Mussolini e eu
O diretor italiano Marco Bellochio, de A Hora da Religião, constrói uma trama forte e cheia de imagens impactantes em seu mais recente trabalho, o indicado a Palma de Ouro em Cannes, Vincere. O cineasta conta a história do tórrido caso de amor do ditador italiano Benito Mussolini (Filippo Timi) – antes de se tornar o fascista que todos conhecem – com Ida Dalser (Giovanna Mezzogiorno), mulher que teve um filho do Il Duce, mas que é afastada completamente do seu amado após tentar convencer a todos de que era a sua esposa.
O roteiro é assinado por Marco Bellochio e sua recorrente colaboradora Daniela Ceselli. A trama começa em 1907, quando Ida Dalser se encanta pela ousadia de Benito Mussolini, um homem que ousa desafiar Deus em frente a uma sala cheia de fiéis. Naquele dia, Mussolini se vê obrigado a fugir de uma turba enraivecida e, ao se esconder na escuridão, encontra Ida, com quem troca um beijo. Este momento fica na mente da mulher que, sete anos depois, reencontra Mussolini e começa um quente romance com o então socialista. Com o início da Primeira Guerra Mundial, Mussolini é uma voz dissonante dentro do Partido Socialista, já que não é contra o conflito. Com isso, ele é expulso do Partido e resolve fundar seu próprio jornal, Il Popolo d’Italia, financiado por Dalser, que vende todos os seus pertences para ajudar seu amado na empreitada. Mussolini cresce rápido e seu poder deixa Dalser orgulhosa – e ciumenta, já que ela sabe que não é a única mulher na vida dele. Após anunciar que está grávida, Ida é paulatinamente afastada de Mussolini até perder totalmente o contato com o futuro ditador. Internada em um manicômio, Ida tenta provar que carregou no seu ventre o filho do Duce e que é casada legitimamente com ele.
Vincere é dividido em duas partes. Na primeira, acompanhamos o encontro e o “romance” entre Mussolini e Ida. As aspas na palavra se devem ao caráter físico e nada amoroso que levou Mussolini a se encontrar diversas vezes com Ida. Enquanto a mulher se entrega totalmente ao amado, o futuro fascista parece apenas usar a moça para o sexo. Filippo Timi retrata Mussolini como um homem de sangue quente, que perde a cabeça ao ver uma bela mulher como Ida, mas que nunca se deixa envolver totalmente por ela. Repare nas expressões de Timi durante os beijos e o sexo. Sempre de olhos abertos, como se estivesse sempre pensando em outra coisa.
Por outro lado, Ida é toda sentimento. Em seu primeiro encontro com Mussolini, o beijo no escuro, sua mão toca a cabeça ferida do homem, sujando-a de sangue. Aquele sangue, para ela, parece um pacto. Depois daquilo, Ida será somente de Mussolini e de ninguém mais. Visivelmente desequilibrada, Ida não se importa em vender tudo o que possui para ajudar seu homem a montar seu jornal. Giovanna Mezzogiorno não economiza em sua atuação, convencendo totalmente como uma mulher cega pela paixão, que perde totalmente a razão pelo seu sentimento fortíssimo pelo Duce.
Na segunda parte, o Mussolini de Filippo Timi dá lugar ao verdadeiro ditador, mostrado em imagens de arquivo. Isto acaba criando uma maior distância entre o ditador e sua ex-amante, denotando o crescimento vertiginoso da carreira do político. Por isso, Ida consegue ver seu amado apenas no cinema – que, aliás, tem um papel importantíssimo neste longa-metragem. Diversas cenas são rodadas dentro de salas de exibição e Marco Bellochio é muito inteligente em utilizar, mais de uma vez, os músicos que executavam a trilha sonora dos filmes mudos, ao vivo, como sua trilha incidental.
Além disso, Bellochio utiliza de forma interessante cenas de filmes clássicos como Outubro, de Sergei Eisenstein – para ilustrar a Revolução Russa, Cristo, de Giulio Antomoro – mostrando a aversão de Mussolini pela religiosidade, e O Garoto, de Charles Chaplin – fazendo a ponte do amor de Ida pelo seu filho com as emoções do longa-metragem de Carlitos.
Vincere vai perdendo sua força na segunda hora de projeção, quando volta sua narrativa totalmente a Ida Dalser e sua fixação por Mussolini. Apesar da excelente performance de Giovanna Mizzogiorno, a trama parece não sair do lugar em seu segundo ato. Nem a presença de Filippo Timi interpretando seu segundo papel no filme, o filho de Mussolini, Benito Albino, consegue elevar a qualidade do trecho final – ainda que seja bastante curioso observá-lo imitando a forma tresloucada de Mussolini discursar.
No todo, Vincere é um ótimo longa-metragem italiano, que reconta uma parte da história do país que ficou coberta pelo mistério e pelos panos quentes que o partido fascista colocou sobre os acontecimentos. Será que Ida realmente casou com Mussolini? O filme não deixa claro, remontando o possível casório em uma cena onírica e, sejamos francos, pouco provável. Vincere é uma produção que se sustenta com os ótimos planos e idéias do seu diretor, Marco Bellochio, e pelas excelentes atuações do elenco principal.
Vincere
Dir.: Marco Bellochio
Com Giovanna Mizzogiorno, Filippo Timi, Corrado Invernizzi, Fausto Russo Alesi
Cotação Paradoxo: Vale 79% do ingresso
Confira logo abaixo o trailer de Vincere:


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