Milhares de mulheres chorosas pelos seus relacionamentos amorosos recorrem a uma figura literária famosa, Julieta, do clássico Romeu e Julieta de William Shakespeare, escrevendo cartas e pedindo conselhos para a fictícia donzela. Essa idéia só podia surgir da cabeça de algum roteirista desocupado em Hollywood, certo? Errado. Em Verona, na Itália, existe mesmo a “casa de Julieta”, para onde estas milhares de mulheres chorosas enviam suas cartas – ou entregam in loco – contando suas desventuras amorosas e pedindo por uma dica. E as “secretárias de Julieta” estão lá para prontamente respondê-las. Imagino, aliás, que o número de mensagens deve ter aumentado estratosfericamente após a estréia do bonitinho Cartas para Julieta.
Com roteiro de Jose Rivera (de Diários de Motocicleta) e Tim Sullivan (de Por Água Abaixo), o longa-metragem dirigido por Gary Winick (de Noivas em Guerra) conta a história de Sophie (Amanda Seyfried, de Mamma Mia), uma pretendente a jornalista que trabalha na tradicional revista New Yorker, checando fatos para matérias alheias. Seu sonho é escrever seus próprios artigos e uma viagem marcada para a Itália com seu noivo Victor (Gael Garcia Bernal, de Ensaio sobre a Cegueira) parece uma boa oportunidade de rabiscar alguma matéria interessante. Victor está abrindo seu próprio restaurante em Nova York e aproveita a viagem para fechar bons negócios, conhecer bons queijos e vinhos e ter mais contato com a cozinha italiana. Com isso, Sophie se vê sozinha com seus planos de visitar os pontos turísticos de Verona. Sua solidão não dura muito, é verdade. Ao encontrar a casa de Julieta e observar diversas mulheres escrevendo recados para a personagem de Shakespeare, Sophie procura descobrir quem está por trás disso. Ela não só conhece as secretárias de Julieta como as ajuda na tarefa. Mal ela sabe que, ao responder uma carta perdida há décadas, acaba alimentando a fantasia da setentona Claire (Vanessa Redgrave, de Desejo e Reparação) em reencontrar seu grande amor do passado, Lorenzo. Sophie resolve ajudar Claire na busca por esta paixão perdida ao lado do seu neto desagradável, Charlie (Christopher Egan, de Eragon).
Não é preciso ser um gênio para descobrir o que vai acontecer nesta romântica história. Cartas para Julieta segue completamente a cartilha do gênero e não apresenta nenhuma novidade para os espectadores. Isso não chega a ser um problema, visto que o público alvo certamente espera que Sophie se encontre em sua viagem à Itália e decida quem é o homem de sua vida, assim como torce para que Claire ache seu grande amor perdido. Caso os roteiristas tentassem fugir disso, teriam de se ver com uma horda de mulheres indignadas pelo desfecho amargo. Portanto, já adianto. O final é feliz e classicamente romântico.
A bela Amanda Seyfried vai melhorando seus dotes dramáticos a cada novo trabalho, mas está longe de ser um grande talento – como a ótima revista Preview tentou empurrar em sua edição de junho de 2010. Depois da vergonhosa participação em Mamma Mia! (no qual atingia altas notas no canto, mas baixíssimas na atuação) e da inconstante performance em O Preço da Traição, Seyfried consegue convencer do início em Cartas para Julieta. Não é um personagem desafiador, é bem verdade. Mas é necessário dar algum crédito à moça.
Até porque o filme é, no fim da contas, todo de Vanessa Redgrave. A atriz dá muita credibilidade à sua personagem e consegue alavancar o interesse do espectador em 200% assim que aparece. Redgrave vive uma mulher madura que perdeu seu grande amor do passado e resolve dar uma nova chance ao coração. A produção ganha pontos por reunir novamente o casal Guinevere e Sir Lancelot do filme Camelot, de 1967, que deu origem a reunião fora das telas de Vanessa Redgrave e Franco Nero. O ator dá vida a Lorenzo, o homem pelo qual Claire procura durante toda a narrativa.
Cartas para Julieta é o típico filme bonitinho, que fará a alegria do público feminino (o que significa, paradoxalmente, levá-lo às lágrimas), com sua história bem contada e personagens facilmente reconhecíveis. As belas paisagens italianas são muito bem capturadas pela equipe de Gary Winick, que consegue dar a volta por cima após o fraco Noivas em Guerra. Cartas para Julieta não é o supra-sumo da originalidade, mas acaba sendo um bom passatempo.
Cartas para Julieta (Letters to Juliet)
Dir.: Gary Winick
Com Amanda Seyfried, Gael Garcia Bernal, Christopher Egan, Franco Nero e Vanessa Redgrave
Cotação Paradoxo: Vale 70% do ingresso
Confira o trailer de Cartas para Julieta logo abaixo:












