sexta-feira, 30 de abril de 2010

Tudo Pode Dar Certo

It Really Works

Para um fã de Woody Allen, nada melhor que ver seu diretor favorito no seu habitat natural. Por melhores que sejam os seus trabalhos na Europa (com destaques para Match Point e Vicky Cristina Barcelona), o lugar do cineasta neurótico é Nova York. Felizmente, o seu reencontro com a cidade que tanto lhe é cara foi brindado com um roteiro que remete aos melhores anos cômicos do diretor. Tudo Pode Dar Certo tem um texto afiado, engraçadíssimo e com personagens que só poderiam sair da cabeça de Woody Allen.

Na trama, Boris (Larry David) é um professor de física aposentado, professor de xadrez para crianças, e o homem mais inteligente do mundo. Ao menos, em sua ótica. Para ele, todas as pessoas que o cercam são insetos débeis que não sabem absolutamente nada do mundo em que vivem. Sua rotina muda completamente quando uma jovem sem teto, Melody (Evan Rachel Wood), lhe pede abrigo, implorando por uma ajuda. Contrariado, Boris a deixa entrar em sua vida, fato que mudará completamente não só a existência da dupla, como a de todos a sua volta.

Causou estranheza quando o diretor anunciou que seu novo filme em Nova York seria protagonizado por Larry David (do seriado Curb your Enthusiasm e um dos criadores de Seinfeld). Não por eu duvidar do talento do ator. Mas por saber que geralmente Woody Allen convida pessoas para interpretar seus alteregos quando sente que um intérprete mais jovem seria a escolha certa para interpretá-los. Assim fora com John Cusack em Tiros na Broadway, Kenneth Brannagh em Celebridades, Will Ferrel em Melinda e Melinda, entre tantos outros. Como apenas doze anos separam Larry David de Woody Allen, pensei que o cineasta poderia interpretar o protagonista de Tudo Pode Dar Certo sem maiores problemas. Ledo engano. David dá uma agressividade ao seu Boris que Allen nunca conseguiria transmitir. Cada frase carregada de veneno proferida por Larry David chega ao seu interlocutor como uma bomba. E isso não é algo que se aprende, é algo intrínseco à figura do co-criador de um dos melhores seriados cômicos de todos os tempos, Seinfeld.

O elenco de apoio formado por Evan Rachel Wood, Patrícia Clarkson e Ed Begley Jr. também ganham seus momentos para brilhar na comédia de Woody Allen. Cada um possui uma trajetória que vai se desenrolando das formas mais variadas e imprevisíveis. Mas é correto falar que o filme é de Larry David e do personagem mais ranzinza criado por Allen. O seu figurino, completamente desleixado, sua expressão corporal, sempre a mancar, e sua aparente falta de amor pelo próximo criam uma figura curiosíssima e defendida com vivacidade por David. Sua preferência por falar diretamente ao espectador, quebrando a quarta parede e olhando para a câmera, é fonte de boas piadas, visto que o recurso parece estranho para os demais personagens. Uma ótima sacada, remetendo aos bons tempos de A Rosa Púrpura do Cairo.

O roteiro de Woody Allen traz um grande número de diálogos inspirados e a trama parece voar como uma pluma, ao sabor dos ventos, dado a sua imprevisibilidade. A temática de Tudo Pode Dar Certo não é estranha para qualquer espectador que tenha visto, ao menos, quatro filmes de Woody Allen. O roteiro traz os assuntos que sempre estão na cabeça do diretor, como a morte, a sorte, o acaso e a neurose. Como novidade, é possível apontar apenas o otimismo, que parece ter invadido o roteiro. Não à toa, o título em português escolhido foi Tudo Pode Dar Certo. Depois de assistir a esta comédia divertida e charmosa, não duvido que o espectador saia acreditando na mensagem.

Tudo Pode Dar Certo (Whatever Works)
Dir.: Woody Allen
Com Larry David, Evan Rachel Wood, Patrícia Clarkson, Ed Begley Jr., Michael McKean
Cotação Paradoxo: Vale 100% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer legendado de Tudo Pode Dar Certo:

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Um Segredo em Família

Memórias de um passado imperfeito

Antes tarde do que nunca. Três anos separaram a estréia de Um Segredo em Família no seu país de origem, a França, do seu lançamento no Brasil. A demora é tanta que alguns nomes do elenco já são conhecidos do público brasileiro por filmes realizados posteriormente. Mathieu Amalric, revelado em O Escafandro e a Borboleta, apareceu nos franceses Inimigo Público Nº 1 – Parte 2 e Ervas Daninhas e como vilão na mais recente aventura de James Bond, Quantum of Solace. Três títulos realizados após Um Segredo em Família. Ludivine Sagnier, protagonista de Uma Mulher Dividida em Dois de Claude Chabrol, e Cécile de France, do primeiro Inimigo Público Nº 1, também tem trabalhos posteriores já lançados no Brasil. A demora é injustificável. Um belo filme retratando o entorno da Segunda Guerra Mundial merecia chegar de forma mais rápida ao público.

Dirigido pelo veterano Claude Miller, pupilo do respeitado cineasta François Truffaut, Um Segredo em Família tem roteiro do próprio Miller, baseado no romance autobiográfico de Philippe Grimbert. Na trama, acompanhamos a trajetória de François Grimbert (Amalric), homem que relembra pontos de sua infância com os seus atléticos pais, Tania (Cécile de France) e Maxime (Patrick Bruel). François não tinha facilidade para os esportes, o que criou uma barreira em sua relação com o pai. No entanto, não era apenas esse fato que o afastava de Máxime. Um segredo revelado pela amiga da família, Louise (Julie Depardieau), mostrará a François que a época da Segunda Guerra Mundial deixou cicatrizes profundas em seus pais.

O roteiro tem uma forma inteligente de contar a trajetória dos personagens, partindo do ponto de vista de François adulto, relembrando sua tenra infância e a visão de mundo que aquela criança possuía. Somos então apresentados a personagens que não são de todo reais. São, na verdade, uma criação da cabeça do menino, que imagina um passado paradisíaco para os pais. Ao descobrir o segredo da família, essas fantasias dão lugar à dura realidade dos judeus na Segunda Guerra Mundial. Para não estragar a experiência de quem não assistiu ao filme, não entrarei em detalhes sobre o que François descobre. Mas apenas com estas ferramentas é possível entender o comportamento dos personagens durante a infância do menino.

Claude Miller escolhe fazer do filme um grande flashback e pontua o tempo em que a história se passa com a cor. Diferente da maioria das produções que retrata um presente colorido e o passado em preto e branco, o cineasta inverte esse conceito. Portanto, conhecemos a versão adulta de François no belo P&B fotografado pelo experiente Gérard de Battista. O passado, a infância, é que ganha o colorido, em uma clara conotação do estado de espírito em que vive o François interpretado por Mathieu Amalric.

O elenco, como um todo, tem atuações maiúsculas. Mas o destaque fica para Ludivine Sagnier, que interpreta Hannah Stirn, uma mulher que faz o impensável em sua crise de ciúmes. A filha de Gerard Depardieu, Julie, também merece elogios pela sua sóbria e sofrida performance, vencedora merecida do César em 2008 como Melhor Atriz Coadjuvante.

Para quem acredita que os bons filmes sobre a Segunda Guerra Mundial já foram feitos, ou que o período está saturado de produções que o retratam, deve dar uma chance a Um Segredo de Família. Um ótimo longa-metragem que, infelizmente, demorou demais para aportar no Brasil.

Um Segredo em Família (Un Secret)
Dir.: Claude Miller
Com Cécile de France, Patrick Bruel, Ludivine Sagnier, Julie Depardieu e Mathieu Amalric
Cotação Paradoxo: Vale 90% do ingresso

Confira o trailer legendado em inglês de Um Segredo em Família:

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Como Treinar o seu Dragão

Soluço e Banguela

Desde as sessões de Os Fantasmas de Scrooge, de Robert Zemeckis, em dezembro de 2009, o trailer de Como Treinar o Seu Dragão invadiu os cinemas, em uma campanha maciça realizada pela Dreamworks. No entanto, por mais que este preview tenha sido bem realizado, não me agradava a idéia de assistir a um filme sobre vikings treinadores/matadores de dragão. Realmente não parecia uma premissa das mais interessantes para segurar um longa-metragem. Talvez até por isso, fui o empurrando o quanto pude e só o assisti na última sessão 3D possível, um dia antes de os cinemas deste formato serem invadidos pelos devaneios de Tim Burton e seu Alice no País das Maravilhas - como bem se sabe, quando um novo 3D chega, os demais têm de sair. Para minha grande surpresa, a experiência de conferir Como Treinar o Seu Dragão foi divertidíssima. A animação de Dean DeBlois e Chris Sanders (Lilo & Stich) é deliciosa, com personagens cativantes e aventura acima da média.

A trama é baseada livremente no livro de Cressida Cowell e é assinada pelos próprios diretores ao lado de William Davies (de Por Água Abaixo). Soluço (voz original de Jay Baruchel) é um jovem viking que sonha em matar seu primeiro dragão para ganhar o respeito dos habitantes de Berk, ilha onde vive, mas principalmente de seu pai, Estóico (Gerard Butler). O rapaz não é muito levado a sério graças ao seu diminuto tamanho e é motivo de chacota dos demais jovens do vilarejo. Quando Soluço consegue prender um dragão lendário chamado Fúria da Noite, nunca antes visto devido a sua velocidade, ninguém lhe dá ouvidos. Ao encontrá-lo no meio da floresta, o garoto enfim tem a chance de provar sua alma viking, mas acaba desistindo de matar o pobre animal. Um forte laço de amizade acaba surgindo entre Soluço e o dragão, apelidado de Banguela. Mas essa relação pode ser interrompida pela pressão das tradições vikings defendidas por Estóico.

Ao assistir Como Treinar o Seu Dragão, é impossível não ficar encantando pela figura de Banguela. O dragão tem uma expressividade no olhar que não só salva sua vida no primeiro contato com Soluço, mas que desarma totalmente o espectador. Guardadas as devidas proporções, Banguela tem um carisma que se aproxima muito do E.T. de Steven Spielberg, personagem que não necessitava de palavras para conquistar o público. Seu poder estava no olhar. Aliás, Banguela não deixa de ser um alienígena naquele contexto. É uma figura temida e eliminada pelos vikings e que ganha uma chance graças à compaixão de Soluço.

Os demais personagens são bem desenhados, mas não escapam muito do usual. Temos o protagonista desajustado, nada seguro com seu lugar no mundo; o pai severo; o interesse romântico; o mentor; Nada de novo. É interessante observar, no entanto, que os roteiristas preferiram não utilizar os serviços do batido vilão. Como Treinar o Seu Dragão tem nas figuras aladas os desafios pelos quais os humanos terão de enfrentar. Mas não são propriamente vilões. O filme trabalha com a incompreensão paterna sobre os desejos do filho e até sobre o pré-conceito que algumas tradições podem trazer enraizadas. No caso dos vikings, a certeza de que matar os “terríveis” dragões é o melhor remédio para o problema.

Apresentando tomadas aéreas fantásticas criadas por computador, ressaltadas com o advento do 3D, Como Treinar o Seu Dragão possui momentos que deixam o espectador boquiaberto. Diversos filmes estão chegando aos cinemas usando a tecnologia de terceira dimensão, mas poucos a usam de forma tão dinâmica quanto esta animação. O público consegue se sentir em pleno vôo com Banguela. Além disso, as cenas de ação também conseguem utilizar a tecnologia 3D em sua plenitude.

Não tive oportunidade de assistir à versão original do filme, mas posso dizer que a dublagem brasileira é merecedora de todos os elogios. Notei que os animadores da Dreamworks tiveram o cuidado de colocar em Estóico, que tem a voz de Gerard Butler (de 300) em sua versão em inglês, as mesmas expressões faciais e a peculiar forma de falar que já deixaram o ator irlandês famoso. Completam o elenco de vozes, no original, Jonah Hill, Christopher Mintz-Plasse (ambos de Superbad) e America Ferrara (o seriado televisivo Ugly Betty).

Se já não bastassem todos os elogios acima, o roteiro é corajoso o suficiente para apresentar um desfecho inesperado, que dá um real senso do perigo pelo qual o protagonista passou em sua jornada. Portanto, não é nada difícil afirmar que Como Treinar o Seu Dragão é uma aventura redondinha, muito bem realizada pela sua equipe e que merece toda a boa recepção por parte da crítica e público que vem recebendo.

Como Treinar o Seu Dragão (How to Train your Dragon)
Dir.: Dean DeBlois e Chris Sanders
Com as vozes originais de Jay Baruchel, Gerard Butler, Craig Ferguson, America Ferrara, Jonah Hill, Christopher Mintz-Plasse
Cotação Paradoxo: Vale 89% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer legendado de Como Treinar o Seu Dragão:

terça-feira, 27 de abril de 2010

Mary e Max

Mensagem para Você

Caiu por terra a idéia de que animações são restritas para o público infantil já há algum tempo. Cada vez mais roteiristas e diretores trabalham para que adultos e crianças possam se divertir igualmente assistindo a um bom desenho animado no cinema, como é o caso de produções da Pixar (Up, Toy Story), da Dreamworks (Madagascar, Shrek) e da Fox (A Era do Gelo). Se na televisão já existem desenhos exclusivos para adultos, como South Park, Family Guy e American Dad, na telona rareiam os exemplos. Mary e Max, do diretor Adam Elliot (vencedor do Oscar em 2004 por seu curta-metragem Harvie Krumpet), vem para preencher esta lacuna de forma inteligente e agridoce.

Mary e Max tem roteiro do próprio diretor, baseado em fatos reais, que utiliza a animação com massinhas de modelar em stop motion para dar vida a seus personagens com sérios problemas de sociabilidade. Mary é uma garotinha de oito anos que vive na Austrália, tem uma mãe alcoólatra, um pai omisso, uma marca de nascença na testa da qual se envergonha e absolutamente nenhum amigo. Certo dia, ela resolve mandar uma carta para alguém a esmo, tentando fazer amizade e saciar suas dúvidas sobre a vida adulta. Ao abrir a lista de endereços, Mary dá de cara com o nome de Max Horovitz, habitante da big Apple, nos Estados Unidos. Max tem 44 anos, é viciado em cachorro-quente de chocolate (receita própria), sofre de obesidade mórbida e de Síndrome de Asperger, uma espécie de autismo. Um forte laço de amizade e co-dependência surgirá a partir da troca de cartas entre estas figuras tão diferentes, mas tão iguais. A trama abrange 20 anos e mostra a trajetória de ambos os personagens, sempre apresentando uma visão bastante ácida sobre as relações humanas mais próximas (parentes e casais), demonstrando que é possível manter um vínculo forte com alguém à milhas de distância.

O roteiro da animação é, sem sombra de dúvidas, a grande atração de Mary e Max. Com muita inteligência e com humor refinado, Adam Elliot constrói uma trama que consegue prender o espectador com personagens nada usuais para o gênero. Se grande parte do público estranhou a escolha da Pixar por um protagonista sexagenário em Up – Altas Aventuras, o que dizer de um sujeito cheio de fobias e ansiedades, sofrendo de uma doença séria como a síndrome de Asperger em Mary e Max? Philip Seymour Hoffman (de Capote) dá voz ao protagonista e seu trabalho é tão imersivo que mal o reconhecemos. Toni Collette (de O Sexto Sentido), como a Mary adulta, e Eric Bana (de Munique), como Damien, completam o elenco de vozes principal, todos com ótimas performances.

Tratando de temas como agorafobia, bullying, alcoolismo, suicídio, depressão e desordem alimentar, Mary e Max é um grande mosaico de seres humanos falhos. Em vez de transformá-los em figuras meramente curiosas e bizarras, Adam Elliot dá muita humanidade à sua dupla principal. Não é a toa que torcemos pela amizade entre Mary e Max, visto que é notório que ambos precisam de alguém (real, não imaginário) para dividir seus pensamentos. Além desse cuidado do roteiro, o humor que permeia a narrativa é irresistível.

A direção de arte de Mary e Max também é um ponto a ser ressaltado. Usando tons monocromáticos para montar sua Nova York e tons mais vivos para sua Melbourne, Adam Elliot (que também assina o desenho de produção) dá um toque expressionista ao seu longa-metragem. É notável que o colorido da Austrália começa a timidamente aparecer nos Estados Unidos, com o advento do pompom mandado de Mary para Max. Essa brincadeira com as cores segue cuidadosamente por todo o filme. Fechando os elogios, a música de Dale Cornelius é simplesmente cativante e pontua muito bem as mais variadas sequências do longa-metragem.

Com muita acidez, mas sem esquecer a doçura em certos momentos, Adam Elliot consegue em seu primeiro longa-metragem manter o interesse do espectador sempre em alta, montando uma história de verdadeira amizade. Mary e Max é uma animação adulta, que não faz concessões e, até por isso, é um excelente exemplar do gênero.

Mary e Max (Mary and Max)
Dir.: Adam Elliot
Com as vozes de Toni Collette, Philip Seymour Hoffman, Eric Bana
Cotação Paradoxo: Vale 93% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de Mary e Max:

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Alice no País das Maravilhas

Underworld

Quem gosta de Tim Burton e de sua visão bastante particular sobre as mais variadas histórias provavelmente sairá satisfeito da sessão de Alice no País das Maravilhas, reimaginação do cineasta para as aventuras dos personagens de Lewis Carroll. Isso porque o filme, assim como Batman (1989), Planeta dos Macacos (2001) e A Fantástica Fábrica de Chocolate (2006), segue a peculiar ótica do cineasta. É a leitura de Tim Burton para aquela história. Ou seja, não espere uma versão fiel do clássico de Carroll, nem uma adaptação açucarada aos moldes da animação Disney de 1951.

A Alice de Tim Burton é uma interpretação diferenciada, por vezes reverencial, por outras, bastante livre. De novo, nada diferente dos outros trabalhos do cineasta que bebiam na fonte de personagens já conhecidos pelo grande público. Assim como estes outros títulos da filmografia de Burton, Alice no País das Maravilhas sofrerá pesadas críticas pela sua liberdade em brincar com tais personagens. Mas não é apenas isso que faz com que Alice não seja tudo isso. O buraco do coelho é bem mais embaixo.

O roteiro é de Linda Woolverton (de O Rei Leão) que, pela primeira vez, assina sozinha um script para longa-metragem. Baseando-se nos livros Alice no País das Maravilhas e Alice Através do Espelho, de Lewis Carroll, Woolverton mistura as tramas de ambos os livros e tenta imaginar como a vida da protagonista estaria dez anos depois da primeira aventura.

No filme de Tim Burton, Alice tem 19 anos, é interpretada por Mia Wasikowska (de Amelia), e tem um casamento em vista com um rico lorde britânico. No entanto, a moça não sabe ao certo se é isso que deseja para sua vida. Ao observar um coelho correr apressado pelos jardins de sua provável futura sogra, Alice o persegue e acaba caindo no buraco do roedor, entrando novamente no mundo fantástico que havia visitado tempos atrás, mesmo não se lembrando deste fato. Lá, ela reencontra o gato de Cheshire (com voz de Stephen Fry), o coelho branco (voz de Michael Sheen), a lagarta azul (voz de Alan Rickman), a Lebre de Março (voz de Paul Whitehouse) e, claro, o Chapeleiro Louco (Johnny Depp). Vivendo sob o jugo da Rainha Vermelha (Helena Bonham Carter), os habitantes daquele lugar vibram com o retorno da provável Alice, que deve cumprir a profecia e matar o perigoso Jabberwocky (voz de Christopher Lee) para que a Rainha Branca (Anne Hathaway) possa reinar novamente. Mas será que a moça terá a coragem de fazer o que o oráculo em forma de lagarta previu?

O problema de Alice no País das Maravilhas está, basicamente, no roteiro. Os devaneios oníricos de Lewis Carroll, que fizeram o sucesso dos dois livros, se transformam em mero pretexto para uma aventura mediana comandada por uma Alice guerreira e por um chapeleiro que de louco tem apenas a aparência. Essa mudança drástica em características dos personagens acaba por afastar por demais o material original da adaptação, criando uma inevitável resistência por parte do espectador. O Chapeleiro sempre foi centrado em si mesmo (e seus devaneios), assim como o gato de Cheshire. O egocentrismo destas figuras era uma de suas principais características e são usurpadas nesta adaptação.

É verdade que nem todas as mudanças incomodam. A criação de um misto entre a Rainha de Copas e a Rainha Vermelha em um mesmo personagem, defendido de forma divertidíssima por Helena Bonham Carter, é uma das boas criações da roteirista Linda Woolverton. Seu capanga e amante, Stayne, o valete de Copas (Crispin Glover), também é uma adição interessante à trama. O próprio Chapeleiro tem seus bons momentos, mesmo sendo totalmente diferente do original. Johnny Depp é o ator que tem a carreira pregressa perfeita para credenciá-lo a viver o Chapeleiro nos cinemas. Fazendo sua própria versão do personagem, Depp captura a atenção sempre que está em cena. Com cabelos cor-de-laranja, pele pálida e pupilas assimétricas, a composição do personagem acaba sendo mais interessante do que o próprio. Para um Chapeleiro Maluco, suas idéias e atitudes pareceram bastante sãs. O total contrário é verdadeiro ao pensar na Lebre de Março, insanidade em pessoa na mesa do chá e uma ótima transposição para as telonas.

Em seu primeiro trabalho de destaque em um longa-metragem, Mia Wasikowska se mostra ainda bastante verde para carregar uma protagonista. Covardia colocá-la para contracenar ao lado de atores tão talentosos – mesmo que presentes, em sua maioria, com suas vozes apenas. A jovem atriz não chega a comprometer, mas nota-se que ainda tem um longo caminho pela frente. Confesso que preferia assistir a uma versão mais jovem de Alice, como nos é mostrado no prólogo ou em um flashback totalmente reverente ao clássico da Disney de 1951.

Se a história de Alice no País das Maravilhas não é, digamos, maravilhosa, a direção de arte, os figurinos e a fotografia dão um banho de criatividade. Pode se dizer muitas coisas sobre Tim Burton, menos que seus filmes não possuem um estilo próprio e visual acachapante. Seu novo longa-metragem não foge a regra, trazendo uma “Underland” expressionista, viva e colorida. São tantos os detalhes em cada cenário que é difícil prestar atenção em tudo em apenas uma olhada. Nesse caso, o 3D acaba atrapalhando mais do que ajudando. Para uma melhor fruição do visual de Alice, aposto que a boa e velha versão em 2D deve ser mais interessante.

Com seus altos e baixos, Alice no País das Maravilhas acaba sendo um bom filme, com ressalvas. Entretém o bastante, tem um ótimo elenco, a sempre competente música de Danny Elfman e um visual fantástico. Peca na falta de conteúdo, por ser apenas uma aventura sem os simbolismos e o charme dos escritos de Lewis Carroll. E escorrega totalmente em seu desfecho, com uma visão meramente mercantilista, provando que Burton não sabe como fechar histórias que não são suas. Ou alguém já se esqueceu do fim de Planeta dos Macacos?

Alice no País das Maravilhas (Alice in Wonderland)
Dir.: Tim Burton
Com Mia Wasikowska, Johnny Depp, Helena Bonham Carter, Anne Hathaway, Crispin Glover e as vozes de Alan Rickman, Stephen Fry, Michael Sheen, Christopher Lee
Cotação Paradoxo: Vale 70% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de Alice no País das Maravilhas:

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Utopia e Barbárie

Sem ponto final

O cineasta carioca Silvio Tendler é um apaixonado por história e por política. Não é necessário muito esforço para entender isso, visto que seus trabalhos são invariavelmente focados nestes dois universos. São dele os ótimos documentários Os Anos JK – Uma Trajetória Política, de 1980, e Jango, de 1984, títulos indispensáveis na história do gênero cinematográfico no Brasil. O novo longa-metragem de Tendler tem esta marca do autor e conta com um trabalho paciencioso do cineasta, que passou 19 anos coletando entrevistas e depoimentos de figuras que viveram momentos paradigmáticos na História para montar este grande mosaico chamado Utopia e Barbárie.

O filme é uma visão bastante particular de Silvio Tendler sobre momentos bombásticos e revolucionários universais, como a Segunda Guerra Mundial, a Guerra do Vietnã, a Revolução Cubana, a Ditadura Militar no Brasil, a Ditadura de Pinochet no Chile, a queda do muro de Berlim, entre tantos outros assuntos. A narrativa é sempre costurada com reflexões e memórias do próprio cineasta, que são transmitidas ao espectador com as vozes de Amir Haddad, Letícia Spiller e Chico Diaz.

Mas o maior chamariz de Utopia e Barbárie são as entrevistas de Tendler com figuras interessantíssimas, como o general Giap – estrategista do exército vietnamita, homem que ajudou o pequeno país a vencer o conflito, Macarena Gelman – filha de desaparecidos políticos no Uruguai, o jornalista brasileiro Álvaro Caldas, profissional que sofreu nas mãos dos torturadores da Ditadura Militar no país, entre tantos e tantos outros. Foram 15 países visitados para conseguir este rico material.

Como Silvio Tendler acredita que o cinema é uma forma de reflexão e deve ser usado como tal, não é de se estranhar que existam tantos depoimentos de cineastas em seu filme. O israelense Amos Gittai (Kippur), o canadense Denys Arcand (Invasões Bárbaras) e o italiano Gillo Pontecorvo (A Batalha de Argel) dão as caras no documentário e tem trechos de seus filmes costurados ao longo da narrativa de Utopia e Barbárie. O advento é interessante pela escolha pontual de Tendler pelos filmes que dialogam intimamente com a temática de seu documentário. É praticamente uma filmografia de apoio, indicada pelo cineasta.

Mas não são apenas de depoimentos e de filmes de ficção que Utopia e Barbárie é formado. Cenas reais e bastante fortes de momentos históricos também são incorporadas ao documentário, mostrando de forma crua e intensa do que seres humanos são capazes. Difícil não se sentir incomodado pela pilha de corpos retirados dos campos de concentração da Segunda Guerra Mundial, ou assustado pela dura realidade dos brasileiros que viveram a Ditadura Militar, ou revoltado pela empáfia de um sujeito como o general Augusto Pinochet. Assistir ao documentário de Silvio Tendler é, no fim das contas, uma jornada sensorial.

O único problema do filme é a grandiosidade do recorte empregado pelo cineasta. São mais de cinqüenta anos de história, espremidos em poucos menos de 120 minutos. É tanta informação, tantos depoimentos e tamanha diversidade de situações que a longa metragem do documentário acaba pesando no espectador. Às vezes menos é mais. Outro fator que deve ser ressaltado é a visão revolucionária e esquerdista do cineasta. Isso pode incomodar quem espera ver um documentário distanciado e objetivo sobre momentos históricos mundiais. Quem espera isso, não terá sua expectativa atendida. O filme já foi criticado por pender a balança para apenas um lado. Mas não vejo isso como negativo em um documentário, gênero que pode ser parcial, por se tratar da visão daquele cineasta sobre aquele período histórico.

Utopia e Barbárie, como já pressupõe o título, convida o espectador a uma viagem pela história dos momentos mais utópicos e bárbaros do mundo, mostrando que, em certos momentos, estes dois termos podem até se confundir. Um bom filme que, como um livro de História, acaba não tendo ponto final. Tendler prefere terminar seu longa-metragem com reticências, apontando que poderia muito bem continuar indefinidamente com seu mosaico, já que a história nunca se finda. Felizmente, o diretor resolveu pelas reticências em vez de manter seu trabalho debaixo do braço. Depois de 19 anos, já era hora.

Utopia e Barbárie
Dir.: Silvio Tendler
Cotação Paradoxo: Vale 80% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de Utopia e Barbárie:

quinta-feira, 22 de abril de 2010

À Moda da Casa

Especial do Chef

Folhetinesco, exagerado, mas extremamente divertido. É possível resumir a comédia espanhola À Moda da Casa desta forma. Dirigida pelo estreante em longas-metragens Nacho G. Velilla e com um ótimo elenco encabeçado por Javier Cámara (de Fale com Ela) e Lola Dueñas (de Volver), o filme trabalha de forma leve assuntos polêmicos como a ausência paterna, o preconceito e a revelação da homossexualidade.

O roteiro é assinado pelo próprio diretor, ao lado de Oriol Capel, Antonio Sánchez e David Sánchez, e é centrado no chef de cozinha Maxi (Cámara). Com dois filhos que não vê há anos, divorciado da mulher e homossexual assumido, Maxi vive apenas para seu restaurante e sonha receber a estrela Michelin da crítica culinária. Quando sua ex-mulher morre, Maxi se vê obrigado a cuidar dos filhos, que não o têm em alta devido a sua ausência. Se não bastasse isso, a gerente de seu restaurante, a balzaquiana Alex (Dueñas), está desesperadamente à procura de um namorado, e coloca na cabeça que o vizinho de Maxi, o ex-jogador de futebol Horacio (Benjamin Vicuña), é a pessoa ideal. No entanto, mal ela sabe que Horacio joga no outro time – digamos assim – e está de olho em Maxi. Com essa confusão armada, o chef terá de deixar seu amado trabalho um pouco de lado para arrumar a bagunça da sua vida privada.

Apesar de trabalhar com diversos clichês, o roteiro de À Moda da Casa ganha pontos por conseguir transformar estes lugares comuns em momentos realmente engraçados. Muitos deles são protagonizados pelo ajudante de cozinha do restaurante de Maxi, Ramiro, interpretado por Fernando Tejero. O ator não acerta sempre, mas consegue divertir em grande parte das cenas.

Mas o filme é realmente de Javier Cámara, que pouco lembra o enfermeiro obcecado que viveu em Fale com Ela, de Pedro Almodóvar. Interpretando um personagem egocêntrico, perfeccionista e sem papas na língua, Cámara carrega o filme com uma atuação digna de nota. Sua parceira de tela, Lola Dueñas (também saída de trabalhos com Almodóvar), merece igualmente elogios por encarnar de forma divertida a atirada Alex. Fechando bem o trio principal, Benjamin Vicuña transmite simpatia com sua performance como o jogador de futebol que tem dificuldades em sair do armário.

As performances são o ponto alto do filme, mesmo sendo exageradas em certos momentos, beirando o teatral. Isso transforma À Moda da Casa em uma comédia frenética. A direção de arte lembra um folhetim mexicano, e este universo acaba se encaixando perfeitamente com as performances.

Se alguns clichês são retrabalhados pelos roteiristas de forma divertida, outros continuam sendo tão incômodos quanto em qualquer filme. Exemplo básico disso é o principal objetivo de Maxi, a estrela Michelin. Quantas histórias ambientadas em restaurantes ainda usarão a crítica culinária como parte de sua narrativa? Outro fator que incomoda é a virada de comportamento de alguns personagens, que soa extremamente falsa. Esses lapsos do roteiro acabam por atrapalhar um melhor resultado final de À Moda da Casa.

No entanto, são tantas as risadas nos pouco mais de 100 minutos de projeção que estes pequenos deslizes acabam atrapalhando menos do que poderiam. O clima de divertimento é tamanho que é difícil sair de À Moda da Casa sem se embriagar com a agitada rotina daqueles personagens. Mereceriam a tão almejada estrela Michelin só pela atmosfera cômica criada pelo elenco.

À Moda da Casa (Fuera de Carta)
Dir.: Nacho G. Velilla
Com Javier Cámara, Lola Dueñas, Fernando Tejero, Benjamin Vicuña, Chus Lampreave, Luis Varela, Cristina Marcos
Cotação Paradoxo: Vale 78% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer legendado em inglês de À Moda da Casa:

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Tulpan

Aridez Cazaque

Seria difícil acreditar que em meio à paisagem árida do Cazaquistão poderia surgir um filme tão singelo e forte quanto Tulpan. Dirigido por Sergei Dvortsevoy e com um elenco formado basicamente por estreantes, o longa-metragem foi vencedor de diversos prêmios, com destaque para a mostra Um Certo Olhar do Festival de Cannes em 2008, e ganha pontos por mostrar a particular realidade dos moradores das estepes daquele país, além de criar personagens que cativam o espectador.

Na trama, assinada por Dvortsevoy e por Gennadi Ostrovsky, conhecemos Asa (Askhat Kuchencherekov), rapaz que acabou de voltar da marinha e que sonha ter o seu próprio rebanho de ovelhas, em uma terrinha só sua, já que mora de favor na tenda da irmã e do cunhado, Samal (Samal Esljamova) e Ondas (Ondas Besikbasov). O dono das terras onde vivem Asa e seus parentes prometeu ao rapaz que lhe daria um pequeno rebanho caso este se casasse e constituísse sua própria família. No entanto, este objetivo pode ser difícil de ser realizado visto que existem poucas mulheres na região e a única, a tímida Tulpan, não caiu de amores por Asa devido as suas orelhas de abano.

O diretor Sergei Dvortsevoy aponta sua câmera para a desolada paisagem das estepes cazaques, mostrando em detalhes os montes de areia, a intensa ventania, a simplicidade das residências. Nem por isso, transforma seus personagens em figuras sofridas ou deprimidas pela situação pela qual passam. Tudo é uma questão de ponto de vista, na verdade. Na nossa ótica, pode ser uma vida de pobreza e de necessidades. Na deles, é natural morar em uma barraca, cuidar da família e do rebanho e ser feliz com esta realidade. Os reais motivos de tristeza para os integrantes da família de Asa são outros, não ligadas a intempéries do tempo ou ao tamanho de sua casa. Cada um tem seu drama e ganha seu espaço para ser desenvolvido na narrativa.

Ondas, por exemplo, vive o drama de não ter explicações para a morte dos filhotes de ovelhas, que simplesmente não sobrevivem ao parto. Em um das cenas mais fortes do filme, o cunhado de Asa tenta, em vão, fazer com que o recém-nascido novilho sobreviva ao nascimento, tentando inclusive respiração boca a boca. Já sua esposa, Samal, preocupa-se com o irmão, que ainda não conseguiu constituir família. O fato de Asa e Ondas não se entenderem também a faz sofrer.

Mas o drama que realmente faz a história andar é de Asa e seu sonho de independência. Esta independência, no entanto, é um conceito paradoxal, visto que se daria com um casamento e com o trabalho de pastor de ovelhas, provavelmente a mando do dono daquelas terras, assim como acontece com Ondas. Obcecado com a idéia do casamento com Tulpan, que parece cada vez mais distante devido a má vontade da moça e de seus pais, o rapaz vive tentando provar seu valor para todos. Seu momento de virada se dá em uma cena forte, capturada pelo diretor em um grande plano sequência, envolvendo uma ovelha e seu filhote.

Com bons personagens e uma estrutura de roteiro aberta – diz-se que boa parte do script foi improvisada - Tulpan é um longa-metragem peculiar, que utiliza suas marcas regionais para criar um interessante retrato daquele povo. Se a sua única referência ao Cazaquistão é o filme Borat, esqueça a bobagem de Sacha Baron Cohen e conheça o verdadeiro país asiático com este belo longa-metragem assinado por um legítimo cazaque.

Tulpan
Dir.: Sergei Dvortsevoy
Com Askhat Kuchencherekov, Samal Esljamova, Ondas Besikbasov, Tulepbergen Baisakalov, Bereke Turganbayev, Nurzhigit Zhapabayev, Mahabbat Turganbayeva
Cotação Paradoxo: Vale 90% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer legendado em inglês de Tulpan:

terça-feira, 20 de abril de 2010

Zona Verde

Valete de Paus

É uma lástima que filmes tão interessantes quanto O Reino, No Vale das Sombras, Rede de Mentiras, o oscarizado Guerra ao Terror e, agora, Zona Verde sejam pouco abraçados pelo grande público. Excetuando o vencedor do prêmio da Academia deste ano, que tem um orçamento bem pequeno para padrões hollywoodianos e conseguiu se pagar desta forma, todos os outros foram retumbantes fracassos de bilheteria. Além de dar prejuízo para seus respectivos estúdios, o fator que une estas produções é o fato de todas colocarem no centro da questão a invasão do Iraque empreendida pelo senhor George W. Bush. Os números não mentem: a plateia norte-americana não quer assistir a este tipo de história. Isso é lamentável por dois motivos: o grande público deixa de conferir ótimas produções; e os principais estúdios ficam cada vez mais reticentes em financiar roteiros desta ordem, temendo não reaver o dinheiro investido.

O caso de Zona Verde é emblemático. Com orçamento estimado em U$ 100 milhões e a repetição da dobradinha entre o cineasta Paul Greengrass e o ator Matt Damon, que trabalharam juntos em Supremacia e Ultimato Bourne, era de se esperar que os espectadores fossem correr aos cinemas para conferir a nova empreitada da dupla que entregou um dos melhores e mais inteligentes filmes de ação do novo milênio. Mas não foi o que aconteceu.

A trama é ambientada em 2003 e tem assinatura de Brian Helgeland (de Sobre Meninos e Lobos), baseada no livro de não-ficção do jornalista Rajiv Chandrasekaran, Imperial Life in the Emerald City. Matt Damon vive o subtenente Roy Miller, homem que tem a missão de encontrar no Iraque as armas de destruição em massa que os governos dos Estados Unidos e Reino Unido afirmaram que haviam por lá e que justificaram a invasão. No entanto, Miller e seus homens acabam se deparando, missão por missão, com prédios vazios e nem sinal de tais armas. Ao colocar o problema na mesa, duvidando das informações e da inteligência usada para apontar os locais de procura, o subtenente é recebido pelos seus comandantes com negativas de que o trabalho vem sendo mal feito. O único que fica ao lado de Miller é o agente da CIA Martin Brown (Brendan Gleeson, de Na Mira do Chefe), que vem investigando os reais motivos da invasão norte-americana no Iraque e sugere que ele e seus homens desistam das buscas por armas. O militar se sente impelido a aceitar o conselho e acaba conhecendo um morador local, apelidado de Freddie (Khalid Abdalla, de O Caçador de Pipas), que lhes aponta a casa onde acontece uma reunião com figuras de confiança de Saddam Hussein. Lá, Miller encontrará um importante indício para suas investigações.

Enquanto isso, a jornalista Lawrie Dayne (Amy Ryan, de Medo da Verdade) tenta colocar sua fonte, o agente do Pentágono Clark Poundstone (Greg Kinnear, de Pequena Miss Sunshine), contra a parede. Foi ele quem deu informações ao seu jornal, provindas de um sujeito chamado Magellan, que afirmava haver armas de destruição em massa naquele país. Agora, Lawrie precisa entrar em contato com esse Magellan para que consiga ir ao fundo desta história. O caminho de todos estes personagens se cruzará neste thriller político que ainda conta com a participação de Jason Isaacs (de Peter Pan), como um militar linha-dura, pronto para cumprir as ordens menos éticas.

Como é possível perceber, é difícil resumir em poucas palavras o que se passa em Zona Verde. Tanto que a sinopse acima cobre os primeiros vinte minutos de filme. Muito mais acontece neste novo trabalho de Paul Greengrass, diretor que, desde que assinou Domingo Sangrento, em 2002, não errou mais a mão. O cineasta britânico tem como características principais a câmera nervosa, a edição dinâmica, o estilo semi-documental e sua preferência por histórias cerebrais. Todas estas marcas do autor estão em Zona Verde, de forma impecável.

A fotografia, assinada por Barry Ackroyd (indicado ao Oscar por seu trabalho em Guerra ao Terror) captura de forma bastante granulada a ação de Roy Miller e seus comandados, fazendo um diálogo interessante com o estilo semi-documental utilizado por Paul Greengrass. Ligando isso à câmera frenética do diretor e a edição rápida de Christopher Rouse, Zona Verde acaba se tornando um ótimo exemplar do cinema de guerra.

Digno de elogios, Matt Damon mais uma vez consegue não se repetir. É incrível como o ator consegue trazer detalhes novos para cada personagem que interpreta, conseguindo se transformar em pessoas realmente diversas. Duvida? Assista a Identidade Bourne, Onze Homens e um Segredo, Os Infiltrados, O Desinformante, Invictus. Todos os personagens interpretados pelo ator são diferentes entre si, com características e maneirismos que não se repetem. Em Zona Verde, Damon cria um militar sério, empenhado em desempenhar sua função, mas longe de ser a figura heróica que poderíamos imaginar. Em sua primeira real cena de confronto, dividida com Jason Isaacs, quem leva a melhor é o seu adversário. Roy Miller não é Rambo. Outros atores do elenco como Brendan Gleeson, Greg Kinnear e Amy Ryan se destacam em seus papéis, trazendo bastante credibilidade aos seus personagens.

Algumas críticas foram endereçadas a Zona Verde o acusando de ser anti-americano e anti-belicista. A segunda afirmação acredito ser verdadeira e está longe de ser um ponto negativo. Principalmente quando entendemos que a invasão ao Iraque foi iniciada por uma razão infundada. Já afirmar que o longa-metragem de Paul Greengrass é anti-americano significa maximizar e muito a mensagem que o cineasta tenta passar. No máximo, Zona Verde é contra a antiga política norte-americana de atirar primeiro e perguntar depois. Isso com toda a certeza. Mas não é um panfleto contra os Estados Unidos como um todo e sim contra um político que governou aquele país durante dois mandatos e que conseguiu, por maneiras tortas, continuar uma guerra que seu pai havia começado nos anos 90.

Apesar de ter estas tintas políticas, Zona Verde é, no fim da contas, um filme de ação. Tem tiroteios e explosões que agradarão o público afeito a pirotecnias, mas também tem um argumento interessante e boas atuações, que farão outro nicho da plateia igualmente satisfeita. É um longa-metragem redondo, de um cineasta que sempre entrega o que promete.

Zona Verde (Green Zone)
Dir.: Paul Greengrass
Com Matt Damon, Greg Kinnear, Brendan Gleeson, Amy Ryan, Khalid Abdalla, Yigal Naor
Cotação Paradoxo: Vale 90% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer legendado de Zona Verde:

segunda-feira, 19 de abril de 2010

As Melhores Coisas do Mundo

Gatinhas e Gatões

Laís Bodanzky é uma das cineastas mais competentes e interessantes que surgiram no Brasil nos últimos 10 anos. Com apenas três filmes de ficção no currículo, poderia parecer um tanto precipitado afirmar isso. Mas olhando sua ficha corrida, é impossível discordar. Quem possui Bicho de Sete Cabeças, Chega de Saudade e, agora, As Melhores Coisas do Mundo em sua filmografia pode – e deve – receber todos os louros que merece. Com roteiro assinado por Luiz Bolognesi, baseado livremente na série de livros Mano, de Gilberto Dimenstein e Heloisa Prieto, o novo trabalho da cineasta é um saudável ar de jovialidade dentro do cinema brasileiro.

Quantas produções audiovisuais profissionais retratam a juventude atual de forma tão apropriada no país? Se você pensou em Malhação, pense de novo. As Melhores Coisas do Mundo é tudo o que a novelinha global deveria ser, mas nunca foi. Retratando adolescentes cheios de hormônios, dúvidas, anseios, preocupações e neuroses, a trama do longa-metragem acerta em cheio por conseguir transportar o linguajar, as atitudes e os problemas da fase adolescente, sem cair na armadilha da lição de moral careta e sem passar a mão na cabeça de forma condescendente. Consegue ser um retrato bastante realista, lançando mão inclusive de atores não profissionais para criar um clima ainda mais próximo da vida como a conhecemos.

Na trama, acompanhamos o cotidiano do adolescente Mano (Francisco Miguez), um jovem de classe média apaixonado por uma colega da escola, mas que vem sofrendo com problemas em casa. Seus pais, os professores Camila (Denise Fraga, de O Signo da Cidade) e Horácio (Zé Carlos Machado, de A Casa de Alice), estão passando por uma separação problemática, que acaba afetando tanto Mano quanto seu irmão mais velho, Pedro (Fiuk). Este tem na namorada seu porto seguro, sua grande paixão. Mas uma pedra no caminho da relação pode fazer com que tudo venha abaixo. Enquanto isso, Mano tenta conquistar sua colega de escola (protagonista de um pequeno escândalo entre os alunos), enquanto se diverte com os amigos inseparáveis Carol (Gabriela Rocha) e Deco (Gabriel Illanes), encara problemas relacionados a preconceitos na escola, pratica seu violão e vai, enfim, vivendo as melhores coisas do mundo.

Apesar de parecer uma sinopse um tanto alto-astral e do próprio nome pressupor um filme leve, As Melhores Coisas do Mundo é bem mais profundo. O roteiro de Luiz Bolognesi é excelente nesse quesito, por trazer temas como a homossexualidade, a falta de privacidade, o preconceito nocivo, o despertar da puberdade, entre tantos outros temas, descortinados de forma inteligente e orgânica dentro do longa-metragem. Outro ponto positivo é a preparação do elenco, comandada por Sérgio Pena, que consegue manter um padrão de qualidade da performance dos jovens não-atores altíssima, transformando o filme em um quase docudrama. Está claro que é uma ficção. Mas o elenco está tão natural em seus papéis, vivendo situações tão recorrentes nesta faixa de idade que é impossível não fazer ligação com a vida real. Méritos de Pena, de Bondanzky e, claro, dos jovens que protagonizam a história.

Francisco Miguez, o tímido Mano, tem uma estreia maiúscula, conseguindo carregar muito bem o filme, mantendo o interesse do espectador por sua trajetória. Longe de ser o bom moço bobinho, que só tem pureza no coração, Mano tem defeitos, como preconceito e imaturidade. Natural em um rapaz de sua idade, que ainda não tem ferramentas para encarar algumas verdades da vida. É interessante notar como seu amadurecimento vai acontecendo durante a trama e como algumas coisas que o incomodavam demais no passado já não passam de lembranças longínquas. Essa mudança do personagem é bem retratada pelo garoto, que desponta como boa promessa, assim como seus parceiros de tela Gabriela Rocha e Gabriel Illanes. Fiuk, protagonista da atual temporada de Malhação, carrega nas tintas do estilo emo para viver seu personagem Pedro e também tem uma boa performance.

Quanto ao elenco maduro, Denise Fraga, Zé Carlos Machado e Gustavo Machado (de O Amor Segundo B. Schianberg) defendem muito bem seus papéis, dando credibilidade aos seus dramas. Também é interessante perceber que dois atores conhecidos por suas carreiras adolescentes dão as caras em As Melhores Coisas do Mundo como professores, quase como se estivessem passando o bastão para essa nova geração. É o caso de Caio Blat e Paulo Vilhena, em atuações corretíssimas, que servem como jovens mestres para os ainda mais jovens pupilos de profissão. Vilhena já havia surpreendido com uma boa participação no filme anterior de Bodanzky, Chega de Saudade, e prova que, quando bem dirigido, consegue ser um ator convincente. Blat é mais rodado que seu parceiro de tela, participou de inúmeras novelas desde criança, encabeçou filmes como Carandiru e O Dia em que Meus Pais Saíram de Férias, e tem neste novo trabalho a tarefa de viver um professor moderno que precisa vender confiança ao espectador. O ator é bem sucedido em sua performance, fazendo com que seu arco dentro do filme não seja visto com maus olhos, o que é preponderante para seu personagem.

Trazendo temas caros e pertinentes sobre a adolescência em uma roupagem interessante e moderna, tudo muito bem montado pelo sempre competente Daniel Rezende (de Cidade de Deus), As Melhores Coisas do Mundo é um filme que captura com excelência a juventude brasileira e merece ser visto, não importando a idade do espectador. Enquanto o adolescente conseguirá se ver retratado na tela grande, os adultos poderão ter uma pista de como a geração de hoje, criada com computadores e celulares, digere a solidão, o medo do estereótipo, o nervosismo da primeira vez, entre tantos outros temas. John Hughes, diretor de filmes adolescentes por excelência dos anos 80 como Clube dos Cinco, Gatinhas e Gatões e Curtindo a Vida Adoidado, deve estar, em algum lugar, muito orgulhoso.

As Melhores Coisas do Mundo
Dir.: Laís Bodanzky
Com Francisco Miguez, Fiuk, Gabriela Rocha, Gabriel Illanes, Denise Fraga, Zé Carlos Machado, Gustavo Machado, Caio Blat, Paulo Vilhena
Cotação Paradoxo: Vale 90% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de As Melhores Coisas do Mundo:

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Caçador de Recompensas

Correria Sem Graça

Nem o charme e a beleza da dupla de protagonistas, Jennifer Aniston (de Marley e Eu e da série Friends) e Gerard Butler (o rei Leônidas de 300), conseguem manter o interesse do espectador nesta insossa comédia comandada pelo cineasta Andy Tennant intitulada Caçador de Recompensas. O diretor é praticamente um especialista no gênero, alternando altos (Hitch – Conselheiro Amoroso) e baixos (Um Amor de Tesouro) em uma carreira com pouco menos de dez filmes para o cinema. Seu novo trabalho é capenga em muitos sentidos. Roteiro falho, situações desinteressantes e o calcanhar de Aquiles para qualquer comédia: nada engraçado.

Quem assina a trama é Sarah Thorp (do suspense A Marca), estreando no gênero cômico com pé esquerdo. Na história, conhecemos Milo (Butler), um ex-policial que trabalha como caçador de recompensas para pagar as contas. Seu trabalho consiste em levar fujões para a justiça, pessoas que de alguma forma não se apresentaram às autoridades quando deveriam. Endividado até o pescoço e levando uma vida errática, Milo descobre a sorte grande quando recebe a incumbência de levar sua ex-mulher, Nicole (Aniston), para as autoridades. Além de levar 5 mil dólares pelo serviço teoricamente fácil, ele poderá se vingar da mulher que o chutou. Mas nada é tão fácil quanto parece. Nicole é jornalista e está atrás de um suspeito caso envolvendo um suicídio e irá até as últimas conseqüências para ir ao fundo da história. Até mesmo fugir da justiça se for preciso.

Era de se esperar que com uma boa dupla de protagonistas, Andy Tennant conseguiria fazer ao menos um passatempo divertido. Não é o que acontece. E é bom que se diga que a culpa não é do elenco. Gerard Butler vem alternado filmes de ação como Código de Conduta e Gamer com papéis leves em produções como A Verdade Nua e Crua e A Ilha do Tesouro e tem se saído bem na maioria de seus esforços. Enquanto isso, Jennifer Aniston é a “friend” mais bem sucedida em sua carreira cinematográfica. Já teve sucessos de bilheteria em seu currículo, como Todo Poderoso, Marley e Eu e Separados pelo Casamento, e boa resposta da crítica em Amigas com Dinheiro. Mas nem toda a simpatia do casal principal consegue sustentar uma trama pouco interessante.

Tudo em Caçador de Recompensas soa como um pretexto para os dois estarem juntos. Esta artificialidade acaba pesando no resultado final do longa-metragem. Poderia ser suportável se os momentos românticos soltassem faíscas, mas nem isso. O filme é uma correria desenfreada que parece lembrar, de tempos em tempos, de que é necessário algum romance para fazer valer o rótulo. Portanto, cada vez que os personagens param o que estão fazendo e a narrativa entra no “romantic mode: on”, sempre soa forçado, como se aquelas cenas nem pertencessem ao filme em questão.

Se já não bastasse isso, algumas pontas da história nem são amarradas ao final da trama, deixando uma atriz como Cathy Moriarthy sem função alguma em todo o longa-metragem. A não ser que sua razão de existir seja apenas para fazer sofrer um dos coadjuvantes menos inspirados já criados em comédias, o grudento Stewart, vivido pelo ator do Saturday Night Live Jason Sudeikis. Mas isso seria muito pouco, até para um roteiro capenga. Pequenas participações de Christine Baranski (Mamma Mia), Jeff Garlin (A Creche do Papai), Siobhan Fallon (Amor em Jogo) e Carol Kane (Surpresas do Amor) tentam dar alguma pitada cômica, mas acabam falhando igualmente.

No fim das contas, Caçador de Recompensas não consegue cumprir o que promete e ainda desperdiça dois bons atores em uma trama que nunca empolga. Se os boatos estiverem corretos, o filme serviu apenas para dar início a um romance entre Jennifer Aniston e Gerard Butler na vida real. Pode servir de consolo para os atores, mas não para os espectadores, certamente.

Caçador de Recompensas (The Bounty Hunter)
Dir.: Andy Tennant
Com Jennifer Aniston, Gerard Butler, Jason Sudeikis, Christine Baranski, Jeff Garlin, Peter Greene, Siobhan Fallon
Cotação Paradoxo: Vale 39% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de Caçador de Recompensas:

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Dupla Implacável

Wax in, Wax Off

O cineasta francês Pierre Morel está se especializando em dirigir filmes com protagonistas “duros de matar”. Apadrinhado por Luc Besson (de O Quinto Elemento), Morel conseguiu acertar a mão em Busca Frenética, com Liam Neeson, em 2008, mas não repete o êxito em Dupla Implacável, que traz novamente atores de Hollywood bagunçando a Cidade Luz, Paris.

Na trama, Jonathan Rhys Meyers (de Match Point) interpreta o projeto de agente secreto James Reece, um sujeito que trabalha para o embaixador dos Estados Unidos na França e que, ao mesmo tempo, recebe ordens de uma misteriosa voz ao telefone. Depois de ter executado bem diversas tarefas, Reece recebe a incumbência de trabalhar ao lado de Charlie Wax (John Travolta), um agente pouco ortodoxo que está em uma missão especial na França: caçar terroristas.

Pode parecer uma sinopse bastante genérica e não é por acaso. Dentre os recentes filmes de ação que aportaram nos cinemas brasileiros, Dupla Implacável é o que merece com louvor o rótulo amarelo, popular nas caixas de remédio. Para começar, a grande ameaça do filme é uma célula de terroristas suicidas. O herói é um sujeito que trabalha por conta própria, obedecendo as próprias leis e altamente letal. O seu parceiro é um rapaz certinho que tenta operar dentro das regras. E o clímax envolve uma surpresa que só é surpreendente para quem nunca viu algum filme de ação na vida. Genérico e clichê são as palavras que você deve estar acertadamente pensando agora.

Existe algo de errado quando o elenco de um filme se diverte mais do que o espectador. Este é o caso de John Travolta, que parece estar aproveitando as melhores férias da vida ao interpretar o inconseqüente agente Charlie Wax. Com a cabeça raspada e de cavanhaque, Travolta é o retrato do herói macho dos anos 80, sempre com uma frase de efeito preparada e que nunca se preocupa com nada, nem mesmo em situações em que James Bond teria de suar o smoking. É bem verdade que só por causa de sua performance camp que Dupla Implacável tem alguma graça. A piadinha com Pulp Fiction, apesar de um tanto gratuita, diverte pela referência.

Tirando isso, nada se salva no filme de Pierre Morel. O roteiro – assinado por Adi Hasak (Conspiração, 1997) em cima de história de Luc Besson – tem mais buracos que queijo suíço. Ou temos que acreditar que o até então competente James Reece é um sujeito muito obtuso para saber absolutamente nada sobre a vida de alguém próximo e importante? Quer um furo maior do que o assistente do embaixador ser barrado em um evento importante para, minutos depois, vermos Charlie Wax, uma figura que chama atenção pelo seu visual, entrar sem problemas? Esses são alguns pequenos pontos de um roteiro com crateras em sua concepção.

As cenas de ação, que deveriam ser o grande chamariz do filme, são, em sua maioria, pouco memoráveis. A sequência envolvendo um carro e uma espécie de bazuca tem seus momentos de maior adrenalina. Mas é só. De resto, são muitas cenas mostrando John Travolta dando cabo de uma centena de homens armados, das formas mais diversas – nada de inédito ou que já não foi feito melhor no próprio trabalho anterior de Morel, Busca Frenética.

Dos males o menor: ao menos Dupla Implacável é curto. Quando o espectador começa a ficar frustrado com tanta falta de coerência, o filme acaba. Não fosse um divertido John Travolta e o longa-metragem poderia ter sido relegado ao balaio dos DVDs de supermercado que ninguém daria falta. Esse, inclusive, deve ser o futuro de Dupla Implacável em pouquíssimo tempo.

Dupla Implacável (From Paris with Love)
Dir.: Pierre Morel
Com John Travolta, Jonathan Rhys Myers, Kasia Smutniak, Richard Durden
Cotação Paradoxo: Vale 30% do ingresso

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Atraídos pelo Crime

The Righter and the Wronger

Em Atraídos pelo Crime, dirigido por Antoine Fuqua (de Dia de Treinamento), o conceito de certo e errado é empurrado para fronteiras muito mais próximas da realidade do que gostaríamos de pensar. Contando três histórias em uma, o roteirista estreante em longas-metragens Michael C. Martin consegue criar um interessante e palpável panorama da situação de policiais que estão fazendo seu serviço nas ruas, mas que não conseguem evitar andar pelo lado fora-da-lei. O título original e a própria história pode se concentrar apenas nos oficiais do Brooklyn, mas sabemos bem que a situação limite vivida pelos policiais não é nada exclusiva a esta cidade do estado de Nova York.

Na trama, acompanhamos a trajetória de três policiais bem diferentes: Eddie (Richard Gere), Tango (Don Cheadle) e Sal (Ethan Hawke). Eddie está a poucos dias de se aposentar e tudo o que quer é se envolver o menos possível com o trabalho. No entanto, uma nova tarefa – a de mostrar aos novatos a rotina do serviço – acaba atrapalhando os planos do veterano. Já Tango tem outros problemas. Infiltrado há anos em uma quadrilha, o policial está a cada dia perdendo mais e mais o controle. A saída de um amigo da cadeia, o perigoso Caz (Wesley Snipes), acaba o colocando no limite, querendo não viver mais aquela vida dupla. O preço para que ele saia desta operação, porém, pode ser caro demais. Por fim, Sal é temente a Deus, chefe de uma grande família e ainda espera a chegada de gêmeos. Sua esposa, Angela (Lili Taylor), sofre problemas de saúde por causa da residência velha e cheia de mofo em que vive, o que força seu marido a tomar medidas extremas para tentar comprar sua casa dos sonhos. Uma delas é pegar dinheiro de drogas, que são coletadas pela polícia nas batidas. Mas onde fica a ética da profissão?

O filme, em uma espécie de prólogo sangrento, começa explicando que o que veremos na tela não tem nada a ver com o certo ou o errado. E sim com o que é mais certo ou mais errado dentro de uma situação. É o que sentencia o bandido Carlo (Vincent D’Onofrio) pouco antes de levar um tiro mortal e a sangue frio de seu caroneiro, um policial. Depois desta cena, devemos desconfiar se veremos alguma ética policial ou profissionais que seguem a cartilha no longa-metragem. Pode ter certeza de que eles serão exceção. Para quem ouve tantos casos sobre a corrupção dentro da polícia, sobre as péssimas condições de trabalho e salários precários que estes profissionais recebem, a trama parece bastante próxima da realidade e, até por isso, ganha muitos pontos pela verossimilhança.

Apesar destes três policiais estarem tão “atraídos pelo crime” como o título em português gosta de frisar, não se pode dizer que se tratam de figuras monstruosas, desumanas ou vilanescas. Pelo contrário. O que temos na tela é o retrato de três pessoas desiludidas com os rumos que deram às suas vidas e às suas carreiras. Seres humanos falhos, que podem negar salvamento a uma vítima de agressão, apenas pelo fato de não estarem em sua área de atuação, ou que podem seguir uma pista, mesmo fora de serviço, ajudando a salvar pessoas indefesas. As boas ações não apagam às más e vice-versa. Por isso tudo parece próximo da realidade.

Atraídos pelo Crime é um filme policial interessante por fugir dos clichês os usando de forma um tanto diferente. Quantos roteiros já não apresentaram o policial pronto para se aposentar? O infiltrado que não suporta a vida dupla? O pai de família que precisa ir ao limite para sustentar seus filhos? São inúmeros. O que diferencia este trabalho de Antoine Fuqua dos demais é o rumo que cada um dos personagens toma para resolver suas situações. Não existem soluções fáceis, assim como não existem muitos finais felizes.

O quarteto principal do longa-metragem carrega de forma apropriada a angústia que precisa transmitir ao espectador. Ethan Hawke é o caso mais extremo. Magro e com expressão perdida, sua composição de personagem é perfeita para que acreditemos que aquele homem está realmente indo ao limite. Don Cheadle é competente como de costume, apesar de começar a se repetir em seus papéis. Seu parceiro de tela Wesley Snipes marca seu retorno ao cinema com uma participação pequena, mas que o ator consegue fazer com um pé nas costas. Enquanto isso, Richard Gere larga um pouco a canastrice de lado e cria um bom personagem, enfarado com sua situação corrente, bebendo na primeira hora do dia e se apaixonando por uma prostituta em seus últimos dias na polícia.

O roteiro em multitrama funciona bem, dando bom destaque para cada um dos três personagens principais, e amarrando de forma coesa o desfecho. É verdade que o ritmo do segundo ato poderia ser mais dinâmico, mas nada que entedie o espectador ou que o faça olhar para o relógio mais de uma vez. Atraídos pelo Crime é um ótimo filme policial, que consegue desenvolver bem seus personagens, não ficando apenas em tiroteios vazios e correrias sem sentido. É um Policial Existencial, se preferirem.

Atraídos pelo Crime (Brooklyn’s Finest)
Dir.: Antoine Fuqua
Com Richard Gere, Don Cheadle, Ethan Hawke, Wesley Snipes, Vincent D’Onofrio, Will Patton, Ellen Barkin, Lili Taylor, Brian F. O’Byrne
Cotação Paradoxo: Vale 88% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de Atraídos pelo Crime:

terça-feira, 13 de abril de 2010

Caso 39

Inferno Caseiro

Caso 39, a primeira incursão em Hollywood do diretor alemão Christian Alvart (de Anticorpos) sofre pela falta de momentos realmente assustadores. O filme começa bem, é verdade. Algumas cenas fortes, como um casal tentando colocar sua filha dentro do forno, são interessantes pelo extremismo da situação. O que poderia ter levado aqueles pais àquela decisão? Mas depois disso, o longa-metragem se perde entre sustos forçados e interpretações pouco convincentes.

O roteiro de Ray Wright (de Pulse) apresenta a assistente social Emily Jenkins (Renée Zellweger), uma mulher que vive para seu trabalho. Entre flertes com seu amigo Doug (Bradley Cooper) e a relação de amizade com o detetive Mike (Ian McShaine), Emily não possui ninguém mais próximo. Seus casos do trabalho são sua vida – e não são poucos. Seu cotidiano muda completamente ao conhecer a situação da menina Lilith (Jodelle Ferland). Emily suspeita que a criança é mal tratada pelos pais (Callum Keith Rennie e Kerry O’Malley), que apresentam comportamento estranhíssimo quando ela visita o lar da menina. A desconfiança da assistente social é tamanha que ela oferece a Lilith o seu telefone de casa, para que entre em contato quando estiver em perigo. Nesta mesma noite, a garota liga clamando por ajuda. Seus pais tentariam matá-la, colocando-a dentro do forno da cozinha. Emily e o detetive Mike interrompem a tentativa de assassinato e prendem os pais da menina. Sem lar, Lilith pede abrigo para Emily, que decide hospedá-la. Mal ela sabia que os problemas começariam ali.

Em seu primeiro papel em uma produção de suspense, a eterna Bridget Jones, Renée Zellweger, tenta, mas não consegue carregar o filme sozinha. O desgastado gênero já viu inúmeras personagens como Emily, e a atriz não consegue trazer nenhuma novidade com sua performance. Para piorar, a garotinha Jodelle Fernand vai do céu ao inferno, tanto em suas intenções como em sua atuação. Quando doce, a atriz convence. Quando infernal, Jodelle demonstra não ter estofo nenhum para este tipo de personagem. Isso acaba eliminando qualquer chance de criar medo no espectador e transforma em arremedo a tentativa do resto do elenco em contracenar com a jovem. Um exemplo perfeito disso é Bradley Cooper dividindo uma cena com a menina. Em meio a uma conversa que deveria ser ameaçadora, Cooper sai da sala dizendo nunca ter se sentido acuado assim por uma criança. Infelizmente, é difícil acreditar nisso, visto que uma garotinha tentando falar como adulta só soa falso, não tendo nada de assustador nisso. Os únicos do elenco que conseguem passar incólumes são os pais da menina, interpretados por Callum Keith Rennie e Kerry O’Malley, que realmente parecem ameaçadores.

No quesito sustos, Caso 39 é ainda menos inspirado. Não conseguindo criar um verdadeiro clima de suspense para o filme, Christian Alvart resolveu encher a narrativa com sustos artificiais, nenhum deles estando organicamente ligados à trama. São latidos de cachorro, batidas na porta. Tudo com o volume lá em cima, para que o espectador pule da poltrona e saia do cinema pensando ter levado bons sustos.

Quando termina, o filme não consegue nem responder a algumas perguntas que ficaram durante a narrativa. O que foi aquilo que vimos? O que acontecerá com quem sobreviveu? Aquilo é realmente o fim? Espero que não tenhamos uma continuação que responda isso. Prefiro ficar sem respostas a ver um Caso 40 pela frente.

Caso 39 (Case 39)
Dir.: Christian Alvart
Com Renée Zellweger, Jodelle Fernand, Ian McShane, Bradley Cooper, Kerry O’Malley, Callum Keith Rennie
Cotação Paradoxo: Vale 35% do ingresso

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Uma Noite Fora de Série

The Tripplehorns

Steve Carell e Tina Fey são os rostos da nova comédia norte-americana. Ele é protagonista de um dos melhores seriados cômicos da atualidade, The Office, e já apareceu no cinema de forma competente em filmes como Virgem de 40 Anos, Pequena Miss Sunshine, Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada e Agente 86. Ela é roteirista, se destacou com suas participações no Saturday Night Live interpretando a controversa política Sarah Palin e é uma das cabeças do elenco do ótimo seriado 30 Rock. Um encontro entre estas duas figuras engraçadas e talentosas só poderia dar certo – caso o material fosse apropriado, lógico. Felizmente, Uma Noite Fora de Série é um ótimo veículo para o casal brilhar. Dirigido por Shawn Levy, do péssimo remake de A Pantera Cor-de-Rosa e do irregular Uma Noite no Museu, o filme usa da química e da veia cômica da dupla para arrancar suas risadas. E não são poucas nos curtos 88 minutos de projeção.

Com roteiro assinado por Josh Klausner, o filme apresenta o casal Phil e Claire Foster (Carell e Fey), casados, com filhos, e com uma rotina condizente com sua situação. Em meio a um clube do livro com amigos, Phil e Claire descobrem que um dos casais de seu convívio está se separando. Isto serve como despertar para os dois, que resolvem aproveitar sua noite a sós de forma diferente. Ao tentar entrar em um chique restaurante de Manhattan sem marcar reservas, Phil decide mentir e se passar pelo casal Tripplehorn, que não havia aparecido no local. Essa mentira branca acaba por transformar a noite dos Foster quando dois homens se aproximam de sua mesa e os confrontam, atrás de um pen drive que eles teriam roubado. Esse é o start de uma noite cheia de confusões, onde os Foster terão de correr para salvar sua pele e provar que não são as pessoas que aqueles mau-encarados procuravam.

Para começo de conversa, a química entre Steve Carell e Tina Fey é brilhante e sem ela, Uma Noite Fora de Série não seria metade do divertimento que é. Ambos têm um excelente timing cômico, sabem fazer escada para o outro quando necessário e, inteligentes como são, têm no improviso uma de suas melhores características. O espectador consegue se identificar com o casal, principalmente no primeiro ato, quando somos apresentados à rotina de casados, com seus filhos e pequenas coisas de sua vida privada. Muitas das risadas são provenientes da identificação que o público sente com as situações que acontecem em tela. Se a trama continuasse nessa espécie de “Comédia da Vida Privada”, aposto que seria interessante e engraçado, mas de forma verossímil. O que vemos depois do primeiro ato é uma montanha-russa de situações, muitas delas exageradas e pouco realistas, mas que são divertidas e cômicas pela forma como são interpretadas pelos protagonistas.

É aquele contrato que temos com o filme. Sabemos que dificilmente um pai de família sairia de um carro em movimento através de um pára-brisa quebrado para passar para outro veículo, mas acabamos aceitando a situação devido a todo o absurdo que vimos anteriormente. Outros momentos exagerados são apresentados antes e depois dessa seqüência cheia de ação, sempre carregando a mensagem de que estamos vendo uma comédia que extrapola os limites do verossímil. Nada tão excessivo quanto um Missão Impossível, mas tem seus momentos. No fim das contas, tudo é tão engraçado que aceitamos todos os exageros do roteiro.

O casal principal carrega o longa-metragem nas costas, mas tem a ajuda de um elenco de apoio de luxo, que conta com pequenas participações de atores como Mark Ruffalo, Ray Liotta, James Franco e Mark Wahlberg. Completam o casting a indicada ao Oscar Taraji P. Henson (fora do ritmo do resto do elenco), o rapper Common e a engraçadinha Mila Kunis. Com um elenco de porte, nem mesmo um diretor limitado como Shawn Levy, que assinou os vergonhosos A Pantera Cor-de-Rosa e 12 é Demais, poderia atrapalhar. Não deixa de ser curiosa a escolha da câmera, aparentemente digital, que dá um estilo diferente para a comédia – realçado nas tomadas noturnas e de ação.

O jeito como todas as pontas soltas são amarradas pelo roteiro novamente trazem exageros e inverossimilhanças, mas que não destoam de todo o resto do filme. Uma Noite Fora de Série é divertimento puro, uma produção que serve para gargalhar e comprovar o talento de Steve Carell e Tina Fey, dois dos atores cômicos mais talentosos dessa nova geração – que, convenhamos, nem são tão novos assim.

Uma Noite Fora de Série (Date Night)
Dir.: Shawn Levy
Com Steve Carell, Tina Fey, Mark Wahlberg, Common, Ray Liotta, Mila Kunis, James Franco, Mark Ruffalo, Taraji P. Henson
Cotação Paradoxo: Vale 85% do ingresso

Confira o trailer de Uma Noite Fora de Série:

sexta-feira, 9 de abril de 2010

A Todo Volume

Três homens e suas guitarras

Jimmy Page, The Edge e Jack White não poderiam ser pessoas mais diferentes. Os três são de gerações, origens e interesses totalmente diversos. Mas uma óbvia ligação existe entre eles: a guitarra. Page, lendário guitarrista do Led Zeppelin; The Edge, o homem dos efeitos de guitarra, parceiro perfeito para Bono no U2; Jack White, o verdadeiro homem renascentista, multi-instrumentista, membro do White Stripes, Raconteurs e The Dead Weather. A história destes três músicos é a cereja do bolo no documentário de Davis Guggenheim, A Todo Volume. O cineasta, conhecido por seu (quadrado) trabalho em Uma Verdade Inconveniente, de 2006, constrói um interessante mosaico sobre a visão daqueles profissionais sobre o seu instrumento de afeição.

O encontro entre o britânico Jimmy Page, o irlandês The Edge e o norte-americano Jack White aconteceu no dia 28 de janeiro de 2008, em um estúdio nos Estados Unidos, com um pequeno palco, sofás e, claro, guitarras. Lá, os três conversam basicamente sobre suas influências, tocam juntos músicas de cada um e tentam parecer confortáveis com a situação montada pela produção. Apesar de ser o grande chamariz de A Todo Volume, os grandes momentos do filme não são os trechos nos quais os três conversam entre si. Talvez até por isso eles apareçam juntos tão pouco durante o filme todo. O encontro serve de costura para as cenas nas quais cada um, em seus locais de origem, comentam como começaram suas carreiras de sucesso.

Page é o retrato do músico sábio, aquele mestre com anos de experiência e muita história para contar. Somos apresentados ao seu passado, como músico de skiffle (popular estilo musical norte-americano dos anos 20, que teve uma febre na Inglaterra três décadas depois), seu período como guitarrista contratado de estúdio, até sua ascensão com os Yardbirds e o Led Zeppelin. Em um dos melhores momentos do filme, Page apresenta o casarão no qual ele e sua antiga banda gravaram um dos grandes discos da história do rock: Led Zeppelin IV. Mostrando o interior da residência, Page relembra como foram gravadas algumas das canções do disco – destacando a forma como When the Levee Breaks foi captada, aproveitando a arquitetura e a acústica da casa.

The Edge é o músico tecnológico. Adora efeitos, ecos e outras distorções que possa colocar em seus riffs. Tem uma interessante e bem humorada autodepreciação quanto às suas qualidades como guitarrista, mostrando como muitos de seus trabalhos mais conhecidos são, na verdade, resultado de um efeito eletrônico. Isso não o faz menos guitarrista, obviamente. The Edge usa a tecnologia ao seu favor, criando alguns dos riffs mais conhecidos das últimas duas décadas. O músico nos leva até o local onde tudo começou para o U2: o colégio. Como muitos sabem, a banda irlandesa se originou após o baterista Larry Mullen colocar um anúncio no mural da escola procurando músicos para uma nova banda. O resto é história musical. Guggenheim aponta sua câmera com atenção para The Edge que, naquele momento, construía mais um single para sua banda. Apesar de nunca ser nomeada, quem conhece a banda sabe que se trata de Get on your Boots, do disco No Line on the Horizon.

Jack White é o inovador. O artista que precisa sempre se desafiar para criar algo novo. Nascido em Detroit, local pouco propício para um músico de blues se criar, White teve de quebrar algumas barreiras dentro de uma família com nove irmãos. Espelhando sua criatividade na música, seus segmentos também têm peculiares momentos artísticos – como seu filho ser chamado de Jack White aos 9 anos ou o próprio construir uma espécie de guitarra, do zero, a partir de madeira, arames e uma garrafa de Coca-Cola. White, em diversos momentos, aparenta a tradicional arrogância jovem, que logo cai por terra quando se depara com Jimmy Page empunhando sua guitarra e tocando Whole Lotta Love. Suas frases de efeito transparecem uma vontade de chocar, característica de um rapaz provavelmente nervoso antes de encontrar um grande mestre da guitarra. Jack White é um músico que admiro por nunca manter-se estático. Sempre com um novo projeto em vista, o guitarrista mostra não só criatividade na hora de criar suas canções, como também para montar instrumentos híbridos – como a guitarra que conta com um inusitado microfone, que pode ser puxado do corpo do instrumento a seu bel-prazer.

Mostrando ser um cineasta consciente de que nem sempre diálogos e histórias conseguem manter um documentário interessante por 90 minutos, Davis Guggenheim capricha na pesquisa e coloca imagens e vídeos de arquivo, que enriquecem e muito a experiência de assistir ao seu A Todo Volume. Fora o fato da fotografia assinada por Guillermo Navarro e Erich Roland capturar muito bem os mais variados cenários pelos quais a produção passeia. De Los Angeles a Dublin; De Detroit a Hampshire; De Austin a Londres; Tudo com uma beleza plástica que chama a atenção.

E se as conversas entre Jack White, The Edge e Jimmy Page acabam não acrescentando tanto à mistura, basta que peguem as guitarras para que tudo vá abaixo. Dead Leaves and the Dirty Ground, I Will Follow, Whole Lotta Love e uma improvisada rendição à The Weight, do The Band, sozinhas, valeriam o ingresso para este documentário musical acima da média assinado por Davis Guggenheim. É para ouvir no volume 11.

A Todo Volume (It Might Get Loud)
Dir.: Davis Guggenheim
Com Jimmy Page, The Edge, Jack White
Cotação Paradoxo: Vale 98% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de A Todo Volume:

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Os Famosos e os Duendes da Morte

Mr. Tambourine Man

Um dos trabalhos do diretor Esmir Filho ficou bastante conhecido no Brasil através da Internet: Tapa na Pantera, uma engraçada sátira sobre os resultados do contínuo uso da maconha, estrelado por uma hilária Maria Alice Vergueiro, um dos vídeos mais vistos no You Tube. Agora, com seu primeiro longa-metragem, Os Famosos e os Duendes da Morte, o cineasta não poderia ter se distanciado mais do estilo do curta-metragem que lhe deu notoriedade. Com uma verve poética, dylanesca, angustiante e introspectiva, o filme é uma verdadeira jornada para dentro da mente de um jovem que tem na música folk e na Internet seus únicos momentos de relativa paz.

Na trama, assinada por Ismael Caneppele (também ator do filme) e Esmir Filho, conhecemos um rapaz (Henrique Larré), mas nunca sabemos seu nome. Ele vive com sua mãe (Áurea Baptista) em uma pequena cidade do interior do Rio Grande do Sul, dividindo seu tempo entre ir ao colégio, ouvir música e navegar na Internet. Em seu blog, escreve tristes posts, parecendo sempre saudoso de algum momento de sua vida. É recorrente sua visita ao blog de Jingle Jangle, uma garota que, aparentemente, fez parte de seu passado, mas que não está mais próxima dele. Separação? Viagem para longe? Amor platônico? Só sabemos ao nos aprofundarmos nesta bela história.

Esmir Filho prova que sabe muito bem o que fazer com sua câmera, criando planos belíssimos, ajudado pela bucólica paisagem de Estrela, cidade que serviu de cenário para as filmagens. Utilizando muito bem as frias paisagens do local, capturando as neblinas, a baixa luz da noite e a respiração dos atores em meio àquela gélida região, o diretor cria um clima para o filme que pende para o onírico. O fato de o personagem principal viver em um mundo fechado, dentro de si, complementa este sentido. O advento dos vídeos que ele assiste na Internet, notadamente poéticos em sua estrutura, também conversa com todo o resto do filme.

Com este diálogo tão estreito com a grande rede de computadores, não é de se estranhar que o diretor tenha encontrado seu elenco através da Internet. O protagonista, Henrique Larré, é um exemplo disso. A preparação do elenco foi comandada por Roberto Áudio que, fora algumas pequenas exceções, é muito bem sucedido em seu trabalho. Não é fácil para um ator iniciante conseguir carregar um filme inteiro praticamente sozinho. E é o que Larré faz, de forma muito convincente e doída. Sua depressão é palpável e os momentos em que conversa com sua mãe dão a dimensão do período difícil em que ambos vivem. Áurea Baptista, que vive a mãe do garoto, comove com sua atuação.

Além das atuações e do visual de Os Famosos e os Duendes da Morte, a música folk é outro importante detalhe do longa-metragem. Fã de Bob Dylan, o personagem principal vive ouvindo músicas no seu player portátil e sonha em conferir o show do músico ao vivo. Infelizmente, como a produção é brasileira e o dinheiro é sabidamente curto, apenas uma música de Dylan foi inclusa na trilha: Mr. Tambourine Man. Colocada em uma bela seqüência do filme, a canção do poeta norte-americano agrega muito ao resultado final no trabalho de Esmir Filho. As demais canções da trilha foram compostas por Nelo Johann que, se não tem a genialidade dylanesca, não faz feio com algumas belas canções no violão.

Vencedor de diversos prêmios, dentre eles o Redentor de Melhor Filme no Festival do Rio de 2009, Os Famosos e os Duendes da Morte é aquele tipo de produção que quanto menos se sabe, melhor é a experiência de assisti-lo. Mas não se preocupe. Evitei contar qualquer coisa mais importante da história nesta crítica para não estragar a sessão de ninguém. No entanto, sou obrigado a dizer que as cenas finais, envolvendo uma festa junina tipicamente alemã, são realmente emotivas, não apelando para o dramalhão forçado, mas para uma interessante dicotomia entre o alegre e o triste. Em suma, um belo filme, que merece ter uma das mais belas canções de Bob Dylan em sua trilha sonora.

Os Famosos e os Duendes da Morte
Dir.: Esmir Filho
Com Henrique Larré, Ismael Caneppelle, Tuane Eggers, Áurea Baptista
Cotação Paradoxo: Vale 88% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de Os Famosos e os Duendes da Morte:

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Chico Xavier - O Filme

Espírito Amigo

Quem já assistiu a algum filme dirigido por Daniel Filho deve ter percebido algumas características recorrentes nas suas obras: a presença de Tony Ramos, a vontade de fazer um cinema mais popular, a estética pendendo para ao televisivo. O resultado final já caiu para o ruim e o embaraçoso - Se eu Fosse Você (2006) e Muito Gelo e Dois Dedos D’água (2006) – e para o aceitável e correto - Se eu Fosse Você 2 (2009) e Tempos de Paz (2009). Em Chico Xavier, o cineasta aponta sua câmera para um dos personagens mais controversos e amados do Brasil, repetindo seus vícios apontados logo acima. Apesar de se desculpar logo de início, ao colocar um aviso no primeiro frame do longa-metragem dizendo ser impossível fazer uma biografia que aporte toda uma vida, finalmente Daniel Filho consegue assinar um filme que, se não é genial, ao menos possui qualidades que podem lhe valer uma espiada mais de perto.

O roteiro, assinado por Marcos Bernstein, adaptado do livro As Vidas de Chico Xavier, de Marcel Souto Maior, conta a história do médium mineiro desde sua infância, nos anos 10 do século passado, até os anos 70, quando Chico, interpretado por Nélson Xavier, participou do programa de TV Pinga-Fogo, crucial para a popularização do médium no Brasil. Conhecemos Chico ainda criança, interpretado por Mateus Costa, pouco tempo depois de ter perdido sua mãe, Maria (Letícia Sabatella). Inexplicavelmente, o garoto consegue ver e conversar com sua falecida progenitora e com outros mortos que entram em contato com ele. Essa condição acaba o transformando em alvo dos falatórios da cidade.

Quando mais velho, interpretado por Angelo Antônio, Chico descobre que pode ajudar as pessoas através de seu dom, escrevendo cartas ditadas por uma entidade chamada Emmanuel (André Dias). De maneira episódica, o filme conta diversos momentos da vida do médium, culminando na ajuda que ele presta a um casal em crise, vivido por Tony Ramos e Cristiane Torloni.

A narrativa é acertadamente um grande flashback a partir do ponto crucial da história, o programa Pinga-Fogo. Conhecemos Chico Xavier já nos seus 60 anos, para só depois conhecermos outros pontos de sua vida. O programa serve de costura para os momentos do passado, sendo uma forma dinâmica de trabalhar a história.

O que é difícil de entender é a razão pela qual Nélson Xavier, notoriamente o ator que melhor encarna o personagem, ganha tão pouco espaço no filme. Mesmo que sua participação permeie toda a narrativa, seu tempo de tela é notadamente inferior aos outros dois atores. Mateus Rocha e Angelo Antônio defendem bem suas participações, mas seria bem mais interessante que acompanhássemos Nélson por mais tempo.

É bom que se diga aos que não curtem dramalhões para ficarem longe de Chico Xavier. O filme carrega na emoção para passar sua mensagem e até exagera em alguns momentos. Falando nisso, Tony Ramos e Cristiane Torloni são o excesso em pessoa, carregando suas atuações de forma over até para padrões folhetinescos.

Quanto à polêmica sobre a mediunidade verídica ou não de Chico Xavier, o filme se apóia no livro de Marcel Souto Maior para legitimar o médium como verdadeiro. Uma pessoa que realmente consegue se comunicar com os mortos e que psicografava cartas para parentes. O fato de vermos e ouvirmos os espíritos durante o filme não deixa dúvidas de que o filme sustenta a mítica. Para os mais céticos, Chico Xavier será uma avalanche de cenas inverossímeis e irreais. Como o brasileiro é notadamente voltado para as crenças, não é nada arriscado (ou mediúnico) dizer que o longa-metragem cairá no gosto do grande público.

Até porque Daniel Filho continua usando sua verve televisiva para fazer seus filmes. Não existe profundidade de campo, são raros os grandes planos e os atores são todos oriundos da rede mais famosa do Brasil. Continuando com esse padrão, Daniel Filho será sempre um diretor que lotará os cinemas em todo o país, mas que, ao mesmo tempo, será bastante criticado pela ala intelectual do cinema por se afastar de uma linguagem cinematográfica. No fim das contas, o que importa mesmo é o público. Nada difícil adivinhar se a fórmula vai continuar ou não. Ao menos, em Chico Xavier, o diretor consegue fazer um trabalho que consiga prender a atenção naquelas duas horas de projeção. Para um cineasta que já assinou Muito Gelo e Dois Dedos D’Água é uma vitória e tanto.

Chico Xavier – O Filme
Dir.: Daniel Filho
Com Nélson Xavier, Angelo Antônio, Mateus Costa, Tony Ramos, Cristiane Torloni, Luis Melo, Pedro Paulo Rangel
Cotação Paradoxo: Vale 70% do ingresso

Confira o trailer de Chico Xavier logo abaixo: