domingo, 28 de fevereiro de 2010

Recapitula: Oscar 2010

Faltando uma semana para o Oscar, dedico o post de hoje a filmes lembrados pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, mas que foram resenhados no Paradoxo (neste site e no blog antigo) antes da divulgação dos indicados para o prêmio deste ano: Avatar, Up – Altas Aventuras, Amor sem Escalas, A Princesa e o Sapo, Sherlock Holmes, Star Trek e Harry Potter e o Enigma do Príncipe.

Avatar

Graças a Eywa

Avatar é realmente um fenômeno. Enquanto escrevo estas linhas, o novo filme de James Cameron ultrapassa a bilheteria mundial de U$ 1 bilhão, transformando-se na quarta maior arrecadação de todos os tempos. Isso tudo apenas em sua terceira semana em cartaz. A projeção é que Avatar se torne, até o final de sua vida útil no cinema, a segunda maior bilheteria, atrás apenas de Titanic, épico anterior de James Cameron. Não é fruto do mero acaso que dois filmes com arrecadações estratosféricas tenham saído da mesma cabeça. Assim como não é coincidência que estas mesmas duas produções tenham efeitos especiais incríveis, mas histórias que deixam a desejar no apagar das luzes. Felizmente, os pecados do roteiro são absolvidos pela qualidade do longa-metragem como um todo.

A ficção científica de James Cameron tem elementos suficientes para ser apontada como paradigmática no que tange a direção de arte, desenho de produção e, claro, os efeitos especiais – que, de agora em diante, poderiam ser chamados de efeitos excepcionais. Tudo é vivo em Pandora, lua fictícia em que se passa a história de Avatar. Com uma rica flora, uma fauna esquisita e nativos azuis e espirituais, Pandora é um habitat criado meticulosamente pela equipe de James Cameron – conhecido por ser perfeccionista em diversos aspectos de suas produções. O advento do 3D amplifica a experiência e torna Avatar um programa obrigatório para ser assistido no cinema – ponto para Cameron e para a Fox, por tentarem combater a pirataria de uma forma mais prática. Leia a crítica completa aqui

Maratona Oscar: Avatar foi indicado a 9 Oscar: Melhor Filme, Diretor (James Cameron), Direção de Arte, Trilha Sonora (James Horner), Edição de Som, Mixagem de Som, Efeitos Especiais, Edição e Fotografia. Deve vencer o grande prêmio da noite, muito por causa do espetáculo visual. Tem grandes chances de perder a estatueta para Guerra ao Terror, mas acredito que os acadêmicos do salgueiro Oscar vão puxar a sardinha para o deslumbrante trabalho de Cameron. Quanto ao diretor, o seu páreo é mais difícil. James Cameron deve ver sua ex-mulher, Kathyrin Bigelow, subir ao palco do Kodak Theather para coletar seu prêmio como a primeira mulher a vencer a categoria Melhor Direção. Quanto as outras categorias, as técnicas, Avatar deve vencer com sobras Efeitos Especiais, Direção de Arte e Som.

Up – Altas Aventuras

O Velho e o Ar

Não tenho mais palavras para definir os estúdios Pixar. A cada novo longa-metragem somos apresentados a personagens e experiências únicas, com tramas criativas, cheias de diversão e emoção. Up – Altas Aventuras é o décimo trabalho do estúdio, que atingiu uma invejável marca de não errar a mão em suas produções. Um filme que coloca um idoso ranzinza e um escoteiro gordinho e tagarela como protagonistas pode ser considerado corajoso apenas por isso. Mas vai além, trazendo uma história que ao mesmo tempo pode levar o espectador aos risos e às lágrimas.

Acompanhamos a trajetória de Carl Friedricksen, um senhor de idade que está aprisionado às suas lembranças. Viúvo do grande amor de sua vida, Carl acredita que manter a casa em que vive é importante para ajudar a preservar a memória de sua esposa. O que pode atrapalhar os planos do velho é uma empreiteira disposta a derrubar sua residência para construir modernos prédios no lugar – nem que para isso, tenham de mandar o velho Carl para o asilo. Sabendo disso e sonhando com uma aventura desde os tempos de criança, Carl amarra milhares de balões em sua casa e parte para a América do Sul, a fim de encontrar o Paraíso das Cachoeiras, lugar onde ele e sua esposa sempre desejaram visitar. Não estava nos planos, porém, um intruso mirim chamado Russell, que se escondeu na casa de Carl para ajudá-lo e ganhar mais um distintivo dos escoteiros. Leia a crítica completa aqui

Maratona Oscar: Up – Altas Aventuras foi indicado a 5 Oscar: Melhor Filme, Melhor Animação, Melhor Trilha Sonora Original, Melhor Roteiro e Melhor Edição de Som. Se na categoria principal, Up tem poucas chances, em Melhor Animação, o filme da Pixar é o franco favorito a vencer. Outra possibilidade bastante forte é a categoria Melhor Trilha Sonora, pelo trabalho de Michael Giacchino.

Amor sem Escalas

O Parênteses

O diretor Jason Reitman acertou em cheio desta vez com seu novo filme, Amor sem Escalas. Depois de um começo promissor com Obrigado por Fumar, em 2006, e com o premiado Juno (que eu achei superestimado), no ano seguinte, o rebento do cineasta Ivan Reitman entrega seu filme mais maduro até o momento. Com um elenco afiadíssimo, encabeçado por um George Clooney em seu melhor momento, Amor sem Escalas é um longa-metragem delicioso, que consegue passear muito bem tanto pelo drama quanto pela comédia.

Como já é de praxe, Reitman usa como pano de fundo para seu filme um assunto relevante. Se em Obrigado por Fumar o mote eram os perigos do cigarro e Juno falava sobre gravidez na adolescência, Amor sem Escalas coloca a crise mundial e o alto número de desempregos nos Estados Unidos como um oportuno ponto convergente na vida do personagem principal, Ryan Bingham (Clooney). Assim como já aconteceu em seus filmes anteriores, Jason Reitman não aborda o “assunto sério” de forma invasiva dentro da narrativa. Pelo contrário. Este é incluso na trama de forma orgânica, condizendo com a história a ser abordada. Portanto, Amor sem Escalas não é um tratado sobre a crise econômica ou um manifesto contra a taxa altíssima de desemprego. É a história de um homem que está sempre cercado de pessoas, mas que, na verdade, vive uma vida solitária. Leia a crítica completa aqui

Maratona Oscar: Amor sem Escalas foi indicado a 6 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Jason Reitman), Ator (George Clooney), Atriz Coadjuvante (Vera Farmiga e Anna Kendrick) e Roteiro Adaptado. Este último deve ser o único prêmio que o longa-metragem de Jason Reitman levará na noite do prêmio. Merecido, aliás.

A Princesa e o Sapo

Evangeline

Um dos filmes que despertou a minha paixão pelo cinema na infância foi Aladdin, dos estúdios Disney. A história mágica, as cores, o gênio da lâmpada, as músicas. Todos estes elementos combinados fizeram com que o filme não saísse do meu videocassete – devo tê-lo alugado umas dez vezes na época. Corta para 15 anos depois. Os estúdios do Mickey Mouse estão em um ótimo momento depois do sucesso de seus filmes com a Pixar e de seus longas-metragens em live action, como High School Musical e suas continuações. Mas faltavam os filmes desenhados à mão, de forma clássica, para que a festa estivesse completa. John Lasseter, chefão da área criativa da Disney, resolveu retornar às origens e lançar um novo longa-metragem com a arte clássica do desenho em 2D. Assim surgiu A Princesa e o Sapo, dirigido por Ron Clements e John Musker, os mesmos de A Pequena Sereia e... Aladdin.

Além do fato de marcar o retorno da Disney aos desenhos, A Princesa e o Sapo também é relevante por apresentar a primeira protagonista afro-americana em suas fábulas. Ela é Tiana (Anika Noni Rose), uma moça trabalhadora que vive na Nova Orleans dos anos 20 e sonha abrir o seu próprio restaurante para realizar o desejo do seu falecido pai, James (Terrence Howard). Quando o príncipe Naveen (Bruno Campos) chega à cidade, em pleno carnaval, à procura de uma noiva, a amiga rica de Tiana, Charlotte (Jennifer Cody), logo se interessa em se tornar uma princesa. Mal ela sabe que Naveen é, na verdade, um preguiçoso interesseiro que procura uma mulher rica para casar, conseguindo assim dinheiro para ser independente dos pais. Quem atrapalha os planos do príncipe é o vilão Facilier (Keith David), que o transforma em sapo, colocando o servo do príncipe em seu lugar, apelando para um feitiço vodu. Como na fábula clássica, Naveen só voltará à sua forma humana ao ser beijado por uma princesa. Eis que Tiana, fantasiada como tal, aparece na frente do príncipe. E a confusão está formada. Leia a crítica completa aqui

Maratona Oscar: A Princesa e o Sapo foi indicado a 3 Oscar: Melhor Animação e Canção Original (Almost There e Down in New Orleans). Não deve levar nenhum dos três prêmios.

Sherlock Holmes

Holmes Begins

Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes (1998) e Snatch – Porcos e Diamantes (2001) definiram os filmes de gangster dos anos 90/2000. Estilosos, sujos, engraçados, muitíssimo bem amarrados. São longas-metragens que merecem realmente um lugar de destaque na coleção de qualquer cinéfilo. Infelizmente, o diretor destes trabalhos, Guy Ritchie, meio que perdeu a mão no meio do caminho. Filmes ruins e medianos como Destino Insólito (2002), Revolver (2005) e RocknRolla (2008) abalaram a confiança de muitos em relação ao talento de Guy Ritchie como diretor.

Mas eu acredito que ninguém desaprende a fazer cinema. Principalmente se a pessoa em questão tem dois excelentes filmes como os citados acima no currículo. Até por isso, fui à pré-estreia de Sherlock Holmes com alguma expectativa de um bom trabalho. E não saí decepcionado. É um filme divertido, com mistério, suspense, comédia e, claro, socos em câmera lenta. É um filme de Guy Ritchie, afinal de contas. Leia a crítica completa aqui

Maratona Oscar: Sherlock Holmes foi indicado a 2 Oscar: Direção de Arte e Trilha Sonora Original. Não deve levar prêmio algum, mesmo que a trilha sonora de Hans Zimmer seja excepcional, assim como a direção de arte do filme de Guy Ritchie.

Star Trek

Origens

J.J. Abrams é um cara, no mínimo, corajoso. Aceitou comandar o reinício de uma franquia clássica, com milhares de fãs xiitas e nunca escondeu não ser fã de Star Trek. Se já não bastasse isso, ainda confessou em entrevistas que sempre preferiu a saga estelar de George Lucas, Star Wars. Imagino a reação dos trekkers quando souberam que esse cara tão desprovido de sentimentos por Jornada nas Estrelas assumiria a direção de um filme que se propõe a mostrar as origens da tripulação da Enterprise. Para alguns, isto seria uma deficiência. Para mim, o fato de Abrams ter distanciamento e objetividade em relação à série clássica foi fator decisivo para a qualidade final do longa-metragem.

É bom deixar claro que quem diz isso é uma pessoa que conhece superficialmente o seriado. Assisti a alguns episódios e já vi trechos de filmes. Mas não tenho uma veia trekker. Assim como Abrams, tenho preferência pelas aventuras de Luke Skywalker e Han Solo. Talvez essa identificação com a saga de George Lucas tenha feito bem para Star Trek. O cineasta preparou um filme que lembra, em alguns momentos, os bons tempos de Guerra nas Estrelas. Aventura é a palavra chave no manual de Abrams, que conseguiu fazer um filme divertido e inteligente, trabalhando muito bem os personagens queridos pelos fãs. Leia a crítica completa aqui

Maratona Oscar: Star Trek foi indicado a 4 Oscar: Efeitos Especiais, Som, Edição de Som e Maquiagem. Se existe uma categoria que Star Trek pode levar, seria Maquiagem. Mas ainda não vi Il Divo para tirar a prova real. De resto, não deve levar nada.

Harry Potter e o Enigma do Príncipe

Príncipe Mestiço

David Yates fez um trabalho bastante burocrático em Harry Potter e a Ordem da Fênix, quinto longa-metragem baseado nos escritos de J.K. Rowling. Mas isso não impediu que os produtores mantivessem o cineasta na cadeira de diretor não apenas em O Enigma do Príncipe, mas nos dois filmes que encerram a saga, As Relíquias da Morte partes 1 e 2. Devo confessar que tomei esta escolha como um erro, aceitando como referência o resultado final de A Ordem da Fênix. Depois de assistir a O Enigma do Príncipe, posso dizer que estava redondamente errado. Tanto que aponto este novo trabalho como um dos melhores em toda a saga (perdendo, é claro, para meu favorito, O Prisioneiro de Azkaban). Yates parece ter amadurecido suas idéias em relação à adaptação do livro, conseguindo trabalhar de forma mais elegante neste novo capítulo.

Em Harry Potter e o Enigma do Príncipe, o personagem título (vivido novamente por Daniel Radcliffe) é acompanhado de perto por Alvo Dumbledore (Michael Gambon), que lhe revela memórias que podem ajudar a dar cabo de Voldemort de uma vez por todas. O mundo bruxo e o mundo trouxa estão sofrendo com os ataques dos Comensais da Morte, e um basta deve ser dado à maldade daquele-que-não-deve-ser-mencionado. O problema é que a chave de todo o mistério está em uma memória que só pode ser fornecida pelo novo professor de Hogwarts, Horácio Slughorn (Jim Broadbent). Por isso, Harry deve se aproximar do mestre e tentar arrancar-lhe esta lembrança, de um jeito ou de outro. Leia a crítica completa aqui

Maratona Oscar: Harry Potter e o Enigma do Príncipe foi indicado a um Oscar: Melhor Fotografia. Curto e grosso: não leva.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Paris 36

Chansonia

Sentado em frente à escrivaninha do gabinete do delegado, Pigoil (Gérard Junot) espera para contar sua versão dos fatos. Longe de ser um sujeito violento, sua situação não é das melhores: é acusado de assassinato. “Ele não tem cara de assassino”, observa o chefe de polícia. Realmente. Nas próximas horas, Pigoil contará os eventos que lhe fizeram chegar até aquele lugar. Uma história que envolve a paixão pelo teatro, o amor por um filho e toda a ebulição da Paris nos anos 30. Assim começa Paris 36, um drama musical dirigido por Christophe Barratier.

A França passava por um período de depressão em 1935 e a casa de shows Chansonia era o ganha pão de artistas e apaixonados pelo show business. É o caso de Pigoil, casado com uma dançarina e pai do pequeno Jojo (Maxence Perrin); do comediante Jacky Jacquet (Kad Merad); e do revolucionário Milou (Clovis Cornillac). Na última noite do ano de 35, Pigoil descobre que estava sendo traído pela mulher e o inescrupuloso Galapiat (Bernard-Pierre Donnadieu) procura o dono do Chansonia para coletar uma dívida, débito esse que será pago com o próprio estabelecimento. Todos ficam sem emprego e entram 1936 em situação desesperadora. Quatro meses depois, a guarda de Jojo é tirada de Pigoil por ele não poder arcar com a educação do garoto. Sem emprego, ele resolve tomar de volta o Chansonia à força, fazendo um acordo com Galapiat. Este tem uma agenda diferente de interesses, tentando ser mais amigável com os que o cercam. E, claro, pretende ganhar a simpatia da bela jovem Douce (Nora Arnezeder), que se mostra uma excelente cantora e ótima inclusão para o decaído Chansonia.

O grande destaque de Paris 36 acabou sendo o motivo que me levou a vê-lo: a música. Indicado ao Oscar na categoria Melhor Canção Original, pela faixa Loin de Paname, o longa-metragem tem seus melhores momentos em cima do palco, quando algum de seus personagens está lá a cantar. Nora Arnezeder, responsável pela voz da música principal do filme, e de outras como Enterrée Sous Le Bal e Chiqué, tem um alcance vocal invejável e cativa pela sua interpretação da jovem Douce. É bem verdade que sua personagem não é lá muito desenvolvida. Sabemos pouquíssimo sobre ela. Diferente do trio principal, formado por Pigoil, Jacky e Milou. Cada um tem características bem destacadas, entendemos suas atitudes e sentimos pela sua jornada.

A fotografia, assinada por Tom Stern (usual colaborador de Clint Eastwood), é digna de elogios pela sua capacidade em distinguir cada um dos momentos do filme pela luz. Temos os trechos soturnos, quando os personagens estão em tempos difíceis – como o início de Pigoil, perdido na bebida – e os períodos iluminados – com a belíssima cena dourada do restaurante chique no qual Douce e Galapiat fazem sua refeição.

O roteiro, assinado pelo diretor com o auxílio de Julien Rappeneau e Pierre Phillippe, baseado em idéia original de Frank Thomas, Reinhardt Wagner e Jean-Michel Derenne, tem altos e baixos em seus 112 minutos de duração. Como já citado acima, o papel principal feminino é pouco desenvolvido e só diz a que veio através da música. O vício na bebida de Pigoil é esquecida rapidamente, como se fosse realmente fácil largar a adição na bebida. Fora o fato que a história moldura, o fato de Pigoil estar na delegacia de polícia contando sua história, é também deixado de lado por boa parte da trama. O fato de sabermos que o personagem está sendo acusado de um crime acaba tirando a força de um momento chave da história, na qual ele decide pular do alto do Chansonia, devido a desilusão que teve quanto a reabertura do local. Está claro que nada acontece a ele, já que tivemos um flash de seu futuro logo no início da trama.

Felizmente, nada disso faz com que Paris 36 perca suas qualidades como um ótimo entretenimento. Mostrando a situação da depressão na França, a vida nos subúrbios e a ascensão ao poder da Frente Popular em 1936, o longa-metragem é um interessante retrato de uma época que é pouco conhecida pelo público em geral. Some-se isso ao poder da música francesa (é impar a vontade de ouvir a trilha sonora do filme logo depois do seu término) e temos um ótimo longa-metragem.

Maratona Oscar: Paris 36 foi indicado a um Oscar: Melhor Canção Original (Loin de Paname). Apesar de ser ótima, deve perder para a favorita da noite, a canção The Weary Kind, do longa Coração Louco.

Paris 36 (Faubourg 36)
Dir.: Christophe Barratier
Com Gérard Jugnot, Clovis Cornillac, Kad Merad, Nora Arnezeder, Pierre Richard, Bernard-Pierre Donnadieu, Maxence Perrin, François Morel, Élisabeth Vitali, Christophe Kourotchkine, Eric Naggar
Cotação Paradoxo: Vale 73% do ingresso

Confira logo abaixo a música indicada ao Oscar de Melhor Canção Original, Loin de Paname:



Confira logo abaixo o trailer legendado em inglês de Paris 36:

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

A Teta Assustada

O leite do medo

No Peru, quando uma criança é amamentada pela mãe que fora violentada durante o período de terrorismo que o país vivenciou nos anos 80, ela contrai uma doença chamada “La teta asustada”. Pelo menos, é isso que acredita a protagonista do filme A Teta Assustada, Fausta, interpretada por Magaly Solier, no ótimo filme da diretora Claudia Llosa. A cineasta apresenta uma história humana de um personagem que sofre com o medo de ter o mesmo destino de sua velha mãe e que acredita com todas as forças que é portadora desta enfermidade.

Na trama, assinada pela própria diretora, Fausta vive atemorizada que um dia possa ser atacada por um homem. Por isso, nunca sai de casa sozinha, sempre veste calças (mesmo quando está com saias, as usa por baixo) e chegou ao cúmulo de alojar uma batata dentro da vagina, tentando evitar assim qualquer chance de ser violentada. Quando sua mãe morre, Fausta se vê sozinha no mundo pela primeira vez. Seu tio, apesar de atencioso, não entende os receios dela em relação ao sexo oposto. Ao tentar dar um enterro digno para a mãe, Fausta descobre que não é barato morrer. A jovem decide então levar sua mãe de volta a sua aldeia de origem, precisando trabalhar para arranjar o dinheiro para tanto. Em sua jornada, Fausta encontrará momentos de angústia, pela falta da mãe, mas também uma nova sensação, nunca sentida antes, quando conhece um homem que a respeita.

Claudia Llosa parece gostar de observar o que seus personagens fazem, sem influenciá-los com movimentos de câmera mirabolantes. Sua preferência está em tomadas abertas e câmera parada, apenas capturando o que se passa na frente da lente. Este fato, e o uso de atores não profissionais para os papéis, aproxima o filme de uma estética neorrealista. Fica ainda mais claro um dedo do cinema italiano pela escolha do uso de dialetos locais em A Teta Assustada, uma prática do cinema daquele país nos anos 40 e que é visto neste filme, em cenas envolvendo Fausta, sua mãe e o jardineiro que ela conhece.

Evitando o clichê básico de introduzir um interesse amoroso óbvio para Fausta, a diretora Claudia Llosa mantém a personagem em uma redoma durante boa parte da trama. Até brinca em apresentar-lhe um rapaz nada conveniente. O roteiro poderia muito bem seguir dali e mostrar as investidas do jovem para conquistar Fausta. Felizmente, não é o que acontece. Llosa apenas o coloca ali como um contraponto a outro homem, mais velho, que desperta o interesse da moça. De novo, não da forma óbvia, com ela se jogando aos seus braços. Pelo contrário, de um jeito terno, lento, quase subliminar. Apenas sabemos do interesse de Fausta pela forma diferente de ela agir junto dele. Sua confiança em convidá-lo para que a acompanhe até em casa é um grande progresso, visto que ela sempre tremeu perto de qualquer homem que aparecesse em sua frente.

Tudo isso é muito bem executado por Magaly Solier, que tem uma performance impressionante em um papel dificílimo quanto aquele. A atriz investe em uma postura curvada, retraída, e sempre com os olhos apontando para o chão. Seu medo é tamanho que, quando se sente ameaçada ou abalada emocionalmente, seu corpo transborda e o sangue escorre por seu nariz. As poucas palavras e o modo silencioso de passar seus dias só é vencido pela sua paixão pela música. Dona de uma voz potente, Magaly solta a voz nas cantigas que sua personagem cria – e que deixam a dona da casa em que Fausta trabalha, uma pianista, muito interessada.

Mostrando a cultura do povo do interior do Peru, A Teta Assustada é um retrato pertinente de um país e de seu povo. As cicatrizes de um período negro da história do Peru ainda estão vivas em algumas regiões do país e o filme de Claudia Llosa mostra de forma muito sóbria tudo isso. Podemos achar estranhos alguns costumes dali, como os casamentos – e até um pouco macabro o fato de Fausta demorar tanto para enterrar sua mãe – mas são imagens interessantes de um país tão próximo do Brasil, mas tão diferente em seus costumes. É um longa-metragem que vale a pena ser visto, tanto pela história quanto pela ótima atuação de Magaly Soster.

Maratona Oscar: A Teta Assustada recebeu uma indicação ao Oscar: Melhor Filme Estrangeiro. Mesmo tendo levado o Urso de Ouro no Festival de Berlim, dificilmente levará o Oscar para casa. É o caso clássico de o prêmio ser a própria lembrança dos membros da Academia.

A Teta Assustada (La Teta Asustada)
Dir.: Claudia Llosa
Com Magaly Soster, Susi Sánchez, Marino Ballón, Efarín Solos, Bárbara Lazón, María del Pilar Guerrero, Delci Heredia, Karla Heredia, Fernando Caycho, Edward Llungo
Cotação Paradoxo: Vale 85% do ingresso

Confira o trailer legendado de A Teta Assustada:

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Um Homem Sério

Paciência de Jó

Coisas boas acontecem a pessoas boas? Não necessariamente. Se formos levar em conta Um Homem Sério, novo longa-metragem dos irmãos Ethan e Joel Coen, o contrário pode ser totalmente verdadeiro. Baseado livremente na história bíblica de Jó – homem de fé que sofreu as maiores desgraças e nunca virou as costas para Deus – este novo trabalho requer do espectador uma paciência condizente com a do personagem principal. Pouca coisa de muito empolgante acontece no filme, salvando-se a atuação corretíssima do pouco conhecido Michael Stuhlbarg. Os irmãos Coen parecem se divertir à beça contando a história deste “homem sério”, que começa a questionar as fundações do seu caráter. Infelizmente, o divertimento dos cineastas não conseguiu me contagiar.

Na trama, assinada por Ethan e Joel Coen e ambientada nos anos 60, conhecemos o professor judeu Larry Gopnik (Stuhlbarg) e sua família disfuncional. Sua esposa, Judith (Sari Lennick), o está deixando para ficar com um vizinho viúvo, Sy Ableman (Fred Melamed); Seu filho, Danny (Aaron Wolff), está mais preocupado em fumar baseados do que em realizar seu Bar Mitzvah; Sua filha, Sarah (Jessica McManus), pensa apenas em seu cabelo e rouba dinheiro da carteira do pai para uma plástica no nariz; Seu irmão, Arthur (Richard Kind), está morando de favor em sua casa, ocupando o banheiro por horas e escrevendo teorias explosivas em um caderno; Não bastasse esse turbilhão de situações em casa, no colégio, a vida de Larry não é lá muito gratificante. Um de seus alunos tenta suborná-lo para aumentar suas notas enquanto sua sonhada promoção pode pular pela janela devido a cartas anônimas desabonadoras enviadas à direção. A forma como Larry encara todos estes problemas é o que faz a história andar.

Antes disso, é importante dizer, somos apresentados a uma pequena história ambientada em um período anterior, no qual acompanhamos a chegada de um homem a sua casa e a possível presença de um Dybbuk (um espírito do mal no folclore judaico) em sua residência. Este prólogo não tem ligação alguma com o resto do filme, sendo mais uma espécie de resumo dos temas que veremos a seguir, como a fé cega em uma crença e as conseqüências que atitudes baseadas nestas certezas podem gerar. O filme abre com a frase de Rashi, rabino importantíssimo para religião judaica: “Receba com simplicidade tudo o que acontecer com você”. Outro resumo do que veremos a seguir no filme – e, claro, uma tiração de sarro dos irmãos Coen, que fazem seu protagonista sofrer o pão que o diabo amassou.

O grande problema no roteiro de Um Homem Sério é a falta de momentos cômicos em uma pretensa comédia. Isso, claro, pode ser culpa não só do texto, mas das referências de cada espectador. Talvez o fato de eu não ser um grande conhecedor do judaísmo tenha me deixado de fora de muitas referências que poderiam ser engraçadas. Acredito que isso resume bem o meu sentimento quanto ao filme. Senti-me sempre de fora daquele círculo, observando de muito longe tudo o que acontecia. Portanto, tive dificuldades em curtir a jornada de Larry e seus inúmeros problemas. Eu adoro o chamado “humor judeu” e sou capaz de dizer que na lista de meus comediantes favoritos, certamente a maioria são de origem judaica. No entanto, não consegui entrar no clima cômico proposto pelos irmãos Coen.

Apesar dessa distância clínica com a história, ainda é possível notar qualidades em Um Homem Sério. Por exemplo, é inegável que Michael Stuhlback tem uma louvável performance. Desde seu jeito inseguro em falar, até sua postura pequena frente a pessoas que lhe causam mal, como é o caso do amante de sua mulher, são retratadas de forma ímpar pelo ator. Stuhlback parece ficar retraído o máximo que pode para viver o professor Larry Gopnik e, certamente, receberá muitos convites depois de sua participação no filme de Ethan e Joel Coen. Destaco as pequenas pontas de ótimos atores, como George Wyner, vivendo um rabino cheio de parábolas sem sentido, e do promissor Simon Helberg (conhecido pelo seu papel amalucado no seriado The Big Bang Theory), como um jovem rabino sem muita segurança no que dizer.

O feliz retorno do diretor de fotografia preferido dos irmãos Coen, Roger Deakins (que havia abandonado o posto em Queime Depois de Ler depois de ter trabalhado em dez produções com os cineastas) já é uma garantia de um visual diferenciado para Um Homem Sério. Deakins resolve inverter a lógica e imprimir tristeza e melancolia na imagem daquelas casas suburbanas com gramados verdejantes, cenário american way of life por excelência. Soma-se isso à interessante edição assinada por Roderick Jaynes (pseudônimo usado pelos irmãos Coen), que apresenta alguns momentos fascinantes em seus paralelos com situações que envolvem Larry e seu filho, ou Larry e seu vizinho, Sy, e Um Homem Sério tem apuros técnicos suficientes para entreter qualquer um.

Uma pena que mesmo com qualidades significativas, o filme não tenha conseguido cativar. Sou um apreciador das obras dos cineastas e me divirto até com trabalhos menores, como O Amor Custa Caro e Matadores de Velhinha. Mas desta vez, os momentos cômicos, se é que existem, ficaram escondidos. Talvez eu os procure com mais afinco no futuro.

Maratona Oscar: Um Homem Sério foi indicado a dois Oscar: Melhor Filme e Melhor Roteiro Original. Não deve levar nenhum. Só não me surpreendo pela indicação ao prêmio principal porque sei que os votantes da Academia adoraram os irmãos Coen. Mas não tanto para lhes dar quaisquer destes prêmios neste ano.

Um Homem Sério (A Serious Man)
Dir.: Ethan e Joel Coen
Com Michael Stuhlbarg, Richard Kind, Aaron Wolff, Fred Melamed, Sari Lennick, Jessica McManus, Peter Breitmayer, George Wyner, Simon Helberg, Amy Landecker, David Kang e Adam Arkin
Cotação Paradoxo: Vale 60% do ingresso

Confira o ótimo trailer legendado de Um Homem Sério:

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Educação

Uma Libertação

Quem acompanha a carreira do escritor Nick Hornby mais atentamente não terá dificuldades em perceber que o autor tem uma forma única de captar com excelência a alma do homem britânico. Livros como Febre de Bola, Alta Fidelidade e Um Grande Garoto são fundamentais para se conhecer os escritos de Hornby em seu melhor e testemunhar a forma ímpar com que o escritor consegue mesclar humor, ternura, acidez e altas doses de auto-análise. Agora, quando Hornby tentou mudar seu foco e escrever de dentro da cabeça feminina, as tentativas invariavelmente foram falhas. Como ser Legal tem uma mulher como protagonista e é sofrível - um pouco por causa da falta de jeito do escritor em entender a mente feminina e muito por uma trama estapafúrdia e sem graça. Uma Longa Queda é bastante irregular, principalmente nos capítulos dedicados às mulheres da trama. Resumo da ópera: Nick Hornby não consegue calçar os sapatos de uma mulher – no sentido figurado, evidentemente.

Portanto, não deixa de ser uma surpresa que o roteiro de Educação seja assinado pelo autor e traga uma moça como protagonista - e muito bem desenvolvida. Claro, o fato de o texto ser baseado nas memórias da jornalista Lynn Barber ajudou, certamente. Mas não tira os méritos de Hornby em finalmente conseguir entregar uma personagem feminina digna de seus célebres Rob Fleming e Will Freeman. A interpretação cativante de Carey Mulligan também faz toda a diferença, é bem verdade.

No filme, dirigido pela cineasta dinamarquesa Lone Scherfig, acompanhamos a jovem Jenny (Mulligan) e sua cansativa rotina de estudos em plena Inglaterra nos anos 60. Seu pai, Jack (Alfred Molina), faz questão que a filha estude na prestigiada universidade de Oxford e exige que ela enfie a cara nos livros para conseguir as notas necessárias para ser aceita. Em um dia de chuva após seu ensaio com a orquestra, onde toca violoncelo, seu “hobby forçado”, Jenny esperava por condução e conhece o charmoso David (Peter Sarsgaard), um homem mais velho e entusiasta da boa música, como ele mesmo afirma. Encantada pelo modo que David encara o mundo, Jenny começa a se afeiçoar pelo bon vivant. Ele também demonstra muito interesse pela jovem, pelo seu modo tímido e inteligente de ser. O relacionamento entre os dois mudará o curso da vida de Jenny e a fará tomar escolhas impensadas até então.

Educação é um filme dirigido por diálogos. E muito bons, diga-se. Hornby sempre teve a mão para isso e neste segundo roteiro para longa-metragem, sua habilidade em criar bons diálogos continua intacta. O dono das frases mais espirituosas, sem sombra de dúvidas, é Jack, interpretado com maestria por Alfred Molina. Confesso que nunca vi o ator tão confortável em um papel quanto neste longa-metragem. Sua ternura para com a filha, misturada com a severidade por sua preocupação com o futuro da moça, são muito bem capturadas por Molina, que merece elogios rasgados por sua performance. Não foi lembrado pela Academia, mas recebeu algumas indicações a prêmios importantes como o Bafta e o British Independent Awards.

Sua atuação só não bate a corretíssima vivacidade e timidez de Carey Mulligan e sua Jenny. Interpretando uma garota saindo dos seus 16, a jovem atriz de 25 anos cativa pelo seu jeito terno, pela inteligência e pela alegria em descobrir novas experiências. Seu encantamento pela nova vida só não é maior que sua atração por David, um homem que lhe abriu os caminhos para uma existência de divertimentos e prazer. Peter Sarsgaard também merece elogios por conseguir imprimir muito charme a um personagem que necessita vender credibilidade ao espectador. O jeito com que David contorna as situações que vão sendo apresentadas à sua frente diz muito sobre sua índole. Portanto, não será grande surpresa para o espectador mais atento a reviravolta final. Aliás, se Hornby parece confortável ao escrever para Jenny, está ainda mais à vontade quando se dedica a David. Até suas referências pop não são esquecidas, como a bem sacada citação de C.S. Lewis e suas Crônicas de Nárnia.

Educação ganha muitos pontos pelo seu feeling sessentista. Não só pelo figurino, muito bem concebido por Odile Dicks-Mireaux, mas pela fotografia, assinada por John de Borman, que remete muito a produções européias da época. A impressão que fica é que o longa-metragem foi filmado em 1961 e permaneceu escondido até hoje, tamanho o clima anos 60 impresso na película.

A temática do amadurecimento, das escolhas e do desabrochamento de uma adolescente são mundialmente relacionáveis, portanto Educação acaba se tornando um filme saboroso e comunicativo tanto para Inglaterra, Estados Unidos ou Brasil. Isso também serve para outros pontos que perpassam a trama como as diferentes perspectivas quanto a ética e a falta de caráter de certos personagens. Tudo é muito bem conduzido por Lone Scherfig, que parece se espelhar no ritmo do cinema francês para contar sua história.

Com interessantes enquadramentos e utilizando muito bem as paisagens da Inglaterra e da França, Educação é um filme redondo, que cativa pelas atuações do seu bem escalado elenco e pela temática de descoberta que move a trama. Um longa-metragem pequeno no tamanho, mas gigante em qualidades.

Maratona Oscar: Educação foi indicado a 3 Oscar: Melhor Filme, Melhor Roteiro Adaptado (Nick Hornby) e Melhor Atriz (Carey Mulligan). Adoraria ver Nick Hornby sair do Kodak Theather com a estatueta na mão. Mas sei que isso dificilmente acontecerá. Este prêmio está praticamente nas mãos de Jason Reitman e Sheldon Turner pelo seu trabalho em Amor sem Escalas. Carey Mulligan ganhou recentemente o prêmio no Bafta – mas ali pesou bastante o fato de ela ser britânica. No Oscar, o páreo é entre Meryl Streep e Sandra Bullock, com uma vantagem para a primeira. Chances ainda menores têm a produção como Melhor Filme. Educação entrou no páreo por termos 10 e não 5 indicados. Fosse a regra antiga, nem estaria indicado. Mas valeu a lembrança, com certeza.

Educação (An Education)
Dir.: Lone Scherfig
Com Carey Mulligan, Peter Sarsgaard, Alfred Molina, Olivia Williams, Cara Seymour, Matthew Beard, Dominic Cooper, Rosamund Pike, Sally Hawkins e Emma Thompson
Cotação Paradoxo: Vale 89% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer legendado de Educação:

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Um Olhar do Paraíso

Janela para o além

Que Peter Jackson é um cineasta sem nenhum poder de síntese, todos nós já sabemos. Depois da ótima trilogia O Senhor dos Anéis (que, somada, bate fácil 10 horas) e o mediano King Kong (com seus inchados 187 minutos), o cineasta neozelandês adapta mais uma história para o cinema, desta vez, o livro Uma Vida Interrompida, de Alice Sebold, e, novamente, extrapola com desnecessários 135 minutos de duração no drama metafísico Um Olhar do Paraíso. Dos trabalhos que assisti do diretor, este é, de longe, o mais fraco, mesmo tendo diversas qualidades destacáveis.

Na trama, assinada pelo próprio Peter Jackson ao lado de sua esposa, Fran Walsh, e sua fiel colaborada Phillipa Boyens, conhecemos a história da jovem Susie Salmon (Saoirse Ronan), uma garota desabrochando para a adolescência, apaixonada por um colega da escola e despertando seu interesse por fotografia. Sua vida familiar é normalmente feliz, dividindo o lar com seu pai, Jack (Mark Wahlberg), sua mãe, Abigail (Rachel Weisz), seus irmãos mais novos Lindsey (Rose McIver) e Buckley (Christian Thomas Ashdale), e eventuais visitas de sua avó descolada, Lynn (Susan Sarandon). Poderia ser o cenário de uma tradicional propaganda de margarina. Poderia, caso Susie não fosse brutalmente assassinada. A perda da menina é devastadora para a família, com cada um reagindo de forma diferente à sua morte. Jack, por exemplo, decide ajudar as investigações levantando informações sobre todos os homens suspeitos da cidade. Mal ele sabe, no entanto, que o assassino pode estar muito mais perto do que imagina. Do outro lado, metafisicamente falando, está Susie. Presa entre a terra e o céu, a jovem não consegue se libertar do seu passado, fazendo com que todos que ela amava também não consigam esquecê-la.

Apesar de ser um filme bastante irregular, existem momentos elogiáveis em Um Olhar do Paraíso que podem ser destacados. Para começar, a exuberante interpretação de Saoirse Ronan como Susie Salmon. A atriz imprime uma alegria de viver e uma doçura tão marcante em sua personagem que é impossível não ficar sentido pela morte da garota. Seus belos e expressivos olhos são muito bem capturados pela fotografia de Andrew Lesnie (o mesmo da trilogia O Senhor dos Anéis), que tem bastante espaço para pirar neste longa-metragem. Visualmente impecável quando na “zona intermediária”, Um Olhar do Paraíso apresenta uma colorida paleta de cores e um compreensível surrealismo. Basicamente tudo pode acontecer por lá. Algumas cenas impactantes, como a destruição do coreto, que faz uma interessante rima com o estado físico do pai de Susie, são muito bem executadas. No mundo real, a fotografia é igualmente interessante, remetendo aos anos 70. Os enquadramentos de Peter Jackson continuam interessantes e o uso de sua câmera é inventivo em diversos momentos – apesar de eu não gostar da utilização de uma granulação exagerada em certos trechos, deixando patente a mudança da lente.

Tudo isso citado neste parágrafo é pouco para um cineasta do quilate de Peter Jackson. A sensação que tive ao assistir a Um Olhar do Paraíso é que o filme poderia ter tranquilamente 30 minutos menos. Jackson chega ao cúmulo de incluir uma descartável sequência musical na qual observamos a avó do clã, interpretada por Susan Sarandon, tomando conta da casa e fazendo uma bagunça maior que seus netos. Entendo que o clima soturno do longa-metragem peça por um respiro. Mas da forma que ficou, parece que o diretor descobriu que tinha de aproveitar a presença de Susan Sarandon e incluiu uma sequência totalmente fora do tom e do ritmo do filme como um todo. Além disso, alguns personagens são jogados na história e muito mal desenvolvidos. O caso mais evidente é o da psíquica Ruth (Carolyn Dando), que só aparece para resolver pontas soltas do roteiro. Acabamos o filme sem saber quem ela é, de onde veio ou desde quando ela possui este poder em observar o mundo sobrenatural.

Não bastasse isso, o filme nunca consegue impactar o espectador. A morte da garota é triste e brutal, mas a sua presença durante todo o filme diminui a força do seu assassinato. Nada de muito interessante acontece naquele mundo paralelo, fora seu apuro visual, destituindo totalmente a personagem de qualquer desafio. Somos então empurrados pela trama a acompanhar o desenrolar da história dos demais personagens – que, infelizmente, não são tão carismáticos quanto Susie Salmon.

O vilão da história, tão comentado devido às indicações a prêmios que recebeu pela interpretação de Stanley Tucci, não consegue corresponder às expectativas. Mesmo que a performance do ator seja digna de nota, o papel não é lá tão interessante. Tucci teve momentos mais brilhantes em filmes como Julie & Julia, O Diabo Veste Prada ou até O Terminal. Portanto, penso que a indicação é mais uma forma da Academia reconhecer o conjunto da obra e dar maior notoriedade a um ator sempre competente, mas que não é necessariamente muito popular. Para piorar, o desfecho forçado do personagem tira ainda mais pontos de Um Olhar no Paraíso, me fazendo supor que Peter Jackson não tinha idéia do que fazer com o grande vilão da história, resolvendo a questão pelo caminho menos inspirado.

Vazio emocionalmente, mas cheio de momentos que poderiam ficar na mesa da edição, Um Olhar do Paraíso é um título esquecível da filmografia de Peter Jackson. Vale pelo visual, pela direção de arte caprichada de Jules Cook e Chris Shriver e pela atuação de Saoirse Ronan, que, desde Desejo e Reparação, tem chamado a atenção pelo seu talento. Como já disse, muito pouco para uma adaptação cinematográfica do porte desta produção.

Maratona Oscar: Um Olhar do Paraíso foi indicado a um Oscar: Melhor Ator Coadjuvante (Stanley Tucci). Esta é uma das categorias mais fáceis de se prever o vencedor: Christoph Waltz, de Bastardos Inglórios. Só uma grande zebra tira o prêmio das mãos do ator alemão.

Um Olhar do Paraíso (The Lovely Bones)
Dir.: Peter Jackson
Com Mark Wahlberg, Rachel Weisz, Susan Sarandon, Stanley Tucci e Saoirse Ronan
Cotação Paradoxo: Vale 45% do ingresso

Confira abaixo o trailer de Um Olhar do Paraíso:

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Ajami

Cinco frações de uma história

Confesso que não tenho um contato muito estreito com a produção cinematográfica de Israel. Um pouco culpa minha, por não correr atrás de títulos daquele país. Muito culpa de uma cultura de distribuição de filmes que fecha os olhos para nações sem uma tradição no cinema – ou dinheiro – para fazer com que seus trabalhos cheguem a outros cantos do mundo. Felizmente, a qualidade superior de alguns longas-metragens consegue quebrar barreiras. Foi assim com Valsa com Bashir, em 2008, e, agora, com Ajami, concorrente de Israel ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. A história, cheia de idas e vindas, é surpreendente e muito bem amarrada pelos diretores Scandar Copti e Yaron Shati.

As aparências enganam em Ajami. O filme toma emprestado o nome do bairro de Jaffa, conhecido por ter em sua população muçulmanos, judeus e cristãos, onde se passa a ação do longa-metragem. O roteiro, escrito pelos diretores, é dividido em cinco capítulos e neles conhecemos Nasri (Fouad Habash), Omar (Shahir Kabaha), Malek (Ibrahim Frege), Dando (Eran Naim) e Binj (Scandar Copti), figuras centrais em uma trama intrincada que fala de perdas, preconceito e, principalmente, de escolhas.

Nasri sempre pressentiu quando algo ruim aconteceria perto dele. E não foi diferente quando seu vizinho foi morto a tiros, por engano. Os assassinos procuravam o irmão mais velho de Nasri, Omar, simplesmente por ele ser sobrinho do homem que matara alguém de seu clã. Omar e sua família agora precisam ser protegidos e, para tanto, terão de pagar pelo cessar fogo. Sem condições financeiras, o rapaz, depois de muito ponderar, decide entrar para o arriscado mundo das drogas. A falta de dinheiro também faz com que Malek se veja em uma enrascada. Sua mãe está doente no hospital e ele precisa pagar pela cirurgia. Apesar da ajuda de seus amigos, Malek não vê outra forma senão acompanhar Omar na empreitada. O produto a ser vendido é de Binj, um amigo próximo que, aparentemente, caiu no caminho errado. Muçulmano, mas perto de se juntar com a namorada judia, Binj tem em seu destino um divisor de águas na jornada de todos. O caminho destas figuras pode se cruzar com Dando, pai de família, policial, que sofre com o desaparecimento de seu irmão mais novo.

A separação de capítulos da trama a La Taratino não é gratuita. Com uma narrativa não linear, Ajami tira proveito de sua estrutura para apresentar pontos de vista diferentes de fatos, retroceder no tempo e, basicamente, mostrar ao espectador que nem sempre o que nos é mostrado como certo é, de fato, a verdade. A forma com que os diretores trabalham o ritmo do filme é salutar, visto que os personagens são desenvolvidos sem pressa e o caminho que eles trilham não parece uma imposição do roteiro para que todas as linhas se cruzem. Pelo contrário. O roteiro dá uma grande ênfase nas escolhas que seus personagens fazem. Seres humanos falhos como qualquer um, estas escolhas nem sempre são as mais acertadas. Portanto, não soa irrealista que dois jovens de boa índole acabem planejando vender crystal, uma droga bastante pesada, por ela acabar chegando em suas mãos. Também não soa de nada fora dos parâmetros que um policial abalado pelo desaparecimento de seu irmão acabe sucumbindo a uma vingança impensada. A força de Ajami está nesse momento limite em que vivem todos os seus personagens e a forma como ela é contada ao espectador.

Com um elenco formado totalmente por não-atores, o longa-metragem tem um estilo que pende para o documental. Atuações naturalistas, figurino provavelmente pertencente aos próprios intérpretes dos personagens e fotografia pouco retocada ajuda nesse feeling de realidade. É interessante salientar que os diretores são de origens diferentes e, talvez por isso, tenham feito questão de colocar estas diferenças dentro do filme. Quando árabes conversam entre si, escutamos sua língua. Quando os diálogos são entre judeus, escutamos o hebraico. Este pequeno cuidado dá uma grande credibilidade a Ajami. O fato de a intolerância religiosa não ser uma linha motriz, mas estar inclusa no filme também funciona muito bem. Em um dos capítulos, um dos amigos de Binj não se conforma pelo fato de ele estar se casando com uma judia. O romance entre Omar e Anan (Hilal Kabob), filha do influente Abu-Lias (Youssef Sahwani), da mesma forma, sofre problemas pelas tradições do país. Tudo é muito bem retratado pela câmera atenta de Scandar Copti (palestino, criado em Ajami) e Yaron Shani (judia, nascida em Israel).

Mantendo o interesse do espectador a cada nova cena e mudando a nossa percepção sobre a história a cada capítulo, Ajami acaba sendo uma produção maiúscula da cinematografia israelense. Depois do ótimo Valsa com Bashir, o país gera mais um belo e contundente longa-metragem. Que venham outros.

Maratona Oscar: Ajami foi indicado a um Oscar: Melhor Filme Estrangeiro. Esta estatueta deve ficar com Michael Haneke com seu A Fita Branca, quebrando uma velada tradição do Oscar em não dar seu prêmio ao vencedor do Festival de Cannes. Ou, talvez, com O Profeta, do francês Jacques Audiard, que levou a melhor no Bafta, tido como o Oscar britânico.

Ajami
Dir.: Scandar Copti e Yaron Shani
Com Fouad Habash, Shahir Kabaha, Ibrahim Frege, Eran Naim, Scandar Copti, Nisrine Rihan, Elias Saba, Youssef Sahwani, Ranin Karim
Cotação Paradoxo: Vale 88% do ingresso

Confira o trailer legendado (em inglês) de Ajami:

domingo, 21 de fevereiro de 2010

In the Loop


Meat Puppets

Comédias políticas, quando bem escritas, tendem a ser hilárias. Apesar de ser uma profissão que requer seriedade e muito comprometimento, os jogos políticos concebidos por ministros, deputados e pessoas no poder em geral dão muito espaço para boas piadas. Basta um pequeno twist aqui e outro ali e um projeto de lei pode ser facilmente convertido em uma fonte de inúmeras anedotas. A pouca perspicácia de alguns homens no cargo também ajudam roteiristas mundo a fora, facilitando seu trabalho em criar situações engraçadas perpetradas por políticos obtusos. O mestre atual nesse estilo de roteiro é, sem sombra de dúvidas, Aaron Sorkin e seus irresistíveis trabalhos no seriado The West Wing e no subestimado filme de Mike Nichols, Jogos do Poder. Tire a polidez de Sorkin, o transporte para a Inglaterra e talvez você consiga ter uma idéia do que é In the Loop, uma sátira política com o insuperável humor seco britânico dirigida por Armando Ianucci.

O filme é um spin-off do seriado da BBC The Thick of It e seu roteiro foi escrito a dez mãos: Jesse Armstrong, Simon Blackwell, Ian Martin, Tony Roach e o próprio diretor, Armando Ianucci. Na trama, acompanhamos a ebulição que uma entrevista ruim dada pelo ministro do Desenvolvimento Internacional, Simon Foster (Tom Hollander), gera dentro do centro nervoso político da Inglaterra. Ao dizer que a guerra no Oriente Médio é imprevisível, se afastando da linha deixada pelo Primeiro Ministro, Foster vira o centro das atenções do diretor de comunicações britânico, Malcolm Tucker (Peter Capaldi), e o fantoche da Assistente do Secretário de Estado dos Estados Unidos Karen Clarke (Mimi Kennedy), que tenta evitar o conflito de qualquer jeito. O maior oponente de Clarke é o outro assistente do Secretário de Estado, Linton Barwick (David Rasche), que vem tentando vender a invasão há muito tempo, inclusive criando um comitê secreto sobre a guerra, intitulado “Comissão de Planejamento Futuro”. Ele também pretende usar o ministro britânico, após ele dizer em entrevista que a guerra é uma “montanha de conflito no caminho da paz”. Perdido no meio disso tudo, Foster terá de receber a ajuda de seu novo assistente, Toby (Chris Addison), enquanto tenta entender tudo o que acontece ao seu redor.

Com diálogos rápidos e muita informação, a narrativa de In the Loop não pega o público pela mão e o faz pacientemente entender tudo o que se passa na tela. Muito pelo contrário. O espectador é jogado no meio de toda a confusão e tem de prestar atenção em cada diálogo para conseguir ter uma real noção do que acontece naquele mundo. A rapidez é, por vezes, até desconcertante. A razão disso é o fato de o filme, em seu corte bruto, ter ficado com mais de 4 horas de duração. Como não se trata de O Senhor dos Anéis, Armando Ianucci resolveu tirar toda a gordura que poderia e não poderia para o corte final. Por um lado funciona, por não ofender a inteligência do espectador, demonstrando que é possível desfrutar de um longa-metragem sem um primeiro ato demasiadamente expositivo. Por outro, a história aparece acavalada em muitos momentos, sem tempo algum para um respiro.

O senso de humor bastante seco e irônico utilizado pelos roteiristas de In the Loop conseguem transpor esta barreira da falta de respiro, criando diálogos hilários – principalmente provenientes do desbocado Malcolm Tucker, interpretado pelo excelente Peter Capaldi. Sua velocidade de raciocínio e seu invejável conhecimento da cultura pop o fazem recitar o maior número de palavrões e referências literárias por minuto. Este é um dos poucos personagens que foi trazido do seriado The Thick of It, fazendo com que tenha me criado uma curiosidade gigantesca em conhecer melhor esta série britânica.

Tom Hollander também é um destaque do elenco, dando um pouco de simpatia a um personagem tão obtuso quanto o ministro Simon Foster. Ele realmente não faz ideia do que deve falar, tendo certeza apenas de que deve, sempre que possível, abrir a boca para dizer algo. Não se parece com nenhum político que a gente conheça no mundo real? E o que dizer do seu assistente que só coloca os pés pelas mãos, mesmo tendo as melhores intenções possíveis, interpretado por Chris Addison? Feitos um para o outro, certamente.

Surpreso fiquei ao reparar a presença no elenco da crescida Anna Chlumsky, a Vada de Meu Primeiro Amor. Infelizmente, a moça não aprendeu muito do ofício ao envelhecer, estando over em boa parte do filme. É bem verdade que quase todo o elenco está exagerado – de forma calculada, me parece. A jovem destoa em um cast que conta com o sempre competente James Gandolfini (e sua cena com o mini laptop infantil é hilária) e o interessante Steve Coogan (que, com uma pequena participação como o cidadão reclamando de um muro, consegue chamar a atenção).

In the Loop mostra de forma competente e bem humorada a forma como um assunto importante e sério como o início de uma guerra pode ser levado com menor rigor pelas pessoas responsáveis por tais decisões. A maioria dos personagens está mais preocupado em como sua carreira vai reagir com o anúncio de um conflito do que com a guerra em si. E, infelizmente, este retrato não é nada longe da realidade. Talvez a vida real não seja tão engraçada quanto o diretor Armando Ianucci nos faz supor. Mas é cheia de tipos interesseiros como os mostrados nesta ótima comédia política.

Maratona Oscar: In the Loop foi indicado a 1 Oscar: Melhor Roteiro Adaptado. Este é o verdadeiro caso de a vitória estar na própria indicação. Não deve levar a estatueta (ficando com Amor sem Escalas), mas acaba ganhando notoriedade pela lembrança, fazendo com que mais pessoas se interessem em assistir ao longa-metragem. Com isso, talvez ganhe chances de lançamento no Brasil, já que este é um dos poucos filmes indicados ao Oscar 2010 que não tem nem título em português.

In the Loop
Dir.: Armando Ianucci
Com Peter Capaldi, Tom Hollander, Gina McKee, James Gandolfini, Chris Addison, Anna Chlumsky, Enzo Cilenti, Paul Higgins, Mimi Kennedy, Alex Macqueen, Johnny Pemberton, Olivia Poulet, David Rasche, Joanna Scanlan
Cotação Paradoxo: Vale 85% do ingresso

Confira abaixo o trailer de In the Loop:

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Brilho de uma Paixão

Sem Brilho

Brilho de uma Paixão é a prova real de que não tenho a paciência exigida para assistir aos filmes da cineasta Jane Campion. O Piano, de 1993, e Retratos de uma Mulher, de 1996, já me incomodavam pelo ritmo demasiado lento e pelo teor contemplativo por demais. Agora, mais de dez anos depois destas produções, percebo que o estilo de Campion continua o mesmo e a minha falta de paciência com suas histórias, também.

A premissa de Brilho de uma Paixão não deixa de ser interessante, no entanto. No roteiro, assinado pela própria cineasta, acompanhamos os últimos anos de vida do poeta britânico John Keats (Ben Whishaw) e sua paixão pela estilista Fanny Brawne (Abbie Cornish). Sem ter onde cair morto, o escritor nutre um amor pela garota sem poder desposá-la. Isso não impede que Fanny retribua os sentimentos do poeta, apaixonando-se não só por Keats como pela arte da poesia, até então uma barreira intransponível para ela.

Confesso que não sou um apreciador de poesia. Sempre preferi a prosa. Portanto, o fato de não ser um apaixonado pelo estilo cria um grande obstáculo, visto que Jane Campion recheou o roteiro do seu filme com diversos poemas de John Keats. Acredito que para os fãs do poeta, estes serão momentos bastante apreciáveis. Para o resto do público, dependerá de como cada um reage à poesia. Existem alguns belos momentos, até para não fanáticos por rimas e floreios, como algumas correspondências trocadas pelos personagens. Estas cartas, de Keats para Fanny, resistiram à passagem do tempo e são facilmente encontradas na internet, inclusive.

Outro ponto nada louvável do roteiro de Jane Campion é o fato de esconder algumas passagens da vida real para que melhor se adaptem ao filme. Uma rápida pesquisa sobre a vida de John Keats nos informa que este era apaixonado por outra mulher quando conheceu Fanny. No entanto, não existe nenhuma citação sobre tal moça, transformando Keats em um homem de uma mulher só. Na verdade, seu coração esteve dividido por muito tempo, até se decidir pela senhorita Brawne. Nada disso é mostrado em Brilho de uma Paixão. Talvez tirasse um pouco do brilho do título do filme a existência desta mulher – o original, aliás, Bright Star, é uma citação a um dos mais conhecidos poemas do escritor britânico, dedicados a sua amada.

O casal principal, interpretado por Ben Wishaw e Abbie Cornish, tem alguns bons momentos, mas são vítimas de um roteiro que não dá dimensão nenhuma a suas personalidades. Se formos levar em conta o texto, Keats era um homem que só tinha Fanny no pensamento e suas poesias em segundo plano. Enquanto isso, Fanny só possuía o interesse por desenhar roupas e pelo seu amado. Nada mais. É muito pouco desenvolvimento de personagem para um filme que bate duas horas de duração. As briguinhas entre Fanny e o amigo de Keats, o também poeta Charles Brown (Paul Schneider), seriam mais interessantes caso o ator que o interpreta fosse um pouco mais talentoso. “I failed John Keats” é um dos seus momentos que beira o constrangedor.

O que salva Brilho de uma Paixão do total desastre são as poesias de John Keats – que mesmo não sendo meu forte, são notadamente um belo exemplo de literatura romântica do século XIX – e os figurinos assinados por Janet Patterson, usual colaboradora de Jane Campion. Chama a atenção cada nova roupa utilizada por Fanny – e não são poucas. A cada nova cena, uma vestimenta diferente. Mas é muito pouco para segurar a atenção de um espectador durante quase duas horas. Tudo isso que escrevi vale para pessoas como eu, que não tem na poesia seu estilo literário favorito. Caso você seja um fã de poemas e tem como um de seus ídolos John Keats, é possível que Brilho de uma Paixão o entretenha. Não foi o meu caso.

Maratona Oscar: Brilho de uma Paixão foi indicado a 1 Oscar: Melhor Figurino. Esta é uma das categorias mais difíceis de prever, já que todos os indicados são excepcionais. Estou inclinado a apostar na realeza de A Jovem Vitória, visto que a Academia tem histórico em dar prêmios para filmes que se passam na corte.

Brilho de uma Paixão (Bright Star)
Dir.: Jane Campion
Com Ben Wishaw, Abbie Cornish, Paul Schneider, Kerry Fox, Edie Martin, Thomas Sangster, Gerard Monaco, Antonia Campbell-Hughes
Cotação Paradoxo: Vale 48% do ingresso

Confira o trailer legendado de Brilho de uma Paixão:

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Distrito 9

Christopher Johnson

Quem pensava que histórias envolvendo alienígenas estavam batidas e sem graça deve seriamente considerar assistir a Distrito 9. O longa-metragem assinado por Neill Blomkamp, apadrinhado por Peter Jackson, é uma louvável brisa de criatividade em um gênero carente de uma sacudida. Produzido com apenas 30 milhões de dólares (valor irrisório ao considerarmos a qualidade dos efeitos especiais), o filme é uma aula de como envolver o espectador com uma trama inventiva e nada superficial.

Iniciando na forma de um documentário, Distrito 9 contextualiza ao público o que acontece na Johanesburgo do filme. Há 20 anos, uma grande espaçonave pairou pela cidade sul-africana e por lá ficou. Depois de esperar por algum contato imediato, os humanos decidiram invadir a nave e descobrir o que acontecia. Resultado: encontraram milhares de alienígenas vivendo nas piores condições possíveis. A solução foi assentá-los em casebres – que logo virariam uma grande favela. A violência e a intolerância da população quanto a permanência dos “camarões” (como são conhecidos os aliens) naquele local fez com que a empresa MNU resolvesse realocar os ETs em outro lugar. É assim que conhecemos o protagonista da história, Wikus van de Merwe (Sharlto Copley), um engravatado almofadinha recém promovido que tem a missão de comandar a operação de evacuação do Distrito 9. Em meio a esse trabalho, Wikus conhece o camarão Christopher Johnson e seu filho. Aparentemente mais esperto que os outros, o alien tem um plano para voltar para casa. Plano este que poderá ser cancelado quando Wikus encontra um fluido importante para a viagem e faz uso dele acidentalmente.

Além de ser uma interessante mudança de ares nos populares filmes de alienígenas, Distrito 9 tem muito mais por baixo dessa história. Primeiramente, o apartheid é a principal e mais óbvia camada do filme. A situação dos alienígenas e a intolerância da população com o diferente é um espelho do que foi a África do Sul em um passado não muito distante. O fato do diretor e roteirista Neill Blomkamp ter vivido no país em apartheid fez com que ele sentisse vontade de incluir este tom de preconceito dentro do longa-metragem. As placas “apenas para humanos” ou “proibida a entrada de alienígenas” com apenas uma mudança de palavra poderia ser utilizada nos piores anos da África do Sul.

Além disso, os seres humanos, para variar, são retratados como gananciosos, mesquinhos e interesseiros. A realocação dos camarões é realizada não para melhorar a sua situação, mas para que fosse mais fácil o acesso da MNU às armas alienígenas. Mais uma vez, um cotejo interessante entre vida real e ficção. Quantas vezes o interesse coorporativo não fica em primeiro lugar, deixando a população em geral em segundo ou terceiro plano? Só por essas razões, Distrito 9 já ganha pontos e fica muito acima de outros filmes envolvendo a temática alienígena.

Para quem não quiser pensar muito em camadas subliminares e paralelos com a vida real, ainda existe um filme de ação muito bom dentro do longa-metragem de Neill Blomkamp. Explosões, tiros, armas high tech, tudo está lá. A ação do terceiro ato é non stop, com direito a uma armadura que lembra muito a utilizada pela tenente Ripley em Aliens – O Resgate, um dos melhores filmes de ficção científica dos anos 80.

Aqui não temos bem uma tenente Ripley encabeçando o filme, mas uma figura chamada Wikus van de Merwe. Longe de ser muito talentoso, Wikus é bonachão e cordial com a maioria das pessoas. Promovido a um cargo importante, tenta passar respeitabilidade – falhando no intento. É curioso notar que ele precisa provar ser uma pessoa segura e competente. Tanto que, ao gravar o documentário nas favelas, a cada momento constrangedor ou desabonador a seu favor, ele logo pedia para desligar a câmera, enraivecido. Sua situação muda quando ele toma contato com um estranho fluído alienígena. Sua nova jornada, que inicia titubeante e com muita angústia, acaba o transformando em um homem (?) mais corajoso. Sharlto Copley, o intérprete de Wikus, não é um ator profissional e tem uma performance bastante competente como o protagonista. Conseguindo criar diferenças abissais entre o antes e depois de Wikus, Copley é uma feliz surpresa de Distrito 9.

Neill Blomkamp, diretor que transformou seu curta-metragem em longa com a benção de Peter Jackson, também é uma boa novidade. Amarrando muito bem o roteiro, fazendo uma excelente mistura entre documentário e ficção científica e dirigindo de forma caprichada as cenas de ação, Blomkamp é um nome a ser cuidado no futuro. Se com apenas 30 milhões de dólares ele conseguiu fazer um Distrito 9, imagina com um orçamento inchado e o apoio de um grande estúdio? Desde que ele não perca a profundidade deste seu primeiro sucesso, o cineasta pode seguir um bom caminho em Hollywood.

Maratona Oscar: Distrito 9 foi indicado a 4 Oscar: Melhor Filme, Roteiro Adaptado (Neill Blomkamp e Terri Tatchell), Efeitos Especiais e Edição. Acredito que o filme não leva nada, com algumas – poucas - chances em Edição. Se Avatar não levar Efeitos Especiais, será uma grande zebra azulada. E Amor sem Escalas deve tascar o Oscar de Roteiro.

Distrito 9 (District 9)
Dir.: Neill Bloomkamp
Com Sharlto Copley, Jason Cope, Louis Minnaar, Nick Blake, David James
Cotação Paradoxo: Vale 90% do ingresso

Confira abaixo o trailer legendado de Distrito 9:

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus

Devaneios

Apostar ou compactuar com o diabo nunca foi um bom negócio. A literatura e o cinema cansaram de mostrar exemplos. Nos livros, clássicos como Fausto, de Goethe, e O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde. No audiovisual, pegando os mais recentes, Coração Satânico, de Alan Parker e O Advogado do Diabo, de Taylor Hackford. Ou seja, ninguém pode dizer que não está avisado.

Menos, claro, o Dr. Parnassus do filme de Terry Gilliam, interpretado por Christopher Plummer. Passando dos mil anos, Parny (como é chamado pelo próprio demo) não teve tantas informações sobre pactos duvidosos com o coisa-ruim e acabou caindo nessa. Agora, próximo ao aniversário de 16 anos de sua filha única, Valentina (Lily Cole), Parnassus terá de entregá-la ao Sr. Nick (Tom Waits), o diabo em pessoa. Antes disso, apostador como poucos, Nick dará mais uma oportunidade a Parnassus: o primeiro que conseguir 5 almas ganha o jogo. Para vencer seu adversário, o doutor terá de convencer as pessoas a entrarem em seu “imaginarium”, um espetáculo que conta com um espelho mágico que leva os desavisados para dentro dos meandros da mente. Quem o ajuda no intento é o apaixonado Anton (Andrew Garfield) e o misterioso desmemoriado Tony (Heath Ledger).

O cineasta Terry Gilliam (ex-Monty Python) é conhecido por não ceder a pressões em fazer filmes comerciais ou mais palatáveis ao grande público. Portanto, não é estranho assistir a O Mundo Imaginário de Dr. Parnassus e perceber que os devaneios do diretor continuam lá, assim como uma narrativa pouco coesa – o que pode incomodar os menos acostumados ao torto senso de humor do cineasta. A história está longe de ser incompreensível (é até bastante simples), mas o jeito dela ser contada é um pouco diferente do usual. Basta aceitar o convite de Gilliam e soltar a imaginação para se divertir e ser levado por esse mundo estranho proposto pelo diretor.

O roteiro, que reúne a dupla de Brazil – O Filme, Terry Gilliam e Charles McKeow, aposta totalmente no fantástico e no surreal durante toda a trama. Isso abre espaço para uma total extrapolação das barreiras do real e do imaginário dentro do filme. Não é apenas no imaginarium que vemos um mundo de fantasia. Fora dele também somos apresentados a figuras fora do padrão. No mundo real temos seres milenares, diabólicos e imortais. Dentro do espelho, tudo ganha mais colorido e mais surrealismo. Os efeitos especiais, apesar de bastante limitados, fecham bem com o estilo de animação de Terry Gilliam (que é conhecido por seu talentoso e característico traço desde os tempos de Monty Python). Dentro do espelho, a direção de arte é quase infantil, com os cenários desenhados e muitas cores. Fora dele, os figurinos chamam a atenção pela sua qualidade medieval e as tonalidades mais soturnas ganham destaque.

Além de conhecido por não ser um cineasta convencional, Terry Gilliam também tem fama de azarado. E em O Mundo Imaginário de Dr. Parnassus, o diretor teve de resolver um dos maiores problemas que alguém na indústria pode encarar: perder seu galã. A morte de Heath Ledger foi sofrida por vários motivos. Além da perda de um talentoso jovem rapaz, o ator foi a razão de Gilliam ter conseguido financiamento para realizar seu filme. Para piorar a situação, ele não havia terminado suas cenas. Por incrível que pareça, a falta de Ledger na conclusão da história acabou agregando ainda mais detalhes fantásticos à trama. Em uma inventiva reestruturação do roteiro, foi estabelecido que Tony mudaria de rosto ao entrar no mundo do espelho. Portanto, sempre que vemos o personagem no imaginarium, ele tem as feições de Johnny Depp, Jude Law e Colin Farrell – amigos que cederam seu cachê para a filha do ator falecido.

Apesar destas participações especiais interessantes, o filme é de Heath Ledger. É ele quem consegue cativar o espectador com uma atuação irreverente como o esquisito Tony. Sua postura em cena, assim como a forma de falar, lembram pouco qualquer outro personagem anterior. Isso só prova que o cinema perdeu um excelente jovem ator, que sempre conseguia mudar seu estilo em cada novo projeto. É triste lembrar que este é o último trabalho que veremos de Ledger, mas é ótimo saber que ele se despediu em um filme diferenciado como este. Dos Tonys imaginários, Johnny Depp é quem mais se aproxima da forma como Ledger vinha trabalhando o personagem.

Christopher Plummer dá um tom de angústia para seu Dr. Parnassus, parecendo preocupado em praticamente todos os fotogramas do filme. A aposta que fez com Mr. Nick o deixa em estado permanente de vigília e seu amor pela filha acaba fazendo com que este esconda a verdade sobre seu terrível destino. Uma ótima performance do ator, que teve um excelente ano de 2009, coroado com uma indicação ao Oscar pelo filme The Last Station. Tom Waits, por outro lado, parece se divertir horrores ao interpretar o diabo – um personagem que não lhe é estranho, visto que já o interpretou anteriormente no clipe “God’s Away on Business”. Um apostador nato, Mr. Nick não parece ter tanto interesse em coletar seus prêmios quanto a jogar com suas vítimas. O excêntrico músico empresta seu estilo característico ao personagem, que agrega e muito a sua performance.

Conseguindo remendar um roteiro que parecia fadado ao limbo após a morte de seu astro, Terry Gilliam entrega um filme divertidamente onírico, com um humor perspicaz e cheio de boas atuações. Pode não ser tão denso quanto um Fausto ou um Retrato de Dorian Gray, mas passa seu recado de forma competente e inusitada. Sem contar que é um ótimo adeus a Heath Ledger, ator que surpreendia a cada novo papel e que deixou uma lacuna difícil de ser preenchida em Hollywood.

Maratona Oscar: O Mundo Imaginário de Dr. Parnassus foi indicado a 2 Oscar: Melhor Direção de Arte e Figurino. O filme merece a lembrança da Academia nestas duas categorias, mas não deve sair vencedor de nenhuma.

O Mundo Imaginário de Dr. Parnassus (The Imaginarium of Doctor Parnassus)
Dir.: Terry Gilliam
Com Christopher Plummer, Heath Ledger, Johnny Depp, Jude Law, Colin Farrell, Lily Cole, Andrew Garfield, Verne Troyer, Peter Stormare e Tom Waits
Cotação Paradoxo: Vale 85% do ingresso

Confira abaixo o trailer legendado de O Mundo Imaginário de Dr. Parnassus:

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

O Segredo dos seus Olhos

Olhos n~o mentem J m is

A cada novo filme que assisto de Juan José Campanella, duas perguntas ficam mais freqüentes em minha mente: Como na Argentina, país tão próximo ao nosso, se consegue fazer obras interessantes em número tão esmagador em relação ao nosso cinema? E porque até agora Hollywood não cooptou o cineasta para produções cinematográficas por lá? Campanella já dirige seriados como Law & Order, House e 30 Rock e teve oportunidade de dirigir dois longas com elenco norte-americano. Mas, até agora, não ganhou uma chance de assinar uma produção autoral. Acredito que uma oportunidade não vai tardar depois deste O Segredo dos seus Olhos, obra excepcional da filmografia de um cineasta conhecido por seus trabalhos diferenciados.

Novamente com seu ator preferido à frente do elenco, Ricardo Darín, Campanella concebe uma história com personagens falhos, engraçados, estúpidos, dramáticos. Ou seja, pessoas que poderiam estar ao seu lado neste momento. Esta proximidade de seus personagens com o mundo real é uma marca de Campanella, que acerta novamente em uma trama recheada de suspense, com ótimos momentos de humor e uma grande levada dramática. Misturar tudo isso poderia ser difícil, mas não para o cineasta argentino.

Darín vive o funcionário público aposentado Benjamin Esposito, um homem que chega a um ponto na vida onde precisa escolher se dedicar a um hobby ou ficar parado, sem nada a fazer. Com uma idéia fixa na cabeça, sobre um caso que ajudou a resolver há 30 anos, Esposito resolve escrever um romance a respeito da investigação. A ideia parece boa o suficiente para ser compartilhada com Irene (Soledad Villamil), sua antiga colega de trabalho e paixão platônica desde aquela época. Desencavando um passado adormecido, Esposito relembra o caso de uma moça estuprada e morta e os desenrolamentos da investigação que levaram ele e seu amigo Sandoval (Guillermo Francella) a uma rota de colisão com um perigoso assassino.

Como em O Filho da Noiva e Clube da Lua, Darín é convocado por Juan Jose Campanella para dar um toque de “homem comum” a este obcecado e imperfeito ser humano chamado Benjamin Esposito. Apaixonado por sua chefe, mas nunca com coragem o suficiente para dizê-lo, Benjamin é uma pessoa resignada com seu eterno status de coadjuvante. Em sua cabeça, nunca conseguiria conquistá-la. Esta certeza o acaba deixando amargo, fato que ele sempre esconde com ironias. Seu melhor amigo, Sandoval, um homem com sérios problemas com a bebida, é um dos poucos que realmente entende a cabeça de Benjamin. É Sandoval, do alto do seu jeito amalucado de ser, quem ajuda o obstinado Espósito a investigar o caso de uma bela moça morta por um estuprador foragido.

Alfred Hitchcock é certamente uma referência que se pode citar ao comentar O Segredo dos seus Olhos. O diretor britânico era hábil em misturar suspense e drama com doses generosas de humor em seus trabalhos. Campanella parece saber seguir muito bem o mestre, montando uma trama nada previsível, envolvente ao extremo e que consegue deixar o espectador tenso sempre que necessário. Os momentos de comédia são muito inspirados e nunca soam como alívios cômicos artificiais. Tudo é bastante orgânico no roteiro do longa-metragem, assinado pelo próprio diretor, baseado no livro de Eduardo Sacheri.

Quem já assistiu aos demais filmes de Campanella deve lembrar que a composição dos planos do cineasta é sempre muito bem bolada. A mise-en-scène é ponto crucial para o diretor, que prefere soluções nada óbvias para enquadrar seus atores. Cada plano parece uma pintura bem pensada – e o fato de os primeiros momentos do filme remeterem às artes plásticas certamente não é gratuito. Em uma cena mais adiante, vemos Darín em um canto da tela, enquanto a câmera está bastante afastada, espiando o personagem tentar escrever seu romance. O quadro acaba destacando objetos da sala que, aparentemente, não são importantes, mas que servem para compor aquele frame. O jogo de claro e escuro nos momentos mais sombrios da trama também agrega ao resultado final, contrastando com os tons mais fortes e coloridos do restante do filme.

Com uma ótima edição, visitando o passado e presente dos personagens, O Segredo dos seus Olhos é um belo exemplar do cinema argentino e mais um ótimo trabalho no currículo do diretor Juan José Campanella. Trabalho esse que levou tudo a que foi indicado na premiação do jornal argentino Clarín (9 prêmios ao todo), venceu duas importantes categorias no Goya 2010 (o Oscar do cinema espanhol) e é um dos fortes postulantes ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

O longa-metragem só não ganha nota máxima por se estender demais. Fechados os primeiros 80 minutos de projeção e já tínhamos um filmaço de suspense nas mãos. No entanto, Campanella se viu na obrigação de ir além do simples jogo de gato e rato – e está certíssimo nisso. Mas para chegar neste saudável desenrolar dos fatos depois de toda a investigação, foram necessárias muitas voltas até se chegar no que interessava. Felizmente, o final, surpreendente, tira o amargo da boca daqueles 15 minutos à deriva.

Maratona Oscar: O Segredo dos seus Olhos foi indicado a um Oscar: Melhor Filme Estrangeiro. Os seus principais rivais são A Fita Branca, de Michael Haneke (Alemanha), e O Profeta, de Jacques Audiard (França). Depois de ter assistido ao postulante alemão, acredito que este levará o prêmio - até por ter uma temática histórica e referente à guerra, um assunto caro à Academia. Ainda preciso assistir aos dois filmes restantes, Ajami e A Teta Assustada, para bater o martelo em relação a isso. Mas diria hoje que A Fita Branca leva o prêmio.

O Segredo dos seus Olhos (El Secreto de Sus Ojos)
Dir.: Juan Jose Campanella
Com Ricardo Darín, Soledad Villamil, Pablo Rago, Javier Godino, Guillermo Francella, José Luis Gioia, Carla Quevedo
Cotação Paradoxo: Vale 92% do ingresso

Confira abaixo o trailer legendado de O Segredo dos seus Olhos:

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Preciosa

Push

O sonho de Clareece Precious Jones é ser descoberta, ter uma vida de estrela, a pele clara e um namorado com cabelo bom e um sorriso charmoso. No mundo da fantasia, esta morada do Harlem teria todos aos seus pés. Na vida real, a situação é bem mais difícil. Obesa, violentada pelo pai, grávida de seu segundo filho devido a estas relações incestuosas, abusada pela mãe e com grau de educação escolar baixo, Preciosa não tem uma vida de revista. Tem uma vida de programa da Oprah. E não é a toa que a própria popular apresentadora norte-americana serve de produtora executiva deste longa-metragem sofrido.

Com roteiro assinado pelo estreante Geoffrey Fletcher, baseado no livro “Push”, da autora norte-americana Sapphire, Preciosa – Uma História de Esperança conta a história da personagem título (interpretada por Gabourey Sidibe), uma adolescente que sofre todos os problemas citados acima. Sua situação só não é pior graças a sua imaginação fértil, que a faz abstrair por alguns momentos de sua vida de cão em casa. Expulsa do colégio, Preciosa parte para uma escola alternativa, a Each One Teach One, onde conhece Blu Rain (Paula Patton), uma dedicada e atenciosa professora. Isso não alivia sua situação em casa, onde é diariamente mal tratada por sua mãe, Mary (Mo’Nique). Com o passar do tempo, Preciosa começa a ter sua auto-estima elevada pelos estudos e o nascimento do filho lhe dá forças para brigar por seus interesses. No entanto, muita água passará embaixo daquela ponte, visto que os dramas da vida de Preciosa parecem infindáveis.

Incensado por diversos festivais pelos quais passou, incluindo o renomado Sundance Film Festival (onde levou os prêmios do grande júri e da audiência), Preciosa tem tido uma excelente jornada, muito maior do que a prevista por seus realizadores, certamente. Lee Daniels, diretor do filme, tirou dinheiro do próprio bolso para bancar a produção – só depois Oprah Winfrey e o ator/diretor Tyler Perry entraram no barco, ajudando a promover o longa-metragem, assumindo o papel de produtores executivos.

Apesar de ser um bom filme e merecer boa parte dos louros, Preciosa não é livre de erros. A trilha sonora é bastante intrusiva e, por vezes, tira a potencialidade dramática de algumas cenas. O exagero de algumas situações também acaba por transformar a jornada da personagem em um martírio sem fim, chegando a parecer artificial algumas vezes. Desgraça pouca é bobagem, se levarmos em conta o roteiro de Geoffrey Fletcher.

Mesmo com alguns tropeços, Preciosa será lembrado por duas atuações poderosas: Mo’Nique, como a megera Mary, e Gabourey Sidibe, como a sonhadora Precious. A primeira ganha crédito por conseguir encarnar um dos personagens mais asquerosos da história do cinema. Boca suja, histérica, invejosa, falsa. Nomeie um defeito e ela o tem. É impossível tirar os olhos de Mo’Nique quando esta está em cena. Sua raiva ao falar com a filha, suas convicções totalmente equivocadas e seu ódio pelo próximo é sufocante. Continuo a dizer que o exagero do roteiro quase transforma Mary em uma personagem irreal. Mas a atuação segura de Mo’Nique e alguns twists no meio da história conseguem fazer com que acreditemos que aquela megera realmente poderia existir no mundo real.

Já Gabourey Sidibe pega o espectador pelo coração. Não há como não se enternecer e torcer por um futuro melhor àquela garota. Ela comeu o pão que o diabo amassou e continua tentando lutar. É um personagem que deverá inspirar muitas pessoas a não desistir, por piores as adversidades. Só por isso já é uma performance válida. A atriz estreante consegue, além de imprimir tenacidade ao papel, dar a Clareece a evolução necessária para que acreditemos em sua caminhada. Portanto, na primeira vez que a vemos sorrir por estar aprendendo, sabemos o quanto isso lhe é importante. Quando estoura com pessoas que se importam com ela, temos noção do quanto é difícil segurar seus sentimentos.

Paula Patton, como a lutadora professora de Precious, está comovente em sua batalha para educar aquelas meninas. Mas quem realmente surpreende é Mariah Carey, destituída de qualquer vaidade, interpretando uma atenciosa, porém dura, assistente social. A cena que divide com Gabourey Sidibe e Mo’Nique é bombástica. Até Lenny Kravitz é uma feliz surpresa, estando incrivelmente à vontade como o enfermeiro John. Sua atuação é tão natural, assim como de boa parte do elenco, que é impossível não notar o dedo do diretor Lee Daniels. Se o cineasta tem um forte, provou ser na direção do seu cast. Performances consistentes é a sustentação de Preciosa.

A edição, assinada por Joe Klotz, tem ótimos momentos, conseguindo traduzir muito bem os devaneios de Precious para o espectador. A cada momento que a garota encara uma situação difícil, seu subconsciente dispara um pensamento feliz para contrabalancear a tensão. Nem sempre este artifício funciona, visto que, não raro, esta válvula de escape traz consigo lembranças ruins do passado, como vemos em uma das primeiras cenas do filme. O jeito com que Klotz monta estas sequências deve ter feito com que o seu nome fosse lembrado pela Academia.

Longe de ser um filme perfeito, Preciosa é uma produção competente, com temática triste e, ao mesmo tempo, inspiradora. Méritos e deméritos para o diretor Lee Daniels: muito feliz na direção do elenco, infeliz ao pesar a mão no melodrama. Preciosa acaba sendo um filme difícil, não por ser de complicada compreensão, mas por levar até as últimas conseqüências o sofrimento humano. Deve ser visto e refletido, com um lenço ao lado, de preferência.

Maratona Oscar: Preciosa – Uma História de Esperança foi indicado a 6 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Lee Daniels), Atriz (Gabourey Sidibe), Atriz Coadjuvante (Mo’Nique), Edição (Joe Klotz) e Roteiro Adaptado (Geoffrey Fletcher). Mo’Nique deve levar o Oscar sem maiores dificuldades, sendo uma das maiores barbadas da noite. Em outros prêmios, as chances são praticamente nulas.

Preciosa – Uma História de Esperança (Precious: Based on the novel Push by Sapphire)
Dir.: Lee Daniels
Com Mo’Nique, Paula Patton, Mariah Carey, Lenny Kravitz, Sherri Shepherd e Gabourey Sidibe
Cotação Paradoxo: Vale 78% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer legendado de Preciosa: