segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Reflexões de um Liquidificador

Moer é Pensar

Contracenar com um objeto inanimado não deve ser tarefa fácil para qualquer ator. No entanto, Ana Lúcia Torre (de Os Inquilinos) se sai maravilhosamente bem na tarefa, atuando de forma descontraída e criando uma química perfeita com um liquidificador, dublado por Selton Mello (de A Mulher Invisível). Pode soar estranho, mas são os diálogos entre estes dois personagens que carregam Reflexões de um Liquidificador.

Com roteiro do estreante José Antônio de Souza em trabalhos para o cinema e direção de André Klotzel (de Memórias Póstumas), o filme conta a história de Elvira (Torre), uma mulher que começa a ouvir seu eletrodoméstico falar pouco tempo antes do seu marido, Onofre (Germano Haiut, de O Ano em que os meus Pais Saíram de Férias), desaparecer sem deixar vestígios. Acompanhamos a rotina de Elvira, suas tentativas de achar o marido junto à polícia, suas conversas com a vizinha assanhada Milena (Fabiula Nascimento, de Estômago) e, claro, seus diários diálogos com seu liquidificador.

Caprichando no humor negro, o roteiro de José Antônio de Souza é hábil em conseguir criar momentos cômicos em situações que, vistas sob a lupa da sanidade, seriam assustadoras e sombrias. Utilizando o liquidificador como narrador da história, o roteirista dá legitimidade ao objeto, o colocando como figura central de toda a trama. No entanto, fica a cargo do espectador acreditar ou não se Elvira realmente conversa com um eletrodoméstico ou está apenas em um delírio contínuo. As ações da personagem demonstram que a segunda opção não pode ser descartada.

Ana Lúcia Torre, em seu primeiro papel como protagonista de um longa-metragem, carrega o filme nas costas, conseguindo criar uma incrível dobradinha com seu eletrodoméstico. As cenas em que os dois dialogam são o ponto alto de Reflexões de um Liquidificador, mesmo que a presença cômica de Aramis Trindade (de Nosso Lar), como um atrevido policial, e a simpática atuação do falecido Marcos Cesana (de Lula – O Filho do Brasil, em seu último papel), como um enxerido carteiro, também tenham suas qualidades.

O liquidificador, defendido pelo competente Selton Mello, tem uma visão quase infantil do mundo que o cerca. Seus diálogos com Elvira sempre possuem perguntas básicas, as quais a mulher responde com enfado, como se estivesse realmente conversando com uma criança curiosa. O ator teve um passado brilhante como dublador e o uso de sua marcante voz no longa-metragem é mais um acerto do diretor André Klotzel. Curiosamente, Ana Lúcia Torre não contracenou com Selton Mello durante as gravações. Os dois nem se encontraram. Nas filmagens, a pedido da atriz, o diretor passava as falas do liquidificador sem nenhuma entonação. Portanto, a ótima química entre os dois atores é totalmente construída na montagem.

Outra acertada escolha foi a quebra da linearidade do roteiro (escrito, segundo José Antônio de Souza, nos anos 70), colocando alguns acontecimentos em flashback. Desta forma, podemos viver um pouco do mistério do que levou Onofre a sumir, mesmo que a história não esconda, em nenhum momento, que Elvira tenha tido um dedo nisso.

Um dos poucos problemas de Reflexões de um Liquidificador é a inclusão de personagens desnecessários. É o caso da vizinha de Elvira, Milene, que aparece e desaparece da história sem nunca influir nos acontecimentos da trama principal. Em uma história paralela e banal, é revelado que Milene tem tara por homens peludos e seu marido, o ciumento Wellington (Eduardo Sofiati, de Garotas do ABC), é totalmente desprovido de pêlos. É, no fim das contas, uma subtrama desnecessária, incluída unicamente para aumentar a pequena metragem do filme.

Apesar disso, Reflexões de um Liquidificador acerta mais do que erra. O filme merece louros ainda pela ótima trilha sonora composta por Mário Manga e por um ótimo trailer, que não conta quase nada da história, conseguindo deixar o espectador instigado em conferir o longa-metragem.

Reflexões de um Liquidificador
Dir.: André Klotzel
Com Ana Lúcia Torre, Aramis Trindade, Fabiula Nascimento, Germano Haiut, Marcos Cesana, Gorete Milagres, Zecarlos Machado e Selton Mello
Cotação Paradoxo: Vale 72% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de Reflexões de um Liquidificador:

Um comentário:

INFETO disse...

"Psiu, Elvira, Elvira, aqui, sou eu... o liquidificador" é assim que começa o extravagante relacionamento entre Elvira (Ana Lúcia Torre) e seu Liquidificador (Voz de Selton Melo), que logicamente pensa que está caduca, mas ao ter que explicar o que é caduquice ao seu novo amigo, descobre que arranjou realmente um diferente e sagaz aliado. Um filme quimérico, como poucos feitos aqui no Brasil, atípico certamente muito diferente das coisas que os telespectadores brasileiros estão acostumados a degustar. Reflexões de um Liquidificador é um filme irreverente e absurdamente surpreendente em tudo que se possa imaginar. Um elenco pequeno, mas que não deixa nada a desejar. Cheguei a imaginar outra pessoa no lugar de Ana Lúcia Torre, talvez Laura Cardoso, mas aos poucos fica claro que não há mudança necessária, essa atriz da um show de interpretação e torna-se insubstituível nesse longa.
Um liquidificador que depois de ter uma de suas peças trocadas, ganha vida e desencadeia a particularidade de ver, ouvir, pensar e refletir sobre o mundo ao seu redor. Passa os dias fazendo vitaminas e sucos dos mais variados tipos e para um grande número de fregueses da lanchonete que seus donos possuem - Dona Elvira e Seu Onofre. Depois do fechamento da lanchonete ele passa a ser um utensílio doméstico e se sentindo cada vez mais solitário resolve se apresentar a sua dona, que por sua vez, leva uma vida de dona de casa num bairro periférico, só tendo contato com seu esposo, que após o fechamento da lanchonete, conseguiu um emprego de vigia noturno, o Carteiro, sua vizinha muito bem interpretada por Fabíula Nascimento e o seu liquidificador. A intensificação da relação entre os dois se dá em torno do desaparecimento de Onofre, o esposo de Elvira, que agora fica em casa o dia todo sozinha com o liquidificar, tendo apenas as visitas da vizinha Milena, do Carteiro e do Investigador que fora designado para cuidar do caso do desaparecimento. Na medida em que a trama vai se desenrolando, não se sente falta de outros personagens, pois os diálogos entre o liquidificador e sua dona são mais que suficientes para manter o telespectador saciado diante da tela e ao ser desvendado o desaparecimento de seu Onofre é revelada a ligação macabra entre Elvira e seu cúmplice eletrodoméstico em uma das cenas mais excitantes, sádica, perversas e excêntricas que o cinema brasileiro certamente até hoje já pôde produzir, a coisa é tão bem feita, mas tão bem feita que o que poderia ser chocante, escandaloso e hediondo, torna-se totalmente agradável, leve, necessária, reveladora e inspiradora.
Reflexões de um Liquidificar traz planos, enquadramento e montagem de cenário perfeitas, humor negro, diálogos contundentes filosóficos de um motor e uma atmosfera cômica sombria sobre toda a situação inusitada, mas em momento alguma faz parecer "absurda ou exorbitante". Como diz o Liquidificar, "ser máquina, ser motor, aliás, não ser gente já é uma forma de ser feliz.", e isso é passado delicadamente aos telespectadores, afinal "moer é pensar, pensar é moer" e certamente esse filme garantirá a certeza de moer muita coisa além de altas gargalhadas.