terça-feira, 29 de junho de 2010

Cartas para Julieta

What if

Milhares de mulheres chorosas pelos seus relacionamentos amorosos recorrem a uma figura literária famosa, Julieta, do clássico Romeu e Julieta de William Shakespeare, escrevendo cartas e pedindo conselhos para a fictícia donzela. Essa idéia só podia surgir da cabeça de algum roteirista desocupado em Hollywood, certo? Errado. Em Verona, na Itália, existe mesmo a “casa de Julieta”, para onde estas milhares de mulheres chorosas enviam suas cartas – ou entregam in loco – contando suas desventuras amorosas e pedindo por uma dica. E as “secretárias de Julieta” estão lá para prontamente respondê-las. Imagino, aliás, que o número de mensagens deve ter aumentado estratosfericamente após a estréia do bonitinho Cartas para Julieta.

Com roteiro de Jose Rivera (de Diários de Motocicleta) e Tim Sullivan (de Por Água Abaixo), o longa-metragem dirigido por Gary Winick (de Noivas em Guerra) conta a história de Sophie (Amanda Seyfried, de Mamma Mia), uma pretendente a jornalista que trabalha na tradicional revista New Yorker, checando fatos para matérias alheias. Seu sonho é escrever seus próprios artigos e uma viagem marcada para a Itália com seu noivo Victor (Gael Garcia Bernal, de Ensaio sobre a Cegueira) parece uma boa oportunidade de rabiscar alguma matéria interessante. Victor está abrindo seu próprio restaurante em Nova York e aproveita a viagem para fechar bons negócios, conhecer bons queijos e vinhos e ter mais contato com a cozinha italiana. Com isso, Sophie se vê sozinha com seus planos de visitar os pontos turísticos de Verona.

Sua solidão não dura muito, é verdade. Ao encontrar a casa de Julieta e observar diversas mulheres escrevendo recados para a personagem de Shakespeare, Sophie procura descobrir quem está por trás disso. Ela não só conhece as secretárias de Julieta como as ajuda na tarefa. Mal ela sabe que, ao responder uma carta perdida há décadas, acaba alimentando a fantasia da setentona Claire (Vanessa Redgrave, de Desejo e Reparação) em reencontrar seu grande amor do passado, Lorenzo. Sophie resolve ajudar Claire na busca por esta paixão perdida ao lado do seu neto desagradável, Charlie (Christopher Egan, de Eragon).

Não é preciso ser um gênio para descobrir o que vai acontecer nesta romântica história. Cartas para Julieta segue completamente a cartilha do gênero e não apresenta nenhuma novidade para os espectadores. Isso não chega a ser um problema, visto que o público alvo certamente espera que Sophie se encontre em sua viagem à Itália e decida quem é o homem de sua vida, assim como torce para que Claire ache seu grande amor perdido. Caso os roteiristas tentassem fugir disso, teriam de se ver com uma horda de mulheres indignadas pelo desfecho amargo. Portanto, já adianto. O final é feliz e classicamente romântico.

A bela Amanda Seyfried vai melhorando seus dotes dramáticos a cada novo trabalho, mas está longe de ser um grande talento – como a ótima revista Preview tentou empurrar em sua edição de junho de 2010. Depois da vergonhosa participação em Mamma Mia! (no qual atingia altas notas no canto, mas baixíssimas na atuação) e da inconstante performance em O Preço da Traição, Seyfried consegue convencer do início em Cartas para Julieta. Não é um personagem desafiador, é bem verdade. Mas é necessário dar algum crédito à moça.

Até porque o filme é, no fim da contas, todo de Vanessa Redgrave. A atriz dá muita credibilidade à sua personagem e consegue alavancar o interesse do espectador em 200% assim que aparece. Redgrave vive uma mulher madura que perdeu seu grande amor do passado e resolve dar uma nova chance ao coração. A produção ganha pontos por reunir novamente o casal Guinevere e Sir Lancelot do filme Camelot, de 1967, que deu origem a reunião fora das telas de Vanessa Redgrave e Franco Nero. O ator dá vida a Lorenzo, o homem pelo qual Claire procura durante toda a narrativa.

Cartas para Julieta é o típico filme bonitinho, que fará a alegria do público feminino (o que significa, paradoxalmente, levá-lo às lágrimas), com sua história bem contada e personagens facilmente reconhecíveis. As belas paisagens italianas são muito bem capturadas pela equipe de Gary Winick, que consegue dar a volta por cima após o fraco Noivas em Guerra. Cartas para Julieta não é o supra-sumo da originalidade, mas acaba sendo um bom passatempo.

Cartas para Julieta (Letters to Juliet)
Dir.: Gary Winick
Com Amanda Seyfried, Gael Garcia Bernal, Christopher Egan, Franco Nero e Vanessa Redgrave
Cotação Paradoxo: Vale 70% do ingresso

Confira o trailer de Cartas para Julieta logo abaixo:

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Toy Story 3

Amigo estou aqui

Todos os elogios são poucos para os magos da Pixar. Com uma filmografia irretocável e personagens interessantíssimos, nem é mais possível dizer que o estúdio surpreende a cada nova produção. Até porque, o nível de qualidade é sempre alto. Surpresa seria o contrário. De alguma forma, no entanto, a Pixar conseguiu elevar um pouco mais seu padrão, chegando a níveis impressionantes. Duvida? Toy Story 3 consegue ser tão bom – e em alguns momentos, até melhor – que seus antecessores. Quantas trilogias têm em seu último episódio o capítulo mais interessante? Pouquíssimas. Na média, a maioria das franquias cinematográficas vai descendo a ladeira da qualidade com o passar dos anos e das sequências. Felizmente, não é isso que acontece com os brinquedos de Andy nesta nova caprichada aventura.

Com roteiro assinado por Michael Arndt, John Lasseter, Andrew Stanton e Lee Unkrich, e com direção deste último, Toy Story 3 nos leva de volta ao quarto do Andy e ao encontro de seus brinquedos favoritos. Mas a situação não é tão boa quanto antigamente. O garoto cresceu e está se preparando para ir para a universidade. Woody (voz de Tom Hanks), Buzz (Tim Allen) e os outros brinquedos estão temerosos pelo seu futuro, já que não acompanharão seu dono nesta nova jornada. Após um mal-entendido, os brinquedos são doados a uma creche. Lá, conhecem o simpático ursinho Lotso (Ned Beatty), o metrossexual boneco Ken (Michael Keaton) e outros bonecos que, assim como Buzz e companhia, foram doados depois de usados. Logo, eles descobrirão que a creche pode ser um lugar perigoso para brinquedos e precisarão tecer um plano para escapar.

Como em todos os filmes da Pixar, o coração fala mais alto em Toy Story 3. É emocionante reencontrar os personagens que conhecemos há 15 anos e acompanhar sua nova jornada. Além disso, cada um dos brinquedos de Andy parece ser realmente dotado de vida própria. Os magos da Pixar têm muito presente que, para uma ligação forte entre personagem e espectador, é necessário que cada um daqueles brinquedos seja muito bem construído. E desde o primeiro capítulo, em 1995, Woody, Buzz e sua turma sempre tiveram esta característica e este carisma. A coragem com que Buzz defende seus amigos, a lealdade que Woody sente por seu dono e por seus parceiros, a fidelidade que Bala no Alvo tem por Woody. Estas e outras características fazem dos brinquedos de Toy Story personagens incrivelmente tridimensionais e com forte apelo junto ao público.

Não bastasse isso, os momentos finais deste novo capítulo da saga são realmente emotivos. Seja pela coragem da turma, que decide ficar junta até o fim, seja pelas cenas ternas divididas com um Andy mais velho, mas ainda ciente de que aqueles brinquedos foram parte importante de sua jovem vida, seja pelo prenúncio de um novo começo para eles. É tudo muito bonito, muito singelo. Um belo fechamento para uma trilogia irretocável.

Mas não é só de belas cenas tocantes que se constrói Toy Story 3. O longa-metragem tem bons momentos cômicos – vários deles protagonizados pela eterna cara-metade de Barbie, Ken – cenas mirabolantes e cheias de ação e, claro, a qualidade de sempre da Pixar no que tange ao design de produção. Se os brinquedos já impressionavam no segundo filme, de 1999, com seu salto de qualidade gráfica, em 2010, é ainda mais bestificante o resultado obtido pela equipe de Lee Unkrich.

Um dos maiores medos em relação a Toy Story 3 era a grande quantidade de novos personagens que estavam sendo anunciados antes de sua estréia. Parecia que não haveria espaço para desenvolver cada um daqueles novos brinquedos e ainda manter os antigos em destaque. Os roteiristas, no entanto, tinham isso em mente. Para solucionar a questão, limaram diversos personagens antigos (com uma explicação simples e coerente), mantiveram o foco nos brinquedos mais importantes e conseguiram virar, mesmo com pouco tempo, o holofote para cada novo personagem. Isso apenas demonstra o cuidado com que os roteiristas tiveram na hora de costurar a ação do filme com os personagens que nela orbitam.

O único ponto ruim de Toy Story 3 é a sensação de que não veremos mais aqueles espertos e carismáticos brinquedos novamente em ação em uma nova aventura. O longa-metragem não coloca, necessariamente, um ponto final nas histórias, mas não parece provável que a Pixar continuará as aventuras de Woody e Buzz em filmes para o cinema. Espero estar errado. Afinal de contas, se depois de 11 anos, o interesse na saga continua, porque não continuar o que está dando certo?

Toy Story 3
Dir.: Lee Unkrich
Com as vozes originais de Tom Hanks, Tim Allen, Joan Cusack, Ned Beatty, Don Rickles, Michael Keaton, Wallace Shaw, John Ratzenberger, Estelle Harris, John Morris, Timothy Dalton
Cotação Paradoxo: Vale 100% do ingresso

Confira o trailer de Toy Story 3 logo abaixo:

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Esquadrão Classe A

Pitty the Fool

Lembro da época em que o seriado Esquadrão Classe A era exibido na televisão, mas não tenho na memória nenhum trecho de qualquer episódio da série. Outra lembrança de infância é o boneco articulado do B.A., com as feições de Mr. T, que eu carregava para lá e para cá e que acabara perdendo sua cabeça em uma brincadeira infeliz com um triciclo. Caro leitor, você está agora por dentro de todas as lembranças que tenho sobre este famoso seriado oitentista. Fica claro que é impossível um cotejo entre a série e o seu remake cinematográfico. Mas o que é possível ser dito, sem medo de errar, é que a sessão deste longa-metragem assinado por Joe Carnahan (de Narc) é divertida, barulhenta e totalmente inverossímil. E é nestas três características que reside o charme truculento de Esquadrão Classe A.

O próprio Carnahan assina o roteiro do longa-metragem, ao lado de Skip Woods (de X-Men Origens – Wolverine) e Brian Bloom (que atua no filme como o vilão Pike na sua estréia como roteirista), baseado nos personagens criados por Frank Lupo e Stephen J. Cannell. Resumo da ópera: Quatro veteranos da guerra do Iraque são injustamente acusados de terem roubado placas para imprimir dinheiro falso. O quarteto é preso, consegue fugir da prisão e sai à procura do real culpado para limpar seus nomes. É isso. Simples assim. Ou nem tanto. Em meio a tudo isso, vemos helicópteros dando piruetas, tanques caindo de pára-quedas, barcos explosivos e toda a pirotecnia que uma boa produção de ação norte-americana comporta.

O que diverte em Esquadrão Classe A é a interação entre os quatro personagens centrais, interpretados com segurança pelo elenco sabiamente escalado. Liam Neeson, de Batman Begins, é o general John “Hannibal” Smith, Bradley Cooper, de Se Beber Não Case, vive o boa-vida Templeton “Cara-de-Pau” Peck, Quinton “Rampage” Jackson interpreta o popular B.A. e Sharlto Copley, de Distrito 9, é o insano Murdock.

Neeson prova que curtiu a ação de Busca Frenética e comanda a equipe que é “especializada no ridículo”, como a personagem de Jessica Biel (de Bons Costumes) tão eloqüentemente explicita para um coadjuvante. Smith sempre cozinha os planos mais mirabolantes para cumprir suas missões. Ele é corajoso, responsável e sempre está três passos a frente do inimigo. O ator, com sua persona respeitável, consegue dar credibilidade ao coronel, imprimindo muita inteligência ao papel. Sharlto Copley rouba a cena como o amalucado Murdock, Bradley Cooper cativa com a simpatia de Cara-de-Pau e se Rampage Jackson não é um grande ator, não compromete ao menos.

Não fosse a boa interação entre o quarteto, Esquadrão Classe A seria apenas uma sucessão de cenas bombásticas e inverossímeis. Algumas são tão over the top que geram risadas do público. Mas diverte. Como a proposta do filme é exatamente essa, Joe Carnahan é bem sucedido em sua tentativa de ação desenfreada. Algumas cenas, que mostram os planos de Hannibal lado a lado a sua execução no futuro, são bem boladas e merecem destaque.

Mas claro que algumas qualidades não redimem vários pontos fracos do longa-metragem, como o fato de ser muito longo e ter um terceiro ato esculhambadíssimo. A cena dos contêineres é vergonhosamente ruim e mal executada e nem a trilha sonora do sempre competente Alan Silvestri consegue fugir do genérico do cinema de ação. No fim da contas, Esquadrão Classe A consegue divertir mesmo com seus deslizes. E essa opinião não tem nada a ver com o fato de eu ter brincado com um boneco articulado de B.A. sem cabeça na minha infância.

Esquadrão Classe A (The A-Team)
Dir.: Joe Carnahan
Com Liam Neeson, Bradley Cooper, Quinton “Rampage Jackson, Sharlto Copley, Jessica Biel, Patrick Wilson
Cotação Paradoxo: Vale 70% do ingresso

Confira o trailer de Esquadrão Classe A logo abaixo:

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Lunar

Man on the Moon

Duas coisas para começo de conversa: se você ainda não assistiu a Lunar, corra para a locadora mais próxima, alugue e o assista. A distribuidora brasileira preferiu não lançá-lo no cinema, o que é uma lástima. Mas não se engane. A decisão nada tem a ver com as qualidades do filme, uma história rica e interessantíssima assinada por um diretor estreante dos mais talentosos. O que me leva ao segundo aviso desta crítica: se você ainda não assistiu a Lunar, tome cuidado ao ler este texto. É impossível escrever uma análise mais profunda sem revelar pontos do filme que estragariam a surpresa dos que não o conferiram ainda. Portanto, em vários parágrafos seguirão avisos de SPOILER. OK? Aviso dado. Vamos seguir em frente, com SPOILERS.

Não foi a toa que o Bafta – o Oscar do cinema britânico – laureou o cineasta estreante em longas-metragens Duncan Jones com o prêmio de Melhor Cineasta Iniciante por seu trabalho em Lunar. Sua ficção científica com lampejos de 2001 – Uma Odisséia no Espaço é um trabalho sensível e belíssimo sobre a condição humana em situações extremas. Humana? Um dos protagonistas é um robô apelidado de GERTY e o outro, um clone. Apesar destas características notadamente artificiais, ambos personagens possuem material humano suficiente para serem vistos como tais. Fim do Spoiler

A trama é assinada pelo estreante Nathan Parker, em cima de história criada por Duncan Jones. Sam Bell (Sam Rockwell, de Homem de Ferro 2) é um astronauta que se aproxima do final de sua missão de três anos na lua. Lá, extrai uma matéria especial que é enviada para Terra, mantendo assim o planeta funcionando com energia limpa. Seu único companheiro nesta missão é o robô GERTY (voz de Kevin Spacey, de Beleza Americana), inteligência artificial que o ajuda nas mais variadas tarefas. Bell tem esposa e filha saudosas o esperando em casa, e cada dia de trabalho é visto como um dia a menos longe de sua família. Como não consegue se comunicar com sua mulher em tempo real devido a um problema no transmissor da estação, apenas curtas mensagens gravadas ajudam a matar as saudades. A proximidade da data do final do contrato de três anos acaba pesando em Sam, que tem tido devaneios e visões estranhas nos últimos tempos. Quando um acidente de trabalho o tira de circulação, uma terrível verdade surge, abrindo os olhos do astronauta sobre sua missão na lua.

Palmas para o diretor Duncan Jones (que é filho de David Bowie, provando que talento é hereditário). Conseguindo fazer milagres com um orçamento enxutíssimo de US$ 5 milhões, o cineasta estreante dá a Lunar características intimistas vistas antes apenas em clássicos da ficção científica como 2001 – Uma Odisséia no Espaço, Blade Runner – O Caçador de Andróides e Alien – O Oitavo Passageiro.

SPOILER O primeiro é facilmente lembrado devido ao isolamento do protagonista, sua relação com um computador e as belas tomadas no espaço. Cabe ao segundo a referência aos replicantes e o seu curto tempo de vida. Já o terceiro tem mais a ver com a forma inteligente e econômica que o cineasta trabalha a trama de Lunar, remetendo algo que Ridley Scott fizera no Alien original, de 1979. Apesar de serem claras referências para Duncan Jones, o cineasta britânico parece tomar cuidado em fazer seu próprio filme, sem reutilizar conceitos já batidos em outras tramas sci-fi.

Um grande exemplo disso é o fato de GERTY estar realmente ao lado de Sam, sempre tentando ajudá-lo – e até passando por cima de sua programação original para melhor assistir seu amigo. Para os que estão acostumados a assistir ficções científicas, é até estranho observar o relacionamento entre protagonista e máquina. Sempre esperava por uma reviravolta que revelaria GERTY como um robô assassino e vilanesco, devido claro ao background das tramas sci-fi que sempre mostravam estas inteligências artificiais como seres terríveis. Felizmente, isso não acontece em Lunar. GERTY genuinamente deseja o bem de Sam e Kevin Spacey consegue transmitir isso em seu trabalho vocal. Por não sucumbir ao pré-estabelecido, o roteiro de Nathan Parker e Duncan Jones ganha muitos pontos.

O filme, no entanto, não existiria sem a presença de Sam Rockwell, ator dos mais interessantes em Hollywood, que consegue passear confortavelmente entre blockbusters famosos (Homem de Ferro 2, As Panteras) e trabalhos menores e mais desafiadores (Confissões de uma Mente Perigosa, Estão Todos Bem). Em Lunar, Rockwell ganha novamente a chance de mostrar seu talento em um papel duplo e bastante difícil. O ator vive Sam Bell em duas versões, dando características distintas a cada um e mantendo sempre o olhar do espectador em suas ações. Como existem apenas dois personagens centrais e um deles é um robô que expressa suas emoções com smiley faces (muito funcionais), Sam Rockwell tem a responsabilidade de carregar o filme nas costas. E consegue.

Enquanto o primeiro Sam Bell é uma figura sonhadora e visivelmente isolada, peso natural dos três anos de trabalho solitário, o segundo é mais prático e sente que pode fazer a diferença ao tomar atitudes. Rockwell consegue de forma excepcional transmitir ao espectador as diferenças entre cada personagem, mesmo que eles sejam, de fato, o clone de uma mesma pessoa – portanto, poderíamos supor que seriam indivíduos iguais. No entanto, a consciência de ser um duplo de um ser humano acaba dando para cada um daqueles “Sam” um outro olhar sobre sua própria existência. Fim do Spoiler

Lunar é uma pequena pérola que, infelizmente, com seu lançamento apenas em DVD pode passar despercebido do grande público. Aos apreciadores de uma boa ficção científica, o longa-metragem de estreia do cineasta Duncan Jones é programa obrigatório. Este texto pode ter ficado bastante truncado pelos inúmeros avisos de spoiler, mas valeu a pena poder escrever com mais liberdade sobre um ótimo filme. Espero que o leitor, depois de ter visto o filme, retorne aqui e confira as linhas que faltaram.

Lunar (Moon)
Dir.: Duncan Jones
Com Sam Rockwell, Kevin Spacey
Cotação Paradoxo: Vale 100% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de Lunar:

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Os Homens que não Amavam as Mulheres

Dragon Tattoo

Hollywood tem produzido cada vez mais rápido continuações de seus filmes mais lucrativos. Basta que um longa-metragem consiga uma resposta positiva de bilheteria para começarem os planos de uma sequência. A Saga Crepúsculo talvez seja a mais impressionante das franquias, visto que o primeiro filme foi lançado em 2008, o segundo em 2009 e o terceiro, apenas seis meses depois do seu antecessor. Mas nada disso chega perto da velocidade com que os produtores suecos conseguiram chegar ao trabalhar na trilogia do falecido escritor Stieg Larsson, Millenium.

As adaptações cinematográficas de Os Homens que não Amavam as Mulheres, A Menina que Brincava com Fogo e A Rainha do Castelo de Ar foram todas lançadas em 2009, em fevereiro, setembro e novembro, respectivamente. Como apenas o primeiro filme teve estréia no Brasil até agora, não é possível saber se as sequências têm a mesma qualidade do início da saga. Mas se continuarem no mesmo caminho, são programas obrigatórios.

A direção de Os Homens que Não Amavam as Mulheres é de Niels Arden Oplev e o roteiro é assinado por Nikolaj Arcel e Rasmus Heisterberg, baseado obviamente no Best seller de Stieg Larsson. Na trama, o jornalista Mikael Blomkvist (Michael Nyqvist) é contratado pelo magnata Martin Vanger (Peter Haber) para colocar suas conhecidas qualidades investigativas em prática e descobrir o assassino da sua querida sobrinha Harriet (Julia Sporre), crime cometido há 40 anos e nunca solucionado. Vanger acredita que algum membro de sua família foi o responsável pela morte da garota, mas nunca conseguiu prova alguma. Agora, Blomkvist, ao lado da hacker Lisbeth Salander (Noomi Rapace), tentará chegar ao fundo deste caso, mesmo que sua vida corra perigo.

Como uma boa história de suspense que se preze, Os Homens que não Amavam as Mulheres tem muito mais camadas do que esta breve e genérica sinopse pode sugerir. Mas para não estragar a surpresa de ninguém, é melhor tentar não contar nada além. Também é bom avisar que não posso fazer comparações entre a versão em celulóide e o livro, pois não o li.

O que dá para perceber, no entanto, é que o andamento da história é excelente, nunca parecendo que estão enfiando informações goela abaixo do espectador para que a trama faça sentido (vide, O Código Da Vinci e os dois primeiros Harry Potter). É bem verdade que são 153 minutos de filme, suficientes para contar uma boa história de mistério sem atropelos. Porém, quem já teve chance de observar o tijolo que é o primeiro volume da trilogia Millenium pode pensar que duas horas e meia seriam insuficientes para dar conta de toda a trama. O contrário acontece. Se cortadas algumas gorduras da história, o filme até poderia ser mais curto. O tempo que Mikael e Lisbeth demoram em se encontrar pela primeira vez, por exemplo, poderia ser encurtado pela metade. Isso, claro, não chega a ser um erro. É apenas uma constatação de que existem alguns pontos que poderiam ser suprimidos (e que provavelmente serão na versão hollywoodiana que se avizinha).

Com um elenco afiadíssimo e com uma trama bem urdida, o cineasta Niels Arden Oplev consegue prender a atenção do espectador do início ao fim da projeção. Quem gosta de um bom mistério se achará, em meio à exibição, conjecturando qual será o próximo passo dos investigadores, ou quem diabos arquitetou os crimes mostrados, ou se é possível confiar em quaisquer dos personagens que nos são apresentados. Apesar de alguns pontos da investigação serem um tanto inverossímeis, principalmente passados 40 anos do crime original, a trama consegue se sustentar bem e fazer com que acreditemos nos desdobramentos dos acontecimentos.

Michael Nyqvist e Noomi Rapace, intérpretes do casal principal da trama, tem uma química bastante interessante e uma relação nada óbvia. Enquanto que Nyqvist dá a Blomkvist uma amabilidade e credibilidade importantes para mantermos conexão com o jornalista, Rapace parte para outro viés. Sua Lisbeth é uma pessoa quase tão enigmática quanto a investigação do assassinato de Harriet. Traumatizada com um ponto de seu passado e bastante prática em conseguir seus objetivos, Lisbeth é uma excelente protagonista e é defendida de forma robusta pela jovem atriz sueca.

O bom trabalho de edição de Anne Østerud, combinados com todos os pontos positivos ressaltados logo acima, fazem de Os Homens que Não Amavam as Mulheres um suspense acima da média, com ótimas reviravoltas e surpresas. Um ponto de partida maiúsculo para uma trilogia que deve ter seus capítulos seguintes lançados no Brasil em julho e setembro. É esperar e ver se a qualidade se mantém.

Os Homens que não Amavam as Mulheres (Män som hatar kvinnor)
Dir.: Niels Arden Oplev
Com Michael Nyqvist, Noomi Rapace, Lena Endre, Peter Haber
Cotação Paradoxo: Vale 90% do ingresso

Confira o trailer dublado de Os Homens que não Amavam as Mulheres:

terça-feira, 15 de junho de 2010

Legião

Arcanjo Miguel

Deus nos abandonou. Cansado de aturar a estupidez humana, mandou uma legião de anjos para exterminar a população do Planeta Terra – algo semelhante havia sido feito há milênios atrás, época do dilúvio. A luta seria bastante desigual, mas para nossa sorte, um poderoso membro do exército de Deus ficou ao lado da humanidade, desacatando as ordens do Todo Poderoso: o arcanjo Miguel. Essa é basicamente a idéia central de Legião, filme assinado pelo cineasta estreante Scott Stewart. Apesar de a premissa ser original e com potencial para render um bom longa-metragem, a leva de clichês reunida no resto da trama é assustadoramente alto, atrapalhando um resultado superior.

A trama é assinada pelo diretor ao lado de Peter Schink (montador transformado em roteirista recentemente) e traz Paul Bettany (de Criação) como o arcanjo Miguel. Ele parte para salvar a garçonete grávida Charlie (Adrienne Palick, do inédito no Brasil Women in Trouble), que carrega em seu ventre a esperança máxima para o futuro da humanidade. A moça nunca teve muito interesse em continuar com sua gravidez, mesmo com a ajuda do amigo – e apaixonado platônico – Jeep (Lucas Black, de Soldado Anônimo), filho do seu chefe, Ben (Dennis Quaid, de Ponto de Vista). Ao lado de alguns clientes do restaurante, estes personagens formarão um grupo que lutará pela sua vida contra os terríveis seres humanos possuídos pela legião de anjos.

Scott Stewart é hábil em criar algum clima de urgência para contar sua história e a sensação de perigo é palpável no início da trama. No entanto, a originalidade do roteiro, retrabalhando a figura dos bondosos anjos, acaba se perdendo na execução. Os vilões da história parecem mais zumbis do que qualquer outra coisa. Em vez de utilizar o conceito diferenciado para criar outro tipo de ameaça para os heróis da história, Stewart e sua equipe acabam escolhendo o caminho mais fácil e já trilhado antes. É tão verdade isso que os melhores momentos do filme são os que envolvem a velha senhora e a criança demoníaca, únicos personagens possuídos que ganham alguma característica diferenciada, não sendo meros zumbis acéfalos.

Se o problema fosse só esse, Legião ainda conseguiria se salvar. Mas são muitos clichês reutilizados pelo roteiro. A velha história do bebê que é a salvação do mundo é mais velha que andar pra frente. A família disfuncional, o garoto tímido e a mulher que não dá bola para ele são igualmente lugares-comuns. Sem contar algumas situações incongruentes, que servem apenas para ajudar no clima estranho de algumas cenas (que restaurante serve carne quase crua para uma velha senhora?). Para dar um pouco de crédito aos roteiristas, ao menos existem tentativas de se desenvolver os personagens da história. É muito mais do que vários filmes de ação se propõem, portanto Stewart e Schink merecem pontos por isso.

Por falar em filmes de ação – que não são conhecidos pelo seu cuidado na preparação de elenco - Legião tem um casting bem interessante, capitaneado por um Paul Bettany bastante correto como o arcanjo Miguel. Taciturno e enigmático, Miguel ainda ama a humanidade, mesmo tendo de ir contra os desejos divinos. Diferente de seu “colega de trabalho”, Gabriel (Kevin Durand, de Robin Hood), que é totalmente fiel aos desígnios de Deus e pretende seguir à risca sua tarefa. Durand consegue, mesmo em uma pequena participação, dar uma inédita virilidade ao arcanjo Gabriel, se mostrando um desafio à altura para Miguel. No entanto, a direção de arte e o figurino são tão equivocados que o trabalho do ator vai quase por água abaixo, transformando Gabriel em um projeto de vilão dos Power Rangers. A sua clava prateada e hi-tech é um objeto de cena tão fora de lugar quanto a coruja mecânica de Fúria de Titãs. Ou talvez até pior.

Com exceção de Lucas Black, que ganha um personagem terrivelmente enfadonho e Adrianne Palicki, que também não é ajudada por um roteiro que transforma a “mocinha” em um purgante, o resto do elenco tem boas atuações, condizentes com o gênero em questão. Com um roteiro melhor construído, Legião poderia ser um ótimo filme, já que traz uma premissa interessante. Do modo que acabou sendo realizado, não aproveita as boas idéias e acaba caindo na vala comum dos filmes de ação.

Legião (Legion)
Dir.: Scott Stewart
Com Paul Bettany, Lucas Black, Tyrese Gibson, Adrianne Palicki, Kevin Durand, Jon Tenney, Willa Holland, Kate Walsh, Charles S. Dutton e Dennis Quaid
Cotação Paradoxo: Vale 60% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de Legião:

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Maldito Futebol Clube

Mentira bem contada

Em época de Copa do Mundo, é de se estranhar que a Sony não tenha tentado lançar Maldito Futebol Clube nos cinemas brasileiros, aproveitando o falatório do mundial e a apreciação do esporte no país. Talvez o medo de que as pessoas não saiam de casa durante todo o período do torneio tenha feito com que o ótimo longa-metragem dirigido por Tom Hooper (da mini-série John Adams) tenha sido lançado diretamente em DVD. Uma pena. Apesar de tomar para si liberdades demais ao contar uma história real, Maldito Futebol Clube é um dos melhores filmes que retratam o esporte bretão.

O filme reúne novamente Peter Morgan e Michael Sheen, duo que tem se mostrado afinadíssimo em seus trabalhos conjuntos. O roteirista e o ator, já com bons trabalhos pouco conhecidos no currículo, começaram a realmente despertar a atenção do público em A Rainha (2006), de Stephen Frears, e repetiram a dose no excelente Frost/Nixon (2008), comandado por Ron Howard. Em Maldito Futebol Clube, a parceria entre Morgan e Sheen dá mais um excelente resultado.

Sheen vive o controverso técnico britânico Brian Clough nesta trama ambientada entre o fim dos anos 60 e começo dos 70. Após conseguir colocar o time de segunda divisão Derby County no patamar dos grandes da Inglaterra, o técnico é convidado para treinar o rico e difícil clube Leeds United, substituindo seu arqui-rival, Don Revie (Colm Meaney, de Código de Conduta), que acabara de ser convocado para comandar a seleção inglesa. Clough não conta mais com os conselhos de seu amigo de longa data e auxiliar técnico Peter Taylor (Timothy Spall, de Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban) e assume uma difícil tarefa: comandar um time totalmente fiel ao seu antigo treinador e que, para piorar, acaba de ser esculachado pelo próprio Brian Clough em uma entrevista. A narrativa do filme costura o passado do técnico e sua campanha de vitórias ao lado de Peter Taylor com a sua ligeira experiência à frente do Leeds United.

É um verdadeiro prazer assistir a Michael Sheen interpretar um personagem tão vaidoso, inteligente e cheio de si quanto Brian Clough. Frost/Nixon, no ano anterior, parece ter sido um ensaio para o ator, que parece ter buscado um pouco da cara-de-pau de David Frost para compor seu Brian Clough, incluindo mais agressividade e destempero em suas relações pessoais. Sheen imprime ambição e vaidade sob medida para Clough sendo o real destaque da produção. A rivalidade com Don Revie nasce de um motivo tão insignificante – porém, tão real para alguém com um ego inflado - que soa bastante real. No entanto, não se deve acreditar 100% no que o roteiro de Peter Morgan traz à tona.

Isso porque o texto do roteirista é baseado no livro The Damned United de David Peace, que é acusado de romancear por demais alguns “fatos verídicos”. Em uma rápida pesquisa na Internet é possível achar diversas diferenças entre o que acontece na tela e o que aconteceu na realidade – desde placar, local e datas de jogos até fabricações que servem apenas para ajudar na trama, como o início das rusgas entre Revie e Clough. Se por um lado, Maldito Futebol Clube peca ao se afastar dos fatos reais, por outro, é uma mentira muito bem contada.

O ritmo do filme é excepcional, conseguindo mesclar muito bem os fatos do presente (Brian no Leeds) com os acontecimentos do passado (Brian no Derby). A costura é feita de forma bastante harmônica e facilmente inteligível – com direito a caracteres na tela nos informando o ano que a trama se passa e divertidos grafismos que acompanham as temporadas vitoriosas do Derby County nas mãos hábeis de Brian Clough e Peter Taylor.

Por falar neste último, Timothy Spall consegue transmitir muito carinho e inteligência com seu Peter Taylor, o legítimo grande cérebro por trás do grande homem. Mesmo que Clough nem sempre entenda o quanto sua parceria com Taylor é importante, o filme não deixa dúvidas de que o técnico não teria metade da competência sem os conselhos do amigo. Claro que este viés também é discutível, dada a liberdade do roteiro para com a realidade. Mas para fins fictícios, é interessante esta dinâmica de trabalho entre os dois e como ela é quebrada por mais um dos devaneios de Brian Clough.

Com uma fotografia belíssima assinada por Ben Smithard (do documentário sobre o festival de rock Glastonbury), amplificada por enquadramentos meticulosos de Tom Hooper, e uma direção de arte que recria com perfeição as décadas de 60 e 70, Maldito Futebol Clube é um ótimo longa-metragem que, se visto com um trabalho fictício com lapsos de realidade, se torna um programa imperdível. Vale pelas atuações perfeitas e pela história muito bem contada. Ainda mais em época de Copa do Mundo, quando todas as atenções estão voltadas ao futebol.

Maldito Futebol Clube (The Damned United)
Dir.: Tom Hooper
Com Michael Sheen, Timothy Spall, Colm Meaney e Jim Broadbent
Cotação Paradoxo: Vale 85% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de Maldito Futebol Clube:

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Decisões Extremas

The Cure

Brendan Fraser sempre teve uma grande dificuldade como ator: convencer como ser humano. Depois de ter feito tantos papéis esquisitos – dentre eles, os personagens-título de Homem da Califórnia e George – O Rei da Floresta - Fraser ficou bastante estigmatizado como o intérprete perfeito para toda a sorte de bobos e desmiolados no cinema. Vez em quando, o ator tenta algum projeto mais sério e acaba esbarrando naquele probleminha citado acima. Em Crash – No Limite, por exemplo, Fraser não consegue convencer em nenhum momento como marido respeitável de Sandra Bullock. Mesmo duvidando muito do resultado, fiquei curioso em assistir a Decisões Extremas, dobradinha entre ele e Harrison Ford, lançada diretamente em DVD no Brasil.

O filme surpreende logo no seu início. E não falo de invencionices do roteiro ou qualquer coisa envolvendo a história em si. Surpreendente é ver, pela primeira vez desde Star Wars, Harrison Ford não ser o nome principal a ser creditado. O longa-metragem é produzido pelo ator que, talvez até por isso, tenha se sentido menos tentado a encabeçar o elenco, deixando a função para o já citado Brendan Fraser. É no mínimo curioso.

Decisões Extremas tem direção de Tom Vaughan (de Jogo de Amor em Las Vegas) e roteiro assinado por Robert Nelson Jacobs (de Chocolate), baseado no livro The Cure, da jornalista vencedora do Pullitzer Geeta Anand que, por sua vez, baseou-se em fatos reais.

Na trama, John Crowley (Fraser) é um homem de família, casado com a bela Aileen (Keri Russell, do seriado Felicity) e pai de três filhos. Os Crowley tentam de todas as formas manter uma rotina normal, mesmo tendo de encarar uma batalha diária: dois de seus três filhos tem a doença de pompe, uma doença degenerativa que afeta os músculos e sistema nervoso. De acordo com as pesquisas de John, as crianças tem expectativa de vida até os 9 anos de idade, o que o deixa desesperado por uma solução para o problema. Ao conhecer as pesquisas do dr. Robert Stonehill (Ford), Crowley percebe uma luz no fim do túnel, larga seu trabalho e passa a dedicar todo o seu tempo a angariar fundos para a descoberta da cura para a doença. No entanto, Stonehill não é uma figura nada fácil de trabalhar.

Para início de conversa, Brendan Fraser consegue uma atuação – ainda que nada uniforme – bastante comovente, merecendo créditos pela escolha de um papel diferente do habitual. John Crowley é totalmente abnegado aos filhos e não mede esforços para resolver a situação. Homem de negócios, ele é a pessoa perfeita para dar vida às pesquisas de Robert Stonehill, um professor que tem idéias revolucionárias na teoria, mas nunca as coloca em prática. Harrison Ford pratica o seu feijão com arroz para encarar um papel que parece ser escrito sob medida para ele. Portanto, não é de se estranhar que o ator esteja tão à vontade como o doutor. As crianças do elenco, Meredith Droeger, Diego Velazquez e Sam M. Hall, dão conta do recado e têm boas atuações.

Com uma história de superação de adversidades, Decisões Extremas ganha pontos por apresentar ao espectador uma trama que consegue, ao mesmo tempo, apresentar uma doença terrível e seus problemas, mas também mostrar que é possível arregaçar as mangas e trabalhar para se encontrar uma solução. A narrativa é um tanto lenta, é bem verdade, e o filme não parece saber o que fazer com seus coadjuvantes. Mesmo que pareça dourar a pílula em certos momentos, o longa-metragem de Tom Vaughan tem suas qualidades e merece uma conferida. Mesmo que seja apenas para ver Brendan Fraser como um ser humano.

Decisões Extremas (Extraordinary Measures)
Dir.: Tom Vaughan
Com Brendan Fraser, Harrison Ford, Keri Russell, Meredith Droeger, Diego Velazquez, Sam M. Hall, Courtney B. Vance, Jared Harris
Cotação Paradoxo: Vale 75% do ingresso

Confira o trailer de Decisões Extremas logo abaixo:

terça-feira, 8 de junho de 2010

Sonhos Roubados

As Meninas

Os ótimos longas-metragens As Melhores Coisas do Mundo, Os Famosos e os Duendes da Morte e Antes que o Mundo Acabe, lançados recentemente, retratam de forma muito correta os adolescentes brasileiros, tanto os que vivem na cidade quanto no interior. Cada um tem suas características bem delineadas, são bem diferentes entre si, mas existe algo que os une, além da temática adolescente: todos retratam jovens com certo poder aquisitivo. Sandra Werneck e seu Sonhos Roubados coloca na roda a trajetória de três adolescentes pobres do Rio de Janeiro e agrega um capítulo interessante ao atual e prolífico retrato dos jovens brasileiros no cinema nacional.

O roteiro é assinado a doze mãos (Paulo Halm, Michelle Franz, Adriana Falcão, Sandra Werneck, José Joffily e Maurício O. Dias) e baseado no livro As Meninas da Esquina de Eliane Andrade. Na trama, conhecemos as amigas Jéssica (Nanda Costa), Daiane (Amanda Diniz) e Sabrina (Kika Farias). Moradoras de um bairro pobre no Rio de Janeiro, as meninas têm sonhos bastante diferentes.

Jéssica é mãe solteira e tem sérios problemas com a mãe de seu ex, dona Jandira (Zezeh Mota), que não aprova a forma como a garota cria sua neta. Ela se prostitui para manter a filha, comprar roupas e ajudar seu avô, Horácio (Nelson Xavier), no tratamento da tosse. Daiane também vende seu corpo para levantar dinheiro. Seu maior sonho é constituir família. Ao conhecer Wesley (Guilherme Duarte) em um programa, ela acredita ter achado a sorte grande. Já Sabrina, com apenas 14 anos, mora com um tio abusivo (Daniel Dantas), uma tia omissa (Lorena da Silva) e tenta de todas as formas se aproximar do pai, Germano (Ângelo Antônio), com quem tem encontros esporádicos e sempre pouco calorosos. A menina também apela para a prostituição, visando pagar seu grande sonho: ter uma festa de debutante com tudo o que tem direito.

Como é possível notar, os desejos das três meninas de Sonhos Roubados são até bastante simples, mas terrivelmente distantes para uma camada da população que não tem recursos financeiros. Mostrando de forma bastante realista a situação precária destas jovens mulheres, Sandra Werneck acerta ao conseguir mesclar a dureza das situações com a esperança de um futuro melhor. Jéssica, Daiane e Sabrina sofrem o diabo, mas sempre tentam sair de todas as situações para continuar buscando o que almejam. Esta tenacidade dos personagens é muito bem retratada pela câmera de Sandra Werneck, que agrega mais um bom título em sua bela filmografia que conta ainda com Cazuza – O Tempo não Pára e O Pequeno Dicionário Amoroso.

Além de ter um roteiro que consegue abarcar questões relevantes como a gravidez na adolescência, a prostituição e o abuso infantil, Sonhos Roubados tem atuações superlativas de seu trio principal. Nanda Costa, Amanda Diniz e, principalmente, a novata Kika Farias comovem e conseguem envolver o espectador com sua trajetória. Como não sentir pela garota que sonha em dançar a valsa com o pai na festa de quinze anos? Cercadas de excelentes atores em papéis coadjuvantes – com destaque para Marieta Severo, como uma carinhosa mentora para a jovem Sabrina – as três atrizes são a cereja do bolo neste ótimo e verdadeiro filme brasileiro, vencedor dos prêmios de Melhor Filme – Júri Popular – e Melhor atriz (Nanda Costa) no último Festival do Rio.

Sonhos Roubados
Dir.: Sandra Werneck
Com Nanda Costa, Amanda Diniz, Kika Farias, Marieta Severo, Daniel Dantas, Ângelo Antônio, Lorena da Silva, Nélson Xavier, Guilherme Duarte, Sílvio Guindane, Zezeh Barbosa, MV Bill
Cotação Paradoxo: Vale 90% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de Sonhos Roubados:

segunda-feira, 7 de junho de 2010

O Golpista do Ano

Vigarista Apaixonado

Lançado em diversas partes do mundo entre fevereiro e maio, O Golpista do Ano finalmente estréia nos cinemas brasileiros, após uma grande novela quanto ao seu conteúdo. O filme, comandado pelos diretores estreantes John Requa e Glenn Ficarra (roteiristas de Como Cães e Gatos), demorou em encontrar distribuidores. Até agora segue inédito nos Estados Unidos, com data prevista para julho. Dois fatores contribuíram para esta demora: a forma aberta em abordar a homossexualidade dos personagens centrais do longa-metragem, interpretados por Jim Carrey (Sim, Senhor) e Ewan McGregor (O Escritor Fantasma); E a dificuldade em se vender um filme com temática que ainda choca o grande público. Isso é realmente uma lástima, visto que o filme tem uma notável característica de fazer rir e emocionar ao mesmo tempo, com uma tocante história de amor nascida em um dos lugares menos prováveis.

Em O Golpista do Ano, adaptado pela dupla de diretores do livro do jornalista Steve McVicker, Jim Carrey é Steven Russell. Pai de família, casado com a religiosa Debbie (Leslie Mann, de Ligeiramente Grávidos) e policial respeitável da cidadezinha onde vive no Texas, Steven tem um segredo que carrega desde criança: é gay, muito gay. Ao sofrer um acidente de carro que coloca toda sua vida em perspectiva, Russell resolve se libertar e sair do armário. Infelizmente, seu padrão de vida não é compatível com o salário que ganha. Os presentes caros que Steven dá a seu namorado, Jimmy (Rodrigo Santoro, de 300), e todo o luxo que a vida gay necessita o levam a aplicar golpes e mais golpes. Não demora muito para que Steven seja pego pela polícia e passe seus dias na cadeia. Seria terrível, caso ele não conhecesse por lá um doce presidiário que atende pelo nome de Phillip Morris (Ewan McGregor).

Jim Carrey está brilhante como o golpista homossexual apaixonado Steven Russell. Abnegado por amores que lhe tiram do prumo, e sempre fazendo o máximo para agradar as pessoas que o rodeiam, Steven vive uma vida que não é sua. Seu acidente de carro, que lhe dá a claridade de espírito para contar a verdade a todos, é totalmente paradoxal. Sua epifania de revelar seu segredo à família e viver uma vida de verdade só traz mais e mais mentiras. Russell constrói um padrão de vida irreal e conta histórias sobre seu passado longe de serem verdadeiras.

Mentiroso de carteirinha e servindo de narrador da história, o personagem não poupa nem os espectadores de suas meias-verdades ou de seus pequenos “esquecimentos” durante a narrativa. Estes lapsos são explicados por Steven sempre que o momento lhe é conveniente e visam deixar o público no escuro em determinadas sequências. O roteiro é construído de forma inteligente e a narração nunca soa redundante, mantendo o mistério das reviravoltas da trama e construindo ótimas piadas inesperadas.

Além da boa performance de Carrey, o elenco ainda conta com uma pequena participação do brasileiro Rodrigo Santoro, que vai conseguindo cada vez mais merecidos espaços em produções estrangeiras, e uma ótima interpretação de Ewan McGregor, convencendo como o inocente e apaixonado Phillip Morris. Assim como em O Segredo de Brokeback Mountain, no qual o espectador tinha de entender a força do amor daqueles dois homens para se envolver na história, o mesmo acontece em O Golpista do Ano. A grande diferença entre os dois filmes é que este último se propõe a fazer rir de diversas situações. E consegue. No entanto, as piadas não são sobre a afetação dos personagens ou sobre como é engraçado ver Jim Carrey e Ewan McGregor juntos. Os risos surgem de outros pontos da história, fugindo do que seria uma forma trivial e bem mais fácil de fazer comédia.

Por essas e outras, O Golpista do Ano é um filme recomendável para quem quer dar boas risadas e para quem não tem problemas em assistir histórias de amor – não importando o sexo dos protagonistas. Incrível é saber que os acontecimentos apresentados por Glenn Ficarra e John Requa são baseados em fatos reais. A impressionante progressão da história poderia fazer qualquer pessoa duvidar. Ainda mais se levarmos em conta a fama de mentiroso do narrador em questão.

O Golpista do Ano (I Love You, Phillip Morris)
Dir.: Glenn Ficarra e John Requa
Com Jim Carrey, Ewan McGregor, Rodrigo Santoro, Leslie Mann
Cotação Paradoxo: Vale 88% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de O Golpista do Ano:

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Príncipe da Pérsia - As Areias do Tempo

Game Over

Planejado como o novo Piratas do Caribe pela Disney, Príncipe da Pérsia – As Areias do Tempo não consegue chegar nem perto dos divertidos filmes protagonizados por Johnny Depp – tanto em qualidade quanto em bilheteria. Baseado no game criado por Jordan Mechner, o longa-metragem tem direção do britânico Mike Newell (de Harry Potter e o Cálice de Fogo e Quatro Casamentos e um Funeral), mas poderia muito bem ter sido comandado por Michael Bay, tamanho o uso de câmeras-lentas e pirotecnia nos longos 116 minutos de projeção.

Com roteiro de Boaz Yakim (de Rookie – Um Profissional do Perigo) e da dupla Doug Miro e Carlo Bernard (de O Mistério das Duas Irmãs), Príncipe da Pérsia – As Areias do Tempo conta a história de Dastan (Jake Gyllenhaal, de O Segredo de Brokeback Mountain), filho adotivo do grande rei Sharaman (Ronald Pickup, de 007 Nunca Mais Outra Vez). Ao invadir a cidade sagrada Alamut, procurando armas que estariam sendo entregues aos inimigos dos persas, Dastan e seus meio-irmãos, Tus (Richard Coyle, de Um Bom Ano) e Garsiv (Toby Kebell, de Rocknrolla), conhecem a bela princesa Tamina (Gemma Arterton, de Fúria de Titãs), que lhes garante que a cidade não esconde nenhuma ameaça. No entanto, não foi essa informação que teria chegado aos ouvidos do conselheiro e irmão do rei, Nizam (Ben Kingsley, de Gandhi).

O rei não está contente pela invasão a uma cidade sagrada, mas se alegra ao ver os corajosos filhos vitoriosos na batalha. Tanto que sugere a união de Tus com a princesa Tamina. Antes de poder dar as bênçãos ao matrimônio, o rei é morto por uma túnica envenenada – presente de Dastan, que recebera das mãos de Tus o embrulho. Como era de se esperar, o filho adotivo é procurado pelo assassinato do rei e precisa fugir para provar sua inocência. No seu encalço está a princesa, guardiã da adaga do tempo, artefato que está em poder do príncipe desde a invasão bem sucedida de Alamut. Ela dá poderes ao seu portador para voltar no tempo e Dastan logo descobre que o grande vilão da história está de olho neste poderoso objeto.

Príncipe da Pérsia – As Areias do Tempo é um verdadeiro vídeo-game. É, obviamente, a adaptação de um jogo, mas preserva várias de suas características em sua versão cinematográfica – para o bem e para o mal. O lado bom é que ele é bastante fiel aos movimentos do personagem. Se você está acostumado a ver o Príncipe dar piruetas, empunhar sua espada e lutar contra dezenas de inimigos, o longa-metragem oferece tudo isso. O lado ruim é que a montagem ultra-rápida e o desenho de produção totalmente computadorizado não deixa espaço algum para que o filme seja digerido pelo espectador. Os efeitos especiais são muito bons, mas por serem fantásticos demais, acabam traindo o naturalismo que qualquer produção de Hollywood procura.

Se não bastasse isso, Jake Gyllenhaal como ator de aventura deixa bastante a desejar. Ele mostrou talento em filmes mais ousados como Donnie Darko, O Segredo de Brokeback Mountain e Zodíaco. Nesta superprodução, Gyllenhaal consegue convencer no físico, mas nunca no tom do personagem. É bem verdade que o texto não ajuda. O resto do elenco, como um todo, não está ruim, mas parece estar no piloto automático. A única exceção e destaque verdadeiramente positivo fica para Alfred Molina (de Educação) com uma divertida performance como o falastrão Sheik Amar. Se a produção incorporasse mais cenas com o personagem, O Príncipe da Pérsia seria muito mais interessante.

Desperdiçando uma premissa que poderia render um bom filme de aventura (o regresso no tempo é raramente utilizado na trama), Mike Newell tenta comandar o início de uma nova franquia milionária para a Disney, mas só consegue um filme mediano, que pode até divertir em dados momentos, sendo esquecível logo depois do final da sessão. Talvez seja recomendável para os fãs do game – se não preferirem ter o controle do príncipe em seu console preferido.

Príncipe da Pérsia – As Areias do Tempo (Prince of Persia – The Sands of Time)
Dir.: Mike Newell
Com Jake Gyllenhaal, Gemma Arterton, Ben Kingsley, Alfred Molina
Cotação Paradoxo: Vale 50% do ingresso

Confira o trailer de O Príncipe da Pérsia – As Areias do Tempo:

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Por uma Vida Melhor

Estrada para o Conhecimento

É um verdadeiro crime que Por Uma Vida Melhor, novo longa-metragem de Sam Mendes, não tenha recebido uma chance de estreia nos cinemas brasileiros, sendo relegado apenas a um lançamento em DVD totalmente low profile. Além de o filme em questão ser um excelente Road movie intimista, leva a assinatura do diretor dos ótimos Beleza Americana, Estrada para Perdição e Foi Apenas um Sonho. Portanto, teria envergadura suficiente para um lançamento, mesmo que limitado, nas salas de cinema do país. Como até o vencedor do Oscar deste ano, Guerra ao Terror, recebeu um tratamento pouco inteligente de sua distribuidora, não dá para esperar algo melhor de um filme notadamente menor, mas nem por isso, menos brilhante.

Por uma Vida Melhor conta com roteiro do casal Vendela Vila e Dave Eggers (de Onde Vivem os Monstros) e é centrado no casal Burt (John Krasinski, do seriado The Office) e Verona (Maya Rudolph, de Idiocracy). Às voltas com uma gravidez inesperada e sem a ajuda dos únicos avós da criança, Gloria (Catherine O’Hara, de Esqueceram de Mim) e Jerry (Jeff Daniels, de Intrigas de Estado), que estão com viagem marcada para Bélgica, o casal resolve deixar sua pequena residência e viajar para perto de amigos e parentes que possam preencher este vazio familiar. No entanto, a jornada acaba fazendo com que Burt e Verona encontrem os tipos mais estranhos, que não seriam, necessariamente, o melhor exemplo para ajudar a cuidar de sua pequena filha.

O roteiro consegue capturar de forma sensível e bem humorada as peripécias de um casal que se ama, mas que passa por uma total crise de identidade. A busca de Burt e Verona não é apenas focada em pessoas que fiquem próximas e que possam, eventualmente, ajudá-los na criação da criança. A sua procura é pelo exemplo de família que eles desejam ser. Verona perdeu os pais aos 22 anos de idade e, desde então, nunca conseguiu falar muito sobre isso. Já Burt tem pais pouco ortodoxos, que não titubeiam ao realizar seu sonho de morar no exterior, mesmo com um neto a caminho. Portanto, observar os dois encontrando os tipos mais esquisitos em sua jornada é, ao mesmo tempo, engraçado e totalmente apropriado para desenvolver aqueles personagens.

John Krasinski e Maya Rudolph mostram talento inegável ao centrar a atenção do público em sua trajetória e possuem uma química bastante forte. Krasinski dá a Burt um ar relaxado e apaixonado, passando a aparência totalmente verdadeira de que é um sujeito bastante calmo e compromissado com sua relação com Verona. Já a mulher demonstra ter suas dúvidas, sempre preocupada com o futuro do casal, nem sempre conseguindo se entregar a relação como seu companheiro. Até por não ser um modelo de casal perfeito, Burt e Verona convencem. Ao serem colocados lado a lado com os outros casais disfuncionais da narrativa, eles parecem um sonho, é bem verdade.

O casal principal é ajudado por um elenco coadjuvante de alto gabarito, com as divertidas e hilariantes atuações de Allison Janey (do seriado The West Wing) como a inconveniente Lily e Maggie Gylenhaal (de Batman – O Cavaleiro das Trevas) como a riponga L.N. Assim como os já citados Jeff Daniels e Catherine O’Hara, todos os coadjuvantes ganham pouco tempo de tela, mas conseguem deixar sua marca bastante forte no filme. É o atestado de um roteiro muito bem construído e de uma direção de atores extremamente competente de Sam Mendes.

O diretor, aliás, deixa um pouco de lado os densos filmes de sua excelente filmografia trabalhando em uma produção bem mais leve – mas que ainda toca em assuntos sérios como a formação de uma família e a eterna procura do ser humano por seu lugar no mundo. Mendes se mostra bastante a vontade em mudar de ares e consegue comandar um longa-metragem tocante. Uma pequena pérola.

Se já não bastasse tudo isso, a trilha sonora de Por uma Vida Melhor conta com músicas escolhidas a dedo de George Harrison (What is Life), Velvet Underground (Oh, Sweet Nuthin’) e Bob Dylan (Meet me in the Morning), além de belíssimas canções folk originalmente escritas por Alexi Murdoch. Por todas essas qualidades acima apontadas, fica realmente difícil entender porque diabos Por uma Vida Melhor não chegou a um cinema perto da gente.

Por uma Vida Melhor (Away we Go)
Dir.: Sam Mendes
Com John Krasinski, Maya Rudolph, Carmen Ejogo, Jeff Daniels, Catherine O'Hara, Allison Janney, Jim Gaffigan, Maggie Gyllenhaal, Josh Hamilton, Melanie Lynskey, Chris Messina, Paul Schneider
Cotação Paradoxo: Vale 95% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de Por uma Vida Melhor:

terça-feira, 1 de junho de 2010

Surpresa em Dobro

Old Jokes

O diretor Walt Becker surpreendeu, em 2008, com uma comédia totalmente descompromissada e que cumpria plenamente o seu papel de fazer rir: Motoqueiros Selvagens. A produção usava a “experiência” dos atores principais para tirar sarro da crise da meia-idade e se saia muito bem. Como piada repetida nunca tem a mesma graça e um raio não cai duas vezes no mesmo lugar (entre outros ditos populares que servem no contexto), Surpresa em Dobro não tem 1/3 da graça de seu antecessor, mesmo que a dupla principal, Robin Williams e John Travolta, tenha talento para fazer rir.

Culpa de um roteiro pouco inspirado, que utiliza de piadas manjadas e de uma estrutura episódica que nunca funciona. A dupla responsável por este arremedo de script, David Diamond e David Weissman, não tem uma ficha corrida lá muito interessante. Evolução (que também tinha sérios problemas quanto a sua comicidade) e Um Homem de Família são seus trabalhos anteriores dignos de algum destaque. Como o texto não ajuda, piadas físicas são inclusas aos montes, para tentar quebrar o gelo. Tirando uma curiosa gag envolvendo a troca de remédios, nenhuma outra piada física funciona. Até porque elas são tão velhas quanto andar pra frente. Será que alguém ainda ri com alguém levando uma bolada no saco?

Na trama, Dan (Robin Williams) e Charlie (John Travolta) são amigos de longa data, sócios de uma firma de marketing esportivo. Charlie é expansivo, engraçado e com ótimo jeito com mulheres. Dan é o exato oposto. Sozinho, ele tenta entrar em contato com Vicki (Kelly Preston, de Jerry Maguire, esposa de John Travolta na vida real), mulher que conheceu há sete anos durante uma louca viagem patrocinada por Charlie. O reencontro é uma “surpresa em dobro” para Dan. Vicki lhe apresenta seus dois filhos gêmeos, Zach (Conner Rayburn, do seriado According to Jim) e Emily (Ella Bleu Travolta, adivinha filha de quem?), frutos da relação supersônica que os dois tiveram no passado. Agora, Dan terá de cuidar das crianças enquanto Vicki cumpre duas semanas de pena em uma detenção feminina. E, claro, Charlie, seu melhor amigo, entrará nessa empreitada também.

John Travolta e Robin Williams tentam fazer de tudo para fazer o espectador rir e até conseguem uma química interessante. Mas o texto é tão rasteiro que é difícil se divertir com qualquer coisa que aconteça em Surpresa em Dobro. O elenco de coadjuvantes é pinçado a dedo, mas nenhum recebe algo de realmente engraçado para fazer em suas pequenas participações. Para constar, temos Matt Dillon (Quem Vai Ficar com Mary?), Justin Long (Duro de Matar 4.0), Bernie Mac (Onze Homens e um Segredo, em seu último papel) e Seth Green (Austin Powers).

Além das piadas fracas, a narrativa é truncada e bastante óbvia quanto aos desenrolamentos das situações. Um minuto antes da mistura de remédios que causa confusões para a dupla de protagonistas, os dois conversam sobre os efeitos colaterais das pílulas, não deixando dúvidas ao espectador do que acontecerá a seguir. Mas acredito que ninguém esperava ser TÃO a seguir. É como observar um personagem colocar uma casca de banana no chão para, logo depois, ver outro escorregar. E ainda achar graça.

O nome original do filme, Old Dogs (Cachorros Velhos), deveria ser trocado para Old Jokes (Piadas Velhas). Seria mais condizente com o que o público recebe.

Surpresa em Dobro (Old Dogs)
Dir.: Walt Becker
Com Robin Williams, John Travolta, Seth Green, Kelly Preston, Conner Rayburn, Ella Bleu Travolta, Lori Loughlin, Bernie Mac, Matt Dillon, Justin Long
Cotação Paradoxo: Vale 25% do ingresso

Confira o trailer de Surpresa em Dobro logo abaixo: