quarta-feira, 28 de julho de 2010

Eclipse

Entre Vampiros e Lobos

Pode-se dizer muitas coisas sobre a Summit Entertainment, menos de não ser esperta para diabo. Ao produzir a toque de caixa as adaptações cinematográficas dos livros de Stephenie Meyer, o estúdio não só mantém acesa a vontade dos fãs em assistir às aventuras de Bella, Edward e Jacob, como assegura que aqueles adolescentes que pagaram o ingresso para assistir ao primeiro filme em 2008 serão os mesmos que desembolsarão sua mesada para conferir os outros lançamentos da cinessérie. O público alvo da Saga Crepúsculo cresce rápido e muda seus gostos ainda mais depressa. Portanto, não é de se estranhar que em menos de dois anos, três filmes foram lançados: Crepúsculo, em novembro de 2008; Lua Nova, em novembro de 2009; e Eclipse, em junho de 2010; Os fãs agradecem, os atores ganham fama e o estúdio, rios de dinheiro. Resta para a crítica tentar entender o fenômeno. E, talvez, tirar algum conteúdo deste triângulo amoroso entre uma garota, um vampiro e um lobisomem.

Com direção de David Slade (de 30 Dias de Noite) e com roteiro novamente assinado por Melissa Rosenberg (responsável pelo script dos demais filmes da série), Eclipse começa em um mar de rosas. Bella (Kristen Stewart) e Edward (Robert Pattinson) se amam e desejam ficar juntos pelo resto de suas vidas. Mesmo depois de o vampiro ter alertado à sua amada que se transformar em um chupador de sangue não é algo a se almejar, Bella teima em receber a mordida e ser igualmente imortal. É verdade que a imortalidade viria a calhar no momento, visto que Victoria (Bryce Dallas Howard, de A Vila) está à espreita, esperando o momento certo para aniquilar o grande amor de Edward, se vingando dos acontecimentos do primeiro filme – no qual, aliás, era vivida por outra atriz, Rachelle Lefreve. Um exército de perigosos novos vampiros está sendo montado pela vilã e os Cullen se preparam para enfrentá-los. O perigo é tamanho que Jacob (Taylor Lautner) e seus amigos lobisomens resolvem se unir aos seus arquirivais para proteger Bella.

Tentar entender o fenômeno da saga é tarefa complicada para quem está fora do seu raio de cobertura. É certo que várias garotas sonham em encontrar o garoto ideal, se apaixonar e viver um grande romance. Se for proibido, ainda melhor. Com alguém corajoso e poderoso, por que não? Este desejo é elevado ao cubo quando são dois os garotos corajosos, fortes e poderosos. O primeiro, o vampiro Edward, tem medo de machucar sua amada e, portanto, não consuma fisicamente seu amor por ela. Por ser um rapaz de outra época, sua vontade antes de tudo é contrair núpcias (e a expressão ultrapassada não é usada à toa). Isso deve berrar romantismo para as jovens fãs de Crepúsculo. O outro, o lobisomem Jacob, é mais agressivo em suas investidas. Tenta a todo jeito fazer com que Bella confesse seu amor por ele. Nem que para isso a beije à força. Acaba sendo o contraponto ao romantismo de Edward. É o homem objetivo, um tanto rude, que também atrai a mulherada. Por essas e outras, Stephenie Meyer tirou a sorte grande ao apostar neste imaginário feminino, acertando ao colocar umas pitadas de sobrenatural para diferenciar um pouco sua história.

Por falar em sobrenatural, David Slade tem experiência no assunto em seu currículo com outra aventura vampírica, 30 Dias de Noite, o que o colocaria como um nome interessante para substituir Chris Weitz, cineasta que assinou Lua Nova. Infelizmente, Slade se mostra pouco hábil como diretor de atores. Taylor Lautner é o que mais sofre com a mudança. Enquanto que no filme anterior o ator mostrava algum carisma – e uma atuação superior ao insosso Robert Pattinson – em Eclipse, suas primeiras cenas são sofríveis. Quando se faz necessária uma dramaticidade maior, um pouco mais de emoção, o jovem ator mostra suas limitações. Sua performance melhora sensivelmente sempre que o clima dramático é mais leve. A dupla principal, Kristen Stewart e Robert Pattinson, não apresenta nenhuma mudança visível. Para o bem ou para o mal, são a Bella e o Edward que os fãs adoram acompanhar.

A história continua sendo água com açúcar, mesmo que a contratação de David Slade parecesse um sinal de que veríamos mais ação. A roteirista Melissa Rosenberg (que assina episódios do elogiadíssimo seriado Dexter) parece fazer o que pode com o material original que lhe é dado. Como trama, Eclipse é sensivelmente mais interessante que os seus precursores. São incluídos dentro da narrativa alguns momentos do passado dos vampiros da família Cullen, que se não são arroubos de originalidade, ao menos desviam a história do triângulo amoroso sem sal que temos de acompanhar. Da mesma forma, a idéia da união entre vampiros e lobisomens também mantém uma atmosfera aventuresca que faz bem ao filme.

Como aconteceu em Lua Nova, o orçamento mais generoso que a Summit liberou (U$ 68 milhões) livrou os espectadores dos efeitos especiais canhestros que foram empregados em Crepúsculo. Os lobos estão mais bem acabados que no seu antecessor, ainda que não convençam em todos os momentos.

A cinessérie também é conhecida pelo capricho na trilha sonora. Já passaram pelos filmes músicas de Radiohead, Muse, Death Cab for Cutie, Black Rebel Motorcycle Club, Editors e The Killers. Em Eclipse, a coletânea não é tão surpreendente quanto a anterior, mas tem bons momentos. Destaques para a parceria entre Beck e Bat for Lashes, “Let’s Get Lost”, a sempre competente Band of Horses, com “Life on Earth”, o excepcional duo norte-americano Black Keys, com “Chop and Change”, e o ótimo projeto paralelo de Jack White, Dead Weather, com “Rolling in a Burning Tire”. Diferente de Lua Nova, neste novo filme as músicas conseguem ser encaixadas de forma mais orgânica dentro da trama.

No todo, Eclipse é um longa-metragem melhor acabado que os anteriores. Ainda apresenta problemas de montagem – a primeira hora do filme é terrivelmente cambaleante – mas consegue melhorar em sua segunda metade, inclusive com uma história mais interessante para ser acompanhada. O combate entre as forças do bem (os Cullen e os lobisomens) contra os vampiros do mal consegue entreter, mesmo sendo incrivelmente curto.

Os fãs, provavelmente, acabam nem notando algumas falhas aqui e acolá, desde que o livro seja bem adaptado para a telona. Quanto a isso, não tenho muito a dizer já que não li os romances de Stephenie Meyer. Se formos tomar como parâmetro as bilheterias mundiais, seria correto imaginar que tudo está indo a contento. Tanto que a Summit resolveu dividir o último livro, Amanhecer, em dois filmes, para faturar ainda mais com a saga para melhor contar a extensa trama do romance. A direção fica por conta de Bill Condon, de Deuses e Montros e Dreamgirls. Desta vez, porém, os fãs terão de esperar um pouco mais para rever seus personagens favoritos. O longínquo novembro de 2011 é a data para a estreia da primeira parte do episódio final. Certamente, a Summit torce para que a febre não passe até lá.

A Saga Crepúsculo: Eclipse (The Twilight Saga: Eclipse)
Dir.: David Slade
Com Kristen Stewart, Robert Pattinson, Taylor Lautner, Dakota Fanning, Anna Kendrick, Jackson Rathbone, Ashley Greene, Billy Burke, Peter Facinelli, Kellan Lutz, Sarah Clarke, Bryce Dallas Howard
Cotação Paradoxo: Vale 69% do ingresso

Confira o trailer de A Saga Crepúsculo: Eclipse logo abaixo:

terça-feira, 27 de julho de 2010

Shrek para Sempre

It’s a Wonderful Ogre Life

Menos engraçado que os primeiros dois filmes, mas infinitamente superior ao terceiro, Shrek para Sempre chegou aos cinemas para (em tese) encerrar as aventuras do ogro verde e sua trupe. Dirigido por Mike Mitchell (de Gigolô por Acidente), a última sequência de Shrek se recente da falta de piadas, mas consegue ser um fechamento digno para a saga produzida pelo estúdio Dreamworks.

O roteiro, assinado por Josh Klausner (Uma Noite Fora de Série) e Darren Lemke (Lost – Sem Saída), toma emprestado o tema central do clássico de Frank Kapra A Felicidade Não se Compra. E se Shrek (voz de Mike Myers no original) nunca tivesse existido? Teria feito alguma diferença na vida de seus amigos e conhecidos? É isso que descobrimos quando o ogro, fatigado pela rotina de marido e pai de família, cai na lábia do traiçoeiro Rumpelstiltskin (Walt Dohrn) e troca um dia de sua infância por um dia no qual ele poderia voltar a ser o ogro furioso e temido de outrora. Shrek então é enviado a um universo paralelo no qual ninguém o conhece. Divertindo-se com a situação de início, ele logo percebe que sua vida com Fiona (Cameron Diaz), Burro (Eddie Murphy), Gato de Botas (Antonio Banderas) e seus filhotes era muito mais valiosa. Agora, Shrek precisa achar uma forma de tomar sua vida real de volta.

É difícil não comparar este quarto capítulo da saga com os filmes anteriores. Os dois primeiros, sem sombra de dúvida, são os mais divertidos e inovadores. Brincar com os conhecidos contos de fada era uma idéia excepcional e executada com precisão pelo diretor Andrew Adamson – que acabou abandonando a animação para trabalhar com os atores de carne e osso de As Crônicas de Nárnia. O terceiro episódio, comandado pelo inexperiente e estreante Chris Miller, tinha problemas de roteiro e de andamento, que o deixaram um degrau abaixo dos anteriores. Em Shrek Para Sempre, os problemas do ritmo do filme foram solucionados e o roteiro é mais consistente. Mas tem poucos momentos realmente engraçados, assim como Shrek Terceiro.

Shrek para Sempre começa muito bem, é verdade. Seu prólogo traz uma revelação sobre o passado dos personagens que até então desconhecíamos (os próprios roteiristas dos filmes anteriores também, obviamente). Depois, uma interessante sequência é montada mostrando a rotina da vida de Shrek e sua família. A cena é muito bem arquitetada, dando ao espectador a impressão de estar nos sapatos do ogro, vivendo toda aquela confusão e repetição de seus dias. Esse, no entanto, é um dos poucos momentos realmente inventivos do filme. Após essa parte, o longa-metragem segue como uma aventura à moda antiga, sem o humor anárquico que fez a fama de Shrek.

Ao menos, os coadjuvantes de luxo estão ali para segurar as pontas. Novamente, Eddie Murphy, como o boquirroto Burro e, principalmente, Antonio Banderas, como o “robusto” Gato de Botas, roubam a cena, protagonizando as melhores piadas do filme. Banderas prova novamente que o Gato tem grande potencial, mantendo a voz sedutora e ameaçadora mesmo que o físico do personagem não seja tão esbelto quanto antigamente. Não é a toa que está por vir um filme solo do personagem, visto o carisma do felino. Já o Burro não recebe tanto material, mas consegue se sobressair aqui e ali. Eddie Murphy consegue torcer as frases do roteiro até que elas tenham alguma graça e sua performance como o Burro deixará saudades, certamente.

Mas a grande surpresa do filme não é nenhuma estrela famosa de Hollywood. É um sujeito chamado Walt Dohrn, responsável por ajustes nos roteiros de Shrek 2 e Shrek Terceiro, além de ter dirigido alguns episódios de Bob Esponja. Durante os ensaios, Dohrn fazia a voz de todos os personagens e chamou a atenção dos produtores por sua performance como o vilanesco Rumpelstiltskin. Ele que já havia gravado algumas vozes para o terceiro capítulo da saga do ogro verde acabou sendo convidado para interpretar o grande vilão da história, cargo já ocupado por John Litghgow (de 3rd Rock from the Sun), Jennifer Saunders (de Absolutamente Fabulosas) e Rupert Everett (de O Casamento do Meu Melhor Amigo) nos episódios anteriores. Seu trabalho é excepcional, dando uma doçura psicótica à voz do tratante duende.

Jon Hamm (do seriado Mad Men) e Jane Lynch (do seriado Glee) são outras duas boas novidades no casting de vozes, unindo-se aos já conhecidos John Cleese (o eterno Monty Python, que retorna como o rei Harold) e Julie Andrews (a eterna Mary Poppins, que volta como a rainha). Mike Myers, a voz do protagonista, mantém-se correto, como em todos os capítulos. Neste, inclusive, consegue se sair bem nas cenas que requerem maior dramaticidade. Como é o capítulo final, Shrek para Sempre se dá o direito de ser mais emocionante, amarrando as pontas soltas com cenas que podem gerar lágrimas nos mais sensíveis.

Agora, é esperar e ver quanto tempo custará para alguém chegar com um “novo começo” para a saga Shrek. Com uma franquia de sucesso nas mãos, é difícil acreditar que a Dreamworks realmente vá desistir de investir no ogro verde. O spin-off do Gato de Botas, ambientado antes de Shrek 2, é um indício de que os personagens não vão abandonar seu público tão cedo. É muito provável que o sucesso dela poderá dar origem a outros spin-offs. E, talvez, o retorno do próprio Shrek. Com Hollywood, o capítulo final nem sempre é definitivo.

Shrek Para Sempre (Shrek Forever After)
Dir.: Mike Mitchell
Com as vozes de Mike Myers, Eddie Murphy, Cameron Diaz, Antonio Banderas, John Cleese, Julie Andrews, Walt Dohrn, Jon Hamm, Jane Lynch
Cotação Paradoxo: Vale 75% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de Shrek para Sempre:

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Predadores

Caçada Humana

Quem saiu insatisfeito da sessão de Predadores provavelmente não tinha em grande consideração os filmes originais, estrelados por Arnold Schwarzenegger, em 1987, e Danny Glover, em 1990. O longa-metragem dirigido por Nimród Antal (de Temos Vagas) e com produção de Robert Rodriguez (de Sin City) mantém uma atmosfera de carnificina e suspense equivalente àqueles trabalhos e apresenta uma melhora considerável no nível do elenco. Saem os brutamontes do primeiro filme, entram assassinos inteligentes. Sai um “franzino” predador, entram três gigantes monstruosos. É bem verdade que existem alguns momentos totalmente dispensáveis em Predadores. Mas, no todo, o filme é um passatempo que entretém o suficiente e, para os fãs do gênero, vale uma conferida mais de perto.

Rodriguez vem nutrindo o desejo de assinar uma continuação para o violento alienígena caçador desde os anos 90. A sua premissa finalmente conseguiu sair do papel depois do resultado abaixo do esperado do crossover Alien VS Predador 2. Por falar nisso, Predadores não segue a história destes conflitos entre as duas criaturas. Ele é, sim, uma continuação direta do Predador original – inclusive referenciado em diálogo – e do segundo capítulo, este, no entanto, não citado. A idéia de Robert Rodriguez foi colocada em roteiro pela dupla novata Alex Litvak e Michael Finch, baseando-se, claro, nos personagens criados por John e Jim Thomas.

Na trama, alguns humanos com diferentes habilidades – mas com passado sangrento – são literalmente jogados em uma floresta estranha e têm de aprender a trabalhar em grupo para não servirem de caça para os perigosos predadores alienígenas com sede de sangue.

Dentro deste grupo estão Royce (Adrien Brody, de O Pianista), um lobo-solitário mercenário e inteligente; Stans (Walton Goggins, de Milagre em Santa Anna), um presidiário sanguinário condenado à morte; Isabelle (Alice Braga, de Ensaio sobre a Cegueira), membro das Forças de Defesa de Israel; Hanzo (Louis Ozawa Changchien, do ainda inédito Fair Game), membro da máfia japonesa Yakuza; Cuchillo (Danny Trejo, de Era uma Vez no México), traficante de drogas mexicano; Mombasa (Mahershalalhashbaz Ali, de O Curioso Caso de Benjamin Button), membro da Frente Revolucionária Unida de Serra Leoa; Nikolai (Oleg Taktarov, de As Duas Faces da Lei), integrante das forças especiais russas; e Edwin (Topher Grace, de Homem-Aranha 3), um médico e o mais improvável escolhido para o jogo dos predadores.

Este grupo tão diverso não possui nada em comum, a não ser a sua capacidade em manter-se vivo em situações limite. Caídos de pára-quedas nesta situação, estes assassinos precisam se unir para enfrentar um perigo ainda maior. O interessante de Predadores é que existe tempo para desenvolver quase todos os personagens. Até mesmo os primeiros a sucumbirem aos sanguinários alienígenas têm tempo de mostrar a que vieram.

Com esta estrutura de roteiro, não é à toa a escolha de bons atores para interpretarem estes papéis. Aqueles personagens não estão ali apenas para servirem de banquete para os predadores. Eles têm histórias pregressas e, por piores que sejam na Terra, naquele planeta desconhecido reencontram alguma parte de sua humanidade perdida. Essa profundidade improvável em um filme de terror é o que deixa Predadores um degrau acima de continuações caça-níqueis que vemos por aí.

A contratação de Adrien Brody como protagonista da história foi amplamente questionada ao ser anunciada, visto que o ator não tinha o físico ou o perfil que supostamente se encaixasse em um filme antes estrelado por Arnold Schwarzenegger. Ele, no entanto, é a melhor escolha do elenco. Por se afastar totalmente da figura robusta que o governador da Califórnia possuía em 1987, Brody dá à Royce outras qualidades que realmente o manteriam vivo nos diversos combates que enfrentou. Frio, inteligente e estratégico – mesmo que isso custe a vida de seus companheiros – Royce é um sujeito terrivelmente perigoso. Brody se transforma em uma figura ameaçadora, com voz rouca e de poucos sorrisos. Para ficar ainda mais crível no papel, o ator malhou para ganhar massa muscular e não faz feio quando é colocado em ação. Brody é uma feliz surpresa em um gênero que é conhecido por se preocupar mais na quantidade de sangue do que na qualidade das atuações.

A brasileira Alice Braga é um dos destaques em um elenco basicamente masculino. Já acostumada a estrelar produções internacionais, mas sem muita experiência no gênero ação, a atriz consegue transmitir um pouco de compaixão em um ambiente totalmente destituído de qualquer sentimento afetuoso. Ela é a cola que une aqueles homens, sendo a primeira a perceber que os humanos só sairão daquela situação caso se unam. Impressionante também é o ator californiano Mahershalalhashbaz Ali. Não tanto por sua atuação, mas pelo quilométrico e pouco prático nome artístico (que é, na realidade, seu nome de batismo, retirado da Bíblia, segundo o IMDb).

Quanto à direção, Nimród Antal consegue se sair bem nas cenas de ação, mas mostra-se um cineasta bastante convencional em todo o resto. Nenhum grande arroubo de originalidade, mesmo trabalhando sob o selo da produtora de Rodriguez, a Troublemaker, conhecida por filmes inusitados e cheios de personalidade. O fato de ser apenas seu terceiro filme em Hollywood não o exime da responsabilidade, visto que John McTiernan, diretor do Predador de 1987, havia comandado apenas um longa-metragem antes desta aventura. Como Predadores tem o seu maior ponto forte as cenas de ação, Antal acabou sendo uma escolha, se não a melhor, ao menos capacitada para dar conta do recado.

Mas quem vai ao cinema para assistir a um filme da franquia Predador espera mesmo é ver o grande vilão em ação. Para os fãs, um recado: a espera vale a pena. Os alienígenas ameaçadores do filme são excelentes criações, mas são mantidos escondidos por boa parte da trama. No primeiro momento, parece gratuita esta escolha. No primeiro Predador existia uma razão importante, já que o espectador não conhecia o monstro e a tensão aumentava a cada minuto que aquela figura era escondida. Décadas depois e com tantos filmes explorando a imagem do predador, não parecia ser tão necessário não mostrá-lo. No entanto, somos apresentados a novos predadores. Maiores e mais fortes que os originais. Em uma excelente cena, observamos inclusive às qualidades de espadachim de um destes extraterrestres. A clássica cena da retirada do crânio/espinha dos humanos também é mantida.

Apesar de ser um divertido e escapista longa-metragem, é impossível não perceber algumas falhas no roteiro que, se não atrapalham totalmente o resultado final, deixam um gosto amargo na boca. Exemplo disso é a pequena participação de Laurence Fishburne (de Matrix). Ainda que sua atuação não seja nada ruim, o personagem é tão desinteressante e acrescenta tão pouco ao filme que poderia ter ficado totalmente de fora do corte final. Os roteiristas não souberam nem trabalhar o conceito de um humano utilizando a tecnologia de camuflagem dos alienígenas, jogado displicentemente no meio da trama e abandonado logo depois. É bem provável que isso seja usado em uma futura continuação, mas, de qualquer forma, poderia ser trabalhado de forma mais relevante no roteiro deste episódio.

Além de ter estas pequenas falhas, um dos personagens ganha outros tons ao final do filme, uma virada do roteiro que até funcionaria melhor caso o ator em questão tivesse um desempenho melhor – e guardo sua identidade unicamente para não estragar a surpresa do leitor. Esse twist do roteiro só não é totalmente gratuito por tirar de ação outro importante personagem, e mostrar novamente a faceta destemida do protagonista da história. Mas, convenhamos, poderia ser bem melhor.

Predadores é uma continuação que, diferente do crossover Alien VS Predador, mantém a qualidade do original nas cenas de ação e suspense e consegue superá-lo com relação ao elenco escolhido. É uma pena para os fãs que Arnold Schwarzenegger e Danny Glover não tenham aceitado repetirem seus papéis em pontas. Dizem os boatos que Glover interpretaria o papel dado a Fishburne – o que o tornaria bem mais interessante, diga-se – enquanto que o governador da Califórnia apareceria na cena final. Tivesse acontecido, seria uma tremenda surpresa e mais um ponto a favor de Predadores. Talvez fique para uma próxima, quem sabe?

Predadores (Predators)
Dir.: Nimród Antal
Com Adrien Brody, Topher Grace, Alice Braga, Walton Goggins, Oleg Taktarov, Danny Trejo, Louis Ozawa Changchien, Mahershalalhasbaz Ali, Carey Jones, Brian Steele, Derek Mears e Laurence Fishburne
Cotação Paradoxo: Vale 82% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de Predadores:

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Kick-Ass - Quebrando Tudo

Sem Poderes, Sem Responsabilidades

A pergunta é pertinente: “porque milhares de pessoas querem ser Paris Hilton e ninguém quer ser o Homem-Aranha?” É com esta indagação que o jovem Dave Lizewski (interpretado por Aaron Johnson, do ainda inédito no Brasil O Garoto de Liverpool) tenta argumentar com seus amigos sua descrença com a humanidade. Por acreditar piamente que as pessoas devem ajudar as outras – e por ser um fã inveterado de quadrinhos – Dave decide comprar uma roupa colorida e, sem nenhum super poder ou físico atlético, sai às ruas para combater o crime. Essa premissa básica é o fio condutor do divertido Kick-Ass – Quebrando Tudo, longa-metragem baseado nos quadrinhos de Mark Millar e John Romita Jr., e dirigido por Matthew Vaughn (de Stardust).

Como se pode imaginar, Dave – utilizando o pseudônimo Kick-Ass – leva uma surra homérica logo em sua primeira tentativa como super-herói. Depois de se recuperar dos ferimentos, Kick-Ass retorna para as ruas e novamente apanha ao tentar defender um inocente. Desta vez, porém, sua ação é capturada por uma câmera de celular e Dave logo vê sua fama crescer exponencialmente assim que as imagens são postadas no You Tube. Isso liga o sinal amarelo no mafioso Frank D’Amico (Mark Strong, de Sherlock Holmes), que tem tido seus negócios atrapalhados por uma figura vestida em uma fantasia estranha. Mal ele sabe que Kick-Ass não tem nada a ver com isso. Seus reais inimigos são Big Daddy (Nicolas Cage, de Vício Frenético) e Hit Girl (Chloe Moretz, de 500 Dias com Ela), pai e filha que combatem o crime e provarão a Kick-Ass que ele não é o único super-herói na cidade.

Os roteiristas Jane Goldman e Matthew Vaughn foram hábeis em manter o espírito da HQ, mudando alguns elementos do original que talvez não funcionassem tanto na telona. Para cada uma dessas mudanças, uma idéia mais interessante foi incorporada, transformando o longa-metragem em uma experiência melhor de ser conferida que a própria série de quadrinhos da qual foi originada – fato raro. Um bom exemplo disso são as ações da garota dos sonhos de Dave, Katie Deauxma (Lyndsy Fonseca, do seriado How I Met your Mother), que são bastante diferentes da HQ, mas que funcionam muito melhor. As ações que levam a captura de dois personagens centrais ao final do filme também é construída de forma mais competente na produção capitaneada por Matthew Vaughn.

Outro grande acerto foi a fidelidade com que a violência e o linguajar foi transportado dos quadrinhos para o cinema. Os palavrões, o sangue e os golpes que doem no espectador foram mantidos – tudo isso graças à forma de realização do filme. Em vez de ter um grande estúdio por trás, que mandaria e desmandaria na produção, Matthew Vaughn e companhia filmaram de forma independente, tendo assim carta branca para fazer o que bem entendiam. Não fosse assim, dificilmente teríamos uma personagem tão desbocada quanto a jovem Hit Girl.

O elenco bem escolhido, com destaque para um Nicolas Cage se divertindo horrores ao emular o jeitão de Adam West no seriado sessentista do Homem-Morcego, é mais uma razão da qualidade de Kick-Ass. Mark Strong se firma como o vilão da hora em Hollywood e consegue incluir mais um bom tipo vilanesco para sua galeria. O eterno McLovin’ do filme Superbad, Christopher Mintz-Plasse, também constrói uma figura peculiar, dançando entre o bem e o mal até decidir pelo seu caminho – e sua fala final, tirada direto do Batman dirigido por Tim Burton em 1989, não deixa dúvidas de qual será este caminho que seu personagem, Red Minst, trilhará.

Mesmo que Aaron Johnson consiga segurar muito bem a função de protagonizar uma grande produção e tenha carisma para tanto, o filme é realmente de Chloe Moretz e sua Hit Girl. Apresentando uma invejável segurança para uma jovem atriz (na época da filmagem ela tinha apenas 11 anos) e conferindo a suas falas uma naturalidade de gente grande, Moretz é o grande destaque de Kick Ass. Facilita bastante o fato de a personagem ser terrivelmente original e estapafúrdia – e esse sentimento de incorreção é ainda maior quando ela divide cenas com seu amoroso pai. Mas uma garota de menos talento não conseguiria dar conta de uma figura como Hit Girl.

O único problema visível de Kick-Ass é o seu andamento inicial. O filme demora um bocado para deslanchar, como se a narrativa estivesse com o freio de mão puxado durante todo o primeiro ato. Quando Dave se transforma em Kick-Ass e começa a ganhar fama, finalmente o longa-metragem embala. E a partir daí, fica irresistível. Acredite.

Kick-Ass – Quebrando Tudo
Dir.: Matthew Vaughn
Com Aaron Johnson, Nicolas Cage, Mark Strong, Chloe Moretz, Christopher Mintz-Plasse, Lyndsy Fonseca
Cotação Paradoxo: Vale 90% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de Kick-Ass – Quebrando Tudo:

terça-feira, 20 de julho de 2010

Encontro Explosivo

Zefir

É difícil entender o que atraiu o bom diretor James Mangold para este insosso Encontro Explosivo. Na verdade, difícil não é. Dinheiro é uma razão provável. Mas o cineasta que comandou os ótimos Johnny e June e Os Indomáveis poderia ter ficado sem essa no seu currículo. Mangold faz o que pode com um roteiro fraco escrito pelo estreante Patrick O’Neill, que serve de mero veículo para o reencontro dos astros Tom Cruise e Cameron Diaz, dupla que havia trabalhado em Vanilla Sky. Com pretensões de misturar ação, comédia e romance, Encontro Explosivo consegue apenas pegar de raspão cada um desses gêneros.

A sinopse é a seguinte: June Havens (Diaz) se vê em uma trama enrolada de espionagem quando esbarra com o agente secreto Roy Miller (Cruise), homem charmoso que em um minuto está flertando com ela e, no outro, dá cabo de todos os ocupantes do avião em que estavam. Sem saber o que fazer e no que acreditar, June se alia a Roy e descobre que a CIA está atrás de um agente infiltrado que tenta colocar as mãos em uma poderosa fonte de energia chamada Zefir. Agora, onde quer que vá, June corre perigo e Roy estará lá para ajudá-la.

Tom Cruise e Cameron Diaz parecem se divertir muito ao viver as peripécias de June e Roy. O ator é conhecido por sua predileção por cenas perigosas e existem algumas interessantes sequências em Encontro Explosivo que seguram as pontas. Uma das melhores envolve um carro em movimento e Cruise em cima do capô, atirando nos vilões. Já Diaz tem a chance de ser graciosa e engraçada, qualidades conhecidas da atriz que já estrelou As Panteras e O Casamento do Meu Melhor Amigo. No entanto, por mais confortáveis que os atores possam estar em seus papéis, não ajuda o fato de a história ser rasa como um pires e totalmente batida.

Não bastasse isso, a própria estrutura do filme acaba trabalhando contra. Era de se esperar que um filme de aventura contasse com diversas cenas mirabolantes de ação. Porém, como acompanhamos boa parte da trama sob a ótica de Jane, ficamos de fora de muitas seqüências que poderiam ser interessantes, visto que Roy não vê problemas em drogá-la para tirá-la do caminho. Como ela está fora do combate, o espectador fica excluído também. O único trecho que tem um certo humor utilizando este recurso fica por conta dos pequenos momentos em que Jane desperta enquanto Roy arquiteta a fuga do casal. É possível ter a real noção de como as coisas devem estar confusas na cabeça da moça.

O elenco coadjuvante conta com bons nomes como Peter Sarsgaard (Educação), Paul Dano (Sangue Negro), Viola Davis (O Curioso Caso de Benjamin Button) e Maggie Grace (Lost), mas nenhum tem tempo o suficiente para fazer nada de excepcional. O filme é realmente reservado para Tom Cruise e Cameron Diaz brilharem. Pena que isso não acontece como o planejado.

Por essas e outras, Encontro Explosivo fica totalmente no meio do caminho. Não é ação, não é comédia, não é romance, não é uma bomba, não é fantástico. Ou seja, vá com expectativas bem baixas ou confira o trailer logo abaixo e se divirta. Ali estão todas as melhores cenas mesmo.

Encontro Explosivo (Knight and Day)
Dir.: James Mangold
Com Tom Cruise, Cameron Diaz, Peter Sarsgaard, Viola Davis, Paul Dano, Maggie Grace
Cotação Paradoxo: Vale 50% do ingresso
Confira logo abaixo o trailer de Encontro Explosivo:

segunda-feira, 19 de julho de 2010

À Prova de Morte

Stuntman Mike and the Girls

O plano original dos diretores Quentin Tarantino e Robert Rodriguez com Grindhouse era o seguinte: fazer uma homenagem às sessões duplas de antigamente, fazendo uma espécie de revival do cinema B dos anos 70. Então, Planeta Terror e À Prova de Morte seriam exibidos na mesma sessão, com um pequeno intervalo para a inclusão de trailers falsos. Infelizmente, para os brasileiros, esse “pequeno intervalo” entre um filme e outro durou aproximadamente três anos. Planeta Terror teve seu lançamento no país em novembro de 2007. Seu irmão de sangue e vísceras, À Prova de Morte, só encontrou seu público em julho de 2010. Uma demora criminosa se levarmos em conta que estamos falando de um longa-metragem de Quentin Tarantino, cineasta que deu ao mundo pérolas como Cães de Aluguel, Pulp Fiction e, mais recentemente, Bastardos Inglórios.

É bem verdade que À Prova de Morte está longe de ser o melhor trabalho do diretor. Mas tem qualidades que o destacam e que o tornam um passatempo divertido e escapista na medida. O roteiro é assinado, como não poderia deixar de ser, pelo próprio Tarantino e contém os tradicionais personagens verborrágicos que tanto conhecemos das obras do cineasta.

Na trama, Stuntman Mike (Kurt Russell, de Posseidon) é um dublê das antigas – da época em que Hollywood não colocava tudo nas mãos do CGI – que dirige pelas ruas seu carro modificado e à prova de morte. Quando ele encontra quatro garotas sedutoras em um bar no Texas, seu pensamento é apenas um: o desejo incontrolável de matá-las.

Sem entregar muito da história, é isso que encontramos em À Prova de Morte. O filme, na verdade, é dividido em duas partes. A primeira é estrelada pelas garotas Arlene (Vanessa Ferlito, de Julie & Julia), Jungle Julia (Sydney Poitier, de Nove Vidas), Shanna (Jordan Ladd, de O Albergue II) e Pam (Rose McGowan, de A Dália Negra). Já a segunda parte tem como protagonistas Abernathy (Rosário Dawson, de Sin City), Lee (Mary Elizabeth Winstead, de Duro de Matar 4.0), Kim (Tracie Thoms, de O Diabo Veste Prada) e Zoe Bell (a própria, que serviu de dublê para Uma Thurman em Kill Bill).

Enquanto que o primeiro segmento tem atuações inconsistentes de boa parte do elenco feminino - que não convence ao soltar o texto de Tarantino, a segunda parte do filme é bastante superior em matéria de atuações. Até Zoe Bell, que estréia aqui como atriz após fazer trabalhos de dublê em diversas produções, consegue ser mais cativante e divertida do que as garotas da primeira metade de À Prova de Morte. Trabalhando alguns fetiches da mente masculina como danças eróticas e líderes de torcida, Tarantino parece se importar mais com a sensualidade e a aparência de suas garotas do que com a atuação. Em qualquer outra produção, isso seria um erro terrível. No entanto, o conceito é emular os filmes setentistas de exploitation, que não possuíam realmente nenhum cuidado maior com a performance do elenco. Sexo e violência vinham primeiro. Não é a toa que levavam “exploração” no nome.

Kurt Russell, depois de amargar produções verdadeiramente de segunda categoria, retorna bastante à vontade como o psicótico Stuntman Mike. Excitado ao colocar garotas em perigo mortal, Mike é uma figura bastante perturbada, mas que calcula muito bem seus próximos passos para conseguir o que quer. Com uma grande cicatriz no rosto e roupas esquisitas, Stuntman Mike é mais um bizarro personagem na galeria de Quentin Tarantino.

O diretor, aliás, é conhecido por ter um ego inflado e em À Prova de Morte, ninguém o segurou quanto a isso. Basta ver que esse é, certamente, o trabalho mais auto-referencial de Tarantino. As tomadas destacando pés femininos, os planos-sequência, o enquadramento de dentro de um porta-malas. Além disso, existem citações, referências e reverências a quase todos os filmes dirigidos ou escritos pelo cineasta. Desde a cena da lanchonete de Cães de Aluguel, passando por algumas falas emprestadas de Pulp Fiction e objetos de cena de Jackie Brown.

Fora o fato de que o longa-metragem pertence ao mesmo universo de Kill Bill, Um Drink no Inferno e Planeta Terror - estes dois últimos dirigidos por Rodriguez, mas com participação ativa de Tarantino. Ou seja, personagens retornam – como o xerife Earl McGraw (Michael Parks) – e até é possível desenhar uma linha do tempo com os acontecimentos de todos os filmes. Se duvida, basta dar uma conferida na sessão de perguntas freqüentes do site IMDb. Está tudo explicado com detalhes.

À Prova de Morte, como dito anteriormente, não é o melhor trabalho de Tarantino, mas é tão divertido e feito com tanto carinho cinéfilo pelo diretor que fica difícil não se render às bizarrices escritas pelo cineasta. É uma daquelas produções realizadas única e exclusivamente para atender aos desejos de rato de locadora de Quentin Tarantino e Robert Rodriguez. Felizmente, o público também consegue se divertir bastante junto com eles.

À Prova de Morte (Death Proof)
Dir.: Quentin Tarantino
Com Kurt Russell, Zoe Bell, Rosario Dawson, Vanessa Ferlito, Sydney Tamiia Poitier, Tracie Thoms, Rose McGowan, Jordan Ladd, Mary Elizabeth Winstead, Quentin Tarantino, Marcy Harriell, Eli Roth, Omar Doom, Michael Bacall, Monica Staggs, Michael Sparks
Cotação Paradoxo: Vale 88% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de À Prova de Morte:

segunda-feira, 5 de julho de 2010

O Pequeno Nicolau

Batutinhas Franceses

Em dado momento de O Pequeno Nicolau, o garotinho do título, junto de seu grupo de amigos, inventa uma forma de ganhar dinheiro fácil: copiar a poção mágica de Asterix e vender para seus colegas, afirmando que eles ficarão tão fortes quanto os personagens do gibi. As crianças, obviamente, acreditam na promessa depois de um forjado teste de força, que faz com que um pequeno fedelho consiga virar um carro com suas próprias mãos. Este pequeno trecho dá uma boa idéia do estilo de humor inocente utilizado pelo filme e também coloca lado a lado os dois personagens mais conhecidos de René Goscinny, artista por trás das histórias de Le Petit Nicolas e o simpático gaulês Asterix.

A direção de O Pequeno Nicolau é de Laurent Tirard (de As Aventuras de Moliere), com roteiro do próprio ao lado de Grégoire Vigneron e Alain Chabat. Na trama, Nicolau (Maxime Godart) é uma criança que vive uma infância tão feliz que a última coisa que ele deseja é mudar alguma coisa. Ao ouvir uma conversa de sua mãe (Valérie Lemercier) e de seu pai (Kad Merad), o garotinho entende errado toda a situação e acredita que um irmãozinho está a caminho. Temendo ser deixado de lado pelos pais, Nicolau resolve montar um plano junto com seus amigos para se livrar do bebê. E muitas confusões acontecem a partir daí.

A ingenuidade infantil é muito bem trabalhada no roteiro escrito a seis mãos, baseado nos livros de René Goscinny, com ilustrações de Sempé. É muito fácil acreditar na veracidade da trama por ela ser contada sob o ponto de vista de uma jovem criança imaginativa. Todos os planos mirabolantes do guri, suas atitudes junto de seus amigos e as características do grupo são críveis por se apresentarem dentro do imaginário infantil. Toda esta inocência da tenra juventude acaba conquistando o espectador, que se diverte ao acompanhar as desventuras de Nicolau e sua turma.

A escalação do elenco é fantástica, e os garotinhos são todos muitos expressivos. Maxime Godart, o protagonista da história, consegue convencer sem dizer palavra alguma. Mas o grande destaque é o limitado Clotaire (Victor Carles), que por ter um intelecto pouco privilegiado acaba sempre ficando de castigo. O jovem ator tem uma ótima performance, fazendo rir tão logo aparece em cena, tamanho o engajamento entre espectador e personagem. No lado adulto, Valérie Lemercier e Kad Merad estão hilários como os pais de Nicolau, cada um mais atrapalhado que o outro.

O interessante de O Pequeno Nicolau é como ele consegue trabalhar uma narrativa interessante com personagens tão unidimensionais. Saído de histórias infantis onde é prática comum o biótipo rígido para cada personagem (vide a tupiniquim turma da Mônica), o longa-metragem consegue ser fiel às origens e ainda se manter consistente. Só isso explica o fato de não rechaçarmos de bate pronto personagens como Alceste (Vincent Claude), um garoto gordinho que só pensa em comer, ou Geoffroy (Charles Valliant), um menino rico que adora vestir fantasias. A trama é tão bem contada e este imaginário infantil está tão bem costurado à narrativa que nada disso atrapalha. É quase como assistir a um desenho animado em live-action.

Por falar em desenho, a bela sequência dos créditos iniciais, trabalhada como um livro, conversa intimamente com as origens da história de O Pequeno Nicolau. A bela direção de arte, recriando muito bem a França dos anos 50, junto com sua música característica, encaixada como uma luva em toda a narrativa, transformam este longa-metragem em um ótimo programa. E não apenas para crianças. Adultos que curtem um humor mais ingênuo acharão divertidíssimo. O público infantil se encantará com as peripécias de Nicolau e companhia, enquanto que os adultos acharão graça da imaginação fértil, tão aguçada naqueles jovens pequenos franceses. Um belo programa familiar.

O Pequeno Nicolau (Le Petit Nicolas)
Dir.: Laurent Tirard
Com Maxime Godart, Valérie Lemercier, Kad Merad, Vincent Claude, Charles Vaillant, Victor Carles, Benjamin Averty, Germain Petit Damico, Damien Ferdel, Virgile Tirard
Cotação Paradoxo: Vale 86% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de O Pequeno Nicolau: