quarta-feira, 31 de março de 2010

Toy Story

Ao Infinito e Além

Há quinze anos, uma revolução na arte da animação chegava aos cinemas. Uma novidade que mudaria definitivamente a maneira de se pensar produções com apelo infantil: Toy Story, primeiro longa-metragem concebido inteiramente dentro de computadores. Os méritos do longa-metragem, dirigido por John Lasseter, são muitos. Além de ser um belíssimo filme (estréia da parceria entre Disney e Pixar), com roteiro bem arquitetado, personagens carismáticos e aventura na medida certa, Toy Story abriu portas para várias outras boas produções. Se não fossem Woody e Buzz, talvez não víssemos (do modo como chegaram aos nossos olhos, pelo menos) Shrek, Procurando Nemo, Formiguinhaz, entre vários outros. Em 2010, com a estréia da terceira parte do longa-metragem agendada para o meio do ano, a Disney aproveitou a onda dos filmes em 3D para relançar os dois primeiros filmes da série. Mesmo tendo visto diversas vezes em VHS e em DVD, nunca é demais se reencontrar com os adoráveis personagens da Pixar.

Na trama, assinada por Joss Whedon, Andrew Stanton, Joel Cohen e Alec Sokolow em cima de idéia original dos quatro grandes da Pixar (John Lasseter, Pete Docter, Joe Ranft e o próprio Stanton), Toy Story leva o espectador a um mundo de imaginação no qual os brinquedos ganham vida quando os humanos não estão por perto. Nesse universo vive Woody (voz original de Tom Hanks), um boneco cowboy que é o preferido de seu dono, Andy (John Morris). No dia do aniversário do garoto, um brinquedo novo acaba ameaçando a paz de Woody. Ele é Buzz Lightyear (Tim Allen), um boneco astronauta que não tem ciência de que é apenas um brinquedo. Não demora muito para que Buzz se torne o predileto nas brincadeiras de Andy, o que deixa Woody morrendo de inveja. Esse ciúme irracional fará com que o cowboy aja de forma impensada, levando os dois brinquedos para fora do quarto de Andy e à mercê dos perigos do mundo. Agora, os dois devem unir forças para retornar ao seu dono.

Além do visual impressionante para a época, o que mais impressiona em Toy Story é a sua trama. Criativa e com personagens profundos, a animação tem uma história que consegue agradar em cheio as crianças e ainda interessar aos adultos. Aliás, isso é uma característica da grande maioria das animações dos últimos anos. Essa preocupação com o público mais velho acabou elevando o desafio para os roteiristas e transformou as histórias em um programa para toda a família. O longa dirigido por John Lasseter é um dos pioneiros neste quesito.

Woody, por exemplo, é retratado como um bom brinquedo e ótimo líder para seus amigos, responsável e atencioso. No entanto, ao perder seu lugar de destaque na vida de Andy, o cowboy revela um sentimento até então não conhecido: a inveja. Que protagonista de animações, até então, possuía sentimentos tão mundanos quanto ciúme e inveja? Por conseguir quebrar os preceitos básicos do chamado “filme para criança”, a Pixar acerta em cheio. O fato de Woody ter estes defeitos não é menos pedagógico para os pequenos. Eles acabam entendendo que nutrir este tipo de sentimento acaba não levando a nada. E tudo isso é compreendido sem apelar para lições de moral caretas ou óbvias.

Se o espectador não quiser olhar de forma mais profunda para Toy Story, pode se divertir com algumas ótimas cenas de ação, arquitetadas com perfeição pelos animadores da Pixar. Destaco a perseguição ao caminhão de mudança, no clímax do filme, que é praticamente uma montanha russa, cheia de perigos e emoção. O elenco de vozes também merece elogios, com destaques para Tom Hanks, Tim Allen e Wallace Shaw – que dá voz ao dinossauro medroso Rex.

Outra boa nova neste trabalho é a utilização de músicas não-diegéticas - ou seja, não cantadas pelos personagens. Elas ajudam a contar a história, mas não fazem com que a narrativa pare para que algum brinquedo cante uma canção. Depois de Toy Story, muitas animações da Disney começaram a adotar este formato musical em suas tramas – com Tarzan (1999) sendo um bom exemplo da boa utilização desse recurso.

Quanto ao 3D, não faz uma diferença gritante no fim das contas. Toy Story, na verdade, sempre foi em três dimensões. O espectador só não tinha como assisti-lo dessa forma. O que realmente interessa é ter a oportunidade de novamente conferir as aventuras de Woody e Buzz na telona. E aguardar ansioso pela próxima parte das peripécias dos brinquedos de Andy. Podem ter se passado 15 anos do primeiro Toy Story, mas quem já o assistiu certamente não esquece. Assim como não se esquece dos brinquedos preferidos da infância.

Toy Story
Dir.: John Lasseter
Com as vozes originais de Tom Hanks, Tim Allen, Don Rickles, Jim Varney, Wallace Shaw, John Ratzenberger, Annie Potts, John Morris
Cotação Paradoxo: Vale 98% do ingresso

Confira o trailer dublado do retorno de Toy Story aos cinemas:

terça-feira, 30 de março de 2010

Zumbilândia

The Man from Tallahassee

Existem atores que servem como uma luva em alguns personagens. E Woody Harrelson é, sem sombra de dúvidas, um dos melhores quando o roteiro pede por um tipo amalucado, psicótico ou moralmente falho. Foi assim em Assassinos por Natureza (1994), Mera Coincidência (1997), O Homem Duplo (2006) e, claro, no blockbuster 2012 (2009). Agora, em Zumbilândia, o ator consegue usar sua persona insana para dar vida a um dos mais divertidos personagens dos últimos tempos: o caçador de zumbis Tallahassee. Harrelson é um dos inúmeros bons motivos para assistir a essa divertida comédia dirigida pelo estreante Ruben Fleisher.

Com roteiro de Rhett Reese e Paul Wernick, Zumbilândia leva o espectador para um futuro nada promissor. Uma terrível doença toma conta dos humanos, que começam a se comportar como zumbis, sedentos por sangue. Poucos conseguem escapar da horda de mortos-vivos. Columbus (Jesse Eisenberg) é um destes poucos. Rapaz tímido e inteligente – e bastante neurótico – Columbus se manteve vivo até agora por seguir à risca diversas regras que criou após dar de cara com muitos zumbis. Ele começa uma viagem à procura de seus pais e, durante sua jornada, conhece o casca-grossa Tallahassee (Harrelson), homem que se diverte ao estraçalhar zumbis e que está na estrada em busca de twinkies, seu doce favorito. Essa procura os acaba levando a conhecer as irmãs Witchita (Emma Stone) e Little Rock (Abigail Breslin), duas trambiqueiras que fazem de tudo para sobreviver neste Estados Unidos pós-apocalíptico. As peripécias destes quatro personagens nesta comédia road movie de terror é a linha-mestre de Zumbilândia.

O filme ganha pontos logo de início pela premissa e pela sua execução divertida. Filmes de zumbi existem aos montes. Uns mais interessantes (com os clássicos de George Romero), outros bem menos (como a cinessérie Resident Evil). Zumbilândia se sobressai pelo humor e pela linguagem moderna com que conta sua história. Cada uma das regras que Columbus diz seguir é apresentada para o espectador de forma inventiva, com caracteres na tela que se misturam organicamente ao que ocorre no filme. Além disso, a narrativa tem idas e vindas no tempo, mostrando acontecimentos passados sob a ótica do narrador da história. Essa não-linearidade dá muita dinâmica à trama, que escolhe apresentar os personagens e contextualizar alguns pontos do roteiro com esse advento.

O quarteto principal do filme foi muito bem escalado, começando com o simpático Jesse Eisenberg, de Férias Frustradas de Verão (2009), que dá muito carisma ao neurótico Columbus. É difícil não torcer pelo protagonista, que demonstra realmente ser um herói relutante e, aparentemente, sem as ferramentas para salvar o dia, no fim das contas. Mesmo que a construção do personagem lembre outros geeks tímidos do passado, o estereótipo acaba servindo para criar uma identificação mais rápida com o espectador. Emma Stone faz uma boa dupla com Eisenberg, enquanto que Abigail Breslin tenta se soltar das amarras de Pequena Miss Sunshine o quanto pode. É uma jovem atriz de talento, mas que ganha pouco o que fazer neste filme.

Até porque Zumbilândia é de Woody Harrelson. O ator rouba todas as cenas, mostrando estar se divertindo horrores ao desmembrar mortos-vivos à procura de seus preciosos twinkies. O personagem ainda guarda um trauma profundo, que é desvelado no decorrer da trama, fato que explica sua vontade de decapitar zumbis com tanto prazer.

Existe ainda uma participação especial divertidíssima de um famoso ator de Hollywood, conhecido por seus filmes cômicos. A surpresa é maior não sabendo quem é. Caso você já tenha visto o filme ou não se importe em saber sua identidade, marque o texto ao lado. SPOILER: Antes de entrar na sessão, sabia que Bill Murray participava de Zumbilândia, mas não fazia idéia de qual seria seu papel. O fato de utilizarem o ator em uma ponta como ele mesmo foi hilária, e sua performance, fingindo-se de zumbi e brincando de Caça-Fantasma, é extremamente divertida. Pena que sua participação é curta. O desfecho dela é surpreendente e igualmente engraçada. FIM DO SPOILER

Junte tudo isso a uma trilha sonora indie caprichada (com destaque para Doves, Band of Horses e Metric) a uma abertura roqueira com For Whom the Bell Tolls do Metallica (enquanto acompanhamos diversos mortos-vivos levando a melhor sobre humanos – em câmera lenta) e Zumbilândia acaba sendo uma agradável surpresa. O fato de ter sido um sucesso nos Estados Unidos já garantiu ao filme uma sequência – em 3D. A idéia original do roteiro era servir de piloto para uma série de televisão que acabou não vingando. Portanto, é muito provável que os realizadores tenham diversos desenrolamentos para as histórias de Tallahassee, Columbus, Little Rock e Wichita. Se conseguir ser tão divertido quanto este primeiro, será uma continuação muito bem-vinda.

Zumbilândia (Zombieland)
Dir.: Ruben Fleischer
Com Woody Harrelson, Jesse Eisenberg, Emma Stone, Abigail Breslin
Cotação Paradoxo: Vale 92% do ingresso

Confira abaixo o trailer de Zumbilândia:

segunda-feira, 29 de março de 2010

O Lobisomem

Mistérios da Meia-Noite

Em tempos nos quais a figura do vampiro está cada vez mais no imaginário coletivo, a múmia ganhou três filmes (de qualidade bem discutível, é verdade) e até o Monstro do Lago Ness teve sua chance nos cinemas (com o açucarado Meu Monstro de Estimação, de 2008), estava mais do que na hora do lobisomem mostrar sua cara – e suas garras – na grande tela. A Universal, que é o estúdio materno dos grandes monstros da sétima arte, resolveu tirar do baú a história clássica do monstro meio homem, meio lobo, já levada para as telas em 1941, por George Waggner, e estrelada por Lon Chaney Jr. A nova versão de O Lobisomem, dirigida por Joe Johnston, mantém as origens do personagem na Inglaterra do século XIX e tem momentos de suspense acima da média.

Na trama, o ator Lawrence Talbot (Benicio Del Toro) é chamado às pressas de volta à mansão de seu pai, Sir John Talbot (Anthony Hopkins), por Gwen (Emily Blunt), noiva de seu irmão Ben. A moça está preocupada com o futuro marido, pois ele desapareceu sem deixar vestígios depois de uma saída à noite. Quando Lawrence chega ao local, descobre que o corpo de Ben fora encontrado em estado deplorável. Não demora para que ele comece a investigar os acontecimentos sinistros que levaram à morte do irmão, averiguação que poderá levá-lo a um caminho sem volta após dar de cara com uma besta sedenta por sangue.

O cineasta Joe Johnston não é nenhum gênio da raça, mas consegue entregar trabalhos redondinhos, via de regra. São dele Querida Encolhi as Crianças, de 1989, Rocketeer, de 1991, Jumanji, de 1995, e a terceira parte da trilogia jurássica de Steven Spielberg, lançada em 2001. Nenhum possui um arroubo de criatividade no que tange a direção, mas são longas-metragens que funcionam muito bem dentro de seus gêneros. O Lobisomem não foge disso. Johnston consegue criar nos primeiros minutos do filme uma atmosfera de suspense palpável, mantendo a figura do lobisomem escondida o quanto pode. Esses são os melhores momentos do filme, aliás. Quando tememos por algo que não conseguimos enxergar. O sangue aos borbotões poderia ter sido reduzido, é verdade. Talvez tenha sido colocado para saciar a sede dos fãs de Jogos Mortais e companhia.

Apesar de funcionar muito melhor como suspense sem a figura do lobisomem em cena, o filme não perde em terror quando ele aparece. Diferente de outros longas-metragens que utilizam do CGI para criar seus monstros, a produção de O Lobisomem resolveu utilizar os serviços do mago da maquiagem Rick Baker – fã confesso do longa-metragem original – para transformar Benício Del Toro na besta. Essa decisão, acertadíssima, mantém a criatura mais crível sob os olhos do espectador. Conseguimos enxergar os olhos do ator por trás da maquiagem e saber que existe mesmo um ser humano ali dentro. Claro que nos momentos de transformação ou quando vemos o bicho correndo pela mata, os efeitos especiais tiveram de ser utilizados. Mas é louvável que tenham sido exceção e não regra nesta produção.

Por falar em fã confesso, Benício Del Toro compartilha com Rick Baker a fixação pelo lobisomem de Lon Chaney Jr. Até por isso, o ator serviu de produtor para o longa-metragem e se prontificou a estrelar o pretenso blockbuster – terreno pouco conhecido para Del Toro, que geralmente encabeça produções mais sérias, como Traffic ou Che. O ator apresenta uma boa performance em O Lobisomem, transmitindo bem a angústia que o personagem traz dentro de si. Sua forma calma de falar e seu jeito quase tímido de se expressar devem ter sido razões para que Talbot tenha procurado o teatro para se libertar. Durante o filme, entendemos que seu comportamento deve-se a um trauma de infância que lhe cicatrizou profundamente. A surpresa, no entanto, não é tão grande como os roteiristas Andew Kevin Walker e David Self parecem pensar.

Quanto ao resto do elenco, Anthony Hopkins parece se divertir horrores com mais um personagem excêntrico e Hugo Weaving, como o detetive Francis Aberline, tem pouco tempo em tela para deixar uma impressão melhor no espectador. Já a falta de química entre Emily Blunt e Benicio Del Toro parecem atrapalhar a boa atriz em criar uma personagem mais interessante.

O filme corre muito bem até o terceiro ato, bagunçado, que parece jogar tudo o que pode no caldeirão para tentar deixar os espectadores satisfeitos. Até mesmo uma possível continuação é sugerida pelos acontecimentos que se desenrolam – e que provavelmente nunca verá a luz do dia devido à baixa bilheteria deste remake. O que fica da experiência de assistir a O Lobisomem é a excelente fotografia macabra de Shelly Johnson, o bom clima de suspense dos primeiros dois atos e a ótima maquiagem do sempre competente Rick Baker. Não fossem alguns tropeços do roteiro e teríamos um exemplar digno dos velhos tempos do cinema de horror.

O Lobisomem (The Wolfman)
Dir.: Joe Johnston
Com Benicio Del Toro, Anthony Hopkins, Emily Blunt, Hugo Weaving, Geraldine Chaplin
Cotação Paradoxo: Vale 68% do ingresso

Confira o trailer de O Lobisomem:

sexta-feira, 26 de março de 2010

O Amor Segundo B. Schianberg

Amor Experimental

Lembra daquele filme do cineasta britânico Michael Winterbottom chamado 9 Canções? Aquele no qual um casal vai a vários shows no Brixton Academy, em Londres, conversam coisas sem importância e fazem muito sexo? Bom, retire os números musicais e o sexo explícito e você pode ter uma idéia do que é O Amor Segundo B. Schianberg, mais recente trabalho do cineasta Beto Brant. Não quero dizer com isso que este longa-metragem sofre de falta de criatividade ou que não é interessante. Pelo contrário. Mas não pude deixar de fazer a relação entre estes dois trabalhos assim que assistia a essa peculiar obra audiovisual do diretor de O Invasor e Cão Sem Dono, feita originalmente para a TV Cultura.

É com Cão sem Dono, aliás, que Amor Segundo B. Schianberg encontra maiores relações. Em comparação, parece que Beto Brant estava experimentando com aquele filme uma forma leve de mostrar cenas cotidianas, em relação à total desdramatização apresentada neste novo longa-metragem. O que o cineasta faz é convidar o espectador para ser um vouyer da situação daquele casal, dentro daquele apartamento. E por mais low-fi que a experiência possa ter saído – a imagem da câmera é saturadíssima e os diálogos, não raro, são inaudíveis – posso dizer que saí satisfeito da sala de cinema.

Na “trama”, baseada livremente no personagem Beto Schianberg do livro Eu Receberia as Piores Notícias dos seus Lindos Lábios, de Marçal Aquino, acompanhamos alguns dias na vida do ator Félix (Gustavo Machado) e da videoartista Gala (Marina Previato). Ele, em cartaz com uma peça de teatro, vive no apartamento dela. Ela, montando uma videoarte que só nos é revelada no desfecho. A relação amorosa entre os dois é o fio condutor deste filme experimental, sem roteiro, que traz à baila temas como a arte, o amor e o choque entre os dois.

Não é só a falta de um roteiro propriamente dito que indica a experimentalidade deste Amor Segundo B. Schianberg. Beto Brant se manteve afastado do “set” de filmagens, controlando as câmeras (aquelas usadas em circuito fechado de segurança) instaladas no apartamento da moça em um quarto contíguo. Sua direção chegava aos atores através de mensagens de texto pelo celular ou e-mails. Ou seja, não apenas o espectador é tratado como um vouyer como o próprio cineasta tomou para si este papel. Ao observar as relações entre o casal de forma afastada, Brant construiu um trabalho que poderia lhe fugir totalmente do controle. Se isso acaba não acontecendo, é graças ao excelente trabalho da dupla de atores. Gustavo Machado e Marina Previato não se conheciam antes das gravações e Brant os instruiu a evitarem um contato maior antes das câmeras começarem a registrar as imagens. Apesar desta barreira imposta, o que vemos em cena é um casal com uma boa química, mesmo que mostrem dois pólos diferentes do amor.

Gala, a videoartista, é inclinada a uma relação mais relaxada. Uma espécie de amor caótico, como podemos conferir na videoarte do desfecho do filme. Já Félix é adepto à entrega total à pessoa amada. Ele precisa se sentir querido para que a relação tenha uma saudável prosperidade. Entre conversas frívolas, discussões sobre a relação e pequenos trechos do trabalho de cada um dos personagens, temos um painel bastante interessante de um casal muito bem construído pelos atores que os defendem.

Se o conceito do filme acaba o traindo em alguns momentos, devido à falta de qualidade da imagem e da inaudibilidade de certos diálogos, por outro lado, é uma aprazível brisa de inventividade dentro do cinema brasileiro. Esta conversa íntima com a videoarte está cada vez mais em voga – basta ver a quantidade de artistas que estão ou são oriundos de faculdades de cinema, tanto que Beto Brant encerra seu longa-metragem com o trabalho que a personagem de Marina Previato veio realizando durante toda a duração do filme. O Amor Segundo B. Schianberg é isso. Diferente, inusitado e vouyerístico. Mais um bom trabalho para a lista de Beto Brant.

O Amor Segundo B. Schianberg
Dir.: Beto Brant
Com Gustavo Machado, Marina Previato, Gero Camilo
Cotação Paradoxo: Vale 85% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de O Amor Segundo B. Schianberg:

quinta-feira, 25 de março de 2010

Idas e Vindas do Amor

Estelar, mas Ordinário

Para um filme conseguir utilizar o advento das multi-tramas de maneira satisfatória, é necessária uma mão privilegiada do diretor. E não são todos os cineastas que a tem, infelizmente. Robert Altman deve ser um dos mais conhecidos mestres da arte das várias tramas e dos muitos personagens, tendo assinado filmes como Nashville (1975), Short Cuts (1993) e Prêt-à-Porter (1994). Muitos outros diretores tentaram e falharam no intento de criar um bom filme com multi-trama. E o mais recente a não ser bem sucedido é Garry Marshall e seu Idas e Vindas do Amor. O elenco é estelar e enche os olhos. No entanto, o filme acaba trazendo muita gente na superfície e ninguém chegando a águas mais profundas.

Com roteiro assinado por Katherine Fugate, baseado em história da própria, junto a Abby Kohn e Marc Silverstein, somos apresentados a uma dezena de pessoas que estão curtindo (ou tentando passar incólumes) pelo dia dos namorados. Conhecemos o florista sensível que acaba de pedir sua namorada em casamento (Ashton Kutcher e Jessica Alba), o repórter esportivo avesso ao dia do cupido (Jamie Foxx), o jovem casal que decide transar pela primeira vez (Emma Roberts e Carter Jenkis), o casal idoso que descobre novidades no relacionamento (Shirley McLaine e Hector Elizondo), dois desconhecidos flertando no avião (Julia Roberts e Bradley Cooper), uma atendente de tele-sexo que começa a namorar um rapaz de seu outro emprego (Anne Hathaway e Topher Grace), entre vários outros menos cotados.

O tema que une todas estas histórias é, obviamente, o amor e suas várias encarnações. Mas a direção condescendente de Garry Marshall parece libertar de dentro de bons atores as piores versões de si mesmos. Jamie Foxx, que é inegavelmente um excelente profissional, parece desconfortável ao retornar à comédia. Jennifer Garner e Jessica Biel estão terrivelmente histriônicas, enquanto que a dublê de atriz Taylor Swift consegue envergonhar qualquer um com sua esquisita performance.

Sobram, felizmente, alguns atores que são tão simpáticos que sua persona acaba ajudando uma identificação com o espectador – já que o roteiro não ajuda. É o caso de Anne Hathaway e Topher Grace, que passam uma imagem tão bacana, que é difícil não simpatizar com sua história. O mesmo vale para Bradley Cooper e Julia Roberts, que aparecem bem menos do que deveriam. Ashton Kutcher consegue também entreter, mesmo não sendo o mais talentoso dos atores, com sua personificação do romântico ideal.

Algumas reviravoltas da trama – que é basicamente construída na ligação dos personagens das diversas histórias – são bastante previsíveis. Apenas uma, a de Eric Dane, é realmente surpreendente. A impressão que fica ao final de Idas e Vindas do Amor é que são muitos personagens indo e vindo e que um melhor resultado seria alcançado caso esses nomes fossem cortados pela metade. Para atestar a falta de risadas durante o filme, é exibido no desenrolar dos créditos finais os erros de gravação – que geralmente são colocados para que o espectador saia do cinema rindo, já que não o fez anteriormente. Nem assim o filme consegue arrancar algo maior do que um sorriso. A não ser que você ache hilariante a citação de um filme do passado de uma figura proeminente do elenco.

Idas e Vindas do Amor (Valentine’s Day)
Dir.: Garry Marshall
Com Jessica Alba, Kathy Bates, Jessica Biel, Bradley Cooper, Eric Dane, Patrick Dempsey, Hector Elizondo, Jamie Foxx, Jennifer Garner, Topher Grace, Anne Hathaway, Carter Jenkins, Ashton Kutcher, Queen Latifah, Taylor Lautner, George Lopez, Shirley MacLaine, Emma Roberts, Julia Roberts, Bryce Robinson, Taylor Swift, Matthew Walker
Cotação Paradoxo: Vale 40% do ingresso

Confira abaixo o trailer legendado de Idas e Vindas do Amor:

quarta-feira, 24 de março de 2010

O Livro de Eli

Faroeste Pós-Apocalíptico

Mesmo tendo gostado de Do Inferno (2001), filme mais recente dos irmãos Allen e Albert Hughes, não fui com grandes expectativas à sessão de O Livro de Eli. O assunto não parecia interessante o suficiente e, de acordo com o trailer, seria muito mais um thriller aventuresco sem muito papo e com muita ação. Ledo engano. O longa-metragem não é a oitava maravilha do mundo, mas também não é descartável como pensava. É um bom filme de ação, com uma temática pretensamente profunda e com dois atores competentes encabeçando o elenco: Denzel Washington e Gary Oldman.

O roteiro, assinado pelo estreante Gary Whitta, toma emprestado alguns conceitos do gênero western e os mistura com sagas pós-apocalípticas. Portanto, temos em Denzel Washington o forasteiro, o lobo solitário que chega à cidade do “coronel” inescrupuloso, vivido por Gary Oldman, e que terá de pagar muito caro por cruzar o seu caminho. A principal diferença entre um faroeste e este O Livro de Eli é que cowboys e índios não dão as caras. Em vez deles, temos saqueadores, canibais e assassinos habitando o desolado cenário terroso do que restou do mundo que conhecemos.

A trama se passa 30 anos depois de uma guerra de proporções gigantescas, que acabou transformando a Terra em um lugar inabitável por um longo tempo. Encontramos uma população sem princípios éticos, sem noção de como viver em sociedade e sem qualquer vestígio de humanidade. Neste cenário conhecemos Eli (Washington), um andarilho que possui uma missão muito clara: deve chegar ao oeste de qualquer forma para encontrar o lugar correto para deixar o livro sagrado que ele carrega e que lê todos os dias, religiosamente. Em seu caminho, está Carnegie (Oldman), homem que procura por este livro há anos, sem sucesso algum. Quando a sua jornada se cruza com a de Eli, Carnegie não tem dúvidas de que aquele livro é seu objeto de desejo. Agora, este poderoso homem fará de tudo para arrancar o artefato das mãos de Eli, lhe oferecendo água e mulheres – dentre elas, a escrava Solara (Mila Kunis), que acaba se afeiçoando pelo andarilho – ou a morte, caso ele não entregue o livro de bom grado. O problema é que Eli é mais poderoso do que aparenta e não se entregará facilmente.

Não é preciso ser um gênio para entender a mensagem de O Livro de Eli, até porque ela é óbvia demais para não ser compreendida. Esse é um dos problemas do novato Gary Whitta, autor do roteiro. Ele não consegue deixar nada nas entrelinhas. Tudo é soletrado para o espectador, como se o público não tivesse ferramentas para entender a trama. Ao assistirmos o longa-metragem, conseguimos entender que a real jornada de Eli não é apenas entregar o livro em segurança. É restituir sua humanidade, recobrar sua antiga consciência de que é importante ajudar o próximo entre tantas outras lições que são retiradas da Bíblia. Mas o roteirista não pode apenas deixar que o espectador entenda se a lição foi aprendida ou não. Ele precisa colocar o personagem dizendo com todas as letras. Isso tira um pouco do prazer de assistir a O Livro de Eli.

Fora essas escorregadelas, o longa-metragem tem vários méritos que são valiosas surpresas. A começar pela fotografia, assinada por Don Burgess (indicado ao Oscar por Forrest Gump), que carrega no marrom e nos tons escuros para criar uma realidade totalmente saturada. O sol, naquele mundo, acabou fritando a paisagem e a visão de muitos dos sobreviventes. Portanto, a escolha deste tipo de fotografia não só deixa o filme com um visual diferente, mas também conversa totalmente com a temática do roteiro. A câmera também surpreende por alguns planos-sequência de difícil execução, como o momento em que Eli luta, no escuro, contra cinco saqueadores. A cena é belíssima – e ao mesmo tempo, violenta – por enxergarmos apenas a silhueta dos envolvidos nesta “dança”.

Quanto ao elenco, Denzel Washington é um ator que acrescenta bastante ao carisma de Eli na telona. Sempre bastante focado em sua missão, seu personagem carrega a certeza de que é um homem que trilha este longo caminho por um propósito maior. Isso, no entanto, acaba o desligando de sua humanidade. Em uma sequência pouco usual, vemos o nosso herói negar socorro a pessoas em perigo no meio de sua jornada. Quando qualquer outro destemido protagonista prestaria ajuda, ele se mantém totalmente absorto em sua incumbência. Até, claro, conhecer a jovem Solana, que resgata um pouco da humanidade de dentro do andarilho. Mila Kunis faz o papel do espectador dentro da história, fazendo as perguntas certas para que o público entenda melhor o entorno da trama. É salutar que um filme de Hollywood consiga largar do cansado recurso da narração para contextualizar os acontecimentos. Nos primeiros minutos de projeção, acompanhamos os passos de Eli sem nenhum diálogo e sem que ele precise falar consigo mesmo para passar informações ao espectador. Isso cria um ar de expectativa na platéia, que não sabe ao certo o que aconteceu, e um ótimo clima de suspense.

Para todo mocinho, existe um antagonista. E fazia tempo que não via Gary Oldman como vilão. Depois de ter se especializado em fazer personagens malucos e vilanescos, o ator passou uma temporada se divertindo com papéis mais sadios – digamos assim – como o tio de Harry Potter, Sirius Black, na saga do bruxinho britânico e, claro, como Jim Gordon nos dois filmes do Homem-Morcego dirigidos por Christopher Nolan. Em O Livro de Eli, Oldman retorna à velha forma interpretando um homem que conhece o poder da Bíblia e que sabe que, apoderando-se de seus ensinamentos, poderá dominar a cabeça dos fracos à sua volta, lhe trazendo muito poder. Em um papel que poderia ser completamente desinteressante nas mãos de qualquer outro ator, Oldman consegue fazer frente ao messiânico Eli de Denzel Washington.

Com algumas boas cenas de ação, e uma participação irreverente dos veteranos Michael Gambon e Frances de La Tour, O Livro de Eli carrega nas tintas em sua mensagem salvadora, mas consegue ser um bom entretenimento em suas duas horas de projeção. O desfecho surpreendente agrega alguns pontos a mais no resultado final. Acostumado que estou a notar artimanhas de roteiristas a fim de pegar o espectador no contrapé, devo confessar que fui surpreendido com a reviravolta do longa-metragem dos irmãos Hughes. Imaginava outro tipo de desfecho. Foi bom sair do cinema com aquela sensação. Fez com que outras passagens do filme fizessem mais sentido pensando em retrospecto, algo que você, leitor, provavelmente fará ao assistir O Livro de Eli.

O Livro de Eli (The Book of Eli)
Dir.: Allen e Albert Hughes
Com Denzel Washington, Gary Oldman, Mila Kunis, Jennifer Beals, Michael Gambon, Frances de la Tour, Ray Stevenson e Tom Waits
Cotação Paradoxo: Vale 73% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer legendado de O Livro de Eli:

terça-feira, 23 de março de 2010

Percy Jackson e o Ladrão de Raios

Os Olimpianos

Desde que teve início o fenômeno Harry Potter, Hollywood tenta desesperadamente encontrar um substituto à altura do bruxinho de Hogwarts. As Crônicas de Nárnia (2005), Eragon (2006) e A Bússola de Ouro (2007) são alguns desses filmes que pegaram carona na febre potteriana para tentar descolar alguns trocados junto aos espectadores. Nenhum deles teve muita relevância, é verdade, com exceção talvez dos jovens de Nárnia, que até já descolaram algumas continuações. O mais novo concorrente a pegar a batuta do mago com a cicatriz é Percy Jackson, protagonista da série literária assinada por Rick Riordan. Para tentar acertar o alvo em cheio, a Fox não se furtou em contratar o cineasta que deu o pontapé inicial da saga de Harry Potter no cinema, Chris Columbus. Se eles tivessem feito o tema de casa corretamente, teriam sabido que o cineasta assinou os dois filmes mais burocráticos da cinessérie. Não é a toa, então, que Percy Jackson e o Ladrão de Raios seja tão quadradão quanto os primeiros filmes do bruxo britânico.

Na trama, Percy Jackson (Logan Lerman) é um garoto que enfrenta problemas em casa e na escola. Sua mãe, Sally (Catherine Keener), é casada com um ogro em forma de gente, Gabe (Joe Pantoliano). No colégio, Percy tem dificuldades de aprendizado por causa de sua dislexia. Sua rotina é suportável pela companhia do amigo Grover (Brandon T. Jackson) e dos conselhos do seu professor, o senhor Brunner (Pierce Brosnan). Tudo ia dentro do esperado até que Percy é surpreendido por uma professora que, em um piscar de olhos, se transforma em uma figura alada horrenda, tentando atacá-lo por causa de um “raio roubado”. Nesse dia, o garoto descobre suas reais origens: sua mãe teve um caso de amor com o Deus grego Poseidon (Kevin McKidd) e, como resultado dessa relação, um filho que chamaram de Percy. Em meio a estas revelações, o garoto toma conhecimento de que Grover é seu protetor – um sátiro, ser metade humano, metade bode – e que Zeus (Sean Bean) teve seu raio roubado e agora procura pelo ladrão. E o principal suspeito é Percy. Como se não bastasse só isso, o desaparecimento do raio chama a atenção do deus dos mortos, Hades (Steve Coogan), que rapta Sally em troca do artefato. Agora, Percy terá de treinar junto a outros semideuses para conseguir recuperar sua mãe e resolver toda a encrenca. Para tanto, ele terá a ajuda de Grover e de sua nova amiga, a filha de Atena com um humano, Annabeth (Alexandra Daddario).

Para começar, tudo é muito parecido com Harry Potter – que já era muito parecido com Star Wars (1977) (que bebia da fonte da jornada do herói, recorrente em 9 entre 10 filmes de aventura). Se fôssemos pegar o radical da história, ela seria exatamente a mesma: jovem descobre ter poderes mágicos, entra para uma escola a fim de treinar suas novas habilidades e enfrenta perigos junto a dois amigos. Derivativo o suficiente para você? Claro que, para mudar um pouco o cenário, a mitologia grega foi inclusa na mistura, para tentar dar um tempero diferente à trama. É válido que personagens mitológicos sejam apresentados a uma nova plateia, seja no cinema ou na literatura. Mas o sentimento de Déjà vu é inevitável. Percy Jackson e o Ladrão de Raios, no fim das contas, é apenas uma aventura passável, com algumas boas escolhas e, outras, muito questionáveis.

O protagonista, Logan Lerman, por exemplo, tem uma performance cheia de altos e baixos: quando o personagem pede por alguma sagacidade ou algum espírito heróico, o ator conseguia convencer como o herói. Mas no drama que o leva a entrar na aventura, não existe um pingo de preocupação ou consternação pelo fato de Hades ter acabado de levar sua mãe para sabe-se lá onde. E podem acreditar, culpa disso é da direção de Chris Columbus, que não se interessa em nenhum momento em dar alguma profundidade aos personagens. A idéia é chegar à ação o mais rápido possível. Portanto, coisas sem importância como a perda de uma mãe, ou o fato de encarar uma nova realidade desconhecida, são relegadas a segundo plano pelo cineasta.

O elenco de apoio apresenta bons nomes, como Pierce Brosnan (muito à vontade como o tutor centauro de Percy Jackson), Sean Bean, Rosario Dawson e Catherine Keener. A nota de constrangimento fica para Uma Thurman, que liga o mesmo piloto automático de Batman & Robin, e interpreta a Medusa com a mesma desenvoltura com a qual encarnara Hera Venenosa no filme-catástrofe do Homem-Morcego, em 1997. Os efeitos especiais também não ajudam, é verdade. As serpentes da cabeça da atriz são embaraçosamente mal produzidas. Total caso de vergonha alheia. Felizmente, nem todos os efeitos são tão pobres. Mas estão longe de um Avatar da vida, parâmetro de qualidade atual no que tange criaturas criadas por computador.

O roteiro, assinado por Craig Titley, baseado no romance de Rick Riordan, é bastante previsível, sendo possível adivinhar o vilão da história a milhas de distância. O lugar-comum também se prolifera. O marido grosso que pede cerveja assim que vê a mulher é um clichê tão manjado que sou levado a crer que Joe Pantoliano aceitou o papel por total falta de grana. Acredito que o que atrapalhou e muito Percy Jackson e o Ladrão de Raios foi a pressa. Sabendo que a Warner lançaria no meio do ano Fúria de Titãs, que traz a mitologia grega repaginada com um grande elenco (Liam Neesom é Zeus, Ralph Fiennes é Hades e Sam “Avatar” Worthington é Perseu), a Fox resolveu correr para entregar seu filme antes. Tiro no pé. Tivesse mais cuidado com um produto valioso, como uma cinessérie baseada em literatura best seller, talvez pudesse colher frutos mais vistosos. Duvido que esta saga ganhará muitos outros capítulos caso a qualidade geral das aventuras seja tão fraca. Bússola de Ouro e Eragon estão aí, sem qualquer possibilidade de continuação, e não me deixam mentir.

Percy Jackson e o Ladrão de Raios (Percy Jackson and the Olympians: The Lightning Thief)
Dir.: Chris Columbus
Com Logan Lerman, Brandon T. Jackson, Alexandra Daddario, Jake Abel, Sean Bean, Pierce Brosnan, Steve Coogan, Rosario Dawson, Melina Kanakaredes, Catherine Keener, Kevin McKidd, Joe Pantoliano e Uma Thurman
Cotação Paradoxo: Vale 60% do ingresso

Confira o trailer legendado de Percy Jackson e o Ladrão de Raios:

segunda-feira, 22 de março de 2010

Os Inquilinos

Meus vizinhos são um Terror

Criamos muros que nos dão a garantia de que morreremos cheios de uma vida tão vazia. Humberto Gessinger e seus Engenheiros do Hawaii cantavam a música Muros e Grades no começo dos anos 90, apontando um fato que é verdadeiro até hoje: a população cada vez mais temerosa com a violência acaba se encarcerando dentro de suas próprias casas, vivendo uma vida “que leva a nada”. Os muros das residências viraram fortes que afastam as pessoas dos problemas alheios. É basicamente isso que vive a família protagonista do mais recente trabalho do cineasta paranaense Sérgio Bianchi, Os Inquilinos.

No roteiro assinado por Beatriz Bracher, baseado no conto de Vagner Geovani Ferrer, acompanhamos a rotina da família de Valter (Marat Descartes) e Iara (Ana Carbatti), moradores da periferia de São Paulo em um período bombástico na cidade, os ataques do PCC. Ela, dona de casa, cuida de dois filhos. Ele, trabalhador e estudante, passa o dia em uma companhia de entrepostos de frutas e, à noite, no colégio. Seu trivial cotidiano muda drasticamente quando três jovens rapazes se mudam para a casa ao lado. Barulhentos, bocas-sujas e sem emprego, o trio transforma a vida dos vizinhos em um inferno. Iara acredita que os rapazes são bandidos e tenta convencer o marido a fazer algo a respeito. Mas o que fazer quando o perigo mora ao lado e se tem muito medo em encará-lo?

Sérgio Bianchi é conhecido por ser um diretor contundente. O cineasta está na ativa desde o final dos anos 70, mas foi em 2000, com Cronicamente Inviável que seu trabalho ganhou mais repercussão. Bianchi é interessado em retratar a sociedade da forma que a enxerga, sem maiores pudores em revelar o lado menos invejável do ser humano. Portanto, cria um protagonista que, basicamente, não suporta a situação em que vive, mas por medo de represálias acaba não fazendo nada sobre o caso. O roteiro utiliza de forma interessante os acontecimentos do entorno para ampliar a tensão da trama. Não é por acaso que a história é ambientada na época dos ataques do PCC à cidade de São Paulo. A população vivia em um estado de medo constante e a menor hipótese daquele terror maximizado chegar ao lado de sua casa era intolerável. Com esse cenário, e a televisão aumentando de forma exponencial o pânico, qualquer cidadão se sentiria indefeso. Bianchi é feliz por transformar o microcosmos daquela vizinhança da periferia em um retrato do temor que toda São Paulo vivia naquele período.

Marat Descartes demora em se encontrar como o retraído Valter (a forma de dar o texto parece um tanto ensaiada no início), mas o ator cresce no desenrolar da trama. Seu personagem sabe da responsabilidade que tem com seus filhos e mulher, também tem ciência de que estudar e trabalhar são as melhores formas de trazer um futuro melhor para si e seus entes queridos. Mas o fato de ficar o dia todo fora de casa acaba por o deixar cada vez mais paranóico sobre o destino de sua família vivendo ao lado dos inquilinos indesejados. Ana Carbatti (de Última Parada 174) faz uma boa dobradinha com Marat, incutindo ainda mais medo na cabeça de seu marido. O garotinho Lennon Campos, que interpreta o filho do casal, é um verdadeiro achado. Com simplicidade, a criança não parece em nenhum momento estar vivendo um personagem.

Mesmo afirmando não ter isso em mente ao escalar seu elenco, Bianchi acabou dando um ar de realidade muito forte à família protagonista por escolher profissionais pouco conhecidos do grande público. Tanto que, ao sermos apresentados a personagens vividos por atores famosos, como Cássia Kiss e Caio Blat, demora um tempo maior para acreditarmos em suas atuações. A atriz não se ressente tanto deste problema, conquistando logo o espectador ao interpretar uma professora dedicada. Mesmo aparecendo pouco, ela é um dos destaques do elenco. Sua performance foi premiada no Festival do Rio do ano passado, como Melhor Atriz Coadjuvante. Já Caio Blat tem maiores dificuldades em convencer como um rapaz de periferia cheio de gírias, não conseguindo ser bem sucedido em seu intento.

Por trabalhar com uma temática tão real e palpável, Sérgio Bianchi constrói em Os Inquilinos um ótimo painel da sociedade atual. O autor do conto que serviu de base para o roteiro (também vencedor de prêmio no festival carioca em 2009) é morador da periferia de São Paulo e certamente deu uma visão muito íntima do que lá acontece. Com um final irônico como só a vida real pode produzir, o longa-metragem do cineasta paranaense tem ingredientes suficientes para entreter e fazer pensar: qual seria a sua atitude em situação semelhante? Veja o filme e tire suas conclusões.

Os Inquilinos
Dir.: Sérgio Bianchi
Com Marat Descartes, Ana Carbatti, Umberto Magnani, Lennon Campos, Andressa Néri, Caio Blat e Cássia Kiss
Cotação Paradoxo: Vale 88% do ingresso

Confira o trailer de Os Inquilinos logo abaixo:

sexta-feira, 19 de março de 2010

Criação

A Origem da Origem

Por incrível que pareça, a única vez que o cinema contou a história do cientista Charles Darwin e da criação de seu paradigmático livro A Origem das Espécies foi em 1972, no longa-metragem A Aventura de Darwin, dirigido por Jack Couffer. Desde então, o cinema nunca mais trouxe a figura emblemática do homem que ousou teorizar contra a idéia corrente de que o universo foi criado em seis dias (no sétimo, como vocês sabem, Ele descansou). Logo, ficou nas mãos do diretor Jon Amiel (de O Núcleo) apresentar esta importante passagem da vida do cientista britânico em Criação. Infelizmente, o roteiro assinado por John Collee e adaptado da biografia escrita por Randall Keynes acaba em uma digressão do seu aparente foco original e se transforma em uma trama de angústia e perda. A Origem das Espécies é relegada ao segundo plano.

Na trama, Charles Darwin (Paul Bettany) é um pai de família, homem casado com a bela Emma (Jennifer Connoly) e dono de uma teoria que pode mudar para sempre o pensamento das pessoas sobre a criação das espécies. A morte precoce de sua filha mais velha, no entanto, acaba por interromper os estudos do cientista, que se sente diretamente responsável pelo seu falecimento. Colegas e amigos de Darwin tentam lhe dar estímulo para que ele continue suas teorias, mas antes disso, o cientista terá de enfrentar seus demônios.

Uma das características que se destacam em Criação é a forma inventiva como o roteiro foi concebido a fim de mostrar histórias do passado de Darwin. O cientista, volta e meia, conta a seus filhos histórias que lhe ajudaram a criar suas teorias. Desta forma, somos levados para o passado e observamos como tudo aquilo transcorreu. Com uma edição caprichada, assinada por Melanie Oliver (do ainda inédito no Brasil The Damned United), que vai e volta no tempo, temos também a chance de observar relances da vida feliz que Darwin vivia com sua família e, com isso, temos noção do quanto a presença de sua filha mais velha lhe faz falta no presente. O departamento de maquiagem de Criação merece elogios por conseguir transformar Paul Bettany em um Charles Darwin verossímil, com direito a uma proeminente calvície. O avanço do tempo é bem retratado pela maquiagem, ficando fácil para o espectador entender em que período se encontra aquela passagem.

Darwin é trazido à vida graças à maquiagem e, claro, à atuação de Paul Bettany, que consegue imprimir inteligência e angústia sob medida ao personagem. É interessante observar as dúvidas que Darwin possuía antes de publicar suas teorias. Ele sabia o quanto suas idéias afrontariam a Igreja e o fato de sua própria esposa ser uma pessoa religiosa o barrava em continuar seus escritos. Casado com a prima em primeiro grau, Darwin também tinha consciência de que isso enfraquecia sua prole e a culpa o corrói. É uma pena, no entanto, que o filme dedique tanto tempo para o luto do cientista e pouco em mostrá-lo conjecturando sobre seus pensamentos. Entendo que a morte da criança foi muito relevante para Darwin e que todo aquele momento o ajudou de alguma forma a terminar seu trabalho. Mas se a idéia era fazer um filme detalhando esse momento do cientista, melhor seria então limar o primeiro minuto do longa-metragem que explicita: “A Origem das Espécies ficou conhecido como a maior idéia original da história do pensamento. Essa é a história de como ela foi criada”. É óbvio que qualquer espectador, depois desta frase, espera um total destaque para o livro – fato que não acontece.

De qualquer forma, não deixa de ser interessante observar o desenrolar da história. Bem fotografado e com figurino de igual qualidade, Criação pode não ser aquilo pelo qual se comprou o ingresso, mas tem qualidades que o tornam relevante pelo que é. Ao final do longa-metragem, os que não conhecem muito a história do cientista (e me incluo nesse grupo) devem se perguntar: o Darwin da vida real teve tanta resistência em desafiar as teorias criacionistas antes de escrever seu livro quanto o personagem interpretado por Paul Bettany tem, ou isso foi uma suavização do tema, evitando assim uma visão negativa por parte da Igreja Católica? Fica aqui a pergunta que, sinceramente, não sei a resposta.

Criação (Creation)
Dir.: Jon Amiel
Com Paul Bettany, Jennifer Connely, Jeremy Northam, Toby Jones, Benedict Cumberbatch, Jim Carter, Martha West
Cotação Paradoxo: Vale 70% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de Criação:

quinta-feira, 18 de março de 2010

Ilha do Medo

Paciente 67

Sei de muitos que ainda choram as pitangas por Martin Scorsese ter trocado seu parceiro do passado, Robert De Niro, por Leonardo DiCaprio. Concordo que existe um abismo enorme entre os atores, mas não compactuo com a reclamação. Até porque é inegável que a cada nova colaboração entre Scorsese e DiCaprio, o ator cresce artisticamente. Se em Gangues de Nova York, de 2002, a parceria precisava notoriamente de um entrosamento – e um Daniel Day-Lewis inspiradíssimo eclipsou qualquer possibilidade de um destaque para o “mocinho” do filme – logo em O Aviador, de 2004, os holofotes se voltaram totalmente à performance irretocável de DiCaprio como Howard Hughes. Dois anos depois, em Os Infiltrados, parecia que diretor e ator tinham chegado a um equilíbrio perfeito e conseguido seu melhor trabalho juntos. Isso, claro, até 2010 e Ilha do Medo. Com esse suspense à moda antiga, Scorsese e DiCaprio chegaram ao ápice de sua dobradinha.

O roteiro é baseado no romance de Dennis Lehane – autor do livro que deu origem ao ótimo Sobre Meninos e Lobos (2004), de Clint Eastwood – e tem assinatura de Laeta Kalogridis, que se recupera dos embaraçosos Desbravadores (2007) e Alexandre (2004). a trama se passa em 1954 e acompanha as investigações do detetive Teddy Daniels (DiCaprio) e de seu parceiro, Chuck Aule (Mark Ruffalo), ao chegarem na remota ilha Shutter, local onde são abrigados os mais perigosos criminosos com problemas mentais. O sumiço de uma das pacientes do local, Rachel Solando (Emily Mortimer), motiva a presença dos detetives, que devem passar por cima dos mistérios do lugar para resolver o caso. Acredite. Quanto menos você souber da trama, mais interessante é a experiência de acompanhar a história de Ilha do Medo. O próprio trailer revela demais e devo confessar que o desfecho da trama já havia me passado pela cabeça apenas assistindo ao preview que rolava nos cinemas. Portanto, tente se manter o menos informado sobre o filme antes de vê-lo.

Martin Scorsese constrói uma Shutter Island claustrofóbica, envolta em sombras. A ilha é, inegavelmente, um dos personagens do filme e serve como enclausuramento não só para os perigosos pacientes do local, mas também para as pessoas que lá trabalham. Os veteranos Ben Kingsley e Max Von Sydow fazem parte do staff que encabeça a instituição que lá funciona e são detentores de muitas respostas que Teddy procura. A impressão que fica é que há muito tempo nenhum dos dois sai daquela ilha, mantendo-se totalmente imersos naquele ambiente lúgubre.

A presença de atores do calibre de Kingsley e Sydow (o padre Merrick do inesquecível O Exorcista) dão maior carga dramática para a trama de Ilha do Medo. O elenco todo, aliás, é um luxo. Além dos veteranos, temos participações de Elias Koteas, Emily Mortimer, Michelle Williams, Patricia Clarkson, John Carrol Lynch e uma ponta aterrorizante de Jackie Earle Haley, que cada vez mais impressiona por conseguir dar vida aos tipos mais psicóticos. E se Mark Ruffalo é bastante limitado como o detetive Chuck, DiCaprio consegue ser competente pelos dois. Criando um personagem angustiado por eventos do passado, Teddy Daniels é um homem que procura por vingança e acha sua oportunidade com o sumiço de Rachel Solando. A sua convicção de que algo mais acontece dentro da ilha Shutter o faz entrar em uma cadeia de acontecimentos que lhe revelam muito mais do que gostaria de saber. Ao ser revelado o grande segredo, DiCaprio é talentoso o suficiente para não debandar para o melodrama, conseguindo uma performance intensa e marcante.

O clima de suspense que Martin Scorsese consegue empregar em Ilha do Medo é digno dos grandes filmes de suspense do passado. Bebendo na fonte do cinema noir e dos thrillers sobrenaturais, o cineasta engendra uma teia que mantém o espectador totalmente absorto nos fatos que se desenrolam. Os movimentos primorosos de câmera do cineasta continuam a chamar a atenção (aquele traveling circular em torno de Leonardo DiCaprio no terceiro ato do filme é estupendo). Dignos de nota também são a colaboração da parceira habitual do cineasta, a montadora Thelma Schoonmaker, e a belíssima contribuição do diretor de fotografia Robert Richardson. O longa-metragem de Scorsese só é o que é graças ao trabalho destes dois excelentes profissionais. Enquanto que Schoonmaker se diverte com o surrealismo de algumas passagens, Richardson dá à Shutter Island um visual cheio de áreas escuras, belissimamente fotografadas. Até as cenas mais violentas conseguem ter uma beleza triste graças à câmera de Robert Richardson.

Mesmo não considerando o desfecho uma grande surpresa, como já mencionei logo acima, ele consegue ser bastante coerente com o universo que Scorsese cria para Ilha do Medo. Aliás, é sempre bom ver um cineasta veterano se arriscando em novos gêneros e o diretor de filmes como Taxi Driver, Touro Indomável e Alice não Mora mais Aqui se sai muitíssimo bem em sua incursão pelo suspense. Tenho saído satisfeito das sessões dos mais recentes filmes de Martin Scorsese e este aqui não é exceção. Mesmo.

Ilha do Medo (Shutter Island)
Dir.: Martin Scorsese
Com Leonardo DiCaprio, Mark Ruffalo, Ben Kingsley, Max Von Sydow, Emily Mortimer, Michelle Williams, Elias Koteas, Patricia Clarkson, John Carrol Lynch e Jackie Earle Haley
Cotação Paradoxo: Vale 92% do ingresso

Confira o trailer legendado de Ilha do Medo:



P.S.: Curiosamente, este é o 67º post do blog. Devo ficar com medo?

quarta-feira, 17 de março de 2010

Simplesmente Complicado

Vida de luxo

Seria muito bom viver no mundo dos filmes da diretora Nancy Myers. A cineasta tem predileção por personagens endinheirados, com casas grandiosas e carros do ano. A filmografia de Meyers não deixa dúvidas quanto a isso. Nela acharemos exemplos de personagens abastados em O Amor não Tira Férias, de 2006, e, principalmente, em Alguém tem que Ceder, de 2003. São pessoas que não pensam duas vezes antes de viajar para Paris, que não têm problemas em trocar de casa por uma temporada de férias ou emprestar, sem pestanejar, seu cartão de crédito para um filho recém formado na universidade. É nesse mundo que circulam os personagens de Nancy Meyers também em seu mais recente trabalho, Simplesmente Complicado.

Na trama, Meryl Streep vive a divorciada confeiteira Jane. Depois de passar 10 anos sem o ex-marido Jake (Alec Baldwin), que a largou por uma mulher mais jovem, Agness (Lake Bell), os dois finalmente chegam a um ponto onde conseguem conversar sem animosidades. A festa de graduação de seu filho, Luke (Hunter Parrish), acaba por aproximar o ex-casal, que começa um caso amoroso. Para complicar mais a situação, Jane conhece o arquiteto Adam (Steve Martin), com quem aparenta ter muitas afinidades. Agora, a até então solitária mulher terá de resolver com qual homem ficará, nessa comédia com elenco acima da média, que ainda conta com participações de John Krasinski (do seriado The Office), Rita Wilson (de Sintonia de Amor) e Mary Kay Place (de Nine Lives).

O roteiro, assinado pela própria diretora, tem alguns momentos cômicos bastante inspirados e consegue trabalhar bem a temática da mulher solteira de meia-idade. A Jane criada por Nancy Meyers é uma mulher independente, mãe de três filhos e dona de uma confeitaria bem sucedida. No entanto, o fato de não ter uma pessoa com quem dividir tudo isso é um problema para ela. Esta solidão se agrava pelo fato de seus filhos estarem se mudando de casa, deixando-a completamente só. Meryl Streep, para variar, está magnífica no papel, conseguindo atingir as notas tristes e as notas alegres do seu personagem. Alec Baldwin assume sua compleição física avantajada e está muito a vontade como o volúvel Jake. Sua química com Streep é um achado. Já Steve Martin se ressente por defender um personagem desinteressante, que só faz rir quando está chapado. Apesar de ser simpático e amável, o Adam de Steve Martin tem pouco espaço para mostrar porque seria a melhor opção para Jane.

Se o texto de Nancy Meyers tem momentos inspirados, também tem muito que poderia ser retrabalhado. Toda a cena envolvendo um baseado e os três personagens centrais é muito forçada. Faz rir em alguns momentos, mas não tem muita razão de existir. O roteiro também não deixa muito espaço para que os filhos do casal desenvolvam alguma personalidade. Quem mais tem alguma chance de brilhar é o noivo de uma das filhas de Jane, Harley (Krasinski), que consegue ser cativante nas poucas cenas que lhe são dadas para fazer algo na trama. Era de se esperar que em um filme de inchados 120 minutos pudesse ser alcançado um melhor equilíbrio entre desenvolvimento de personagens e desenrolar da trama principal.

Felizmente, os deslizes de Nancy Meyers no roteiro não conseguem desinteressar o público da trama. Muito por culpa do trio principal, que não deixa a peteca cair, e por causa do clima geral do filme, leve como uma clara em neve. Não deixa de ser louvável também que cada vez mais se produzam comédias e romances com um elenco mais experiente. Até porque, não são apenas os jovens que têm direito a uma chance de ser feliz ao lado de alguém amado. Nisso, pelo menos, a cineasta acerta a mão em cheio.

Simplesmente Complicado (It’s Complicated)
Dir.: Nancy Meyers
Com Meryl Streep, Alec Baldwin, Steve Martin, John Krasinsky, Rita Wilson, Mary Kay Place, Lake Bell, Hunter Parrish, Alexandra Wentworth, Zoe Kazan
Cotação Paradoxo: Vale 70% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de Simplesmente Complicado:

terça-feira, 16 de março de 2010

Crítico

A pedra e a vidraça

Não é necessário ser crítico de cinema para apreciar o bom trabalho do colega de profissão Kleber Mendonça Filho no longa-metragem Crítico. Basta o espectador ter um pequeno interesse pelo trabalho, já ter lido alguma coisa a respeito ou ao menos ter a opinião forte sobre um filme que o valha. Isso será ferramenta suficiente para que ele saia do cinema entendendo um pouco mais esta profissão tão prazerosa de se fazer, mas ao mesmo tempo, tão incompreendida.

Um crítico de cinema é um cinéfilo, em primeiro lugar – ou deveria ser. Uma pessoa que ama a sétima arte e deseja dedicar seu tempo a entendê-la, destrinchá-la, dissecá-la. O seu trabalho é fazer o meio de campo entre a obra audiovisual e o público. Seja divulgando uma produção, através de uma resenha, seja a criticando, através de um texto opinativo, seja a traduzindo, através de um texto analítico. São várias as funções de um crítico de cinema. Inclusive escutar pacientemente as críticas sobre as suas críticas, que não raro aparecem. É a pedra e a vidraça ao mesmo tempo.

Notando isso, Kleber Mendonça Filho (que também é realizador, além de crítico) rodou os festivais mais importantes do mundo e coletou um material riquíssimo para instigar profissionais da área a falarem sobre a crítica. Nestes depoimentos, temos a presença de diretores como Gus Van Sant (de O Segredo de Brokeback Mountain), Tom Tykwer (de Corra Lola Corra), Eduardo Coutinho (de Jogo de Cena), Walter Salles (de Central do Brasil), Fernando Meirelles (de Cidade de Deus) e um sem número de profissionais da crítica que dão seu testemunho de como pensam seu trabalho.

O que é mais interessante no longa-metragem é o fato de não tentar apresentar uma resposta definitiva sobre a questão maior do filme. Cada um tem uma opinião formada sobre a crítica, da mesma forma que cada um tem uma forma de reagir quando recebe uma resposta indesejada dos profissionais da área ou do próprio público. O fato é que a pluralidade de vozes contida em Crítico deixa muito pano para manga para discussões a cerca do assunto. É possível se identificar com aquele cineasta que não consegue ler nada a seu respeito. Ou talvez com aquele outro, que pensa que todos os críticos são frustrados com a vida e ficam felicíssimos quando seu filme não é bom.

Mendonça Filho tem uma invejável lista de entrevistados famosos, que podem chamar a atenção em um primeiro momento. Mas não dá para esquecer os depoimentos dos críticos, que dão uma luz bastante honesta sobre sua profissão. Alguns afirmam nem sempre terem o que dizer sobre um filme (verdade, algumas produções nem dão muitos subsídios para tanto ou simplesmente o crítico não tem o que acrescentar), outros afirmam ser mais difícil escrever sobre algo que realmente gostaram (outro fato. Demorei semanas para falar sobre Batman Begins porque não conseguia encontrar palavras para expressar minha admiração pelo longa-metragem. Em contra-partida, teci comentários sobre o bizonho Missão Babilônia em minutos). Essas entre outras tantas verdades sobre a profissão são comentadas ao longo da projeção de maneira bastante franca.

Claro que não poderei deixar de fazer críticas negativas à Crítico pela forma. O conteúdo é irretocável, mas a qualidade de imagem e som deixa a desejar em vários momentos. Compreensível, lógico, visto que o cineasta teve de andar com uma câmera não profissional para lá e para cá em festivais por 8 anos para capturar todo aquele material. Também não achei muito inspirado o uso de imagens de arquivo para ilustrar algumas passagens do filme. Nunca apareciam de forma orgânica dentro do longa-metragem. São dois pequenos poréns que constatei ao assistir ao longa-metragem de estreia de Kleber Mendonça Filho. Nada que vá estragar a experiência de assistir a uma produção que coloca a crítica no foco e mostra os sentimentos de amor e ódio por parte dos cineastas e profissionais da área opinativa.

Crítico
Dir.: Kleber Mendonça Filho
Cotação Paradoxo: Vale 95% do ingresso

Confira o trailer de Crítico logo abaixo:

segunda-feira, 15 de março de 2010

Aconteceu em Woodstock

Nos bastidores

O cineasta taiwanês Ang Lee é conhecido por trabalhos profundos, amargos, polêmicos. São dele Razão e Sensibilidade, O Tigre e o Dragão, O Segredo de Brokeback Mountain, Desejo e Perigo. Sabendo disso, é no mínimo surpreendente observar a facilidade e a despretensão que o diretor comanda a ótima comédia Aconteceu em Woodstock. Estrelado pelo pouco conhecido Demetri Martin, mas cercado por figuras carimbadas como Imelda Staunton, Liev Schreiber, Paul Dano, Jeffrey Dean Morgan e Emile Hirsch, o longa-metragem ganha pontos pelo fato de contar uma história tão interessante quanto os bastidores do grande e histórico festival de Woodstock.

O ano é 1969. Elliot Tiber (Martin) está penando para manter o hotel de seus pais, Sonya (Staunton) e Jake (Henry Goodman), aberto e funcionando. Quando ele descobre que os organizadores do festival de Woodstock estão com problemas para achar um novo lugar para realizar os shows, Tiber lança mão de uma autorização que havia conseguido junto ao conselho municipal e arquiteta a vinda do evento para junto de sua propriedade. Desta forma, o hotel voltaria a ter hóspedes e ele ficaria finalmente livre para viver sua vida em São Francisco, longe da família. O que ele não esperava eram as proporções gigantescas do festival e como toda aquela multidão mudaria a vida das pessoas a sua volta.

O roteiro, assinado por James Schamus (usual colaborador de Ang Lee), foi baseado no livro de Elliot Tiber e Tom Monte. Logo, conta da forma mais verídica possível os bastidores de Woodstock. É muito bacana poder conhecer algumas histórias, como o fato de a cidade ter detestado que os shows acontecessem lá ou que a organização do evento teve de pagar uma pequena fortuna para realizar o festival em uma fazenda de vacas leiteiras.

Não só essas curiosidades fazem de Aconteceu em Woodstock um bom filme. Boa parte dos personagens que circulam pela trama é muito bem construída. A começar pelo protagonista, o boa-gente Elliot, um rapaz que carrega dentro de si uma verdade que é difícil de revelar a seus pais. Suas atitudes são sempre pensadas no bem estar do próximo e sua índole pacificadora consegue manter tudo em harmonia – mesmo que ele não tenha consciência disso. Demetri Martin defende seu personagem muito bem e sua simpatia faz com que o espectador possa se cativar pela sua trajetória.

Liev Schreiber está impagável como o travesti Vilma, exclusivamente porque não faz força alguma para parecer feminino. Sua voz, postura e jeito de falar são as de um homem, com uma afetação minúscula, quase imperceptível. Sua saia e peruca loira fazem com que aquela figura estranha seja hilária – e a relação de amizade com o pai de Elliot é divertidíssima. Outro que parece se divertir com sua performance é Paul Dano, em uma pequena ponta como um lisérgico motorista de kombi. Aquela passagem do longa-metragem é tão doida quanto deve ser uma viagem de ácido.

A montagem do filme, assinada por Tim Squyres (outro recorrente colaborar de Ang Lee), bebe na fonte do documentário Woodstock (1970), de Michael Wadleigh. As famosas telas divididas daquele filme, editadas por Thelma Schoonmaker (com ajuda de seu colaborador freqüente, Martin Scorsese), são emuladas por Squyres em Aconteceu em Woodstock, dando ao filme um ar familiar aos fãs do festival. Além de ser uma bela homenagem, o recurso funciona narrativamente. Em seu melhor momento, podemos observar, ao mesmo tempo, vários estágios da pré-produção do evento – enquanto Elliot flerta com uma pessoa que lhe interessa muito.

Apesar de ser uma história que envolve o rock, a música é deixada em segundo plano por boa parte da história. Começamos a ouvir algumas canções que fizeram sucesso no festival quando ele começa a tomar corpo. Este recurso funciona por mostrar que tudo naquela trama vai mudando com o decorrer da narrativa: até a trilha sonora. Quanto mais perto estamos da abertura de Woodstock, mais ouvimos músicas de nomes como Country Joe, Janis Joplin, The Band, etc. É antológica a cena em que um atônito Elliot percebe que o festival está começando pelo barulho da música ao fundo. Sabemos o quão histórico para o rock foi este festival e testemunhamos junto ao personagem aquele singular momento.

Com uma direção de arte e figurinos perfeita, recriando com exatidão o turbilhão do final dos anos 60, Aconteceu em Woodstock se destaca como um dos melhores filmes da carreira de Ang Lee. Talvez o fato de assinar um trabalho tão despretensioso tenha feito bem ao cineasta. Claro que alguns temas caros para o diretor continuam a habitar seus filmes, como a homossexualidade, a responsabilidade para com a família, a dificuldade em se quebrar preconceitos. Tudo está lá. Mas com uma roupagem bem mais divertida. O cineasta entrega um trabalho redondinho, cheio de momentos inspirados e altamente recomendável. Principalmente para fãs de rock, que terão ainda mais motivos para curtir o trabalho do cineasta taiwanês.

Aconteceu em Woodstrock (Taking Woodstock)
Dir.: Ang Lee
Com Demetri Martin, Imelda Staunton, Liev Schreiber, Paul Dano, Jeffrey Dean Morgan, Emile Hirsch, Henry Goodman, Eugene Levy
Cotação Paradoxo: Vale 90% do ingresso

sexta-feira, 12 de março de 2010

O Amor Acontece

Not Okay

Sejamos francos. Livros de auto-ajuda apenas auto-ajudam o autor, que enche seus bolsos com a alta vendagem de seus trabalhos. Entendo que muitas pessoas precisam ler o que já sabem e que este tipo de leitura desempenha papel importante para alguns leitores. Mas, via de regra, a qualidade destes livros deixa muito a desejar. Dito isso, ninguém vai se surpreender pelo fato de eu não recomendar uma sessão de O Amor Acontece, longa-metragem dirigido pelo estreante Brandon Camp e estrelado por Aaron Eckhart (o Duas-Caras, de Batman – O Cavaleiro das Trevas) e Jennifer Aniston (a Rachel, de Friends). Na trama, acompanhamos a trajetória de um autor de livros desta estirpe que acaba se apaixonando por uma mulher que conhece em meio a um de seus movimentados seminários. Mas faltam tantos ingredientes para que esta história seja minimamente interessante que, desta vez, nem mesmo o autor conseguiu se auto-ajudar.

O roteiro, assinado por Camp junto a Mike Thompson (de Dragonfly), coloca Eckhart como o traumatizado Burke Ryan, homem que perdeu sua esposa em um acidente de carro e que acaba escrevendo um livro para ajudá-lo a curar suas feridas. O tal livro vira um sucesso e Burke se vê no centro de seminários que ajudam as pessoas a encararem a perda de entes queridos. O problema é que o próprio Burke ainda não está devidamente curado. Ao voltar a sua cidade natal, Seattle, para um seminário, o autor reencontra o pai de sua esposa (interpretado por Martin Sheen), que lhe cobra o fato de o genro estar tão bem de vida. Isso coloca mais preocupação na cabeça de Burke, que tem de lidar com o seu público – em particular com o resistente Walter (John Carroll Lynch), que perdera um filho e nunca mais foi o mesmo; com novas possibilidades de crescer na profissão, orquestradas por seu agente, Lane (Dan Fogler); e com uma nova paixão, a bela florista Eloise (Aniston).

Quando O Amor Acontece é apenas um romance água com açúcar, com diálogos bem executados por Aaron Eckhart e Jennifer Aniston, o filme não chega a ser ruim. Os atores não têm muita química, mas a idéia parece ser essa mesmo. Aqueles encontros desastrados e desconfortáveis são uma parte do processo para quem enviuvou e pretende voltar ao jogo. Nisso o filme acerta. Eckhart não é um sujeito irresistível, que consegue jogar sua lábia e conquistar Eloise. Ele é praticamente um peixe fora d’água, destreinado depois de tantos anos sem paquerar alguém. O primeiro encontro amoroso propriamente dito entre os dois é um verdadeiro desastre, já que nada parece quebrar o gelo entre o casal. Jennifer Aniston não tem maiores desafios para ser adorável em um papel que ela já representou dezenas de vezes no passado.

O real problema do roteiro de Brandon Camp e Mike Thompson é a auto-ajuda. Aquela filosofia de botequim realmente termina com qualquer possibilidade de se apreciar O Amor Acontece. Como agravante, as soluções apresentadas pelo roteiro soam falsas, visto que as pessoas se “curam” rápido demais. A trama se passa em poucos dias, portanto os roteiristas devem ter achado por bem fazer com que Burke Ryan se tornasse um verdadeiro milagreiro. O caso de Walter é ainda menos inspirado. Apesar de ser bastante resistente por muito tempo – e ser defendido de forma correta pelo competente Carroll Lynch – Walter tem seu momento de redenção de forma simplista. Pode entrar para a lista de milagres de Burke Ryan, brevemente a ser canonizado como santo padroeiro dos autores de auto-ajuda.

Para não dizer que não falei de flores – o que seria um erro, já que temos uma florista no filme – a trilha sonora de O Amor Acontece é muito bem selecionada. Temos Badly Drawn Boy, The Postal Service, Eels, e uma versão lenta de Everyday, de Buddy Holly, defendida pela banda Rogue Wave. Também gostei da pequena participação de Martin Sheen, ator que sempre dá muita propriedade a qualquer papel que interpreta. É sempre um prazer ver Sheen trabalhando e neste filme, não é diferente.

Coincidentemente, assisti a O Amor Acontece logo depois de ter conferido a estreia de Tom Ford na direção, com Direito de Amar. Ambos os filmes têm seu protagonista sofrendo pela morte de uma pessoa amada vítima de um acidente de carro. A principal diferença entre os dois é a sensibilidade em tratar o assunto. Ford é bem mais pessimista, mas aprofunda-se mais na questão. Mostra a dor, o vazio, a solidão. Já Camp não tem a mesma intenção. Deseja que o espectador saia feliz e que, talvez, tome as lições apresentadas pelo seu protagonista para encarar momentos difíceis. Filme de auto-ajuda? Pois é. Acontece.

O Amor Acontece (Love Happens)
Dir.: Brandon Camp
Com Aaron Eckhart, Jennifer Aniston, Dan Fogler, John Carroll Lynch, Judy Greer, Joe Anderson e Martin Sheen
Cotação Paradoxo: Vale 45% do ingresso

Confira o trailer de O Amor Acontece:

quinta-feira, 11 de março de 2010

Onde Vivem os Monstros

O Fantástico Mundo de Max

Quando criança, nunca gostei de filmes de fantasia. Produções como A Lenda (1985), Willow (1988), O Labirinto (1986) e História sem Fim (1984) figuram longe da minha lista de “filmes de infância”, diferente de muitas pessoas que conheço da minha idade. Curiosamente, ao crescer, este gênero começou a me interessar mais. Tanto que consegui sair muito satisfeito da sessão de Onde Vivem os Monstros, uma produção de Fantasia com F maiúsculo. A trama conta com uma criança imaginativa, bichos peludos e o dedo da produtora de Jim Henson, responsável por figuras como os Muppets e dos fantoches do supracitado O Labirinto.

Baseado no livro de Maurice Sendak (recém lançado no Brasil à propósito da estreia do filme, mas muito famoso lá fora há anos), o roteiro é assinado por David Eggers e pelo cineasta Spike Jonze, que retorna à cadeira da direção depois de sete anos afastado dos longas-metragens, desde Adaptação (2002). Em Onde Vivem os Monstros, Jonze pode utilizar sua já conhecida verve imaginativa para criar personagens encantadores – e assustadores – ao mesmo tempo.

Na trama, Max (Max Records) é um garoto cheio de imaginação que vive com sua mãe (Catherine Keener) e irmã (Pepita Emmerichs), mas ressente a falta do pai. Quando o namorado de sua mãe (Mark Ruffalo) aparece para um encontro, Max, vestido com uma fantasia de lobo, é malcriado e acaba fugindo de casa. Nesta fuga, o garoto acaba encontrando uma terra perdida com figuras gigantes e peludas. Dentre elas, o instável Carol (voz de James Gandolfini), a amável KW (Lauren Ambrose), o esperto Douglas (Chris Cooper), o ignorado Alexander (Paul Dano) e a problemática Judith (Catherine O’Hara). Temendo ser devorado pelos monstros, Max inventa uma história e acaba virando rei das criaturas. O problema é que, em meio a estas mentiras, Max acaba prometendo mundos e fundos aos monstros. E eles cobrarão estas promessas, mais cedo ou mais tarde.

É muito provável que Spike Jonze não teve muito trabalho para levar com fidelidade a obra de Maurice Sendak para a telona. O livro que dá origem à história é amplamente ilustrado e com texto diminuto, deixando uma grande lacuna a ser preenchida pelo roteirista em questão. Jonze teve, portanto, um espaço privilegiado para pirar em cima da trama de Sendak – conseguindo, ao mesmo tempo, ser fidelíssimo ao texto original. A única diferença óbvia entre as duas mídias é o fato de Max conquistar os monstros no livro encarando-os nos olhos, sem piscar, enquanto que no cinema, o garoto usa dos rugidos e de uma história envolvente para subjugá-los. Outra questão interessante neste cotejo entre livro e cinema pode ser encarada como um SPOILER, portanto leia até o final do parágrafo se já assistiu ao filme. Sendak deixa bastante claro que toda a história se passa na imaginação de Max, com aquele mundo nascendo dentro do quarto do menino-lobo. Enquanto isso, Jonze deixa dicas e pistas (como o fato do garoto jamais se alimentar na terra dos monstros) na esperança de que o espectador entenda que os monstros vivem mesmo é na cabeça de Max. Contudo, ele nunca diz com todas as palavras que tudo é fruto da mente fértil do jovem. Fim do SPOILER

A atuação de Max Records, estreante em longas-metragens, é acima da média, conseguindo pontuar muito bem os momentos mais tensos com os típicos ataques infantilóides de criança. Os monstros, com exceção de Carol, são bastante unidimensionais, representando partes divididas da personalidade de Max ou características que ele observa em outras pessoas. Portanto, temos a bondade representada por Ira (Forest Whitaker), o espírito maternal de KW, a criatura que nunca é ouvida, representada por Alexander (e que criança nunca se sentiu ignorada? Sem voz ativa?). Todas estas facetas são colocadas de forma muito viva em cada um dos monstros, com destaque para o bipolar Carol, que muda de opinião e de atitudes tão rápido quanto apertamos um interruptor de luz. O visual de cada uma destas criaturas é caprichado e é cortesia da empresa do saudoso Jim Henson, homem que trouxe ao mundo os Muppets, entre outros personagens inesquecíveis. A tecnologia atual conseguiu empregar ainda mais expressividade no rosto destas figuras, deixando de lado as trucagens animatrônicas do passado.

Além de ter um roteiro coeso, que capta muito bem a imaginação infantil e a criatividade na infância, Onde Vivem os Monstros ganha muitos pontos pela trilha sonora inspirada de Karen O, vocalista do trio nova-iorquino Yeah Yeah Yeahs. Assinada por Karen O. and the Kids, a trilha não só é um acompanhamento ímpar para as aventuras de Max e os monstros como também consegue ser um material que vale por si só. Músicas como All is Love, Animal e, principalmente, Building All is Love são destaques desta ótima trilha.

Onde Vivem os Monstros calhou de estrear no Rio Grande do Sul no mesmo final de semana de O Fantástico Sr. Raposo, de Wes Anderson, outro filme pseudo-infantil. Ambos não são aconselhados para crianças muito pequenas. Este por apresentar uma trama que provavelmente deixará os mais pequenos boiando (e o fato de ser exibido apenas com cópias legendadas não ajudava a petizada) enquanto que o primeiro apresenta monstros que podem assustar em algumas sequências de maior perigo. Nada que traumatizará nenhum pimpolho, claro. Mas que pode deixar a cama da alguns mais molhada, talvez. Vai de cada pai saber se seu filho é mais impressionável ou não.

No fim das contas, é muito bom reencontrar Spike Jonze nos cinemas, principalmente depois de tanto tempo sem um novo trabalho. Espero que não demore mais sete anos para outro longa-metragem assinado pelo cineasta. Histórias imaginativas como Quero ser John Malkovich, Adaptação e este Onde Vivem os Monstros são sempre bem-vindas nas telonas.

Onde Vivem os Monstros (Where the Wild Things Are)
Dir.: Spike Jonze
Com Max Records, Catherine Keener, Mark Ruffalo
E as vozes de James Gandolfini, Paul Dano, Catherine O’Hara, Forest Whitaker, Chris Cooper e Lauren Ambrose
Cotação Paradoxo: Vale 87% do ingresso

Confira o trailer legendado de Onde Vivem os Monstros:

quarta-feira, 10 de março de 2010

Chéri

Nounoune

Algo saiu errado no novo filme de Stephen Frears, diretor dos ótimos A Rainha e Alta Fidelidade. Tentando talvez emular a sensualidade de seu trabalho anterior com Michelle Pfeiffer em Ligações Perigosas, o cineasta consegue apenas um resultado morno em Chéri. A atriz principal segue a mesma – mesmo 20 anos depois – mas não se pode dizer o mesmo da ousadia. Se vale de alguma coisa, o longa-metragem pelo menos dá a Kathy Bates (de Louca Obsessão) mais uma deliciosa personagem para brincar.

Ambientado na Belle Époque francesa, no começo do século XX, Chéri conta a história da cortesã Léa de Lonval (Pfeiffer), uma mulher madura que se apaixona por Fred (Rupert Friend), jovem e frívolo rapaz, filho de uma colega de profissão, Madame Charlotte (Bates). O romance entre “Nounoune” e “Chéri” dura seis anos, até que os interesses de Charlotte em um casamento bom para o filho atrapalham a união do casal. Pensando não ter tanto apego pelo rapaz, Léa não faz maiores empecilhos para que Chéri se case com uma garota de sua idade. No entanto, com o passar do tempo, a cortesã percebe que seu amor pelo jovem era muito maior do que pensava.

O roteiro de Christopher Hampton (de Desejo e Reparação) é baseado na obra Chéri, de 1920, da escritora francesa Colette, e é o principal culpado pelo resultado blasé do longa-metragem. É provável que funcione no livro, mas no filme acaba sendo totalmente anticlimático o fato de Chéri e Léa ficarem juntos e se separarem tão rapidamente. Depois de vinte minutos de projeção, tudo o que poderia acontecer acontece. A separação é sofrida para ambos, que a encaram de formas diferentes. Mas nada tão interessante para sustentar mais 70 minutos de história.

Felizmente, as atuações salvam o programa do total tédio. Michelle Pfeiffer, mesmo cinquentona, continua bela e expressiva. Diferente de outras profissionais da área que envelheceram e praticamente perderam as linhas do rosto com tantas plásticas e botox (Nicole Kidman, alguém?), Pfeiffer parece entender que para ser uma atriz eficaz, a expressividade do seu rosto é crucial. Claro que Stephen Frears coloca sobre sua estrela uma luz toda especial, realçando o que merece destaque e escondendo o que pode ficar sob os panos. Por essas e outras, a atriz sempre é vista na tela como uma fonte luminosa ambulante. Reparem que em muitos momentos, o ponto mais brilhante do quadro é a própria atriz, que surge quase como uma aparição. Os belos figurinos, assinados por Consolata Boyle, ajudam nesta ideia de luxo, beleza e glamour que a personagem Léa de Lonval se insere.

Por outro lado, os figurinos também ajudam a retratar Madame Charlotte como uma pessoa de excessos. Carregando nas cores berrantes, cortes estranhos e detalhes pouco discretos, as roupas de Charlotte revelam muito de sua histriônica personalidade. Junte-se isso à divertida performance de Kathy Bates e a mãe de Chéri acaba se transformando no que de melhor o longa-metragem de Stephen Frears oferece. Diferente do papel-título. Rupert Friend até consegue achar uma afetação adequada para o que se pensaria de um homem criado com todos os luxos por mulheres super-protetoras. No entanto, fica difícil acreditar que alguém como Léa de Lonval se encantaria tanto por um rapaz tão desinteressante quanto aquele. Seria um carinho materno misturado a um complexo edipiano clássico? Nem isso explicaria, acredito.

Errando a mão tanto no projeto escolhido quanto no andamento da história, Stephen Frears não honra seus trabalhos passados, criando um filme pouco charmoso, que precisa se escorar no talento de suas duas atrizes para entreter o espectador. A Belle Époque francesa merecia algo mais empolgante.

Chéri
Dir.: Stephen Frears
Com Michelle Pfeiffer, Rupert Friend, Felicity Jones, Frances Tomelty, Iben Hjejle e Kathy Bates
Cotação Paradoxo: Vale 50% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de Chéri:

terça-feira, 9 de março de 2010

O Fim da Escuridão

The Departed

Sabe quando você reencontra um amigo de longa data e fica surpreso ao notar o quanto ele envelheceu? Foi exatamente esta sensação que tive ao ver Mel Gibson em O Fim da Escuridão. Com rugas cada vez mais proeminentes e orelhas enormes, Martin Riggs finalmente envelheceu. Não que isso seja um problema. É apenas uma constatação. Depois de ter ficado um tempo atrás das câmeras, dirigindo A Paixão de Cristo (2004) e Apocalypto (2006), o astro de filmes como Mad Max e Máquina Mortífera resolveu recolocar as chuteiras de ator neste thriller comandado por Martin Campbell (de 007 Cassino Royale), também diretor da minissérie britânica da BBC que deu origem ao longa-metragem.

O Fim da Escuridão tem roteiro de Andrew Bovell (do inédito no Brasil Blessed) e William Monahan (de Os Inflitrados). O roteirista não é o único ponto que liga O Fim da Escuridão ao thriller vencedor do Oscar de Martin Scorsese. Os filmes dividem o mesmo produtor, Graham King, o mesmo ator coadjuvante, Ray Winstone, o mesmo compositor da trilha sonora, Howard Shore, entre outras coisas mais, principalmente o desfecho – quem assistiu aos dois filmes, deve entender.

Na trama, o policial Thomas Craven (Gibson) recebe a visita de sua filha, Emma (Bojana Novakovic), que há muito não via. A garota está visivelmente doente, e precisa de cuidados médicos imediatos. No entanto, na saída para o hospital, ela é morta por um assassino encapuzado. Craven, devastado pela perda, logo pensa que a morte da filha é sua culpa, pois o tiro provavelmente o visava. Passando por cima do protocolo, Thomas começa a investigar o caso e descobre que a bala, na verdade, não era para ele. Indo mais fundo no caso, o policial começa a perceber que o antigo emprego da filha, e seu patrão, Jack Bennett (Danny Huston), são bastante suspeitos. Para descobrir a verdade, Craven terá de passar por cima de muita gente e dobrar algumas leis para que consiga desatar os nós desta conspiração.

Não assisti ao seriado da BBC que originou este longa-metragem, portanto não poderei tecer muitos comentários sobre a transposição. No entanto, estou certo de que os acontecimentos aqui apresentados em velocidade supersônica devem ter recebido um maior cuidado na série de seis episódios exibidos em 1985. Obviamente, em um longa-metragem de pouco mais de duas horas em relação a um seriado com mais de 300 minutos, muita coisa deve ter ficado de fora. Não vejo problema nisso. Só considero que muitas ações dos personagens são executadas rápido demais. Craven sofre por sua filha durante dois minutos até decidir reagir. É pouco.

Mesmo tendo estado um bom tempo longe da lente das câmeras, Mel Gibson não parece ter esquecido como fazer seu trabalho. Em uma performance bastante séria, o ator convence em mais um papel como policial. Não é um grande desafio para Gibson, afinal de contas. A trama não lhe exige praticamente nada que já não tenha feito antes. A única novidade são as estranhas visões com sua filha falecida. Visões estas que o roteiro falha terrivelmente ao tentar explicar. A cena final, devendo ao filme Ghost alguns trocados, contradiz o que havia sido estabelecido anteriormente pela história. Uma bola fora dos senhores William Monahan e Andrew Bovell.

Ray Winstone, interpretando personagem originalmente oferecido a Robert De Niro, que desistiu da produção em meio às filmagens, tem uma boa atuação, sombria o suficiente para causar estranhamento. No entanto, sempre que Winstone aparecia, o pensamento “imagina o que De Niro não faria nesse papel” me passava pela cabeça. Uma dobradinha entre Gibson e De Niro seria muito mais interessante, vamos combinar.

O diretor Martin Campbell, ótimo em filmes com cenas de ação desenfreadas como Cassino Royale, Goldeneye e Limite Vertical, parece meio deslocado ao ter de investir em uma trama que privilegia as investigações em vez de mirabolantes explosões e perseguições. Aqui e ali o cineasta consegue incluir uma sequência com mais adrenalina, mas logo se contém novamente. O fato de ele ter dirigido o seriado original há 25 anos não o torna automaticamente o melhor nome para comandar a adaptação cinematográfica.

Bastante derivativo, O Fim da Escuridão é um thriller mediano, mas consegue prender a atenção do espectador o suficiente. Para os fãs de Mel Gibson, vale pelo retorno do ator às telonas. Para os admiradores de thrillers de suspense, compensa por alguns bons momentos tensos. Agora, para quem só vai ao cinema com a certeza de que sairá satisfeito da sessão, é melhor esperar ele passar no Supercine.

O Fim da Escuridão (Edge of Darkness)
Dir.: Martin Campbell
Com Mel Gibson, Ray Winstone, Danny Huston, Bojana Novakovic, Shawn Roberts, David Aaron Baker, Jay O. Sanders, Denis O’Hare
Cotação Paradoxo: Vale 68% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer legendado de O Fim da Escuridão: