rea
Cotação Paradoxo: Vale 76% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de Ondine:

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Um Parto de Viagem

Se Viajar, Não Durma

Saídos do mega-sucesso Se Beber, Não Case, o diretor Todd Phillips e o ator Zack Galifianakis resolveram repetir a dobradinha em Um Parto de Viagem, com o reforço do astro renascido das cinzas Robert Downey Jr. (de Homem de Ferro 2). É inegável que o charme desta comédia cheia de altos e baixos está na performance dos dois atores, que conseguem suplantar um roteiro inconstante, divertindo o espectador com uma química ótima.

A história original partiu da cabeça dos estreantes em cinema Alan R. Cohen e Alan Freedland, que assinaram o roteiro ao lado de Todd Phillips e Adam Sztykiel (de O Melhor Amigo da Noiva. Na trama, Peter Highman (Downey Jr.) está correndo contra o tempo para retornar para casa e acompanhar o parto de sua esposa, Sarah (Michelle Monaghan, de Controle Absoluto). A viagem seria uma questão de horas feita de avião. Mas um encontro fortuito com o projeto de ator Ethan Tremblay (Galifianakis) acaba transformando um pequeno trajeto aéreo em um pesadelo em quatro rodas pelas estradas dos Estados Unidos.

Downey Jr. é um excelente ator cômico, provando inúmeras vezes que tem timing para comédia como poucos. Desta vez, no entanto, o ator passa boa parte do filme fazendo escada para seu parceiro de tela. Peter Highman é um sujeito estressado, que tem sérios problemas em controlar sua raiva. E ninguém melhor que Ethan Tremblay para testar a paciência de Peter. Apesar de fazer a preparação das piadas para Galifinakis na maior parte do tempo, Downey Jr. também tem chances de fazer rir por si só, como na hilária cena em que é deixado sozinho com um par de crianças capetas. O resultado é inesperado, no mínimo.

Aproveitando sua fama pós Se Beber, Não Case, Galifianakis não tenta explorar uma nova forma de fazer rir, escorando-se no que deu certo no filme anterior. Nada de mal nisso, visto que sua performance é igualmente hilariante. Seu Ethan Tremblay é uma figura tão obtusa e grudenta que é difícil não pensar em abandoná-lo na estrada, exatamente como pensa fazer Peter. O roteiro guarda alguns momentos tocantes, visto que o ator acabara de perder seu querido pai – e o carrega em forma de cinzas dentro de uma lata de café.

Com um elenco coadjuvante interessante, mas pouquíssimo utilizado, Um Parto de Viagem desperdiça figuras como Jamie Foxx (de Idas e Vindas do Amor), Juliette Lewis (de Coincidências do Amor) e Danny McBride (de Trovão Tropical) em papéis que acabam não chegando a lugar algum. Problemas do roteiro, que joga de forma episódica alguns personagens no caldo para ver se alguma coisa dá liga.

A grande virada do roteiro, que faz com que o status da relação entre Peter e Ethan mude, é exagerada demais e difícil de engolir. Toda a sequência envolve o roubo de um carro que dificilmente terminaria do modo que a vemos. Está certo que é uma comédia e que nem tudo deve ser levado a sério. Mas um pouco de verossimilhança não faz mal a ninguém.

Ao menos, as pequenas falhas de Um Parto de Viagem não minam a experiência como um todo, mantendo divertido por toda a sessão acompanhar as desventuras em série dos dois amigos forçados. As citações a Two and a Half Man são um achado e a trilha sonora é muito bem pinçada, indo de Wolfmother a Neil Young. Um programa divertido, que talvez não faça gargalhar como Se Beber, Não Case, mas tem seus predicados.

Um Parto de Viagem (Due Date)
Dir.: Todd Phillips
Com Robert Downey Jr., Zack Galifianakis, Michelle Monaghan, Jaime Foxx, Juliette Lewis, Danny McBride, RZA
Cotação Paradoxo: Vale 73% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de Um Parto de Viagem:

terça-feira, 9 de novembro de 2010

José e Pilar

Noutro Sítio

O diretor português Miguel Gonçalves Mendes faz um gigantesco serviço ao público que vai ao cinema conferir seu novo documentário, José e Pilar: proporciona ao espectador a rara oportunidade de passar duas horas na companhia de um dos maiores escritores da língua portuguesa: José Saramago. Apontando sua câmera no momento em que o Nobel de Literatura escrevia seu livro “A Viagem do Elefante”, Mendes acaba registrando momentos particulares da vida de Saramago e de sua esposa, Pilar Del Rio, acompanhando as inúmeras viagens e as tristes enfermidades que acometeram o escritor.

Co-produção Portugal, Espanha e Brasil, José e Pilar começa sua narrativa em 2006, pouco depois de Saramago ter lançado seu livro autobiográfico “As Pequenas Memórias”. Prolífico autor, o português já iniciava a concepção de outro romance, “A Viagem do Elefante”, enquanto viajava para os mais variados cantos do mundo, dando entrevistas e autógrafos, sempre ao lado de sua companheira, Pilar Del Rio. Triste saber que o elefante Salomão por pouco não viu a luz do dia. Saramago foi hospitalizado e quase não pode concluir seu trabalho, para infelicidade não só dos leitores como do próprio autor, que temia não conseguir finalizar seu livro. Já sabemos o desfecho desta história e, por sorte, o autor ainda teve alguns anos de vida a mais para brindar-nos com seus escritos.

Acompanhamos também o emocionante encontro entre Saramago e Fernando Meirelles durante a exibição de Ensaio Sobre a Cegueira, a idéia gênese do que viria a ser seu último trabalho, “Caim”, e sua viagem ao Brasil, em 2008.

Miguel Gonçalves Mendes consegue, paulatinamente, deixar Saramago e Pilar à vontade em frente à câmera. No início do documentário, é possível perceber que a presença da lente do cineasta deixa o escritor um tanto desconfortável. No decorrer da trama, no entanto, Saramago vai acostumando com a presença da intrusa e se mostra um sujeito fascinante. Inteligentíssimo, mas nunca petulante. Simpático, mas com uma ironia finíssima. O escritor, prêmio Nobel de Literatura, se mostra uma pessoa “gente como a gente”. Um homem sábio que desconhece sua sabedoria. Um escritor que se desculpa por se repetir em entrevistas, visto que os colegas jornalistas sempre o perguntam as mesmas coisas. Temos oportunidade de observar seus pensamentos sobre vida, morte, religião e política, sempre colocados em pauta com bom humor ou simpatia.

Pilar Del Rio se mostra não menos fascinante. Uma feminista ferrenha, espanhola de sangue quente, Pilar é – como já acusa seu nome – o pilar de sustentação de Saramago. É verdade que, em alguns momentos, sua agitação parece destoar da idade avançada do escritor. Mas, em nenhum momento, Saramago parece gostar de diminuir o seu ritmo, como diz sua esposa.

O documentário tem tudo para agradar aos admiradores de José Saramago e é uma excelente forma de reencontrar ou conhecer o homem que deu ao mundo livros como “Ensaio sobre a Cegueira”, “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, entre tantos outros.

Miguel Gonçalves Mendes escolhe uma narrativa cronológica (diferente de Saramago, que em sua autobiografia preferiu a não linearidade), incluindo arte no filme que lembra uma agenda – dado aos vários compromissos do escritor. Separado em três atos e com intervenções poéticas de Saramago, José e Pilar é um documento valiosíssimo sobre um dos grandes autores da nossa língua, falecido em junho de 2010. Com seus livros e este filme, não será preciso procurar em “outro sítio” por José Saramago. Ao menos, por enquanto.

José e Pilar
Dir.: Miguel Gonçalves Mendes
Cotação Paradoxo: Vale 100% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de José e Pilar:

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Jogos Mortais - O Final

O Fim?

Não é possível saber o quanto este O Final do título do sétimo episódio da cinessérie Jogos Mortais pode ser levado a sério. Franquias de terror são conhecidas por não se prenderem a detalhes como esse – vide Sexta-Feira 13 – Capítulo Final, em 1984. Se realmente esta foi a última vez que vimos as armadilhas doentias da franquia, digo que já vão tarde. Conseguindo manter um novo filme a cada ano, Jogos Mortais foi despencando de qualidade a cada sequência.

Dirigido novamente por Kevin Greutert, que já havia assumido o posto no longa-metragem anterior, Jogos Mortais – O Final começa de forma promissora, mostrando uma armadilha em plena luz do dia e sob os olhos curiosos de uma multidão assustada. Seria um excelente começo, não fosse a total falta de ligação entre a cena e o resto do filme. Geralmente, os prólogos da série têm alguma explicação posterior ou ligação com a história que descobriremos no decorrer da trama. Desta vez, os roteiristas não quiseram se dar o trabalho.

O roteiro, assinado por Patrick Melton e Marcus Dunstan (ambos de Jogos Mortais 6), inicia exatamente onde o anterior parou – passado o prólogo e uma pequena cena remontando o primeiro filme da franquia. Hoffman (Costas Mandylor) consegue escapar da armadilha orquestrada pela viúva de Jigsaw, Jill (Betsy Russell), e parte para um plano de vingança que o fará ter de passar por cima de um ex-colega de profissão, Gibson (Chad Donella, de Premonição). Enquanto isso, o escritor Bobby Dagen (Sean Patrick Flanery, do seriado The Dead Zone) ganha fama e dinheiro por ter escrito um livro contando sua experiência como sobrevivente de uma armadilha de Jigsaw (Tobin Bell). Mas o jogo, para ele, ainda não acabou.

Mantendo duas linhas de narrativa andando paralelamente, Jogos Mortais – O Final pode até divertir os fãs da série com cenas de morte elaboradas, mas é muito pouco para um bom filme de terror. A cena mais gráfica e interessante nem acontece dentro da história, mas em um sonho de um dos personagens (que é cortado em quatro partes por um dispositivo que se movimenta em trilhos). A falta de cuidado com os detalhes é tanta que o personagem sonha com seu matador, Hoffman, exibindo uma grande cicatriz ao lado do rosto. Mas seria impossível isso acontecer já que ele não mostrara sua cara para ninguém depois de tê-la costurado sozinho. Portanto, seria impossível que alguém sonhasse com ele daquela forma. Para muitos, pode passar batido. Para quem percebe, irrita.

Incomoda também o pouco talento do elenco principal, encabeçado pela inexpressiva Betsy Russell, acompanhada pela canastrice de Chad Donella – que já havia mostrado seu pouco talento em um episódio inicial do seriado Smallville. Tobin Bell, o motivo pelo qual se podia assistir aos primeiros Jogos Mortais e um dos poucos que poderiam salvar o filme, aqui é relegado a apenas uma pequena ponta. E o anunciado retorno do protagonista do longa-metragem original, o doutor Gordon (Cary Elwes, de Os Fantasmas de Scrooge), apesar de ter motivos explicados de forma convincente, é tão pequeno e desinteressante que fica difícil entender o porquê do ator ter aceitado retornar.

Como pouca coisa se salva em Jogos Mortais – O Final (e se você pensava que o 3D faria alguma diferença, pense de novo), a franquia fecha seu ciclo em baixa. O público parece ter finalmente percebido e a resposta nas bilheterias, apesar de lucrativo – dado o valor baixo do orçamento – foi muito abaixo dos anteriores. Desta forma, talvez esta tenha sido a última vez que vimos Jigsaw e companhia. Mas eu não apostaria todas as minhas fichas.

Jogos Mortais – O Final (Saw 3D)
Dir.: Kevin Greutert
Com Tobin Bell, Costas Mandylor, Betsy Russell, Chad Donella, Mark Patrick Flanery e Cary Elwes
Cotação Paradoxo: Vale 43% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de Jogos Mortais – O Final:

sábado, 6 de novembro de 2010

Supremacia Vermelha

Força Vermelha

O Gre-Nal é, sem sombra de dúvidas, o mais disputado clássico no futebol brasileiro. Desculpem os palmeirenses, corintianos, flamenguistas e vascaínos, mas no que tange rivalidade, os vermelhos e azuis do Rio Grande do Sul são imbatíveis. Em uma iniciativa inédita, a produtora G7 Cinema resolveu lançar, ao mesmo tempo, dois documentários sobre o centenário dos jogos entre Internacional e Grêmio, vistas sob a ótica de cada torcida: Supremacia Vermelha e Grêm10x0. O resultado final, mesmo que nada genial, tem seus momentos interessantes e vale uma olhada de perto pelos torcedores dos dois clubes.

No lado vermelho, a direção ficou por conta de Fabiano de Souza (do ainda inédito A Última Estrada da Praia) e o roteiro assinado por Luiz Augusto Fischer, ambos colorados, logicamente. Escolhendo o número 8 como mote (por conta dos títulos seguidos conquistados pelo Internacional nos anos 70 no Campeonato Gaúcho), são visitadas oito casas de colorados e mostrados oito Gre-Nais históricos. A mistura de grandes jogos com o depoimento de torcedores funciona bem e enche de emoção o documentário colorado.

Como depoentes famosos, destacam-se os jornalistas Kenny Braga, Guerrinha, o professor Luis Augusto Fischer e o músico Frank Jorge. Quanto aos jogadores, estão presentes nomes importantes em clássicos como Nilson (lembrando o Gre-Nal do Século), Fabiano (falando sobre a final do Gauchão de 97 e sobre o clássico do “Cinco Muito”), Valdomiro, Larry, Clemer, Índio e D’Alessandro. Todos contam histórias curiosas sobre suas participações em jogos decisivos pelo lado vermelho.

Supremacia Vermelha é bem resolvido narrativamente e consegue costurar muito bem os causos dos jogadores com as falas de dirigentes importantes do Internacional, como Fernando Carvalho e Vitório Píffero. O filme aposta muito na emoção, principalmente nos depoimentos dos torcedores colorados. Muitos contam sua história de como começaram sua paixão pelo Inter, influência sempre presente dos pais e avós.

O longa-metragem peca por não trazer depoimentos de técnicos importantes na história dos Gre-Nais e por não contar com Fernandão, autor do gol 1000 dos clássicos. Índio e Clemer se revezam para contar a história daquela partida, mas seria importante ter a voz do jogador que estreara no Inter em um Gre-Nal, marcara o gol história e se transformara depois em um dos maiores ídolos da torcida vermelha.

Além disso, um fato intrínseco à idéia dos documentários é a falta total de um rigor histórico nos depoimentos. Como são torcedores falando, é muito fácil cair na armadilha em ver apenas os fatos na ótica apaixonada de um fã. Por isso, tanto Supremacia Vermelha quanto Grêm10x0 não são material recomendável para uma pesquisa histórica sobre o clássico. E nem se propõem a tanto. São apenas dois filmes que colocam o amor pelo clube como protagonista.

Com noventa minutos de duração, Supremacia Vermelha consegue entreter o torcedor do Internacional, que relembra com alegria os Gre-Nais vencidos por seu time. É fato que todos os clássicos eliminatórios, excetuando-se os dos campeonatos gaúchos, foram vencidos pelo lado vermelho, o que gera muitas flautas durante o documentário. Detentor do maior número de vitórias em clássicos desde os anos 40, o longa-metragem do Internacional tem razão de ser chamado Supremacia Vermelha. Até por isso, a curiosidade para observar o que o lado tricolor diria sobre o clássico foi uma das razões para este colorado conferir o filme gremista.

CONTINUA NO POST ABAIXO

Supremacia Vermelha
Dir.: Fabiano de Souza
Cotação Paradoxo para Colorados: Vale 90% do ingresso
Cotação Paradoxo para Gremistas: Vale 0% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de Supremacia Colorada:

Grêm10x0

Força Azul

Como bom colorado, fui assistir ao filme Supremacia Vermelha no fim de semana de estréia. Como bom crítico de cinema, fiz o mesmo com o longa-metragem do lado tricolor, Grêm10x0. Ambos têm como mote o centenário de um dos grandes clássicos do futebol brasileiro, o Gre-Nal, na ótica da torcida de cada clube. É fato estatístico que o Internacional venceu mais partidas contra o rival e que teve vitórias importantes em jogos decisivos em campeonatos nacionais e internacionais. Até por isso, a curiosidade de observar o lado gremista desta história foi grande. Como os torcedores do time da Azenha observam o clássico?

Da mesma forma que os colorados, na verdade. O documentário relembra os Gre-Nais vencidos pelo Grêmio e puxa a sardinha para o clube azul. Dirigido por Beto Souza (de Cerro do Jarau) e com roteiro de Fernando Mantelli (professor do curso de Realização Audiovisual da Unisinos), Grêm10x0 conta com depoimentos apaixonados dos jornalistas Eduardo Bueno, Marcelo Ferla e Paulo Santanna, além da participação de jogadores importantes na história do Grêmio como o goleiro Mazaropi, o atacante Paulo Nunes e o meia Souza.

O viés gremista dá maior destaque ao início da rivalidade, em 1909, quando o Internacional foi fundado e os elásticos placares que os azuis aplicaram nos vermelhos. O título do filme faz referência, aliás, à primeira partida entre os rivais, vencida pelos tricolores pelo placar de 10x0. Eduardo Bueno comenta que somando o score dos primeiros clássicos, a vantagem ultrapassava os trinta gols.

Apesar de trazer informações que realmente procedem, como é o caso dos resultados dos jogos e a superioridade gremista do início do século passado, Bueno exagera em alguns depoimentos, afirmando que o seu time venceu todos os Gre-Nais importantes disputados. E para sustentar sua argumentação, cita o inesquecível clássico do centenário da Revolução Farroupilha, em 1935 – que não tem absolutamente nada a ver com futebol. Por essas e outras, é difícil utilizar tanto Grêm10x0 quanto Supremacia Vermelha como documento histórico. Estas distorções perpetuadas pelos torcedores acabam minando o valor de ambos os documentários – com maior prejuízo para o lado azul. O torcedor gremista que não tem muito contato com a história do clássico pode sair com uma idéia errada ao final do longa-metragem.

Mas este não é o único problema de Grêm10x0. O documentário se propõe, no início, a seguir a ordem cronológica da história do clássico, mas acaba pulando a década de 70. Ao chegar a 2009, no jogo do centenário, o filme retorna para o período que havia esquecido e reconta a forma como o Grêmio terminou com a hegemonia do Internacional depois dos oito títulos gaúchos conquistados. Visando um óbvio momento de clímax para o final do documentário, o advento parece fora do lugar, como se lá pelas tantas os realizadores tivessem descoberto que o filme estava curto demais e precisavam enxertar mais histórias. Outra falha imperdoável é não contar com a presença de Danrlei, goleiro que sempre agigantava-se em clássicos e foi um verdadeiro pesadelo para os atacantes colorados.

Claro que estas falhas apontadas não atrapalharão a diversão dos gremistas, que poderão acompanhar os momentos de vitória do time da Azenha sobre seu rival durante os 75 minutos de duração do documentário. Assim como Supremacia Vermelha, Grêm10x0 é um produto feito especialmente para os apaixonados torcedores. Devo dizer, no entanto, que no Gre-Nal dos documentários, o do Inter é sensivelmente melhor. E não falo da história ou dos gols mostrados, mas sim por ser um produto audiovisual melhor acabado.

Grêm10x0
Dir.: Beto Souza
Cotação Paradoxo para Gremistas: Vale 78% do ingresso
Cotação Paradoxo para Colorados: Vale 0% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de Grêm10x0:

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Garfield - Um Super Herói Animal

Garzooka

Garfield – Um Super Herói Animal não é direcionado para os fãs das tirinhas do gato mais famoso e preguiçoso de todos os tempos. Seu público alvo são as crianças pequenas, que ainda não tem idade para virar as páginas dos jornais em busca das histórias irônicas do personagem criado por Jim Davis. Por isso não é de se estranhar que o longa-metragem animado, dirigido por Mark A.Z. Duppé e Kyung Ho Lee, faça um crossover entre dois núcleos criados pelo cartunista: os personagens de Garfield e os super-heróis da Pet Force, um spin-off das aventuras do gato direcionadas para um público mais jovem.

Mesmo que o roteiro tenha sido escrito por Jim Davis em pessoa, Garfield e seus amigos perdem um pouco de suas características mais destacadas. O gato não está às turras com Odie e, pasmem, consegue finalmente se engajar em alguma atividade que não englobe lasanha ou qualquer comida cheia de calorias. Por essas e outras, é recomendável para os fãs das tirinhas uma companhia infantil durante a sessão. As crianças é que conseguirão se divertir com as aventuras dos super heróis.

Na trama, lançada diretamente em DVD nos Estados Unidos, o imperador Jon casa-se de forma intempestiva com a recém chegada visitante interplanetária Vetvix, sem desconfiar que ela é, na verdade, uma grande vilã. Com o casório consumado, a ardilosa esposa toma para si uma poderosa arma que tem o poder de misturar moléculas, deixando as pessoas expostas ao raio totalmente subjugadas ao poder de quem aperta o gatilho. Não resta nada a Jon senão clamar pela Pet Force, capitaneada pelo musculoso Garzooka, pela gélida Starlena, o veloz Abnermal e o linguarudo Odious. Durante a missão, no entanto, Garzooka vê seus parceiros sendo derrotados um a um por Vetvix e sua arma. Agora, o super-herói terá de procurar outros companheiros para ajudá-lo na missão. E quem melhor para isso que os personagens da tirinha Garfield, que têm o mesmo DNA dos seus ajudantes na luta por justiça?

O longa-metragem propõe um crossover entre as duas histórias criadas por Jim Davis e também uma interessante metalinguagem, na qual os personagens da tirinha de Garfield entendem que são, na verdade, figuras conhecidas estrelando sua própria história nos jornais. Já Garzooka e os outros são personagens de gibi e acabam saindo de lá, diretamente para este mundo onde Garfield e amigos são cartoons. Para a criançada que gosta dos gibis e tem o mínimo de conhecimento sobre as histórias do gato preguiçoso, deve ser divertido observar este encontro. Para os adultos, pouca coisa realmente diverte.

Algumas poucas piadas de Garfield funcionam para o espectador que já passou da pré-adolescência. Se o texto não é uma maravilha, a animação igualmente não tem muitos atrativos. Com gráficos lembrando um jogo de videogame de última geração, mas nunca chegando ao padrão de qualidade de uma Pixar ou Dreamworks (responsáveis por Procurando Nemo e Shrek, respectivamente), Garfield – Um Super Herói Animal é bastante capenga. Mas a criançada pode curtir, principalmente Garzooka (uma espécie de Buzz Lightyear felino) e seus parceiros super-heróis, que garantem algumas cenas de ação e aventura.

Garfield – Um Super Herói Animal (Garfield’s Pet Force)
Dir.: Mark A.Z. Duppé e Kyung Ho Lee
Com as vozes originais de Frank Welker, Vanessa Marshall, Jason Marsden
Cotação Paradoxo: Vale 50% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de Garfield – Um Super-Herói Animal:

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

A Suprema Felicidade

Nostalgia

“Não existe nada que seja só bom”. Essa é uma das várias ótimas frases do personagem defendido por Marco Nanini em A Suprema Felicidade, primeiro longa-metragem dirigido por Arnaldo Jabor em 24 anos. A sentença pode ser relacionada ao resultado final do filme em questão, que tem vários bons momentos, mas peca em outros diversos, provando que, realmente, não existe nada que tenha apenas qualidades positivas. Nanini, aliás, é um dos motivos para se assistir ao novo trabalho de Jabor, que não filma desde Eu Sei que Vou Te Amar, de 1986.

Na trama, assinada por Jabor, acompanhamos a vida do jovem Paulo em três fases de sua vida, no Rio de Janeiro dos anos 40 e 50. Filho de Marco (Dan Stulbach, de Tempos de Paz), um aviador da Força Aérea Brasileira, e Sofia (Mariana Lima, de Árido Movie), Paulo observa as constantes desavenças do casal e nada pode fazer para evitá-las. O grande herói do garoto é seu avô, Noel (Marco Nanini, de O Bem Amado), um boêmio músico que tenta dar os melhores conselhos possíveis ao seu neto – mesmo que não sejam nada politicamente corretos (expressão que, obviamente, nem existia na época). Os anos passam e Paulo amadurece, conhecendo as boas e as más coisas da vida.

Paulo é interpretado por três meninos em idades diferentes: Jayme Matarazzo (aos 18), Michel Joelsas (aos 13) e Caio Manhente (aos 8). O que melhor defende o papel é o jovem Joelsas, que já havia encantando o espectador com sua tocante interpretação em O Ano em que meus Pais Saíram de Férias. Jabor escolhe quebrar o tempo narrativo e costurar os momentos da vida de Paulo de forma não cronológica. O advento acaba não funcionando tão bem, pois nunca apresenta motivos para sua utilização. É muito mais uma vontade artística arbitrária do que uma decisão consciente de contar melhor sua história – ou envolver o espectador com as diferentes fases de Paulo.

Para não dizer que não funciona vez alguma, o único momento que o advento tem uma razão narrativa interessante é o pequeno flashback que mostra ao público a forma como que os pais de Paulo se conheceram. Já vimos Marco e Sofia em casa, sabemos que ambos não vivem em um mar de rosas e somos apresentados ao momento em que o romance entre os dois inicia. Conversando animadamente sobre cinema, em uma festa cinematográfica por si só, é explícito que aqueles dois jovens sonham com vidas tão grandiosas quanto as vistas na telona. Jabor é inteligente ao colocar esse momento da gênese do romance ao lado da realidade, que é sempre mais dura que a fantasia.

Por falar em cinema, Arnaldo Jabor escolhe contar sua história misturando características dos filmes de Hollywood dos anos 40 e 50 com um pouco do cinema italiano (Giuseppe Tornatore com umas pitadas de Fellini) e acerta ao reencontrar seu antigo colaborador, o diretor de fotografia Lauro Escorel. O fotógrafo já havia trabalhado com Jabor em Eu Sei que Vou te Amar e Toda Nudez Será Castigada e consegue, ao mesmo tempo, agregar beleza plástica e função narrativa com seu trabalho. A primeira nem é preciso explicar. Basta o espectador enxergar as belas imagens de Escorel para entender. Quanto à função narrativa, como estamos vendo uma história que se passa nas décadas de 40 e 50, é interessante que a fotografia trabalhe junto com este conceito, visto que já existe uma série de padrões estéticos no cinema que praticamente nos transportam para o passado. Atrelado a impecável direção de arte de Tule Peake (de Tropa de Elite), Escorel e Jabor conseguem o que planejavam: colocar o público em uma máquina do tempo.

Uma pena que esta viagem nostálgica sofra com os exageros de Jabor. Além da lentidão de algumas passagens e a supracitada irrelevância da quebra da linearidade narrativa, o filme pesa por ser longo demais. Parece que o cineasta não teve o distanciamento saudável que é necessário para enxergar as gorduras que podem ficar de fora do seu corte final. Com vinte minutos menos, A Suprema Felicidade deixaria o espectador mais alegre, ao menos.

É sempre bom ver Marco Nanini em um bom papel e, desta vez, Jabor presenteou o ator com um excelente tipo, um boêmio bonachão que, ao passar do tempo, acaba sofrendo com uma doença que o deixa, digamos, confuso. O ator é o principal destaque de um elenco que ainda conta com ótimas performances de João Miguel (de Estômago), como o engraçadíssimo pipoqueiro Bené, Emiliano Queiroz (de Feliz Natal), como o reflexivo pregoneiro, Elke Maravilha (de Zuzu Angel), como a calorosa avó de Paulo, e Maria Luisa Mendonça (de Insolação), como uma decadente cafetina. Por outro lado, atores como Dan Stulbach e Mariana Lima acabam agregando pouco aos seus papéis. Stulbach parece repetir o seu tipo de sempre e Mariana Lima não convence ao tentar emular o estilo hollywoodiano áureo de interpretação, com caras, bocas e braços expansivos. Neste caso, até acho não ser um problema da atriz e sim da direção de atores de Jabor.

A Suprema Felicidade tem na música uma de seus destaques e, de novo, se espelhando na Hollywood dos anos 40, Jabor constrói um delicioso musical brasileiro, com momentos belíssimos. Com os acertos se sobressaindo aos erros, o novo longa-metragem de Arnaldo Jabor tem qualidades suficientes para uma conferida de perto. Mas com os talentos envolvidos, fica com aquele gosto de que poderia ser bem melhor.

A Suprema Felicidade
Dir.: Arnaldo Jabor
Com Marco Nanini, Dan Stulbach, Mariana Lima, Jayme Matarazzo, Elke Maravilha, Michel Joelsas, Caio Manhente, João Miguel, Maria Flor, Tammy Di Calafiori, Emiliano Queiroz, Maria Luisa Mendonça, Ary Fontoura
Cotação Paradoxo: Vale 60% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de A Suprema Felicidade:

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Atração Perigosa

Charlestown

Quem diria que Ben Affleck, ator que protagonizou produções como Armageddon, Pearl Harbor e Demolidor, poderia se tornar um diretor interessante? Atração Perigosa é o seu segundo longa-metragem atrás das câmeras e prova que o resultado positivo de sua estréia, Medo da Verdade, não foi sorte de principiante. Acumulando as funções de diretor, protagonista e roteirista, Affleck comanda uma história forte com interpretações impactantes.

Para o roteiro, o cineasta repete a parceria com Aaron Stockard, que co-assinou o seu filme anterior, e ainda conta com a ajuda do estreante Peter Craig. O trio faz um excelente trabalho na adaptação do livro Prince of Thieves de Chuck Hogan. Na trama, Doug MacRay (Affleck) é um assaltante de bancos que pensa em mudar de vida. No seu último trabalho, a brutalidade de seu amigo e quase irmão James (Jeremy Renner, de Guerra ao Terror) o deixa ainda mais tentado a abandonar tudo. Pela primeira vez o grupo rapta uma pessoa durante um serviço, a bela gerente de banco Claire (Rebecca Hall, de Frost/Nixon). Depois de solta, ela é interrogada pelo agente do FBI Adam (Jon Hamm, da série Mad Men), que procura por qualquer pista para pegar os bandidos.

Eles, por sua vez, temem que Claire possa reconhecê-los, já que mora no mesmo bairro dos assaltantes. Para descobrir se estão enrascados, Doug começa a seguir Claire. Os dois acabam se conhecendo e engatando uma romance. A vontade de deixar a vida de crimes é cada vez mais forte para Doug, mas sair nunca é muito fácil, já que o perigoso Fergie (Pete Postlethwaite, de Solomon Kane) não pretende deixar seu melhor empregado escapar. Se já não bastasse isso, James não consegue compreender os sentimentos de seu amigo em deixar o mundo do crime.

O roteiro de Atração Perigosa é extremamente bem construído, mostrando de forma contundente como o meio e as influências podem ser prejudiciais para um sujeito. Doug não é uma má pessoa. Mas teve uma criação errada (seu pai é um bandido de renome, interpretado pelo sempre excelente Chris Cooper, de O Reino), amigos igualmente mal direcionados e a vivência em um bairro perigoso o talharam como o conhecemos. Seu ticket para fora dali é sua paixão por Claire, mulher que não desconfia da sombria profissão do namorado.

As atuações estão todas acima da média, com destaque para Jeremy Renner em mais uma performance de tirar o chapéu. O ator tem uma presença de cena forte, demonstrando a periculosidade do sujeito que interpreta. Como contraponto, seu amor pelo amigo e quase irmão demonstram que existe dentro daquela casca grossa uma pessoa que, se não é bondosa, não é o diabo em pessoa. Para os críticos de filmes como Carandiru e Cidade de Deus, que suavizava a figura de bandidos, esta característica de Atração Perigosa será igualmente vista com maus olhos.

Todo o elenco, muito bem dirigido por Ben Affleck, merece elogios. Mas o próprio diretor, que encarna o protagonista, é talvez o motivo pelo filme funcionar tão bem. É importantíssimo que o espectador simpatize com o personagem principal para que a história cumpra seus objetivos. E isso é possível pela bela caracterização do ator/diretor. Mostrando um buraco em seu passado pela falta da mãe, Doug é uma figura carente de cuidados, mesmo que nunca coloque isso em palavras. O relacionamento com Claire parece lhe dar uma segunda chance. Mas Doug descobre que a vida em Charlestown, cidade onde se passa a história e outro personagem pulsante da trama, não dá tais oportunidades.

Com um ótimo andamento e boas cenas de ação, misturadas a outras mais intimistas, com diálogos bem escritos, Atração Perigosa é um excelente thriller, que se apóia no elenco bem escalado para entreter e fazer pensar ao mesmo tempo. Um segundo trabalho digno de um cineasta com futuro brilhante pela frente.

Atração Perigosa (The Town)
Dir.: Ben Affleck
Com Ben Affleck, Rebecca Hall, Jon Hamm, Jeremy Renner, Blake Lively, Slaine, Pete Postlethwaite e Chris Cooper
Cotação Paradoxo: Vale 88% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de Atração Perigosa: