segunda-feira, 31 de maio de 2010

O Escritor Fantasma

Dublê de Letras

O título em português pode fazer o espectador mais desavisado pensar que o novo trabalho de Roman Polanski, O Escritor Fantasma, não passa de um thriller sobrenatural. Mas não se deixe enganar. Como não temos no Brasil um equivalente à expressão inglesa ghostwriter (dublê de escrita? escritor de aluguel?), a tradução literal foi utilizada pela distribuidora nacional. Passando por cima deste equivocado título, o espectador encontrará um Roman Polanski em plena forma, engendrando uma trama de suspense digna de seus filmes mais clássicos.

Baseado no livro de Robert Harris, com roteiro do próprio autor ao lado de Polanski, O Escritor Fantasma acompanha a trajetória de um ghostwriter (Ewan McGregor, de Os Homens que Encaravam Cabras) que é contratado a peso de ouro para escrever as memórias do controverso ex-primeiro-ministro da Inglaterra, Adam Lang (Pierce Brosnan, de Percy Jackson). O antigo titular da cadeira, o assessor do político, Mike McAra, teria cometido suicídio – o que não deixa o novo contratado nada confortável com a tarefa. Para piorar, o “escritor fantasma” é obrigado a viajar aos Estados Unidos, onde Lang está morando junto de sua esposa, Ruth (Olivia Williams, de O Sexto Sentido), e de sua equipe, capitaneada por Amelia (Kim Cattral, de Sex and the City).

O tempo que o ghostwriter tem para terminar o livro é exíguo, mas como Mike já havia realizado um trabalho extenso de 600 páginas, não parecia um desafio que ele não pudesse terminar. O problema é que o acesso ao manuscrito de McAra é muito restrito e Lang acaba se mostrando um sujeito pouco acessível para entrevistas. O maior empecilho é o fato de o político estar envolvido em uma investigação que o tem como principal suspeito de ser conivente com crimes de guerra. Contratado apenas para escrever as memórias de Lang, o “fantasma” se vê cada vez mais envolto nos mistérios a cerca de seu novo patrão e começa a investigar a fundo as questões que o instigam.

Muito pode-se especular sobre a conduta controversa de Roman Polanski em sua vida privada. Mas é incontestável que o cineasta franco-polonês tem um talento todo especial como contador de histórias. Principalmente quando a trama necessita de um clima de suspense palpável (como já havia feito magistralmente em O Bebê de Rosemary em 1968). Em O Escritor Fantasma, Polanski tece sua trama sem pressa alguma e vai envolvendo o espectador a cada novo desenrolar dos fatos. A narrativa é lenta, mas nunca se torna maçante. O diretor dá tempo ao tempo e nos vai revelando a cada novo frame uma informação inédita, seja sobre o grande mistério da história, seja sobre a conduta de personagens que estamos acompanhando. É um verdadeiro prazer observar o trabalho de Polanski ao orquestrar esta obra de mistério.

Ajuda o fato de o elenco ser escolhido a dedo e contar com um Ewan McGregor inspiradíssimo como o protagonista sem nome. Com um senso de humor britânico característico, o personagem de McGregor é um sujeito não politizado, que acaba entrando sem querer naquela conspiração e se vê envolvido até o pescoço – mais por um respeito meio fúnebre pelo seu antecessor, talvez. Acompanhamos toda a trama sob a ótica do escritor e, portanto, McGregor praticamente carrega o filme sozinho, com algumas pequenas intervenções bem vindas de um elenco cheio de talentosos nomes como Kim Cattral, Tom Wilkinson (de O Sonho de Cassandra), Jim Belushi (do seriado According to Jim) e Eli Wallach (do clássico Sete Homens e um Destino).

Pierce Brosnan e Olivia Williams ganham maior tempo para desenvolver seus personagens. O ex-007 coloca a carapuça de Tony Blair para interpretar o meticuloso ex-primeiro-ministro Adam Lang. A escolha por Blair não é aleatória. O personagem escrito por Robert Harris é uma versão bastante próxima do político, visto que Harris trabalhou durante muito tempo como colunista político e observou de perto as ações de Tony Blair no poder. Portanto, todas as semelhanças com a fama de galã e a forma estreita com que Adam Lang trabalha com o governo norte-americano não são coincidências criadas na ficção. São agulhadas legítimas de Harris em cima do trabalho do político britânico. Se Brosnan se escora em Blair, Olivia Williams é feliz em imprimir muita inteligência e sarcasmo em sua personagem – uma mulher que serviu durante muito tempo como conselheira para o marido, mas que vem perdendo seu posto com o passar do tempo.

O único problema aparente de O Escritor Fantasma é tentar convencer o espectador de que a trama se passa nos Estados Unidos. A fotografia é européia até dizer chega. Mesmo com o esmero da direção de arte em tentar camuflar a Alemanha como a terra do Tio Sam, a fotografia peculiar da Europa não deixa dúvidas de que se trata de uma produção filmada no Velho Mundo. Mas este é o único porém deste suspense inteligente, envolvente e com reviravoltas interessantíssimas que deram a Polanski o merecido Urso de Prata de Melhor Diretor no último Festival de Veneza. É de bater palmas no final.

O Escritor Fantasma
Dir.: Roman Polanski
Com Ewan McGregor, Pierce Brosnan, Olivia Williams, Kim Cattrall, James Belushi, Tom Wilkinson, Eli Wallach, Timothy Hutton
Cotação Paradoxo: Vale 100% do ingresso

Confira o trailer legendado de O Escritor Fantasma logo abaixo:

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Em Teu Nome

Deixando o Pago

Em uma época em que o Supremo Tribunal Federal decidiu manter a lei da Anistia intacta e continuar perdoando todos aqueles que torturaram e violaram os direitos humanos durante a Ditadura Militar, chega em boa hora mais um filme brasileiro que retrata o período. Dirigido pelo cineasta gaúcho Paulo Nascimento (de Valsa para Bruno Stein), Em Teu Nome traz à tona o sofrimento de uma parcela da população que decidiu lutar contra um regime autoritário e pagou caro por suas escolhas.

Baseado em fatos reais, o roteiro de Paulo Nascimento é centrado no engenheiro Boni (Leonardo Machado, de A Casa Verde), rapaz de classe média que decide, junto de seus companheiros Professor (Nelson Diniz, de Sal de Prata), Lenora (Silvia Buarque, de Vereda Tropical), Onório (Marcos Verza, de Valsa para Bruno Stein) e Higino (Sirmar Antunes, de Netto Perde sua Alma), pegar em armas e enfrentar a Ditadura Militar. No entanto, as coisas não saem como o grupo esperava. Eles são capturados, torturados e, finalmente, exilados após o governo brasileiro ceder às exigências do grupo terrorista que sequestrou um embaixador suíço.

Em Teu Nome é o filme mais consistente do diretor Paulo Nascimento, com um roteiro interessante atrelado a boas atuações do elenco. Leonardo Machado é o protagonista e consegue carregar muito bem a trama, assim como seu “mentor” interpretado por Nelson Diniz. Sirmar Antunes, Marcos Verza e Silvia Buarque também contribuem com boas performances. Um dos destaques do elenco fica para o uruguaio Cesar Troncoso (de O Banheiro do Papa), que comove com seu abnegado personagem, Leo. Ele é cunhado de Boni e tenta ajudá-lo no que for necessário, sempre deixando bem claro que não é a favor da luta armada.

Com uma ótima fotografia assinada por Roberto Laguna, que consegue capturar muito bem os cenários por onde passam os personagens do filme (desde o Brasil, passando pelo Chile e França), Em Teu Nome é um deleite para os olhos. Uma pena que, por ser uma produção com orçamento apertado, é notável que as ruas estão sempre vazias e poucos carros passam em frente à câmera. Esta desertificação das locações é obviamente uma solução encontrada pela produção para que o filme não incorresse em anacronismos. Algumas soluções encontradas são bastante satisfatórias, como a profundidade de campo super iluminada em cenas na cidade grande, escondendo possíveis pistas de quando a trama foi realmente filmada.

Vitor Ramil aparece em uma ponta cantando sua bela canção Deixando o Pago, que agrega bastante a uma já bem pensada trilha sonora assinada por André Trento e Renato Müller. Um dos poucos senões de Em Teu Nome fica para a montagem de Marcio Papel. Quando o longa-metragem vai chegando ao terceiro ato, parece que o filme todo começa a correr com os acontecimentos, começando um vai e vem de fade in e fade out (as populares telas pretas que separam uma cena da outra) que tenta, ao que tudo indica, enxugar um filme que era bem maior no projeto inicial. Não chega a parecer que falta alguma coisa, mas fica bastante truncado um longa-metragem que toda a hora recorre para o fade para se manter coeso.

Em Teu Nome pode ter seus pontos fracos, mas é um trabalho interessante, que trata de um assunto relevante e que deve ser sempre lembrado. A Ditadura Militar foi um período tenebroso na história de inúmeros países na América Latina (e o filme consegue mostrar isso, estendendo sua história para o Chile) e merece sempre ser revisitada no cinema, no teatro, na literatura, para que as novas gerações não esqueçam. Mas, claro, nunca deve ser revisitada na vida real.

Em Teu Nome
Dir.: Paulo Nascimento
Com Leonardo Machado, Fernanda Moro, César Troncoso, Nelson Diniz, Silvia Buarque, Julia Feldens, Marcos verza, Sirmar Antunes, Gilberto Perin, Marcos Paulo, Eduardo Barril e Vitor Ramil
Cotação Paradoxo: Vale 78% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de Em Teu Nome:

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Estão Todos Bem

Goode Family

Se Estão Todos Bem, do diretor Kirk Jones (de Nanny McPhee), não chega a ser uma obra-prima do gênero drama, ao menos nos dá o prazer de assistir a Robert De Niro em uma papel nada usual em sua vasta carreira: a de pai preocupado e carinhoso. É bem verdade que Frank Goode, personagem defendido por De Niro, tem algumas zonas cinzas, como o fato de ser bastante exigente com seus filhos – a ponto de fazer com que nenhum consiga se abrir totalmente com o patriarca da família. Mas, no todo, Frank é apenas um pai preocupado com o futuro da sua prole.

No roteiro escrito pelo próprio diretor, baseado no filme italiano Stanno Tutti Bene (1990), de Giuseppe Tornatore, Frank está viúvo há pouco tempo e sente saudade dos filhos. Sua esposa era o seu maior elo com os rebentos, e depois de sua morte, as visitas rarearam. Feliz por poder reunir todos ao redor da mesa novamente, Frank faz todos os preparativos para recebê-los com toda a pompa. No entanto, um por um dos filhos cancelam sua aparição no fim de semana, pelos mais variados motivos. Chateado com isso, Frank decide, contra ordens médicas, viajar e visitar cada um dos quatro filhos. Mas eles não reagirão bem à surpresa do velho pai.

Além de Robert De Niro, o elenco conta com bons nomes como Drew Barrymore (As Panteras), Kate Beckinsale (Escrito nas Estrelas) e Sam Rockwell (Lunar), que interpretam os rebentos de Frank, Rosie, Amy e Robert, respectivamente. Assim como o protagonista, Rockwell encarna em Estão Todos Bem um personagem diferente de sua extensa galeria de excêntricos. E é ótimo vê-lo em um papel mais contido. Se o ator consegue roubar a cena com tipos estranhos como em Confissões de uma Mente Perigosa e Homem de Ferro 2, neste longa, Rockwell consegue acertar em cheio como o filho que desvia das expectativas do pai. Pena que tem pouco tempo de tela. Drew Barrymore cativa com sua Rosie, a mais carinhosa em receber o velho pai, enquanto que Kate Beckinsale dá um tom mais sério para sua Amy.

Estão todos bem. Além de ser o nome do filme, é uma boa forma de resumir o desempenho do elenco, que, claro, tem em Robert De Niro seu maior destaque. O ator encarna uma figura triste e perdida no mundo após a morte da esposa. Sua única esperança de felicidade é ver a alegria dos filhos, em suas vidas bem sucedidas. No entanto, não é bem este cenário que Frank encontra ao visitá-los. De Niro consegue emocionar com sua performance e o roteiro, assim como a boa direção de Kirk Jones, consegue manter o espectador sempre interessado neste road movie introspectivo.

Uma pena que o público norte-americano não tenha dado a resposta esperada nas bilheterias, relegando Estão Todos Bem a um lançamento direto em DVD no Brasil. Surpreendente, dado os talentos envolvidos. Incluindo ainda uma música especialmente escrita para o filme por Paul McCartney – (I Want to) Come Home - Estão Todos Bem é uma jornada emotiva, que pegará o espectador pelo coração. Quem diria que o homem que deu vida a Travis Bickle e Max Cady tinha sentimentos tão nobres afinal?

Estão Todos Bem (Everybody’s Fine)
Dir.: Kirk Jones
Com Robert De Niro, Drew Barrymore, Kate Beckinsale, Sam Rockwell, Melissa Leo, Lucian Maisel
Cotação Paradoxo: Vale 86% do ingresso

quarta-feira, 26 de maio de 2010

A Casa Verde

Eu e Del Vinte

Fazer cinema infantil no Brasil é praticamente uma raridade. Excetuando-se as produções protagonizadas por Xuxa Meneghel e Renato Aragão, é dificílimo encontrar algum filme voltado para as crianças que tenha sido produzido no país. Algumas tentativas vêm sendo feitas, como a animação O Grilo Feliz (2001) e sua sequência, O Grilo Feliz e os Insetos Gigantes (2009), de Walbercy Ribas. Apesar do trabalho esmerado, nada que possa suprir totalmente a lacuna do gênero. O cineasta gaúcho Paulo Nascimento (de Valsa para Bruno Stein) reparou nesta ausência de produções que falassem com o público infantil e resolveu arregaçar as mangas e criar sua própria história. O resultado final não chega a empolgar, mas A Casa Verde é um louvável exercício, que tropeça na execução, mas que deixa uma mensagem ecologicamente correta para seu espectador alvo.

Na trama, escrita pelo próprio diretor, um escritor de histórias em quadrinhos (Nicola Siri) está com uma terrível crise criativa, não conseguindo escrever a história que concebeu. Os personagens de seu gibi acabam tomando a trama para si e a desenvolvendo, com todos os ônus e bônus desta empreitada. Vemos então o Professor (Lui Strassburger, de O Menino da Porteira) criar um invento revolucionário para reciclar o lixo da cidade. A novidade é recebida com alegria pelos pupilos do Professor, em especial por Nerd 1 (a estreante Alice Nascimento), mas tem tudo para tirar o sono do vilão da história, Jordão (Zé Victor Castiel, de Dias e Noites), que tira o seu dinheiro da coleta de lixo. Para se vingar, ele e sua comparsa, Gigi (Ingra Liberato, de Dois Córregos), raptam o Professor e prometem desintegrá-lo caso a máquina não seja destruída. Para salvar o seu mestre, Nerd 1 clama por sua amiga virtual, Eu (Vanessa Moro, de Valsa para Bruno Stein), e pelo heróico Leonardo Del Vinte (Leonardo Machado, de 3 Efes), para dar um jeito na situação.

Acertadamente, Paulo Nascimento dá um tom lúdico ao filme empregando a técnica de rotoscopia (que cobre a performance dos atores reais com desenhos, vista em filmes como Waking Life e O Homem Duplo, de Richard Linklater) no momento em que a trama é voltada para os personagens da HQ. Com esta estética pendendo ao desenho animado, fica até mais fácil na hora de empregar os efeitos especiais que são necessários para contar a história em questão. No entanto, só esta técnica não salva o filme, que carecia de um maior cuidado tanto na concepção do roteiro quanto nas atuações.

Não é porque o filme é voltado para a criançada que são necessárias interpretações tão condescendentes do elenco. Imagine aqueles adultos que fazem caretas e falam como crianças em frente a bebês e é mais ou menos isso que você terá do elenco de A Casa Verde. Mesmo gente talentosa como Leonardo Machado, Marcos Verza, Lui Strassburger e Jeffersonn Silveira acabam soterrados por uma escolha pouco satisfatória na hora de encarar seus personagens. Zé Victor Castiel se entrega a um vilão batido enquanto que Ingra Liberato tenta fazer rir como uma limitada ajudante. Já Vanessa Moro, a heroína da história, é bastante expressiva, mas carece maior trabalho vocal, sempre impostando demais a voz ao dar seu texto – problema que se repete no filme Em Teu Nome, outra parceria entre atriz e diretor.

Além disso, falta aventura para manter a criançada interessada no filme e as inovações tecnológicas colocadas na telona poderiam ser refletidas no próprio roteiro, que carecia de maiores novidades para fugir do velho esquema: batido vilão com risada maligna contra os heróis bonzinhos e corretos.

Com seus prós e contras, A Casa Verde é um exercício. Falho, mas válido. Pode ser usado como um filme educativo, alertando a criançada para a coleta do lixo. A mensagem está lá em alto e bom som, com direito a texto final explicando alguns conceitos utilizados no filme. Seria mais efetivo caso trouxesse personagens cativantes, mas pode acabar funcionando em sessões para escolas, que geralmente não tem oportunidade de levar seus alunos para assistirem histórias com sotaque daqui.

A Casa Verde
Dir.: Paulo Nascimento
Com Nicola Siri, Zé Victor Castiel, Fernanda Moro, Ingra Liberato, Leonardo Machado, Lui Strassburger, Marcos Verza, Jeffersonn Silveira, Rogério Hoch, Alice Nascimento
Cotação Paradoxo: Vale 40% do ingresso

Confira o trailer de A Casa Verde:

terça-feira, 25 de maio de 2010

Fúria de Titãs

Release the Kraken!

Apesar de ter um lugar reservado no coração de vários cinéfilos que viveram sua infância nos anos 80, o Fúria de Titãs original, dirigido por Desmond Davis, está longe de ser um grande filme. Tem bons momentos, a presença de atores renomados como Lawrence Olivier (de Rebecca – A Mulher Inesquecível), Maggie Smith (de Otelo) e Burgess Meredith (o eterno Pinguin do seriado sessentista Batman) e, claro, o trabalho de Ray Harryhausen, um verdadeiro mago dos efeitos especiais, que, muitos antes dos computadores tomarem conta da indústria, conseguia criar seres fantásticos com o advento do stop motion. Mas, como um todo, o filme pecava pelo ritmo truncado e por atuações risíveis do resto do elenco.

Passados 29 anos, Fúria de Titãs ganha um remake pelas mãos do diretor francês Louis Leterrier (de O Incrível Hulk), com grandes cenas de ação, efeitos especiais de primeira e... ainda capenga narrativamente. As situações mudaram, os vilões são diferentes, a motivação de Perseu é outra, mas nada consegue salvar o longa-metragem do desastre. Nem a escalação de ótimos atores para papéis capitais, como Liam Neeson e Ralph Fiennes (que repetem o antagonismo de A Lista de Schindler), tira deste novo Fúria de Titãs aquele gosto de espetáculo visual sem conteúdo algum.

O roteiro é assinado por Travis Beacham (de Dog Days of Summer) e pela dupla Phil Hay e Matt Manfredi (de O Terno de Um Bilhão de Dólares), baseado no script do filme de 1981 de Beverly Cross. Conhecemos Perseu, o herói da história, ainda bebê, semideus, filho de Zeus (Neeson) com uma humana, a rainha de Argos. Enfurecido pela gravidez da esposa, o rei Acrisius (Jason Flemyng, de O Curioso Caso de Benjamin Button) decide pela execução da mulher e do filho bastardo, os atirando ao mar dentro de uma caixa. Perseu e a mãe, já falecida, são encontrados por uma família de pescadores, que acolhe o bebê e o cria como um filho.

Já adulto, Perseu (Sam Worthington, de Avatar) perde os pais devido a fúria do deus Hades (Fiennes), que convence seu irmão Zeus de que os humanos estão perdendo a fé e devem ser punidos. Não bastasse isso, o deus das trevas faz um ultimato ao povo de Argos. Ou a princesa Andrômeda (Alexa Davalos, de O Nevoeiro) é sacrificada ou o temível Kraken destruirá toda a cidade. Nunca homem algum venceu a besta marítima, portanto Perseu, um semideus, é logo encarregado de derrotar o monstro. Para tanto, ele parte para uma jornada perigosa, na tentativa de achar algum artifício que dê fim ao Kraken.

O primeiro problema de Fúria de Titãs reside em seu protagonista, Perseu. Interpretado com cenho sempre fechado por Sam Worthington, o herói da história é terrivelmente enfadonho. Sua jornada de vingança contra os deuses e sua tentativa de vencer os obstáculos como um homem – e não um semideus – são características interessantes e dão uma profundidade ao personagem. Mas a performance sempre sisuda de Worthington depõe contra o próprio Perseu. Em dado (e único) momento, o herói fala uma gracinha com seus companheiros e se vira para o emburrado Draco (Mads Mikkelsen, de Casino Royale) lhe perguntando: “você nunca sorri?” Isso denota apenas duas possibilidades: ou os roteiristas haviam imaginado um herói mais leve e o ator partiu para outro caminho, totalmente contrário; ou Perseu não enxerga que ele próprio não havia sorrido até então e seria no mínimo incoerente cobrar comportamento diferente de seus companheiros. Acredito que a primeira opção é a mais correta. Fora o fato de que o próprio ator, em entrevistas, vem dizendo que Fúria de Titãs não deve ser levado a sério, sendo apenas uma aventura escapista. Mas não é o que parece pela seriedade das atuações.

Além disso, até excelentes atores como Liam Neeson, Ralph Fiennes e Danny Huston (relegado a uma ponta, pensando obviamente em uma sequência) estão totalmente engessados pelos figurinos tenebrosos criados pela equipe de Louis Leterrier. A direção de arte do filme é digna de escola de samba, com as “fantasias” de Zeus e Poseidon com grande potencial para servir de destaque para o carro abre-alas da Portela.

Algumas cenas de ação têm certo apuro técnico – e esta deve ser a maior contribuição do diretor Louis Leterrier – como os escorpiões gigantes e a batalha contra a Medusa. No entanto, a tão alardeada batalha final contra o Kraken consegue ser mais rápida e anticlimática que qualquer episódio ruim de Smallville - seriado conhecido por desperdiçar vilões em enfrentamentos pouco desafiadores. Sem muita diversão, com um roteiro que regurgita a tradicional jornada do herói mitológico de Joseph Campbell, Fúria de Titãs é um programa bem abaixo da média. Mesmo assim, renderá pequenas fortunas ao estúdio Warner Bros. pela picaretagem esperteza em converter uma produção filmada originalmente em 2D para o popular 3D, com ingressos notadamente mais caros, em um processo controverso e, dizem, mal feito. Eu não caí nessa e espero que você, caro leitor, também não.

Fúria de Titãs (Clash of the Titans)
Dir.: Louis Leterrier
Com Sam Worthington, Liam Neeson, Ralph Fiennes, Jason Flemyn, Gemma Arterton, Alexa Davalos, Mads Mikkelsen, Nicholas Hoult, Polly Walker, Pete Postlethwaite, Danny Huston
Cotação Paradoxo: Vale 30% do ingresso

Confira o trailer de Fúria de Titãs:

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Deu a Louca nos Bichos

Vingança Peluda

Brendan Fraser não é um grande ator, e acredito que isso não seja novidade para ninguém. No entanto, surgem de vez em quando alguns personagens que ele consegue interpretar e convencer. Foi assim em O Homem da Califórnia (1992), Os Cabeças-de-Vento (1994), A Múmia (1999) e Endiabrado (2001). São trabalhos de exceção, é verdade. Mas a boa performance cômica (e heróica, no caso do remake do monstro enfaixado) de Fraser fizeram destes filmes bons passatempos. Infelizmente, para cada exceção, temos um sem número de atuações capengas em filmes risíveis – no mau sentido. Deu a Louca nos Bichos é um erro completo. O típico filme capaz de gerar vergonha alheia a cada nova cena.

O time por trás da produção não era nada encorajador para começar. Na direção, Roger Kumble, que até estreou bem com o mediano Segundas Intenções, mas depois disso só assinou longas-metragens de gosto duvidoso – com destaque negativo para o tenebroso Tudo para Ficar com Ele. O roteiro é da dupla Michael Carnes e Josh Gilbert, que cometeu o péssimo Em Pé de Guerra, em 2007. Para completar o pesadelo, a trama envolve animais que decidem se vingar dos humanos que pretendem destruir a floresta onde vivem, com direito a efeitos especiais canhestros que aderem emoções a guaxinins, gambás e ursos. Ou seja, nada de bom poderia surgir daí.

Brendan Fraser interpreta Dan Sanders, pai de família que levou sua esposa, Tammy (Brooke Shields, de A Lagoa Azul, lembra?), e seu filho, Tyler (Matt Prokop, de High School Musical 3), para uma cidadezinha do interior para construir um novo subúrbio. Dan recebe ordens do inescrupuloso Neal Lyman (Ken Jeong, de Se Beber, Não Case), que pretende fazer dinheiro destruindo uma antiga floresta, mas vendendo a idéia de que é dono de uma empresa ecologicamente consciente. O problema da empreitada é que os animais que vivem na floresta não deixarão suas residências sem lutar. E Dan é o alvo fácil para a vingança dos bichos.

Obviamente, com esta premissa, os realizadores não esperavam atingir um público com idade superior a sete anos de idade. Mas é difícil acreditar que até estes tenros espectadores, já acostumados com o humor mais anárquico de Shrek, Madagascar e outros que o valham, consigam se divertir com uma sucessão de cenas tão bobinhas e fracas quanto neste Deu a Louca nos Bichos. Como as piadas não são boas, a comédia física é amplamente usada, na tentativa de retirar um sorriso que seja dos corajosos que se aventuraram a uma sessão do filme. Excetuando-se uma cena que causa risos pelo grotesco (Fraser, bastante acima do peso, vestindo uma roupa de ginástica rosa com os dizeres yum yum nas nádegas) e nada mais dá certo no longa-metragem de Roger Kumble.

Aliás, para não ser totalmente negativo, Ken Jeong consegue divertir um pouco com seu vilão, o empresário desonesto Neal Lyman. Se não é um gênio da comédia, ao menos consegue arrancar um sorriso do canto da boca do espectador, que está tão entediado com tudo o que já viu que procura desesperadamente por algo que possa o entreter. Até porque, os animais da floresta é que não darão este alívio ao espectador. A história é tão mal construída que os bichos, os pretensos heróis da trama, acabam virando praticamente antagonistas, dada a sua tresloucada vingança em cima de Dan – que, no fim das contas, é apenas um pau mandado, um sujeito de dar pena.

Vergonha alheia é a melhor expressão para resumir Deu a Louca nos Bichos. Brooke Shields paga as contas e paga mico durante os créditos finais, assim como boa parte do elenco, que precisa mostrar que se divertiram muito durante o trabalho, dublando uma música terrível chamada Insane in the Membrane. Fechamento perfeito para um verdadeiro circo de horrores protagonizado por Brendan Fraser. Por incrível que pareça, é melhor assisti-lo como amigo da natureza em George – O Rei da Floresta do que adversário em Deu a Louca nos Bichos. Sem brincadeira.

Deu a Louca nos Bichos (Furry Vengeance)
Dir.: Roger Kumble
Com Brendan Fraser, Brooke Shields, Matt Prokop, Ken Jeong, Skyle Samuels
Cotação Paradoxo: Vale 15% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de Deu a Louca nos Bichos:

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Só Dez Por Cento é Mentira

Poeta em tempo integral

Só Dez Por Cento é Mentira é um documentário poético sobre um poeta. Logo, afugentaria o público não afeito ao gênero e aguçaria a vontade de mergulhar na obra do biografado em questão – neste caso, o sulmatogrossense Manoel de Barros – aos mais aficionados. Nada, no entanto, é preto no branco quando falamos do poeta. A obra de Barros é tão rica e tão cotidianamente simples ao mesmo tempo, que até o menos entusiasta se derreterá com o estilo. Digo isso por experiência própria. Nunca me interessei por poesia, sempre preferi a prosa. Mas ao final do documentário assinado por Pedro Cezar, tive uma vontade imensa em descobrir mais da obra de Manoel de Barros. Quer resultado final melhor para um documentário tão desbiográfico? Isso sem contar os prêmios já recebidos, incluindo a distinção como Melhor Documentário no II Festival Paulínia de Cinema e no V Fest Cine Goiânia 2009.

Cezar é o roteirista, diretor e narrador do filme e, logo de início, conta sobre a dificuldade que teve para convencer o biografado a ceder uma pequena entrevista em vídeo. Barros não gosta de “traquitanas” que o gravem de improviso. “A palavra falada não tem rascunho”, já escreveu o poeta. Por isso, sempre que se sentiu obrigado a dar alguma entrevista, respondia com texto. Com o projeto praticamente sepultado pela recusa do biografado, Cezar não viu outro jeito senão desistir da empreitada – sem antes lamentar em frente ao poeta por não poder realizar seu sonho. Depois desta frase, Manoel de Barros aquiesceu. Talvez o sentimentalismo neste senhor de 93 anos tenha falado mais alto.

Durante a entrevista, Manoel de Barros afirma ser um homem que nunca saiu da infância. No entanto, demonstra uma sabedoria ímpar para uma eterna criança. Sempre humilde, e até desdenhoso do seu trabalho, Barros fala da importância que a poesia tem em sua vida, de como as palavras lhe chegam e tantos outros devaneios poéticos que lhe surgem à mente durante o bate-papo com Pedro Cezar.

“Ele é um poeta em tempo integral”, afirma seu irmão, Abílio, em uma das passagens do documentário. Além dele, são entrevistados a esposa, seus filhos, amigos e artistas renomados que beberam na fonte da poética de Manoel de Barros. Dentre eles, o falecido jornalista Fausto Wolff, o cineasta Joel Pizzini, a poetisa e atriz Elisa Lucinda, entre vários outros. Durante a narrativa, todos são tratados apenas pelo primeiro nome, como se fizessem parte de uma grande conversa informal sobre a importância da obra do biografado.

O longa-metragem é todo permeado por frases do poeta. “Noventa por cento do que escrevo é invenção. Só dez por cento é mentira”, poema que dá nome ao filme, é apenas um entre tantos petardos que Manoel de Barros já escreveu em mais de 20 livros. Além das frases e dos depoimentos, são montadas pequenas esquetes homenageando a obra do autor, como o ator Paulo Gianini, que faz as vezes de inventor de desobjetos estranhosos como o esticador de horizontes, o prego de várias cabeças, todos saídos da cabeça criativa do poeta sulmatogrossense.

Por conseguir fazer jus à obra de Manoel de Barros, sendo reverente a tal ponto de não colocar a história do homem em frente ao poeta, Pedro Cezar faz de Só Dez Por Cento é Mentira um excelente documentário, aguçando no espectador a vontade de conhecer a fundo a obra do biografado. Mantendo-se poético, mas também informativo, o longa-metragem do cineasta é um bom ponto de partida para quem quer conhecer uma figura rara como este artista. Mesmo que, segundo ele, o espectador acabe encontrando mais escombros do que homem. Mais uma invenção (ou talvez mentira) de um grande poeta.

Só Dez Por Cento é Mentira
Dir.: Pedro Cezar
Cotação Paradoxo: Vale 98% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de Só Dez Por Cento é Mentira:

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Tá Rindo do Quê?

Gente Engraçada

Judd Apatow vinha sendo saudado como o Midas da comédia norte-americana depois de suas duas bem sucedidas incursões na direção em O Virgem de 40 Anos (2005) e Ligeiramente Grávidos (2007). Ambos foram sucessos de bilheteria e receberam uma ótima resposta da crítica especializada, que geralmente torce o nariz para o gênero cômico. Era de se esperar que seu terceiro trabalho, Funny People, continuasse a trilha de sucesso do cineasta. O elenco conta com um ator do gosto do grande público, Adam Sandler (de O Paizão), dividindo a tela com o amuleto da sorte do cineasta, o talentoso Seth Rogen. Algo, no entanto, saiu errado no meio do caminho e o filme, que custou 75 milhões de dólares, acabou não se pagando em solo norte-americano. Com a recepção abaixo do esperado pelo público, Funny People foi relegado a um lançamento direto em DVD no Brasil, com o título de Tá Rindo do Quê?. E é essa a pergunta que muitos farão ao final do longa-metragem.

Na trama, assinada pelo próprio diretor, o popular comediante e ator George Simmons (Sandler) descobre que está com uma doença terminal e que sua única chance de cura é um tratamento alternativo que tem apenas 8% de chances de surtir efeito. Deprimido com sua situação, sem amigos próximos para dividir o peso da notícia, Simmons decide visitar uma notória casa de stand up, a Improv, onde se apresentada no início da carreira, para retornar às raízes. Lá, conhece o novato Ira Wright (Rogen), um comediante que chama a atenção pelo potencial, e que logo é contratado por Simmons para escrever novas piadas e auxiliá-lo em questões gerais (desde vender seus carros a trazer refrigerante). A enfermidade coloca o comediante em estado crítico crescente, sempre se perguntando se esta é a vida que ele tanto sonhara. O que mais faz Simmons sofrer é ter perdido sua namorada – a hoje casada e com dois filhos Laura (Leslie Mann, esposa do diretor e atriz de Ligeiramente Grávidos). Por isso, o comediante tentará recuperar sua amada de qualquer forma, mesmo que isso custe dar fim a uma família.

Mostrando que, quando bem dirigido, consegue atuações acima do seu normal, Adam Sandler convence em um personagem escrito sob medida para ele. George Simmons é, de certa forma, uma versão mal humorada e auto-centrada de Sandler (levando em conta que o ator não seja realmente assim na vida real). Basta ver os filmes fictícios que Simmons estrelou (besteiras como o “homem sereia” ou o marmanjo que vira bebê) e dá para se ter uma noção de que o ator que encabeçou filmes como O Rei da Água e Little Nicky não está tão longe de sua versão fictícia. Sandler consegue extrair amargura e um ótimo senso de humor negro na primeira metade de Tá Rindo do Quê?, fazendo com que o espectador acredite no mau momento porque passa o personagem. É interessante notar que o personagem passa por transformações durante a narrativa, mas quase nenhuma é perene, visto que o estado de espírito de Simmons é praticamente imutável. Doente ou não, sua solidão será sempre sua companheira, mesmo que ele tente se enganar com um novo começo.

Seth Rogen também é um destaque positivo, imprimindo ingenuidade e doçura na medida, contrastando com seus números de stand up, que geralmente pendem para o grotesco e para o escatológico. A dobradinha entre Rogen e Sandler é o que acaba segurando Ta Rindo do Quê? de despencar ladeira abaixo. Isso porque o roteiro acaba se perdendo depois da primeira metade, se tornando uma perseguição atrás da mulher perdida. Todo o segmento envolvendo a casa de Laura é incrivelmente longo e deixa o filme pesado demais. Nem a notável (e até surpreendente) atuação cômica de Eric Bana (de Munique) consegue afastar o sentimento de que faltou a Judd Apatow um maior distanciamento crítico na hora de decidir o que ficava e o que caía fora do seu longa-metragem. Explico: é nesse segmento que sua esposa, Leslie Mann, e suas duas filhas, Maude e Íris Apatow, ganham tempo de tela.

Além de aparentemente lhe faltar este distanciamento, Apatow tem sérios problemas com o andamento da narrativa, totalmente frouxa. As situações demoram demais para acontecer e isso vai aumentando a metragem do filme, que termina com exagerados 146 minutos. Tamanho de épico para uma comédia que poderia facilmente ser enxugada.

Com algumas ótimas piadas, com bons coadjuvantes como Jonah Hill (de Superbad) e Jason Schwartzmann (de Viagem a Darjeling) e com diversas participações especiais interessantes (Paul Reiser, do seriado Mad About You, Ray Romano, de Everybody Loves Raymond, Charles Fleisher, a voz do personagem principal de Uma Cilada para Roger Rabbit), Ta Rindo do Quê? pode não ser tão divertido quanto os dois filmes anteriores do cineasta, mas também não é razão para se decretar terra arrasada. É longo demais e tem algumas cenas que facilmente poderiam ficar de fora. Mas, no geral, é um entretenimento sólido, trabalha muito bem os bastidores do showbusiness, é auto-referencial sem ser petulante e diverte mais do que incomoda. Poderia ser melhor, levando-se em conta o talento de Judd Apatow e Seth Rogen. Por outro lado, poderia ser muito pior, ao notarmos quem é o protagonista da história e os abacaxis que já estrelou. A balança fica equilibrada no fim das contas.

Tá Rindo do Quê? (Funny People)
Dir.: Judd Apatow
Com Adam Sandler, Seth Rogen, Leslie Mann, Jonah Hill, Jason Schwartzmann, Eric Bana
Cotação Paradoxo: Vale 70% do ingresso

Confira o trailer de Tá Rindo do Quê?:

quarta-feira, 19 de maio de 2010

O Preço da Traição

Atração Fatal

Sedução, desconfiança, traição e falta de diálogo. Palavras que resumem o universo que habitam os personagens de O Preço da Traição, filme do cineasta egípcio Atom Egoyan (de A Verdade Nua). Ajudado por uma dupla talentosa encabeçando o elenco, e com um belo rosto despontando ao estrelato, Egoyan consegue prender o espectador com uma boa trama, com lapsos de Atração Fatal.

Adaptado da produção francesa Nathalie, o roteiro de O Preço da Traição é assinado por Erin Cressida Wilson (de A Pele) e é centrado em Catherine (Julianne Moore, de Ensaio sobre a Cegueira), uma mulher casada há anos, mas que vem percebendo que seu relacionamento com o marido, David (Liam Neeson, de Busca Frenética), não anda nada bem. No dia do aniversário do companheiro, Catherine prepara uma festa surpresa em sua casa, mas David acaba não aparecendo, alegando ter perdido o vôo. Isso, atrelado a uma mensagem suspeita no celular do marido, dispara na mulher uma desconfiança sem igual. Para provar que David a trai, Catherine resolve contratar uma garota de programa, Chloe (Amanda Seyfried, de Mamma Mia!), para se aproximar do marido e testar sua reação. No entanto, as coisas acabam não saindo como o imaginado.

Amanda Seyfried vive a personagem que dá nome ao filme (nos Estados Unidos, ao menos) e até consegue convencer quando não precisa ir aos extremos. Em cenas nas quais é necessária raiva, por exemplo, a jovem atriz mostra que ainda está verde, precisando de mais experiência para encarar um papel como este. Sua beleza e seus expressivos olhos lhe valeram o papel, mas no momento do clímax, faltou um pouco de estofo para conseguir convencer totalmente. Liam Neeson tem pouco tempo de tela para poder extrair mais de seu David, mas consegue manter um padrão em suas intervenções.

O filme, no fim das contas, é realmente de Julianne Moore. A atriz consegue deixar interessante qualquer papel que interprete. E está máxima continua intacta em O Preço da Traição. Vivendo uma personagem que não consegue conviver com a infidelidade do marido, Moore parte para um plano praticamente inconcebível para qualquer pessoa com juízo. Seu relacionamento com Chloe e sua vontade de trazer à tona a verdade acabam tirando totalmente do prumo aquela mulher. Julianne Moore consegue de forma competente nos fazer parceiros de sua jornada.

O Preço da Traição peca, apenas, por um final desajeitado e bastante apressado. Parece que os produtores perceberam tardiamente de que era necessário um desfecho e o incluíram nos últimos segundos, apenas para amarrar as pontas. Outro fator que vota contra o filme são as cenas de adultério entre Liam Neeson e Amanda Seyfried. E se você não viu o filme, pule para o próximo parágrafo. SPOILER Ao tentar enganar o espectador, o filme nos mostra cenas entre Neeson e Seyfried que ilustram os depoimentos da garota de programa. Não seria problema caso estas cenas não fossem concentradas apenas no início da trama. Como elas somem no decorrer da narrativa, fica claro que David não traía a mulher, visto que o “grande narrador” nunca mostrava o adultério e deixava apenas Chloe relatando os fatos. Das duas uma: ou Atom Egoyan teria de escolher ilustrar todos os depoimentos, ou não ilustrar nenhum. Da forma como ficou, além de óbvio, fica na cara o truque sujo para confundir o público. FIM DO SPOILER

Apesar dos pesares, O Preço da Traição consegue entreter o suficiente com sua trama sensual e com seus perdidos personagens. Por fim, é interessante perceber que o cineasta utiliza toda a trama para dar apenas um conselho ao espectador: o diálogo em um casamento é fundamental. Se vários problemas da vida real podem ser resolvidos com uma boa conversa franca, é exatamente isso que falta no casal protagonista deste bom drama picante.

O Preço da Traição (Chloe)
Dir.: Atom Egoyan
Com Julianne Moore, Liam Neeson, Amanda Seyfried, Max Thieriot
Cotação Paradoxo: Vale 70% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de O Preço da Traição:

terça-feira, 18 de maio de 2010

Antes que o Mundo Acabe

Pedra Grande

Uma das carências do cinema nacional pode estar sendo suprida em 2010: os filmes adolescentes. Fazia tempo que não se via tantas produções que retratam o jovem brasileiro de forma tão fiel e que, realmente, podem dialogar com os espectadores dessa geração. Já vimos passar pelas salas de exibição neste ano Os Famosos e os Duendes da Morte, de Esmir Filho, e As Melhores Coisas do Mundo, de Laís Bodanzky – dois filmes que conversam com o seu público alvo de forma bastante diferente, mas com ótimos resultados. Somando-se a esta dupla, Antes que o Mundo Acabe, longa-metragem de estreia da cineasta Ana Luiza Azevedo, e temos uma forte trinca de belas produções que apontam sua câmera para uma das fases mais belas e conturbadas de nossas vidas: a adolescência.

Vencedor de seis prêmios no 2º Festival Paulínia de Cinema (dentre eles, Melhor Filme segundo a crítica e Direção) e laureado como Melhor Filme de Ficção Brasileiro na 3ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, Antes que o Mundo Acabe tem roteiro escrito a oito mãos (Ana Luiza Azevedo, Giba Assis Brasil, Jorge Furtado e Paulo Halm), baseado no livro de Marcelo Carneiro da Cunha.

Daniel (Pedro Tergolina) está apaixonado por sua namoradinha do colégio, Mim (Bianca Menti), mas está sofrendo por ela ter pedido um tempo. A situação piora quando Daniel descobre que seu melhor amigo, Lucas (Eduardo Cardoso), está saindo com a garota, fato que os dois escondem. Em casa, a vida de Daniel não está muito melhor. O seu pai (Eduardo Moreira), que nunca havia dado sinal de vida, lhe escreve uma carta dizendo que mora na Tailândia e que trabalha como fotógrafo de guerra. Este contato acaba colocando mais dúvidas na cabeça do garoto, que tem uma vida pacata ao lado de sua mãe, Elaine (Janaína Kramer), do pai adotivo, Antônio (Murilo Grossi) e da irmã, Maria Clara (Caroline Guedes). Será que um relacionamento com seu pai biológico é algo que cabe na vida de Daniel agora?

Demonstrando uma grande sensibilidade ao tratar de assuntos como amizade, namoro e a ausência paterna, Ana Luiza Azevedo acerta a mão em seu primeiro longa-metragem, depois de ter demonstrado talento em curtas como Dona Cristina Perdeu a Memória (2002) e Três Minutos (1999). A grande força de Antes que o Mundo Acabe reside nos personagens bem desenhados pelo roteiro e as situações corriqueiras vividas por eles, altamente identificáveis com o espectador.

O elenco juvenil tem seus altos e baixos, mas consegue convencer em seus papéis. O grande destaque do casting é a garotinha Caroline Guedes, que dá um show como a esperta irmã de Daniel, Maria Clara. Além de ter uma naturalidade única em cena, a atriz mirim serve como narradora da história, trazendo o imaginário infantil para dentro da trama. Mesmo que o tipo de narração usada não seja inédita, remetendo diretamente a outros trabalhos da Casa de Cinema de Porto Alegre (Ilha das Flores, O Homem que Copiava), ela ainda funciona.

Os adultos também têm papel importante na trama e tem boas performances. Destaque para os pais de Daniel, Eduardo Moreira e Murilo Grossi, que, cada um do seu jeito, conseguem cativar o espectador por suas visões de mundo totalmente diversas. Enquanto um sai ao redor do mundo para retratar as misérias do mundo, o outro resolve os problemas do dia-a-dia de forma bastante prática: fazendo pão.

Além de utilizar muito bem o cenário do interior do Rio Grande do Sul (a história se passa na cidade fictícia de Pedra Grande, mas foi filmada em Taquara, Rolante e Santo Antônio da Patrulha), Ana Luiza Azevedo também aponta sua câmera para Porto Alegre, mostrando alguns pontos característicos da cidade. É sempre bom ver a capital dos gaúchos na telona, até porque não é sempre que nos é dado esta oportunidade. A Casa de Cultura Mário Quintana, a Esquina Democrática e outros pontos reconhecíveis da cidade são capturados com vivacidade pela cineasta. Sua câmera parece traduzir o que os jovens da trama sentem ao visitar Porto Alegre.

Redondinho, Antes que o Mundo Acabe é mais um bom título nacional voltado ao público adolescente que, como os demais lançados este ano, também deve agradar aos espectadores que já passaram desta fase. Para uma cinematografia que se ressentia de mais títulos com esta veia teen, 2010 tem sido um ano com ótimas produções. Basta torcer para que o público encontre estes títulos no cinema, em uma época que os blockbusters de Hollywood invadem as salas de todo o país.

Antes que o Mundo Acabe
Dir.: Ana Luiza Azevedo
Com Pedro Tergolina, Eduardo Cardoso, Bianca Menti, Caroline Guedes, Janaína Kremer, Eduardo Moreira, Murilo Grossi, Irene Brietzke e Carlos Cunha
Cotação Paradoxo: Vale 90% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de Antes que o Mundo Acabe:

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Robin Hood

Never Give up

A onda de histórias que retratam a gênese de heróis conhecidos está bastante em voga em Hollywood desde o sucesso de Batman Begins, em 2005. A partir de então, cada novo projeto é tido como um novo Begins. Tivemos a ressurreição de James Bond em Casino Royale (2006), as origens do mutante de garras de adamantium em X-Men Origens: Wolverine (2009), a reimaginação das aventuras do detetive particular da Baker Street em Sherlock Holmes (2009) e, agora, um novo início para o fora-da-lei de Nottingham, Robin Hood. Bem ou mal sucedidos, estes projetos têm em comum mais um ponto: são amados ou odiados pelos fãs dos personagens retratados. Um meio termo é difícil quando alguns fatos são tomados com tamanha liberdade pelos realizadores dos filmes em questão. Desta forma, não é difícil entender a resposta tão polarizada em relação à nova parceria entre o diretor Ridley Scott e Russel Crowe, ambos de Gladiador.

A produção de Robin Hood foi bastante demorada e teve em seu roteiro um dos maiores problemas. O texto original foi reescrito inúmeras vezes. Em sua gênese, o projeto tinha como título Nottingham e trocaria os papéis habituais, colocando a história na ótica do Xerife. Em outra versão, Xerife e Robin Hood seriam a mesma pessoa – ou, ao menos, interpretados pelo mesmo ator, Russel Crowe. Até que Ridley Scott decidiu por uma total revisão do texto de Ethan Reiff e Cyrus Voris (Kung Fu Panda), assinada por Brian Helgeland (de Zona Verde), que mostraria o começo da lenda do homem que roubava dos ricos para dar aos pobres.

Robin Longstride (Crowe) é um valoroso súdito do Rei Ricardo Coração de Leão (Danny Huston, de Fim da Escuridão), participando de inúmeras batalhas durante as cruzadas. Quando o rei é abatido em um combate, Robin e seus parceiros, Little John (Kevin Durand, de X-Men Origens – Wolverine), Will Scarlet (Scott Grimes, de Band of Brothers) e Alan A’Dayle (o músico Alan Doyle), decidem abandonar o barco e fazer seu próprio destino. No entanto, seus planos acabam interferindo com os do mau-caráter Godfrey (Mark Strong, de Sherlock Holmes), que emboscara a comitiva de Coração de Leão na tentativa de roubar a coroa que estava a caminho do castelo. Em meio à confusão, o grupo de Robin consegue afugentar os capangas de Godfrey e salvar a coroa. Neste momento, Longstride conhece Sir Robert Loxley (Douglas Hodge, de Feira das Vaidades) à beira da morte, que lhe pede um favor: devolver sua espada a seu pai, Sir Walter (Max von Sydow, de Ilha do Medo), em Nottingham. Robin aceita a tarefa a contragosto, partindo para o vilarejo e, desta forma, conhecendo Marion (Cate Blanchett, de Não Estou Lá), a viúva de Loxley. Mas os dias de luta de Robin não acabaram, visto que o novo rei, John (Oscar Isaac, de Rede de Mentiras), não tem popularidade junto a seu povo e uma guerra civil está próxima de acontecer. Tudo orquestrado por Godfrey, que trabalha junto ao rei da França para desestabilizar o novo monarca.

Em sua quinta parceria com Ridley Scott, Russel Crowe consegue fugir um pouco de sua usual expressão taciturna, interpretando corretamente o herói Robin Hood, imprimindo até alguma simpatia ao personagem. As cenas de batalha não são problema para o ator, visto seu histórico como Maximus em Gladiador. Apesar de ser velho para o papel, Crowe encabeça bem o elenco. Cate Blanchett dá a Lady Marion uma veia de bravura, escapando de uma usual visão da moça em perigo, entrando na ação e sendo uma parceira sob medida a Robin Hood.

Na área dos vilões, Mark Strong novamente consegue conceber um vilão interessante, mesmo que não precise fazer muita força para tal. Sua caracterização, com cicatriz herdada de uma flechada quase certeira de Robin, dá uma boa bengala ao personagem. O Xerife de Nottingham, interpretado com bom humor por Matthew Macfadyen (de Frost/Nixon), aparece pouco – provavelmente sendo guardado para uma certeira continuação. O elenco, como um todo, está bastante correto. Gosto bastante da verve bestial que Kevin Durand (o mr. Keamy, de Lost) dá a seus personagens, e seu Little John também é um destaque.

Longe de ser um grande épico, como aparentemente Ridley Scott esperava, Robin Hood termina sendo uma boa aventura, bem trabalhada, com uma boa fotografia, boa música e uma narrativa bem construída. Poderia ser mais curto e trazer mais do Robin Hood que todos conhecemos. O que parece é que tudo ficou guardado para uma continuação. Temos as peças no tabuleiro, mas ninguém começou a jogar ainda. Para uma introdução, é um filme longo demais. Mas diverte o suficiente, afinal de contas, o objetivo de um longa-metragem sobre o príncipe dos ladrões. Felizmente, desta vez, sem Bryan Adams.

Robin Hood
Dir.: Ridley Scott
Com Russel Crowe, Cate Blanchett, Max von Sydow, William Hurt, Mark Strong, Oscar Isaac, Danny Huston, Eileen Atkins, Mark Addy, Matthew Macfadyen, Kevin Durand, Scott Grimes, Alan Doyle, Douglas Hodge
Cotação Paradoxo: Vale 75% do ingresso

Confira o trailer legendado de Robin Hood logo abaixo:

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Aproximação

Gaza

É sempre bom ver Juliette Binoche em cena. A atriz francesa tem um currículo invejável, já tendo trabalhado de forma irretocável com diretores do calibre de Jean-Luc Godard, Louis Malle, Krzysztof Kieslowski e Michael Haneke. Foi surpresa, portanto, encontrar a atriz tão deslocada em sua performance em Aproximação, longa-metragem assinado pelo cineasta israelense Amos Gitai. É bem verdade que o roteiro acaba não ajudando a atriz, que consegue convencer a partir de sua metade final, quando a trama encontra seu eixo. Mas até lá, o longa-metragem de Gitai requer paciência do espectador.

Com roteiro assinado pelo próprio diretor, junto de sua recorrente colaboradora Marie-Jose Sanselme, o filme é centrado em Ana (Binoche) e Uli (Liron Levo, de Strangers). Eles são meio-irmãos que acabaram de perder o pai, mas têm uma forma diferente de encarar este falecimento. Ana parece radiante com a morte do velho, enquanto que Uli sempre se mostra taciturno em relação a isso. Ao tentar forjar o testamento, Ana conhece a advogada do pai, Françoise (Jeanne Moreau, do clássico Jules e Jim), que lhe informa que existe apenas uma herdeira para todos os bens: Dana (Dana Ivgy, de Jaffa), neta do falecido que fora abandonada por Ana ainda pequena e que, atualmente, mora em Gaza.

Agora, Ana precisa encontrar sua filha, mesmo que precise entrar em Gaza em um momento bombástico: a desocupação dos residentes israelenses. Uli faz parte da equipe que deverá retirá-los e, nesse meio tempo, tentará ajudar sua irmã a entrar em Gaza. Mas as dificuldades podem ser maiores que as previstas.

Amos Gitai adora deixar sua câmera em cima dos atores, elaborando grandes planos-sequência, com algumas ótimas soluções de enquadramentos. Em Aproximação, esta preferência continua intacta. O prólogo, que nos mostra o encontro de Uli com uma viajante palestina, é todo contado em uma grande tomada ininterrupta. Em outras boas cenas, como a do funeral ou do reencontro entre mãe e filha, a câmera se mantém sempre ligada, capturando cada momento, sem cortes. Por um lado, este recurso nos transporta para a cena. Como se estivéssemos dentro do conflito, por exemplo, se formos observar a desocupação de Gaza. Por outro, deixa o filme com um ritmo bastante lento, o que pesa bastante em sua primeira metade.

É nesta parte, aliás, que Binoche tem uma atuação caricata, tentando dar vida a uma personagem fútil e desinteressante. Foi estranho assistir a bela atriz francesa tão deslocada em um papel. Depois da leitura do testamento, Binoche parece finalmente se encontrar, dando um show ao chegar a Gaza. Já seu parceiro de tela, Liron Levo, consegue uma boa performance durante todo o filme. Talvez por ter pego um personagem mais reservado, o ator tenha levado vantagem por não precisar arriscar tanto quanto Binoche.

Por demorar tanto em chegar ao que interessa, Aproximação acaba cansando no seu início. Felizmente, em sua segunda metade, o longa-metragem ganha uma injeção de ânimo. Muito por causa da jornada de Ana à procura de sua filha, carregada de culpa e remorso.

Aproximação é um bom drama, que carece da cumplicidade do espectador para transpor a lenta primeira metade. Depois disso, somos brindados com a boa história de uma mulher perseguindo seus demônios e a visão de Gitai sobre mais um momento sofrido do povo hebraico, com cenas caóticas, que prendem o espectador pela total crueza.

Aproximação (Disengagement)
Dir.: Amos Gitai
Com Juliette Binoche, Liron Levo, Jeanne Moreau, Barbara Hendricks, Dana Ivey, Hiam Abbas
Cotação Paradoxo: Vale 70% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de Aproximação:

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Missão Quase Impossível

Show de Vizinho

O diretor Brian Levant tem uma carreira alicerçada em produções leves, familiares e otimistas. Beethoven (1992), Os Flintstones (1994) e Um Herói de Brinquedo (1996) são alguns de seus trabalhos mais relevantes. Podem não ser obras primas, mas chegam ao público esperado de forma correta. Em Missão Quase Impossível, o cineasta continua sua trajetória de filmes-família dirigindo Jackie Chan (de A Hora do Rush) em uma aventura endereçada para o público infantil. O resultado final é bem abaixo do esperado, mas pode funcionar com crianças bem pequenas.

A história é assinada por James Greer e Jonathan Bernstein (de Sorte no Amor), com ajuda de Gregory Poirier (de A Lenda do Tesouro Perdido 2). Na trama, Bob Ho (Jackie Chan) é um agente da CIA que está se aposentando, após anos de trabalhos bem sucedidos. Seu último caso foi prender o vilão russo Poldark (Magnus Scheving, da série Lazytown), que logo consegue escapar do cárcere.

Bob namora a mãe de família Gillian (Amber Valleta, de Hitch) e seu relacionamento é envolto em segredos. Com a aposentadoria, Bob decide contar a verdade sobre sua profissão, mas logo é interrompido por Gillian. Ela pensa que antes de um envolvimento mais sério, seus três filhos deverão aceitar o seu novo relacionamento. A tarefa não é fácil, pois os pequenos têm personalidades fortes. Farren (Madeline Carroll, de Promessas de um Cara de Pau) é uma adolescente rebelde e frustrada com a ausência do pai. Ian (Will Shadley, do inédito no Brasil RoboDoc) é uma criança inteligentíssima, mas que tem problemas com os valentões do colégio. E Nora (Alina Foley, da novela Days of Our Lives), bem... ela não faz nada, pois só tem 4 anos. Quando uma das crianças acidentalmente faz o download de um arquivo secreto no computador de Bob, os bandidos partem ao encalço da família de Gillian e o ex-espião terá de salvá-los.

Parece que existe um contrato em Hollywood: se você é um ator de ação, deverá fazer, em algum ponto da carreira, um filme cômico no qual contracenará com crianças. Foi assim com Arnold Schwarzenegger em Um Tira no Jardim de Infância (1990), Hulk Hogan em Mr. Nanny (1993), Vin Diesel em Operação Babá. Jackie Chan é o mais novo da lista, apesar de já ter feito muitas comédias e filmes leves em sua carreira. O ator é o que de melhor Missão Quase Impossível oferece. Sua caracterização como espião e geek estão corretas – lembrando sempre que estamos falando de um filme infantil, é claro. E suas cenas de ação, mesmo sendo raras, ainda divertem pelo malabarismo.

Já as crianças são um caso à parte. Era de se esperar que um diretor versado em filmes família soubesse dirigir – ou escolher – melhor seu elenco infantil. Nenhuma das três se salva, com atuações forçadíssimas. Outro que merece destaque negativo é o vilão Poldark, interpretado pelo islandês Magnus Scheving. Seu sotaque russo é terrível, apesar de ter alguns bons momentos cômicos com a troca de roupas recorrentes de seu personagem. De novo, deve funcionar com crianças bem pequenas.

O que não funciona para os adultos, certamente, é o estilo cada vez mais irritante do diretor Brian Levant em inundar seu filme com Mickey Mousing na trilha sonora. Essa técnica, que, como diz o nome, tem inspiração no personagem da Disney, é definida como a sincronização da música com as ações dos personagens. Desde os tempos de Beethoven o cineasta fazia isso. Mas em Missão Quase Impossível, a trilha de David Newman é invasiva demais, acompanhando praticamente toda a metragem do filme e sempre comentando de forma engraçada ou pretensamente ameaçadora os momentos da trama. Quase como um desenho animado – e daí mesmo vem o nome Mickey Mousing.

Para os fãs de Jackie Chan, sobram os minutos inicias, que citam vários dos filmes de ação do passado do ator (com acompanhamento da sempre requisitada Secret Agent Man de Johnny Rivers) e as poucas cenas de luta coreografada ao longo da trama. De resto, Missão Quase Impossível é recomendado apenas para crianças pequenas. E olhe lá.

Missão Quase Impossível (The Spy Next Door)
Dir.: Brian Levant
Com Jackie Chan, Amber Valetta, Madeline Carroll, Will Shadley, Alina Foley, Magnús Scheving, Billy Ray Cyrus, George Lopez, Katherine Boecher
Cotação Paradoxo: Vale 42% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de Missão Quase Impossível:

terça-feira, 11 de maio de 2010

Cadê os Morgan?

They Can Work it Out

Marc Lawrence dirigiu, até hoje, apenas três filmes. Todos eles contam com Hugh Grant como seu galã principal e, claro, são comédias românticas. Até porque o próprio ator já revelou se sentir mais a vontade com o gênero, não costumando fugir muito disto. Em sua terceira parceria, Cadê os Morgan?, ator e diretor dão um passo para trás em sua trajetória. Com um começo mediano em 2002, com Amor a Segunda Vista, a dupla conseguiu um resultado mais interessante no simpático Letra & Música, em 2007. Não era uma obra prima, mas tinha ótimos momentos e um roteiro bastante inventivo. Portanto, era de se esperar um resultado igual ou melhorado em sua nova empreitada. Com poucos momentos realmente engraçados, e com um casal com química praticamente inexistente, Cadê os Morgan? é um programa abaixo do mediano.

O roteiro é do próprio diretor e tem uma premissa até inovadora para uma comédia romântica: casal em crise testemunha um assassinato e se vê obrigado a largar a cidade grande e partir para um fim de mundo, onde serão protegidos pelo FBI. Enquanto o assassino estiver à solta, as mordomias de Nova York ficarão distantes do casal, que terá de resolver seus problemas pessoais e ainda se esconder de um perigoso bandido. Hugh Grant e Sarah Jessica Parker (do seriado Sex and the City) formam o casal em crise, Paul e Meryl Morgan, enquanto que o bandido é vivido por Michael Kelly (de Código de Conduta).

De Nova York, a dupla é enviada para o pequeno vilarejo de Ray, em Wyoming, onde são hospedados pelo xerife da cidade, Clay (Sam Elliot, de Amor sem Escalas) e sua esposa, a durona Emma Wheeler (Mary Steenburgen, de A Proposta). Entre peripécias com ursos, passeios a cavalo e treinos de tiro ao alvo, os Morgan começarão a notar que os problemas que os faziam ficarem separados não parecem mais tão grandes. Principalmente com um assassino à solta em seu encalço.

Hugh Grant é um especialista em comédias românticas e o seu timing cômico é usualmente bem afiado. Mas neste caso, o ator demora em encontrar o tom do personagem. As melhores piadas são de Paul Morgan, apesar de serem em menor número que o desejado. Enquanto isso, Sarah Jessica Parker carrega de neuroses sua Meryl, criando uma personagem que simplesmente não consegue ficar de boca fechada. Culpa do roteiro, por não ter incluso boas piadas para um personagem verborrágico, culpa da atriz, por demorar quase o filme todo para se encontrar no papel. A falta de química entre os dois é um ponto a ser ressaltado. É difícil imaginar que Paul e Meryl um dia foram casados e que ainda desejam, de alguma forma, se manterem unidos.

O contrário é verdadeiro ao apontarmos nossa atenção para Sam Elliot e Mary Steenburgen. A dupla faz um ótimo trabalho como coadjuvantes, convencendo como um casal e criando personagens realmente interessantes – mesmo que carreguem um clichê aqui e ali. Os bons momentos do filme têm um ou o outro envolvidos. Digno de nota também é a trilha musical, bastante beatle, com ótimas canções de George Harrison, Paul McCartney, Stevie Wonder (e sua ótima regravação de We Can Work it Out), entre outros.

Cadê os Morgan? tenta se sustentar com gags físicas, que nem sempre funcionam – a cena do urso não era engraçada no trailer e continua ruim no filme – e nas piadas de Hugh Grant, que também não são infalíveis. Previsível como qualquer comédia romântica – mas sem a comicidade e o romance esperados – o longa-metragem de Marc Lawrence é um capítulo esquecível da filmografia de ambos. Válido apenas para entusiastas xiitas do gênero ou para fãs incondicionais de Sarah Jessica Parker e Hugh Grant.

Cadê os Morgan? (Did you Hear About the Morgans?)
Dir.: Marc Lawrence
Com Hugh Grant, Sarah Jessica Parker, Sam Elliot, Mary Steenburgen, Michael Kelly, Elisabeth Moss, Jesse Liebman, Kim Shaw
Cotação Paradoxo: Vale 45% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de Cadê os Morgan?:

segunda-feira, 10 de maio de 2010

A Hora do Pesadelo

One, Two, Freddy’s Coming for You

Confesso que nunca fui um grande fã de Freddy Krueger. Talvez até por nunca ter dado chance ao serial killer. Só havia assistido a alguns trechos de filmes aqui e acolá, quando passavam na televisão. Sou de uma época que A Hora do Pesadelo - ou qualquer continuação – passava no horário da tarde, no SBT. Enfim, nunca tive paciência para conferir nada na íntegra do assassino imortalizado por Robert Englund – salvo o divertido Freddy VS Jason. No entanto, ao saber que o remake do clássico de Wes Craven estava por vir, resolvi conferir o primeiro longa-metragem, lançado em 1984. E não me arrependi. Um ótimo filme de terror, com boas cenas sangrentas e um vilão icônico em sua gênese. Pena que o mesmo não pode ser dito de sua refilmagem, produzida 26 anos depois da original.

Com roteiro assinado por Wesley Strick (de A Casa de Vidro) e por Eric Heisserer (do ainda inédito remake de A Coisa), baseado livremente em personagens e situações criadas por Wes Craven, este novo A Hora do Pesadelo tem o clipeiro Samuel Bayer como diretor. A ficha corrida do cineasta no quesito videoclipes é empolgante. Smells Like Teen Spirit, do Nirvana, No Rain, do Blind Melon, Zombie, do Cramberries, Anybody Seen My Baby, dos Rolling Stones, American Idiot, do Green Day. Todos trabalhos interessantes dentro do seu métier. Mas como bem sabemos, clipes não são filmes. E segurar a atenção do espectador por mais de cinco minutos, sem a música da sua banda favorita para ajudar, é realmente complicado.

Na trama, jovens começam a sonhar com uma figura misteriosa, com uma luva cheia de lâminas pontiagudas, o rosto desfigurado e um suéter vermelho e verde. Os pesadelos, cada vez mais reais, começam a literalmente matar qualquer um que tenha o azar de dormir e encontrar com aquele monstro. É o que diria Dean Russel (Kellan Lutz, de Crepúsculo) caso ainda estivesse vivo. Seu pesadelo foi tão real que Dean acabou tirando sua própria vida em frente a uma atônita amiga, Kris (Katie Cassidy, do seriado Melrose Place). Ela também passa a sonhar com aquela figura misteriosa, assim como seus amigos Nancy (Rooney Mara, do ainda inédito no Brasil Juventude em Revolta), Quentin (Kyle Gallner, o Flash do seriado Smallville) e Jesse (Thomas Dekker, o John Connor do seriado Terminator: The Sarah Connor Cronicles). Mal eles sabem que quem assombra suas noites de sono é Freddy Krueger (Jackie Earle Haley, de Watchmen), uma figura que não descansará enquanto não causar um grande terror nos habitantes da rua Elm.

É sempre difícil retrabalhar uma figura icônica quanto Freddy Krueger, mas acredito que Earle Haley consegue sair-se bem nos sapatos – e luvas – que foram de Robert Englund. Sua interpretação do vilão está muito mais próxima do primeiro longa-metragem, de 1984, no qual Freddy ainda era um assassino extremamente sério e assustador – e não o sarcástico que viria a ser nos próximos filmes da série. Para os fãs deste Krueger mais diabolicamente engraçado, o remake será um banho de água fria. No entanto, para quem espera ver um antagonista com real sede de sangue, sem tempo para contar piadinhas, talvez este seja um retrato mais próximo. Haley capricha na voz cavernosa e até solta algumas tiradas irônicas.

O que acabou atrapalhando o ator foi a construção do personagem pelos efeitos especiais. Na tentativa de compor um vilão que aparentasse ser realmente uma vítima de um incêndio, os produtores extrapolaram a linha, criando uma figura que está mais para uma mistura de Mason Verner (personagem de Gary Oldman em Hannibal) com o Duas Caras de Batman – O Cavaleiro das Trevas. Com aquela pesada maquiagem, Haley ficou totalmente inexpressivo – contrariando o que o clássico Freddy Krueger tinha de melhor sobre seus concorrentes mascarados Jason Voorhees e Michael Myers: as caras e bocas de Robert Englund.

Por falar em caras e bocas, o elenco jovem de A Hora do Pesadelo sabe basicamente fazer isso. Com exceção de Rooney Mara e Kylle Gallner, que defendem bem seus papéis, todos os outros estão muito abaixo do aceitável, até para películas de terror – que, convenhamos, não são conhecidas por suas atuações shakespearianas. O elenco mais experiente conta com uma pequena participação de Clancy Brown (o Kelvin, do seriado Lost) e de Connie Britton (a Nikki, da saudosa sitcom Spin City). Como é possível notar, o pessoal responsável pelo casting de A Hora do Pesadelo resolveu fazer um apanhado geral de vários rostos televisivos. Não foi muito feliz em muitos casos.

O diretor Samuel Bayer, como comentado acima, teve uma carreira bastante prolífica no vídeo clipe, mas estréia como cineasta de longas-metragens com este remake. Apesar de caprichar no visual do filme – fato recorrente em suas obras musicais – o andamento de A Hora do Pesadelo deixa muito a desejar. Em certos momentos, os bocejos estavam vencendo a batalha. Péssimo para um filme que precisa fazer com que a última coisa que o espectador deseje seja dormir.

Fato é que, afora algumas mudanças pequenas em alguns personagens, e a inclusão de assuntos em voga hoje em dia como a pedofilia e os remédios inibidores do sono, este remake é uma mera cópia do primeiro, de 84, sem muito que acrescentar ao gênero de horror. Muito melhor é assistir aos originais e deixar Freddy descansar em paz, decapitado, estrangulado, envenenado, esquecido ou qualquer outra forma letal que já tenha sido utilizada em outros filmes da série. Wes Craven, criador do personagem e diretor do longa original, certamente agradeceria.

A Hora do Pesadelo (A Nightmare on Elm Street)
Dir.: Samuel Bayer
Com Jackie Earle Haley, Rooney Mara, Kylle Gallner, Katie Cassidy, Thomas Dekker, Kellan Lutz, Connie Britton e Clancy Brown
Cotação Paradoxo: Vale 45% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer legendado do remake de A Hora do Pesadelo:



E compare com o trailer original, de 1984:

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Viajo porque Preciso, Volto porque te Amo

Conceitual e Ensaístico

Antes de se aventurar em uma sessão de Viajo Porque Preciso, Volto porque te Amo, o espectador deve saber de antemão que entrará em contato com um filme conceitual da dupla de ótimos diretores Marcelo Gomes (de Cinema, Aspirinas e Urubus) e Karim Ainouz (de O Céu de Suely). Isso porque, certamente, o público incauto estranhará o estilo diferenciado empregado pelo duo em seu Road movie, uma criação que apaga propositalmente as demarcações entre ficção e documentário.

Para falar sobre a sinopse do filme, é importante contar um pouco do background das filmagens. Marcelo Gomes e Karim Ainouz gravaram as mais variadas cenas em sua viagem pelo nordeste do país, sem ao menos saber especificamente por que estavam fazendo aquilo. Os registros desta viagem ficaram de molho por um tempo enquanto os cineastas trabalhavam em suas obras solo. Depois de um tempo de maturação da carreira de ambos, as imagens foram resgatadas e só então a dupla pensou em uma história para preencher as lacunas daqueles takes. Ou seja, a história do filme é toda criada em pós-produção. Não existiu um roteiro anterior que delimitou as escolhas de Gomes e Ainouz. Agora, com o scrip em mãos, o duo voltou para o nordeste e completou as filmagens necessárias para dar sentido a sua trama. Assim nasceu Viajo porque Preciso, Volto porque te Amo.

Com roteiro dos próprios diretores, o filme conta a história de José Renato (voz de Irandhir Santos), um geólogo que é enviado para o nordeste a fim de realizar uma pesquisa de campo. No entanto, seu pensamento é constantemente desviado de sua missão para assuntos mais caros àquele homem, como sua mulher, seu papel no mundo, entre outras questões pessoais.

Exibido no festival de Veneza de 2009, na mostra Horizontes, o longa-metragem foi erroneamente catalogado como documentário – exatamente por ter um estilo tão diferenciado. Para se ter uma idéia, o protagonista, José Renato, nunca tem seu rosto revelado. A história é toda colocada sob o ponto de vista deste personagem. Sabemos de seus pensamentos e de sua história pregressa conforme ele vai os relembrando. Mas nunca vemos seu rosto. Isso, no entanto, não é necessariamente um empecilho para que o espectador se relacione com José. É bem verdade que uma identificação maior é alcançada quando conseguimos observar quem está nos contando a história. Mas o fato de seus pensamentos serem tão presentes, abertos de forma tão verdadeira, faz com que o público consiga realmente se aproximar do protagonista.

As imagens da estrada nos dão um panorama bastante realista do nordeste brasileiro, mostrando figuras curiosas, estabelecimentos inóspitos e, claro, as tradicionais paisagens do sertão. O espectador é convidado nesta jornada existencialista com o protagonista e não só consegue ouvir os seus pensamentos, mas tem uma idéia bastante aproximada do que veria em uma viagem semelhante.

Viajo porque Preciso, Volto porque te Amo é, no fim das contas, um ensaio, um filme-conceito. Vale muito mais pela forma de apagar as linhas entre ficção e documentário, por se desligar das amarras do roteiro pregresso e por conseguir manter-se bastante coeso e interessante por toda a sua narrativa. Gomes e Ainouz se revelam cada vez mais verdadeiros autores, trazendo uma saudável novidade para o cinema brasileiro. Se a trama deixa a desejar em alguns momentos, é totalmente perdoável em relação ao exercício proposto.

Viajo porque Preciso, Volto porque te Amo
Dir.: Marcelo Gomes e Karim Ainouz
Com Irandhir Santos
Cotação Paradoxo: Vale 88% do ingresso

Confira abaixo o trailer de Viajo porque Preciso, Volto porque te Amo:

quinta-feira, 6 de maio de 2010

A Estrada

Mundo Cinza

O apocalipse está chegando. Ou melhor, já chegou, segundo Hollywood. Nos últimos meses, pipocam nos cinemas produções que tem em seu plot o fim do mundo. Seria a proximidade com a dita data do final dos tempos, logo ali na esquina? Tivemos a epopéia esquizofrênica de Roland Emmerich, 2012, o western de fundo religioso dos irmãos Hughes, O Livro de Eli, chegando ao sério e contundente A Estrada, de John Hillcoat. Os três filmes apresentam sua particular visão sobre o fim dos tempos na Terra e não poderiam ser mais diversos. Diria, no entanto, que se tivesse de escolher um destes para me acompanhar em uma ilha deserta – ou em um planeta desolado, como é o caso propício – não seria uma escolha nada difícil. Este A Estrada ganharia a competição disparado.

Baseado no romance de Cormac McCarthy (de Onde os Fracos não têm Vez), o roteiro é assinado por John Penhall (de Amor para Sempre), que consegue captar com perfeição toda a atmosfera desoladora do livro, sendo totalmente fiel ao seu material de origem. Na trama, inexplicavelmente, um evento cataclísmico eliminou animais, vegetação e boa parte da população do mundo. Neste cenário pós-apocalíptico, um homem (Viggo Mortensen) e seu filho (Kodi Smit-McPhee) viajam por uma estrada nos Estados Unidos tentando chegar ao sul. Seu principal desafio é sobreviver sem provisões, sempre com medo de outras pessoas que possam cruzar seu caminho.

Desolador é a palavra certa para resumir A Estrada. Nunca sabemos o que aconteceu para que a Terra ficasse daquele jeito, mas observamos os terríveis impactos do evento a longo prazo. É no mínimo desconcertante aquela realidade. Humanos tendo de apelar ao canibalismo, a compaixão praticamente inexistente, as suspeitas para com o próximo sempre em nível alto. Acompanhamos a dupla que, provavelmente, é a última que carrega “a chama” – metáfora usada pelo homem para designar bondade. No entanto, a estrada poderá exigir que até os bonzinhos tenham de visitar o lado negro em alguns momentos. A forma como pai e filho sobrevivem neste planeta em frangalhos é o que faz a narrativa andar.

Se como filme, A Estrada já merece destaque, como adaptação, merece elogios rasgados. O roteirista pouco conhecido John Penhall merece aplausos por conseguir resumir muito bem a trama tecida por Cormac McCarthy em seu livro. O roteiro de A Estrada apresenta uma fidelidade canina aos escritos do consagrado autor, surgindo até mais interessante em alguns momentos. Enquanto que McCarthy apresenta alguns eventos que até redundam (a dupla encontrando duas vezes alimentos enlatados em sua jornada), Penhall é sabiamente econômico, cortando a gordura do livro e se atendo ao estritamente necessário para contar sua história. Praticamente tudo o que aparece no filme está no livro. Algumas mudanças na ordem dos fatos aqui e acolá são usadas, mas nada que altere o contexto da história.

Outro ponto positivo é o elenco, muito bem escalado. Viggo Mortensen novamente comprova ser um ator interessante, dando ao homem (os personagens não têm nome) a gravidade esperada para enfrentar aquele momento, mas nunca esquecendo da doçura para com o filho. Ele entende que sua jornada é praticamente uma corrida por ouro de tolo, mas tenta não dividir isso com o garoto, que sempre se preocupa em manter-se no lado correto. Sabendo que está doente e que não viverá por muito tempo, o pai acaba se preocupando em deixar o filho preparado para enfrentar o mundo sozinho. Mas nada que ele faça poderá deixar o menino pronto para o desafio sobrehumano de sobreviver numa Terra cinza e sem vida. Kodi Smit-McPhee enfrenta o desafio de dividir praticamente o filme inteiro com Viggo Mortensen e se sai incrivelmente bem na tarefa.

Com apenas uma pequena participação, mas digna de nota, Robert Duvall nos faz desejar que o ator seja convidado para mais bons papéis como este. Em poucos diálogos, Duvall dá o tom desolador daquele velho homem que não desiste de andar, mesmo sabendo que seu futuro não é nada animador. Uma excelente perfomance e um dos momentos mais pungentes da história.

A fotografia de Javier Aguirresarobe (dos excepcionais Os Outros e Fale com Ela) capricha na tonalidade cinza para dar ao filme uma característica suja e maltrapilha, assim como os personagens que passeiam naquele mundo. O diretor John Hillcoat (A Proposta, de 2005), sabiamente, prefere filmar em locação e evita com isso o visual plástico dos efeitos especiais. Com isso, a atmosfera de solidão, frio e tristeza são palpáveis. Em suma, um ótimo longa-metragem, que nos faz refletir e até temer um futuro tão sombrio.

A Estrada (The Road)
Dir.: John Hillcoat
Com Viggo Mortensen, Kodi Smit-McPhee, Charlize Theron, Robert Duvall, Guy Pierce
Cotação Paradoxo: Vale 90% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de A Estrada:

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Amelia

A Aviadora

Muito popular nos Estados Unidos, mas pouco conhecida no Brasil, Amelia Earhart foi a primeira mulher a voar sozinha através do Oceano Atlântico. Suas proezas nos ares fizeram dela um exemplo para jovens moças que sonhavam pilotar aviões, mas sofriam com o preconceito sexual da época. Sua paixão pela aviação lhe deu fama e uma carreira bem sucedida como escritora. Seu editor, George Putnam, foi o homem por trás do mito, conseguindo contratos e patrocínios para Amelia e, finalmente, se casando com ela em 1931. Tudo ia bem até que em 1937, Amelia parte para uma viagem ao redor do mundo e jamais retorna. Seu desaparecimento até hoje é motivo de curiosidade por parte dos amantes da aviação e é basicamente esta a história contada pela diretora indiana Mira Nair (de Feira das Vaidades) em Amelia.

No elenco, a oscarizada Hilary Swank (de Menina de Ouro) dá vida à protagonista, enquanto Richard Gere (de Sempre ao seu Lado) interpreta seu marido, George Putnam. Completam o elenco principal Ewan McGregor (de Homens que Encaravam Cabras) como o aviador Gene Vidal, amante de Amelia, e Christopher Eccleston (de Os Outros), como o navegador Fred Noonam. O roteiro tem assinatura de Ron Bass (de Rain Man) e Anna Hamilton Phelan (de Garota, Interrompida), baseando-se nos livros East to the Dawn: The Life of Amelia Earhart, de Susan Butler, e The Sound of Wings: The Life of Amélia Earhart, de Mary S. Lovell.

O pior defeito de uma cinebiografia é colocar o seu protagonista como um ser infalível e irretocável. E é exatamente neste erro que cai o longa-metragem de Mira Nair. Amelia é retratada como uma pessoa bondosa, corajosa, correta e sempre pronta a ajudar o próximo. Alguns podem apontar que o fato de ela trair seu marido é uma falha grave de caráter – e não discordo disso. Mas o pequeno caso que nos é mostrado entre Amelia e Gene é tão incipiente e o filme o mostra em uma luz tão favorável que é difícil pensar esta traição como um defeito. O que a história nos mostra é que a aviadora acaba se encantando com um igual, um homem que tem na aviação uma grande paixão. Ou seja, o roteiro passa a mão na cabeça da personagem. E diversas vezes.

Caso você não tenha assistido ao filme, e não queira saber as circunstâncias que levam ao acidente do clímax, pule este parágrafo. SPOILER Não bastasse esse e outros problemas no roteiro, o filme ainda consegue colocar toda a culpa do acidente que vitima Amelia ao seu navegador, Fred Noonan, uma pessoa retratada como fraco para bebida e que inclusive tenta levar sua chefe para cama. O grande problema nisso é que não existem testemunhas ou documentação que possam comprovar estes fatos. Portanto, os roteiristas colocam a responsabilidade nos ombros de um homem que pode ter lá seus defeitos, mas que não é necessariamente o culpado do acidente. Tudo isso para livrar Amelia de qualquer tipo de ação negativa no ocorrido. FIM DO SPOILER

Apesar destes problemas, Amelia tem uma estrutura de narrativa interessante, que costura sua última viagem a acontecimentos de sua vida. O longa trabalha com o conhecimento prévio do espectador, que já deve saber de antemão o destino trágico da aviadora, e o usa para amarrar os episódios de sua vida. Hilary Swank tem uma performance correta como Amelia, conseguindo dar muita vivacidade à corajosa aviadora. A maquiagem utilizada pela atriz, que ganha as características sardas de Earhart, é digna de nota.

Se o roteiro não é uma Brastemp, ao menos as tomadas aéreas de Mira Nair conseguem dar conta do recado. As viagens exóticas de Earhart para Irlanda, País de Gales e África do Sul são bem capturadas pela câmera da diretora, que dá um belo panorama do que a aviadora observou durante suas jornadas. A boa direção de arte e os figurinos escolhidos a dedo dão um feeling da década de 20/30 perfeitos para a produção. Boas escolhas que acabam se perdendo em cima de uma cinebiografia totalmente chapa branca, que certamente não faz jus a Amelia Earhart, uma mulher que até podia viver entre as nuvens, mas era tão humana quanto qualquer um de nós.

Amelia
Dir.: Mira Nair
Com Hilary Swank, Richard Gere, Ewan McGregor, Christopher Eccleston, Joe Anderson, Cherry Jones, Mia Wasikowska
Cotação Paradoxo: Vale 55% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de Amelia: